Denise Fraga fala sobre beleza: “Não quero parecer mais jovem, quero envelhecer bem”

Atriz fala sobre estar se tornando um ícone de beleza aos 57 anos de idade e reflete sobre o próprio processo de amadurecimento
MATEUS PHYNO (@PHYNOCOMPH_)

Denise Fraga (Foto: Reprodução/ Instagram)

Denise Fraga, de 57 anos, é uma das vozes ativas contra o etarismo e os estereótipos associados ao envelhecimento, principalmente da mulher. “Dizer que envelhecer é legal é mentira, esse negócio de chamar de melhor idade é uma hipocrisia, porque, na verdade, você tem muitas falências reais”, conta ela. “Tem uma história que eu adoro, que é da ameixa seca, que não é bom porque você fica sempre uma ameixa seca, mas, em compensação, você está ‘cagando’ para todo mundo”, brinca.

Com mais de 30 anos de carreira e uma extensa obra na TV, no teatro e no cinema, Denise viveu na pele a pressão para atender a certos padrões estéticos, mas diz que não se deixou levar por isso, inclusive quando o assunto é procedimentos estéticos. “Eu me reconheço, eu sou assim, não quero não ter essas linhas, esse bigode chinês. Eu quero ser e eu quero ter a minha idade”, diz ela, acrescentando ainda que as decisões e papéis que teve ao longo dos anos ajudou nesse entendimento. “Faço muitas coisas com humor e sempre me rasguei muito para os trabalhos, fiz sempre personagens de idade diferente da minha. Então, acho que nunca foi uma escravidão para mim, a questão da beleza”.

Hoje, depois dos 50 anos, ela se diverte ao perceber que está se tornando um ícone de beleza, inclusive emprestando seu rosto para marcas do segmento, como a Eucerin, da qual é embaixadora: “Eu falo ‘nossa, que bonito a essa altura da vida, ficaram me chamando de bonita’”, diz ela, aos risos. “Uma das vantagens da maturidade é que essas rugas precisam servir para alguma coisa: a melhor parte de a gente não morrer é entender que a gente passou por vários ciclos e isso vai te dando a famosa maturidade e a famosa serenidade”, reflete.

Denise Fraga (Foto: Lucas Seixas)
Denise Fraga (Foto: Lucas Seixas)

Como você lida com seu próprio processo de envelhecimento?
Assim, dá um susto, na gente, né? A gente leva uns sustos no espelho, numa foto, às vezes um espelho lateral, que você tá conversando com alguém e olha, aí você fala ‘caramba, eu tô assim?’. Porque eu acho que a gente sempre tem uma cara de foto, que faz pro espelho, tem uma cara de proteção. Quando olhamos pro espelho, fazemos uma cara que achamos que é melhor, então, com isso, vai escondendo muita coisa. De repente, o espelho lateral, uma foto, uma revisão de uma cena que você faz, você fala ‘caramba, eu tô assim’! Não é fácil, é difícil mesmo; você vê a sua pele mais flácida… Eu acho que esse é o meu principal ponto, acho que eu não engordei muito durante a vida — e também não tem problema engordar –, mas acontece que você quer estar bem. Então a gente tem crises nesse sentido e seria hipocrisia minha dizer que não. Mas, o que eu tenho sentido aqui vem junto uma coisa muito boa que é a compreensão desse ciclo.

Como assim?
Já fiz tanta coisa na vida, eu não podia estar jovem. Inclusive, a minha tentativa de não fazer… Eu não quero fazer procedimentos mais invasivos, porque eu tenho muito medo de não me reconhecer e de tirar o que eu sinto no meu rosto, que é a minha história. Muitas vezes, o meu rosto do jeito que está não me satisfaz completamente. Eu acho o canto da minha boca mais caído, hoje eu sinto que a minha boca ficou mais triste sem eu ter ficado tão triste quanto a minha boca no decorrer desse desses anos todos (risos). Ao mesmo tempo, eu fico com muito medo de fazer alguma coisa que tire do meu rosto todos esses carimbos que contam tanto de mim, e que me fazem me reconhecer. Eu me reconheço, eu sou assim, não quero não ter essas linhas, esse bigode chinês. Eu quero ser e eu quero ter a minha idade. Não quero parecer mais jovem, mas eu quero envelhecer bem. Tem dias e dias, envelhecer não é fácil para ninguém, mas tem muita coisa bacana que você vai construindo e eu acho que a gente tem que ir nadando contra-corrente, a corrente da lei da gravidade. Então, para isso a gente precisa nadar literalmente, fazer exercício físico, cuidar mais da alimentação, da saúde… Principalmente cuidar da saúde, quando você sente que você está envelhecendo bem, não ficar neurótica, não ficar chata.

