The Cult: ‘Há muita música fantástica fora de clubinhos como a MTV ou o Grammy’

Ian Astbury, cantor do grupo inglês, fala do novo álbum da banda e da admiração pelo Brasil: ‘Adoro Neymar, Eu o vejo com a Copa do Mundo nas mãos’
Por Bernardo Araujo – O GLOBO — Rio de Janeiro

Ian Astbury (à esquerda) e Billy Duffy, do grupo inglês The Cult – Foto: Divulgação

O meio ambiente, os povos nativos, os animais, o misticismo e a natureza sempre estiveram no radar de Ian Astbury, cantor que divide o grupo The Cult com o guitarrista Billy Duffy há quase 40 anos. Músicas como “Wild-hearted son” (“Filho de coração selvagem”), “Sun King” (“Rei Sol”) e discos como “Ceremony” (“Cerimônia”), com a imagem de um menino indígena na capa, servem como cartas de intenções. A bordo de um novo disco, no mundo pós-pandêmico, Astbury, aos 60 anos, parece ter dado uma radicalizada.

— O mundo mudou muito — diz ele, em entrevista por vídeo do interior do ônibus da banda, na porta do Warfield, lendária casa de shows em São Francisco, onde o Cult iria se apresentar. — Esta cidade, cidade que frequentamos há décadas (ele mora em Los Angeles desde o fim dos anos 1980), é uma que sofreu muito com a pandemia. Grupos de pessoas morando na rua, violência, prédios cercados. Estive em Portland, no Oregon, há poucos dias. Sempre foi uma das cidades mais pacíficas do mundo, agora acontecem tiroteios toda noite.

Uma menção do repórter ao chamado Terceiro Mundo é interrompida por ele (que não precisa muito ouvir perguntas, sai falando naturalmente) com alguma rispidez:

— Por que terceiro? Onde é o primeiro? Os Estados Unidos não são o primeiro mundo, pode ter certeza. São um país que está lutando para botar comida na mesa. O Reino Unido, com certeza, também não. Eu morei nas ruas de Londres quando era garoto. Não me interessava minimamente saber em qual mundo estava, só precisava comer.

Tá bom, Ian, mas… e o disco novo, hein?

— De certa forma, tivemos sorte — começa ele. — Estávamos gravando as demos em março de 2020, logo antes do lockdown. Billy e o nosso produtor, Tom Dalgety, foram para o Reino Unido trabalhar no estúdio lá, e acabamos fazendo o trabalho separados, porque eu não pude sair de Los Angeles.

Oficialmente o Cult é um duo, com músicos convidados nos shows e gravações. Em “Under the midnight sun”, o experiente Charlie Jones (de trabalhos com Robert Plant e Goldfrapp) pilotou o contrabaixo, e a bateria ficou com Ian Matthews, do Kasabian (ao vivo, as baquetas são de John Tempesta). Antes mesmo de lançar o disco, o Cult aproveitou o verão americano e saiu em turnê com o Bush e os Stone Temple Pilots. Foi tudo bem, segundo Astubry, mas ele não se sente parte da mesma indústria do que os companheiros de estrada.

— Foi chatíssimo — resumiu. — Uns 30 shows em 37 dias, você não tem tempo para nada. Os caras do Bush e do STP são legais, foram ótimos conosco, mas eu prefiro sair em turnê com artistas que não fazem parte desse sistema. Tem muita música fantástica sendo feita pelo mundo, fora de clubinhos como a MTV ou o Grammy. Nós estamos florescendo, lançando músicas novas… Quer dizer, o Bush lançou um disco este ano também (“The art of survival”). Mas, ainda assim, não é muito a nossa. Nós não entregamos entretenimento, fazemos cada show como se fosse o último.

Mais melancólico dos que habituais discos elétricos do Cult, “Under the midnight sun”, chama a atenção pelos arranjos de cordas.

— Gravamos com uma orquestra de Praga — anuncia. — Acho que as cordas emprestam essa melancolia ao som, ao lado das guitarras de Billy, sempre marcantes. Sempre tenho uma orquestra tocando na minha cabeça.

No momento, a banda e seu escritório planejam os shows de 2023, que, no que depender dele, passarão pelo Brasil.

— Queremos voltar aí nos primeiros meses do ano, no verão de vocês — diz. — Estamos montando uma turnê europeia para o meio do ano, então o ideal seria irmos aí logo. Não sei se conseguiremos ir à Argentina, por causa da economia e dos custos da turnê, mas queremos tocar no Chile, na Colômbia e em lugares como a Costa Rica, a Nicarágua e o Uruguai, que é incrível.

E o Brasil?

— Seu país é um dos meus favoritos no mundo — define. — Meu pai esteve aí no Rio nos anos 1950 com a Marinha Mercante inglesa, e sempre me contava histórias do Rio, de brigas em bares e confusões que ele arrumava. Era um período muito importante na vida dele.

Ele diz que quer tocar — se a economia permitir, sempre frisando — em outras cidades brasileiras, além das habituais como Rio, São Paulo e Curitiba.

— Quero ir a Manaus, nunca fui! — anima-se. — Existe uma marca cultural do Brasil no mundo, quem não sabe disso? Todo mundo conhece a arquitetura de Brasília, a arte, o alquimista Paulo Coelho, o poder dos indígenas e, claro, o futebol, a que crescemos assistindo.

O assunto Copa do Mundo não tinha como não aparecer. Sempre com uma crítica.

— É muito estranho uma Copa no inverno, não estou minimamente no clima — começa ele, que por anos atuou em um time amador de roqueiros em Los Angeles, o Hollywood United. — Talvez para vocês seja legal, no verão. E o fato de ser no Catar piora tudo. Mais uma vez, o dinheiro é que manda. Por que não fazer na Islândia? Ou na África, que só teve uma Copa? Tenho lido reportagens sobre o desrespeito aos direitos humanos no Catar, quase nada sobre as seleções, os jogadores…

Mas, já que o assunto chegou aqui, ele aponta alguns favoritos.

— Acho que o Brasil tem uma boa chance — prevê. — Adoro Neymar, é um grande jogador desta geração. Eu definitivamente o vejo com a Copa do Mundo nas mãos. A Argentina também está bem. Queria que vocês chutassem os europeus e a final fosse entre Brasil e México ou Brasil e Argentina. Já pensou?

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