Google Arts & Culture lança seção com 30 exposições virtuais de artistas negros

Ação do Google Arts & Culture faz parte do Dia da Consciência Negra
JOÃO PEDRO MALAR – O ESTADO DE S.PAULO

Obras como ‘Auto-retrato’, de Octávio Araújo, e ‘Irmandade da Boa Morte’, de Jess Vieira, já estão disponíveis na plataforma Foto: Octávio Araújo I Jess Vieira

Como forma de celebrar o Dia da Consciência Negra, nesta sexta-feira, 20, e dar mais visibilidade para artistas negros, o Google Arts & Culture, plataforma que reúne exposições virtuais, lançou uma seção com 30 exposições de artistas negros brasileiros, com 13 inéditas.

Batizada de Consciência Negra, a seção conta com parcerias de 15 instituições culturais, como a Pinacoteca de São Paulo, o Instituto Moreira Salles, o Museu Histórico Nacional, a Fundação Cândido Portinari e o Museu Nacional. A ideia é permitir que o usuário “explore as histórias, artes e culturas da experiência negra no Brasil”.

Entre as mostras inéditas está a coleção de 600 obras digitalizadas do Museu de Arte da Bahia, que ganharão versões em alta resolução pela primeira vez, e uma mostra do Geledés Instituto da Mulher Negra sobre a história por trás do Dia da Consciência Negra. 

Com imagens de peças de vestimenta, quadros e também de registros fotográficos, todas as mostras já estão disponíveis na plataforma. A iniciativa também inclui ação Restauração Histórica: ancestralidade negra pela arte com o  Museu Afro Brasil, em que quatro artistas jovens negros foram convidados para mostrar episódios históricos protagonizados por negros, relevantes para a história do Brasil, e que são pouco conhecidos.

Entre as representações estarão as histórias dos Ibejis, dos Irmãos Timotheo, da Irmandade da Boa Morte e também de tecnologias de origem africana usadas até hoje. A ação especial também já está disponível no Google Arts & Culture, que inclui acervos com mais de 2 mil obras digitalizadas. 

Alfredo Volpi e seus herdeiros artísticos em exposição conjunta

Galeria Millan abre mostra com obras do pintor e dos contemporâneos Elizabeth Jobim e Paulo Pasta
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
O pintor Paulo Pasta posa ao lado de sua tela, de uma fachada de Volpi e das pedras de Elizabeth Jobim Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A Galeria Millan abre nesta quinta-feira, 12, em parceria com a Galeria Raquel Arnaud, no espaço da primeira, a exposição Transições entre Passagens, que reúne o principal pintor moderno brasileiro, Alfredo Volpi (1896-1988), e dois pintores contemporâneos, Elizabeth Jobim e Paulo Pasta. Embora não fosse a intenção original da curadora Gisela Gueiros, o título da mostra remete à fragmentária obra de Walter Benjamin (Das Passagen-Werk/Passagens) em que o pensador berlinense, refletindo sobre as bruscas alterações na fisionomia arquitetônica da Paris de sua época, cita uma frase de Maxime Du Camp em que o escritor e fotógrafo francês compara a história a Janus, a mítica figura de duas faces: “quer olhe o passado, quer olhe o presente, ela vê as mesmas coisas”. Pode-se dizer o mesmo de Paulo Pasta e Elizabeth Jobim: o olhar de ambos parece convergir para a maneira de Volpi ver o mundo, que, evidentemente, não era nostálgica nem futurista.

É tão evidente a proximidade entre as obras dos dois com a do mestre Volpi que a palavra “passagem” faz todo sentido nessa exposição conjunta. Benjamin, comentando como a construção em ferro na Paris de sua época ocupava uma posição híbrida que permitia certa analogia com a da igreja barroca – e não só pela cobertura (Halle) em abóbada –, concluiu ser possível dizer que permanecia algo de sagrado nessa construção, um “resquício de nave de igreja”.

Não é demais lembrar que as atuais pinturas de Pasta evocam igualmente algo de sagrado na história da pintura. Mais precisamente, o retábulo da Anunciação criado por Ducio para o altar-mor de Siena, do qual Pasta extraiu as figuras do arcanjo Gabriel e da Virgem, reinterpretando a estrutura original e tornando equivalentes o espaço sagrado e o profano, antes separados por uma coluna.

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
Tela de Paulo Pasta que usa cores atmosféricas e sugere passagem virtual Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Alegoria

Essa “passagem” não eleva nem a pintura de Volpi nem a de Pasta à condição de alegoria. Nenhum deles é um crente, no sentido tradicional. Pasta faz uma pintura antinarrativa. Ela não “conta” uma história. Antes, revela. Colocadas lado a lado, uma pequena tela vertical com uma fachada de Volpi e uma pintura de um rosa renascentista de Pasta revelam que a estrutura construtiva que sustenta as duas obras remete à ideia benjaminiana da transformação como reafirmação de uma ordem primordial. Volpi e Pasta pintam, enfim, a passagem do tempo, apresentam um mundo sujeito à destruição e imediata reconstrução na hora em que o espectador está diante da tela, no intervalo entre a epifania e a desilusão.

Há poucas obras (10) na exposição, um acerto da curadora Gisela Gueiros, que, convidada pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro, da plataforma digital Preview, pensou numa exposição virtual – que virou física – a partir de um conceito formulado pelo pintor alemão Josef Albers em seu livro Interação da Cor, de 1963. Albers defendia que nossa percepção das cores deveria ser relativizada. Até mesmo o contexto em que estão pode afetar a maneira como vemos a construção cromática – Volpi usava a artesanal técnica da têmpera, Pasta usa óleo e Elizabeth Jobim impregna blocos de concreto com pigmentos. Ou sejam, os três recorrem a procedimentos antigos, mas num contexto moderno e contemporâneo.