Foi sempre assim?
Não, não foi sempre assim, eu acho que teve uma hora da vida… Eu falei uma vez para minha mãe, assim: ‘acho que até 40 anos eu eu ia no flow, eu ia lá boiando na corrente, descendo o rio… (risos) Mas, chega uma hora que você tem que nadar contra o rio, nadar contra a correnteza, porque vai vir uma conta aí. Se você se cuidar, essa conta vai ser mais baixa, se não, vai vir uma conta alta para você pagar, porque não tem jeito, é o processo. Envelhecer com saúde é um propósito que eu tenho, é uma coisa que eu me preocupo. Então, água, alimentação e alegria! Estratégias de alegria, criar momentos, criar encontros. Eu faço uma roda de samba, cantar, dançar… Eu acho que essas coisas fazem bem! Com certeza fazem bem, fazem melhorar a pele, até!

O que você percebe que mudou em você, com o amadurecimento?
É isso que eu estava falando, uma consciência de ciclos, de que as coisas passam, você já viveu várias experiências que você viu passar. Essa coisa “tudo passa”, o que é bom e o que é ruim. Então, você não se desgasta tanto mais com bobagem, você sabe que aquilo faz parte de um ciclo. Essa compreensão de fazer parte de um todo, de uma coisa maior, eu acho que a vida vai te ensinando. A maturidade, portanto, tem vários pedaços de vida, então, se você aproveitar as oportunidades de aprendizado — que nem sempre a gente aproveita… Mas, você ficar lá atenta. Viver atenta. Acho que talvez viver atento seja realmente uma receita. Talvez, ficar mais atento a perceber que você tem as redes da sua vida na mão e que faz parte você virar para lá ou para cá, e que é importante que você esteja atento para modificar o que você quer modificar — e isso exige atenção, exercício, esforço, afeto, vontade. E, com certeza, os sacrifícios que são feitos precisam trazer alegria! Ficar atento se os sacrifícios trazem alegria, porque sacrifício só serve se trouxer alegria, aí ele serve bem. Sacrifício porque é padrão, porque tá todo mundo fazendo, porque eu devo fazer também, porque eu preciso tirar essa gordura daqui da minha coxa… Eu falo ‘não, eu não preciso tirar essa gordura aqui da minha coxa, eu tenho 58 anos, né?’.

Denise Fraga (Foto: Emanuel Lavor)
Denise Fraga (Foto: Emanuel Lavor)

Qual sua relação com beleza?
Eu acho que nunca fui muito vaidosa. Acho que todos somos um pouco, mas eu não sou neurótica com isso, nunca fui. Acho que fiz uma trajetória como atriz que não foquei na beleza, não sou uma beldade clássica — e acho que isso cria uma bigorna para as pessoas que são muito bonitas e que são louvadas por isso. E eu sou comediante, então os comediantes sempre se destroem um pouco! (risos) Faço muitas coisas com humor e sempre me rasguei muito para os trabalhos, fiz sempre personagens de idade diferente da minha. Então, eu acho que nunca foi uma escravidão para mim, a questão da beleza. Estou achando engraçado porque agora eu estou ficando mais velha, está tendo mais essa coisa da beleza da mulher madura para cima de mim. Eu falo ‘nossa, que bonito a essa altura da vida, ficaram me chamando de bonita’. Na verdade, isso nunca foi uma parte que teve muita importância para mim.

Sendo uma pessoa pública, você sente uma pressão maior para atender certos padrões? Isso tem mudado de alguma forma com o passar dos anos?
Sinto que tem, sim, para quem trabalha com a imagem, como as atrizes. Os que tem a imagem pública… Se bem que hoje todo mundo tem a imagem pública no Instagram. Todo mundo tem essa coisa da rede social te crucificando a todo tempo a respeito da imagem. Então, acho que esse assunto até aumentou e deve deixar muita gente pirada por aí, pirada mesmo. A gente tem que ter muito cuidado, porque o padrão é forte, se você vacilar, cai na cilada de exagerar em procedimentos estéticos e ficar o tempo inteiro infeliz porque você não está como gostaria, porque o padrão é muito alto. Eu nunca sofri muito com isso, não, mas entendo que não seja fácil. Acho que a gente tem que ficar o tempo inteiro com muita atenção para não cair nessa e uma vez que você começa… Tenho muito medo dos procedimentos muito invasivos e de fazer procedimentos estéticos, porque eu acho que você vai perdendo o seu rosto original e você fica sem saber qual é a comparação, qual é o ponto de partida. Como modifiquei aqui, eu posso modificar também aqui, então eu acho que aqui também ficou um pouquinho mais baixo, então é melhor… Eu não sei, eu tenho muito medo de não me reconhecer, então eu nunca me rendi muito a essa foice na cabeça a respeito dos procedimentos estéticos. Mas, tem aí um limite que eu caio, sim, que é tentar me manter bem, tentar olhar no espelho com felicidade. Brigo com meu cabelo, brigo com a minha pele, mas vou atrás. Trato, faço os rituais de creme, de cabelo, que são muitas vezes um saco, mas necessários — e cada vez mais necessários na medida que você envelhece.

