Casa de concreto armado parece brotar da rocha no Japão

Construção parece desafiar a lei da gravidade ao se dividir em duas
POR LUCIANA RAMOS | FOTOS DIVULGAÇÃO

Localizada à beira-mar da maior ilha do Japão, Honshu, a mesma que contempla a grande área de Tóquio, a residência parece uma escultura que sai da formação rochosa sobre a qual está suspensa. Essa é a Casa da Península, residência realizada pelo estúdio Mount Fuji Architects na região peninsular do país que une forma e espaço de maneira magistral.

A casa de três andares foi construída para suportar os ventos fortes e ondas que cercam a península e é composto de um bloco de concreto armado em forma de “L”, que se une à base, por meio de um eixo cilíndrico, a coluna. De um lado, a casa de final de semana foi preparada para receber a brisa marinha do sudeste, durante o verão, enquanto do outro foi preparada para proteger as partes interiores dos ventos de monções que chegam do noroeste no inverno.

Uma atração a parte são as janelas que figuram como grandes aberturas de vidro que vão do teto ao chão colocadas de lado e de frente ao horizonte. Elas proporcionam que a iluminação natural adentre a casa, enquanto oferece vistas diretas para o aceano Pacífico. A espécie de fenda feita na estrutura e que se projeta na posição diagonal fornece a imensa escada que vai em direção ao terraço aberto, coberto com uma piscina ao ar livre. Outra vista permitida pela construção é a do o lendário Monte Fuji, por meio do terraço acima do telhado. No interior da casa, a principal sala de estar tem um arranjo expansivo com pé direito duplo e uma escadaria de madeira flutuante que leva os habitantes até um mezanino.

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Mercado de arquitetura e urbanismo cresce 5,4% no Brasil, afirma CAU

Segundo levantamento, arquitetos e urbanistas realizaram mais de 1,5 milhão de serviços em 2018
RAFAEL BELÉM

O mercado de arquitetura e urbanismo brasileiro vem demonstrando sinais de recuperação e crescimento. É o que constata o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR) no Anuário de Arquitetura e Urbanismo 2019. De acordo com levantamento realizado pelo órgão, o setor apresentou crescimento de 5,4% em 2018, com mais de 1,5 milhão de serviços realizados por arquitetos e urbanistas em todo o país em relação ao ano anterior.

Este é o segundo ano consecutivo de crescimento dos serviços de arquitetos e urbanistas no Brasil. Foram 1.527.026 serviços prestados por profissionais com Registro de Responsabilidade Técnica (RRT), quase 80 mil atividades a mais do que em 2017, quando 1.448.891 serviços foram registrados. Reunindo 1/4 das atividades realizadas no Brasil, São Paulo foi o estado que apresentou o maior crescimento: 9%. 

Oportunidades para arquitetos e urbanistas

O anuário ainda traçou um panorama sobre os campos de trabalho ocupados por profissionais da arquitetura atualmente. Segundo a pesquisa, Projetos Arquitetônicos e Execução de Obras continuam sendo as principais atividades realizadas por arquitetos e urbanistas no país. 85% dos trabalhadores estão justamente nessas áreas, sendo que projetos respondem por mais da metade do total de trabalhos e serviços prestados no Brasil.

Anuário de Arquitetura e Urbanismo do CAU mostra evolução do setor no país (Foto: Divulgação/CAU-BR)

Destaca-se também o aumento das atividades ligadas à Execução de Obras: houve um crescimento de 6,3% em 2018 – o que representa 30.000 execuções de obras a mais que 2017. Mas outras duas áreas vem ganhando destaque entre os profissionais: Engenharia de Segurança do Trabalho, com 22% de alta em 2018, e Meio Ambiente, que registrou crescimento de 14%. 

Confira a íntegra da pesquisa aqui

Batek Architekten brinca com tons de cinza e materiais refinados em apartamento de Berlim

O cliente se aproximou da Batek Architekten para cumprir sua idéia de um novo lar em Berlim, que deveria ser “masculino, limpo, mas confortável”.