Concreto

Lembrando que a lição de Albers ensina haver uma discrepância entre fato físico e efeito físico na percepção visual, a pintora Elizabeth Jobim revela que os pigmentos usados para interagir com os blocos são os mesmos de suas telas (vermelho-veneziano, siena) com pequenas variações. A curadora vê pontos de contato entre essas pequenas estruturas esculpidas de Jobim e as soluções estruturais das superfícies descontínuas de Volpi em sua passagem pelo concretismo. Pasta, aproximando-se do neoconcreto Hélio Oiticica dos metaesquemas, define sua pintura atual como uma forma de promover a passagem ao espaço tridimensional, em alguns casos por meio de cores atmosféricas (azul da Prússia, azul-ultramarino).

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
Obra de Elizabeth Jobim: o lugar onde cor e forma são sinônimos Foto: Daniel Teixeira/Estadão

É um mundo no limite do desaparecimento, que se esvai no infinito, como a coluna brancusiana de Volpi (de 1957) exposta ao lado da mais recente tela de Pasta, que sugere um confronto entre o espaço ilusório e a superfície concreta. A curadora da exposição chama a atenção para essa coluna volpiana em forma de ampulheta estática, que sugere a suspensão do tempo. Pasta comenta que a ideia do vazio presente na exposição remete à situação de isolamento provocado pela pandemia, cujo efeito positivo é conduzir o espectador de novo à contemplação.

Elizabeth Jobim confirma que Volpi tinha essa vocação de estabelecer um vínculo afetivo com o espectador por meio da cor. “Sua pintura é um espetáculo de simplicidade e despojamento, que tem a ver com arquitetura”, diz a pintora. “Ele foi ao mesmo tempo assertivo e intimista”, conclui. “Volpi é o pintor menos neurótico que eu conheço”, completa Paulo Pasta.

Exposição ‘Revoada’, da artista Flávia Junqueira, traz cenografia lúdica

Exposição da artista reabre o Farol Santander e traz cores para os paulistanos em lúdica coreografia
Por Leila Kiyomura

O lustre no hall é uma atração histórica à parte no Farol Santander, que sedia a exposição Revoada, da artista Flávia Junqueira -Foto: Divulgação

Revoada de sonhos entre balões coloridos e muitas histórias para lembrar. Com uma cenografia lúdica, a artista Flávia Junqueira reabre a programação cultural do Farol Santander, em São Paulo, e trava o desafio de iluminar o cotidiano da cidade nesta época de covid-19.

O título da exposição de Flávia, Revoada, é um convite à leveza e à esperança. Com a curadoria sensível e competente de Paulo Herkenhoff, o público é envolvido, logo na entrada, por 70 balões de 90 a 40 centímetros, que, apesar de serem de vidro e suspensos por cabos de aço, causam a sensação de estarem voando. Deixam o público no ar e, ao mesmo tempo, imerso nas suas memórias de infância.

Depois, no 24o andar, o visitante se depara com outra obra inédita da artista, Território Espelhado, com paredes e tetos cobertos por folhas e papel metalizado. Como espelhos, refletem os balões de festa por todo o espaço. A instalação, com produção de Angela Magdalena e Julia Brandão, é uma volta à infância. Remete a um parque de diversões com a alegria e luzes de um carrossel.

Parque de diversões para lembrar a infância – Foto: Divulgação

Em conversa com o Jornal da USP, a artista paulistana – mestre pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e doutoranda pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – conta como foi surgindo a montagem de Revoada. “Após a flexibilização, voltei a fazer algumas fotos encenadas, principalmente em espaços que ficaram mais isolados, o que de certo modo facilitou a produção do trabalho, porque sempre registro os espaços vazios”, explica. “Expor em um momento tão difícil é lidar com um desafio novo todo dia, tanto na produção como na montagem. Com todas as limitações, também temos que lidar com a própria fragilidade da vida neste momento.”

É gratificante trazer para o público o poder de transformação da arte, que, sobretudo neste confinamento, vimos o quanto é essencial e importante para todos.”

Balões coloridos deixam os visitantes com a sensação de estar flutuando no ar – Foto: Divulgação

Com uma trajetória movimentada por várias ideias e diversas exposições, Flávia Junqueira tem 35 anos e vai amadurecendo uma pesquisa sobre arte que sugere a reflexão do ser e da vida. “É gratificante trazer para o público o poder de transformação da arte, que, sobretudo neste confinamento, vimos o quanto é essencial e importante para todos”, comenta. “A exposição Revoada tem como elemento principal o balão colorido da nossa infância, que atualmente carrego como uma espécie de protagonista que contém muitas metáforas políticas, sociais e afetivas dentro dele.”

A artista destaca as impressões do curador Paulo Herkenhoff. “É um balão que acalenta nossa fantasia de voar. Quem nunca encheu um balão? Nossa memória corporal disso reafirma que ali está o ar de nossos pulmões, metáfora do sopro da vida e da alma.”

Observar o público e as suas reações é um incentivo para a artista. “Os visitantes têm reagido com muita emoção e alegria. Muitos estão saindo do confinamento pela primeira vez.” Flávia sente a responsabilidade da arte que traz uma janela para o isolamento. “Tenho recebido, todos os dias, muitas mensagens de agradecimento. Eu me sinto contente e forte por ver a arte exercendo seu papel, cada vez mais presente.”

“A exposição é também um elogio à contemplação e à imersão. As camadas de entrada no trabalho podem ser completadas pouco a pouco, a partir de uma sensação inicial de estar presente.”

