Cláudia Abreu: ‘Aprendi a me levar menos a sério’

Atriz, que apresenta seu espetáculo sobre Virginia Woolf no Rio, fala da estreia como dramaturga, de maturidade e separação após 25 anos: ‘Espécie de renascimento’
Por Maria Fortuna — Rio de Janeiro

Cláudia Abreu: “Tenho procurado viver sem medo, com o frescor da curiosidade” – Foto: Divulgação Bob Wolfenson

Cláudia Abreu vestia um collant azul salpicado de estrelas de paetês e tinha o corpo besuntado de pasta prateada quando entrou em cena pela primeira vez. Estava com 6 anos de idade e sentia-se orgulhosa por interpretar a protagonista de “A estrelinha que caiu do céu”, apresentada por sua turma da escola no teatro do Jockey Club do Rio. Quarenta e seis anos depois, a atriz volta hoje àquele mesmo palco, agora batizado de Teatro XP Investimentos, para encenar “Virginia”, espetáculo baseado no universo da escritora inglesa Virginia Woolf (1882 – 1941), personagem que encarna.

A peça, seu primeiro monólogo, não é apenas sua estreia como dramaturga: é o projeto de sua vida. Cacau, como é chamada pelos amigos, já havia se aventurado a escrever “Valentins”, série infantil de TV produzida pela Zola Filmes, da qual é sócia. Mas “Virginia” a fez escancarar de vez a porta como criadora, abrir perspectivas mais amplas. Tanto que já prepara o roteiro de um filme, em parceria com Ismael Caneppele, sobre uma mãe e uma filha em um universo queer.

Ter colocado a peça de pé (sem patrocínio ou leis de incentivo) provocou na atriz um sentimento transformador — para além da felicidade de voltar ao teatro (ainda que em tempos de demonização da profissão) e de reiterar a importância dessa experiência coletiva no pós-pandemia. Foi a sensação poderosa de ter vencido obstáculos impostos por si mesma. Aquele autoboicote que nos impede de avançar pelo medo de se arriscar.

Cláudia Abreu: 'O que é ser normal? Tenhamos pelo menos a mente livre' — Foto: Divulgação / Bob Wolfenson
Cláudia Abreu: ‘O que é ser normal? Tenhamos pelo menos a mente livre’ — Foto: Divulgação / Bob Wolfenson

— É preciso tomar a coragem para realizar nossos sonhos. Porque, muitas vezes, a gente acha que não é capaz, que não é o momento ou não está preparada. Ficar sempre buscando desculpas externas para não se colocar à prova é mais fácil. O que me deixou satisfeita é que me propus correr o risco. E ele é duplo e alto — analisa ela, movida pelo desejo de fazer algo diferente e não mais do mesmo. — Nunca foi um conforto para mim ter tido alguns trabalhos de sucesso, bons convites e uma carreira longa, com mais alegrias que tristezas. Claro que isso me conforta, mas não me garante nada. Nenhum jogo está ganho, não interessa o que você já fez, mas o que tem de novo para oferecer.

Para alguém que construiu a trajetória com trabalhos em turma, em grupos teatro comandados por Bia Lessa e Amir Haddad (diretor de “Virginia”), não foi fácil pensar que estaria, pela primeira vez, sozinha no palco — onde tem apenas a companhia das várias vozes que habitam a cabeça e se alternam na fala de Virginia.

Às vésperas das apresentações em São Paulo, o medo soprou em seu ouvido: “Meu Deus, meu primeiro texto, primeiro monólogo, porque me meti nisso?”. Ela rebateu a insegurança com firmeza: “Já valeu a pena, porque não me acovardei, cheguei até aqui. Se o público não se interessar, pelo menos, tentei”.

Cláudia Abreu: 'A gente não evoluiu tanto. A mulher pode votar, trabalhar fora, se separar, mas estamos falando de uma parte, né?' — Foto: Divulgação/ Bob Wolfenson
Cláudia Abreu: ‘A gente não evoluiu tanto. A mulher pode votar, trabalhar fora, se separar, mas estamos falando de uma parte, né?’ — Foto: Divulgação/ Bob Wolfenson

Se a carreira iniciada na adolescência impôs compromissos, responsabilidades e atitude madura para lidar com a fama desde cedo, os 52 anos ensinaram a relativizar.