Kitchen

“Na sala de estar a lareira serve como um chamariz, com seu manto branco contrastando com a lareira preta. Um banco cinza claro, com acabamento em cimento, para assentos ou itens ornamentais passa ao lado dele, para completar o conforto dado pelo mobiliário modernista clássico. Diferentes tons de cinza com leveza variável são usados ​​para todos os elementos arquitetônicos e estruturais em todo o apartamento, destacando perfeitamente os móveis e as obras de arte do proprietário. Dois roupeiros embutidos, com pegas lisas, lineares e integradas, oferecem uma solução de armazenamento minimalista com espaço suficiente para todo o apartamento. Na cozinha, a cor cinza escuro é complementada por uma bancada de terrazo e detalhes em latão, enquanto o guarda-roupa do quarto é colorido em um rosa quente vintage. Este tom pastel é continuado no corredor para o banheiro principal, contrastando com o ambiente do terraço e as delicadas molduras pretas das vidraças. A iluminação em toda a casa foi projetada pela PSLab, com luzes pendentes e arandelas de parede ressaltando o tom masculino ”, explica Batek Architekten.“In the living room the fireplace serves as an eye-catcher, with its white mantle contrasting against the black hearth. A light grey, cement-finished bench for seating or ornamental items runs alongside it, to complete the comfort given by the classic modernist furniture. Different shades of grey with varying lightness are used for all architectural and structural elements throughout the apartment, perfectly highlighting the owner’s furniture and artworks. Two built in wardrobes, with smooth, linear, integrated handles, offer a minimalist storage solution with enough space for the whole apartment. In the kitchen the dark grey colour is complemented by a terrazzo countertop and brass details, while the bedroom wardrobe is coloured in a warm vintage pink. This pastel shade is continued in the hallway to the master bathroom, contrasting with the terrazzo surroundings and the delicate black bezels of the glass panes. Lighting throughout the home was designed by PSLab, with pendant lights and wall sconces underscoring the masculine tone,” exlains Batek Architekten

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Living room
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Cement-finished bench
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Kitchen
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Terrazzo countertop
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Kitchen island
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Bedroom storage & bathroom
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Edifício modular mais alto do mundo fica pronto em Singapura

Torres têm 140 metros de altura, quase 1900 módulos e 505 apartamentos de luxo. Obra ficou pronta seis meses antes

O edifício modular mais alto do mundo fica em Singapura e está pronto, com duas torres de 40 andares e 505 apartamentos de luxo, no coração dos bairros residenciais da cidade. Cada torre tem 140 metros de altura. São 1.899 módulos, com peso variando entre 16 e 29 toneladas. 

O Clement Canopy é a primeira estrutura na ilha a usar uma versão totalmente concreta do sistema de pré-fabricação de construção volumétrica pré-fabricada (PPVC), onde módulos independentes, completos com acabamentos para paredes, pisos e tetos, são produzidos externamente e montados no local, segundo a revista “Concrete Construction”. A vantagem de módulos pré-fabricados é diminuir o custo da construção, deixando os preços mais acessíveis, além de reduzir o tempo de obra, o ruído no local de trabalho, poluição e atrapalhar menos a vida da vizinhança.

Em abril de 2016, o governo de Singapura concedeu à Dragages Singapore, uma subsidiária da empreiteira Bouygues Bâtiment International, com sede na França, o contrato para projetar e construir o local. Os módulos foram fundidos por um fabricante de concreto pré-moldado em Senei, na Malásia, em cinco dias – o projeto exigiu um total de 48 formas de módulo.

Os ajustes foram concluídos na fábrica do contratante em Tuas, Singapura, em 15 dias. Os módulos incluíam mecânica e encanamento, reboco, pintura e louças sanitárias e ladrilhos. Foram necessários sois guindastes Liebherr 1000 EC-H 40 Litronic High-Top para erguer as torres. O projeto foi entregue seis meses antes do cronograma inicial.

Edifício Martinelli: 10 curiosidades sobre o icônico prédio de São Paulo

É um dos principais marcos da arquitetura paulistana e o primeiro arranha-céu da cidade
POR NÁDIA SIMONELLI

Quem costuma andar pelo centro de São Paulo pode não perceber a suntuosidade do Edifício Martinelli, localizado entre a Rua São Bento, Avenida São João e Rua Líbero Badaró, e hoje espremido entre grandes espigões. Pois saiba que ele foi o primeiro prédio de grande estatura da cidade (até então, existiam construções com até cinco andares) e marcou a transição para a era dos arranha-céus.

Idealizado pelo imigrante italiano conde Giuseppe Martinelli, o prédio, carinhosamente chamado pelos paulistanos de Martinelli, completa 90 anos em 2019 e ainda é um importante mirante na cidade. De lá, é possível ter uma das vistas mais bonitas do skyline de São Paulo. E uma boa notícia: o espaço que estava fechado, reabriu recentemente para a visitação do público. O passeio é gratuito e funciona todos os dias, incluindo domingos e feriados.

Mas, antes de marcar sua visita ao Martinelli, confira abaixo algumas curiosidades sobre a história do edifício.

