Elon Musk: no Twitter, ele demitiu pessoa enquanto ela dormia e por e-mail. Há razão nisso?

Especialistas ouvidos pela EXAME comentam o que o episódio do Twitter tem a ensinar sobre desligamentos em massa
Luciana Lima

Elon Musk, novo dono do Twitter: cortes em massa começaram a acontecer desde sexta-feira, 4 (AFP/AFP Photo)
Elon Musk, novo dono do Twitter: cortes em massa começaram a acontecer desde sexta-feira, 4 (AFP/AFP Photo)

Mesmo antes que o bilionário Elon Musk concluísse a compra do Twitter por US$ 44 bilhões no final de outubro, não faltavam rumores de que o excêntrico fundador da Tesla tinha planos de realizar uma demissão em massa na rede social.

Algo que, de fato, começou a se tornar realidade na última sexta-feira, quando cerca de 3,7 mil pessoas foram desligadas do Twitterincluindo trabalhadores do escritório no Brasil. Desde então, não faltam relatos de funcionários pegos de surpresa ou incomodados com o tratamento que receberam da rede social no momento da despedida.

O engenheiro de software, Jaseem Abid, publicou um tuíte dizendo ter sido demitido pelo Twitter “enquanto dormia”. Segundo o relato, o profissional acordou na manhã de sexta-feira, 4, e percebeu que estava com acessos cortados ao e-mail corporativo e Slack. O e-mail formal comunicando a demissão de Abid viria horas depois.

Outro profissional, dessa vez um membro do time de parcerias do escritório de Londres, Chris Younie, também relatou ter descoberto que havia sido demitido após perceber que o acesso ao seu laptop corporativo havia sido bloqueado.

Os cortes aconteceram de forma tão abrupta e muitas vezes inesperada que pelo menos um funcionário foi bloqueado dos sistemas da empresa durante uma reunião online para tratar do Twitter Blue, modelo de assinaturas que Musk pretende implementar na rede social.

Alguns funcionários foram recontratados após a direção da empresa perceber que haviam sido demitidos por engano ou que eram necessários para o negócio.

Demissões no Twitter aconteceram por e-mail

Algo que chamou a atenção foi a forma como os funcionários do Twitter foram comunicados sobre os cortes, na última quinta-feira, 3. De acordo com o jornal Le Monde, todos os 7 mil funcionários receberam um e-mail, sem assinatura, que dizia o seguinte:

“Às 9h PST de sexta-feira, 4 de novembro, todos receberão um e-mail individual com o assunto: Sua função no Twitter. (…)”.

Depois continuava: “Se seu emprego não for afetado, você receberá uma notificação por meio de seu e-mail corporativo. Se o seu emprego for afetado, você receberá uma notificação com os próximos passos por meio de seu e-mail pessoal.”

Não existe jeito fácil de desligar funcionários, isso é fato. Mas especialistas em gestão de pessoas são unânimes em dizer que é preciso cuidado e empatia por parte das empresas para tornar o processo de demissão menos traumático. E que isso, na maioria das vezes, é incompatível com um memorando enviado por e-mail.

De acordo com Tatiana Iwai, professora de comportamento organizacional na escola de negócios Insper, o primeiro passo começa por uma comunicação clara e transparente, de preferência individual.

“Fazer demissões em lotes é algo muito impessoal, que deve ser feito em último caso. As empresas não contratam funcionários em lotes. Por que demitir assim? Fora isso, esse contexto massivo dificulta que existiam os elementos necessários para que a demissão aconteça com dignidade, que é a clareza nos motivos e critérios para o corte, além de espaço para a pessoa se sentir ouvida”, diz.

Com o avanço do home office, assim como o Twitter, muitas empresas têm utilizado as plataformas digitais para o desligamento, inclusive para demissões em massa. A prática ganhou até nome “zoomfire”.

Fernanda Medei, CEO e fundadora da Medei, plataforma de gestão especializada em desligamentos, entretanto, salienta que os cuidados na hora de desligar devem ser tomados independentemente do meio que está sendo usado.

“É possível fazer uma demissão humanizada no online da mesma forma que no presencial. Mas para isso é preciso ter os mesmos cuidados, como a forma como você dará a notícia, o tom de voz utilizado e as razões por trás de cada demissão”, afirma.

A especialista cita, por exemplo, o caso de uma empresa de meios de pagamento que teve de demitir 20% do time, cerca de 1,2 mil pessoas, durante a pandemia. Na ocasião, além da empresa estender uma série de benefícios, a notícia foi comunicada pelo CEO e, posteriormente, gestores fizeram reuniões individuais com os funcionários que seriam desligados.

A importância de o CEO comunicar a notícia é outro ponto defendido pelos especialistas. Em maio de 2020, o CEO e cofundador do Airbnb, Brian Chesky, escreveu uma carta aberta a todos os funcionários quando a startup teve de cortar 25% do quadro por causa da pandemia. A empatia demonstrada por Chesky fez com que ele se tornasse referência de boas práticas quando o assunto é demissão.

“Demissões em massa é um dos momentos mais importantes e que mexem não só com o presente, mas com o futuro da empresa. O CEO da companhia, então, precisa personificar a organização e se colocar mostrando respeito e empatia, inclusive, para garantir o engajamento de quem ficou”, diz Tatiana, do Insper.

Além do engajamento de quem ficou na companhia, o cuidado na hora da demissão é importante não só para marca empregadora das empresas como também para a mensagem que ela quer passar para os consumidores.

“Grandes cortes sempre acabam caindo na mídia. E, agora, os funcionários vão para as redes sociais. Dependendo do contexto, demissões malfeitas geram um problema para a marca empregadora e consumidora, com clientes questionando o tratamento dado aos funcionários pela empresa”, diz Fernanda, da Medei.

Os desdobramentos da ruidosa demissão em massa promovida por Musk à frente do Twitter já começam a aparecer. Segundo a Bloomberg, trabalhadores entraram com uma ação coletiva contra a empresa alegando que o Twitter descumpriu regras de aviso prévio, previstas em leis federais e da Califórnia.

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