Curadora Sarah Meister do MoMA falará sobre fotografia modernista brasileira em live

Museu receberá exposição sobre o tema em maio deste ano

Sarah Meister, MoMA Photography Curator

Sarah Meister, curadora à frente do Departamento de Fotografia do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), participará de live do Itaú Cultural no dia 19 de maio. As inscrições para participar começam no dia 5 de maio.

Na conversa, será abordada a exposição “Fotoclubismo: Fotografia Modernista Brasileira – 1946-1964”, que será inaugurada no dia 8 de maio no museu americano. ​

HOA é a primeira galeria brasileira fundada e dirigida por equipe 100% negra

Idealizada por Igi Lola Ayedun, a HOA nasce com modelo híbrido inédito, que mescla experiências presenciais e virtuais MARINA DIAS TEIXEIRA | FOTO WALLACE DOMINGUES/CORTESIA HOA

Igi Lola Ayedun, à frente da primeira galeria brasileira fundada e dirigida por equipe inteiramente negra, convida à reflexão (Foto: Wallace Domingues/cortesia HOA)

Igi Lola Ayedun, 30 anos, já transitou por diversos âmbitos criativos, como moda, publicidade e educação. Ela é a artista multimídia por trás da HOA, “uma residência artística e galeria hospedada em todos os lugares (desde que você tenha conexão de internet)”, como declara seu manifesto.

Inaugurada no segundo semestre de 2020, a primeira galeria do Brasil fundada e dirigida por uma equipe inteiramente negra propõe um modelo híbrido inédito, que mescla experiências presenciais e virtuais. Sem perder de vista a verve digital sob a qual nasceu, ela funcionará fisicamente no centro cultural independente EspaçoCC (onde Igi posa na foto ao lado), no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, até julho de 2021. Em poucos meses, a estreante já compareceu à SP-Arte e à ArtRio, e integrou a plataforma internacional Artsy.

Nomes como Davi de Jesus do Nascimento, Jota Mombaça e Lidia Lisboa constam da lista de representados – em sua maioria, artistas afrodescendentes. Igi afirma que “não é a lógica colonial que a gente quer obedecer”, razão pela qual busca montar um negócio “que dê direito ao sensível”, como diz. Quando perguntada sobre ser pioneira no país com sua black-owned gallery, ela devolve: “Como as pessoas se sentem ao entender que a HOA surgiu a partir disso? Surpresas, abismadas, representadas? Com vontade de fazer algo semelhante, para termos muito mais?” Fica o convite à reflexão.

Conheça a trajetória de Marlene Taschen, CEO da editora de arte mais prestigiada do mundo

Herdeira da Taschen, império editorial construído por seu pai, executiva afirma ter planos de abrir uma filial no Brasil
Fernando Eichenberg

Marlene Taschen Foto: Hannelore Foerster/Getty Images

Aos 31 anos, Marlene Taschen soube de forma inusitada de sua nomeação como CEO da editora alemã Taschen, célebre tanto por democratizar os livros de arte como transformá-los em verdadeiros objetos de luxo. Seu pai, Benedikt Taschen, fundador da editora, era entrevistado ao seu lado numa das livrarias da casa, em Berlim, e sem aviso prévio fez o anúncio. “Receber esta responsabilidade, assim deste jeito, foi um choque. Mas decidi aceitar o desafio”, conta ela em uma conversa por Zoom de Londres, onde vive com o marido e a filha Aurelia, de 9 anos.

Hoje, aos 35, Marlene, que deu à luz no final de janeiro a uma segunda menina, dirige da capital britânica as criações e os negócios da Taschen, que tem sede na cidade alemã de Colônia e 13 livrarias no mundo. E diariamente, no final do dia, faz uma reunião virtual de trabalho com o pai, que mora na famosa Chemosphere, uma casa suspensa em forma de disco voador projetada pelo arquiteto John Lautner, em 1960, nas colinas de Hollywood.