1 – Foi inaugurado ainda incompleto
Com projeto assinado pelo arquiteto húngaro Vilmos (William) Fillinger, o Edifício Martinelli foi inaugurado em 1929 com apenas 12 andares. Isso aconteceu porque neste mesmo ano foi publicado um artigo em que o Edifício A Noite, no Rio de Janeiro, seria citado como o mais alto arranha-céu do mundo. Para enfatizar o progresso tecnológico de São Paulo, resolveram adiantar a inauguração, mas as obras foram retomadas e seguiram até 1934, quando o Martinelli foi finalizado com 30 andares e 105 metros de altura. Detalhe: ultrapassou o tamanho do A Noite.

2 – Tem fama de mal-assombrado
Entre alguns lugares do Brasil que tem um passado macabro está o Edifício Martinelli, que, apesar do começo luxuoso de sua existência, passou por uma fase de decadência. Há quem diga que o prédio é famoso por assombrações e ruídos de gente trabalhando quando não há mais ninguém. Duas histórias, ao menos, podem dar embasamento para a fama. A primeira é a do assassinato do garoto judeu Davi, que foi morto e jogado no poço do elevador por um criminoso confesso chamado de Meia-Noite. A segunda é sobre outro crime brutal, que aconteceu em 1960, quando cinco bandidos mataram uma garota em um dos andares. Eu, hein!

3 – Hoje é sede de órgãos do governo
Depois de ser residencial e ir do luxo a decadência, hoje, o Martinelli abriga a sede das Secretarias Municipais de Habitação e Planejamento, as empresas Emurb e Cohab-SP e o Sindicato dos Bancários de São Paulo.

4 – O próprio Giuseppe Martinelli morou lá
Inicialmente, o prédio estava projetado para abrigar 14 andares, com a possibilidade de ter até 18. Mas, como chegou a ter 30 andares, todos olhavam a construção com desconfiança e muitos acreditavam que ele iria cair. A construção chegou a ser embargada, mas usando materiais mais leves, o conde Martinelli concluiu o seu sonho. E, para provar que o prédio não iria cair, construiu um palacete para que ele e sua família pudessem morar no topo do edifício. Na verdade, ele tinha esperança de que os afortunados da sociedade paulistana na época se mudassem para lá também.

5 – Acabamentos luxuosos
A ideia de Giuseppe era oferecer um prédio com um luxo nunca antes visto na cidade. Para isso, chamou os irmãos Lacombe para desenhar a fachada (eles também projetaram o túnel onde a Avenida 9 de Julho passa por baixo da Avenida Paulista). Além disso, as portas eram de madeira de lei, as escadas tinham mármore italiano e o cimento veio da Noruega e da Suécia. Para conseguir trazer os materiais de outros países, o conde contou com a ajuda de sua importadora marítima.

6 – O edifício pertenceu ao Martinelli até 1934
Apesar de ser o idealizador do prédio e dar seu nome a ele, a propriedade ficou nas mãos do conde até 1934. Neste ano, ele já estava endividado por conta da longa duração da obra e da crise econômica de 1929. Assim, ele teve que ceder o edifício para o governo italiano, pois havia pedido um empréstimo para eles para finalizar a obra. Depois disso, o lugar passou a ser chamado de Edifício das Américas e ficou quase abandonado.

7 – Em 1975 começa a revitalização
Quase duas décadas depois de que Martinelli perdeu o edifício, ele já estava deteriorado. Na década de 1960, era praticamente um cortiço, onde aconteciam crimes. Só então, em 1975, o atual prefeito Olavo Setúbal desapropriou o lugar e começou um projeto de revitalização, com limpeza da fachada e modernização dos sistemas hidráulicos e elétricos. Em 1979, foi reinaugurado já como sede e repartições do governo.

8 – Abrigou um cinema luxuoso
E ele ficava na parte inferior do arranha-céu. Chamado de Cine Rosário, o cinema causou frisson da cena artística paulistana por causa de seu tamanho e luxo. Como as obras do Martinelli abalaram a construção vizinha, o conde comprou o imóvel e o transformou em cinema. O que se sabe, é que o Cine Rosário foi projetado pelo filho do conde, Ítalo Martinelli.

9 – Abrigou armamentos
Devido a altura do Edifício Martinelli, o espaço foi usado para abrigar armamentos e baterias antiaéreas para defender São Paulo das forças do Governo da República durante a Revolução de 1932.

10 – Vai ter um observatório
A prefeitura deve conceder o terraço do prédio para a construção do Observatório Martinelli, com espaços expositivos, lojas, restaurante e café. A ideia é contribuir para o desenvolvimento turístico da cidade e para a requalificação urbana da região central.

