Apple cria “ideia genial” em comercial — no Brasil, ela sempre existiu

Vídeo da empresa mostra time de funcionários criando caixa redonda de pizza – que a Apple patenteou em 2017
Por Guilherme Dearo

Comercial da Apple: humor com ideia “fora da caixa” (YouTube/Reprodução)

São Paulo – Um novo comercial da Apple lançado essa semana nos EUA traz humor e uma vibe de “sitcom” (as comédias da TV americana) e que muitos consumidores americanos compararam à série da HBO Silicon Valley.

A comparação tem sentido. O comercial “The Underdogs” (algo como “azarões” no Brasil, aqueles que correm por fora, o time que ninguém bota fé, mas tem chance de surpreender) mostra um grupo de trabalhadores dedicados que tem a chance da vida deles: uma reunião com a chefona local, quando poderão apresentar uma grande ideia. Eles têm apenas dois dias para colocar o projeto em pé.

Na campanha, o time usa diversos serviços e aparelhos Apple, claro. Seja iPhone, iPad, Siri ou AirDrop, os produtos Apple estão à disposição para a ideia genial. A ideia? Que as caixas de pizza, em vez de quadradas, sejam… redondas! Os funcionários dizem que as caixas quadradas desperdiçam material, por exemplo.

O curioso da campanha é que, aos olhos dos brasileiros, a tal ideia não tem nada de disruptiva. Desde sempre as caixas de pizza no Brasil são redondas. As caixa quadradas encontradas por aí são, quase sempre, justamente de redes americanas presentes no País, como Pizza Hut e Domino’s.

Resumo: os americanos podem ter ficado surpresos com a ideia “inusitada” da campanha, mas os brasileiros vão sentir que já ouviram essa história antes.

O mais bizarro da história é que a Apple, em 2017, patenteou o design de uma embalagem redonda para pizzas. Aparentemente, faltaram viagens ao Brasil. Com a inauguração de seu novo campus, a empresa criou uma caixa com tampa flexível e buracos para ventilação para que seus funcionários pudessem levar pizzas individuais da cafeteria para suas mesas.

Assista:

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Google vai oferecer consultoria para o varejo a partir de dados de buscas

Companhia diz que plataforma teve impacto de R$ 41 bilhões no Brasil em 2018
Filipe Oliveira

Google passa a oferecer pesquisa baseadas nos seus dados de buscas

O Google vai intensificar o uso das informações geradas pelas pesquisas em seu buscador para oferecer serviços de consultoria para o varejo.

A empresa já fazia esse monitoramento de tendências de buscas durante a Black Friday, principal data de promoções do comércio eletrônico, realizada em novembro.

Agora o serviço ficará disponível durante todo o ano. A expectativa é que ele seja usado principalmente em datas sazonais, como dia das mães, dos namorados e Natal.

Nele, a companhia fornece painéis nos quais combina dados como produtos mais procurados, onde foram feitas as buscas, preço do item em diferentes lojas, posição dos produtos da empresa nas buscas e cliques recebidos.

As informações são analisadas por sistema de inteligência artificial que, junto a equipe de especialistas, identifica padrões.

É possível assim descobrir que a busca por aparelhos de ar-condicionado aumenta quatro vezes quando a temperatura atinge os 30 graus, diz Diego Venturelli, gerente de insights para varejo do Google Brasil.

Segundo ele, são usados apenas dados agregados, nunca de um único indivíduo. Informações como gênero, idade e outros interesses dos usuários também não são levadas em conta nesse serviço.

Entre as companhias que usam o monitoramento na Black Friday estão Magazine Luiza, Grupo Pão de Açúcar, Carrefour, B2W, Via Varejo  e Mercado Livre.

A iniciativa foi desenvolvida na unidade brasileira da companhia é está sendo apresentada a outros escritórios do Google mundo afora, diz Venturelli.

Nesta segunda-feira o Google também divulga um relatório afirmando que seu impacto econômico no Brasil em 2018 foi de R$ 41 bilhões.

