Eduardo Kobra homenageia Louis Armstrong com mural em New Orleans

Obra do artista brasileiro foi inaugurada neste domingo (4), dia do aniversário do cantor e instrumentista.

Eduardo Kobra homenageou Louis Armstrong — Foto: Divulgação

Eduardo Kobra homenageou Louis Armstrong com um mural em New Orleans, nos Estados Unidos. A entrega da obra aconteceu neste domingo (4). A data marca o aniversário de nascimento do cantor e instrumentista (1901 – 1971).

O mural foi pintado em cinco dias e tem 13 metros de altura e 12,65 metros de largura.

“O trabalho, que fica em uma área central, que foi importante para o desenvolvimento do jazz na cidade, foi extremamente desafiador e complexo, já que o painel tem cerca de 10 janelas, além de portas”, cita o artista brasileiro.

“Tenho muita conexão com a música e por isso fiz murais inspirados em mestres como Muddy Water, em Chicago; Bob Dylan em Minneapolis, e Arthur Rubinstein em Lodz, na Polônia. Queria muito vir para New Orleans e aprovei o pouco tempo livre aqui na cidade para conhecer os lugares históricos e relevantes para o jazz”, segue Kobra.

Nos últimos dias, Kobra inaugurou também um painel que registra a amizade de Mark Twain e John T. Lewis. Este, pintado em Buffalo, nos Estados Unidos.

Eduardo Kobra entrega mural sobre  Louis Armstrong em New Orleans — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra entrega mural sobre Louis Armstrong em New Orleans — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural em homenagem a Louis Armstrong em cinco dias — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural em homenagem a Louis Armstrong em cinco dias — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural sobre a amizade de Mark Twain e John T. Lewis em Buffalo — Foto: Brenda Turteltaub/Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural sobre a amizade de Mark Twain e John T. Lewis em Buffalo — Foto: Brenda Turteltaub/Divulgação


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Com foco em público diverso, pôsteres conquistam respeito enquanto arte

Fundadores do museu Poster House, o primeiro nos Estados Unidos dedicado à arte e à história global dos pôsteres, buscam mais reconhecimento do gênero que decolou no fim dos anos 1860
Ted Loos, The New York Times

Novo museu dedica-se à forma de arte do cotidiano.
  Foto: Rebecca Smeyne / The New York Times

Os pôsteres não são muito respeitados no universo da arte, mas os fundadores do museu Poster House, o primeiro nos Estados Unidos dedicado à arte e à história global dos pôsteres, esperam mudar isso. Inaugurado no dia 27 de junho em Nova York, o museu adota uma abordagem dedicada a um gênero que decolou no fim dos anos 1860 e se tornou tão onipresente que alguns chegam a se esquecer que do seu potencial artístico.

“Eles têm um grande impacto no retrato de uma cultura e um período”, avaliou Angelina Lippert, curadora principal, citando o apelo democrático dos pôsteres, algo que as pessoas encontram diariamente. “É uma forma bastante valiosa de observar a história social de algo que afetava o cidadão médio”. Mantido pelo financiamento privado, o Poster House começou com um acervo de sete mil pôsteres de mais de 100 países.

A programação aberta tem como objetivo misturar um pouco do conhecido com o novo. A maior das duas exposições principais, Alphonse Mucha: Art Nouveau/Nouvelle Femme, destaca o artista checo e suas floridas imagens no estilo Art Nouveau. Mucha (1860-1939) capturou o clima da belle epoque (a maioria dos pôsteres da exposição foi emprestada pela Fundação Richard Fuxa, em Praga).

A carreira de Mucha como ilustrador não decolou antes de ele passar dos 30 anos, morando em Paris. Foi então que ele começou um frutífero relacionamento de trabalho com a grande atriz da época, Sarah Bernhardt. Seu primeiro cartaz, Gismonda (1894), para uma peça de Sarah, “quebra as regas dos pôsteres”, disse Angelina, com a forma alta e esguia, a paleta de cores pastel e o detalhamento incomum. Já em 1900, o talento de Mucha era bastante requisitado. Ele ajudou a transformar uma marca de biscoitos, Biscuits Lefèvre-Utile, com a dramática imagem do Flerte.

