Lars von Trier dá final à série ‘Riget’ no Festival de Veneza, com sátiras ousadas e cruéis

Terceira e última temporada de série dos anos 1990 mostra mais bizarrices em hospital sobrenatural na Dinamarca
Bruno Ghetti

Cena da série ‘Riget Exodus’, que Lars von Trier exibe no Festival de Veneza – Henrik Ohsten/Divulgaçã

VENEZA – Fora da competição, um cineasta de grande prestígio teve seu novo trabalho exibido no Festival de Veneza nesta quinta-feira (1º). O dinamarquês Lars von Trier, que não foi presencialmente ao Lido por ter recebido um diagnóstico de doença de Parkinson, retoma neste ano uma série que lançou na TV na década de 1990 –“Riget”, ou “O Reino”, que teve a primeira temporada em 1992, e a segunda, em 1997. O festival exibe agora a terceira e última, “Riget Exodus”.

Os episódios dos anos 1990 eram uma maluquice completa, muito ancorados em termos de inspiração na então recente série “Twin Peaks”, de 1990, de David Lynch-o próprio Trier reconheceu, na época, que havia bebido em fonte lynchiana.

“Riget” se passava em um hospital em Copenhague, na Dinamarca, construído sobre um terreno carregado de energias maléficas -a trama começava quando uma velhinha hipocondríaca fazia contato espiritual com uma garota que havia sofrido terríveis violências no passado.

Ao mesmo tempo, víamos um renomado neurocirurgião sueco que chegava ao centro médico, onde teria toda sorte de dissabores, sobretudo por diferenças culturais com os dinamarqueses.

A terceira temporada é basicamente a mesma coisa, apenas com novos personagens tomando o papel dos antigos. Desta vez, outra senhorinha vai parar no hospital, guiada pela própria capacidade sensitiva e pela curiosidade de conhecer o prédio -logo no começo, ela vê em DVD o fim da segunda temporada do próprio “Riget” e fica revoltada com o “não final” que Trier deu à trama.

E o filho do médico sueco da primeira e da segunda temporada repete o mesmo comportamento do pai, com gags semelhantes, em que Trier expõe as difíceis relações entre as culturas dos habitantes da Dinamarca e da Suécia.

A primeira temporada explorava sobretudo o lado sombrio e sobrenatural do hospital, enquanto a segunda já era uma indisfarçável comédia sobre as extravagâncias ficcionais desenvolvidas na anterior. Era Trier se autoironizando (e se divertindo a valer), mostrando que sempre é possível ir além do que se imagina quando se pensa em liberdade na criação de uma história.

A terceira segue exatamente a mesma linha. Ao menos os dois primeiros episódios são delirantemente livres, sem ceder à lógica, à verossimilhança ou sequer ao politicamente correto -aliás, Trier é um dos poucos grandes cineastas que se arrisca a satirizá-lo em suas obras sem medo de represálias.

Se nas duas primeiras temporadas um garoto e uma garota com síndrome de Down eram usados como elemento para causar estranheza ao comentar a trama enquanto lavavam louça, desta vez o papel cabe a um anão e a uma robô de fala infantilizada -mais uma vez, em uma cozinha industrial, se ocupando de pratos sujos.

Que tipo de mente é capaz de ter ideias como essas? Somente a do homem que inclui na sua trama um grupo de apoio emocional aos suecos na Dinamarca, em estilo Alcoólicos Anônimos -um dos participantes chora diante dos demais ao reconhecer o trauma que foi saber que os dinamarqueses foram capazes de construir uma ponte sólida ligando os dois países.

A obra de Trier continua a reiterar o lado mais obscuro, cruel de cada ser humano, por mais “bonzinho” que pareça. Podem dizer o que for sobre o cineasta, criticando desde sua estética ao seu duvidoso caráter pessoal. Mas, enquanto criador, parece inegável -continua um dos maiores artistas do audiovisual.

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