Elizabeth 2ª se tornou ícone pop, mas filmes e séries inventaram sua vida privada

Intimidade reservada fez com que muito do que se vê em obras sobre rainha seja fantasioso
Paula Leite

A atriz Olivia Colman no papel da rainha Elizabeth 2ª em cena da quarta temporada de "The Crown"
A atriz Olivia Colman no papel da rainha Elizabeth 2ª em cena da quarta temporada de “The Crown” – Ollie Upton/Netflix/Divulgação

SÃO PAULO – Da Lilibet criança em “O Discurso do Rei” à ex-sogra insensível de “A Rainha”, Elizabeth 2ª, morta nesta quinta-feira (8), aos 96 anos, foi retratada em filmes e séries inúmeras vezes ao longo de sua vida.

Seu longuíssimo reinado fez com que ela testemunhasse desde a era do rádio, passando pela popularização do cinema e da televisão, chegando por fim aos celulares e ao streaming.

própria rainha pode ter ajudado a catapultar sua figura ao mundo da cultura pop ao fazer o primeiro discurso televisionado de um monarca do Reino Unido, há mais de 60 anos, no Natal de 1957. Desde então, ela fala à nação todo final de ano, uma presença constante e familiar atravessando guerras.

A cobertura incessante dos tabloides ingleses sobre as polêmicas de sua família ajudou a potencializar o interesse dos britânicos e do mundo pela vida privada dos moradores do Palácio de Buckingham e adjacências, culminando na celebridade planetária da princesa Diana nos anos 1980 e 1990, de seus filhos, William e Harry, e respectivas esposas, Kate e Meghan, nos anos 2000 e 2010.

A geração real mais recente parece ter entendido que, num mundo hiperconectado, sua privacidade não poderia mais ser ferozmente guardada e teria de ser cuidadosamente gerenciada, à moda dos influencers.

Assim, os núcleos de William e Harry oferecem a seus seguidores imagens e vídeos dos principais eventos de suas vidas —noivado, casamento, nascimento dos filhos, primeiro dia da escola das crianças— e dão entrevistas em que falam de assuntos como saúde mental. A estratégia, assim como para as celebridades em geral, resulta em menos poder dos paparazzi e uma imagem mais humana e próxima.

Mas Elizabeth nasceu em 1926. Em seus discursos, sempre destacou que seu dever é servir à nação, mas não parece jamais ter pensado que isso incluísse revelar qualquer aspecto da sua intimidade.

Nos EUA, a família real britânica foi vista durante muito tempo apenas como uma gente esquisita e formal que toma chá e gosta de cavalos, aparecendo de vez em quando em esquetes humorísticos grosseiros. Mas nas últimas décadas Hollywood viu um filão mais sério a ser explorado na vida de Elizabeth.

Com a rainha ainda viva, porém, surgia um problema: poucos a conheciam intimamente; e, entre os que estão nessa posição, quase ninguém está autorizado ou disposto a falar. O resultado disso é que muito do que se vê nos filmes e nas séries que retratam passagens da vida da rainha é fantasioso.

Ainda que os fatos históricos sejam respeitados —Elizabeth de fato esteve no lugar tal em certa data etc.—, os diálogos entre a soberana, seu marido e seus filhos, com Winston Churchill e outros premiês são, na melhor das hipóteses, reconstruídos a partir de relatos em terceira mão, se não 100% inventados.

Assim, a Elizabeth das telas é uma espécie de esfinge, mais ou menos dura e formal a depender do roteiro e do diretor. Em “A Rainha”, ela demora demais a perceber a proporção que a adoração a Diana iria adquirir com a morte da (ex-)princesa. Já em “The Crown”, série da Netflix, a rainha é mais nuançada; responsável por algumas modernizações no papel da família real, ela é capaz de alguma emoção e amizade, ainda que seja puxada por alguns membros da família para o passado e instada a manter tradições ultrapassadas.

As quatro temporadas da série foram, com alguns pulos no tempo, da coroação de Elizabeth à chegada da futura princesa Diana à família, explorando no caminho o casamento da rainha, a relação com Churchill e suas reações a eventos históricos. Por vezes tomando grandes liberdades artísticas, o seriado gerou todo um segmento de apurações jornalísticas para checar o que é e o que não é verdade nos episódios.

Não se tem notícia de que ela tenha opinado sobre as obras baseadas em sua vida, para aprová-las ou reprová-las nem para corrigir eventuais erros factuais. A exceção é “O Discurso do Rei” —filme no qual o personagem principal é seu pai, George 6º—, que, de acordo com relatos, teria emocionado a monarca.

Há indícios, no entanto, de que ela tinha algum senso de humor. Em uma espécie de meme dela mesma, apareceu em um filmete dirigido por Danny Boyle exibido na abertura das Olimpíadas de Londres, em 2012, com Daniel Craig no papel do agente secreto James Bond, no qual ele pula de paraquedas.

Os fofos cachorros corgis da rainha também aparecem no vídeo das Olimpíadas, assim como em outros filmes e séries sobre Elizabeth 2ª. A fama da rainha mais pop da história é tamanha que se estendeu até aos bichinhos: eles ganharam seu próprio filme de animação, “Corgi: Top Dog”, em 2019.

Na música, a rainha anda um pouco esquecida nas últimas décadas, mas duas das bandas inglesas mais influentes da história fizeram canções sobre ela. Em “God Save the Queen”, dos Sex Pistols, é chamada de fascista; e Johnny Rotten canta, sobre guitarras distorcidas, que ela não é um ser humano.

Já os Beatles (ou, mais especificamente, Paul McCartney) gravaram a minimúsica “Her Majesty”, escondida no final do disco “Abbey Road”. “Sua Majestade é uma garota legal, mas não tem muito a dizer”, canta Paul, parecendo intuir que a cultura pop jamais conseguiria decifrá-la de fato.


VEJA ALGUMAS DAS ATRIZES QUE RETRATARAM ELIZABETH 2ª

  • Claire Foy, na série “The Crown”
  • Olivia Colman, na série “The Crown”
  • Helen Mirren, no filme “The Queen”
  • Emma Thompson, na série de TV “Playhouse Presents”
  • Freya Wilson, no filme “O Discurso do Rei”
  • Jeannette Charles, no programa de TV “Saturday Night Live”
  • Kristin Scott Thomas, na peça de teatro “The Audience”

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