Como Harry Styles virou um dos homens mais desejados do mundo

Astro do pop arrasta multidões em shows apesar de ser acusado de tentar se promover e aparecer à custa da comunidade gay
Teté Ribeiro

Harry Styles – Foto: Divulgação

SÃO PAULO – A empresária do ramo de produtos têxteis Maria Cecília Casari, a Ciça, de 50 anos, se lembra exatamente de como descobriu Harry Styles. “Eu costumava deixar a TV ligada à noite naqueles programas de competição de música, tipo The Voice”, contou. Gostava mais dos americanos.

“Nem prestava muita atenção, era só para relaxar mesmo. Mas uma noite ouvi uma música de fundo que achei bonitinha e fui saber quem cantava. E aí descobri o One Direction, a banda que revelou o Harry Styles”, disse. “O grupo já tinha até acabado, mas fiquei fascinada, quis saber tudo”.

Casari passou a noite em claro na frente do computador conhecendo os videoclipes, vendo entrevistas e assistindo ao documentário “This Is Us”, que conta a história dos cinco garotos.

One Direction foi uma boy band formada pelo produtor e apresentador britânico Simon Cowell, de 63 anos, criador de vários reality shows de talentos musicais. Na sétima temporada de The X-Factor, que passou na TV no Reino Unido e na Irlanda, em 2010, Harry Styles, então com 16 anos, se apresentou como um dos aspirantes.

Não foi premiado, nem sequer classificado para as rodadas finais, mas Cowell logo viu que o tal “fator X” que ele tanto buscava em seus programas estava abundante ali na sua frente, naquele adolescente maltrapilho e carismático que cantava mais ou menos. Então propôs que Styles se juntasse a outros quatro garotos que também concorriam no programa e formassem um grupo.

A 1D, como os fãs se referem à banda, foi um produto friamente construído para o consumo rápido, mas provocou um tipo de fanatismo inédito até então, e fortemente apoiado na internet. Durou até 2016, quando os meninos decidiram seguir cada um o seu caminho. Juntos, lançaram cinco discos, fizeram shows em estádios lotados de meninas adolescentes ou muito jovens pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil, e despertaram um nível de tietagem quase Beatlemaníaca.

Harry Styles sempre foi a maior estrela do 1D, desde o primeiro ensaio. Ele se destacava dos outros garotos pelas roupas que usava, mais ousadas, pelo rosto mais bonito, pelo cabelo incrível, pelo carisma, pelo senso de humor e pelo sex appeal.

Enquanto os outros integrantes da banda eram garotinhos inofensivos, Styles demonstrava desde cedo o interesse em ampliar os horizontes sexuais. Saiu da competição de talentos namorando uma das juradas, Caroline, de 32 anos.

A primeira impressão de Casari, a empresária do ramo têxtil, ao ver o documentário foi que aqueles garotos “fofos” tinham músicas “fofas”, e ela provavelmente teria sido uma fã se os conhecesse na adolescência. Mas, aos poucos, foi sendo dominada por uma sensação de encanto muito realista.

Não era mais a Casari adolescente que estava imaginando o quanto teria gostado daqueles meninos, principalmente daquele menino em particular, mas a mulher de 45 anos, de 2017, já feita, que estava caindo de amores.

“O Harry Styles se destacava muito desde sempre. Ele é doce, divertido, é impossível não prestar atenção nele”, diz a empresária. “Naquela noite que passei em claro, foi como se eu tivesse entrando em contato com uma emoção muito pura e que me deixava muito tranquila. Não é à toa que a banda fez o sucesso que fez, milhões e milhões de pessoas precisavam daquilo naquele momento.”

E, desde que saiu em carreira solo, há cinco anos, com o álbum “Harry Styles”, da Columbia Records, que tem um de seus maiores hits, a música “Sign of the Times”, Styles juntou aos milhões de fãs que trouxe dos tempos de 1D, que cresceram junto com ele, o que parece ser todo o resto do mundo.

E a força coletiva de fãs como os de Harry Styles, que agora conta com gente (a maioria ainda é de mulheres) de todos os jeitos e todas as idades, é um fenômeno que deve ser levado a sério. Uma força como essa é capaz de transcender a óbvia influência na indústria do entretenimento e influenciar o noticiário, a economia, a política. Basta lembrar o julgamento de Johnny Depp e a campanha difamatória contra Amber Heard feita pelas fãs do ator nas redes sociais.

Styles compõe suas músicas, que, talvez até ele mesmo saiba, não são a atração principal desse fenômeno. Segundo Casari, “Harry Styles é bom de ver, dançar junto, ir nos shows”. “Ele se diverte no palco e se surpreende com o tamanho do público tanto quanto o público se surpreende com a presença dele. É um encontro muito gostoso, leve, ele parece muito sincero, natural.”

E jovem. Não adianta tentar explicar o fenômeno Harry Styles sem aceitar que o fator idade ou novidade conta, sim, imensamente.