O cálculo, feito com metodologia desenvolvida pelo economista-chefe da empresa, Hal Varian,  leva em conta o retorno sobre o investimento feito pelas empresas clientes que anunciam na plataforma de buscas, somado ao que é pago a produtores de conteúdos que recebem anúncios em seu site  pelo serviço AdSense e doações de créditos para ONGs.

No total, 60 mil organizações foram impactadas pelos serviços do Google em 2018, segundo a companhia.

A empresa não informa quanto desse impacto econômico vem de cada serviço.

Para o retorno sobre investimento, foi considerado que, a cada real aplicado nas buscas, a empresa anunciante teria um ganho de, em média, R$ 8 (levando em conta cliques nos anúncios e quando é encontrada sem depender deles).

Marcelo Lacerda, diretor de relações institucionais do Google Brasil, diz acreditar que ainda há espaço para crescimento, em especial quando se considera o mercado de pequenas e médias empresas.

“Sabemos 40% delas não têm presença online”.

Negócios miram confiança de marca na era digital

Estudo da iProspect indica que tema é prioridade para 88% dos gestores de marketing

Foto: Shutterstock

A percepção de confiança vem caindo no mundo em razão da era digital. Apenas uma em cada quatro diz que a maioria das pessoas pode ser confiada, apenas 40% acreditam que os meios de comunicação fazem um bom trabalho para distinguir a ficção da realidade e apenas 26% acreditam que as empresas são transparentes no uso de seus dados pessoais.

De outro lado, a atenção nunca foi tão escassa, com 62% das pessoas das 23 maiores economias admitindo que estão constantemente olhando para telas – segundo a Apple, usuários do iPhone destravam seus aparelhos 80 vezes ao dia em média e passam mais de 2 horas por dia em redes sociais.

Neste cenário, em 2019, a confiança de marca ganhou um papel central. É o que aponta a 4ª edição do Future Focus, estudo da iProspect, agência de marketing digital, realizado com 300 empresas globais. Segundo o levantamento, 88% dos gestores de marketing entrevistados têm a confiança de marca como sua prioridade para 2019 e 76% afirmam também que a confiança é importante para manter seus clientes consumindo sua marca.

Credibilidade ferida

A credibilidade foi fortemente impactada pelas fake news, pela maior preocupação com dados pessoais e por novas normas de gestão de dados. Três fatores podem auxiliar a marca nesta área. Primeiro, o estabelecimento de um propósito de marca forte e o envolvimento ativo em questões sociais (a maioria da população, especialmente os milennials, considera este engajamento uma obrigação moral). Segundo, a comunicação das marcas deve se basear em estratégias de produção de conteúdo, posicionamento em buscas e presença em mídias sociais. E, por fim, as marcas devem utilizar a tecnologia, com destaque para a inteligência artificial, bots e ativação por voz, para possibilitar a entrega em larga escala e com segurança da promessa de marca.

Mais relevância

Já a busca pela relevância está associada ao uso correto de dados para o desenvolvimento de experiências individualizadas, a integração dos recursos digitais a vida cotidiana das pessoas e o investimento na crescente utilização das assistentes digitais acionados por voz.

A confiabilidade, por sua vez, se refere à percepção de qualidade na interação do consumidor com as marcas, seja ela oriunda de experiências próprias ou de terceiros. A importância deste fator vem crescendo, sendo que muitos consumidores estão dispostos a pagar mais por uma conveniência maior. A maioria dos gestores de marketing (58%), inclusive, consideram que construir uma experiência de marca mais conveniente irá alavancar mais o crescimento dos negócios do que o fortalecimento de marca.

