Consciência: 3 executivos negros contam como venceram obstáculos e chegaram ao topo

Agora, esses líderes de grandes empresas trabalham para ampliar o acesso de profissionais pretos e pardos a melhores oportunidades
Por Depoimentos A Ana Carolina Diniz — Rio de Janeiro

Debora Mattos, diretora de Operações da Coca-Cola Brasil Divulgação – Foto: Divulgação

‘Suporte dos meus pais foi fundamental para eu alcançar a posição que tenho hoje’

Debora Mattos, gerente-geral da Coca-Cola EM Chile, Bolívia e Paraguai

Debora Mattos, executiva da Coca-Cola. Especial Diversidade  — Foto: Divulgação
Debora Mattos, executiva da Coca-Cola. Especial Diversidade — Foto: Divulgação

Este foi um ano marcante e um dos mais desafiadores da minha vida. Tive a chance de sair do Brasil para liderar três grandes operações da Coca-Cola, no Chile, na Bolívia e no Paraguai. Além da oportunidade de conviver com distintas culturas, estou aprendendo muito com as formas de pensar, diferentes idiossincrasias. Essa vontade de me conectar com outras pessoas me ajudou a desenvolver minha liderança: acabo inspirando e liderando desta forma. Certamente, minha família foi fundamental para isso.

Meus pais sempre me deram suporte, mesmo não vindo de uma família abastada. Meu pai se apertava para pagar cursos de idiomas para eu entrar em um bom colégio e me preparar para o vestibular. Foi realmente fundamental para eu alcançar a posição que tenho hoje. Sei que isso me torna uma inspiração para outras pessoas negras, mas nem sempre tive esse entendimento.

Em 2014, tínhamos uma das primeiras turmas de Jovens Aprendizes da Coca-Cola Brasil, só com pessoas negras. Eu estava no refeitório e eles me convidaram para um bate-papo mensal que faziam com uma liderança da empresa. Quando cheguei diante de uma roda enorme, todos me elogiaram muito, falaram do meu cabelo. Muitos disseram se lembrar de mim desde a primeira vez que entraram no refeitório e me viram.

Foi ali que me vi nos olhos deles, que me serviram de espelho. Para mim, hoje, meu papel é muito claro: abrir e manter as portas abertas para que mais pessoas diversas entrem e ocupem espaços de poder.

O racismo está presente não só no mundo corporativo. Toca nossas vidas em todos os momentos, como numa ida ao cinema. Mas fico cada vez mais feliz com o movimento que as empresas no mundo têm feito de se posicionar contra o racismo, deixando de tratar esse assunto como tabu.

As empresas precisam refletir a sociedade em que a gente vive, e , no Brasil, 56% da população são de negros. Poder falar sobre isso e saber que a gente tem que atuar para mudar me deixa crente de que o cenário vai mudar.

Em todos os lugares me apresento como Debora, uma mulher negra. Isso desperta o olhar das pessoas. E para mim essa é a minha responsabilidade: trazer visibilidade para o tema.

‘Busquei uma diferenciação nos estudos para furar a bolha’

Solange Sobral, vice-presidente de Tecnologia da CI&T

 Solange Sobral — Foto: Divulgação
Solange Sobral — Foto: Divulgação

Decidi trabalhar com tecnologia ainda aos 9 anos, em Promissão, no interior de São Paulo. Vi no estudo uma alavanca que poderia transformar minha realidade. Hoje, aos 50, vejo o quanto aquela menina sonhadora estava certa, e também o suporte que tive para chegar até aqui.

Sinto-me realizada profissionalmente e ao mesmo tempo responsável pelos temas diversidade e inclusão, para ajudar a abrir portas para grupos não representados nas empresas.

Se nos aprofundarmos nas estatísticas, veremos taxas muito baixas de pessoas negras nas empresas, e menores ainda nas posições de liderança. Sendo bem transparente, para os negros, a evolução no setor de tecnologia continua a passos lentos. O racismo ainda existe, mesmo que de forma sutil ou velada, nos ambientes corporativos. Todos temos nossos vieses, presentes nas nossas decisões do dia a dia.