— Eu tinha autoexigência excessiva, me colocava muito sob pressão. Fui relaxando com o tempo. Não no autorrigor nem na preocupação de dar o máximo possível no que me proponho a fazer. Mas no sentido de não colocar tanta expectativa no outro. Isso é algo que te castra, inibe. E a gente não controla o olhar do outro, o efeito do que fazemos. Se vai ser bem aceito, considerado um bom trabalho, não depende de mim. E unanimidade também não existe. Aprendi a me levar menos a sério, a me cobrar menos.

Processo com os filhos

Nem tanto… A busca por um resultado que a satisfizesse em “Virginia” consumiu cinco anos de pesquisas e experimentações. Afinal, era um trabalho não só sobre alguém que viveu, mas sobre uma das maiores artistas do século XX, dona de obra brilhante e de vida riquíssima. Ao encontrar seu recorte, focado na pessoa de Virginia, e conceber o espetáculo, Cacau fez questão de que os quatro filhos (“tenho um portfólio, de 11 aos 21 anos”, brinca) assistissem.

Cláudia Abreu, que tem quatro filhos: 'Poderia ficar sendo mãe o resto da vida que já teria valido a pena'  — Foto: Divulgação/ Bob Wolfenson
Cláudia Abreu, que tem quatro filhos: ‘Poderia ficar sendo mãe o resto da vida que já teria valido a pena’ — Foto: Divulgação/ Bob Wolfenson

— Por mais que não fosse uma peça para a idade de alguns deles, o mais importante era que entendessem concretamente onde deu todas as vezes que fiquei escrevendo, que falei “tô indo para o ensaio”, as semanas que passei em São Paulo e Belo Horizonte. Se acompanharam a construção de tudo, tinham que ver o resultado. Eu, ali, sozinha naquele palco, o livro da peça que escrevi (publicado pela editora Nos) nas mãos deles — afirma ela, que sente muito prazer na maternidade. — Poderia ficar sendo mãe o resto da vida que já teria valido a pena.

Acompanhar o crescimento de um ser humano, para Cacau, é também uma oportunidade de reeducar de si próprio. A chance de reviver situações, muitas vezes simples, e retomar a capacidade de se espantar diante delas.

— Ter muitos filhos é interessante por poder conviver com pessoas muito diferentes. A gente acaba tendo que se adaptar a cada personalidade, ser uma mãe diferente para cada um. Quando se educa alguém, a gente está se autoconhecendo, colocando à prova conceitos, preconceitos, o que tem de velho e precisa jogar fora — analisa. — Isso é um pouco espelho da vida. É como se você estivesse eternamente se reeducando para estar no mundo. Por isso, há tanto conservadorismo: as pessoas não querem enxergar o tempo que passa. Querem ficar no mesmo lugar ou voltar para o passado achando que é mais seguro.

Ter uma profissão e individualidade, sonhos e realizações, ajuda a ser uma mãe mais saudável, ensina.

— Porque a gente consegue aceitar melhor que o tempo passa. Caso contrário, fica uma mãe que cobra toda a dedicação que deu. Eles crescem rápido e dá uma melancolia. Você pensa: “Daqui pouco, todos vão para a vida, então, tenho que contar com a minha vida”.

Condição da mulher no mundo

Voltando à peça, os ingressos esgotados para a temporada paulista, além das apresentações lotadas em Minas Gerais e Sul do país, serviram de termômetro para medir o interesse do público. A vontade da plateia em debater assuntos abordados no palco — como a opressão feminina — trouxe a certeza de que o espetáculo bateu.

Se bateu nos espectadores foi porque Virginia mexeu profundamente com a atriz. O interesse em exercitar uma escrita que navegasse por uma mente livre fez Cacau buscar a obra da autora, marcada pelos fluxos de consciência. Ela já havia encenado “Orlando”, sob a direção de Bia Lessa, aos 18 anos. Mas o mergulho nos livros, diários e memórias da escritora provocou uma “identificação” imediata.

— Fiquei louca com a forma como ela conseguia descrever sensações que já tive, mas não fui capaz de expressar em palavras. Era como se Virginia me conhecesse de alguma maneira. Também fiquei fascinada por ela ter conseguido construir uma obra brilhante em meio a tanto desequilíbrio e tragédias pessoais. Como juntou os cacos? — questiona Cacau sobre a autora, que sofreu abusos sexuais dos irmãos, discriminação intelectual e imposição masculina em sua decisão sobre maternidade. — Meu texto também veio do desejo de fazer algo que me toca, de falar do ser humano hoje, do que fazemos com nossas dores da existência, sobre as incertezas da criação artística e da condição da mulher.

Condição repleta de questões tão antigas quanto atuais.

— A gente não evoluiu tanto assim. A mulher pode votar, trabalhar fora, se separar. Mas estamos falando de uma parte da sociedade e do mundo, né? Ainda existem lugares em que isso não é possível. E onde é, muitas vezes, a mulher não tem voz. Continuamos sendo interrompidas e ganhando menos — aponta. — No interior, mulheres são as primeiras a terem que cuidar da da casa, dos irmãos, a parirem filhos cedo. Os sonhos da mulher ainda são os primeiros a serem colocados de lado.

Separação e renascimento

“Virginia” chega num momento de mudança na vida pessoal de Cacau. De volta desde janeiro de uma temporada de um ano em Portugal, ela acaba de se separar do cineasta José Henrique Fonseca após 25 anos de casamento.

— Também é preciso ter coragem para acompanhar os movimentos da vida. Tenho procurado me colocar no presente, viver sem medo, com o frescor da curiosidade, de maneira viva. É inevitável falar que é uma dor, mas tudo que é feito de maneira amorosa e verdadeira dá certo. É uma espécie de renascimento. A gente pode ter uma vida feliz e, de repente, achar que precisa mudar e isso não invalida toda a vida que teve. Fomos muito felizes, passei quase metade da minha existência com o Zé. Realizamos sonhos, tivemos filhos, casas produtora, projetos. Isso nunca vai ser passado.

‘O que é ser normal? Já temos muitos limites, tenhamos a mente livre’

Cláudia Abreu em cena do espetáculo “Virgínia”, seu primeiro monólogo — Foto: Divulgação

O que se passa na cabeça de um suicida nos últimos minutos de consciência que antecedem sua morte? Essa pergunta sempre intrigou Cláudia Abreu. Ele construiu a dramaturgia da peça “Virginia”, codirigida por Malu Valle, como um inventário íntimo da vida da autora, que encheu de pedras os bolsos do casaco e se matou afogada no Rio Ouse, na Inglaterra, em 1941.

“Então é assim que se morre…”, diz a personagem na frase que abre o espetáculo. Virginia/Cacau passa toda a peça em estado quase delirante, como se a oxigenação já lhe faltasse — daí a importância do trabalho de corpo feito por Márcia Rubin.

Refletir sobre a linha tênue entre sanidade e loucura tem sido prática recorrente nos projetos recentes da atriz. Começou em “Panorâmica insana”, espetáculo que encenou em 2019, sob direção de Bia Lessa, e levantava discussões sobre pessoas à margem da sociedade.

— O que é ser normal? É aceitar o que é dado? Se submeter a regras e convenções? Às vezes, a pessoa só não se encaixa, é livre para pensar, dizer o que quer com algum desequilíbrio do que não dá conta. A gente já tem muito limite na vida. Social, ético, das próprias travas. Tenhamos, pelo menos, a mente livre — provoca a atriz, para quem a cabeça é o “nosso último refúgio de liberdade”. — Ninguém sabe o que pensamos. Podemos viajar, criar, se abrir para o novo. Se ficarmos fechados nos próprios dogmas, só reproduziremos o que já vivemos e, assim, não nos renovamos.

O papo filosófico vem de uma mulher ávida por investigar a natureza humana. Um interesse que surgiu quando Cacau tinha 30 anos e já havia construído uma carreira sólida e versátil como atriz. Emendava peças, filmes e uma novela atrás da outra, o que ia adiando a vontade voltar aos estudos, interrompidos após a escola. Até que um grupo de estudo a motivou de vez a ingressar na faculdade de Filosofia.

— Sempre tive a inquietação de buscar o que não fosse só o estabelecido.

Mais tarde, embarcou na pós-graduação em Artes Cênicas. O exercício intelectual deu estofo para o caminho que ela trilha agora como dramaturga e dona dos próprios projetos.

— Cacau é muito curiosa e dedicada. Uma mulher brilhante — define o diretor Amir Haddad.

Mas a faceta atriz, como se vê na peça, está longe de arrefecer. No ano que vem, ela estreia como protagonista do filme “Terapia da vingança”, sobre uma mãe que perde a filha de forma violenta e tenha a vida transformada por completo. Também estará na possível terceira temporada da série “Desalma” e planeja com os companheiros da novela “Cheias de charme” o longa das Empreguetes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.