Segunda temporada de ‘The white lotus’ promete tratar de riqueza e privilégio com acidez

Por Patrícia Kogut

Cena da segunda temporada de ‘The White Lotus’ – Foto: HBO

Acabou a espera. Após uma pausa durante a qual faturou os Emmys de melhor minissérie, roteiro e direção (para o criador Mike White), ator (Murray Bartlett) e atriz coadjuvante (Jennifer Coolidge), “The White Lotus” está de volta. O segundo episódio vai ao ar esta noite, às 22h, na HBO.

Passada a primeira temporada no Havaí, a história se transferiu para a Sicília. Há paisagens espetaculares e aquela deliciosa ambiance construída nos detalhes. Refiro-me à fotografia deslumbrante; à música italiana; às cabeças de cerâmica típicas da região que se tornam quase personagens da trama, as teste di moro; e aos afrescos com as imagens de Leda e o Cisne na vinheta de abertura. Cada objeto contribui para abraçar e seduzir o espectador.

Porém, não à toa, o precipício das falésias ronda o hotel que dá nome à história. O público sabe que acompanhará um grupo de turistas que comprou um pacote de viagem de uma semana. E que, de alguma forma, tudo acabará mal para eles.

O elenco mudou, com exceção de Jennifer Coolidge, a bilionária Tanya. Figura melancólica, ela agora está casada com Greg (Jon Gries), que conheceu no Havaí. Ele a trata mal e a critica. No primeiro episódio, somos apresentados ainda ao financista Cameron (Theo James) e à sua mulher, Daphne (Meghann Fahy). Os dois são a expressão da elite insensível: afirmam evitar o noticiário (“o mundo tem problemas demais, não dá para ficar obcecado”), e ela “não se lembra se votou”. Um casal viaja com eles, o nerd Ethan (Will Sharpe) e a advogada de causas trabalhistas Harper (Aubrey Plaza), é promessa de desavença. A tensão e o mal-estar entre o quarteto se estabelece de saída.

Há ainda um avô, Bert (o vencedor do Oscar F. Murray Abraham), o filho, Dom (Michael Imperioli, de “Sopranos”), e o neto, Albie (Adam DiMarco). Eles chegam à Sicília para conhecer a cidadezinha de uma antepassada italiana. Esse núcleo é marcado pelos contrastes entre comportamentos masculinos através das gerações. Bert assedia todas as moças abertamente; Dom está separado da mulher, que o odeia; Albie, doce e conciliador, se choca com o avô. É na mesa de jantar deles que a qualidade dos diálogos chama mais atenção. Acontece quando conversam sobre a idade e a virilidade, numa deliciosa mistura de ironia fina com drama. Há ainda atores locais, como Sabrina Impacciatore, a Valentina, gerente do hotel.

Se na temporada passada o tema central foi o identitarismo, agora, a julgar pela estreia, o privilégio e a riqueza estarão na arena, assim como as políticas morais do nosso tempo. Já na primeira cena, que se desenrola “uma semana mais tarde”, a morte misteriosa de alguém anuncia a trama de suspense. Quem morrerá e quem matará mais uma vez é o que vira a chave da eletricidade do enredo. A lótus branca é símbolo de pureza, mas floresce no lodo. A mistura de paraíso e terreno podre é a receita dessa série que merece toda a sua atenção.

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