Hotel de vidro à beira de rio promete relaxamento e contato com natureza

Instalações a apenas 10 metros do Rio Amarelo, na China, permitem ver a paisagem e a luz natural

Hotel de vidro à beira de rio promete relaxamento e contato com natureza (Foto: Divulgação)

Um hotel boutique à beira do Rio Amarelo, o segundo mais longo da China, promete momentos de paz e relaxamento para quem se hospedar. Com paredes de vidro, é possível ver a luz natural e ter contato direto com a natureza.

O projeto desenvolvido pela QI Studios conta com uma série de unidades individuais de 14m x 4,5m com planta baixa, um deck de entrada e um terraço frontal, permitindo que os hóspedes aproveitem ao ar livre.  Dentro, quarto, banheiro e sala. 

Na parte de trás, a privacidade é garantida pela introdução do revestimento de metal perfurado pré-fabricado, permitindo as interações contínuas entre o interior e o exterior por meio de luz e sombras, de acordo com o conceito do projeto. A ideia é que o visitante curta a paisagem.

Direito à cidade da população LGBT+: qual o papel da arquitetura?

Apesar de abrigar a maior Parada LGBT+ do mundo, São Paulo ainda se mostra hostil em muitos aspectos aos membros da comunidade
POR RAFAEL BELÉM | FOTOS ASSOCIAÇÃO DA PARADA DO ORGULHO LGBT DE SÃO PAULO/FLICKR

Multidão aglomerada na Avenida Paulista durante a Parada do Orgulho LGBT+ de 2018

“Ser LGBT+ é existir em espaços específicos para nós”, relata o publicitário Beto Navareño, nascido em São Paulo. Essa é uma afirmação corriqueira entre lésbicas, gays, bissexuais e transexuais da cidade. Apesar de abrigar a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo, a capital ainda se mostra hostil em muitos aspectos aos membros da comunidade que, muitas vezes, veem seu direito à cidade negado em alguma instância. Um cenário que se repete em muitas metrópoles do país.

Circular pela rua, usar o transporte público em segurança ou mesmo conseguir um emprego: várias são as barreiras impostas às vidas LGBTs. A luta da comunidade, por sinal, está desde o início relacionada à sua existência nas cidades, isto é, poder transitar pelos espaços públicos e atuar na construção cotidiana sem a necessidade de ocultar sua identidade.

Afinal, o que é o direito à cidade?

O direito à cidade propriamente dito é um conceito defendido pelo Instituto Pólis desde 1987. Há mais de 30 anos, a ONG atua na construção de cidades mais justas, democráticas e inclusivas por meio de planos de ações e políticas públicas. “Esse conceito pensa a cidade como um bem comum para todos, sem nenhuma forma de discriminação”, explica a arquiteta Danielle Klinotwtz, diretora da instituição. “É um direito que protege todos os costumes, memórias, identidades e vivências das cidades”.

Por vezes subjetivo, ele engloba desde o direito à moradia e ao saneamento, mas também uma agenda simbólica de acolhimento e de afeto pela metrópole. Na teoria, trata da possibilidade de as pessoas criarem vínculos com suas cidades e construí-las coletivamente. Na prática, é um direito negado para quase todos os cidadãos. “Nossa visão é de que nenhum cidadão hoje tem o direito pleno à cidade. Sempre existe algo sendo violado. No caso da população LGBT, existe a questão fundamental da LGBTfobia e os crimes que acontecem na cidade motivados por ela”, afirma a arquiteta.

Ao ser marginalizada, por exemplo, a comunidade tem a área pública limitada ou mesmo negada. Fora dos guetos e dos espaços de acolhimento já conhecidos em São Paulo, como a região do Largo do Arouche, da Avenida Paulista, da rua Frei Caneca e o centro expandido, gays, lésbicas e transexuais lidam com a resistência e intolerância. “Na maior parte da cidade, os espaços públicos não são acolhedores e as LGBTs não se sentem seguras. Isso é uma violação muito grande do direito à cidade, porque essa população não consegue exercer sua vivência, sua cultura”, diz Danielle.

Foi dentro destes centros de acolhimento que a universitária Thais Rezende encontrou apoio para vivenciar sua identidade. Moradora de São Bernardo do Campo, a estudante passa a maior parte do tempo no centro expandido da capital paulista. “Frequento muito a região da Paulista e da Consolação. Quando me descobri lésbica, foi um local que me acolheu”, conta. “Vi que existiam pessoas como eu ali e acabei criando vínculos. Era onde me sentia bem”, completa a jovem, que lamenta não ter a mesma experiência em outros locais da cidade. “Não consigo viver minha identidade na plenitude porque não me sinto segura em outros espaços. Amo São Paulo, mas gostaria de poder ser quem sou em qualquer lugar”.