“Ele nos transporta da lancheira para o camarote da ópera”, observou Angelina a respeito do design, com um casal romântico trocando olhares e nem uma única migalha de biscoito à vista. A exposição mostra também um desenho de Mucha para os papéis de enrolar cigarros Job, bem como pôsteres da empresa criados por sete outros artistas, incluindo um exemplo de 1895 por Jules Chéret, considerado o pai dos pôsteres modernos.

Uma exposição menor, Designing Through the Wall: Cyan in the 1990s, mostra a criativa obra gráfica de um coletivo de design chamado Cyan, fundado na Berlim Oriental. O Cyan usava algumas das primeiras ferramentas da editoração eletrônica, como o PageMaker e o Photoshop, para criar imagens densas para a Fundação Bauhaus Dessau – versão moderna da academia de arte Bauhaus – e outras organizações culturais. As duas exposições ficam em cartaz até 6 de outubro.

As próximas exposições programadas se concentram em uma área menos conhecida do gênero. Uma delas, The Golden Age of Ghanaian Hand-Painted Film Posters, oferece uma amostra das aspirações da ascendente classe média de Gana nos anos 1990, após um período de instabilidade. Outra, Three Years Later: The 2017 Women’s March & Where We Are Today, pretende mostrar o interesse do Poster House na diversidade em um gênero em que boa parte das obras é feita por homens, seja na Europa ou nos EUA.

A diretora do museu, Julia Knight, disse que o objetivo era criar uma atmosfera receptiva, como o próprio suporte. “Esperamos que este seja um museu para todos”, defendeu. “Os pôsteres são pensados e desenhados para todos na rua”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Louis Vuitton lança linha de colônias com perfumista francês e artista pop Alex Israel

A label francesa une forças com Jacques Cavallier Belletrud e Alex Israel no lançamento de ‘Les Colognes’, inspirada no lifestyle californiano
Por Ademir Correa

California dream: O multiartista Alex Israel (à esq.) assinou sua primeira colaboração com a Louis Vuitton criando as embalagens e as travel cases das Les Colognes (à dir.) (Foto: divulgação)
California dream: O multiartista Alex Israel (à esq.) assinou sua primeira colaboração com a Louis Vuitton criando as embalagens e as travel cases das Les Colognes (à dir.) (Foto: divulgação)

A Louis Vuitton comandou uma experiência tipicamente californiana para apresentar sua nova linha genderless, a Les Colognes, que aposta no lifestyle da região. O mestre perfumista Jacques Cavallier Belletrud criou três versões de fragrâncias remetendo ao estilo cool e effortless de quem vive um verão eterno – Sun Song, Cactus Garden, Afternoon Swim (esta é a primeira vez que a grife francesa cria nomenclatura em inglês para suas fragrâncias).

Entre os aromas escolhidos para encapsular o american way of life, estão uma mistura fresca de flor de laranjeira, cítricos e almíscar no Sun Song, que busca resgatar a sensação de calor do sol na pele; mate, bergamota e erva-cidreira compõem o ousado Cactus Garden como um frisson de uma floresta tropical; e o trio de cítricos laranja, mexerica e tangerina são os protagonistas do Afternoon Swim – que é como uma onda invadindo o corpo.

California dream (Foto: divulgação)

A vivência teve início no lendário hotel Shutters on The Beach, tradicional pé na areia de Santa Monica com estilo inspirado nos cottages de Cape Cod. Renovado em 2005 pelo designer Michael Smith, que também remodelou a Casa Branca para Obama, tem vista para o estarrecedor pôr do sol do local.

Experimentamos o happy hour no Living Room, com terraço aquecido à beira-mar, e a visão do oceano é daquelas lembranças que permanecem em nossa timeline mental – o hotel fica a apenas cinco minutos do píer. Essa atmosfera tranquila remete ao melhor da Califórnia, onde o luxo está intimamente ligado à sua relação com a natureza e suas cores e à celebração de um lifestyle relax e despretensioso.

