Seu chefe chora, mas é você que está sendo demitido

Executivos estão correndo para que os funcionários saibam que não são apenas ternos vazios
Emma Goldberg

Braden Wallake, CEO da empresa Hyper Social, viralizou após publicar foto chorando por demitir funcionários
Braden Wallake, CEO da empresa Hyper Social, viralizou após publicar foto chorando por demitir funcionários – Reprodução

NOVA YORK | THE NEW YORK TIMES – Se você tivesse dito a Ryan Caldbeck, no primeiro emprego dele, que um dia estaria chorando para uma sala cheia de seus funcionários, ele poderia simplesmente ter dito –com a arrogância característica de qualquer batalhador corporativo– que você estava enganado.

Mas em algum lugar entre mercados tumultuados e os discursos nacionais indecisos sobre saúde mental, a perspectiva de Caldbeck mudou. Em 2016, ele demitiu cerca de 15% de sua equipe de 45 pessoas na empresa de tecnologia financeira CircleUp e caiu em prantos. Agora, segundo disse, compartilha mais abertamente seus sentimentos com os colegas. Às vezes ele também tem dificuldade para encontrar a linha entre a contenção executiva e o compartilhamento excessivo.

“Houve uma época em que fui trabalhar e, numa reunião, estávamos andando pela sala dizendo como foi o fim de semana, e eu falei: ‘Ah, eu tive uma briga difícil com minha mulher'”, disse Caldbeck, 43, que já foi CEO da CircleUp. “Todo mundo ficou de boca aberta. Percebi que fui longe demais. Isso não era apropriado. Não é assim que se mostra vulnerabilidade no trabalho.”

Os CEOs estudam há muito tempo como dar boas e más notícias. Eles se treinaram para apresentar grandes ideias e derrubar as medíocres. Agora têm uma nova habilidade para aprender: a arte de ser vulnerável.

inteligência emocional chegou ao topo das listas dos manuais de gestão mais vendidos, como “Dare to Lead” [Ouse para liderar], (ed. Random House, a partir de R$ 54,69 ebook), de Brené Brown, cujos livros sobre vulnerabilidade venderam bem mais de 1 milhão de exemplares. Na Escola de Administração de Empresas de Stanford, a disciplina eletiva mais popular, durante anos, foi Dinâmica Interpessoal, comumente chamada de “Touchy Feely” [algo como “sensível e delicado”].

“As pessoas nas empresas são socializadas para deixar seus sentimentos no estacionamento”, disse Carole Robin, coautora de “Connect” (ed. Currency, a partir de R$ 51,53 ebook), que costumava ensinar “Touchy Feely”. “Hoje há uma geração de líderes –que podem ser realmente os líderes promissores do futuro– que descobriram que na verdade é quase impossível inspirar as pessoas se não houver sentimentos.”

Assim, à medida que as empresas passam por um momento econômico desafiador, os executivos se esforçam para que seus funcionários saibam que não são apenas ternos vazios. São humanos, com emoções, que eles compartilham no Twitter, em livros de memórias e em reuniões de trabalho. Mas seus funcionários nem sempre se beneficiam dos resultados de toda essa abertura. E, em alguns casos, sentem-se pressionados a responder a seus chefes abrindo mão de sua privacidade.

“O excesso de informação pode levar a mais vulnerabilidade do que você deseja”, disse Robin, que observou a diferença entre vulnerabilidade apropriada e inadequada no local de trabalho.

Braden Wallake recentemente demitiu dois de seus 17 funcionários na HyperSocial, empresa de vendas e marketing que ele dirige. Depois foi ao LinkedIn para postar seus pensamentos. “Esta será a coisa mais vulnerável que vou compartilhar na vida”, escreveu.

Wallake, 32, sempre tendeu para a vulnerabilidade, uma abordagem da liderança que ele atribui ao podcaster Joe Rogan. O executivo organiza uma “chamada de vitórias” semanal, em que os funcionários falam sobre sucessos em suas vidas profissionais e pessoais. Ele viajou pelo país estacionando sua van nas calçadas de alguns de seus funcionários (incluindo a casa de um dos que acabara de demitir). Quando ele começou a chorar, momentos depois de demitir dois trabalhadores, não pensou em esconder essa reação emocional. Tirou uma selfie chorosa para o LinkedIn.

“Só quero que as pessoas vejam que nem todo CEO é insensível”, escreveu Wallake. “Sei que não é profissional dizer aos meus funcionários que os amo. Mas, do fundo do meu coração, espero que eles saibam disso.”

A reação foi rápida. A postagem gerou mais de 10 mil comentários, muitos notando que Wallake enfatizou sua própria dor num momento em que seus funcionários estavam sofrendo.

