‘Influencer de Mentira’ discute as consequências de ser notado na internet

Criada por Quinn Shephard, cineasta americana que estreou aos 20 anos, obra é uma sátira da vida e da morte nas redes sociais
Teté Ribeiro

Cena do filme ‘Influencer de Mentira’, no ar no Star+ – Divulgação

INFLUENCER DE MENTIRA
Onde Disponível no Star+
Classificação 16 anos
Elenco Zoey Deutch, Mia Isaac e Nadia Alexander
Produção EUA, 2022
Direção Quinn Shephard

Antes mesmo de a história começar, entra em cena um aviso. “Este filme tem luzes que piscam, trauma e uma protagonista feminina altamente desagradável.”

Então começa, e a tal protagonista feminina, Danni Sanders, interpretada por Zoey Deutch, está em desespero na frente de uma tela de laptop em que assiste a comentários horríveis sobre como ela é a pior pessoa que existe, memes com conteúdo similar e até uma ameaça de morte de um blogueiro que descobriu seu endereço e incita os internautas a irem até onde ela mora. Danni Sanders está na sarjeta, no fundo do poço.

O título em inglês, “Not Okay”, combina perfeitamente com a abertura e vai ser mais bem explicado ao longo da uma hora e 40 minutos do filme, lançado sem muito alarde no final de julho no canal de streaming Star+.

Em português, o título é um baita spoiler, “Influencer de Mentira”. Uma pena, seria perfeitamente possível adaptar “Not Okay” de maneira que não estragasse um pedaço da trama. “Nada Bem”, por exemplo, não faria mal algum.

Zoey Deutch, a atriz principal, tem 27 anos, mesma idade da roteirista e diretora Quinn Shephard. É conhecida do público há quase dez anos, quando interpretou Emily no longa-metragem “Dezesseis Luas”, com Emma ThompsonViola Davis e Jeremy Irons.

Depois, fez parte do elenco de “Zumbilândia: Atire Duas Vezes”, de 2019, mesmo ano em que estreou como Infinity Jackson na série “The Politician”, da Netflix. Na vida real, Deutch é filha da atriz Lea Thompson, que interpretou Lorraine McFly, a mãe do personagem de Michael J. Fox na franquia “De Volta Para o Futuro”, lançada em 1985.

“Influencer de Mentira” é uma sátira, às vezes muito engraçada, às vezes bem constrangedora e em alguns momentos profunda e dramática. Não vai entrar na lista de dez melhores do ano, mas é um filme relevante. E o que desperta essa importância é a maneira como ele traduz uma angústia comum aos millennials, ou a geração Y, como se classificam os nascidos entre 1981 e 1995 —a angústia de ser notado.

Essa não é uma característica que nasceu com essa geração. Ela sempre existiu. Mas essa molecada chegou à vida adulta com instrumentos inéditos para alcançar a notoriedade. Entre reality shows, canais de YouTube, computadores portáteis e polivalentes e as redes sociais, se não fosse por um problema matemático impossível de resolver, todo mundo poderia ser famoso.

Danni Sanders, a protagonista de “Influencer de Mentira”, não faz nenhuma conta quando resolve acabar com a sua angústia apelando para um artifício que parece, em princípio, inofensivo. Para chamar a atenção dos colegas de trabalho, ser reconhecida como uma escritora de talento e, quem sabe, deixar de lado a sensação de que não faz falta nenhuma, inventa que foi convidada para uma residência para escritores em Paris.

Sem sair do Brooklyn, bairro de Nova York onde mora, ela produz fotos de si mesma, que depois edita em casa para parecer que está em pontos turísticos da capital francesa, e posta no Instagram. Vai ganhando seguidores sem fazer mal a ninguém. Contando uma mentira sem consequências.

Mas, uma manhã, minutos depois de postar uma foto em que aparece na frente do arco do Triunfo, Paris sofre um atentado terrorista que faz o mundo inteiro parar tudo o que está fazendo para prestar atenção à destruição da cidade e aos sobreviventes do ataque. O arco do Triunfo, especificamente, vira uma ruína. E Danni Sanders, uma celebridade.

E como ela gosta disso. Dá entrevistas, é convidada para festas, atrai a atenção do colega cool por quem tem um crush, Colin, papel de Dylan O’Brien, e é convocada por sua chefe, que costumava ter horror de suas ideias de texto, todas absurdamente foras do tom, a escrever um relato em primeira pessoa sobre sua experiência como sobrevivente de um ataque terrorista.

Para escrever alguma coisa que seja sobre o que pensa e sente uma sobrevivente, Danni invade uma reunião daquelas que os americanos têm para todo tipo de problema, como as dos alcoólicos anônimos ou, no caso, para sobreviventes de atos de violência.

No grupo, a única pessoa com idade próxima dela é a adolescente Rowan, interpretada por Mia Isaac, que testemunhou um tiroteio em sua escola que matou dezenas de seus colegas. Rowan é ela mesma uma celebridade da internet e lida com o trauma fazendo uma campanha pelo fim das armas de fogo em que costuma fazer discursos em forma de poemas.

Danni e Rowan ficam muito próximas, e é a nova amiga quem diz a ela que “é okay não estar okay”, título do filme e do relato que ela escreve no site Depravity e que viraliza.

Esse é o caminho até o topo para Danni. Mas o filme começa com ela já desmascarada, transformada na menina malvada da vez, sofrendo o linchamento virtual que, já sabemos, deixa cicatrizes bem reais nas pessoas.

O roteiro e a direção ágeis de Quinn Shephard precisavam de uma atriz que pudesse ser ao mesmo tempo detestável e reconhecível para que essa história tivesse alguma verossimilhança, e Zoey Deutch acerta em cheio. Anote o nome dessas duas artistas. Esse filme, que não é nenhuma obra-prima, tem o enorme mérito de revelar duas estrelas.

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