Brasil coloca algodão orgânico no mapa da moda e chega à Milão como potência sustentável

No caso da grife paraibana Natural Cotton Color, com destaque para a versão da pluma que já nasce colorida no solo do estado nordestino
Por Pedro Diniz

Modelo com peças da Natural Cotton Color, em renda labirinto da Paraíba – Foto: Divulgação

Ao mesmo tempo em que grifes de luxo cruzaram as passarelas em Milão, mês passado, um desfile se desenrolava nas proximidades do Castelo Sforzesco, mostrando que o Brasil começa a ser reconhecido para além de sua moda praia com tintas de balneário. Em parceira com a Organização Mundial de Sustentabilidade (WSO, na sigla em inglês), a grife paraibana Natural Cotton Color exibiu no calendário italiano a força do algodão orgânico brasileiro. No caso da marca, com destaque para a versão da pluma que já nasce colorida no solo do estado nordestino.

Compuseram o desfile uma mistura de seda, linho e algodão feita pela têxtil Eco Simple e um denim desenvolvido com algodão colorido. Tecido que, aliás, foi negociado pela Calvin Klein e está em fase de pilotagem para uma coleção da grife.

Não se tratava de uma ação meramente comercial. A pequena marca, ainda pouco conhecida pela clientela abastada do país, acaba de ganhar o cobiçado selo europeu Friend of Earth e se firmou como porta-voz do algodão orgânico nacional que seduz grifes estrangeiras e é cotado a peso de ouro no mercado. Para se ter uma ideia, enquanto um quilo da pluma padrão do agronegócio custa R$ 5, o mesmo peso da orgânica chega às tecelagens por cerca de R$ 19. E há motivos para isso.

O mundo atravessa uma expansão significativa das plantações. Estima-se que, só nos Estados Unidos, o algodão orgânico já tome 1% da área destinada ao plantio e registra crescimento galopante desse espaço na casa dos dois dígitos anuais nos últimos cinco anos. O diferencial da matéria-prima paraibana, usada no Brasil por estilistas como Flávia Aranha e grifes focadas no consumo consciente, a exemplo da paulistana Oriba, é o manejo singular e seu impacto social no entorno onde nasce.

Cultivado por famílias do interior paraibano, ele não leva agrotóxicos, é irrigado apenas pela chuva e não brota a partir de sementes transgênicas, tornando-se puro aos olhos do exigente mercado sustentável global. A empresária e estilista Francisca Vieira, dona da Natural Cotton Color, roda as maiores feiras do mundo do segmento e atesta que “o futuro do mercado de moda não é a produção de commodity no modelo convencional”.“Se o Brasil não rever a forma como produz seu algodão (com uso de defensivos químicos) sairá de promessa sustentável a celeiro do greenwashing”, afirma Francisca, citando o termo que define o “marketing verde”: quando grifes se passam por amigas do meio ambiente com ações pontuais de sustentabilidade sem continuidade.

ELA viajou a uma das cidades produtoras, Ingá, a duas horas de carro da capital João Pessoa, para ver o resultado de um ano de parceria entre associações locais, prefeitura e duas gigantes do ramo dos tecidos, a catarinense Dalila Têxtil e a mineira Cataguases. No Dia do Campo, evento apoiado pela Abrimos (Associação Brasileira da Indústria, Comércio, Serviços e Educação para a Moda Sustentável) e realizado semanas antes do início da temporada milanesa, os próprios agricultores viram em uma passarela gigante as roupas de sua colheita, que consome em média 150 dias de trabalho por ano e gera receita aproximada de R$ 30 mil por safra para cada família.

“Muitas pessoas não acreditaram na gente, mas trouxemos de volta quem estava desestimulado ou foi para o Sul do Brasil tentar a vida. Provamos ser possível prosperar com algodão”, disse o agricultor e presidente da Associação da Agricultura Familiar, Severino Vicente da Silva.

Os looks reuniram o trabalho de mulheres locais especializadas em renda labirinto, outro ativo de moda da região que ganhou força no mercado e impulsiona a renda das famílias. E elas já são muitas; no ano passado, apenas cinco cultivaram 15 hectares de terras. Agora, são 38 em um espaço de quase 120 hectares, que devem gerar algo em torno de 140 toneladas de plumas. Quer prova maior dessa força que extrapola os limites das passarelas? Tudo já foi vendido antes mesmo da colheita.

O jornalista viajou a convite da Abrimos

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