Como o mundo da arte está reagindo ao Brexit

Eventos e exposições em Londres mostram que o mercado de arte tenta passar incólume pela saída da União Europeia
Scott Reyburn, O Estado de S.Paulo

Da esquerda para a direita: ‘Untitled’ (1986), ‘Treppenhaus Rund’ (1982) e ‘Als Hätte Man Mir die Muschel’ (1982), de Albert Oehlen, na Galerie Max Hetzler Foto: Albert Oehlen/Galerie Max Hetzler

LONDRES — A Grã-Bretanha está em convulsão por causa do Brexit, mas o mundo da arte contemporânea e 0,1% da população que o faz se movimentar continuam a vida normal. Pelo menos parece.

Esta semana milhares de colecionadores internacionais, marchands e curadores se reúnem para as feiras de arte Frieze London e  Frieze Masters em Regent’s Park, além da muitas mostras de comerciantes de arte, leilões e outros eventos paralelos.

“Em termos geopolíticos parece que o mundo está caminhando na direção errada, mas o mercado de arte segue em frente”, disse Wendy Cromwell, conselheira de arte sediada em Nova York, que, estava em Londres para participar dos eventos.

“As vendas primárias estão ativas e vão bem, como também o mercado secundário de obras raras, de alta qualidade e sob demanda, referindo-se ao mercado de novas obras de galerias comerciais, no mercado primário, e os negócios no “secundário” no caso de peças revendidas, como aos leilões.

“O material dos leilões está mais fraco este ano com as preocupações em torno do Brexit, disse Wendy Cromwell, que não sabia que um Bansky fora leiloado pela Sotheby’s na quinta-feira por US$ 12 milhões. “Mas a libra teve uma queda recorde, de modo que essas vendas favorecem os ousados”.

Os leilões menos espetaculares (Bansky à parte) foram equilibrados por uma série formidável de mostras realizadas por marchands de obras de arte. Dentro um espaço de pouco mais de dois quilômetros quadrados no centro da cidade havia novos trabalhos assinados por Mark Bradford à venda na Hauser & Wirth, de Damien Hirst na White Cube e de Peter Doig na galeria de Michael Werner.

Uma exposição de pinturas novas e antigas do admirado artista alemão Albert Oehlen na Serpentine Gallery animou as ofertas no discreto mercado secundário de obras mais antigas de Oehlen nas galerias Max Hetzler e Lévy Gorvy. E até uma mostra de novas pinturas e esculturas do popular artista de rua americano KAWS na galeria Skarstedt.

Impulsionado pelos recentes resultados excepcionais nos leilões, KAWS se tornou um fenômeno de mercado. A galeria Skarstedt ofereceu 10 novas pinturas abstratas em acrílico do artista, como também duas esculturas enormes em resina, e todas foram vendidas.  Os preços das pinturas variavam de US$ 450.000 a US$ 575.000, ao passo que as esculturas, cada uma disponível uma edição total de sete, eram oferecidas a US$ 850.000 cada uma.

“O problema é que se é uma boa mostra, 200 pessoas querem comprar”, disse Candace Worth, outro conselheiro de arte de Nova York. “Há uma enorme clientela para um número relativamente pequeno de artistas. É uma panela de pressão”.

Um exemplo foi a exposição na Stephen Friedman Gallery de 20 novos pinturas e trabalhos em papel da artista sul-africana Lisa Brice, que realizou uma exposição individual na Tate Britain em 2018.

“Confrontar e reinterpretar as representações tradicionais do nu feminino a partir da perspectiva de uma artista mulher”, segundo comentário da galeria, essas imagens politicamente carregadas estavam perfeitamente em sintonia com a missão de muitos curadores de museus e colecionadores privados de ampliar o cânone histórico. As obras dela foram vendidas por valores variando de US$ 11.000 pelas gravuras a US$ 213.000 pelos biombos pintados, disse Mira Dimitrova, porta-voz da galeria.

