A importância da cor rosa na arquitetura e design latino-americanos

Do México ao Brasil, o rosa é onipresente e não é à toa, veja o por quê
Por Sandy Sanches

Casas coloridas na cidade de Puerto Vallarta, no México — Foto: Getty Images

Na arquitetura, a seleção de cores é importante em todas as partes do mundo, mas talvez em nenhum lugar mais do que na América Latina. Cresci em um bairro do Texas onde os cinzas, marrons e beges predominavam, e era um grande contraste com as casas que eu via em El Salvador, onde ia frequentemente visitar parentes com a minha família. A casa do meu avô, por exemplo, era azul algodão doce, a casa do outro lado da rua era rosa choque, a casa ao lado era laranja. A cor estava em toda parte e – mesmo com pouca idade – isso me fez pensar por que a arquitetura nos Estados Unidos era tão incolor em comparação.

“A América Latina é um grande território geopolítico. A partir dele, surge a arquitetura eclética e psicodélica do arquiteto boliviano Freddy Mamani, e dos mexicanos Luis Barragán, Ricardo Legorreta e Mathias Goeritz, que também trazem suas paletas distintas”, explica o arquiteto especialista Sergio Alonzo. “Historicamente, a cor costumava representar hierarquia e status. Mas então a industrialização chegou, o turismo aumentou e os governos locais incentivaram o uso dessas cores históricas para atrair os visitantes”.

 Cuadra San Cristobal, de Luis Barragán — Foto: Getty Images
Cuadra San Cristobal, de Luis Barragán — Foto: Getty Images

Mesmo que algumas regiões tenham portarias do governo para usar cores fortes, os profissionais locais ainda precisam saber quais cores administrar. “Quanto mais arquitetos e designers souberem sobre a importância dessas cores, mais cuidado será para tomar as decisões certas”, diz Alonzo. “Para criar uma arquitetura que evoque emoções específicas nas pessoas, o arquiteto deve ser intencional e usar os tons com sabedoria.”

O Teatro Amazonas, em Manaus — Foto: Getty Images
O Teatro Amazonas, em Manaus — Foto: Getty Images

A cor rosa, em particular, teve um impacto significativo no design na América Latina. Luis Barragán, um dos arquitetos mais importantes no México, em colaboração com o artista Jesús Reyes Ferreira (também conhecido como Chucho Reyes), costumava usar rosa nas casas que projetava. Além disso, o artista Ramón Valdiosera inspirou a criação do termo ‘rosa mexicano’, que pode ser visto em todo o país em têxteisartesanatos, casas e até táxis.

O tom na parede da Cuadra San Cristobal é conhecido como "rosa Barragán" — Foto: Getty Images
O tom na parede da Cuadra San Cristobal é conhecido como “rosa Barragán” — Foto: Getty Images

Ainda há uma safra atual de criativos mexicanos que estão abraçando suas raízes culturais. O designer José Bermúdez, fundador do Studio Bermúdez e professor da Universidad Iberoamericana, observa a importância moderna da cor. “Na arquitetura, o rosa ainda dá um bom contraste – traz muita profundidade à atmosfera. Isso o torna atemporal”.

Casas com arquitetura colonial no Pelourinho, em Salvador — Foto: Getty Images
Casas com arquitetura colonial no Pelourinho, em Salvador — Foto: Getty Images

Na minha experiência, o rosa é uma cor que tende a transmitir suavidade, romance e delicadeza. Mas dependendo do tipo de rosa, também pode criar diferentes tipos de atmosferas. Ao passear pela casa-estúdio de Barragán, um edifício clássico da arquitetura e que foi reconhecido como patrimônio mundial pela UNESCO, a primeira coisa que se vê é uma parede rosa brilhante – um tom conhecido como rosa Barragán – e imediatamente sente-se paz.

Casa Luis Barragán, no México  — Foto: Divulgação
Casa Luis Barragán, no México — Foto: Divulgação

Os outros projetos do arquiteto também usam a cor aparentemente onipresente: a Casa Gilardi tem paredes rosa no pátio e a Casa Pedregal tem um exterior totalmente rosa claro, além de uma cozinha e corredores rosa. Como conta Mariana Esqueda Pérez, guia turística da Casa Pedregal, o arquiteto acreditava que o espaço ideal deve conter elementos de magia, serenidade, feitiçaria e mistério, e sua arquitetura, com a cor que ele escolheu, fez exatamente isso.

“A cor na América Latina é antiga – os maias, astecas e muitos de nossos ancestrais pintavam suas pirâmides e ornamentos de maneira colorida”, diz Bermúdez. Grande parte da distinção inicial na arquitetura latino-americana deveu-se ao fato de que os materiais regionais eram os mais prontamente disponíveis. Era difícil encontrar aço ou madeira estrutural (que eram muito usados ​​para construção nos Estados Unidos, por exemplo), então a maioria dos edifícios era feita com estuque e depois pintada. O estuque era de fácil acesso e um material respirável, o que era ótimo para cidades mais quentes que precisavam lidar com o calor.

Casa colonial em Laguna, Santa Catarina — Foto: Getty Images
Casa colonial em Laguna, Santa Catarina — Foto: Getty Images

“O chamado Chukum, um estuque à base de calcário, foi usado pelos maias, e agora está sendo usado novamente em Yucatán, no México. O calcário pode matar certas bactérias, então há vários motivos para continuar construindo com ele”, explica o designer. Pintar sobre esse material também torna os edifícios brancos menos brilhantes sob o sol.

Assim, também vemos como a arquitetura é algo muitas vezes muito pessoal. Se alguém perguntasse às pessoas em cidades menores, elas dariam uma resposta diferente sobre por que tudo é tão colorido. Existem bairros em cidades da América Latina onde não existe endereço residencial – por causa disso, os moradores recorrem à cor para obter orientação. E de todas as cores, eles concordam que o rosa é a mais predominante, pois faz parte de sua cultura. Para muitos, o rosa não é uma tendência – é uma tradição atemporal!

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