Na exposição de Flávia Junqueira, os cavalos do carrossel encantam o público – Foto: Divulgação

Ver o público caminhando entre os balões com total liberdade completa o trabalho da artista. “As pessoas ficam à vontade para achar o que é mais relevante, deixando-se transbordar dentro dos espaços imersivos.” Flávia compartilha sua arte. “A exposição é também um elogio à contemplação e à imersão. As camadas de entrada no trabalho podem ser completadas pouco a pouco, a partir de uma sensação inicial de estar presente. Feito isso, o espectador procura o texto, as histórias por trás das fotos e completa sua percepção.”

Paulo Herkenhoff observa: “Flávia Junqueira eleva nosso olhar para encontrarmos balões flutuantes ou revoadas de formas e cores no Farol Santander. Suas ingênuas bexigas de encher povoam seu Brasil de norte a sul, inserem conotações políticas, filosóficas, linguísticas e psicológicas. Elas fogem de casa para prédios tombados e espaços públicos. Cada balão é um ato pictórico que introduz cor, sentidos e significações”.

Farol Santander: com 161 metros de altura, edifício já foi a maior estrutura de concreto armado da América do Sul – Foto: Divulgação

O Farol Santander foi inaugurado em janeiro de 2018. O prédio com a fachada tombada pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico – foi toda restaurada exatamente como era em 1947.  Merece uma atenção à parte. Foram restauradas quase 47 milhões de pastilhas e 850 esquadrias, além da restauração do célebre lustre de 13 metros de altura e 1,5 tonelada exibido na entrada. Desde sua abertura, já recebeu mais de 750 mil pessoas, com 15 exposições nos eixos temáticos. As atrações ocupam 18 dos 35 andares do edifício de 161 metros de altura, que, por um longo período, foi a maior estrutura de concreto armado da América do Sul.

Do segundo ao quinto andar os visitantes podem conhecer a história do prédio e da cidade no espaço Memória, com mobiliário original feito pelo Liceu de Artes e Ofícios. No quarto andar, há uma instalação permanente e exclusiva do Farol Santander: Vista 360º, desenvolvida pelo artista brasileiro Vik Muniz. As visitas começam pelo hall do térreo e seguem até o mirante do 26º andar.

O Farol Santander segue os protocolos de segurança e saúde dos funcionários e do público. Há medição de temperatura e tapetes sanitizantes e secantes para ingresso no prédio. Com dispensadores de álcool em gel disponíveis no edifício e sinalizações para garantir o distanciamento de 1,5 metro.

A exposição Revoada, da artista Flávia Funqueira, fica em cartaz até 10 de janeiro de 2021, de terça-feira a domingo, das 13 às 19 horas, no Farol Santander (Rua João Brícola, 24, centro, São Paulo, próximo à estação São Bento do Metrô). Ingressos: R$ 25,00. Mais informações estão disponíveis no site do Farol Santander.

Agenda 19/11 – Galeria em Pinheiros reúne mais de 40 artistas para compras de Natal

A Arte de Usar acontece de 19 de novembro a 19 de dezembro na New Gallery, localizada em Pinheiros.

O evento conta com mais de 40 expositores entre jolheiros, estilistas e artistas plásticos, uma excelente opção para compras de natal mais segura, sem as aglomerações dos shoppings e grandes centros de compras.

Alguns nomes confirmados para a participação no evento: Paula Mourão, Renato Camargo, Márcia Cirne, Nami Wakabayashi, Nicole Uurbanus, Renata Porto, Miriam Papallardo, Lucia Higuchi e Fellipe Caetano, além do lançamento de uma coleção de Elisa Stecca.

Assim como uma loja de museu, o evento “A Arte de Usar” vai contar com mais de 40 nomes de artistas, joalheiros e estilistas autorais. A sinergia entre as artistas Vera Havir, Ana Calbucci e Isabela Drummond deu vida ao evento neste ano tão incomum marcado por contatos digitais. O evento acontece de 19 de novembro a 19 de dezembro, na New Gallery, galeria localizada em Pinheiros, bem próxima ao Instituto Tomie Ohtake.

“A Arte de Usar”  mostra-se versátil para o período, já que oferece a oportunidade de fazer compras para presentear durante o natal, fugindo de grandes aglomerações como shoppings, por exemplo. Nesta edição, Vera e Ana, que estão em São Paulo, e Isabela do Rio de Janeiro, fizeram a curadoria de mais de 40 marcas e artistas que reúne o melhor da joalheria contemporânea, da roupa-arte, objetos de design, artes plásticas e cerâmica artística. Entre peças e obras inéditas de Elisa Stecca, inclusive o lançamento da segunda edição do Oráculo da artista, acontece no espaço no dia 21 de novembro. “A caixa do oráculo contém 50 cartas abordando silêncio, introspecção e contato sereno com nosso próprio desejo; estratégia, planificação e projeto; ação, encorajamento e perseverança; avaliação e autoanálise, e finalmente, recomeço, que é um processo inexorável. Por isso a Serpente comendo o próprio rabo (Oroborus, um símbolo alquímico) ilustra a caixa, representando a eterna roda do autoconhecimento e evolução”, diz Elisa.

Com esta iniciativa, pretendemos proporcionar uma vivência ao visitante, esse encontro com a Arte de Usar, que dá título à proposta. Claro, respeitando todos os protocolos de segurança necessários, com pequenos grupos e agendamentos para que as recomendações das autoridades sanitárias sejam cumpridas. diz Vera Havir.

A abertura do evento coincide com a aproximação do Natal e surge como uma alternativa para quem quer encontrar aquele presente único, criado e assinado por um artista.

No andar térreo, área expositiva da galeria, haverá uma exibição do grupo de cerâmica-arte com curadoria de Brisa Noronha e colaboração da galerista Jacqueline Martins. No Anexo FL, o destaque vai para a seleção diversificada de 20 joalheiros, entre eles Paula Mourão, Renato Camargo, Márcia Cirne, Nami Wakabayashi, Nicole Uurbanus, Renata Porto e também com artistas em evidência no cenário fashion e artes plásticas.

O espaço dedicado à moda, “A roupa Arte”, vem somar com nomes importantes como Miriam Papallardo, Lucia Higuchi e Fellipe Caetano, todos com peças especialmente feitas para o evento.

As curadoras avisam que apresentarão algumas promessas entre jovens joalheiros mostrando trabalhos inéditos, desenvolvidos no isolamento e antes dele. “Foi um período de imersão intensa, com busca de soluções alternativas que se transformaram em peças muito criativas”, completa Ana Calbucci.

Serviço:

New Gallery  – “A Arte de Usar”

Onde: Rua Padre Garcia Velho, 173

Quando: 19 de novembro a 19 de dezembro 2020

Horário: de terça a sexta: 11hs às 18hhs, Sábados:  das 11h às 14h. Domingo; fechado

Estacionamento conveniado Ceará Park  – endereço Rua Pde Garcia Velho, 78

Pagamento: cartão débito e crédito em até 3 vezes

Telefone para informações: 011 95677-7177

Obras de arte são misteriosamente atacadas em museus de Berlim

Crime ocorreu no início de outubro, mas só foi revelado agora; obras pertenciam ao Museu de Pérgamo, Alte Nationalgalerie e Neues Museum
AP

Friederike Seyfried mostra danos a obras do Neues Museum, de Berlim Foto: Stefanie Loos/AFP

Mais de 60 obras de arte e artefatos antigos dos mais conhecidos museus de Berlim foram manchados com um líquido oleoso por um ou mais criminosos no começo do mês, revelaram as autoridades nesta quarta-feira, 21. Eles têm esperança de que o dano possa ser reparado, mas disseram que o motivo do vandalismo ainda é um mistério.

As obras do complexo da Ilha dos Museus, patrimônio mundial da UNESCO no coração da capital alemã e uma das principais atrações turísticas da cidade, foram danificadas em algum momento entre as 22 h e as 18 h do dia 3 de outubro. Os investigadores disseram que assistiram a horas de gravações das câmeras de segurança, mas não encontraram nenhum sinal claro de ninguém jogando o líquido.

Ao todo, 63 obras do Museu de Pérgamo, da Alte Nationalgalerie e do Neues Museum foram atingidas, disse Christina Haak, diretora do museus públicos de Berlim. Não havia link temático entre as obras escolhidas e “nenhum padrão identificado” no comportamento do responsável, ela acrescentou. 

O líquido era oleoso, mas não corrosivo, disse Friederike Seyfried, diretora da coleção de arte egípcia de Berlim, que fica no Neues Museum. Ela não deu mais detalhes acerca desse líquido incolor, citando as investigações em andamento. 

Carsten Pfohl, um oficial de polícia, disse que mais de 3 mil pessoas visitaram a Ilha dos Museus no dia 3 de outubro, o sábado em que a Alemanha comemorou os 30 anos da reunificação. Para complicar ainda mais as investigações, a maioria dos ingressos daquele dia foi comprada no local, com apenas 1.400 tickets reservados com antecedência. Essas pessoas que reservaram online foram procuradas e questionadas se haviam visto alguma coisa suspeita.

Vandalismo em museu de Berlim
Atos de vandalismo em museus de Berlim ocorreram no dia 3 de outubro Foto: Markus Schreiber/AP

A Polícia de Berlim disse que foi decidido inicialmente não divulgar o ocorrido por “questões relacionadas à investigação”. Na noite de terça, 21, o jornal Die Zeit e a emissora de rádio Deutschlandfunk revelaram a história. Nesta quarta, 21, a polícia pediu que testemunhas informassem qualquer informação sobre pessoas ou situações suspeitas naquele 3 de outubro.

Não ficou claro como o líquido foi jogado nas obras de arte, disse Pfohl. E parece que elas foram escolhidas aleatoriamente. Os investigadores tendem a acreditar que isso tudo foi feito por uma única pessoa, ele completou – mas disse que não descartam a hipótese de haver mais gente envolvida.

Pfohl afirmou ainda que a polícia está investigando em “todas as direções”, mas não faria coro com a especulação da mídia local de que adeptos da teoria da conspiração estariam envolvidos. Não há indicação de que isso seja um “ato que fale por si só”, disse.

“Este é um conjunto de objetos que não têm nenhuma conexão imediata entre si em termos de contexto. Não temos nenhuma carta de autoria ou algo do gênero, então temos que assumir por ora que o motivo é completamente desconhecido.” Pfohl disse ainda que este não é um caso raro porque artefatos têm sido vandalizados com líquidos em museus de outros países ao longo dos últimos anos. Os oficiais não tinham conhecimento de nenhuma ameaça. Os danos foram descobertos pelos funcionários dos museus.

Seyfried disse que não há nenhuma pintura entre as obras danificadas – e elas não estavam entre as atrações mais conhecidas do complexo de museus. 

Vandalismo em museus de Berlim
Não há suspeitos ou teses sobre o que motivou o ataque a obras em museus de Berlim Foto: Hayoung Jeon/EFE

A ministra da Cultura da Alemanha, Monika Gruetters, condenou os ataques. Ela disse em comunicado que “há esperança de que os danos possam ser revertidos”, mas disse que o órgão que administra os museus de Berlim precisa, mais uma vez, responder a questões de segurança e sobre seus procedimentos de prevenção. Em março de 2017, ladrões entraram no Bode Museum, que também integra a Ilha dos Museus, e fugiram uma moeda de ouro pesando 100 quilos, conhecida como Big Maple Leaf. Os suspeitos teriam destruído uma caixa de segurança e então tirado o objeto por uma janela do museu antes de fugirem pelos trilhos do trem com um carrinho de mão. Ela nunca foi encontrada.

Haak disse que os protocolos de segurança dos museus estão sendo sempre revistos e a polícia está estudando como isso pode ser melhorado. “Mas ser 100% seguro para as obras de arte quer dizer deixá-las fora da vista do público.”

Depois do Black Lives Matter, museus quebram timidamente seu silêncio

‘Os museus não são neutros’, afirmou em junho o Conselho Internacional dos Museus, composto por quase 30.000 membros
Sofiane Ouanes, AFP

Fachada do Metropolitan Museum of Art (Met), de Nova York Foto: Peter Foley/ EFE

O movimento antirracista Black Lives Matter, que desencadeou inúmeras manifestações e derrubadas de estátuas de “doadores generosos”, levou os museus a questionarem qual o seu papel e a abandonarem o silêncio pelo qual eram acusados.

“Os museus não são neutros”, afirmou em junho o Conselho Internacional dos Museus (ICOM), composto por quase 30.000 membros. Os museus “têm a responsabilidade e o dever de combater a injustiça racial […], desde as histórias que contam até a diversidade de sua equipe”. 

Após a morte de George Floyd nos Estados Unidos em maio deste ano, asfixiado por um policial branco, o movimento Black Lives Matter apelou a várias instituições, especialmente culturais, para exigir uma mudança e uma melhor representação. 

O Metropolitan e o MoMa de Nova York expressaram “sua solidariedade com a comunidade negra”. No Reino Unido, o British Museum, num ato simbólico, retirou de seu pedestal o busto de Hans Sloane, seu fundador, que enriqueceu graças ao tráfico de escravos, e agora o expõe em uma vitrine.

Na França, as reações foram mais tímidas e o debate foi protagonizado pela questão da derrubada das estátuas. Isso “destaca a dificuldade da França em enfrentar seu passado colonial”, considerou Françoise Vergès, cientista política e presidente da associação “Descolonizar as artes”.

Espelho da sociedade

O Museu do Louvre não se pronunciou publicamente sobre o movimento Black Lives Matter, mas sua direção garantiu que “aborda[va] as problemáticas e os desafios contemporâneos”. 

Nas galerias de arte, como a 59 Rivoli, o apoio ao movimento antirracista não deixa dúvidas, já que exibiram uma faixa com o slogan Black Lives Matter em sua fachada, no coração de Paris. Uma iniciativa que não teria ocorrido sem a presença de uma jovem artista, ela mesma vítima de discriminações raciais, segundo um dos fundadores do local, Gaspard Delanöe.

“Os museus são espelhos da sociedade. Se nesse espelho não se vê nenhuma diversidade, então temos um problema”, considerou Delanöe, que defende uma política de diversidade para descobrir novos artistas.

“A sociedade se move muito mais rápido do que as instituições, que mantêm uma atitude relutante em relação a este movimento”, afirmou Françoise Vergès, que recentemente coletou depoimentos de bailarinos da Ópera de Paris, “outra fortaleza” cultural à qual pediram que quebre seu silêncio sobre as questões de racismo.

MASP anuncia reabertura após seis meses fechado devido à pandemia

Além do MASP, outros centros culturais da avenida Paulista anunciam que também retomarão atividades presenciais
FOTO: EDUARDO ORTEGA / REPRODUÇÃO

O Museu de Arte de São Paulo (MASP) anunciou nesta sexta-feira, 09/10, sua reabertura para o dia 13 de outubro, após mais de seis meses fechado devido à pandemia do novo coronavírus. O museu de arte paulista, uma das mais importantes instituições culturais do país, anunciou seu fechamento devido à doença no dia 16 de março. A instituição será reaberta ao público após o anúncio feito pelo governador de São Paulo, João Dória (PSDB), de que a capital paulista passou para a fase verde do plano de flexibilização. 

O MASP anunciou que reabrirá as portas em conjunto com outros centros culturais da Avenida Paulista com a iniciativa “Paulista Cultural”. O projeto inclui, além do MASP, a Casa das Rosas, o Centro Cultural Fiesp, o IMS Paulista, o Itaú Cultural, a Japan House São Paulo, e o Sesc Avenida Paulista. Estas instituições realizaram reuniões em conjunto para definir protocolos de segurança, que levam em conta as particularidades de cada uma. As primeiras instituições a reabrirem serão o Instituto Moreira Salles, Itaú Cultural, e MASP, no dia 13/10; já na quarta-feira (14) a Casa das Rosas retoma atividades presenciais; na quinta-feira, 15, o Centro Cultural Fiesp; e no dia 20 de outubro (terça-feira), a Japan House São Paulo.

Cada instituição passa a operar com horários reduzidos de visitação. Também é diminuída a
densidade ocupacional dos espaços a até 60% de sua capacidade máxima, ficando as áreas
híbridas restritas a ainda menor densidade ocupacional. O distanciamento social é de, no mínimo, 1,5m, somente podendo manter maior proximidade pessoas que vivem juntas, mas nunca chegando a grupos com mais de seis pessoas. Serão realizadas aferições de temperatura, e disponibilização de totens de álcool em gel. O agendamento online segue sendo prioridade e o uso de máscara é obrigatório.

Com a reclassificação da cidade para a fase verde, outras atividades culturais como cinemas, teatros e até eventos poderão ocorrer, segundo o Plano São Paulo para a retomada das atividades. A estratégia prevê cinco fases de reabertura, sendo a vermelha a mais restritiva, até chegar à fase azul. 

A fase verde, penúltima etapa, permite eventos, convenções e atividades culturais com limite de até 60% da capacidade. Também é necessário adotar o distanciamento físico em filas e espaços demarcados, além de outras medidas de higiene e prevenção. Eventos que geram aglomerações, como festas, baladas e shows com grande público sem distanciamento seguem proibidos.

Enquanto esteve fechado, o MASP e outros museus promoveram diversos eventos online, que incluíram lives com curadores e tours virtuais em plataformas gratuitas. Com a reabertura, o MASP passa a funcionar presencialmente a partir do dia 13, de terça-feira a sexta-feira, das 13h às 19h, e aos sábados e domingos das 10h às 16h. O Museu trará as exposições “Hélio Oiticica: a dança na minha experiência”, um panorama da trajetória do artista com trabalhos relacionados ao ritmo, à música e à dança; “Trisha Brown: coreografar a vida”, primeira mostra brasileira dedicada integralmente à obra da artista, e “Senga Nengudi: topologias”, primeira monográfica da artista afro-americana na América Latina com cerca de 50 trabalhos. Estará disponível também uma seleção de filmes da cineasta e fotógrafa Babette Mangolte.

Trevor Paglen examina a história da fotografia e sua relação com a vigilância estatal

Mostra de Paglen faz das tecnologias contemporâneas seu conceito central, mas grande parte das obras olham para o passado
Sophie Haigney, The New York Times – Life/Style

O artista americano Trevor Paglen em Berkeley, Califórnia. Foto: Aubrey Trinnaman/The New York Times

Em uma pequena galeria no Carnegie Museum of Art, em Pittsburgh, há um cubo de acrílico repleto de peças de computador. A caixa tem cerca de 40 cm de lado, uma reminiscência da caixa de Donald Judd, atualizada para a era digital. É também um hotspot de Wi-Fi aberto com a qual é possível conectar o celular.

Mas antes que o seu telefone se conecte com a internet, ele determina o tráfego por meio da rede do Projeto Tor, que torna o seu celular anônimo, assim como localização e atividade. Quando se conectar, você poderá andar pelo museu sem que seja possível localizá-lo. Esta escultura, intitulada Autonomy Cube, é o tipo de objeto pelo qual Trevor Paglen, de 45 anos, se tornou conhecido, como um dos principais artistas que chamam a atenção para o poder e a ubiquidade da tecnologia de vigilância.

“Ele faz parte de uma série à qual eu me refiro como objetos impossíveis”, diz ao se referir à sua mais recente obra em uma entrevista por telefone. Ele lançou também uma escultura de um satéliteno espaço que descreveu como “um espelho gigantesco no céu, sem valor comercial ou científico, unicamente de valor estético”.

Ele enviou também uma cápsula do tempo com 100 imagens de toda a história humana, em uma órbita perpétua, micro-esculpida em um disco em uma concha folheada a ouro. Estes objetos devem ser considerados “impossíveis” porque não há nenhum incentivo à sua criação em um mundo em que o desenvolvimento tecnológicofoi comercializado, em que a vigilância já se tornou comum e onde o espaço continua em grande parte militarizado.

Sua produção seria, então, um ato de otimismo? “Eu não usaria a palavra ‘otimismo’, mas o que você quer dizer com aquela palavra está ali”, disse Paglen. “São muito contraditórias entre si e contraditórias em relação aos sistemas em que se encontram”. O Autonomy Cube está instalado no Carnegie Museum em uma mostra da obra de Paglen intitulada Opposing Geometries.

Organizada como parte da Hillman Phtography Iniciative 2020, uma incubadora de pensamento inovador sobre fotografia, a mostra poderá ser visitada até março. Como quase toda a obra de Paglen, a mostra faz das tecnologias contemporâneas o seu conceito central, mas grande parte das obras aqui olham para o passado, também.

A exposição, sobre fotografias, demonstra principalmente que embora hoje “vigilância”, “visão computadorizada” e “aprendizado das máquinas” tenham se tornado termos da moda, eles têm uma longa história interligada à fotografia. A mostra inclui imagens da série They Took the Faces From the Accused and the Dead… que reúne milhares de fotos de um banco de dados do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, um arquivo de retratos falados que foi usado para testar os primeiros programas de software de reconhecimento facial sem o consentimento dos envolvidos.

Nas versões de Paglen, partes dos rostos dos envolvidos são bloqueadas, deixando estranhos buracos quadrados que constituem ao mesmo tempo uma referência das suas identidades roubadas e também um meio de devolvê-las ao anonimato. “A mostra olha formas históricas de fotografiae a relação entre essas formas de fotografia e diferentes tipos do poder da polícia ou do poder do Estado”, disse Paglen. “O que é essa relação entre a fotografia e o poder?”.

Autonomy Cube já passou por diversos museus no mundo e agora pode ser visto em Pittsburgh, nos EUA. Foto: Twitter @trevorpaglen

A multiplicidade de significados na obra de Paglen faz parte do seu apelo a tecnólogos e pensadores. “Há muita retórica a respeito de como a Inteligência Artificial (IA)mudará o mundo, e as pessoas não se dão conta de quanto a tecnologia já mudou o mundo, e depois delas perceberem isto, muitas vezes reagem com pavor ou se sentem impotentes”, disse David Danks, professor de filosofia da Carnegie Mellon University, cuja obra versa sobre ética tecnologia e que faz parte da equipe de criação da Hillman Photography Iniciative. 

“Acho que um aspecto realmente importante da obra de Trevor é o fato de que ela não só implica uma reação, não só educa. Acho que Trevor é muito bom em dar indiretamente indicações às pessoas sobre como elas podem tornar-se autônomas.” Muitas das obras nesta exposição são extensões do constante interesse de Paglen nas relações entre fotografia e inteligência artificial, como a sua ImageNet Roulette, um projeto de arte digital e aplicativo que viralizou no fim do ano passado e permitia aos usuários carregarem seus rostos para ver como a IA poderia rotulá-los.

Frequentemente, os resultados foram racistas, sexistas ou mesmo estereotipados – um choque para os usuários, que solicitaram à ImageNet, um grande banco de dados de imagens, a retirada de meio milhão de imagens. No entanto, em Opposing Geometries, Paglen – que é PhD em geografia e tem mestrado em Belas Artes – medita sobre a história das imagens e sobre o futuro. “Se olharmos para estas histórias de produção tecnológica da imagem, elas são sempre, se não parte de um projeto militar, pelo menos adjacentes a um projeto e alimentadas por ele, por isso, de certo modo, temos estas histórias muito contíguas”, afirmou.

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This is another piece that was supposed to open at @altmansiegel a few weeks ago. This is from a body of work that looks at 19th Century photography in the western US in relation to contemporary forms of computer vision and AI. Trying to think through some of the histories of image-making, technology, extraction, and colonialism that create a thread from contemporary Silicon Valley to 19th Century survey photography. The place is a weird ridge in Nevada that was photographed by Timothy O’Sullivan on the Wheeler “reconnaissance” survey of the west in 1867 – O’Sullivan’s image is one of my all-time favorite photographs ever made. It took me years to find this place – rummaging around the desert over many summers. One time I thought I’d found it. Problem was that it got dark and there was no trail and I only knew that my truck was about 2 miles north of me parked on a dirt road that was perpendicular to the direction I’d hiked. I had to follow the north star (good thing I had to learn how to read the sky from photographing satellites). I have to admit I never actually found the site. I was talking to Bill Fox one day and mentioned my ongoing quest, and he told me he’d been there with Mark Klett. Bill put me in touch with Mark, who very generously gave me the GPS coordinates – Mark had found the site as part of his “Third View” project with Byron Wolf. The image is made with an 8×10 camera, whose film has been scanned and run through the computer vision software that we built in my studio and then printed as a traditional gelatin silver print. Karnak, Montezuma Range Haar; Hough Transform; Hough Circles; Watershed, 2018 Silver gelatin print Triptych, each element: 80 × 39.9 in. (203.20 × 101.35 cm) 81 ½ × 121 in. (207.01 × 307.34 cm) (framed)

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Entre estas histórias entrelaçadas, estão a da fotografia e da colonização do Oeste americano. Enquanto imagens indeléveis de lugares como as do parque Yosemite, tiradas nos anos 1860, há muito tempo fazem parte do tecido dos mitos americanos. Paglen está interessado nelas enquanto primitivas afirmações de controle militar.

O Departamento da Guerra (atualmente conhecido como Departamento de Defesa) financiou inúmeras missões de reconhecimento no Oeste, realizadas nos anos 1860 e 1870, e enviou fotógrafoscomo testemunhas da conquista do novo território. Entretanto, estas fotos sublimes, disse Paglen, eram como “o olhar do Estado sobre um novo território”, tema que ele explora em sua exposição no Carnegie Museum.

Algumas das fotos de Paglen parecem se estranhamente com as primeiras fotografias de Carleton Watkins do parque Yosemite e na realidade foram criadas usando um processo de impressão histórico chamado ‘albumen’. Mas ele também passou as fotografias por algoritmos de visão computacional, que têm dificuldade para identificar os objetos no seu ambiente natural, gerando linhas e formas na superfície das imagens.

As fotosque resultam do processo são ao mesmo tempo hiper-modernas e antigas, ligando passado e presente pela tecnologia. “Há mais imagens hoje feitas por máquinas para máquinas para serem interpretadas do que todas as imagens que existiram para a humanidade”, disse Dan Leers, o curador de Opposing Geometries. “Mas em lugar de levantar as mãos, Trevor faz o caminho inverso da história da fotografia e, em alguns casos, volta a usar especificamente as imagens existentes, e, em outros, admitindo processos históricos na produção destas imagens”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

O Museu Britânico reabre em meio a um mundo mudado

Além dos novos protocolos sanitários, museu atende aos apelos dos movimentos antirracistas e contextualiza algumas de suas peças controversas
Alex Marshall, The New York Times

Galeria de arte egípcia do Museu Britânico Foto: Tom Jamieson/The New York Times

LONDRES — Depois de passar 163 dias fechado por causa da pandemia do coronavírus, o Museu Britânico se tornou mais recente entre os grandes museus europeus a retomar as visitações na quinta feira.

E, como ocorre atualmente em outras instituições, havia estações de desinfetante para as mãos e corredores de mão única, restrição ao número de visitantes e muitas máscaras. Mas o museu também fez algumas mudanças permanentes.

O diretor do museu, Hartwig Fischer, disse em entrevista que o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis em maio e os subsequentes protestos do movimento Black Lives Matter em todo o mundo tinham “alterado o grau de conscientização de todos”. Os acontecimentos o levaram a intensificar o trabalho do museu no sentido de remediar seus elos com a escravidão e o colonialismo, disse ele.