Há de haver outras explicações, claro, nem todo moço simpático e bonitinho arrasta multidões. Harry Styles tem o tal do “je ne sais quoi” que nem eu nem ninguém sabe dizer o que é, não vende no mercado e não se aprende nem na escola nem na rua. Mas ele tem para dar e vender, desde o primeiro teste no tal reality show. É inegável.

se veste de maneira cada vez mais excêntrica, tem uma amizade de anos que virou uma colaboração com Alessandro Michele, diretor criativo da grife italiana Gucci, que desenha para o músico as roupas mais extravagantes possíveis, sejam figurinos de suas turnês ou as que ele exibe nos tapetes vermelhos que frequenta cada vez mais.

Declara que sua sexualidade não é rotulável (apesar de só ter namorado mulheres, que se saiba), entra no palco enrolado com a bandeira do arco-íris desde os tempos de 1D (ou seja, essa bobagem de queerbaiting é só isso mesmo, uma bobagem), foi o primeiro homem a sair na capa da revista americana de moda Vogue, em 2020 e, no ensaio de dentro, modelou saias e vestidos para comprovar a tese de que “roupas não têm gênero”.

Mas David Bowie não fez tudo isso (e muito mais) nos anos 1970? Elton John? Freddie Mercury? Mick Jagger? Marilyn Manson? Alice Cooper? Kurt Cobain? Alguns desses nomes ainda estão entre nós, vivos e chutando, como no hit da banda Simple Minds dos anos 1980.

“Ele não tem essa bagagem trash de anos e anos de drogas, nunca teve um período dark na vida, é um cara feliz, que quer ver todo mundo feliz, quer que se sintam à vontade para fazer o que quiserem”, arrisca Casari, a empresária.

E o que as pessoas querem fazer, afinal? Bem, as que lotam os shows dele, que está em turnê pelo mundo divulgando seu terceiro álbum, “Harry’s House”, lançado em maio, parece ser exibir a total devoção pelo ídolo. Muitos usam roupas que remetem a looks que Styles desfilou em ocasiões anteriores.

A saia xadrez preta e amarela do Grammy do ano passado. A camiseta listrada cor-de-rosa e laranja e calça de couro branca do show em Cracóvia, na Polônia. A camiseta branca com um coração vermelho bordado no peito do show em Estocolmo, na Suécia.

Casari prefere ir aos shows com roupas confortáveis para poder dançar. Foi assim em 2018, quando Harry Styles fez a primeira apresentação solo no Brasil, cujos ingressos esgotaram em minutos e ela não conseguiu comprar.

Se viu obrigada a implorar por uma credencial de jornalista para não ficar de fora do evento. Mas, para isso, teve que ser jornalista por um dia. Conseguiu. Foi ao show e, na volta, escreveu uma reportagem para a Ilustrada, um dos únicos cadernos culturais que fizeram cobertura do evento.

Harry Styles vestia camisa bufante dourada, laço no pescoço, colete e calça preta em São Paulo naquele dia 30 de maio. Vinha do Rio de Janeiro, onde tinha se apresentado de terno verde e amarelo. “Ele fica chique com qualquer roupa, é bonito, charmoso, elegante e mede 1,83 metro”, escreveu a fã na reportagem, em que afirmava que preferia o visual mais despojado da época da boyband.

Mas esse tempo passou. Harry Styles não é mais um entre cinco menininhos bonitos. Agora, além de uma carreira sólida como músico, tem três longas metragens no currículo. No primeiro, de 2017, o drama de guerra “Dunkirk”, de Christopher Nolan, tinha uma participação especial.

Em “Não Se Preocupe, Querida”, lançado mês passado, tinha o principal papel masculino. E ainda conquistou o coração da diretora, Olivia Wilde, dez anos mais velha, com quem namora desde que filmaram juntos.

Essa história, aliás, deu origem a tantas fofocas de bastidores que não se sabe dizer se o filme foi bem de bilheteria porque agradou mesmo ao público ou se o público só foi ao cinema porque os fuxicos eram suculentos demais para resistir.

Agora, em “My Policeman”, dirigido por Michael Grandage, faz o personagem ao redor do qual tudo acontece, o policial do título. Ele não estava disponível para as entrevistas de divulgação do filme, feitas por Zoom. Segue lotando estádios por aí com a “Love on Tour”, como batizou sua turnê.

O show chega a São Paulo em 6 de dezembro. Os ingressos esgotaram em minutos assim que ficaram disponíveis para compra online. Foi anunciada uma nova data, no dia 13 de dezembro. De novo, tudo vendido rapidamente. Uma terceira apresentação foi incluída, no dia seguinte, que também já está lotada.

Mas Casari, a empresária e fã, ficou esperta. Dessa vez, conseguiu comprar ingressos para todas as noites. Mesmo porque, a essa altura, não iria sobrar nenhuma credencial para jornalista em nenhum caderno de cultura que se preze.

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