A busca por mais conveniência para o consumidor deve começar pela reanálise deste quesito em todos os canais digitais da marca. Os feeds de informação sobre produtos e serviços merecem especial atenção. Eles devem ser precisos, detalhados e constantemente enriquecidos. Se a marca conseguir manter esse padrão de informação em todos os pontos de contato, mais forte ainda será a mensagem. Por fim, os marketplaces podem alavancar os e-commerces das empresas, uma vez que eles vêm influenciando cada vez mais a decisão de compra. [CW]

Pequenos influenciadores estão na mira de grandes marcas

YouTube e Instagram têm diretrizes para a publicidade infantil, frequentemente difíceis de policiar
Sapna Maheshwari, The New York Times

Adam e LaToya Ali com Samia durante a filmagem. “É como se ela tivesse nascido nas redes sociais,” disse o pai. Foto: Audra Melton para The New York Times

Samia já era uma influenciadora antes de aprender a falar. Seus pais, Adam e LaToya Ali, também são influenciadores e começaram a escrever a crônica da chegada de Samia no YouTube e no Instagram em 2014, quando La Toya soube que estava grávida. “O vídeo do nascimento de Samia está no YouTube, é como se ela tivesse nascido nas redes sociais”, disse Ali.

Hoje, Samia tem 4 anos e 143 mil seguidores no Instagram, e 203 mil assinantes no YouTube. Seus feeds em geral estão repletos de mensagens com suas poses e brinquedos, mas também apresentam promoções pagas para marcas como Brayola e HomeStyle Harvest, com os seus ‘nuggets’ de galinha.

Há casos em que “Samia não consegue decifrar a mensagem palavra por palavra”, disse Ali, que mora na área de Atlanta. “Às vezes, seus assuntos de conversa não são próprios de criança, por isso LaToya precisa entrar em cena, ou eu mesmo, para transmitir as mensagens mais importantes para as marcas que elas querem divulgar”.

Bem-vindos ao mundo dos influenciadores de crianças. Há anos, as marcas vêm recorrendo em massa a estas pessoas – famosas ou não, com um grande número de seguidores nas redes sociais -, na esperança de que sua popularidade online faça com que os seus fãs comprem os produtos que elas garantem. Então, a crianças com o papel de influenciadoras começaram a aparecer nos perfis dos pais, uma ramificação aparentemente inócua desse fenômeno.

Agora, os anunciantes bancam lucrativos acordos de patrocínio para criancinhas e adolescentes com grande número de seguidores e seus próprios perfis verificados no YouTube a Instagram. Consequentemente, crianças muito novas para terem suas próprias contas nas plataformas estão se tornando criadoras de tendências. “É uma coisa muito manipuladora em relação a estas crianças”, afirmou Kathryn Montgomery, professora emérita da American University de Washington. “Há uma confusão proposital em relação a estes limites”.

O Instagram, que pertence ao Facebook, e o YouTube, que por sua vez faz parte do Google, destinam-se a adultos por causa de uma lei federal americana que protege as crianças menores de 13 anos. As biografias de muitos destes influenciadores mais jovens no Instagram ressaltam que as páginas são “administradas pelos pais”, e os canais do YouTube são supostamente registrados no nome dos seus guardiões.

Como eles declaram que as suas plataformas estão nas zonas dos 13 anos em diante, as companhias de tecnologia não precisam obedecer às leis federais que limitam a propaganda dirigidas a determinados públicos alvo e a coleta de dados deste público. Mas Josh Golin, diretor da Campanha por uma Infância Livre dos Comerciais, disse que as companhias não têm qualquer incentivo para manter as crianças fora dos sites.

E à medida que as classificações das TVs continuam caindo e as crianças passam mais tempo online, os anunciantes gastam mais dinheiro para atingi-las  ali. “O fato de as marcas usarem crianças de verdade como influenciadoras é um sinal muito claro de que visam crianças que elas sabem que se encontram nestas plataformas”, afirmou Golin.

Isso pode significar muito dinheiro para as famílias dos influenciadores infantis. Segundo Kyler Fisher, pai de gêmeas idênticas de dois anos que têm mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, uma mensagem patrocinada na conta das meninas pode faturar de US$ 10 mil a US$ 20 mil.