Me fala um pouco sobre seu monólogo ‘Eu de Você’?
Essa peça é muito especial para mim! É que ela não é só uma peça, ela é um ritual com a plateia. Bom, não é um ritual, não dá nem para falar isso que parece que vai assustar as pessoas, que eu vou chamar as pessoas para um culto, uma missa, mas não. Mas é uma peça muito especial, sinto que ela tem tocado muito as pessoas. Foi uma peça construída em cima de histórias reais que a gente recebeu (recebemos quase 300 histórias e trabalhamos em cima de 25), e a peça é uma trança dessas histórias com poesia, música trechos da literatura… Na verdade, nenhuma história é contada começo, meio e fim, não são esquetes, as histórias são entrelaçadas. Inclusive foi a primeira vez que eu fui para sala de ensaio sem um texto e quando cheguei na sala de ensaio, nós todos criamos ali, eram muitos criadores juntos. Essa peça me fez até ficar com muita fé de novo no coletivo, onde todo mundo dá ideia e você consegue juntar várias forças criativas numa só. Foi um processo muito bonito, foi criado um espetáculo criado por nós na sala de ensaio. E essas histórias acabaram fazendo com que eu contasse também histórias minhas! O que acontece é que, eu acho, as pessoas ficam tocadas pela peça porque ela acaba contando a história de todos nós, não tem quem não se identifique de alguma maneira.

Quais narrativas são essas que você conta?
Quando a gente fez a peça, pensamos ‘o que nos une a todos, nessa hora que estamos com um país cindido, onde nós temos lados, nós criamos a sensação de inimigos’? E tem uma coisa que é comum a todos nós e nesse terreno a gente consegue conversar e falar sobre todas as ideias, inclusive as coisas que precisam ser faladas a respeito de compaixão, de olhar para o grande abismo de diferença social que a gente vive. Tantas questões que a gente precisa abordar e que para tocar as pessoas hoje, acho que a melhor maneira é através das histórias, das vivências, dos fatos. A história vence muito o discurso, porque os discursos estão muito endurecidos e as histórias criam uma empatia. Essa palavra tão gasta… Mas, você só tem empatia quando o outro te empresta a vivência dele, quando ele te dá os detalhes e a noção do que ele viveu. É difícil você ter empatia pelas opiniões, você tem muito mais empatia pelas experiências narradas, pelas narrativas de experiências vividas, então a peça eu acho que é isso.

Denise Fraga na peça 'Eu de Você' (Foto: Cacá Bernardes/Divulgação)
Denise Fraga na peça ‘Eu de Você’ (Foto: Cacá Bernardes/Divulgação)

Alguma nova temporada em vista?
Talvez a gente tenha uma temporada no Rio agora em agosto, que é uma temporada de três semanas no teatro Prudential, a partir da segunda semana de agosto. Temos algumas viagens ainda, Curitiba, interior de São Paulo, Ribeirão, Catanduva… Tem umas cidades marcadas, mas é uma peça que a gente ainda vai rodar muito por aí, se Deus quiser! Acho que no ano que vem a gente vai ter uma outra temporada em São Paulo, porque a gente está apenas recomeçando, porque a pandemia fez a gente abortar em pleno voo, quando a gente estava começando. Mas, é uma peça muito bonita, talvez seja a nossa maior unanimidade, porque eu vi o que aconteceu com todo mundo que viu. É desses espetáculos que a gente pode falar ‘vai que você não vai se arrepender’, sabe? Isso é muito bom.

Além da peça, quais seus planos para esse segundo semestre?
Vou continuar com a peça no segundo semestre e vou lançar um filme,  o 45 do segundo tempo, que é um filme maravilhoso do Luiz Villaça, entra nos cinemas dia 18 de agosto, e que é um trabalho lindo, Tony Ramos, Cássio Gabus Mendes e Ary França fazendo três amigos — eu faço o papel da mulher do Cássio — e é um deslumbramento de filme. É, talvez, a coisa mais linda que eu vi o Tony Ramos fazer, todos eles estão maravilhosos, mas o que o Tony faz nesse filme é uma coisa além da conta. É um filme muito bonito que dá vontade de viver, que fala de amizade. Tem um jornalista que viu que falou uma coisa tão legal, ele saiu [da sessão] e falou assim: “eu saí de lá com um nó na garganta e com muita vontade de ligar para os meus amigos”. O filme de alguma maneira é uma ode à amizade e aos encontros, então eu fico feliz de, nessa hora, a gente tá lançando um filme assim, cheio de vida, cheio de vontade de agregar, de encontrar. É muito bonito.

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