Como religiões afrobrasileiras veem o branqueamento dos terreiros

Personagens debatem antirracismo no candomblé e na umbanda
Anna Virginia Balloussier
Gustavo Luiz

Dangê está vestida com roupas brancas e amarelas. Ela também utiliza um turbante branco. Ao fundo, existem imagens de santos e orixás.
A coletividade tem papel central para o candomblé, de acordo com Dangê Ua Lunda – Caio Deziderio/Folhapress

SÃO PAULO e CAMPINASIemanjá é uma daquelas figuras com lugar cativo no imaginário popular brasileiro. E se for pedir para descrever a orixá que representa as águas de rios e mares em religiões de matriz africana, muitos vão mandar na lata: uma mulher branquinha e magra, de longos e lisos cabelos castanhos, trajando vestido azul até os pés.

O processo que transformou um orixá originado na África num totem alvo como neve lembra o desbotamento simbólico de Jesus Cristo —dificilmente um homem daquele tempo, no Oriente Médio, teria a pele clara e os olhos azuis associados ao messias cristão.

O branqueamento de Iemanjá é também ponto de partida para discutir uma realidade que se impõe em terreiros: a presença cada vez maior de brancos.

Os dados mais sólidos sobre o tema são do Censo de 2010. A pesquisa apontou que 52% dos brasileiros que seguem umbanda ou candomblé eram pretos ou pardos, próximo dos 51% da população que se autodeclarava assim.

Levando em conta só umbandistas, a branquitude representa 54%, contra 47,5% da média nacional.

Especialistas e representantes de crenças afrobrasileiras dizem que o clareamento do segmento avança sobretudo nos centros urbanos, a reboque de um perfil mais elitista e escolarizado que tem dominado o grupo, se comparado com religiões de massa como a católica e a evangélica.

Pai Rodney William, babalorixá e doutor em antropologia pela PUC-SP, conta que em sua casa candomblecista “tem uma concentração grande de pessoas com grau de escolaridade altíssimo, com doutorado, mestrado e inclusive professores que ensinam em universidades fora do Brasil”.

Com uma pirâmide social muito desigual em desfavor de negros, são os brancos que acabam acumulando mais anos de estudo formal, afirma ele.

Autor de “Apropriação Cultural“, o antropólogo diz que a frequência branca não o preocupa, mas sim o modo como essas pessoas se comportam nos terreiros. “Não é raro a branquitude reproduzir os valores que foram trazidos pela escravização, em que brancos continuam no lugar do mando, e os negros continuam como subalternos.

Pai Rodney William, antropologo e babalorixa, durante coquetel de posse da escritora Djamila Ribeiro na Academia Paulista de Letras – Greg Salibian/Folhapress

“No dizer dos nossos mais velhos, o candomblé é para todos, embora nem todos sejam para o candomblé. Quem se religa a uma ancestralidade africana tem que estar comprometido com a luta antirracista”, afirma.

“A experiência branca no terreiro precisa ser sobretudo um lugar de escuta“, diz Dangê Ua Lunda, 27, dirigente do Terreiro Aldeia Sagrada, na mineira Juiz de Fora. Ela diz que pessoas brancas frequentam o local e que “o vínculo é o mesmo em relação à uma pessoa preta, mas a conexão e o reconhecimento são diferentes”.

De família católica não praticante, Ana Luisa Schuchter, 24, foi ao Aldeia Sagrada a convite de uma amiga branca da sua irmã. Ela depois migrou para uma casa umbandista, a Filhos de Pemba, na qual brancos são maioria, inclusive na liderança.

Em sua primeira experiência no território religioso afrobrasileiro, conta, “eu estava insegura, por causa das demonizações que essas religiões sofrem”. Ela se refere ao preconceito sofrido por essas crenças, sobretudo da parte de evangélicos.

Mas a hostilidade não começou com esse nicho cristão. A primeira Constituição do Brasil, de 1824, ratificava o catolicismo como religião oficial do Império, mas tolerava cultos de “todas as outras religiões”.

Imagens de orixás no terreiro Aldeia Sagrada, em Juiz de Fora
Imagens de orixás no terreiro Aldeia Sagrada, em Juiz de Fora – Caio Deziderio/Folhapress

A fé trazida ao Brasil por africanos, contudo, foi logo compreendida como seita. A partir de 1890, essas religiões afrobrasileiras foram enquadradas nos artigos 157 (espiritismo, magia e outros sortilégios) e 158 (curandeirismo) do Código Penal da época.

Em 1934, Getúlio Vargas fez um decreto para acabar com o veto a cultos afrobrasileiros. Mas, na prática, a perseguição do Estado continuou por décadas.

Professor emérito da USP e autor de vasta literatura sobre o tema, o sociólogo Reginaldo Prandi lembra que a umbanda desponta no Brasil como uma versão branqueada que bebe fonte africana, mas incorpora elementos do catolicismo e também do espiritismo kardecista —em que as entidades são quase sempre brancas de alta escolaridade. O espírito do doutor Fritz, ao qual se atribui cirurgias espirituais, seria de um médico alemão morto na Primeira Guerra, por exemplo.

Dessa encruzilhada vem também um panteão de entidades com maior carga nacional, como caboclos (indígenas) e pretos-velhos (velhos escravizados). Mas a umbanda teve seu papel em clarear um pouco essa raiz negra, segundo Prandi. “Nunca vi na minha vida nenhuma Iemanjá de umbanda que não fosse branca.”

O psicólogo Vitor Friary, sacerdote de um terreiro em Cachoeiras de Macacu (RJ), conta que ser branco não o impediu de se identificar, desde pequeno, “com os cânticos em yorubá do candomblé”. “Me lembro claramente da nossa babá, ela era uma mulher nos seus 60 anos, branca. A maioria dos frequentadores tinha pele clara.”

“É claro que eu já passei por situações constrangedoras, como por exemplo ser acusado de ser branco e portanto não ter a autoridade para dominar o tema da religiosidade africana” diz. “Mas não vejo com maus olhos, porque preciso mostrar que vim para contribuir para a transformação do problema do racismo no Brasil.”

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