“Essa vulnerabilidade de ‘vocês não sabem como é difícil para mim demiti-los’ é algo que as pessoas podem parar de fazer, por favor”, disse Edward Sullivan (ed. Harper Business, a partir de US$ 22,18 ebook), coach de executivos e coautor de “Leading With Heart” [Liderando com coração].

Os executivos estão correndo para que os funcionários saibam que não são apenas ternos vazios. Eles são humanos, com emoções, que agora estão compartilhando de forma mais ampla – Jim Stoten/NYT

Nancy Rothbard, professora da Escola Wharton na Universidade da Pensilvânia, que estudou as emoções no local de trabalho, disse que sua pesquisa aponta uma expectativa cada vez maior de que as pessoas levem seu “eu completo” para o trabalho, motivada por tecnologias que apagam as divisões entre trabalho e vida. Pesquisas indicam que as pessoas tendem a preferir segmentar sua vida profissional e pessoal, em vez de integrá-las. Mas muitas vezes elas não sentem que têm essa opção.

Julie Brosnan, que trabalha com comunicação em Washington, lembrou-se de se preparar para reuniões matinais com seu chefe em um emprego anterior, quando abordavam tópicos como: “O que você fez ontem à noite? O que você fez no último final de semana?”. Em seguida, o chefe falava sobre suas brigas familiares, seu marido e seu caso.

Os gerentes de Brosnan se referiam à equipe como “família”. O negócio de um trabalhador era o negócio de todos. Brosnan estava constantemente respondendo a perguntas sobre seus filhos, vida familiar e como ela passava seu tempo de folga remunerado.

“Se eu estivesse em folga, todos viriam até mim e diriam: ‘Onde você estava na sexta-feira?'”, lembrou ela. “Se eu dissesse ‘Vou ao dentista’, eles diriam ‘O que você fez no dentista?’ Tipo, eu não sei!”

É um equilíbrio delicado. Muitos executivos estão aliviados porque as empresas que dirigem não têm os ambientes sufocantes aos quais se acostumaram ao iniciar suas carreiras.

Andy Dunn, por exemplo, cofundador da empresa de vestuário Bonobos e administradora da Pumpkin Pie, uma startup de aplicativos sociais, recentemente reuniu seus funcionários em uma videochamada para contar a eles sobre seu diagnóstico de transtorno bipolar, que é o assunto de um livro que ele escreveu. lançado este ano.

“Uma vez que eu comecei a falar, eu meio que compartilhei demais”, disse ele. Ele desligou e imediatamente enviou uma mensagem do Slack para seu diretor de tecnologia perguntando se a conversa havia sido um “desastre”.

Ainda assim, Dunn descobriu que sua própria vulnerabilidade provocava revelações emocionais de seus funcionários. Uma pessoa disse a ele que estava se sentindo solitária em seu atual estágio de vida.

“Ela estaria me contando essas coisas em uma época diferente? Não sei”, disse Dunn, acrescentando que sente que sua equipe se beneficia dessa abertura.

O CEO do aplicativo de namoro Hinge, Justin McLeod, lembrou o alívio que sentiu ao ser completamente direto com sua equipe quando a empresa estava reavaliando seu modelo de negócios em 2016, enfrentando forte concorrência do Tinder. McLeod demitiu metade de sua equipe, então ele sabia que não poderia proteger o resto de enfrentar a turbulência.

“Você pode adoçar o quanto quiser, mas isso faz com que as pessoas se sintam menos confiantes na liderança”, disse ele.

tumulto econômico dos Estados Unidos apresentou um novo conjunto de desafios emocionais para os líderes empresariais. Ariane Goldman, fundadora da startup Hatch, que vende roupas para maternidade, tentou encontrar um equilíbrio entre proteger sua equipe de suas próprias ansiedades e ser sincera sobre as dificuldades do mercado.

“É realmente uma coisa positiva para sua equipe entender de onde você está vindo”, disse ela. “Sou uma CEO fundadora, não apenas uma arma corporativa alugada, então levo essa bagagem para a mesa comigo.”

Com o mercado de trabalho forte, algumas pessoas estão percebendo que podem buscar ambientes de trabalho que as façam se sentir mais confortáveis e deixar para trás os chefes que ultrapassam fronteiras.
Brosnan, por exemplo, agora tem um grupo de bate-papo com amigos que desabafam suas frustrações sobre limites no local de trabalho. Alguns acham que seus colegas pedem que revelem demais; outros se sentem muito distantes dos colegas de equipe, em especial quando interagem com eles frequentemente por videochamadas. Agora Brosnan, que começou há pouco em um novo emprego, afinal encontrou uma posição ideal.

“Não há expectativa de que eu deva mostrar fotos do meu filho ou comentar por que estou de licença”, disse ela. “Nós não forçamos, mas estamos abertos e receptivos a ouvir sobre isso se você estiver passando por um momento difícil.”

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