California dream: À esq. a obra The Wave; a escultura Desperado que inspirou a embalagem da fragrância Cactus Garden (Foto: divulgação)
California dream: À esq. a obra The Wave; a escultura Desperado que inspirou a embalagem da fragrância Cactus Garden (Foto: divulgação)

Essa paleta fresca de verão também está nos tons dos frascos dos perfumes – criação do designer australiano Marc Newson – e nas embalagens e travel cases criados por Alex Israel, o versátil artista plástico que imprimiu sua linguagem pop multicolorida tipicamente angelena. “Los Angeles é minha casa, um dos lugares que mais conheço e também onde existe esta criatividade intensa que emana e entretém o resto do mundo”, afirma o criador, que se define como “automático, supersônico, hipnótico e funky fresh”. Sua conhecida pintura “Wave” (onda) invade a embalagem do Afternoon Swim – “escolhi essa pintura que fiz para uma sequência do meu filme, o SPF-18. Acredito que as ondas do Oceano Pacífico são centrais na vida dos que moram aqui. Elas ditam o ritmo da cidade”.

O longa Thelma e Louise, clássico road movie de 1991, com Geena Davis e Susan Sarandon, dirigido por Ridley Scott, e a obra Desperado – “uma escultura de bronze que é uma réplica de uma cena do filme e evoca narrativas hollywoodianas”, comenta Israel – foram as inspirações para as imagens do Cactus Garden. Por fim, a escultura Lens (lentes) trouxe o shape necessário para o Sun Song. “Sempre fiquei impressionado com a forma como a Louis Vuitton se relaciona com seus parceiros. E alguns deles estão entre meus favoritos, como Takashi Murakami, Richard Prince, Yayoi Kusama e Jeff Koons”, elogia Israel sobre os encontros anteriores da grife de luxo. “Fiquei surpreso com o que aprendi sobre fragrâncias e a forma de pesquisar cada aroma. Como esta é minha primeira colaboração com a label, senti certa responsabilidade em honrar o trabalho do Jacques com as minhas criações para as embalagens e os acessórios [como os cases de viagem].”

California dream: Lens está na da Sun Song (Foto: divulgação)
California dream: Lens está na da Sun Song (Foto: divulgação)

O ateliê de Israel foi o cenário escolhido para o lançamento desta collab – um imenso estúdio que expõe seus autorretratos, esculturas e também sua paixão por cinema e televisão. O letreiro original do reality show American Idol, por exemplo, rouba a cena em uma das paredes; as poltronas utilizadas pela apresentadora Oprah Winfrey, compradas em um leilão, servem de cenário e hoje são reutilizadas nas entrevistas do As It Lays – vídeos em que ele recebe personalidades da cidade,  como Paris Hilton, Kris Jenner e Meg Ryan, para discutir a cultura pop e que teve sua primeira temporada em 2011 com exibição em sessão especial no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles.

Outro objeto que desvia o olhar na entrada do local é uma forma onde são cunhadas as estatuetas do Oscar, colocada em uma caixa de vidro – como se adquirisse status de objeto de desejo. Além de uma biblioteca de grandes expoentes da arte, como o livro gigante de David Hockney – que repousa em um pedestal e deve ser manuseado com luvas.UM DIA EM LOS ANGELES

Alex Israel listou seus hot points na cidade – e arredores – que você pode conferir no city guide da LV

California dream: Alex Israel listou seus hot points na cidade (Foto: divulgação)
California dream: Alex Israel listou seus hot points na cidade (Foto: divulgação)

1. Will Rogers State Historic Park
Situado nas montanhas de Santa Monica, o Will Rogers State Historic Park tem trilhas fáceis e moderadas de hiking (uma delas é a Inspiration Point Trail, que aponta para o centro de Los Angeles, de um lado, e para a baía de Santa Mônica, do outro). A propriedade é o antigo rancho de Will Rogers (sucesso nos anos 30 e um dos atores mais bem pagos da época), que se transformou em parque em 1944, logo após a morte do comediante.
parks.ca.gov/willrogers

2. Giorgio Baldi
O Giorgio Baldi é o reduto das estrelas e rota obrigatória dos paparazzi. Cantina tradicional familiar com 25 anos de existência, se destaca pelas pastas feitas in loco. Na dúvida do que pedir, vá de vongoli ala marinara (como entrada) e o panzerotti de ricota e espinafre com cogumelos porcini como prato principal. giorgio-baldi.com

