Irmãos Campana: único projeto residencial deles é morada da empresária Solange Ricoy

Localizado em São Paulo, o local é uma síntese das três paixões dela: o Brasil, os livros e o design autoral
Por Eduardo Simões

A empresária argentina Solange Ricoy, na chaise Rio, de Niemeyer, e um banco dos Campana, da linha Sushi  — Foto: Deco Cury
A empresária argentina Solange Ricoy, na chaise Rio, de Niemeyer, e um banco dos Campana, da linha Sushi — Foto: Deco Cury

Do térreo ao terceiro e último andar, quem visita a casa da empresária argentina Solange Ricoy, no Jardim América, em São Paulo, faz um breve passeio pela literatura mundial, por meio dos livros dispostos na biblioteca forrada de couro natural, que ladeia os dois lances de escada, à direita, com a função adicional de um guarda-corpo bem letrado. Nas prateleiras, há títulos latino-americanos, como livros de Octávio Paz e Jorge Luis Borges, autores tematizados em seu trabalho de conclusão do curso de literatura na Universidade Nacional de Buenos Aires; brasileiros, como Jorge Amado e Clarice Lispector; e italianos, de clássicos de Italo Calvino a Elena Ferrante, fenômeno editorial contemporâneo.

Sala de estar com a poltrona Presidente, de Jorge Zalszupin – Foto: Deco Cury

Leitora voraz, não à toa Solange fez da biblioteca um dos pontos de partida do projeto encomendado em 2008 aos irmãos Fernando e Humberto Campana, finalizado em 2013, e até hoje o único trabalho residencial deles no mundo. “Ela deveria ser o centro organizador e nevrálgico, a espinha dorsal da casa. Tenho fascínio pelos livros, por sua arte gráfica, pela escrita como elemento gráfico”, conta a empresária. Outro aspecto que o projeto deveria contemplar é a paixão de Solange pelo país, que conheceu nos anos 1970, quando seu pai dirigia de Buenos Aires para Búzios, nas férias.

Destaque para a poltrona Pollock Sling, de Charles Pollock, um clássico dos anos 1960, feita de jacarandá brasileiro; na mesinha, cinzeiros Spirale, de Achille Castiglioni — Foto: Deco Cury
Destaque para a poltrona Pollock Sling, de Charles Pollock, um clássico dos anos 1960, feita de jacarandá brasileiro; na mesinha, cinzeiros Spirale, de Achille Castiglioni — Foto: Deco Cury

“O que mais amo no Brasil é a possibilidade de se estar do lado de fora, ao ar livre. O que não dá para fazer em países frios, mesmo na Argentina. Queria morar dentro, como se fosse fora. Portanto, a casa deveria permitir uma transição fácil entre esses ambientes”, conta Solange.

Nascida em Buenos Aires, Solange saiu do país pouco após terminar sua graduação. Ganhara uma bolsa para estudar com ninguém menos que o escritor, linguista e semiólogo Umberto Eco, na Universidade de Bolonha. Fez um curso de história das línguas e, ao terminar, partiu para um MBA, voltado para a comunicação corporativa, na Publitalia ’80, grupo de mídia criado pelo hoje ex-presidente italiano Silvio Berlusconi, que chegou a ter a editora Mondadori entre as subsidiárias.

No jardim da residência, os bancos Ghost, também dos Campana, exclusivos para a morada — Foto: Deco Cury
No jardim da residência, os bancos Ghost, também dos Campana, exclusivos para a morada — Foto: Deco Cury

Seu sonho era trabalhar na editora. Mas o primeiro estágio, na Univeler, a levou a uma trajetória de 17 anos no marketing da companhia, com temporadas em Milão, Londres e Mumbai. No fim dos anos 1990, foi transferida para Buenos Aires e, em 2001, para São Paulo, onde há 15 anos abriu sua própria empresa, a Alexandria, uma alusão à biblioteca do Egito antigo.

Ainda em 2001, o marido de Solange, o italiano Stefano Zunino, então presidente de um grupo publicitário, quis reformar uma das agências na cidade. Encomendou o projeto de paisagismo aos Campana, que em 1998 já haviam alcançado grande projeção internacional com a poltrona Vermelha, lançada pela Edra. “A Itália já os tinha como monstros sagrados, enquanto aqui eram desconhecidos”, lembra Solange, que à época visitou Fernando e Humberto em seu ateliê no bairro de Santa Cecília. De lá, saíram alguns dos móveis da primeira casa do casal, como uma mesa de papelão prensado, o bar e seus bancos inspirados na Vermelha, todas peças únicas.

Na parede, escultura Movimento, de Joaquim Tenreiro, e um carrinho do século XIX, comprado em leilão na Argentina — Foto: Deco Cury
Na parede, escultura Movimento, de Joaquim Tenreiro, e um carrinho do século XIX, comprado em leilão na Argentina — Foto: Deco Cury

Logo veio o desejo de ter uma morada inteira concebida pelos Campana, um projeto que durou cinco anos. A nova casa recebeu mais peças exclusivas, como a mesa de cobogó de terracota, no terraço, e uma colagem de espelhos, na sala de estar. A elas juntaram-se clássicos italianos, como a luminária Arco, de Achille Castiglioni, para a Flos, e brasileiros, de Niemeyer e Zalszupin a Tenreiro, todos originais.

Os Campana cobriram a fachada com piaçava, que já haviam utilizado para forrar o prédio da Bienal, na São Paulo Fashion Week de 2013. Para Humberto, o material cria “um portal para um novo mundo”. Assim que se entra na casa, experimenta-se “uma limpeza da alma através dessa parede vegetal, que lava a poluição sonora e visual, como se você estivesse entrando em um ser vivo”, diz ele.

A fachada da casa com piaçava: material funciona como isolante térmico natural — Foto: Deco Cury
A fachada da casa com piaçava: material funciona como isolante térmico natural — Foto: Deco Cury

Já Fernando destaca que a casa utiliza materiais sustentáveis ou reaproveitados. “E também conta a história das nossas origens e de nosso sustento, transmitindo a sabedoria da cultura vernacular às novas gerações de designers. Todas essas decisões aumentam a conscientização sobre melhores maneiras de se obter materiais, construir e viver neste planeta”, conclui.

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