Após icônico ‘Pantera Negra’ de Chadwick Boseman, rei T’Challa pode ser vivido por outro ator?

Recentemente, um movimento na internet chamado #recastTChalla impulsionou a questão
Por Roxane Gay

Chadwick Boseman, o intérprete do Pantera Negra

THE NEW YORK TIMES – LIFE/STYLE – A morte do ator Chadwick Boseman, de câncer em agosto de 2020, foi um choque de tirar o fôlego. Com sua atuação como o Pantera Negra da Marvel, Boseman se tornou uma figura eminente, principalmente para os negros, que raramente se veem retratados como heróis na tela.

Cena do filme 'Pantera Negra', de Ryan Coogler, com Chadwick Boseman.
Cena do filme ‘Pantera Negra’, de Ryan Coogler, com Chadwick Boseman. Foto: Marvel Studios

Como T’Challa, portador do manto do Pantera Negra, Boseman expandiu nossa imaginação cultural. Ele era o rei de Wakanda, uma nação negra não colonizada e o país tecnologicamente mais avançado do mundo. Ele fez parecer que tudo era possível. Um excelente ator desempenhando um excelente papel, Boseman estava tão entrelaçado com sua personalidade de super-herói que muitos proclamaram que ninguém mais poderia assumir o papel de T’Challa – que ninguém deveria.

E, de fato, Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, anunciou em 2020 que, por respeito a Boseman, a Marvel não reformularia o papel. Em Hollywood, no entanto, apenas a propriedade intelectual é verdadeiramente sagrada, e a franquia deve continuar. A Marvel lançará a sequência Pantera Negra II: Wakanda Para Sempre em novembro, com Ryan Coogler retornando como diretor.

O trailer do filme, lançado no mês passado na Comic-Con International em San Diego, é deslumbrante, mas enigmático. Ele se concentra nas personagens femininas que cercaram o Pantera Negra no primeiro filme: sua namorada, Nakia; sua mãe, Ramonda; sua irmã, Shuri; e o guerreiro Okoye, seu guarda-costas. Enquanto isso, T’Challa é representado apenas no que parece ser um mural memorial. Embora a franquia deva continuar, parece improvável que esse amado personagem se aventure nesse futuro, mesmo que o Pantera Negra continue vivo.

Na mitologia do personagem, o rei T’Challa herdou o título de Pantera Negra de uma linhagem de ancestrais, juntamente com poderes derivados de uma erva mágica – então é logicamente possível que isso fosse passado para outra pessoa se T’Challa morresse. No final do trailer, há um vislumbre breve e parcial de uma figura fantasiada de preto – pernas avançando, um braço direito estendido com cinco garras letais – dando aos fãs a impressão de que outra pessoa se tornará o Pantera Negra. (O trailer desencadeou uma enxurrada de especulações na internet sobre quem é esse personagem.)

Após o lançamento do trailer, a hashtag #recastTChalla surgiu nas mídias sociais, com os fãs argumentando que o papel de T’Challa deveria ser interpretado por outro ator, da mesma forma que os super-heróis brancos foram reformulados repetidamente, sejam eles BatmanMulher MaravilhaHomem-Aranha ou Magneto. A perda de Boseman foi uma tragédia, disseram os defensores da reformulação, mas isso deveria significar o fim desse icônico personagem negro, quando o personagem ainda tinha tanta história para contar?

Ryan Coogler, diretor do primeiro filme, também dirigiu a sequência.
Ryan Coogler, diretor do primeiro filme, também dirigiu a sequência. Foto: Bill O’Leary/Washington Post

Uma petição com mais de 60.000 assinaturas pede à Marvel “NÃO use a trágica morte de Chadwick Boseman como um dispositivo de enredo em suas narrativas fictícias” e “que o retrato de T’Challa possa continuar” no Universo Cinematográfico da Marvel. “Se a Marvel Studios remover T’Challa, será às custas do público (especialmente meninos e homens negros) que se viram nele”, argumenta a petição no Change.org.

Isso pode parecer apenas mais uma tentativa de influenciar a narrativa de Hollywood a partir de um fandom cada vez mais exigente, mas há um forte desejo que impulsiona o movimento de reformular o Rei T’Challa – um desejo de manter o que Chadwick Boseman representou. Especialmente entre os fãs negros, há um medo genuíno de que, sem T’Challa, a história do Pantera Negra possa perder seu senso de poder e possibilidade. Eu ouço a dor vibrando sob os chamados para um novo T’Challa. Eu simpatizo com isso.

Fandoms de super-heróis são complicados. Os fãs são apaixonados e também costumam ter opiniões inflexíveis sobre como suas amadas histórias devem ser contadas. (Vi isso em primeira mão quando co-escrevi uma série de quadrinhos ambientada no mundo de Wakanda, com Ta-Nehisi Coates.)