3. Little Beach House Malibu
Um dos clubes privados mais festejados entre os criativos, o Little Beach House fica à beira da praia de Malibu e faz parte das experiências exclusivas para associados do Soho House (e moradores da região). Pedir um negroni e apreciar o mar é o jeito mais cool que você terá para aproveitar seu dia ou noite. sohohouse.com/houses/little-beach-house-malibu

4. Malibu Farm
Primando por ingredientes de produtores locais que vão da horta à mesa, o Malibu Farm se destaca por saladas e sucos que estão entre os preferidos da atriz e empresária de wellness, criadora da marca Goop, Gwyneth Paltrow. A paisagem é uma atração à parte do menu. Ele se localiza no píer de Malibu e você aproveita o almoço com o Oceano Pacífico logo ali. Para tornar a vida ainda mais doce, a dica GQ é investir no cardápio de sobremesas. O bolo de coco e cenoura e o pudim vegano de chia são imperdíveis. malibu-farm.com

5. Chateau Marmont
Situado em West Hollywood, o Chateau Marmont é um dos hotéis mais charmosos e tradicionais da cidade – inaugurado em 1929. A obra dos renomados arquitetos Arnold A. Weitzman e William Douglas Lee foi inspirada em um castelo francês do Vale do Loire (o Château d’Amboise), abrigou as festas da Old Hollywood e já foi locação de filmes como Somewhere, de Sofia Coppola, lançado em 2010. As cenas da piscina com os atores Elle Fanning e Stephen Dorff foram rodadas ali, no pátio do Chateau. chateaumarmont.com

Ex-Eurythmics, Annie Lennox mostra sua essência em instalação de arte

Desde o colapso da dupla de sucesso da música pop que ela liderou com Dave Stewart, em 1990, Lennox tem se dedicado a pautas humanitárias
Jillian Steinhauer, The New York Times

Cerca de 250 objetos pertencentes a Annie Lennox estão em exibição em instalação artística em um museu de Massachusetts.
Cerca de 250 objetos pertencentes a Annie Lennox estão em exibição em instalação artística em um museu de Massachusetts. Foto: Lauren Lancaster / The New York Times

Annie Lennox está falando sobre a morte. Não é mórbido nem é vão, são as preocupações de uma celebridade sobre seu legado. A ex-cantora do Eurythmics é, de fato, uma mulher de certa idade – 64 anos – e, portanto, alguém que começou a olhar para trás e não para a frente. “O que é a única coisa garantida a todos nós?”, perguntou-se. “Que vamos morrer”.

Desde o colapso de 1990 da Eurythmics, a dupla de sucesso da música pop que ela liderou com Dave Stewart, as preocupações de Lennox se tornaram mais fundamentadas e existenciais. Nas décadas seguintes, ela lançou apenas álbuns solo esporádicos e tirou folga para criar suas duas filhas.

Inspirada por suas experiências com a campanha 46664 de Nelson Mandela, ela se tornou uma ativista sobre a conscientização da aids, concentrando-se especificamente na situação de mulheres e meninas na África. E deixou para trás a fama por uma chance de viver, e talvez até mesmo fazer a diferença no mundo. “No meu tempo, sempre achei que a fama era resultado de alguma coisa realmente boa que você fez musical ou artisticamente. É apenas um sintoma”, refletiu. “Eu mergulhei e fiquei imersa. E foi essa imersão que me manteve humana”.

Humanidade é o tema do mais recente projeto de Lennox, que revela um lado mais pessoal dela não visto pelos fãs até então, em um meio totalmente diferente: uma instalação de arte. No mês passado, no Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts (MASS MoCA), em North Adams, Massachusetts, Lennox revelou um monte de terra de aproximadamente 2,5 metros de altura e 20 metros de comprimento contendo quase 250 objetos que ela adquiriu durante sua vida: o estojo de maquiagem que ela usou durante as turnês, a máquina de costura de sua mãe, uma máscara que era um presente de um namorado, figuras mexicanas do Dia dos Mortos, dezenas de pares de sapatos de criança e muito mais.

