Quem é Sarah Maldoror, a primeira cineasta negra a fazer um longa

Com rara combinação entre apuro estético e engajamento político, seus filmes serão exibidos na Mostra Ecofalante
Lúcia Monteiro

Retrato da cineasta francesa Sarah Maldoror
Retrato da cineasta francesa Sarah Maldoror – Reprodução

SÃO PAULO – “Monangambé”, primeiro curta-metragem de Sarah Maldoror, de 1968, conta a história de um preso político que pede à mulher um “fato completo”, prato típico angolano, o que deixa os guardas desconfiados. Seria um complô?

O filme é baseado num conto do angolano Luandino Vieira, militante pela independência de Angola, à época preso no Cabo Verde. Embora retrate a tortura e a violência colonial, o filme é engraçado. Zomba das autoridades portuguesas, que após séculos de colonização ainda desconheciam itens básicos da culinária local.

Montado ao som dos metais dramáticos do Chicago Art Ensemble, grupo de jazz de vanguarda conhecido por usar uma infinidade de instrumentos, “Monangambé” integra a homenagem que a Mostra Ecofalante dedica a Sarah Maldoror, que nasceu em 1929 e morreu em 2020.

Ao retratar a incompreensão dos agentes coloniais diante da cultura que os cercava, o curta acaba funcionando para o espectador de hoje como uma alegoria da incompreensão da cinefilia hegemônica, que conseguiu por tanto tempo ignorar uma figura da envergadura de Maldoror.

Pioneira no cinema de mulheres, no cinema negro e no cinema pelas independências africanas, realizou 46 filmes, entre documentários, ficções, ensaios e reportagens. Filmou na França, em países africanos e na América Latina, dedicada a retratar, numa aliança potente entre apuro estético e engajamento político, as lutas contra a colonização, os pensadores da negritude e a força das artes. Seus filmes foram exibidos em diversos festivais pelo mundo, como Berlim, Cannes, Cartago e Ougadougou, não raro com prêmios.

De origem guadalupense, nascida Sarah Ducados no sul da França em 1929, ela se instala em Paris na década de 1950. Ali frequenta a Présence Africaine, livraria e editora que aglutinava intelectuais e militantes africanos, como o senegalês Léopold Sédar Senghor, o martiniquês Aimé Césaire e o fundador do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) Mário Pinto de Andrade, que se torna seu companheiro.

Ao lado de Toto Bissainthe, Timité Bassari e Ababacar Samb-Makharam, funda a primeira trupe de teatro negro da França, a Les Griots, dando a atores negros a oportunidade de interpretar papeis antes impossíveis.

Adota então o sobrenome Maldoror, homenagem ao poeta Conde de Lautréamont, autor dos “Cantos de Maldoror”. Para uma mulher negra, a escolha era também um gesto político que desafiava tradições coloniais escravocratas.

No início da década de 1960, após uma rápida passagem pela Guiné-Conacri e já com a intenção de levar às telas as lutas pelas independências africanas, ela vai estudar cinema na VGIK, célebre escola fundada em Moscou por Lev Kuleshov.

Na Argélia, independente desde 1962, ela faz estágio com Gillo Pontecorvo nas filmagens de “A Batalha de Argel”, de 1966, e contribui com William Klein no documentário “Festival Pan-Africano de Argel”, de 1969. É em Argel também que ela prepara as filmagens de seu “Fuzis para Banta”, longa de ficção rodado na Guiné-Bissau em 1970, sob bombardeio português.

De volta à capital argelina, a cineasta se desentende com as autoridades locais, que lhe confiscam os rolos, motivo pelo qual o filme nunca chegou a ser publicamente exibido e hoje é considerado perdido. Dasfotografias de cena feitas por Suzanne Lipinska e pelo que já se falou e escreveu a respeito, sabe-se que a narrativa colocava em evidência o papel das mulheres na luta, o que deve ter incomodado líderes argelinos.

Primeiro longa de ficção da realizadora a ganhar as telas, “Sambizanga”, de 1972, chega à Cinemateca Brasileira numa cópia 4K, restaurada pela Cineteca de Bologna e pela Film Foundation. Também baseado na obra de Luandino Vieira, o filme reconstitui os episódios que levaram ao ataque à prisão na periferia de Luanda onde estavam os presos políticos, em fevereiro de 1961, marco na história do MPLA.

Narrada da perspectiva de Maria, papel de Elisa Andrade, e de seu companheiro Domingos, interpretado por Domingos de Oliveira, a história se inicia com lindas cenas de família, em que o casal cuida do filho pequeno, entre uma partida de futebol e a hora de dormir. O colorido de cada cena, a graça da atuação e os olhares carinhosos trazem ao filme uma beleza ímpar, muito longe dos estereótipos tão frequentemente associados aos corpos negros no cinema.

Como curadora, tive a oportunidade de exibir pela primeira vez alguns títulos de Maldoror no Brasil, em sessões emocionantes, entre 2016 e 2018. Após constatar o pioneirismo, o papel histórico e a beleza de seu cinema, é difícil não questionar as razões do tardio reconhecimento, o machismo e o racismo por tanto tempo presentes no cinema.

UMA SOBREMESA PARA CONSTANCE

  • Quando Sáb (6), às 16h
  • Onde Cinemateca Brasileira – lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, região sul, São Paulo
  • Preço Grátis

RETRATO DE UMA MULHER AFRICANA

  • Quando Sáb (6), às 16h
  • Onde Cinemateca Brasileira – lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, região sul, São Paulo
  • Preço Grátis

SAMBIZANGA

  • Quando Dom. (7), às 17h30
  • Onde Cinemateca Brasileira – lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, região sul, São Paulo
  • Preço Grátis

MONANGAMBÉ

  • Quando Dom. (7), às 16h
  • Onde Cinemateca Brasileira – lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, região sul, São Paulo
  • Preço Grátis

AIMÉ CÉSAIRE, A MÁSCARA DAS PALAVRAS

  • Quando Dom. (7), às 16h
  • Onde Cinemateca Brasileira – lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, região sul, São Paulo
  • Preço Grátis

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