Verão 2023: Semanas de moda europeias trazem looks com menos amarras

Desfiles reafirmam os pilares de simplicidade e atrevimento vistos no último ano.
Por Pedro Diniz

Vestido da Valentino exibe centenas de monogramas VL convertidos em estampa — Foto: Getty Images

A moda se debruça, há mais de dez anos, sobre o quão complicada a vida pode ser para quem tenta se adaptar ao jogo de tendências. E foram tantas criadas no século XX que, após a virada do milênio, tudo pareceu ter se exaurido. Por isso, as temporadas de verão 2023 de Milão e Paris, as duas cidades mais importantes do calendário internacional de desfiles, versaram sobre essa exaustão. Porém, apontaram para um visual mais livre, sem amarras, em uma vitrine solar que reafirma os pilares de simplicidade e atrevimento vistos no último ano.

Antúrio gigante da Loewe — Foto: Getty Images
Antúrio gigante da Loewe — Foto: Getty Images

Se há mais corpos expostos nas passarelas, é porque o empacotamento dos dias pandêmicos cedeu espaço a um look liberto. Então, parece ser o fim do visual cebola, aquele com várias camadas que pesam, e das intervenções que alteram as formas do corpo em escala hiperbólica. Há mais humor, fantasia e pele exposta.

Look Moschino — Foto: Getty Images
Look Moschino — Foto: Getty Images

Busca-se o essencial, e ele não dialoga apenas com o fetiche ou as camisetas básicas resistentes no armário. “Houve uma procura por atemporalidade, com cores menos vibrantes e menos estampas. A mensagem é que as peças são feitas para durar várias estações”, resume a analista de tendências do birô WGSN, Mariana Santiloni.

Gêmeas desfilam na Gucci — Foto: Getty Images
Gêmeas desfilam na Gucci — Foto: Getty Images

Glamour fun

A faxina geral desta temporada não tornou obsoleto o desejo de fantasia. A Loewe explorou as copas de antúrios gigantes, indicando o vermelho como uma das cores da estação. Bom para a Valentino de Pierpaolo Piccioli. Além de adotar a cor simbólica da casa italiana, ele replicou os logos por toda a extensão do vestido de festa, criando uma nova referência gráfica. Padrões repetidos também apareceram na Moschino, nos pontos de interrogação aplicados ao tailleur, e na Gucci, que colou desenhos de batons e porcas de aço — a mensagem era de que, nessa engrenagem, nada se cria, tudo se repete.

Look Diesel — Foto: Getty Images
Look Diesel — Foto: Getty Images

Carne trêmula

A máxima do “menos é mais” nunca fez tanto sentido. Vazados, transparências e cortes laterais formam um tipo de sensualidade que encontra eco na exposição do corpo vista nas últimas temporadas. Na Chloé, a estilista Gabriela Hearst usa a pele humana como tecido de contraste na cintura, artifício que a Dolce & Gabbana adota em tiras de couro para dar um efeito ótico ao conjunto. Mesmo a especialista em tricôs, Missoni, e a mestra da alfaiataria “easy chic” inglesa, Stella McCartney, aderem ao jogo dos recortes estratégicos, com atenção especial à pelve e ao tronco.

Paris Hilton na Versace — Foto: Getty Images
Paris Hilton na Versace — Foto: Getty Images

Bug do milênio

Na esteira do Y2K, tendência que recuperou os anos 2000 nas últimas três temporadas, as grifes embaralham as referências de estilo de 1990 a 2010. Não foi por acaso que Kate Moss desfilou de jeans, regata branca e camisa xadrez para a Bottega Veneta, coroando a ideia que a Diesel pôs na passarela repleta de denim, um dos tecidos-chave da temporada. As calças do tipo cargo, utilitárias e cheias de bolsos, deram a liga do pout-pourri das décadas, como ocorreu no desfile da Fendi. Os mini vestidos da Versace ajustaram esse ponteiro cronológico, e a grife levou à passarela uma das primeiras celebridades digitais, a socialite Paris Hilton.

Modelo na passarela da Chanel — Foto: Getty Images
Modelo na passarela da Chanel — Foto: Getty Images

Sonho lúdico

Parece que o longewear veio mesmo para fincar rendas e tecidos luminosos no armário. Ainda em Londres, a última coleção de Riccardo Tisci na Burberry explora o misto da roupa de dormir com a de trabalho. Já em Paris, a Saint Laurent adicionou ao repertório um roupão de seda combinado ao trench, como se o conjunto valesse para uma vida híbrida, em casa e na rua. Christian Dior e Chanel deram as palavras finais da tendência. Ambas apostaram em babados nas costuras, renda guipir e shorts do tipo calçola do século XIX — a estilista Virginie Viard fundou sua resposta ao conceito de libertação feminina.

O nômade chique da Hermès — Foto: Getty Images
O nômade chique da Hermès — Foto: Getty Images

Bohemian rhapsody

Uma vida desprendida das cartilhas do passado pede uma atitude mais relaxada. O novo boho — adjetivo para o boêmio chique — versa menos sobre os padrões étnicos da década passada e mais sobre um espírito nômade no vestir, bem a cara dos tricôs e dos looks utilitários do desfile apoteótico da Balmain. Mãe da tendência, Isabel Marant aliou brilhos pontuais, pequenas flores e conjuntos soltinhos, enquanto a Hermès embalou a ideia da forma mais elegante possível. Os tons de camelo, os fechos e os aviamentos de cordas da estilista Nadège Vanhee-Cybulski apostam alto na beleza possível desse look nômade.

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