Os itens são organizados em telas de miniatura que sugerem associações e histórias, e estão embutidos em um monte de terra manchada de glitter, que é cercada por cordas de veludo vermelho. No topo do monte fica um piano. É parcialmente iluminado por um holofote. “O piano tem sido tão, tão importante durante toda a minha vida”, afirmou Lennox. “Desde que eu tinha 3 anos de idade e me deram um piano de brinquedo”, lembrou. 

A exposição, intitulada Agora eu deixo você ir … representa uma espécie de tentativa de pôr a casa em ordem, tanto física quanto emocionalmente. “Eu estava confusa sobre o que mostrar, o que era relevante, o que não era”, explicou. “Mas é lindo que eu possa fazer isso. Porque não temos um ritual no mundo ocidental para isso. Nós simplesmente não sabemos o que fazer com o que é deixado para trás”.

Em uma visita recente, o clima na galeria era calmo e tinha a iluminação baixa. Lentas e suaves melodias de piano soavam – canções improvisadas por Lennox, que as chama de “música borboleta” por seu efeito calmante. A montanha de terra lembra antigos túmulos e valas comuns, além de escavações arqueológicas. Alguns de seus clipes são exibidos na parede do fundo, silenciosos e tocando de trás pra frente, de modo que seu rosto expressivo e os olhos penetrantes geralmente pairam sobre todo o espaço.

Lennox disse que espera que a instalação, que continuará aberta ao público até a próxima primavera, inspire a reflexão sobre “nossa humanidade comum”. Deixando para trás os alter egos que ela passou anos criando para videoclipes e sessões de fotos – celebrados em um show de 2011 no Victoria and Museu Albert – ela se desconstruiu para um autorretrato convincente.

“É uma parte minha que eu gostaria de ter sido, uma artista visual convencional”, disse, explicando que estudou brevemente arte na escola. Quando criança, crescendo em um prédio da classe trabalhadora na Escócia, Lennox se refugiou na galeria de arte de Aberdeen.

Mas a artista, que agora divide seu tempo entre Londres e Los Angeles, não tem pretensões de iniciar uma nova carreira no final da vida e credita grande parte do sucesso da instalação ao diretor do MASS MoCA, Joseph Thompson, que aceitou sua proposta para o monte, e à equipe técnica e de curadores que a tornou realidade. “É o meu sonho”, compartilhou. “E eles me ajudaram a fazê-lo acontecer”.

Lennox diz que ela se tornou cada vez mais sintonizada com a qualidade onírica da vida, mas como compositora, ela captou habilmente o tempo todo – está lá no pop de sintetizador de Sweet Dreams de 1982, na balada poderosa de 2007 Dark Road e em muitas outras músicas. 

Agora ela deu a essa sensibilidade uma forma física que é, em última análise, mais fugaz que sua música. “Se você tivesse me conhecido nos anos 80, eu estava na minha juventude, experimentando e tentando descobrir tudo. Não estou dizendo que descobri muito, mas uma coisa que estou começando a perceber mais e mais é que a vida é apenas um sonho, e nós a carregamos na memória”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Atriz Tilda Swinton estreia em curadoria de arte em exposição de fotografias, em NY

Inspirada em Virginia Woolf, Tilda Swinton organizou a mostra ‘Orlando’, mesmo nome de romance da autora, que gira em torno dos temas desafiadores de gênero
Ted Loos, The New York Times

Em NY, a atriz Tilda Swinton na Aperture Foundation, local da mostra ‘Orlando’ Foto: Micaiah Carter/The New York Times

A atriz britânica Tilda Swinton pode se vangloriar de muitas conquistas, entre elas uma carreira de mais de 70 filmes que inclui Conduta de Risco, pelo qual ganhou um Oscar em 2008. Sua trajetória no cinema começa com ela ainda inexperiente nos anos 1980, trabalhando com o aclamado diretor Derek Jarman, para chegar a sua participação neste ano em Vingadores – Ultimato, que já é uma das maiores bilheterias de todos os tempos. 

