Jornalista e influenciadora de moda Luiza Brasil mergulha em sua própria trajetória em livro: ‘Registro de uma geração’

Jornalista e influenciadora de moda fala sobre negritude, feminismo e autoestima em publicação que chega às livrarias em dezembro
Por Eduardo Vanini

A capa do livro de Luiza Brasil — Foto: Divulgação

Os pais de Luiza Brasil chegaram a sonhar que a filha fosse diplomata. Aos 34 anos, porém, ela seguiu por vias paralelas ao Itamaraty, como jornalista e produtora de conteúdo ligado à moda, com o perfil @mequetrefismos seguido por 130 mil pessoas no Instagram. Nada disso a impediu de botar os pés na sede da ONU, em Nova York, no mês passado. Convidada para uma visita guiada, graças aos trabalhos que faz como influenciadora, ela diz ter se familiarizado imediatamente com aqueles corredores. “Estudei cinco idiomas e me senti muito pertencente àquele lugar”, afirma a niteroiense, acostumada a viver “diplomaticamente” em seu dia a dia. “Transito entre pessoas muito ricas, mas também convivo com pessoas simples e me comunico de igual para igual com todas.”

Um dos nomes mais conhecidos da moda contemporânea no Brasil e frequentadora das primeiras filas mais disputadas do mundo, Luiza “chegou lá”. Mas fez isso a bordo de um voo com as escalas indesejadas, impostas pelo racismo estrutural que assola o Brasil. Por isso, “Caixa preta”, sua primeira publicação que chega às livrarias no próximo dia 1º pela Globo Livros, não se furta a tocar nas feridas, do mesmo jeito que oferece um olhar generoso sobre as suas conquistas. “As pessoas têm um desconforto com imagens de mulheres negras em ascensão. Quando você subverte essa lógica, fala que quer conforto, prosperidade e gosta de coisas boas, é revolucionário”, diz. “O livro vem de um lugar de falar de vivências, e não de sobrevivência. E isso é o mais importante de publicá-lo neste momento.”

A jornalista Luiza Brasil — Foto: Divulgação

Boa parte do conteúdo é inspirada nos textos publicados nos últimos anos por Luiza na revista Glamour, onde assina a coluna “Caixa Preta”. Ao revisitá-los, a jornalista pôde observar como ela própria mudou no decorrer do tempo, o que a levou a reflexões ainda mais contundentes. Os textos sobre afetividade, escritos enquanto atravessava o término de um namoro, estão entre os mais íntimos. “Até o fechamento da edição deste livro, posso contabilizar na minha vida amorosa um total de oito namorados”, escreve, antes de completar: “(…) chega a ser um marco na vida de uma mulher negra, sempre tão atravessada pela solidão.”

Como boa millennial, ela também abre o jogo sobre experiências com mulheres. “Eu me vejo muito fluida e à vontade para experimentar diferentes relações”, diz Luiza que, no livro, brada palavras como: “Que realizemos, enquanto mulheres negras, a proeza de experimentarmos novas formas de amar sem culpa”.

Luiza e o estilista Olivier Rousteing — Foto: Reprodução/Instagram
Luiza e o estilista Olivier Rousteing — Foto: Reprodução/Instagram

Em meio a pensamentos tão pessoais, o mundo fashion, que a autora conhece a fundo, acabou ficando para outro título. “Antes de publicar um livro de moda, queria fazer esse, que é o registro de uma geração. Sempre encarei meu conteúdo como uma produção educativa. Portanto, acho importante ter esse olhar documentado.”

As lentes pelas quais a moça enxerga o mundo são, de fato, um de seus maiores trunfos, como reconhece a consultora de estilo e branding Renata Abranchs, com quem Luiza trabalhou no início da carreira, como cool hunter do blog Rio Etc. “Ela conseguia captar grandes personagens, porque sempre teve um olhar muito apurado que ia além da imagem e acessava dimensões políticas ou espirituais”, descreve.

Em São Paulo, com a atriz Zezé Motta — Foto: Reprodução/Instagram
Em São Paulo, com a atriz Zezé Motta — Foto: Reprodução/Instagram

Das ruas do Rio aos aeroportos do mundo, Luiza acabou se aproximando de outras mulheres negras que têm marcado a história contemporânea, como a atriz Taís Araujo e a filósofa Djamila Ribeiro, com as quais compartilha admirações mútuas. A bailarina Ingrid Silva também está na lista. “Acho de extrema importância o trabalho que ela exerce na moda há anos e a pessoa que representa, não só para mim, mas para tantas outras meninas e mulheres”, elogia a brasileira que vive nos Estados Unidos.

Ser inspiração, por sua vez, requer cuidados, e Luiza não foge da responsabilidade. No livro, ela conta como aprendeu a investir em si com ajuda de sessões de análise e jamais deixou de manter os pés no chão. Criada num ambiente de classe média alta, seus primeiros salários e ganhos extras foram usados para pagar cursos, equipamentos e viagens de férias usadas para ampliar horizontes. “Só depois de jogar essas sementes no chão e solidificar a minha base comecei a comprar a bolsa e o sapato caros”, diz. “Acho importante dizer isso porque vejo uma juventude invertendo essa lógica, como se você só fosse ter sucesso se tivesse a bolsa tal. Aí, vira um caminho meio vazio.”

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