‘A Última Filha’ retrata experiências de jovem lésbica muçulmana

Estreia de autora franco-argelina mistura gêneros literários e múltiplas identidades em romance de formação envolvente
Stephanie Borges

A autora Fatima Daas, em Paris, onde mora, em foto de 2021
A autora Fatima Daas, em Paris, onde mora, em foto de 2021 – Isabelle Eshraghi/The New York Times

A ÚLTIMA FILHA *****
Preço R$ 58 (194 págs.)
Autor Fatima Daas
Editora Bazar do Tempo
Tradução Cecilia Schuback

A caçula de um casal de imigrantes argelinos muçulmanos que nasceu na França. A estudante que se desloca entre Clichy-sous-Bois e Paris no transporte público ouvindo canções de rap ou leituras do Alcorão em seus fones de ouvido. A jovem que tenta conciliar sua fé no islã e seu amor por mulheres. A garota que prefere usar roupas masculinas pelo conforto e para evitar o assédio.

Essas são algumas características de Fatima Daas, pseudônimo de uma autora franco-argelina que em seu primeiro livro, “A Última Filha”, reflete sobre identidades, pertencimento e a conciliação de aspectos contraditórios da vida.

Com capítulos curtos, frases diretas e parágrafos breves, “A Última Filha” pode ser considerado um romance em versos, como o premiado “Garota, Mulher, Outras”, de Bernardine Evaristo.

No entanto, se a autora britânica recorre a 12 protagonistas para tratar de temas como imigração, relacionamentos, classe e sexualidade, Daas se aventura na autoficção –confundindo as figuras da autora, da protagonista e da narradora– para observar os mesmos assuntos com foco no sentimento de inadequação e na homofobia internalizada que marcam a vida de uma jovem criada no subúrbio parisiense.

Os capítulos de “A Última Filha” são iniciados pela afirmação “Eu me chamo Fatima”, seguida de informações sobre a narradora: “nasci de cesariana”, “tenho duas irmãs”.

O uso do refrão, em sucessivas apresentações da narradora ao leitor, dialoga com citações em voz alta do Alcorão e parece misturar a busca pelo autoconhecimento ao desejo de integração de suas origens argelinas e francesas, sua religião e sua orientação sexual. No entanto, também expõe como a enumeração de dados biográficos é insuficiente para lidar com a complexidade da experiência humana.

A relação da narradora com seu nome, escolhido em homenagem à filha caçula do profeta Maomé, é curiosa. Receber o nome de uma figura simbólica do islã é uma responsabilidade que deve ser honrada no meio da fé, da obediência e de boas condutas.

A narradora duvida de sua capacidade de “carregá-lo bem”, e Fatima significa “pequena camela desmamada”, o que coincide com sua sensação de desamparo e frustração diante da vida. Em entrevista ao jornal The New York Times, a autora disse que a escolha por um pseudônimo foi para preservar sua família, mas também uma forma de experimentar com a criação da personagem.

Vários episódios do romance parecem ter origens em experiências pessoais, como as reuniões de família nas férias na Argélia, as conversas com uma amiga sobre relacionamentos e os desencontros amorosos. No entanto, o modo como autora estrutura a narrativa demonstra o cuidado em aliar forma e conteúdo. Daas cita as escritoras Annie Ernaux e Marguerite Duras entre suas influências em “A Última Filha”.

A cronologia não linear do romance faz com que o leitor observe diferentes versões de Fatima. A adolescente que se revolta contra machismo do pai. A criança asmática que precisa aprender a controlar a respiração e a cuidar de si mesma. A adulta que procura a psicanálise e a orientação do sacerdote na mesquita. O acúmulo desses fragmentos revela as mudanças nas ideias e nas atitudes da protagonista, tratando o amadurecimento como um processo que se dá em saltos, sem relações simples de causa e efeito.

Diferentemente de narrativas com protagonistas LGBTQIA+ centradas na descoberta da sexualidade, no primeiro amor ou na “saída do armário”, o livro coloca essas questões em meio a outros conflitos, como o relacionamento mãe e filha, as inseguranças em relação ao futuro e a autoaceitação.

“A Última Filha” é um romance de formação envolvente por mostrar com sensibilidade as várias diferenças e semelhanças na experiência de jovens contemporâneas para além de definições de classe, religião e gênero.

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