As gêmeas Taytum e Oakley promoveram assentos de automóvel e a linha de cruzeiros Carnival Cruise Lines pelo Instagram. Elas são também o elemento fundamental do sucesso do canal de YouTube dos seus pais, Kyler & Mudd, que tem cerca de 3 milhões de assinantes. As promoções no canal do YouTube da família podem representar ganhos de US$ 25 mil a US$ 50 mil.

O aumento deste tipo de publicidade suscitou questões que envolvem justa remuneração, supervisão e autorizações para trabalhar, principalmente  porque as diretrizes sobre o trabalho infantil variam. Segundo Andrea Faville, porta-voz do YouTube, o site não permitia que uma pessoa com menos de 13 anos abrisse ou fosse proprietária de uma conta, e que trabalhava “rigorosamente com especialistas, organizações não lucrativas e outros” a fim de proteger as famílias.

Sravanthi Dev, porta-voz do Instagram, informou que embora a plataforma proibisse usuários até 12 anos de idade, os seus pais ou representantes podiam criar perfis para as crianças, “desde que fique claro nas informações biográficas que a conta é administrada por um dos pais ou representante”.

A Captiv8, que põe em contato os influenciadores com as marcas, encontrou cerca de 3.100 influenciadores do Instagram, de uma amostra de 1,2 milhão de contas, provavelmente abaixo dos 13 anos, baseada em termos que estão em suas biografias, como “administrada pela mamãe”. No YouTube, há contas como a Ryan ToysReview, cujo jovem astro ganhava US$ 22 milhões ao ano, segundo matéria da Forbes. Mas as crianças também estão criando seguidores  como jogadoras, autoras de videoblogs e fashionistas.

O YouTube tem diretrizes para a publicidade infantil, mas frequentemente elas são difíceis de policiar. O aplicativo YouTube Kids, criado para crianças até 12 anos, não deveria apresentar conteúdo patrocinado, mas o jornal New York Times encontrou vários vídeos de publicidade pagos de influenciadores para companhias como Walmart e DreamWorks (o YouTube retirou os vídeos depois que o Times começou a fazer perguntas a seu respeito).

Quanto às crianças, às vezes é difícil para elas compreender toda esta confusão. “Para ela, é quase como entrar em uma experiência para aprender alguma coisa – depende de nós darmos a ela uma tarefa ou uma incumbência, em que ela tenha de conquistar alguma coisa”, disse Ali, pai de Samia. “Vamos saber quando ela tiver consciência de que tem seguidores e entender o que tudo isto significa”.

Budweiser recria para 2019 seus anúncios machistas dos anos 50

Marca americana refaz seus cartazes do passado e corrige histórico de machismo
Por Guilherme Dearo

Anúncio dos anos 1950 da Budweiser e recriação de 2019 (Budweiser/Divulgação)

São Paulo – A era de ouro da publicidade nos Estados Unidos, nos anos 1950, pavimentou o caminho do marketing nas décadas seguintes e se tornou icônica por revolucionar o modo como um produto era vendido aos consumidores. São dessa época aqueles famosos anúncios com ilustrações de homens e mulheres em seus lares no melhor estilo “american way of life” – estilo de ilustração que depois seria cooptado pela Pop Art de Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

O problema é que os anos 1950 e 1960 da publicidade foram extremamente machistas, reproduzindo tipicamente o que era a sociedade daquele tempo. De frases como “Até uma mulher pode abrir isso?” até anúncios onde um homem bate em uma mulher ou a usa como tapete de sala, a publicidade vigente mostrava uma mulher submissa ao marido, obrigada a agradá-lo incondicionalmente entre suas inúmeras atribuições domésticas.

Essa época da publicidade, inclusive, foi belamente retratada na série de TV Mad Men (2007-2015), onde os “mad men” (os publicitários da Madison Avenue, em Nova York) criavam uma campanha genial atrás da outra entre um gole de uísque, uma tragada no cigarro sem filtro e um assédio sexual contra uma secretária. A série, apesar de mostrar personagens masculinos em atitudes machistas, também constrói personagens femininas fortes e “modernas”, que rejeitam os discursos sexistas e abraçam as tendências feministas que encontrariam seu auge no final dos anos 1960.