Nos últimos anos, os cineastas têm realizado cada vez mais o que é conhecido como “serviço aos fãs” – fazendo escolhas criativas que reconhecem ou concordam com os desejos dos fãs. Na melhor das hipóteses, o serviço aos fãs é encantador. Permite que os fãs se sintam vistos e ouvidos. Isso permite que eles acreditem que têm uma pequena influência em um enorme esforço criativo. Na pior das hipóteses, o serviço aos fãs pode ser explorador, sexista ou racista. Muitas vezes, ele faz com que um filme ou série pareça não ter um ponto de vista distinto ou visão criativa, que o desespero dos criadores pela aprovação do público superou a boa narrativa ou a ambição criativa.

Não havia escolha que a Marvel e Coogler pudessem fazer que agradasse a todos. Se eles selecionassem um novo ator para o rei T’Challa, muitos pensariam que era cedo demais após a morte de Boseman. Se eles simplesmente fizessem com que ele desaparecesse do filme inventando uma razão para colocá-lo em uma missão em algum lugar, sua ausência teria sido problemática. Matá-lo, como parecem ter feito, irritou alguns.

E, infelizmente, qualquer personagem e ator que assuma o manto do Pantera Negra a seguir sofrerá o peso das dúvidas, decepção e escárnio dos fãs – principalmente se o novo Pantera Negra for, como alguns especularam, uma mulher. O céu proíbe! (Vimos isso várias vezes, mais notavelmente na franquia Star Wars, onde atores negros sofreram um assédio inescrupuloso por contradizer as noções de certos fãs de quem pode ser heróico em nossos futuros interestelares imaginados.)

Por enquanto, os cineastas tomaram a melhor decisão que puderam. Seria profundamente injusto esperar que qualquer ator, por mais talentoso que fosse, assumisse o enorme papel que Boseman deixou para trás. O novo Rei T’Challa competiria para sempre com nossa memória do original. Esperaríamos que o sucessor de alguma forma canalizasse a superioridade e a seriedade de Boseman, para substituir o insubstituível. E quando o ator que interpretar o novo rei inevitavelmente desapontar o público por não ser realmente Boseman, ele se tornaria alvo de intensa ira. Não devemos pedir a ninguém que se coloque nessa linha de fogo.

O movimento #RecastTChalla parece bem intencionado. Mas a questão fundamental não é se um papel em um filme deve ou não ser reformulado; é sobre o que a representação exige. Pantera Negra, em 2018, suportou o peso das expectativas desproporcionais dos fãs, como um super-herói negro inovador liderando um grande filme. Esse é um fardo irracional para colocar em um personagem, em um ator, em um filme. Pessoas negras – homens e meninos mencionados na petição, mas também mulheres e meninas – deveriam ter mais de um super-herói para se divertir e se mirar. Assim como pessoas de outras raças e etnias, culturas e identidades. Não deveríamos pedir à Marvel para colocar um novo ator para viver T’Challa; deveríamos estar pedindo que a lista de heróis fosse expandida. Temos que pensar maior e exigir mais.

Aconteça o que acontecer no próximo filme do Pantera Negra, os defensores do #RecastTChalla podem finalmente realizar seu desejo. Nos últimos anos, a Marvel nos apresentou o multiverso, que permite a coexistência de múltiplas realidades (e extensões infinitas de sua propriedade intelectual). No multiverso, pode haver realidades em que T’Challa esteja vivo, bem e salvando o mundo como Pantera Negra. Ainda podemos ver algumas dessas histórias.

Enquanto isso, nós também podemos ser mais expansivos em nossas imaginações. T’Challa não precisa ser o único herói que admiramos. Por mais gradual que seja, vimos progressos nos últimos anos. O Homem-Aranha através do Aranhaverso da Marvel inclui o adolescente negro e porto-riquenho do Brooklyn Miles Morales como Homem-Aranha; a super-heroína muçulmana Kamala Khan está no Disney+ como Ms. Marvel; o Capitão América passou seu escudo para o Falcão, um herói negro interpretado por Anthony Mackie. Agora temos Shang-Chi e America Chavez, e na DC, Núbia e Cyborg. Fora da Marvel e da DC, uma nova safra de criadores – Ava DuVernay, Mindy Kaling, Michaela Coel e Shonda Rhimes entre eles – está explorando novos e ricos universos e fronteiras do heroísmo humano. Também podemos ver, se procurarmos, que existem heróis caminhando entre nós – pessoas em nossas comunidades que estão fazendo coisas incríveis todos os dias.

Em novembro, provavelmente encontraremos um novo Pantera Negra, que mais uma vez arcará com o fardo irracional da representação. Se tivermos sorte, esse ator também nos divertirá, nos inspirará e acenderá nossa imaginação. Não consigo pensar em uma maneira melhor de homenagear o legado na tela de Chadwick Boseman. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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