Os trabalhos de artistas mulheres afro-americanas são imensamente populares no mercado atual. Na quarta-feira, no vernissage da Frieze London, novas pinturas de Jack Whitten que foram apresentadas na exposição da Tate de 2017 intitulada “Soul of a Nation: Art in the Age of Black Power”, e de Kerry James Marshall foram rapidamente vendidas.

A obra de Marshall , muito irônica, intitulada Car Girl 2, mostrando uma mulher se inclinando num carro do qual um cachorro aparece na janela foi vendida pelo marchand de Nova York, David Zwirner, por US$ 3,8 milhões, ao passo que a Lisson Gallery, de Londres, vendeu quatro novos abstratos geométricos coloridos de Whitten por preços entre US$ 350.000 e US$ 450.000 para compradores do Oriente Médio, Noruega e Estados Unidos.  

Enquanto a Frieze London no seu vernissage estava lotada, a atmosfera era bem mais contida no evento irmão, Frieze Masters, que apresenta uma mistura “cruzada” de obras abrangendo 6.000 anos. Os velhos mestres foram vendidos agressivamente neste elegante evento, como também os mestres do século 20. Marchands influentes do mercado secundário no campo da arte moderna, como Lévy Gorvy e Luxembourg & Dayab, ambos com sedes em Nova York e Londres, e a Galería Elvira González, de Madrid, foram os grandes ausentes desta última edição.

Mas na quarta-feira o marchand nova-iorquino Van de Weghe vendeu uma pintura de Jean-Michel Basquiat, de 1986, por US$ 2,2 milhões, e a galeria londrina Moretti Fine Ar encontrou um comprador para uma pintura florentina de 1.400, Christ at the Column, avaliada em US$ 200.000.

Com o aceno do Brexit e grandes galerias como David Zwirner, White Cube e Pace abrindo espaço alternativos em Paris, conseguirá Londres manter sua posição antiga de capital internacional do mercado de arte europeu?

Max Edouard Hetzler, marchand de arte contemporânea com galerias em Berlim, Paris e Londres, acha que a capital britânica não vai ceder esse status em breve. A galeria de Hetzler no elegante distrito de Mayfair está com uma mostra de sete Spiegelbilder, de Albert Oehlen, pertencentes a coleções privadas. Algumas obras foram colocadas à venda, com preços que variam de US$ 2 milhões a US$ 4 milhões.

“Há muitos museus, escolas de arte e coleções em Londres. E não sairão daqui”, disse Hetzler.

Tradução de Terezinha Martino

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Visitantes terão que se espremer entre casal nu para entrar em exposição em Londres

By Fernando Moreira

Visitantes de exposição terão que se espremer entre corpos de casal para ver obras em Londres Foto: Reprodução

Podemos chamá-lo de um pequeno corredor polonês. Só com uma diferença: cada lateral só tem uma pessoa. Sem roupa. E a dupla não tem a menor intenção de desferir golpes. O objetivo é ficar totalmente parado para que você atravesse o corredor apertado, com espaço pelo qual mal passa uma pessoa.

Imaginou a cena? Pois ela estará na entrada de um espaço da Real Academia de Artes, em Londres (Inglaterra). Trata-se de uma recriação de um audacioso e controvertido projeto de 1977. A artista sérvia Marina Abramovic ficou frente a frente com o namorado, Ulay, ambos nus, para que os visitantes de uma exposição se espremessem entre eles.

Quando foi realizado pela primeira vez, o projeto fez muita gente dar meia volta. Agora, disse a curadora Andrea Tarsia ao “Sun”, acredita-se que quase ninguém se recuse a passar pelo estreito corredor humano.

“Eles não conseguiram lidar com isso e não tinham certeza do que estavam vendo. Alguns passaram. Alguns passaram várias vezes, na verdade”, comentou a curadora.

A Real Academia de Artes está selecionando o casal que fará a nova versão de Marina e UlayVocê se arriscaria? A posar ou a atravessar?