Em junho, o grupo Rede Nossa SP, em parceria com o Ibope, divulgou uma pesquisa que detectou o aumento da percepção entre os paulistanos sobre a intolerância da cidade com a população LGBT+ em comparação com 2018, quando a sensação de tolerância era de 50% entre os entrevistados. Neste ano, o índice caiu para 40%. Segundo o levantamento, essa compreensão é mais forte entre os mais jovens, pobres e aqueles que se autodeclaram pretos ou pardos. “Existem locais de acolhimento em São Paulo, mas são espaços restritos que criam uma bolha. Hoje já temos estudos que mostram que, até duas quadras depois destes locais, é possível observar crimes de LGBTfobia”, afirma arquiteta Danielle.

O ir e vir

O acesso à mobilidade, por exemplo, é outra questão que tem impacto direto na vivência LGBT+ na cidade. Existem relatos de gays, lésbicas e transexuais impedidos de pegar ônibus porque o condutor evita parar no ponto e transportá-los. “O mesmo acontece com os aplicativos de transporte. Motoristas cancelam a viagem ao perceberem que o passageiro é uma pessoa LGBT”, relata Danielle Klinotwtz. “Isso faz com que a comunidade simplesmente não consiga exercer a possibilidade de vivência dentro da cidade, de circular onde bem entender”.

A hostilidade gera resistência, e muitos acabam criando hábitos para seguirem normalmente com suas vidas. Acostumado aos olhares tortos no transporte público, o publicitário Beto Navareño permanece em estado de alerta ao usar serviços de carona. “Fico com o celular sempre à mão e já conheço todos os mecanismos possíveis de segurança para caso alguma coisa aconteça”, conta. Felizmente, ele nunca foi vítima de violência física e nem passou por grandes apuros ao se locomover com os aplicativos. “Apesar disso, já fui avaliado com uma nota muito baixa de um motorista sem entender o porquê, e acredito que era por ele estar em contato com alguém que era ‘muito gay’”.

Para Guilherme Takahashi, trans não-binário (termo associado a pessoas cuja identidade não se limita às categorias “masculino” ou “feminino”), a situação se repete. Há locais na cidade que permitem a sua existência, enquanto outros nem tanto. “Sinto que consigo transitar porque sou muito protegido pelo dinheiro. Tenho sorte de não ter sido expulsa de casa, ter acesso ao ensino superior e me posicionar no mercado, coisas que geralmente a população trans não tem”, explica. “Mesmo assim, ainda existem espaços onde não me sinto com o direito de transitar”, conta, lembrando-se de episódios em que foi proibida de frequentar vestiários e banheiros femininos. “Mas, dentro do meu cotidiano, não fico limitado a ser quem eu sou”, celebra.

O papel da arquitetura

Ao se falar sobre habitação e cidadania, fica evidente a urgência da arquitetura urbana em promover a cidade de fato para as pessoas. Como instrumento social, a arquitetura inclusiva pode garantir ambientes apropriados não só para uma comunidade específica como a LGBT+, mas para todos. “Os arquitetos e urbanistas têm várias ferramentas para ajudar na criação de espaços mais acolhedores. Áreas mais abertas e livres, por exemplo, geram espaços com mais possibilidades de apropriação e convivência”, explica Danielle. Por si só, a apropriação cria um espaço mais seguro, onde as pessoas apoiam a vigilância umas das outras e geram espaços de segurança comuns. 

Segundo a arquiteta, a chave para o combate à intolerância e o ao preconceito na cidade está na criação de mais áreas públicas como o Largo do Arouche. “A discriminação só diminuirá quando a cidade possuir lugares que propiciem o encontro do diferente de forma espontânea, onde as pessoas possam conviver com diferentes tipos de vivência, corpos e estilos”, sugere. “A arquitetura deve propor espaços mais diversos possíveis, pensados para que pessoas diferentes convivam. Afinal, muito da discriminação vem do desconhecimento do outro, do diferente. As pessoas negam a existência das outras”.

Para o agora, a arquiteta ressalta a importância de a própria cidade escutar a população LGBT+. “A comunidade precisa estar em espaços de poder e decisão sobre a cidade. Sem isso, nunca vamos conseguir uma sociedade realmente inclusiva. É fundamental que a população LGBT construa a cidade enquanto sociedade civil, sendo escutada, mas também dentro das posições de tomadas de decisão”, argumenta.