Acordar com os velhos despertadores volta a ser hit e revela movimento de desapego dos celulares

Especialistas reconhecem benefícios da prática à saúde: ‘O celular criou essa percepção de que todas as demandas são urgentes’, destacou a psicóloga Daniela Faertes
Por Yasmin Setubal — Rio de Janeiro

Pessoas voltaram a recorrer aos despertadores para acordar – Foto: Shutterstock

O apagar das luzes no quarto não garantia que Luciana Kreimer, de 50 anos, desfrutaria de uma boa noite de sono. Ainda acostumada a deixar o celular ligado à noite, a designer de interiores se despertava a cada barulho soado pelo aparelho, quando não estava no modo silencioso, ou no acender da tela, com a chegada de alguma notificação. “Sentia uma vontade incontrolável de ver, o som chama você. Tomei uma atitude porque ficava muito ligada”, relata.

No meio da pandemia, Luciana resolveu dar um basta na situação: passou a desligar o telefone das 18h às 9h do dia seguinte e deixá-lo na sala, na hora de dormir. Para acordar e não se atrasar para os compromissos, a carioca ressuscitou um velho amigo, o rádio-relógio, item que já foi hit, mas andava extinto das mesinhas de cabeceira.

Embora soe radical, a atitude de Luciana encontra ecos em diferentes lares mundo afora. A prática vem ganhando adeptos nos últimos tempos, principalmente pelo reconhecimento dos impactos negativos que os celulares causam ao bem-estar. “Os despertares provocados por um telefonema, ou pelo som de algum aplicativo, fazem com que haja uma interferência na qualidade do sono por diversos motivos”, atesta Fabrício Hampshire, neurologista da Casa de Saúde São José.

Segundo ele, esses fatores impactam até mesmo em compostos hormonais. “A liberação de melatonina, hormônio produzido na glândula pineal (localizada no crânio) e fundamental para um sono adequado, pode ficar comprometida com um aumento de cortisol provocado por uma agitação mediante a algum conteúdo no celular. Isso vai influenciar tanto nas horas que uma pessoa dorme, como também dificulta a atingir fases mais profundas do sono, importantes para nossa recuperação e saúde de uma maneira geral”, diz.

Atenta aos sinais, Luciana foi além e espalhou despertadores pelos quatro quartos da casa, num esforço para influenciar os seis filhos a diminuírem o tempo on-line. Nos últimos dois anos, vários modelos já foram usados pela designer, dos analógicos aos digitais. Os com formatos divertidos também caíram nas graças da família, como um urso, um pato e o ratinho Mickey Mouse, da Disney. “Não tive problema com meu marido em relação ao uso do celular porque ele é igual a mim. Inclusive, a decisão de desligá-lo à noite foi conjunta. Nossos filhos é que são mais difíceis. Brigo direto com o meu caçula, que não tira o celular da mão. O do meio me enrola. Sei que não faz o que peço tanto assim, mas tenta. Ele entende a necessidade de se desligar um pouco”, conta ela, que mantem um telefone fixo para receber ligações eventuais quando fica off-line. “É qualidade de vida.”

A psicóloga Daniela Faertes, especialista em terapia cognitiva e mudanças de comportamentais, observa um aumento de pacientes interessados em desapegar dos aparelhos telefônicos no período da noite. Mas, em geral, eles citam a sensação de “estar perdendo alguma coisa” como empecilho para isso. “O celular criou essa percepção de que todas as demandas são urgentes e, com isso, o nosso corpo fica superativado. Há a necessidade de nos desligarmos porque nos coloca num constante estado de emergência, algo completamente antagônico à higiene do sono”, esclarece a profissional.

É justamente essa abstinência de notícias e sociabilidade virtual por horas a fio que mais satisfaz Débora Thomé, de 45 anos. “Adoro o dia seguinte. Quando você passa um tempão sem falar com ninguém, aparecem várias notificações depois”, conta. Autodenominada como uma “mulher analógica”, resistente a todos encantos da multifuncionalidade dos celulares e aplicativos, a escritora e cientista política, que tem o costume desligar o aparelho por volta das 20h todos os dias, nunca abandonou os despertadores à moda antiga. “Na minha cabeça não tem porquê deixar o telefone ligado na hora de dormir. É curioso isso. Para mim não é estranho, é algo completamente normal e que me faz muito bem, principalmente pelo costume de ler. O celular me tiraria essa atenção.”

Sandra Doria, médica que atua no Instituto do Sono, enaltece o ato de deixar o telefone desligado, fora do quarto, e recorrer aos despertadores quando há a necessidade de acordar num horário determinado. Ela ainda enumera os benefícios da prática à saúde. “Um sono reparador, com quantidade, qualidade e ritmo nos dá disposição, foco e concentração na execução de tarefas do dia. Melhora nossa saúde cardiovascular, metabólica e, principalmente, imunológica, que é a área em que o sono mais atua. Além de nos ajudar a ter equilíbrio emocional. É uma solução bem pensada.” E sem prazo de validade.

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