Conheça os jovens do Japão que vivem em ‘caixas de sapato’ de 9 metros quadrados

Imobiliária já tem mais de 1.500 moradores de miniapartamentos em cem prédios de Tóquio, cidade de grande população e imóveis caros
Hikari Hida

Jovem japonês de camiseta preta e calça jeans assiste televisão deitado no chão em seu pequeno apartamento em Tóquio, no Japão
Yugo Kinoshita, 19, assiste televisão em seu pequeno apartamento em Tóquio, no Japão – Noriko Hayashi – 15.set.2022/The New York Times

TÓQUIO | THE NEW YORK TIMES – No final de um longo dia de trabalho nos escritórios da liga profissional de beisebol do Japão, Asumi Fujiwara voltou para seu apartamento e vestiu o pijama. Ela queria fazer um treino leve antes de ir para a cama, então colocou seu tapete de ioga de vinil no chão, em frente ao vaso sanitário, e o desenrolou, passando pelo fogão de uma boca e pela torradeira para uma fatia de pão, até o pé da mesa.

Depois de um rápido alongamento, ela se levantou para entrar na posição de guerreira. Em vez de estender os braços totalmente, porém, puxou os cotovelos para os lados. “Preciso modificar minhas poses, ou vou acertar alguma coisa”, disse Fujiwara, 29.

Assim é a vida num apartamento de 9 metros quadrados em Tóquio.

Com seus imóveis de alto custo e a área metropolitana mais populosa do mundo, Tóquio é conhecida há muito tempo pelas acomodações pequenas. Mas esses novos apartamentos –conhecidos como quartos de três tatames, pelo número de tapetes japoneses que ocupariam todo o espaço– estão ultrapassando os limites da vida normal.

Uma imobiliária, Spilytus, vem liderando a investida em direção a espaços cada vez menores. Ela opera esses apartamentos “caixas de sapatos” desde 2015 e, com mais de 1.500 moradores hoje em seus cem prédios, a demanda permanece forte.

Embora as unidades tenham a metade do tamanho de um estúdio médio em Tóquio, elas têm pé-direito de 3,60 metros e um loft para dormir. Também são elegantes, com pisos e paredes brancas imaculadas, e com alguns arranjos eficientes é possível espremer ali dentro uma máquina de lavar, geladeira, um sofá e uma mesa de trabalho.

Os apartamentos não são para quem tem orçamento muito apertado. Apartamentos mais baratos podem ser encontrados, embora geralmente tenham décadas de uso. Mas os microapartamentos, que são alugados por US$ 340 a US$ 630 (cerca de R$ 1.800 a R$ 3.300) por mês, custam algumas centenas de dólares a menos do que outros estúdios em áreas semelhantes. E estão situados perto de locais badalados no centro de Tóquio, como Harajuku, Nakameguro e Shibuya, que geralmente são bem caros, com butiques de luxo, cafés e restaurantes. A maioria dos prédios fica perto de estações de metrô –a principal característica para muitos jovens.

Mais de dois terços dos moradores dos prédios são pessoas na faixa dos 20 anos, que no Japão ganham em média de US$ 17 mil a US$ 20 mil (R$ 89 mil a R$ 104 mil) por ano, segundo dados do governo. (Os salários em Tóquio são os mais altos.) Alguns são atraídos pelas taxas iniciais mínimas e pela falta de um depósito ou “dinheiro de presente” –um pagamento não reembolsável ao proprietário que pode chegar a três meses de aluguel– para muitas locações.

Os pequenos espaços funcionam para o estilo de vida de muitos jovens japoneses. No Japão, não é costume ter convidados em casa, com quase um terço dos japoneses dizendo que nunca recebem amigos, segundo uma pesquisa da Growth From Knowledge, provedor de dados para a indústria de bens de consumo.

Fujiwara nem recebeu seu namorado nos quase dois anos em que mora nesse apartamento. “Este espaço é para mim”, disse ela.

Muitos japoneses, jovens e idosos, também trabalham longos turnos, restando pouco tempo para passar em casa. E uma parcela crescente de moradores de Tóquio está vivendo sozinha, tornando espaços menores mais desejáveis. Essas pessoas são mais propensas a comer fora ou pegar uma das muitas opções de refeições em lojas de conveniência ou mercados, por isso há menos necessidade de uma cozinha completa.

Yugo Kinoshita, 19, estudante universitário que trabalha meio período montando tigelas de comida num restaurante de rede, está entre aqueles para quem um apartamento é pouco mais que um lugar para dormir.

Quando seu turno termina, às 23h, ele está exausto. Come sua refeição gratuita, vai a um banho público (sento) e desmaia assim que volta para sua unidade Spilytus. Fora isso, seus dias são preenchidos com trabalhos para a faculdade de nutrição e vendo amigos.

Quando ele passa algumas horas acordado em casa, a caixa que funciona como suporte de TV se transforma em mesa de estudo e balcão de cozinha. Para limpar o chão, tudo de que ele precisa é um rolo colante tira-pelos.

Mesmo depois de ter se despedido com lágrimas nos olhos de sua coleção de Nike Dunks porque não havia lugar para eles, Kinoshita disse que, neste momento da vida, “não moraria em outro lugar”.

Para alguns, os minúsculos apartamentos oferecem uma porta de entrada para a independência há muito esperada.

Embora as unidades tenham a metade do tamanho de um estúdio médio em Tóquio, elas têm pé-direito de 3,60 metros e um loft para dormir Noriko Hayashi/NY

Há dois anos, Kana Komatsubara, 26, começou a procurar um apartamento para finalmente sair da casa de seus pais nos subúrbios de Tóquio.

Ela queria um espaço recém-construído, com fácil acesso ao trabalho e banheiro e chuveiro em quartos separados (um pedido comum no Japão) –tudo dentro de seu orçamento relativamente apertado. Ela não estava necessariamente procurando uma microunidade, mas sua busca a levou a um apartamento Spilytus.

“É claro que quanto maior, melhor. Nunca é demais ter um bom espaço”, disse ela. “Esta foi simplesmente a melhor opção para mim na época.”

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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