O museu fez duas mudanças principais para a reabertura, disse Fischer. A primeira foi transferir o busto de Hans Sloane (médico e colecionador de curiosidades cujo patrimônio formava a base do museu na época de sua fundação, em 1753) de um pódio de destaque em uma galeria importante para uma caixa de exposição. Agora Sloane não é apenas celebrado como colecionador de história natural, sendo descrito também como “dono de escravos”. A vitrine contém outros objetos relacionados ao envolvimento britânico no comércio de escravos.

A segunda mudança foi a criação de um caminho dirigido pelo museu chamado “Coleção e império”, com placas explicando como determinados artigos, como um escudo de casca de árvore da Austrália, chegaram ao museu (a placa destaca que a maioria dos artigos foi comprada ou doada ao museu, e não roubada).

“Nossa tarefa é elucidar a história dessa instituição, e a história de cada objeto nela”, disse Fischer a respeito das alterações. “São mudanças inspiradas pela ideia da abertura.”

As alterações anunciadas podem parecer discretas, mas seu anúncio causou polêmica na Grã-Bretanha essa semana.

A decisão de transferir o busto, descrita por Fischer em entrevista ao jornal conservador Daily Telegraph, irritou alguns tradicionalistas. O grupo Save Our Statues disse no Twitter que o gesto era uma “demonstração de desrespeito e ingratidão ao homem cuja generosidade ajudou a preservar muito da história mundial que milhões desfrutam hoje”. Outros usuários do Twitter apontaram que o próprio Sloane não era dono de escravos, mas sua riqueza veio de plantações que pertenciam à mulher dele.

Fischer disse que não acessa as redes sociais, acrescentando estar ciente da confusão criada e defendendo a decisão tomada. Sempre há quem se queixe, disse ele: “Temos que fazer a coisa certa”.

Essa semana, as críticas ao museu vieram principalmente dos conservadores, mas, em junho, seus detratores foram os ativistas da justiça social quando a instituição emitiu um comunicado em apoio às manifestações do movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]. No comunicado, Fischer disse que o Museu Britânico estava “alinhado com o espírito e a alma” do movimento. A declaração foi ridicularizada na internet.

“Nossas vidas importavam quando vocês ROUBARAM TODAS AS NOSSAS COISAS?” perguntou no Twitter a autora Stephanie Yeboah. “Se importamos tanto assim, devolvam o que levaram.”

A falta de diversidade entre os funcionários do alto escalão da curadoria também foi destacada em junho, quando um entrevistador da BBC perguntou a Fischer quantos pretos havia entre os 150 curadores do museu. Ele respondeu que nenhum era preto, acrescentando que “trata-se de um problema importante que precisamos sanar” (na verdade ele se enganou: de acordo com uma porta-voz do museu, há entre os curadores um arqueólogo preto).

Fischer disse que o museu tenta se redimir dos elos com o colonialismo e a escravidão desde antes da chegada dele, em 2016, por meio da pesquisa das origens das peças do acervo na tentativa de descobrir como foram adquiridos, e envolvendo as comunidades ligadas aos artefatos nas decisões de curadoria. O novo texto que explica os elos de Hans Sloane com a escravidão, por exemplo, foi “escrito em parceria com a comunidade preta britânica”, disse ele.

“Não é um começo no sentido de encarar a própria história”, disse Fischer, acrescentando, “Veremos muitos outros gestos do tipo no futuro”.

Os debates na Grã-Bretanha a respeito dos legados do colonialismo e da escravidão se tornaram cada vez mais contundentes depois que uma estátua de Edward Colston, mercador de escravos do século 17, foi derrubada em junho em Bristol, Inglaterra, durante um protesto do Black Lives Matter. Essa semana, os jornais e as redes sociais foram consumidos por um debate envolvendo a canção Rule, Britannia! (1740), tradicionalmente tocada no concerto Last Night at the Proms, que encerra o festival anual de música clássica da BBC. O refrão da canção patriótica inclui o verso, “Os britânicos jamais serão escravos, jamais”.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson deixou de lado as solicitações para que a canção fosse retirada do evento. “Acho que é hora de parar de sentir vergonha da nossa história”, disse ele aos repórteres na terça feira.

Alguns defensores do Museu Britânico dizem que é impossível vencer no clima atual. “O Museu Britânico é como aquele colega da turma quer todos decidiram intimidar e constranger”, disse por e-mail Bonnie Greer, jornalista e dramaturga nascida em Chicago. Bonnie, americana preta, foi vice-diretora do conselho do museu durante quatro anos, e realizou uma série de debates ali este ano a respeito de como as instituições culturais podem acertar suas contas com o legado do colonialismo.

“Eles fazem muito, e deveríamos falar a respeito disso”, disse ela. O fato de o museu não alardear seus feitos é “provavelmente uma coisa britânica”.

A romancista egípcia Ahdaf Soueif, que deixou o conselho do museu no ano passado em protesto contra uma série de questões, incluindo o legado colonial, disse que realocar o busto de Sloane e criar o novo caminho “parecem medidas excelentes”.

“Acho que eles estão começando a se mobilizar”, disse ela.

Na quinta feira, no museu, entrevistados disseram ter ouvido a respeito do busto de Sloane na mídia.

Kath Miller, de 73 anos, disse considerar positivo o fato de o museu não ocultar seus elos com a escravidão. “Provavelmente não era boa pessoa”, disse ela, de pé diante do busto. “Não parece ser.”

Maria Morte, de 50, disse ter lido a respeito do busto no jornal. “É uma medida no espírito dos tempos, não?” disse ela.

“Me parece uma decisão acertada”, acrescentou. “Antes, falava-se apenas em suas viagens e em como ele reuniu seu acervo. Mas não se pode ignorar o legado da escravidão.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL