Ariel, Annabeth, Morte, Estelar, elfos negros e um milhão de racistas

Ataques racistas se intensificam com o retorno de grandes franquias
PEDRO HENRIQUE RIBEIRO

Ariel, Estelar, Morte, Arondir

Pensei em começar esse texto como a Sam (Logan Browning), de Dear White People, com um “cara gente, branca”, seguido de uma explicação didática e paciente, mas após tanto tempo batendo na mesma tecla, não há dedo que não caleje. Quem acompanha o noticiário de cultura pop deve ter notado que, recentemente, alguns estúdios e franquias estão fazendo importantes autocríticas sobre seus produtos e escalando excelentes atrizes e atores negros para papéis de destaque em Hollywood. O que não é nada recente, no entanto, é o racismo de muitos fãs de grandes franquias – fato que ficou ainda mais evidente este ano com grandes títulos retornando a todos os tamanhos de tela.

Quando a franquia Star Wars retornou aos cinemas, em 2015, com O Despertar da Força, o ator John Boyega, que deu vida ao personagem Finn, teve seu talento questionado por muitos fãs que não gostaram do personagem nem do filme. Muitas das críticas iam acompanhadas de muito racismo e tratamento diferenciado em relação ao elenco branco do longa. A resposta da Disney, dona da franquia, foi diminuir a importância de Finn nos longas seguintes. O que, obviamente, decepcionou o ator, que teve que lidar sozinho com os trolls da internet. Em uma entrevista à revista GQ britânica, Boyega declarou: “O que eu diria para a Disney é: não anuncie um personagem negro como importante [para a franquia] para, em seguida, colocá-lo de lado”.

O descaso com Boyega serviu como lição – mal aprendida – para a Disney, que alertou previamente a atriz Moses Ingram, da série Obi-Wan Kenobi, sobre possíveis ataques racistas por parte dos fãs. “Foi algo que a Lucasfilm realmente disse: ‘Isso [racismo] é uma coisa que, infelizmente, provavelmente acontecerá. Mas estamos aqui para ajudá-lo; você pode nos avisar quando isso acontecer’”, disse Ingram em entrevista ao The Independent. O caso de Ingram foi ainda mais delicado que o de Boyega, pois ela recebeu ameaças e ofensas mais duras. Isso resultou em uma resposta pública da empresa que não se via com frequência. 

Assim como no caso de Ingram, podemos observar um padrão nos ataques, que se acentuam quando a atriz escalada é mulher. Exemplos recentes não faltam, como a escalação de Anna Diop para o papel de Estelar, em Titãs; a de Kirby Howell-Baptiste para interpretar a Morte, em Sandman; o anúncio de Leah Sava Jeffries para viver Anabeth na série Percy Jackson e Os Olimpianos; e, mais recentemente, nas primeiras imagens de Halle Bailey como Ariel no live-action de A Pequena Sereia, da Disney. Em todos os casos os ataques foram cruéis, invasivos e chegaram até as atrizes em suas redes sociais. O teaser de A Pequena Sereia recebeu a quantia desproporcional de mais de 600 mil deslikes no dia do lançamento, possivelmente por um movimento coordenado desses haters.

Muitos, para não arriscarem ser chamados de racistas, se apoiaram na ideia de que essas personagens deveriam ser extremamente fieis às descrições literárias/dos quadrinhos. Alguns diziam até que esse tipo de escalação poderiam ser ofensivas aos fãs e aos criadores, sem se dar conta de que eles mesmos manchavam o legado das obras ao levarem o racismo para elas. Neil Gaiman, criador de Sandman, e Rick Riordan, de Percy Jackson, trabalham nos bastidores de suas séries e participaram ativamente da escolha do elenco, mas nem isso foi o suficiente para convencer os racistas. Porém, esses mesmos “fãs” não se posicionam quando o jogo se inverte e temos um branco interpretando um personagem sabidamente não-branco.

O criador do universo de Game of Thrones e muitas outras obras épicas, George R. R. Martin também participou dos bastidores de A Casa do Dragão, série derivada sobre a família Targaryen baseada em seu livro no livro Fogo e Sangue. A nova série-evento da HBO decidiu escalar atores negros para viverem a família valiriana Velaryon. Esse fato, apesar de não ter sido bem recebido por alguns fãs, não havia causado tanto barulho como os exemplos acima citados – até agora. 

Como noticiado pelo Omelete, os co-autores de The Rise of the Dragon (A Ascensão do Dragão, em tradução livre), Linda Antonsson e Elio M. García Jr.criticaram a escalação de atores negros em ambas as séries da HBO. Em posts feitos em seu blog pessoal entre 2012 e 2022, Antonsson comentou o fato de as versões televisivas de Xaro Xhoan Daxos e Corlys Velaryon serem interpretados por Nonso Anozie e Steve Toussaint, respectivamente, embora os personagens sejam descritos como brancos na obra original. “Não existem valirianos negros [nos livros] e não deveriam existir nenhum nas séries”, tentou justificar.

Martin, que possui milhões de seguidores em suas redes sociais e um blog muito influente onde ele compartilha informações sobre seus trabalhos, ainda não se manifestou publicamente sobre as falas de seus colegas de trabalho. Por causa disso, fãs estão querendo boicotar The Rise of the Dragon, que será lançado este mês, nos Estados Unidos.

Outra obra que sofre ataques constantes sem poder contar com o apoio de seu criador é O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, mas porque ela ganhou as telas quase 50 anos após a partida de J. R. R. Tolkien. Se vivo fosse, Tolkien provavelmente a defenderia dos vários ataques contra a escalação de atores não-brancos, como o elenco fez: “Nós, o elenco de Anéis de Poder, nos unimos em solidariedade e contra o racismo, as ameaças e o assédio e o abuso incansáveis a que alguns de nossos colegas não brancos estão sendo submetidos diariamente. Nós nos recusamos a ignorá-los ou tolerá-los”, diz o comunicado, divulgado nas redes sociais da série, em setembro.

Usando apenas exemplos recentes, fica claro que há um enorme problema no mundo da cultura pop, atualmente. Há um tímido avanço por parte da indústria em acabar co ma sexualização de personagens femininas e ampliar a contratação de pessoas não-brancas nos dois lados das câmeras. Seja isso pura estratégia de marketing ou não, é impossível diminuir o impacto dessas escolhas no imaginário do público. Como comentei em outro momento aqui, até os animes japoneses foram importantes para o meu desenvolvimento e as reações das crianças ao trailer de A Pequena Sereia, por exemplo, só reforçam essa ideia.

Entretanto, saber a importância disso não é o bastante. É preciso combater o mal onde quer que ele se esconda. Afinal, é isso o que aprendemos com as nossas franquias favoritas. Se parafrasearmos uma popular ditado alemão, se há dez pessoas em uma mesa, um racista se senta e nenhuma se levanta, então temos onze racistas na mesa. Precisamos parar de aceitar esse tipo de pessoa em nossas comunidades e fandons, impedir que racistas saiam por aí associando as obras que amamos e mudaram as nossas vidas à sua maneira criminosa de pensar. No dia em que fizermos isso, talvez nossa diversão com essas obras alcance seu verdadeiro potencial.

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