Quanto vale o beijo do flagra clicado pelo paparazzo italiano Marcello Geppetti de Elizabeth Taylor e Richard Burton?

‘Esse flagra foi um divisor de águas na relação estrelas- paparazzi’
Bruno Astuto

Elizabeth Taylor e Richard Burton, em 1962, numa lancha estacionada na ilha de Ischia, na Itália. — Foto: Marcello Geppetti/Media Company
Elizabeth Taylor e Richard Burton, em 1962, numa lancha estacionada na ilha de Ischia, na Itália. — Foto: Marcello Geppetti/Media Company

Falta um mês para que um dos beijos mais famosos do mundo seja arrematado num leilão. Trata-se do flagra clicado pelo paparazzo italiano Marcello Geppetti dos pombinhos Elizabeth Taylor e Richard Burton, há exatos 60 anos, numa lancha estacionada na ilha de Ischia, na Itália. A foto causou escândalo na época, porque ambos eram casados. Apaixonaram-se nas filmagens de “Cleópatra”, em que ela interpretava o papel-título da rainha egípcia, e ele, o general Marco Antonio. Para evitar o escândalo, o ator ofereceu ao paparazzo o equivalente a 150 mil euros de hoje, e ouviu como resposta: “Trabalho para a imprensa, não para particulares”. O clique rendeu ao profissional 400 mil e foi parar nas capas de todos os jornais e revistas. O Vaticano condenou o casal pelo romance adúltero, e eles se firmaram de vez como estrelas planetárias. Ficaram juntos, entre idas, vindas, tapas e beijos, por duas décadas.

O beijo se transformou agora numa obra virtual, um token não-fungível, famoso NFT, criado em parceria com a empresa que gerencia o acervo de Geppetti, morto em 1998. Usando negativos originais e a técnica de morphing, seus autores criaram um breve vídeo em alta resolução, com duração de 19 segundos, que recria o movimento do ósculo das celebridades e ficará na nuvem de quem o arrematar. O registro paralisado parece ganhar vida.

Houve um tempo em que as estrelas de Hollywood ainda sabiam guardar um certo mistério, e suas personalidades só podiam ser decifradas na captura de um olhar ou de um meio-sorriso. Até que veio a dolce vita, e elas se despiram da aura inatingível para serem degustadas pela curiosidade e pelo escárnio dos reles mortais. Essa transformação de famosos em celebridades teve endereço certo: a glamorosa Roma dos anos 1950 e 1960.

Recém-saída da guerra, a Itália era um destino barato para Hollywood filmar seus caríssimos épicos, como “Ben-Hur” e “Cleópatra”. Somem-se a isso a fundação de um estúdio de cinema, o Cinecittà, e a explosão da força criativa de diretores locais, como Pier Paolo Pasolini, Michelangelo Antonioni e Frederico Fellini. Tão interessante quantos os bastidores das filmagens era a vida social flamejante que acontecia nos restaurantes e clubes noturnos da Via Veneto e cercanias. Estrelas como John Wayne, Anita Ekberg, Lauren Bacall e Charlton Heston protagonizavam, fora das telas, jantares espetaculares, encontros e desencontros amorosos, brigas homéricas e danças sem-fim. E os fotógrafos descobriram uma oportunidade de uma grana extra, ao clicá-los nessas situações cotidianas e vender os registros aos jornais e revistas.

Os maiores flagras levavam a assinatura de dois grandes profissionais da época, Marcello Geppetti e Arturo Zavattini. O primeiro foi, reconhecidamente, a inspiração de Fellini para compor seu paparazzo Marcello Rubini, interpretado não sem deboche por Marcello Mastroianni no clássico dos clássicos, “La dolce vita”, de 1960. A bordo de sua vespa e munido de um zoom potente, clicou Rachel Welch dançando em cima de uma mesa, Brigitte Bardot entornando champagne, Jayne Mansfield comendo espaguete e, feito-mor, Taylor beijando Burton. Esse flagra foi um divisor de águas na relação estrelas-paparazzi; a partir de então, elas passariam o resto dos dias correndo atrás deles antes da fama e batendo neles depois.

O beijo que virou obra de arte virtual, no entanto, não tem lá atraído muito interesse. Até o fechamento desta coluna, o valor inicial de 30 mil euros (cerca de 165 mil reais) só havia sido acrescido de lances que totalizavam 243 e alguns centavos, contra uma expectativa de milhões.

Tem explicação: hoje a maioria das estrelas usurpou a função dos paparazzi em seu próprio Instagram. Mostrando a esfoliação do rosto, dancinhas com efeitos ou as faxinas durante a quarentena, abraçaram a parede de vidro do telefone e sepultaram a linha que separava a humanidade dos famosos.

E nem pensar em nadar na Fontana di Trevi sem o testemunho de uma horda de turistas munidos de iPhones. A multa, aliás, pode chegar a 900 euros.

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