A fabricante de cerveja Budweiser não ficou de fora da tendência sexistas dos anos 1950 e criou muitos anúncios que, aos olhos de 2019, se tornaram anacrônicos e ofensivos. Mas, para a marca, parece que nunca é tarde para corrigir os erros do passado. A Budweiser, em parceria com a campanha #SeeHer (que luta pela representação adequada da mulher na publicidade), decidiu refazer as suas campanhas dos anos 1950, redesenhando anúncios e reescrevendo as frases de efeito.

Coisa similar fez a Skol por aqui, em 2018. A marca reconheceu que havia participado da onda dos anos 1990 no Brasil de campanhas de cerveja onde sempre havia uma mulher seminua e disponível servindo cerveja a homens salivantes e decidiu recriar suas campanhas, dessa vez chamando artistas mulheres. A noção chegou para a maioria anos depois, embora algumas marcas brasileiras, em anos recentes, ainda tenham se valido da fórmula fácil e ofensiva de colocar a “gostosa” oferecendo cerveja a homens.

Nas recriações da Budweiser, os cartazes onde apenas o homem bebia cerveja e a mulher estava ali para servi-lo integralmente foram recompostos na visão das artistas Heather Landis, Nicole Evans e Dena Cooper. Equidade e independência no lugar do machismo e da objetificação.

Com a campanha, a marca tenta abordar temas contemporâneos e trazer seu nome para o presente, em uma época de concorrência pesada, onde atrair os consumidores da nova geração é fundamental. Nos Estados Unidos, a marca Budweiser caiu para quarto lugar entre as cervejas mais populares – já chegou a ser a primeira. É a primeira vez desde os anos 1970 que não está no top 3. Atualmente, sua “prima” Bud Light ocupa a primeira colocação, seguida por Coors Light e Miller Lite.

Confira os cartazes modificados e atualizados para 2019:

1. Anúncio de 1956

O anúncio original falava que a mulher havia casado com “dois homens” porque o marido sempre tem um “eu interior” e que uma maneira de agradá-lo era com uma Budweiser. Na imagem, o marido chega de viagem enquanto ela espera com uma grinalda. Na recriação de 2019, o anúncio diz “Ela descobriu que tem tudo”. Esperando por ela, três amigas no bar. Afinal, nem tudo se resume a casamento.

Cartaz dos anos 1950 da Budweiser e recriação de 2019 (Budweiser/Divulgação)

2. Anúncio de 1958

Nesse caso, a frase foi mantida: “Onde há vida, há Bud”. A diferença crucial está na imagem.

Enquanto a vida com Budweiser nos anos 1950 era restrita ao homem (enquanto ele martela, a esposa serve a gelada), em 2019 a coisa é mais simples: o casal curte a cerveja junto.

Anúncio dos anos 1950 da Budweiser e recriação de 2019 (Budweiser/Divulgação)

3. Anúncio de 1962

Nessa recriação, a mulher que espera o marido em casa com o jantar pronto se transforma em uma mulher que é feliz, também, solteira. Uma cerveja para ela, uma comida chinesa delivery e um cachorro fofo.

Anúncio da Budweiser dos anos 1960 e recriação de 2019 (Budweiser/Divulgação)

Por que grandes marcas estão investindo em superproduções de curta duração para a internet?

Custos da mídia tradicional e restrições legais ajudam mudança
Tony Goes

Imagem de superprodução da Campari para internet – Divulgação

A pré-estreia do filme “Entering Red” não ficou nada a dever à de um blockbuster hollywoodiano. Na manhã de 5 de fevereiro deste ano, houve uma coletiva de imprensa em um cinema de Milão, com a presença das estrelas e do diretor. À noite, uma festa com direito a tapete vermelho e dezenas de fotógrafos.

As credenciais do filme são impressionantes. O diretor é Matteo Garrone, do premiado “Dogman”, representante da Itália no último Oscar e atualmente em cartaz no Brasil. Os atores principais são a cubana Ana de Armas (de “Blade Runner 2049”) e o italiano Lorenzo Richelmy (da série “Marco Polo”).

