Anne Heche: A revelação dos abusos que a atriz sofreu do pai na infância

Estrela de ‘Men in trees’, que está em coma após acidente, contou em livro sobre os estupros; Sua vida pessoal também foi marcada pela perda do pai, do irmão e da irmã

Atriz Anne Heche respira com ajuda de aparelhos e estado é ‘extremamente crítico’, diz agente da atriz –

Araceli Campos estava quieta em casa, na remota comunidade de Cantua Creek, no interior da Califórnia, quando ouviu batidas na entrada. Era sábado, 19 de agosto de 2000, e ela não estava esperando ninguém. Ao abrir a porta, imediatamente reconheceu a atriz Anne Heche, que estrelou o filme “Seis dias e sete noites” (1998) com o astro Harrison Ford. Araceli Franziu a testa ao identificar a celebridade de então 31 anos ali parada em sua varanda, naquele fim de mundo, com olhar distante, sozinha e vestindo apenas sutiã e short. Mas a sequência do episódio se mostrou ainda mais surreal.

Anne entrou, pediu para tomar uma chuveirada e, ao sair do banheiro, sentou-se no sofá, pegou emprestado um par de sandálias e pediu para ver um filme no videocassete. A dona da casa ainda tentava entender o que estava acontecendo, quando se deu conta de que a atriz não pretendia ir embora tão cedo. Ela, então, pediu ajuda à polícia. Quando os agentes chegaram, a artista disse a eles que ela era “Deus” e que levaria todos de volta ao paraíso em uma espaçonave. Ficou claro que Anne precisava de ajuda psiquiátrica.

O episódio virou notícia na imprensa de celebridades. Anne estava em evidência após o término de seu namoro com a apresentadora Ellen Degeneris, dez dias antes. Durante os três anos em que ficaram juntas, elas foram o casal de mulheres “mais proeminente” de Hollywood. Segundo reportagens especulativas, o fim do relacionamento deixara Anne desorientada. Porém, um ano depois, a própria atriz contou a sua versão dos fatos na biografia “Call me crazy” (“Me chame de louca”), lançada em setembro de 2001. As causas da aparente loucura eram muito mais antigas.

Anne Heche com a então namorada, Ellen DeGeneres, em 1998 — Foto: Arquivo/Hector Mata/AFP
Anne Heche com a então namorada, Ellen DeGeneres, em 1998 — Foto: Arquivo/Hector Mata/AFP

Em entrevistas a emissoras de TV americanas para promover o livro, ela vocalizou as revelações da obra. Anne disse que tinha sido louca durante 31 anos e que seus distúrbios mentais eram fruto dos abusos sofridos durante a infância. Segundo a atriz, ela foi sistematicamente estuprada pelo próprio pai e desenvolveu herpes genital quando ainda era uma criança. A artista contou que sua mãe jamais impediu a violência sexual e que ela, Anne, criou um mundo de fantasia no qual se refugiava. Neste universo, Anne se chamava Celestia e se enxergava como uma reencarnação de Deus.

“O livro é sobre o abuso sexual que eu enfrentei quando era criança e sobre como superei esse abuso”, disse Anne Heche em entrevista ao célebre apresentador Larry King, da emissora CNN, em 2001, quando já estava casada com o cinegrafista Coleman Laffoon. “E houve momentos em que eu revelei coisas que não sabia que seria capaz de revelar se não fosse meu marido”.

“”Não sou louca. Mas é uma vida louca. Eu estava numa família louca e levei 31 anos para afastar a loucura de mim”, afirmou ela, na mesma época, em entrevista a Barbara Walters, no canal ABC. “Eu acreditava que era desse outro mundo para onde escapava. Eu achava que era de outro planeta. Acho que eu era maluca”.

Anne Heche em cena da série "Men in Trees" (2008) — Foto: Reprodução
Anne Heche em cena da série “Men in Trees” (2008) — Foto: Reprodução

O pai da atriz morreu quando ela tinha 13 anos, devido a complicações geradas pela Aids, em 1983, quando a doença era muito pouco conhecida. Aquela foi a primeira de outras mortes no seio familiar de Anne Heche. No mesmo ano, o irmão mais velho, Nathan, perdeu a vida ao bater de carro. A atriz acredita que ele conduziu o automóvel deliberadamente contra uma árvore, mas sua mãe, Nancy, garante que foi acidente, como ficou registrado oficialmente. Tempos depois, em 2006, Anne perdeu sua irmã mais velha, a escritora e professora Susan Bergman, vítima de um câncer no cérebro.

Apesar da vida pessoal conturbada e dos reflexos disso em sua saúde mental, a atriz construiu uma carreira relevante no showbiz. Trabalhou com grandes nomes como Demi Moore, em “A jurada” (1996), Al Pacino e Johnny Depp, em “Donnie Brasco” (1997), e o diretor Gus Van Sant, em “Psycho” (1998). Um de seus maiores sucessos no cinema foi “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado” (1997). Mas Anne também teve projeção na TV, tornando-se conhecida das novas gerações graças a papéis em séries como “Men in trees” (2006 a 2008), “Save me” (2013) e “The brave” (2017 a 2018).

Hoje aos 52 anos, a artista está lutando por sua vida em um hospital de Los Angeles. Ela sofreu um grave acidente de carro na última sexta-feira. Anne estava dirigindo quando seu automóvel se chocou contra uma casa no bairro Mar Vista. No momento, a atriz está em coma, intubada e apresenta condição clínica “extremamente crítica”, com lesões no pulmão que exigem ventilação mecânica e queimaduras que demandam intervenção cirúrgica, segundo informou um representante à imprensa americana. Segundo os médicos, uma recuperação vai precisar de bastante tempo.

Anne Heche e Harrison Ford em 'Seis dias e sete noites', em 1998 — Foto: Reprodução
Anne Heche e Harrison Ford em ‘Seis dias e sete noites’, em 1998 — Foto: Reprodução

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