Apenas três em cada dez brasileiras se dizem feministas, mas apoio a pautas de gênero é maior

Pesquisa do Ideia encomendada pelo Instituto Update mostra que maioria é favorável à equiparação salarial e combate à violência de gênero
Por Bianca Gomes — São Paulo

Vale repetir o que está escrito no cartaz. Feminismo é a ideia radical de que mulher é gente – Foto: Carolina Silveira

Apesar de a maioria esmagadora das brasileiras defenderem a ampliação dos direitos das mulheres no país, apenas três em cada dez se consideram feministas, segundo pesquisa do Ideia encomendada pelo Instituto Update e obtida com exclusividade pelo GLOBO.

O levantamento, feito no dia 7 de março deste ano com 1.269 pessoas, revela que a maioria das mulheres está comprimida entre dois extremos: enquanto 30% das entrevistadas se declaram feministas, 34% se colocam como não feministas. As demais não souberam responder. O percentual de brasileiras feministas aumenta para 36% entre as mulheres nordestinas e as que têm entre 18 e 34 anos.

A pesquisa, apresentada no livro “Feminismo em disputa: um estudo sobre imaginário político das mulheres brasileiras”, escrito por Beatriz Della Costa, Camila Rocha e Esther Solano e ao qual O GLOBO teve acesso, mostra que há predominância de ideias e agendas pró-mulher, muito embora sem identificação clara como pauta feminista.

O combate à violência de gênero, por exemplo, é apoiado por 92% das entrevistadas. Já 83% são favoráveis à equiparação salarial. Outras 77% apoiam uma maior participação feminina na política e 70% votariam em uma mulher negra para presidente.

Associação ao radicalismo

Segundo Beatriz Della Costa, cientista social e codiretora do Instituto Update, por um lado é possível constatar que o movimento pelos direitos das mulheres está ganhando mais espaço no Brasil. E o apoio à participação feminina na política também. No entanto, há uma distorção sobre o que é, de fato, ser feminista, o que explica só 30% aceitarem essa definição.

— O feminismo tem ganhado aderência entre as mulheres brasileiras, principalmente por ser possível experimentar os benefícios da luta por mais direitos em suas vidas pessoais. No entanto, ainda assim, associar-se como feminista não é um caminho tão natural — afirma a cientista social, que ainda acrescenta. — São 37% as mulheres que consideram as feminista radicais e contra algo, ou seja, não a favor de mais direitos. O que vemos é uma separação perigosa entre o sujeito (feministas) e a ação (feminismo), dando espaço para a cooptação do movimento por grupos antimulheres. O desafio reside em romper com esse imaginário e aproximá-las da ideia de que ser feminista é fundamental para alcançar mais direitos.

A associação do feminismo ao radicalismo fica ainda mais evidente na pesquisa qualitativa também divulgada no livro. As pesquisadoras Camila Rocha e Esther Solano entrevistaram mulheres que ainda não decidiram seu candidato à Presidência este ano e mulheres que votaram no presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018 e se arrependeram.

Quando confrontadas com a pergunta “você se considera feminina?”, a maioria delas procurava ressaltar o distanciamento de radicalismos. Frases como “feministas, sim, mas ativistas, não” eram comuns.

— Imagens chocantes relacionadas às Marchas das Vadia reforçaram estereótipos de feministas como mulheres que odeiam homens e que não sabem dialogar pois seriam radicalizadas, intolerantes e agressivas. A ideia de que esse tipo de protesto atrapalhava a legitimidade das mulheres no espaço público era muito comum. Muitas entrevistadas, sobretudo as que possuíam mais de 30 anos, apesar de defenderem a luta por mais direitos para mulheres, queriam se afastar de tais rótulos, daí o receio em se afirmar feminista — afirma Camila, que é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).

Embora façam suas considerações sobre o uso do termo feminista, todas as entrevistadas afirmam almejar o “empoderamento”. Elas defendem que as mulheres tenham a sua própria renda e sejam independentes de parceiros e familiares. Também admitem que o machismo é prejudicial às suas vidas e consideram importantes políticas públicas para conciliar trabalho fora de casa e cuidado com a família.

No entanto, a pesquisa mostrou que a maior parte dessas mulheres não associa a conquista de direitos com a atuação do movimento feminista. E muito menos com a maior participação de mulheres nos parlamentos.

— Um dos gargalos está na comunicação. As mulheres não associam que os direitos que possuem hoje são consequência da luta e atuação das mulheres na política. Essa desconexão gera distorções: mulheres desejam votar em mulheres, mas na hora do voto, votam em homens. É preciso ser pragmática e demonstrar sistematicamente que os direitos que gozamos não caiu no nosso colo, quanto mais mulheres pro direitos no poder, mais direitos— disse Beatriz.

Falta referência

O levantamento deixa claro que as mulheres querem mais representantes femininas nos Executivos e Legislativos do país. A reserva de 50% das vagas nas eleições para candidatas é exemplo disso: 64% são favoráveis à medida.

Mas o clamor não se traduz em votos e, segundo as entrevistadas, o gênero não é uma prioridade na hora de escolher um candidato, e sim suas propostas. Há, ainda, quem argumente desconhecer as mulheres que estão disputando as eleições, reflexo da sub-representatividade feminina política.

Na pesquisa, várias entrevistadas tiveram dificuldades de citar exemplos de políticas. O nome de Michelle Obama, esposa do ex-presidente norte-americano Barack Obama, foi o mais citado.

— As entrevistadas tinham dificuldade em se lembrar de nomes de mulheres que fazem política no Brasil, ou de associar o nome à pessoa, o que é bastante significativo da falta de representatividade das brasileiras nas instituições. Além disso, várias mencionaram o impeachment sofrido por Dilma Rousseff e o assassinato de Marielle Franco como “avisos” sobre o destino de uma mulher que faz política no país, e fizeram muitas críticas aos partidos que lançam candidaturas fictícias para cumprir as cotas e não destinam verbas para candidaturas de mulheres — disse Camila.

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