A Taschen nasceu em 1980 como uma livraria de HQs em um modesto espaço de 25 metros quadrados em Colônia, inaugurada pelo então jovem empreendedor Benedikt na véspera de completar 19 anos. Logo se tornou uma marca de referência por suas edições sobre artes em geral, fotografia, arquitetura, design, erotismo, viagem ou lifestyle, em parcerias exclusivas com grandes nomes internacionais.

Na infância, Marlene conheceu artistas como Jeff Koons e a ex-atriz pornô Cicciolina. Aos 18 anos, recebeu a missão de acolher no aeroporto, sozinha, Muhammad Ali, que desembarcava para as dedicatórias da obra “GOAT (Great of All Times)”, uma homenagem ao fenômeno do boxe em edição limitada da coleção SUMO, de livros de dimensões gigantescas. Apesar da precoce convivência com o universo da editora, seu percurso foi sinuoso até entrar profissionalmente na empresa familiar.

Aos 16 anos, saiu de casa para morar com um namorado. Aos 18, deixou a Alemanha para passar temporadas na Austrália, em uma experiência de intercâmbio, e depois no Panamá, por amor a um australiano. Mais tarde, acabou se estabelecendo na Inglaterra. Diplomada em Comércio e Psicologia, colaborou em Londres com o “Museum of everything”, exposição itinerante de arte bruta criada pelo colecionador James Brett.

Foi em 2011, aos 26 anos, grávida, que surgiu o interesse de ingressar na Taschen: “Enquanto a Aurelia crescia dentro de mim, me dizia por que não dar minha energia para a empresa da família”, lembra. O pai ficou feliz. “Um dos primeiros projetos de que participei foi o livro ‘Gênesis’, de Sebastião Salgado”, conta.

O Brasil continua presente nos planos da editora. Para este ano, além de uma nova obra do fotógrafo brasileiro, sobre a Amazônia, está prevista uma reedição atualizada do livro da artista Beatriz Milhazes. Mais do que isso: o país poderá ter em breve sua primeira livraria Taschen. “Há uma possibilidade, hoje, de uma parceria bem interessante para uma loja em São Paulo. Acho que seria bem bom. Estou também pessoalmente envolvida como integrante do conselho do Instituto Terra, do Salgado. E ainda temos a pretensão de um grande projeto sobre Oscar Niemeyer. Tivemos, inclusive, a assinatura dele, já adiantamos uma parte do trabalho, e espero que um dia chegue o momento de concretizá-lo”, diz Marlene.

O catálogo de 2021 promete ainda obras dos artistas britânico David Hockney e da mexicana Frida Kahlo e do estilista americano Virgil Abloh, diretor criativo da linha masculina da Louis Vuitton. “Hockney planejou permanecer todo o ano de 2020 em sua casa no interior da Normandia, pintando todas as mudanças das estações em um Ipad. Será um belo e poético artwork de 220 desenhos. O livro de Frida Kahlo foi algo muito difícil, nossa equipe está exausta. Trabalhamos com muitos museus e colecionadores, e tivemos de lidar também com o governo mexicano, em uma operação complicada. Em termos de conteúdo visual, será a obra mais substancial e ambiciosa já publicada sobre ela, um livro sobre vida e arte, com muitas fotos e pinturas”, conta. Já a obra de Abloh surpreendeu pela enorme quantidade de encomendas antes mesmo de ser lançada. “Foi uma loucura. Incrível como a notícia se espalhou rapidamente, e a demanda foi impressionante. Tivemos de reimprimir antes do lançamento, algo inacreditável”, espanta-se.

Nos seu horizonte está também um maior investimento em livros para crianças e em torno dos universos do tarô e da cozinha, e para este último formou uma parceria com a publicação britânica The Gourmand. “Temos as mesmas visões de estilo e de estética. Hoje estava conversando com eles sobre o nosso primeiro livro, que será exclusivamente sobre o ovo. Não terá apenas receitas, mas também referências na arte, no cinema. Será uma abordagem artística e cultural do ato de cozinhar”, revela.