Até agora, porém, Swinton, de 58 anos, não havia organizado uma exposição de arte. A mostra Orlando, que foi inaugurada na Aperture Foundation, de Nova York, e traz cerca de 50 fotografias de 11 artistas, é a primeira experiência de Swinton em curadoria de arte.

Os trabalhos expostos, alguns encomendados especialmente para o projeto, abordam os temas de identidade e transformação explorados no romance Orlando, lançado por Virginia Woolf em 1928, e na adaptação de 1992 do livro para o cinema, de Sally Potter, na qual o papel principal foi a porta para o sucesso de Swinton.

A lista de artistas na mostra inclui nomes consagrados como Mickalene Thomas, Lynn Hershman Leeson e Potter, além de novos talentos como Elle Pérez. A edição de verão da revista Aperture é dedicada ao projeto, com Swinton como editora convidada trabalhando com o editor da publicação, Michael Famighetti. 

“Ela tem um ótimo olho”, disse Thomas, que fotografou dois temas – sua companheira e musa, Racquel Chevremont, e o artista performático Zachary Tyler Richardson – e depois se correspondeu com Swinton por e-mail para selecionar as imagens para a mostra. Swinton falou com entusiasmo de seu trabalho durante uma visita a Nova York no mês passado. 

Como isso começou?
Eu havia conversado com a revista Aperture sobre fazer alguma coisa, e aí surgiu essa ideia de Orlando.

Curadoria é novidade para você, não?
Há muito tempo, fiz curadoria para uma mostra de filmes experimentais no Instituto de Artes Contemporâneas (ICA) de Londres. Também fui curadora de festivais de cinema. Mas até agora não havia feito curadoria de nada que estivesse em paredes.

Discussões de gênero são comuns hoje, mais do que quando você fez o filme Orlando. Isso a levou de volta a essa história?
Me parece que essa discussão sobre o que é Orlando – o filme e principalmente o livro – se dá toda em torno de gênero. E na verdade não é assim.

Então o que é?
É sobre mudanças inevitáveis e ininterruptas serem a única coisa em que se pode confiar, e sobre identidade ser positivamente irrelevante. É um livro adequadamente revolucionário. Eu me arrisco a pensar que, se Virginia Woolf tivesse continuado por mais mil páginas, Orlando acabaria se transformando em um camundongo.

No entanto, o livro é tocante no modo como aborda a transformação homem-mulher: o protagonista acorda um dia como mulher e continua assim.

Identidade de gênero é um aspecto do livro, e Woolf lida com isso de maneira linda, espirituosa, engraçada e profunda. Mas o livro também é importante ao falar de classe, e isso é um tabu sobre o qual ninguém fala, nunca.

Você parece inspirar filmes de fluidez de gênero – em Suspiria, do ano passado, fez papéis de homem e de mulher. Por que os diretores pensam em você para isso?
Com frequência instigo isso, então me cabe alguma responsabilidade. Não culpem os diretores! (risos)

De onde vem essa tendência?
Sou realmente interessada em transformação – especialmente no que chamo de o precipício da transformação. Para mim é natural fazer uma dona de casa burguesa que cuida de sua família e de repente sente atração por seu chantagista, como em Até o Fim. Ou como em Julia, fazendo uma alcoólatra que, de certo modo, se transforma em mãe.

O que a levou a essa mostra?
Foi um convite que fiz a algumas pessoas e ao qual todas responderam, exceto uma que estava muito ocupada.

Você conhece vários dos artistas participantes, especialmente Lynn Hershman Leeson.
É uma velha amiga e colaboradora. Nós nos conhecemos quando ela me escreveu pedindo que trabalhasse com ela. Aceitei imediatamente e juntas fizemos cinco filmes. O primeiro foi Conceiving Ada, sobre Ada Lovelace, filha de Lorde Byron, hoje reconhecido como o primeiro programador de computador.

Leeson é famosa por ter uma outra identidade, correto?
Seu alter ego, Roberta Breitmore, era algo muito vivo. Tinha vida conhecida do público, caixa postal, número de Previdência Social e até passaporte, mas nunca existiu.

