CRÍTICA I 1º ano de Paper Girls compensa sci-fi mediano com ótimo conto de amadurecimento

Com carisma e talento, elenco comanda drama envolvente que aborda choque geracional e mortalidade
NICO GARÓFALO

Produção do Amazon Prime Video é inspirada em HQ de Brian K. Vaughan e Cliff Chiang

Para quem nunca leu o quadrinho multipremiado de Brian K. Vaughan e Cliff ChiangPaper Girls poderia facilmente ser percebida apenas como uma resposta da Amazon ao sucesso de Stranger Things. Afinal, a campanha de divulgação da série optou por focar em elementos em comum entre as duas produções, que colocam crianças carismáticas dos anos 1980 em contato com eventos paranormais além da nossa compreensão. As semelhanças, no entanto, param por aí. Ao invés de focar em uma grande guerra do bem contra o mal que é acidentalmente protagonizada por adolescentes, a adaptação lançada no Prime Video prefere manter a ficção científica como mero pano de fundo para os dramas pré-adolescentes vividos por seu quarteto principal. E, assim como na HQ de 2015, essa escolha se mostra o principal trunfo do programa, que conquista o público já nos seus primeiros minutos.

Resistindo à tentação de se apoiar em nostalgia barata e confrontos épicos, Paper Girls rejeita qualquer resquício de grandiosidade e, embora sua trama conte com dinossauros, robôs gigantes e viagens no tempo, transforma a pré-adolescência em sua principal aventura. Liderada pelas talentosíssimas Riley Lai NeletCamryn JonesFina Strazza e Sofia Rosinsky, a série não foge de temas como primeira menstruação, preconceitos e expectativas irreais para o futuro. Mesmo mortalidade, um tema raro em produções estreladas por crianças, tem um papel importante na trama, aparecendo como uma constante ameaça sobre as protagonistas.

Isso não quer dizer, no entanto, que o programa apele para momentos emotivos ou forçados criados apenas para chocar ou entristecer o público. Há em Paper Girls uma profundidade emocional real que levanta questionamentos importantes sobre destino, individualidade e conflitos geracionais, construídos com um cuidado relativamente raro em séries teen atuais. O desenvolvimento cuidadoso da equipe de roteiristas liderada pelo showrunner Chris Rogers se reflete em um apego quase imediato não apenas a Erin (Nelet), Tiff (Jones), KJ (Strazza) e Mac (Rosinsky), mas também a quase todos os adultos que as cercam. Mesmo que não brilhem tanto como as crianças, Ali Wong e Sekai Abenì encantam como as versões adultas de Erin e Tiff, respectivamente, e vê-las encarando o julgamento de suas contrapartes juvenis é tão empolgante quanto assistir a um confronto entre mechas capazes de abrir um buraco no espaço-tempo.

Carismático, o elenco de Paper Girls sustenta a série mesmo em seus momentos menos criativos. O discurso sobre ordem, linhas temporais e guerras futuristas, por exemplo, é batido e, se não fosse proferido por um hilário, mas extremamente ameaçador Jason Mantzoukas, se tornaria extremamente tedioso. Mesmo que escape de exposições verborrágicas, a série não consegue dar ao seu núcleo de ficção científica uma identidade própria, com um visual genérico que foge da estética colorida criada por Chiang e pelo colorista Matt Wilson no quadrinho original. Por mais que o sci-fi meia-boca não afete o charme da produção, essa falta de criatividade pode afastar fãs do gênero que derem play na série esperando cenários mais grandiosos.

No centro da trama de viagem no tempo está, talvez, o grande problema dessa primeira temporada de Paper Girls: um cientista rebelde chamado Larry (Nate Corddry). Destoando de todo o resto da série, o aliado suspeito das protagonistas é raso, irritante e seu arco paralelo não soma em nada à história principal. Sua única utilidade real para a série é servir como um personagem de moral duvidosa para que o quarteto principal pareça mais heróico por comparação. Presente em todos os (poucos) momentos arrastados, Larry causa mais problemas para Paper Girls do que os vilões de fato causam para o quarteto principal.

Anti-nostalgia

Por mais que parta dos anos 1980, Paper Girls evita a todo custo se deixar definir pela nostalgia. Diferentemente de produções como Stranger Things ou Everything Sucks!, a série da Amazon praticamente ignora qualquer referência a filmes, bandas e moda das épocas que visita, mostrando que nosso saudosismo está mais ligado à noção inocente de invencibilidade e onipotência do que a qualquer produto hollywoodiano que tenhamos consumido na infância.

A anti-nostalgia da produção é reforçada pelo conflito geracional no centro da guerra temporal que carrega a trama. Assim como nos gibis, o confronto entre uma elite conservadora e jovens progressistas serve para argumentar que a saudade dos “bons e velhos tempos” não está necessariamente relacionada a obras de entretenimento ou rotinas mais simples, mas sim à facilidade de oprimir aqueles que ameaçam o status quo.

Ao contrário de produções que possam ser consideradas “concorrentes”, Paper Girls usa as décadas que visita para exemplificar o quanto avançamos social e tecnologicamente, mas deixando claro que a raça humana ainda tem muito a evoluir, mesmo que alguns grupos específicos se neguem a aceitar essa evolução.

Bem escrita e magistralmente atuada, a temporada de estreia de Paper Girls acerta na tradução de muitos dos elementos que transformaram o gibi de Vaughan e Chiang em um clássico moderno. Por mais que peque na parte da ficção científica, a série mostra que é muito mais do que um apanhado de referências oitentistas e que tem muito a dizer a pré-adolescentes, jovens e adultos.

NOTA DO CRÍTICO **** Ótimo

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