Só que “Entering Red” não é um longa-metragem. É um curta com 12 minutos de duração –disponível, por enquanto, apenas na internet.
 
Também é, para todos os efeitos, um comercial de Campari –ou melhor, um exemplar do chamado “branded content”, ou conteúdo patrocinado. Um número crescente de marcas importantes vem optando por esse estilo de comunicação.

Já é o terceiro ano consecutivo que Campari —o bitter vermelho que também é principal produto do Campari Group, especializado em bebidas alcoólicas— foge dos habituais comerciais de 30 segundos, preferindo investir quase toda sua verba de publicidade na produção de um curta-metragem com nomes consagrados do cinema e veiculação prioritária nas redes sociais.

O primeiro filme da campanha “Red Diaries” saiu em 2017. “Killer in Red” foi assinado por Paolo Sorrentino (Oscar de filme estrangeiro por “A Grande Beleza”) e estrelada pelo britânico Clive Owen (da série “The Knick”).

O filme foi visualizado cerca de 20 milhões vezes, tanto no canal de Campari no YouTube como em outras redes. Parece pouco se comparado ao público atingido pela TV. Mas os resultados foram satisfatórios, a ponto de a marca repetir a experiência em 2018 e 2019 (a Campari não divulga quanto investe na produção). O segundo curta-metragem, lançado no ano passado, “The Legend of Red Hand”, teve direção de Stefano Sollima (“Sicario: Dia do Soldado”), com Zoe Saldana (a Gamora de “Guardiães da Galáxia”) no papel principal.

Um filme para a internet tem um trunfo insuperável: o custo de veiculação é praticamente zero. No entanto, a Campari também promove o lançamento do curta em mídias tradicionais. Uma versão reduzida de “Entering Red” será exibida nos cinemas.

No caso de uma bebida alcoólica, ainda existe uma vantagem extra. Diversos países proíbem ou restringem (como o Brasil) a veiculação de anúncios da categoria na TV. Online, basta um aviso de que o material é inadequado para menores de 18 anos.

“Nós percebemos que os consumidores não gostam mais que alguém lhes diga o que fazer”, afirma Andrea Neri, diretor global de marcas italianas do Campari Group. “Eles preferem uma conversa de mão dupla, no ambiente das redes sociais.”

“Além do mais, Campari sempre se associou à arte e ao cinema”, prossegue Neri. É verdade: a Galleria Campari, na sede da empresa nos arredores de Milão, reúne mais de um século de peças publicitárias assinadas por grandes nomes das artes plásticas e do design. Este ano, Campari também será um dos patrocinadores do Festival de Veneza.

Como nos anos anteriores, também em 2019 foram convidados seis bartenders de diferentes países para criar coquetéis com Campari. A paulista Jéssica Sánchez, hoje baseada no Rio, representa o Brasil e aparece em “Entering Red”. Assim como o ator Joaquim Lopes, escolhido como embaixador da marca no nosso país. Todos os três curtas da campanha “Red Diaries” podem ser vistos no canal de Campari no YouTube, com legendas em diversos idiomas –inclusive o português.
 
Este é apenas um exemplo do avanço do “branded content” sobre a propaganda tradicional. Uma consequência importante dos novos hábitos de consumo, em que o streaming substitui a chamada TV linear (nada mais do que a televisão convencional, com canais e grades de programação). E vem mais por aí: as mudanças estão apenas começando.

Receitas baixas no Apple News ainda geram frustração em editores

Um novo serviço de assinatura de notícias da Apple é aguardado e tem tudo para ser apresentado no dia 25 de março, segundo rumores. Enquanto ele não vem, editores e produtores de conteúdo devem se contentar com as receitas provenientes do Apple News— isso, é claro, se limitando ao ecossistema da Apple e esquecendo todas as outras possibilidades que o mundo virtual oferece.

Ainda que a disponibilidade do Apple News seja bem limitada (por enquanto o serviço está presente na Austrália, nos Estados Unidos e no Reino Unido — em breve ele chegará ao Canadá), parceiros da Apple nesses países não estão nada felizes com os resultados. O discurso não é novo: no ano passado, essa insatisfação já existia, mas como o público do News é de alta qualidade e estava crescendo a passos largos, a maioria dos editores estava na esperança de ver os números darem aquela melhorada. Nada feito.

A monetização do serviço continua sendo algo muito difícil, de acordo com sete editoras entrevistadas pela Digiday. A receita dos anúncios é prejudicada pelo desinteresse dos anunciantes e por taxas de preenchimento de anúncios que muitos descrevem como péssimas, mesmo depois de uma melhora modesta no início do ano. Uma das publicações informou que gerou menos de US$1.000 por mês, o que obviamente ajuda muito pouco a pagar as contas.

Vender diretamente o inventario de anúncios parece ser uma tarefa árdua por conta da limitação da plataforma no que diz respeito a segmentação de usuários (não é possível usar dados de terceiros ou endereços de IP para isso, por exemplo). Outra limitação é a impossibilidade de veicular publicidade programática — e como muitas acabam utilizando essa estratégia, a limitação é péssima.

Por conta disso, muitas editoras acabam colocando o inventário do Apple News como “prêmio” para campanhas maiores, uma espécie de “valor agregado” já que se trata de um público premium e que, invariavelmente, tem o seu valor para muitos anunciantes.

Uma das editoras entrevistadas informou que, até o início de 2019, a taxa de preenchimento do inventário remanescente da Apple News era inferior a 20%. Essa mesma fonte disse que esse número é tão baixo que torna a publicação no Apple News menos lucrativa do que formatos como AMP (do Google) ou mesmo Instant Articles (do Facebook, que muitos abandonaram justamente por problemas de monetização). Alguns editores até apresentaram taxas de preenchimento de quase 90% em um teste de implementação da DoubleClick (algo permitido na plataforma desde meados de 2018), mas essas fontes sugeriram que esses resultados estão longe de ser comuns.

O impressionante é que, mesmo limitado a três países, os números de audiência do Apple News não são ruins: o serviço tem hoje cerca de 90 milhões de usuários, de acordo com o The New York Times; segundo o Digiday, são quase 70 milhões de usuários únicos por mês e outros 20 milhões de usuários internacionais.

E isso se reflete na audiência desses editores em si: basicamente todos relataram um crescimento constante de público, com alguns casos gerando mais tráfego de referência do que o Facebook. Matérias selecionadas para serem mostradas no widget Top News (a curadoria da Apple) podem gerar enormes aumentos no tráfego, podendo até mesmo ser uma das histórias mais lidas que um editor pode compartilhar num mês.

Por que, então, financeiramente o Apple News não é um sucesso? Quem sabe seja a questão envolvendo privacidade (que bem ou mal, tem ligação com as limitações do serviço que falei acima). Um dos entrevistados disse: “Eu respeito a Apple e a crença deles em privacidade. Isso só torna incrivelmente desafiador vender lá [no News]”. A curadoria da Apple também é elogiada, descrita como de mente aberta a ideias para novos formatos e ao que deve ser destacado. “Eles são muito justos”, disse uma fonte.

Mas por conta da dificuldade monetária, alguns acabam usando Apple News como plataforma de impulsão para gerar downloads de podcasts, de atrair mais pessoas para o seu próprio site (que conta com um modelo de assinaturas) ou até mesmo de converter leitores em assinantes de newsletters.

O problema é que, no fim das contas, sem dinheiro não é possível pagas as contas. E muitos dizem que os ganhos com as assinaturas do Apple News acabam não sendo tão bom quanto poderia ser se fosse possível vender todo o inventário de anúncios, mas ainda assim são bons. Dessa forma, quem sabe a resposta para esse problema não esteja justamente no novo serviço de assinaturas de notícias (revistas e jornais) da Apple.

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