Minha história tem traços similares aos de outras mulheres e pessoas negras nos ambientes sociais e corporativos. Ao longo da jornada, fui aprendendo a ser resiliente e a focar mais no meu potencial que nos julgamentos. Mas não é simples.

Desde pequena, pela forma “diferente” como sempre fui tratada, entendi que as coisas seriam mais difíceis para mim. Busquei uma diferenciação nos estudos, o que foi muito acertado, permitindo que eu furasse a bolha. Mas, a minha é apenas mais uma de muitas histórias heroicas que hoje luto para que sejam cada vez menos necessárias.

Precisamos desequilibrar a ordem “natural” atual de oportunidades e abrir mais espaços para pessoas que nunca chegariam onde estamos, não porque não são capazes, mas simplesmente porque a porta não lhes foi aberta. Muito do que faço hoje tem a ver com o entendimento da minha responsabilidade como mulher negra num cargo de alta liderança numa empresa de tecnologia. Meu intuito é que os jovens negros olhem para mim e vejam que, sim, é possível. Mas isso apenas não resolve o problema.

Quero transformar ambientes corporativos para que espaços e oportunidades sejam abertos. Incluo entre os jovens os meus três filhos. Não posso trabalhar sem buscar ao menos deixar como legado espaços mais inclusivos e humanos para as próximas gerações. É minha missão profissional mais nobre.

‘Comecei a perceber melhor o racismo americano quando comecei a subir de cargo’

Moisés Nascimento, diretor de Dados do Itaú

 Moisés Nascimento — Foto:  Divulgação
Moisés Nascimento — Foto: Divulgação

Quando saí do Brasil, no início dos anos 2000, não se falava muito sobre racismo. Se olharmos a linha do tempo, não tivemos afirmação de reparação histórica até este período. Saí de um Brasil baseado no mito da democracia racial, onde tive que construir minha carreira em silêncio. Estava trabalhando no Vale do Silício, na Califórnia (EUA), quando recebi o convite do banco em 2019. Pensei muito em propósito para este retorno ao país.

Além da missão executiva, dividi este propósito em dois. O primeiro era ajudar a fomentar no Brasil a transformação digital em prol de uma indústria de tecnologia mais competitiva. Essa transformação vai acontecer no país por um processo de capacitação inclusiva, porque se não incluirmos pretos e pardos não vamos conseguir suprir a mão de obra necessária para esse processo.

O segundo ângulo era trabalhar por diversidade e inclusão no contexto brasileiro. Para mim, transformação digital e diversidade estão intimamente relacionados.

No Brasil, eu sofria discriminação, mas, ao mesmo tempo, ouvia que não existia. Nos EUA, isso é mais explícito. No contexto corporativo, comecei a perceber melhor o racismo americano quando comecei a subir de cargo. Eu era o único afrodescendente latino na sala. É solitário.

A falta de representatividade nos afeta de várias formas. Mas entendo que as questões raciais só vão ser resolvidas com o tempo, como resultado do que plantamos hoje. Começamos a plantar maior diversidade na base da pirâmide, nas universidades, nos cargos de entrada das empresas, como os trainees. Gosto muito do termo “hackear” o sistema para que a mudança aconteça.

Já fiz um exercício e acho que não teria chegado tão longe se tivesse feito minha carreira no Brasil. Minha experiência internacional foi fundamental. Aperfeiçoou meu inglês e me deu uma vivência do mundo que não tive como homem negro periférico, vindo de uma família simples. Todo este processo de vida — minha ida para fora como consultor internacional, meu trabalho no Vale do Silício — somou no meu currículo para que eu conseguisse voltar como executivo de uma grande empresa. Acho que se tivesse ficado aqui minhas oportunidades teriam sido menores.

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