Felipe Cohen fala sobre ‘Tardinha’, sua exposição na Galeria Millan

O artista plástico Felipe Cohen está com a exposição ‘Tardinha’ na Galeria Milan. Nesta entrevista para o Estado da Arte, Cohen fala de suas influências, do planejamento e da execução das obras que compõem a exposição
Estado da Arte

Foto: Filipe Berndt

Está em cartaz, na Galeria Millan (Rua Fradique Coutinho, 1360), a exposição individual do artista plástico Felipe Cohen. Intitulada Tardinha, a exposição de Cohen traz três grupos de trabalhos: esculturas em granito, relevos e vitrines (madeira, vidro e pedras), todos em diálogo com a paisagem natural.

Nesta entrevista para o Estado da Arte, Felipe Cohen fala sobre suas motivações para esses trabalhos, explicitando as relações com o alto modernismo brasileiro, com a arquitetura e com a música de uma época que marcou a história de nossa cultura.

Eduardo Kobra homenageia Louis Armstrong com mural em New Orleans

Obra do artista brasileiro foi inaugurada neste domingo (4), dia do aniversário do cantor e instrumentista.

Eduardo Kobra homenageou Louis Armstrong — Foto: Divulgação

Eduardo Kobra homenageou Louis Armstrong com um mural em New Orleans, nos Estados Unidos. A entrega da obra aconteceu neste domingo (4). A data marca o aniversário de nascimento do cantor e instrumentista (1901 – 1971).

O mural foi pintado em cinco dias e tem 13 metros de altura e 12,65 metros de largura.

“O trabalho, que fica em uma área central, que foi importante para o desenvolvimento do jazz na cidade, foi extremamente desafiador e complexo, já que o painel tem cerca de 10 janelas, além de portas”, cita o artista brasileiro.

“Tenho muita conexão com a música e por isso fiz murais inspirados em mestres como Muddy Water, em Chicago; Bob Dylan em Minneapolis, e Arthur Rubinstein em Lodz, na Polônia. Queria muito vir para New Orleans e aprovei o pouco tempo livre aqui na cidade para conhecer os lugares históricos e relevantes para o jazz”, segue Kobra.

Nos últimos dias, Kobra inaugurou também um painel que registra a amizade de Mark Twain e John T. Lewis. Este, pintado em Buffalo, nos Estados Unidos.

Eduardo Kobra entrega mural sobre  Louis Armstrong em New Orleans — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra entrega mural sobre Louis Armstrong em New Orleans — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural em homenagem a Louis Armstrong em cinco dias — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural em homenagem a Louis Armstrong em cinco dias — Foto: Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural sobre a amizade de Mark Twain e John T. Lewis em Buffalo — Foto: Brenda Turteltaub/Divulgação
Eduardo Kobra pinta mural sobre a amizade de Mark Twain e John T. Lewis em Buffalo — Foto: Brenda Turteltaub/Divulgação


Com foco em público diverso, pôsteres conquistam respeito enquanto arte

Fundadores do museu Poster House, o primeiro nos Estados Unidos dedicado à arte e à história global dos pôsteres, buscam mais reconhecimento do gênero que decolou no fim dos anos 1860
Ted Loos, The New York Times

Novo museu dedica-se à forma de arte do cotidiano.
  Foto: Rebecca Smeyne / The New York Times

Os pôsteres não são muito respeitados no universo da arte, mas os fundadores do museu Poster House, o primeiro nos Estados Unidos dedicado à arte e à história global dos pôsteres, esperam mudar isso. Inaugurado no dia 27 de junho em Nova York, o museu adota uma abordagem dedicada a um gênero que decolou no fim dos anos 1860 e se tornou tão onipresente que alguns chegam a se esquecer que do seu potencial artístico.

“Eles têm um grande impacto no retrato de uma cultura e um período”, avaliou Angelina Lippert, curadora principal, citando o apelo democrático dos pôsteres, algo que as pessoas encontram diariamente. “É uma forma bastante valiosa de observar a história social de algo que afetava o cidadão médio”. Mantido pelo financiamento privado, o Poster House começou com um acervo de sete mil pôsteres de mais de 100 países.

A programação aberta tem como objetivo misturar um pouco do conhecido com o novo. A maior das duas exposições principais, Alphonse Mucha: Art Nouveau/Nouvelle Femme, destaca o artista checo e suas floridas imagens no estilo Art Nouveau. Mucha (1860-1939) capturou o clima da belle epoque (a maioria dos pôsteres da exposição foi emprestada pela Fundação Richard Fuxa, em Praga).

