‘Não! Não Olhe!’, de Jordan Peele, abraça as delícias do cinema B

Coisas caem do céu em trama de monstros que se passa num rancho onde cavalos são treinados para atuar em filmes
Sérgio Alpendre

Daniel Kaluuya, Keke Palmer

NÃO! NÃO OLHE! *****
Classificação 12 anos
Elenco Daniel Kaluuya, Keke Palmer e Brandon Perea
Produção EUA, Japão, 2022
Direção Jordan Peele

No cinema de Jordan Peele, o engajamento sociopolítico e a busca por um estilo andam lado a lado. Pode pender para o primeiro, como em “Corra”, sufocando o que o filme tinha de melhor, ou para o segundo, como em “Nós”, nublando um pouco a questão política pelo mergulho no gênero. Mas algum dia sentíamos que ele iria encontrar o equilíbrio entre um e outro.

Esse dia chegou e está cristalizado em “Não! Não Olhe!”. Não é um filme claramente superior aos anteriores. Falta a fúria inconformista de “Corra” e o maneirismo empolgante de “Nós”. Em compensação, sobram a coragem de abraçar as delícias do velho e bom cinema B, no caso, um filme de monstro, e a aptidão para criar uma narrativa verdadeiramente inclusiva.

Daniel Kaluuya, carismático protagonista de “Corra”, interpreta OJ Haywood, que se apresenta como descendente do jóquei que estrelava um dos primeiros experimentos com imagens em movimento —realizado por Eadweard Muybridge antes do que se entende pela invenção do cinema com os irmãos Lumière.

Uma vez que não se sabe se os jóqueis captados por Muybridge eram mesmo C. Martin e G. Domm, Peele toma a liberdade de fabular que um deles era Haywood, ancestral dos protagonistas de “Não! Não Olhe!”. Ao fazer isso, ele especula, inventa, faz cinema.

Haywood herdou do pai, morto por um misterioso acidente no início, um pequeno rancho onde se treinam cavalos para atuação em filmes. Sua irmã Emerald, vivida por Keke Palmer, o ajuda nessa tarefa. Ambos começam a testemunhar eventos estranhos, similares ao que causou a morte do pai meses antes —coisas das mais diversas caem do céu.

Ao redor deles está Jupe, vivido por Steven Yeun, antigo astro mirim coreano que testemunhou um violento e inexplicável massacre cometido por um chimpanzé alucinado —durante a gravação de uma sitcom— e agora comanda uma atração meio picareta para caubóis de mentira.

Aparece em cena também o vendedor intrusivo de traquitanas tecnológicas Angel Torres, vivido por Brandon Perea. E o cineasta Antlers Holst, interpretado por um inspirado Michael Wincott. Estes dois ficarão encarregados de registrar em vídeos e filmes os eventos que eles testemunharem.

Estamos no terreno dos simulacros. A começar pela invenção de Muybridge —imagens estáticas que dão a ilusão de movimento. É o princípio básico do cinema, ou seja, uma mentira.

Mas, no experimento de Muybridge, como destaca Peele, ninguém quer saber do homem que está em cima do cavalo —outro negro esquecido pela história, que agora encontra um nome, tão fictício, provavelmente, quanto os nomes conhecidos anteriormente.

Jupe comanda um show do velho oeste, na linha do Bronco Billy de Clint Eastwood, construído para divertir crianças de todas as idades. Ele é escudado por filhos que se apresentam com roupas e máscaras de alienígenas. Antes, Jupe era o ator asiático escalado para representar o lado politicamente correto na televisão.

O monstro parece uma pipa estilizada de papel crepom. As cenas no estúdio de filmagem lembram as de “Era Uma Vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino. O filme tem aquele charme do baixo orçamento, mas é feito para Imax. Brinca de divertimento de horror, mas esconde em suas entrelinhas a crítica social e a inquietação da cada vez mais necessária luta antirracismo.

Peele é antes de tudo um diretor cinéfilo. Gosta de John Carpenter, M.Night Shyamalan e Steven Spielberg, e essas referências são evidentes. Há algo também de “O Nevoeiro”, que Frank Darabont realizou em 2008 com o mesmo espírito de filme B.

A agenda de esquerda é contemplada pelo caráter inclusivo do filme —protagonista negro, ator e empresário asiático, irmã lésbica, destaque a negros invisibilizados na história. Os códigos do gênero não são só respeitados, mas reiterados, trabalhados com um talento que nos filmes anteriores parecia em gestação.

“Não! Não Olhe!” comprova que no cinema contemporâneo ainda é possível ser político e cinematograficamente forte ao mesmo tempo.

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