O que a surpreendeu quanto ao resultado artístico da mostra?
Adoro o que (o fotógrafo e artista americano) Paul Mpagi Sepuya fez. Sou muito grata por ele mostrar que ali há mais do que a simples questão de gênero do livro – há raça, também. “Sim, há esse racismo bárbaro”, disse ele, o que foi muito significativo.

Há no romance de Woolf um momento particularmente forte relacionado a racismo que não está no filme, certo?
Paul Mpagi Sepuya estava se referindo a um Orlando enfastiado, brincando com o que parecia um punching ball (saco de boxe), mas que na verdade era a cabeça enrugada de um mouro que seus ancestrais trouxeram das Cruzadas.

Talvez identidade seja algo dispensável, como você sugere, mas na arte não estamos todos olhando para nós mesmos?
Veja o trabalho de Mickalene Thomas. Ela acertou na mosca: a verdade é que todos são Orlando.

Parece que o livro significa mais para você do que o filme no qual trabalhou.
Acho que me sinto meio acanhada por gostar do livro porque eu também cresci numa grande casa, com muitos retratos nas paredes de pessoas que se pareciam comigo, mas com bigode ou cavanhaque. Ocorre que milhões que leram o livro se sentem da mesma forma, não importando onde cresceram, qual sua identidade de gênero ou como é sua vida. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Por que museus têm mais obras do que seriam capazes de expor?

Equilíbrio entre colecionar objetos de arte e gastar recursos com manutenção é questionado
Robin Pogrebin, The New York Times

Museu de Arte de Indianápolis optou por não ampliar sua capacidade de armazenamento e, em vez disso, fez uma limpeza no acervo. Foto: Lyndon French / The New York Times

Durante décadas, impulsionados por um zelo filantrópico, lucrativas isenções fiscais e o prestígio de verem suas obras em ambientações estimadas, os ricos proprietários de obras de arte entregaram aos museus tudo que tinham em casa, dos Rembrandts aos chinelos de dormir. Tudo aquilo precisava de um lugar para ficar. Agora, muitos museus americanos estão sobrecarregados – é tanta coisa que milhares de objetos nunca foram expostos, mas seguem preservados, a um custo considerável, em espaços de armazenamento com temperatura controlada.

Alguns acervos aumentaram dez vezes nos 50 anos mais recentes. A maioria dos museus expõe apenas uma fração das obras do seu acervo, principalmente porque muitas são impressões e desenhos que só podem ser mostrados com parcimônia por causa de sua sensibilidade à luz. “Temos uma marcha inexorável que nos obriga a construir mais espaço de armazenamento, mais e mais”, disse Charles L. Venable, diretor do Museu de Arte de Indianápolis, em Newfields. “Não acho que seja uma prática sustentável”.

O museu de Venable estava tão congestionado de obras de arte que estava prestes a gastar cerca de US$ 14 milhões para dobrar seu espaço de armazenamento, até o plano ser cancelado abruptamente. Em vez disso, a instituição se dedicou a uma iniciativa para classificar cada uma das 54.000 peças de sua coleção com uma nota – 20% das peças receberam nota D, indicando que poderiam ser vendidas ou entregues a outras instituições.

Pouco tempo atrás, esse tipo de classificação seria vista por muitos no universo dos museus como algo de péssimo gosto. Mas Venable está agora na vanguarda de um crescente número de diretores de museus que estão analisando de maneira criteriosa o tamanho de seus acervos e sua forma de colecionar arte, por temerem uma história de acúmulo voraz e a pressão pela aquisição de mais e mais, que estariam criando uma crise para os museus americanos.

Redução de acessórios
Parte do problema está na facilidade e no glamour ligados a uma aquisição, diferentemente do ato de livrar-se de peças antigas. A redução dos acessórios, termo formal para o descarte de um objeto de arte, é um processo burocrático, e muitos ainda defendem a ideia segundo a qual livrar-se apressadamente desses objetos pode ser arriscado. “As pessoas têm dificuldade em compreender por que os museus têm mais obras do que seriam capazes de expor num dado momento”, disse o crítico e curador Robert Storr. “Mas o propósito dos museus é preservar o melhor do passado – independentemente do quanto uma peça possa se tornar temporariamente impopular”.

Com um orçamento limitado para aquisições, faz tempo que os museus dependem de doadores. O atual problema de armazenamento tem suas origens em doações como a de Adelaide Milton de Groot ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Ela deu mais de 200 quadros, mas apenas meia dúzia eram obras de primeira linha

O acervo atual do Met supera a marca de 1,5 milhão de peças, muitas delas armazenadas em aproximadamente 9.700 metros quadrados de espaço de armazenamento no local e quatro instalações separadas. O diretor do Met, Max Hollein, disse que o tamanho do acervo mostra que a missão do museu vai além da exposição. “Precisamos também preservar o patrimônio cultural da humanidade”, disse, acrescentando que, no futuro, “o foco do Met não será naquilo que ainda pode nos faltar, e sim naquilo que já temos no acervo e em como exibi-lo”.

No Museu do Brooklyn, onde o armazenamento é um problema desde o início, a diretora Anne Pasternak disse que há cada vez mais debate a respeito de uma revisão nos termos das políticas de redução de acessórios.

As instalações do próprio museu foram atualizadas e agora incluem uma área de armazenamento aberta, permitindo que os visitantes vejam as peças guardadas. Mas Anne continua a pensar em como o espaço é usado. Ela gostaria de transformar uma sala de obras têxteis em uma galeria de arte africana. De acordo com ela, a análise do custo-benefício deixa poucas dúvidas. “Um lar permanente para uma galeria de arte africana, ou espaço para guardar algo que nunca sequer expusemos?”.

Venable criou certa polêmica ao decidir classificar todo o acervo do seu museu em Indianápolis, que expõe algo entre 8% e 10% do seu acervo por vez. A avaliação mediu as qualidades estéticas de uma obra, seu estado de conservação e se o museu teria exemplos melhores do mesmo gênero. Venable decidiu que a arte não deve ser mantida simplesmente para ser estudada. “No intervalo de um ano, quantos especialistas chegam a ver essas obras?”, indagou.

Desde 2011, o museu de Indianápolis se desfez de 4.615 objetos, a maioria dos quais foi vendida. Outras 124 obras foram transferidas para outras instituições. Para Venable, esse tipo de flexibilidade será essencial para a sobrevivência dos museus no futuro.“Qual é o equilíbrio entre colecionar objetos de arte quase obsessivamente e gastar vastos recursos com isso?”, perguntou. “Será que somos apenas viciados reunindo objetos trazidos por nossos curadores, geração após geração?” / PETER LIBBEY CONTRIBUIU COM A REPORTAGEM

“Abaporu”, de Tarsila do Amaral, retorna ao Brasil em exposição no MASP

Tela icônica de 1928 volta para São Paulo após 11 anos com a mostra “Tarsila Popular”, que estreia em 05/04

Depois de uma passagem no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA), o quadro “Abapuru”, de Tarsila do Amaral, volta às suas origens em grande estilo com uma exposição no MASP, em São Paulo. Símbolo do modernismo brasileiro, a obra pintada em 1928 será uma das estrelas da mostra “Tarsila Popular”, em cartaz a partir do dia 5 de abril.

Com curadoria de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, a exposição reúne cerca de 120 obras da artista, entre pinturas e desenhos. Revisitando a produção de uma das principais pintoras brasileiras, a mostra presta um tributo ao modernismo e evidencia a construção de uma identidade nacional nas artes defendida por Tarsila.

Além de “Abaporu”, serão expostas as obras clássicas como “A Cuca”, “Operários” e “Porto I”.

“A exposição e o catálogo que a acompanha pretendem promover reflexões mais abrangentes sobre Tarsila, articulando sua vida e obra no contexto de uma visão política, social e racial da cultura brasileira e do modernismo — um movimento que, no Brasil, raramente é abordado sob esses prismas”, diz Fernando Oliva, curador da exposição.

TARSILA POPULAR
Abertura: 4 de abril, às 20h
De 5 de abril a 23 de junho de 2019
Local: 1º andar
Endereço: Avenida Paulista, 1578, São Paulo, SP
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: quarta a domingo: das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h30); terça-feira: das 10h às 20h (bilheteria até 19h30) Ingressos: R$ 40 (entrada); R$ 20 (meia-entrada)