Em 2020, para comemorar seus 40 anos de existência, a Taschen criou a coleção T40, de edições compactas de grandes sucessos XL da editora (Ai Weiwei, Araki, Tadao Ando, Basquiat, Bruegel), que sai a 20 euros, na Europa. Ao mesmo tempo, são vendidas edições limitadas a valores elevados. O livro sobre a marca Ferrari, por exemplo, esgotou em uma semana a 25 mil euros, o exemplar. A coleção SUMO pode trazer inseridas tiragens de trabalhos dos artistas, e inclui ainda móveis de apoio para os livros concebidas por nomes como Philippe Starck, Marc Newson e Renzo Piano. “É algo muito único para uma empresa, não apenas para um publisher, atuar nestes dois extremos. Somos muito orgulhosos desta abordagem democrática. Nossas edições limitadas são fantásticas, e investimos tudo para fazê-las da melhor forma. Não há economias para alcançar a excelência. Vendemos por um preço caro, e depois fazemos uma versão comercial”, justifica Marlene.

Já a coleção de fotografia erótica, iniciada nos anos 2000 sob a curadoria de Dian Hanson, não contribuiu de forma significativa para as vendas, mas colaborou para dar visibilidade ao universo homossexual e queer. “Somos bastante orgulhosos de alguns destes livros, porque ajudaram a uma certa liberação, tive testemunhos pessoais disso. Eram criativos e de espírito aberto. Alguns não publicaríamos novamente, mas no conjunto não temos nada a esconder. Dian é uma expert em sexualidade, e pensamos em editar livros sobre sexo em geral”, confirma.

No ano que passou, sem poder viajar e com jornadas limitadas no escritório por causa da pandemia, e grávida, Marlene refletiu sobre os novos tempos em meio à Covid-19. Seu pai teria dito certa vez: “Quando a maré está baixa, vê-se o banhista nu”. “Não é um bom momento para o mundo, são tempos bastante tristes. Fizemos 40 anos em 2020, havia muitos eventos planejados e um programa para o Japão em torno da Olimpíada, e por causa da pandemia tudo mudou. Usei o tempo muito bem para ter uma visão clara, mais focada. Quando tudo está bem, você deixa o barco correr, mas em momentos ruins, nota outras coisas que não veria em situações normais e que devem ser mudadas. Para nós, foi uma catalisador para mudar e melhorar.”

Neta de Lily Safra, Bobby Monteverde se prepara para abrir galeria em londres com artistas brasileiros

Aos 27 anos, a inglesa cresceu numa família de colecionadores
Gilberto Júnior

A galerista britânica Bobby Monteverde Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Acomodada no sofá da ampla sala de estar de Narcisa Tamborindeguy, amiga da família, a inglesa Bobby Monteverde mostra três folhas com nomes de artistas brasileiros que admira. Olhando novamente os papéis, destaca Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Tarsila do Amaral, Ernesto Neto e o jovem Maxwell Alexandre. E percebe que se esqueceu de um de seus maiores heróis, o pintor e escultor carioca Cildo Meireles. “Eu me lembro que comecei a chorar quando o encontrei em Londres, ainda na minha adolescência. Sabe aquele momento em que um fã dá de cara com seu ídolo? Foi exatamente assim. Fiquei em choque. E Cildo é um cara tão formidável. Eu o amo tanto”, diz Bobby.

Bobby tem Cildo Meireles entre os artistas favoritos Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Bobby tem Cildo Meireles entre os artistas favoritos Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Aos 27 anos, a inglesa sempre teve interesse em arte — inclusive, cresceu numa família de colecionadores (“É nossa paixão”). Na Central Saint Martins, foi uma aluna dedicada do curso de Belas Artes, dando continuidade aos estudos num mestrado na Royal College of Art. No momento, está finalizando o doutorado em Belas Artes e Antropologia, na University College London. “Na minha terra, assim como no mundo inteiro, a educação está um caos. Não dá para fazer arte por aplicativos como o Zoom”, observa Bobby, que está no Rio desde dezembro fechando parcerias para a galeria que pretende inaugurar, na capital inglesa, assim que a pandemia estiver controlada. “Posso adiantar que os artistas brasileiros terão destaque no espaço, e que as mulheres serão maioria. É uma obrigação da nossa sociedade reparar a falta de equidade que existe na arte.”

LONDON, ENGLAND - JANUARY 19: Isis Monteverde (L) and Bobby Monteverde attend Lisa Tchenguiz's birthday party at Buddha Bar Knightsbridge on January 19, 2019 in London, England. (Photo by David M. Benett/Dave Benett/Getty Images) Foto: David M. Benett / Dave Benett/Getty Images
LONDON, ENGLAND – JANUARY 19: Isis Monteverde (L) and Bobby Monteverde attend Lisa Tchenguiz’s birthday party at Buddha Bar Knightsbridge on January 19, 2019 in London, England. (Photo by David M. Benett/Dave Benett/Getty Images) Foto: David M. Benett / Dave Benett/Getty Images

Arriscando uma palavra ou outra em português, a neta de Lily Safra conta que é uma “britânica com coração carioca”. “Venho ao Brasil algumas vezes por ano, pois tenho um apartamento em Ipanema. Entendo bem o idioma, mas prefiro conversar em inglês porque cometo muitos erros”, comenta Bobby, filha de Carlos Monteverde, herdeiro do Pontofrio, com a modelo egípcia Isis Monteverde. “Com minha família aprendi uma importante lição: ‘Fazer o bem é bom’. Tenho até essa frase tatuada no corpo. Meu avô paterno, Alfredo João Monteverde (fundador da rede varejista), é o meu ídolo. Ele acreditava nisso piamente e doava parte dos lucros para a caridade. Foi pioneiro ao introduzir o parcelamento. Ah, e vovô era um playboy que as mulheres amavam. Era um homem carismático e apaixonante.”

A conversa chega ao fim, e Bobby está pronta para a foto. “Minha mãe me fez um único pedido: ‘Filha, você tem que parecer hot’. Então, me deixe como a Gisele Bündchen.”

‘Caipirinha’ alcança R$ 57,5 milhões e Tarsila já é a artista mais cara do Brasil

Quadro da pintora modernista, de 1923, teve a venda realizada em leilão para um colecionador brasileiro
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

A tela ‘Caipirinha’, pintada por Tarsila do Amaral em 1923 Foto: Ding Musa

Tarsila do Amaral (1886-1973) já é a artista mais cara do Brasil. O leilão de sua tela modernista Caipirinhade 1923, cujo lance inicial era de R$ 47,5 milhões, fez sua cotação disparar na noite de quinta-feira, 17, no pregão da Bolsa de Arte comandado por Jones Bergamin. A tela, vendida para um colecionador brasileiro, foi disputada por três pessoas, teve 19 lances e alcançou o estratosférico valor de R$ 57,5 milhões, inferior ao seu recorde no exterior, o da tela A Lua (1928), vendida para o Museu de Arte Moderna de Nova York no ano passado por US$ 20 milhões (valor aproximado de R$ 100 milhões). Nunca uma obra de arte brasileira alcançou esse preço. Os maiores valores registrados até hoje foram de obras assinadas por Guignard e Lygia Clark. O primeiro alcançou R$ 5,7 milhões com Vaso de Flores, em 2015. Lygia Clark teve sua Superfície Modulada Nº 4, arrematada por R$ 5,3 milhões em 2013 (valores não corrigidos pela inflação).

Mais recentemente, uma tela menos conhecida de Tarsila, também do período modernista, foi colocada à venda por US$ 7 milhões (cerca de R$ 36 milhões), numa feira online internacional. Desde 1995 sua cotação no mercado não parou de subir. Naquele ano, o empresário argentino Eduardo Costantini comprou a mais conhecida tela de seu período antropofágico, Abaporu (1928), por US$ 1,3 milhão durante um leilão em Nova York. A pintura foi vista pela última vez no Brasil na exposição Tarsila Popular, no Masp, que recebeu 400 mil visitantes.

Depois de percalços jurídicos, o leilão de Caipirinha (um óleo de 60 cm x 81 cm) foi afinal realizado, mas não sem tumulto. A pintura é alvo de uma disputa judicial entre Carlos Eduardo Schahin, filho do empresário Salim Taufic Schahin, envolvido na operação Lava Jato, e os 12 bancos credores a quem seu pai deve. A venda do quadro ajudaria a pagar essa dívida. No entanto, Carlos Eduardo alega que a obra foi vendida a ele pelo pai em 2012, por R$ 240 mil. Os credores questionaram a legitimidade da operação, justificando que a obra nunca chegou a sair das mãos de seu pai.

O advogado de Carlos Eduardo Schahin, Márcio Casado, entrou com uma medida cautelar para impedir o leilão. O Superior Tribunal de Justiça ( STJ) rejeitou a liminar que pedia sua suspensão. Apesar de ter sido mantido o leilão, o ministro Moura Ribeiro estipulou duas condições para a sua realização: o valor obtido não irá imediatamente para os bancos credores, mas será guardado numa conta específica até o fim do processo judicial envolvendo a obra. O fato de o comprador ter de depositar o dinheiro um dia depois da compra afastou possíveis interessados estrangeiros a participar do leilão, segundo informou a assessoria da Bolsa de Arte.

A segunda condição: o comprador precisa ser notificado de que o julgamento final pode reverter o entendimento atual do Tribunal de Justiça de São Paulo de que o quadro pertence a Salim e, portanto, pode ser vendido para ajudar a quitar sua dívida com os bancos credores.

O advogado Márcio Casado entrou, no dia do leilão (17), com uma petição nos altos do processo, em São Paulo, argumentando que os bancos credores, cientes da decisão do STJ, não deram publicidade à medida do ministro Moura Ribeiro, o que é contestado pela Bolsa de Arte. “A petição é despropositada e ignora as condições fixadas pelo Poder Judiciário para a venda, inclusive recente decisão datada de 14 de dezembro que já havia rejeitado exatamente a mesma alegação do filho do devedor. Todas as condições exigidas pela lei e pelo Poder Judiciário, que reconheceu a validade do certame, foram respeitadas”, segundo a assessoria da Bolsa de Arte.

Sob a guarda inicial de dona Olívia Guedes Penteado, primeira proprietária da tela e mecenas dos modernistas, a pintura foi herdada por sua filha, Carolina Penteado da Silva Teles e, posteriormente, foi comprada pelo empresário Salim Taufic Schahin. Há poucas obras do período modernista de Tarsila disponíveis no mercado e poucos colecionadores têm uma tela da artista de importância histórica comparável à pintura, realizada em Paris um ano após a Semana de Arte Moderna de 1922. Registrado no catálogo raisonné de Tarsila do Amaral, é um quadro considerado pela artista uma de suas melhores pinturas do período modernista. Tarsila, em 1923, estudava pintura com os cubistas em Paris – e Caipirinha reafirma a influência de Léger na composição – quando escreveu uma carta aos pais comunicando sua intenção de registrar numa tela suas lembranças de infância na fazenda. “Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo, brincando com bonecas no mato, como no último quadro que estou pintando”.

Quadro de Tarsila do Amaral vai a leilão com lance mínimo recorde no Brasil: R$ 47 milhões

Confiscada pela Justiça, pintura ‘A caipirinha’ estará disponível para visitação pública em São Paulo, a partir desta terça-feira

Quadro ‘A caipirinha’, de Tarsila do Amaral Foto: Divulgação/Ding Musa

SÃO PAULO — Um leilão promovido pela Bolsa de Arte no próximo dia 17 de dezembro, em São Paulo, promete movimentar o mercado. Isso porque o quadro “A caipirinha”, de Tarsila do Amaral (1886-1973), estará disponível para arremate, com um lance mínimo histórico por conta do valor: R$ 47 milhões, um recorde absoluto no país.

Segundo Jones Bergamin, o Peninha, presidente da Bolsa de Arte, “até então, os dois recordes de vendas públicas no país eram de ‘Superfície Modulada nº 4’, de Lygia Clark, que alcançou R$ 5,3 milhões em 2013, e ‘Vaso de flores’, de Guignard, arrematada dois anos depois por R$ 5,7 milhões em valores da época”. Com isso, a tela de Tarsila deve superar e muito o recorde estabelecido.

O quadro, óleo sobre tela, de 60 cm x 81 cm, estará disponível para visitação pública com entrada franca entre esta terça-feira (8) e o dia do leilão, na sede da Bolsa de Arte — Rua Rio Preto 63, Cerqueira César, das 11h às 19h. Por conta da pandemia, serão permitidos dez visitantes por vez no salão. 

“A caipirinha” foi finalizada durante a segunda viagem de Tarsila do Amaral a Paris, em 1923, um ano após sua participação na Semana de Arte Moderna, em São Paulo.

A obra estava confiscada pela Justiça. Antes, ela pertencia à coleção particular do empresário Salim Taufic Schahin, do banco Schahin, envolvido no escândalo da Lava-Jato. Uma juíza decretou, em junho, a venda com pagamento à vista.

Masp terá exposição de Degas em dezembro

Ao todo são 76 obras, sendo 73 bronzes, dois desenhos e uma pintura
Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

‘Bailarina de Catorze Anos’, de Degas Foto: João Musa

Masp – Museu de Arte de São Paulo vai abrir, no dia 4 de dezembro, exposição com obras de Degas, que reúne o conjunto completo de bronzes pertencente ao museu e que não era exibido ao público há 14 anos. Ao todo, são 76 no total, sendo 73 bronzes, dois desenhos e uma pintura. 

Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, e de Fernando Oliva, curador na instituição, a mostra poderá ser apreciada tendo em contraste imagens da artista brasileira Sofia Borges. Exposição está inserida no ciclo das histórias da dança. 

Apenas outros três museus no mundo possuem essa coleção completa de esculturas, o Glyptotek de Copenhague, o Metropolitan de Nova York e o Musée d’Orsay Paris. 

O público que for ao museu começará vendo a escultura Bailarina de Catorze Anos (1880), obra mais icônica de Edgar Degas (1834-1917), que terá sua importância artística  reforçada com as releituras de Sofia Borges, que produziu fotografias em grande escala a partir das esculturas. 

Na programação do Masp, está prevista, para dia 18 de dezembro, a abertura da exposição Beatriz Milhazes: Avenida Paulista

Para visitar o museu é necessário fazer agendamento online, inclusive para as terças gratuitas, pelo link masp.org.br/ingressos

Degas
‘Quatro Bailarinas em Cena’, quadro de Degas Foto: João Musa

SERVIÇO

DEGAS – 4 de dezembro de 2020 a 1º de agosto de 2021

Masp. Avenida Paulista, 1.578, São Paulo. Telefone: (11) 3149-5959

Horários: terça, das 10h às 20h (entrada até 19h30), quarta a sexta, das 13h às 19h (entrada até 18h30); sábado e domingo, das 10h às 18h (entrada até 17h30); fechado às segundas. Agendamento online obrigatório, inclusive para as terças gratuitas. 

Ingressos: R$ 45.

Entrada gratuita às terças-feiras e, até 30/12, também às quartas-feiras. Veja todos os cuidados que o museu adotou para receber o público de forma segura e as novas regras de visitação em masp.org.br/visitasegura

Amigo Masp tem acesso ilimitado todos os dias em que o museu está aberto mediante agendamento de data e horário no site do museu. 

Estudantes, professores e maiores de 60 anos pagam R$ 22 (meia-entrada). Menores de 11 anos de idade não pagam ingresso, assim como pessoas com deficiência física com um acompanhante.

Acessível a pessoas com deficiência física, ar condicionado, classificação livre.

Google Arts & Culture lança seção com 30 exposições virtuais de artistas negros

Ação do Google Arts & Culture faz parte do Dia da Consciência Negra
JOÃO PEDRO MALAR – O ESTADO DE S.PAULO

Obras como ‘Auto-retrato’, de Octávio Araújo, e ‘Irmandade da Boa Morte’, de Jess Vieira, já estão disponíveis na plataforma Foto: Octávio Araújo I Jess Vieira

Como forma de celebrar o Dia da Consciência Negra, nesta sexta-feira, 20, e dar mais visibilidade para artistas negros, o Google Arts & Culture, plataforma que reúne exposições virtuais, lançou uma seção com 30 exposições de artistas negros brasileiros, com 13 inéditas.

Batizada de Consciência Negra, a seção conta com parcerias de 15 instituições culturais, como a Pinacoteca de São Paulo, o Instituto Moreira Salles, o Museu Histórico Nacional, a Fundação Cândido Portinari e o Museu Nacional. A ideia é permitir que o usuário “explore as histórias, artes e culturas da experiência negra no Brasil”.

Entre as mostras inéditas está a coleção de 600 obras digitalizadas do Museu de Arte da Bahia, que ganharão versões em alta resolução pela primeira vez, e uma mostra do Geledés Instituto da Mulher Negra sobre a história por trás do Dia da Consciência Negra. 

Com imagens de peças de vestimenta, quadros e também de registros fotográficos, todas as mostras já estão disponíveis na plataforma. A iniciativa também inclui ação Restauração Histórica: ancestralidade negra pela arte com o  Museu Afro Brasil, em que quatro artistas jovens negros foram convidados para mostrar episódios históricos protagonizados por negros, relevantes para a história do Brasil, e que são pouco conhecidos.

Entre as representações estarão as histórias dos Ibejis, dos Irmãos Timotheo, da Irmandade da Boa Morte e também de tecnologias de origem africana usadas até hoje. A ação especial também já está disponível no Google Arts & Culture, que inclui acervos com mais de 2 mil obras digitalizadas. 

Alfredo Volpi e seus herdeiros artísticos em exposição conjunta

Galeria Millan abre mostra com obras do pintor e dos contemporâneos Elizabeth Jobim e Paulo Pasta
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
O pintor Paulo Pasta posa ao lado de sua tela, de uma fachada de Volpi e das pedras de Elizabeth Jobim Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A Galeria Millan abre nesta quinta-feira, 12, em parceria com a Galeria Raquel Arnaud, no espaço da primeira, a exposição Transições entre Passagens, que reúne o principal pintor moderno brasileiro, Alfredo Volpi (1896-1988), e dois pintores contemporâneos, Elizabeth Jobim e Paulo Pasta. Embora não fosse a intenção original da curadora Gisela Gueiros, o título da mostra remete à fragmentária obra de Walter Benjamin (Das Passagen-Werk/Passagens) em que o pensador berlinense, refletindo sobre as bruscas alterações na fisionomia arquitetônica da Paris de sua época, cita uma frase de Maxime Du Camp em que o escritor e fotógrafo francês compara a história a Janus, a mítica figura de duas faces: “quer olhe o passado, quer olhe o presente, ela vê as mesmas coisas”. Pode-se dizer o mesmo de Paulo Pasta e Elizabeth Jobim: o olhar de ambos parece convergir para a maneira de Volpi ver o mundo, que, evidentemente, não era nostálgica nem futurista.

É tão evidente a proximidade entre as obras dos dois com a do mestre Volpi que a palavra “passagem” faz todo sentido nessa exposição conjunta. Benjamin, comentando como a construção em ferro na Paris de sua época ocupava uma posição híbrida que permitia certa analogia com a da igreja barroca – e não só pela cobertura (Halle) em abóbada –, concluiu ser possível dizer que permanecia algo de sagrado nessa construção, um “resquício de nave de igreja”.

Não é demais lembrar que as atuais pinturas de Pasta evocam igualmente algo de sagrado na história da pintura. Mais precisamente, o retábulo da Anunciação criado por Ducio para o altar-mor de Siena, do qual Pasta extraiu as figuras do arcanjo Gabriel e da Virgem, reinterpretando a estrutura original e tornando equivalentes o espaço sagrado e o profano, antes separados por uma coluna.

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
Tela de Paulo Pasta que usa cores atmosféricas e sugere passagem virtual Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Alegoria

Essa “passagem” não eleva nem a pintura de Volpi nem a de Pasta à condição de alegoria. Nenhum deles é um crente, no sentido tradicional. Pasta faz uma pintura antinarrativa. Ela não “conta” uma história. Antes, revela. Colocadas lado a lado, uma pequena tela vertical com uma fachada de Volpi e uma pintura de um rosa renascentista de Pasta revelam que a estrutura construtiva que sustenta as duas obras remete à ideia benjaminiana da transformação como reafirmação de uma ordem primordial. Volpi e Pasta pintam, enfim, a passagem do tempo, apresentam um mundo sujeito à destruição e imediata reconstrução na hora em que o espectador está diante da tela, no intervalo entre a epifania e a desilusão.

Há poucas obras (10) na exposição, um acerto da curadora Gisela Gueiros, que, convidada pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro, da plataforma digital Preview, pensou numa exposição virtual – que virou física – a partir de um conceito formulado pelo pintor alemão Josef Albers em seu livro Interação da Cor, de 1963. Albers defendia que nossa percepção das cores deveria ser relativizada. Até mesmo o contexto em que estão pode afetar a maneira como vemos a construção cromática – Volpi usava a artesanal técnica da têmpera, Pasta usa óleo e Elizabeth Jobim impregna blocos de concreto com pigmentos. Ou sejam, os três recorrem a procedimentos antigos, mas num contexto moderno e contemporâneo.

Concreto

Lembrando que a lição de Albers ensina haver uma discrepância entre fato físico e efeito físico na percepção visual, a pintora Elizabeth Jobim revela que os pigmentos usados para interagir com os blocos são os mesmos de suas telas (vermelho-veneziano, siena) com pequenas variações. A curadora vê pontos de contato entre essas pequenas estruturas esculpidas de Jobim e as soluções estruturais das superfícies descontínuas de Volpi em sua passagem pelo concretismo. Pasta, aproximando-se do neoconcreto Hélio Oiticica dos metaesquemas, define sua pintura atual como uma forma de promover a passagem ao espaço tridimensional, em alguns casos por meio de cores atmosféricas (azul da Prússia, azul-ultramarino).

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
Obra de Elizabeth Jobim: o lugar onde cor e forma são sinônimos Foto: Daniel Teixeira/Estadão

É um mundo no limite do desaparecimento, que se esvai no infinito, como a coluna brancusiana de Volpi (de 1957) exposta ao lado da mais recente tela de Pasta, que sugere um confronto entre o espaço ilusório e a superfície concreta. A curadora da exposição chama a atenção para essa coluna volpiana em forma de ampulheta estática, que sugere a suspensão do tempo. Pasta comenta que a ideia do vazio presente na exposição remete à situação de isolamento provocado pela pandemia, cujo efeito positivo é conduzir o espectador de novo à contemplação.

Elizabeth Jobim confirma que Volpi tinha essa vocação de estabelecer um vínculo afetivo com o espectador por meio da cor. “Sua pintura é um espetáculo de simplicidade e despojamento, que tem a ver com arquitetura”, diz a pintora. “Ele foi ao mesmo tempo assertivo e intimista”, conclui. “Volpi é o pintor menos neurótico que eu conheço”, completa Paulo Pasta.