A carreira de Mucha como ilustrador não decolou antes de ele passar dos 30 anos, morando em Paris. Foi então que ele começou um frutífero relacionamento de trabalho com a grande atriz da época, Sarah Bernhardt. Seu primeiro cartaz, Gismonda (1894), para uma peça de Sarah, “quebra as regas dos pôsteres”, disse Angelina, com a forma alta e esguia, a paleta de cores pastel e o detalhamento incomum. Já em 1900, o talento de Mucha era bastante requisitado. Ele ajudou a transformar uma marca de biscoitos, Biscuits Lefèvre-Utile, com a dramática imagem do Flerte.

“Ele nos transporta da lancheira para o camarote da ópera”, observou Angelina a respeito do design, com um casal romântico trocando olhares e nem uma única migalha de biscoito à vista. A exposição mostra também um desenho de Mucha para os papéis de enrolar cigarros Job, bem como pôsteres da empresa criados por sete outros artistas, incluindo um exemplo de 1895 por Jules Chéret, considerado o pai dos pôsteres modernos.

Uma exposição menor, Designing Through the Wall: Cyan in the 1990s, mostra a criativa obra gráfica de um coletivo de design chamado Cyan, fundado na Berlim Oriental. O Cyan usava algumas das primeiras ferramentas da editoração eletrônica, como o PageMaker e o Photoshop, para criar imagens densas para a Fundação Bauhaus Dessau – versão moderna da academia de arte Bauhaus – e outras organizações culturais. As duas exposições ficam em cartaz até 6 de outubro.

As próximas exposições programadas se concentram em uma área menos conhecida do gênero. Uma delas, The Golden Age of Ghanaian Hand-Painted Film Posters, oferece uma amostra das aspirações da ascendente classe média de Gana nos anos 1990, após um período de instabilidade. Outra, Three Years Later: The 2017 Women’s March & Where We Are Today, pretende mostrar o interesse do Poster House na diversidade em um gênero em que boa parte das obras é feita por homens, seja na Europa ou nos EUA.

A diretora do museu, Julia Knight, disse que o objetivo era criar uma atmosfera receptiva, como o próprio suporte. “Esperamos que este seja um museu para todos”, defendeu. “Os pôsteres são pensados e desenhados para todos na rua”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Louis Vuitton lança linha de colônias com perfumista francês e artista pop Alex Israel

A label francesa une forças com Jacques Cavallier Belletrud e Alex Israel no lançamento de ‘Les Colognes’, inspirada no lifestyle californiano
Por Ademir Correa

California dream: O multiartista Alex Israel (à esq.) assinou sua primeira colaboração com a Louis Vuitton criando as embalagens e as travel cases das Les Colognes (à dir.) (Foto: divulgação)
California dream: O multiartista Alex Israel (à esq.) assinou sua primeira colaboração com a Louis Vuitton criando as embalagens e as travel cases das Les Colognes (à dir.) (Foto: divulgação)

A Louis Vuitton comandou uma experiência tipicamente californiana para apresentar sua nova linha genderless, a Les Colognes, que aposta no lifestyle da região. O mestre perfumista Jacques Cavallier Belletrud criou três versões de fragrâncias remetendo ao estilo cool e effortless de quem vive um verão eterno – Sun Song, Cactus Garden, Afternoon Swim (esta é a primeira vez que a grife francesa cria nomenclatura em inglês para suas fragrâncias).

Entre os aromas escolhidos para encapsular o american way of life, estão uma mistura fresca de flor de laranjeira, cítricos e almíscar no Sun Song, que busca resgatar a sensação de calor do sol na pele; mate, bergamota e erva-cidreira compõem o ousado Cactus Garden como um frisson de uma floresta tropical; e o trio de cítricos laranja, mexerica e tangerina são os protagonistas do Afternoon Swim – que é como uma onda invadindo o corpo.

California dream (Foto: divulgação)

A vivência teve início no lendário hotel Shutters on The Beach, tradicional pé na areia de Santa Monica com estilo inspirado nos cottages de Cape Cod. Renovado em 2005 pelo designer Michael Smith, que também remodelou a Casa Branca para Obama, tem vista para o estarrecedor pôr do sol do local.

Experimentamos o happy hour no Living Room, com terraço aquecido à beira-mar, e a visão do oceano é daquelas lembranças que permanecem em nossa timeline mental – o hotel fica a apenas cinco minutos do píer. Essa atmosfera tranquila remete ao melhor da Califórnia, onde o luxo está intimamente ligado à sua relação com a natureza e suas cores e à celebração de um lifestyle relax e despretensioso.

California dream: À esq. a obra The Wave; a escultura Desperado que inspirou a embalagem da fragrância Cactus Garden (Foto: divulgação)
California dream: À esq. a obra The Wave; a escultura Desperado que inspirou a embalagem da fragrância Cactus Garden (Foto: divulgação)

Essa paleta fresca de verão também está nos tons dos frascos dos perfumes – criação do designer australiano Marc Newson – e nas embalagens e travel cases criados por Alex Israel, o versátil artista plástico que imprimiu sua linguagem pop multicolorida tipicamente angelena. “Los Angeles é minha casa, um dos lugares que mais conheço e também onde existe esta criatividade intensa que emana e entretém o resto do mundo”, afirma o criador, que se define como “automático, supersônico, hipnótico e funky fresh”. Sua conhecida pintura “Wave” (onda) invade a embalagem do Afternoon Swim – “escolhi essa pintura que fiz para uma sequência do meu filme, o SPF-18. Acredito que as ondas do Oceano Pacífico são centrais na vida dos que moram aqui. Elas ditam o ritmo da cidade”.

O longa Thelma e Louise, clássico road movie de 1991, com Geena Davis e Susan Sarandon, dirigido por Ridley Scott, e a obra Desperado – “uma escultura de bronze que é uma réplica de uma cena do filme e evoca narrativas hollywoodianas”, comenta Israel – foram as inspirações para as imagens do Cactus Garden. Por fim, a escultura Lens (lentes) trouxe o shape necessário para o Sun Song. “Sempre fiquei impressionado com a forma como a Louis Vuitton se relaciona com seus parceiros. E alguns deles estão entre meus favoritos, como Takashi Murakami, Richard Prince, Yayoi Kusama e Jeff Koons”, elogia Israel sobre os encontros anteriores da grife de luxo. “Fiquei surpreso com o que aprendi sobre fragrâncias e a forma de pesquisar cada aroma. Como esta é minha primeira colaboração com a label, senti certa responsabilidade em honrar o trabalho do Jacques com as minhas criações para as embalagens e os acessórios [como os cases de viagem].”

California dream: Lens está na da Sun Song (Foto: divulgação)
California dream: Lens está na da Sun Song (Foto: divulgação)

O ateliê de Israel foi o cenário escolhido para o lançamento desta collab – um imenso estúdio que expõe seus autorretratos, esculturas e também sua paixão por cinema e televisão. O letreiro original do reality show American Idol, por exemplo, rouba a cena em uma das paredes; as poltronas utilizadas pela apresentadora Oprah Winfrey, compradas em um leilão, servem de cenário e hoje são reutilizadas nas entrevistas do As It Lays – vídeos em que ele recebe personalidades da cidade,  como Paris Hilton, Kris Jenner e Meg Ryan, para discutir a cultura pop e que teve sua primeira temporada em 2011 com exibição em sessão especial no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles.

Outro objeto que desvia o olhar na entrada do local é uma forma onde são cunhadas as estatuetas do Oscar, colocada em uma caixa de vidro – como se adquirisse status de objeto de desejo. Além de uma biblioteca de grandes expoentes da arte, como o livro gigante de David Hockney – que repousa em um pedestal e deve ser manuseado com luvas.UM DIA EM LOS ANGELES

Alex Israel listou seus hot points na cidade – e arredores – que você pode conferir no city guide da LV

California dream: Alex Israel listou seus hot points na cidade (Foto: divulgação)
California dream: Alex Israel listou seus hot points na cidade (Foto: divulgação)

1. Will Rogers State Historic Park
Situado nas montanhas de Santa Monica, o Will Rogers State Historic Park tem trilhas fáceis e moderadas de hiking (uma delas é a Inspiration Point Trail, que aponta para o centro de Los Angeles, de um lado, e para a baía de Santa Mônica, do outro). A propriedade é o antigo rancho de Will Rogers (sucesso nos anos 30 e um dos atores mais bem pagos da época), que se transformou em parque em 1944, logo após a morte do comediante.
parks.ca.gov/willrogers

2. Giorgio Baldi
O Giorgio Baldi é o reduto das estrelas e rota obrigatória dos paparazzi. Cantina tradicional familiar com 25 anos de existência, se destaca pelas pastas feitas in loco. Na dúvida do que pedir, vá de vongoli ala marinara (como entrada) e o panzerotti de ricota e espinafre com cogumelos porcini como prato principal. giorgio-baldi.com

3. Little Beach House Malibu
Um dos clubes privados mais festejados entre os criativos, o Little Beach House fica à beira da praia de Malibu e faz parte das experiências exclusivas para associados do Soho House (e moradores da região). Pedir um negroni e apreciar o mar é o jeito mais cool que você terá para aproveitar seu dia ou noite. sohohouse.com/houses/little-beach-house-malibu

4. Malibu Farm
Primando por ingredientes de produtores locais que vão da horta à mesa, o Malibu Farm se destaca por saladas e sucos que estão entre os preferidos da atriz e empresária de wellness, criadora da marca Goop, Gwyneth Paltrow. A paisagem é uma atração à parte do menu. Ele se localiza no píer de Malibu e você aproveita o almoço com o Oceano Pacífico logo ali. Para tornar a vida ainda mais doce, a dica GQ é investir no cardápio de sobremesas. O bolo de coco e cenoura e o pudim vegano de chia são imperdíveis. malibu-farm.com

5. Chateau Marmont
Situado em West Hollywood, o Chateau Marmont é um dos hotéis mais charmosos e tradicionais da cidade – inaugurado em 1929. A obra dos renomados arquitetos Arnold A. Weitzman e William Douglas Lee foi inspirada em um castelo francês do Vale do Loire (o Château d’Amboise), abrigou as festas da Old Hollywood e já foi locação de filmes como Somewhere, de Sofia Coppola, lançado em 2010. As cenas da piscina com os atores Elle Fanning e Stephen Dorff foram rodadas ali, no pátio do Chateau. chateaumarmont.com

Ex-Eurythmics, Annie Lennox mostra sua essência em instalação de arte

Desde o colapso da dupla de sucesso da música pop que ela liderou com Dave Stewart, em 1990, Lennox tem se dedicado a pautas humanitárias
Jillian Steinhauer, The New York Times

Cerca de 250 objetos pertencentes a Annie Lennox estão em exibição em instalação artística em um museu de Massachusetts.
Cerca de 250 objetos pertencentes a Annie Lennox estão em exibição em instalação artística em um museu de Massachusetts. Foto: Lauren Lancaster / The New York Times

Annie Lennox está falando sobre a morte. Não é mórbido nem é vão, são as preocupações de uma celebridade sobre seu legado. A ex-cantora do Eurythmics é, de fato, uma mulher de certa idade – 64 anos – e, portanto, alguém que começou a olhar para trás e não para a frente. “O que é a única coisa garantida a todos nós?”, perguntou-se. “Que vamos morrer”.

Desde o colapso de 1990 da Eurythmics, a dupla de sucesso da música pop que ela liderou com Dave Stewart, as preocupações de Lennox se tornaram mais fundamentadas e existenciais. Nas décadas seguintes, ela lançou apenas álbuns solo esporádicos e tirou folga para criar suas duas filhas.

Inspirada por suas experiências com a campanha 46664 de Nelson Mandela, ela se tornou uma ativista sobre a conscientização da aids, concentrando-se especificamente na situação de mulheres e meninas na África. E deixou para trás a fama por uma chance de viver, e talvez até mesmo fazer a diferença no mundo. “No meu tempo, sempre achei que a fama era resultado de alguma coisa realmente boa que você fez musical ou artisticamente. É apenas um sintoma”, refletiu. “Eu mergulhei e fiquei imersa. E foi essa imersão que me manteve humana”.

Humanidade é o tema do mais recente projeto de Lennox, que revela um lado mais pessoal dela não visto pelos fãs até então, em um meio totalmente diferente: uma instalação de arte. No mês passado, no Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts (MASS MoCA), em North Adams, Massachusetts, Lennox revelou um monte de terra de aproximadamente 2,5 metros de altura e 20 metros de comprimento contendo quase 250 objetos que ela adquiriu durante sua vida: o estojo de maquiagem que ela usou durante as turnês, a máquina de costura de sua mãe, uma máscara que era um presente de um namorado, figuras mexicanas do Dia dos Mortos, dezenas de pares de sapatos de criança e muito mais.

Os itens são organizados em telas de miniatura que sugerem associações e histórias, e estão embutidos em um monte de terra manchada de glitter, que é cercada por cordas de veludo vermelho. No topo do monte fica um piano. É parcialmente iluminado por um holofote. “O piano tem sido tão, tão importante durante toda a minha vida”, afirmou Lennox. “Desde que eu tinha 3 anos de idade e me deram um piano de brinquedo”, lembrou. 

A exposição, intitulada Agora eu deixo você ir … representa uma espécie de tentativa de pôr a casa em ordem, tanto física quanto emocionalmente. “Eu estava confusa sobre o que mostrar, o que era relevante, o que não era”, explicou. “Mas é lindo que eu possa fazer isso. Porque não temos um ritual no mundo ocidental para isso. Nós simplesmente não sabemos o que fazer com o que é deixado para trás”.

Em uma visita recente, o clima na galeria era calmo e tinha a iluminação baixa. Lentas e suaves melodias de piano soavam – canções improvisadas por Lennox, que as chama de “música borboleta” por seu efeito calmante. A montanha de terra lembra antigos túmulos e valas comuns, além de escavações arqueológicas. Alguns de seus clipes são exibidos na parede do fundo, silenciosos e tocando de trás pra frente, de modo que seu rosto expressivo e os olhos penetrantes geralmente pairam sobre todo o espaço.

Lennox disse que espera que a instalação, que continuará aberta ao público até a próxima primavera, inspire a reflexão sobre “nossa humanidade comum”. Deixando para trás os alter egos que ela passou anos criando para videoclipes e sessões de fotos – celebrados em um show de 2011 no Victoria and Museu Albert – ela se desconstruiu para um autorretrato convincente.

“É uma parte minha que eu gostaria de ter sido, uma artista visual convencional”, disse, explicando que estudou brevemente arte na escola. Quando criança, crescendo em um prédio da classe trabalhadora na Escócia, Lennox se refugiou na galeria de arte de Aberdeen.

Mas a artista, que agora divide seu tempo entre Londres e Los Angeles, não tem pretensões de iniciar uma nova carreira no final da vida e credita grande parte do sucesso da instalação ao diretor do MASS MoCA, Joseph Thompson, que aceitou sua proposta para o monte, e à equipe técnica e de curadores que a tornou realidade. “É o meu sonho”, compartilhou. “E eles me ajudaram a fazê-lo acontecer”.

Lennox diz que ela se tornou cada vez mais sintonizada com a qualidade onírica da vida, mas como compositora, ela captou habilmente o tempo todo – está lá no pop de sintetizador de Sweet Dreams de 1982, na balada poderosa de 2007 Dark Road e em muitas outras músicas. 

Agora ela deu a essa sensibilidade uma forma física que é, em última análise, mais fugaz que sua música. “Se você tivesse me conhecido nos anos 80, eu estava na minha juventude, experimentando e tentando descobrir tudo. Não estou dizendo que descobri muito, mas uma coisa que estou começando a perceber mais e mais é que a vida é apenas um sonho, e nós a carregamos na memória”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA