Novo estudo contesta a ideia de que os mais tristes são os mais sábios

Experimento feito em 1979 havia concluído que deprimidos tinham uma visão mais realista sobre suas condições
Ellen Barry

Surreal scene of Sad and depression human concept, alone, lonely
Estudo contesta a ideia de que os mais tristes são os mais sábios – Jorm S./Adobe Stock

THE NEW YORK TIMES – Quarenta e três anos atrás, duas jovens psicólogas, Lauren B. Alloy e Lyn Y. Abramson, relataram os resultados de um experimento simples que levou a uma ideia seminal na psicologia.

Seu objetivo era testar a “teoria do desamparo”, de que pessoas deprimidas tendem a subestimar sua capacidade de influenciar o mundo ao seu redor.

Alloy e Abramson classificaram os voluntários, todos estudantes universitários, como deprimidos e não deprimidos com base em sintomas autorrelatados, e forneceram a cada pessoa um botão e uma luz que piscava de vez em quando. Então eles pediram aos voluntários que avaliassem quanto controle tinham sobre a luz quando pressionavam o botão.

O que descobriram foi surpreendente. Concluiu-se que as pessoas deprimidas tinham uma leitura mais precisa de sua capacidade de afetar os resultados. Assim nasceu a hipótese do “realismo depressivo” –a ideia de que às vezes as pessoas deprimidas têm uma visão mais realista de suas condições, porque estão livres do viés otimista de seus pares felizes.

Essa ideia, resumida no artigo original como “mais triste, mas mais sábio”, foi ensinada durante décadas a estudantes de psicologia e citada mais de 2.000 vezes por outros estudiosos. Também permeou nossa cultura, introduzindo a ideia de que a depressão, apesar de toda a dor, também pode oferecer alguns dons a seus sofredores.

Um estudo publicado este mês na revista Collabra: Psychology, por Amelia S. Dev e outros, questiona essa conclusão.

Recriando o experimento original, no qual os sujeitos deveriam avaliar se ao pressionar de botões eles afetariam a luz, a nova equipe de pesquisa não encontrou associação entre sintomas depressivos e viés de resultado.

Em uma amostra, os pacientes com mais sintomas depressivos superestimaram seu controle; na segunda, os sintomas depressivos não predisseram algum viés particular.

“Em duas amostras, não encontramos evidências de que os sintomas depressivos estejam ligados a um maior realismo”, disse o estudo.

Don A. Moore, um dos autores do novo estudo, disse que a equipe se uniu em torno da questão de saber se “ilusões positivas” podem melhorar o desempenho, e que isso os levou ao estudo de 1979.

“Seu impacto foi enorme, e tem sido difundido em tantos aspectos da pesquisa e da cultura pop que talvez seja difícil revertê-lo”, disse Moore, pesquisador psicológico e professor da Escola de Administração Haas da Universidade da Califórnia em Berkeley, sobre o estudo original.

Sob a influência dessa teoria, muitos psicólogos ensinaram que “um pouco de autoilusão é útil para percorrer a vida”, disse ele. “Você tem que acreditar em si mesmo um pouco mais do que a realidade permite.”

“O que sabíamos”, disse ele, “nos fez pensar se esse efeito se manteria.”

Uma meta-análise de 2012 de 75 estudos sobre realismo depressivo descobriu que o efeito geral do realismo depressivo era pequeno e que os resultados foram influenciados pela metodologia do estudo. Mas permaneceu uma noção tão bem estabelecida que “enfrentamos resenhistas céticos ao longo do caminho”, disse Moore.

“Se você está tentando refutar um falso positivo que conseguiu chegar à literatura, é um caminho íngreme”, disse ele.

Alloy, uma das duas psicólogas que projetaram o experimento original, disse em entrevista que não acredita que o novo trabalho constitua uma grande contestação ao realismo depressivo, porque a equipe de pesquisa não conseguiu replicar diretamente o experimento original de 1979.

“Quando eles dizem que fizeram uma replicação direta do nosso estudo, não fizeram”, disse Alloy, professora de psicologia da Temple University. “Não é uma grande contestação. As conclusões originais continuam válidas.”

Ela disse que as diferenças no desenho dos dois experimentos podem explicar a variação nos resultados. A nova equipe não encontrou uma “ilusão de controle” entre os indivíduos não deprimidos, como fez a equipe de 1979, o que ela disse ser incomum e dificultar a interpretação de quaisquer resultados.

A nova equipe pediu repetidamente aos participantes durante todo o experimento que avaliassem a probabilidade de a lâmpada se acender se eles pressionassem o botão, em vez de esperar até o final, como fizeram os pesquisadores originais. Além disso, disse ela, os novos pesquisadores pré-selecionaram os sujeitos para sintomas de depressão, em vez de rastreá-los no dia do experimento, então seu estado de espírito pode ter mudado nesse período.

Ela também disse que a equipe de pesquisa recriou apenas o segundo dos quatro experimentos do artigo de 1979, o que teve as descobertas menos robustas.

Finalmente, ela discordou da caracterização do realismo depressivo pelos pesquisadores, que, segundo disse, ocorre apenas sob certas condições.

“Simplesmente não é verdade que as pessoas deprimidas sejam mais precisas em sua percepção do mundo”, disse ela. “Essa é uma afirmação muito ampla e geral.” Estudos subsequentes identificaram condições em que o realismo depressivo estava presente, o que levou a “conclusões mais sutis e sofisticadas”, disse ela. “O que está por aí no público pode não ter seguido isso.”

Ao longo das quatro décadas desde que Alloy e Abramson publicaram seu artigo, a ideia “mais triste, mas mais sábio” não conduziu os tratamentos emergentes. Os médicos gravitaram para a terapia cognitivo-comportamental, que ajuda pacientes deprimidos a identificar distorções em seus pensamentos.

“Faríamos um desserviço ao cliente ao aceitar que o que ele diz é uma realidade, e não, por meio de um processo socrático delicado, pedir que ele explore e examine seu padrão de pensamento”, disse Allen Miller, psicólogo clínico do Beck Institute, que não participou do estudo.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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