Categoria: Art

Nus e muito próximos em nome da arte

IW_08_NAKEDAngelo Musco cria sua obra usando fotografias de milhares de corpos entrelaçados como peças de um quebra-cabeça. Trabalhando em “Aaru” (Christian Hansen para The New York Times)


Por Helene Stapinski

Em uma igreja desconsagrada de Manhattan, 24 pessoas se amontoavam recentemente em um abraço fetal, completamente nuas.

Na galeria, um andar acima delas, estava Angelo Musco, um artista de Nova York, tirando fotografias do grupo para seu projeto mais recente. Repetidamente, Musco parava de clicar e gritava orientações para seus três assistentes, de roupa, para ajudar a mexer um braço, uma perna, ou para desfazer o agrupamento humano em formações menores.

A massa nua era composta de atores, bailarinos, artistas, fotógrafos de folga, um advogado, um chef, uma massagista, um corretor de imóveis e um dançarino profissional — em geral de Nova York, muitos deles naturistas (o termo preferido dos nudistas). Eles se levantavam a cada dez minutos, conversavam como se estivessem num coquetel, e depois voltavam a deitar, olhos fechados, abraçando-se silenciosamente, enquanto uma música relaxante tocava no fundo.

Havia corpos negros, brancos, um corpo asiático, corpos tatuados, corpos peludos, lisos e um corpo trans, homens na maioria: o material para o trabalho do dia de Musco.

08_naked2_web640Muitos modelos das fotos de Musco são participantes antigos. Uma recente sessão de fotos em Nova York (Christian Hansen para The New York Times)


Jacqueline Shimmiezz, uma bailarina de 1,90 metro que posava para Musco pela primeira vez, disse que decidira entrar no grupo depois de ver seu trabalho on-line. “Fiquei de queixo caído”, contou. “É impressionante. Comecei a chorar”.

Antes do início da sessão, Jacqueline disse que “estava ansiosa por se colocar em um lugar vulnerável”.

“Eu fico pensando: quão perto vou ficar desta pessoa? Estou nua. Será que vou me sentir à vontade? De vez em quando paira um odor”. Piscou. “Mas eu sei que tudo isto é maior do que eu sou. Isto tudo é em nome da arte. Não tem a ver comigo”.

A obra de Musco surgiu de um trauma pessoal. Ele nasceu em Nápoles há 44 anos, com dois meses de atraso, na mesa da cozinha de sua mãe. Como a parteira não conseguia extrair a criança de seis quilos e meio, uma tia o puxou, agarrando-o pelo braço direito e pelo pescoço. Durante toda a sua vida, Musco sofreu de paralisia de Erb e teve de fazer fisioterapia. “Fiquei paralisado nos primeiros anos de vida”, disse, “de modo que o corpo forçou sua expressão neste trabalho”.

“Muitos de seus modelos eram participantes costumeiros de Musco, que fotografa corpos nus aproximadamente a cada seis meses, principalmente em Nova York, Buenos Aires, Londres e Nápoles. E usa as imagens para criar enormes obras geradas por computador que incorporam milhares de corpos como minúsculas peças de um quebra-cabeça. Somente depois que as pessoas se aproximam de uma obra, conseguem perceber que ela é composta de corpos entrelaçados. Algumas, como “Hadal” (2009), lembram o “Inferno”, de Dante.

As sessões duram aproximadamente três horas, com intervalos. “É como fazer ioga. Você precisa permanecer na posição”, disse Musco.

Quando tudo terminou, a multidão aplaudiu. Como retribuição, cada modelo recebeu um print de uma formação da última foto, há seis meses, no Greenwich Village, em Manhattan.

Musco constrói sua nova obra, “Aaru”, um jardim em preto e branco com borboletas, lírios, rosas e outras plantas, todas feitas de corpos humanos, utilizando de 500 a mil fotos. Ele espera concluí-la até o fim do ano.

“A parte da sessão que mais odeio é quando Angelo diz: ‘Ok, obrigado, pessoal. Terminamos’”, disse Alex Matskevich, um programador russo que posou oito vezes para Musco.

Matskevich disse que posar para Musco faz parte de sua evolução para superar a timidez. “Eu não conseguia usar uma camisa de manga curta”, falou já de pé, conversando. “Agora, olhe para mim!”.

Marina Abramovic fala sobre sua vida e arte em livro de memórias

Serb artist Marina Abramovic performs inA artista sérvia Marina Abramovic atua em ‘The Biography Remix’, dirigida pelo holandês Michael Laub em 2005, em Avignon, na França Foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP/Getty Images


Em Pelas Paredes: Memórias de Marina Abramovic, que acaba de ser publicado no Brasil, a performer, nascida em 1946, em Belgrado, na antiga Iugoslávia, hoje Sérvia, divide com os leitores alguns momentos importantes de sua vida, que, como ela mesma faz questão de frisar, não se separa de sua obra: “Meu trabalho e minha vida são muito interligados. Ao longo de toda a minha carreira, produzi obras cujo significado inconsciente só se tornou claro para mim com o passar do tempo.”

De fato, a vida de Marina se reflete em sua obra. Seus pais eram partisans, membros do Partido Comunista iugoslavo, e lutaram contra a ocupação nazista durante a 2ª. Guerra Mundial. Deles, Marina teria herdado a força e a determinação. Ao falar de Gold Found by The Artist (Ouro Descoberto pelo Artista, 1981), performance em que ela e seu parceiro Ulay deveriam permanecer por oito horas, ao longo de algumas semanas, sentados cada um de um lado de uma mesa sobre a qual havia pepitas de ouro, olhando-se sem se mexer, Marina lembra que, numa das apresentações, Ulay, depois de fortes dores no corpo, desistiu de atuar, ao contrário dela, que se manteve firme, apesar do cansaço e das dores, até o final do trabalho. Segundo Marina, a diferença entre eles estava na herança dos “partisans, aquela determinação de atravessar paredes que meus pais tinham transmitido a mim”.

Quanto à sua mãe, ela a descreve como uma mulher autoritária, que sabia suportar a dor e que nunca se queixava nem permitia que a filha o fizesse, de modo que as enxaquecas que assolavam a jovem Marina deveriam ser suportadas sem reclamações. Muitas performances exigem de Marina controle absoluto sobre o sofrimento corporal. Esse era o caso de Thomas Lips (Lábios de Thomas, 1975), em que a artista desenhava com gilete uma estrela em seu abdômen e se “açoitava até não sentir mais dor nenhuma”. Esse controle, imagino, ela aprendeu desde cedo com a sua mãe.

As lembranças com seus familiares são terríveis. Seus momentos de felicidade são descritos ao lado dos amigos e também dos amantes Ulay e Paolo, apesar de eles terem lhe causado profunda dor espiritual; essa, para Marina, era incontrolável. A artista destaca em suas memórias a vida ao lado de Ulay, suas aventuras pelo mundo, desde a visita ao deserto central da Austrália e do contato com os aborígines até a vida errante pela Europa dentro de um furgão. Essas aventuras são descritas como laboratórios de criação para novas performances. Em pleno deserto australiano, por exemplo, surgiu a ideia para The Lovers (Os Amantes, 1988): na solidão absoluta do lugar, lembraram-se do verso de um poema chinês do século 2, Confissões da Grande Muralha: “A Terra é pequena e azul, e eu sou uma pequena fissura nela.”

Em The Lovers, eles, os amantes, partiriam, solitários, das extremidades da Grande Muralha e se encontrariam no meio dela, onde se casariam. Mas quando, por fim, conseguiram vencer a burocracia chinesa dos anos 1980 e executar o trabalho, a relação entre eles havia se deteriorado. Porém, não desistiram da performance; apenas mudaram seu final e, em vez de se casarem no meio do caminho, selaram sua separação. As memórias de Marina revelam como essa e outras performances foram concebidas.

Seu livro destaca ainda o aspecto místico de sua obra e de sua personalidade. Marina teria herdado esse misticismo de sua avó materna, Milica, que lia a sorte e costumava derramar um copo de água por cima da neta antes de ela ir para a escola. Esse ritual, acreditava a avó, a faria tirar notas altas. De acordo com a artista, “esses sinais e rituais eram uma espécie de espiritualidade para mim. Eles também me conectavam à minha vida interior e aos meus sonhos”. A espiritualidade está presente em muitas de suas performances, entre elas, The Artist Is Present (A Artista Está Presente, 2010) e 512 Hours (512 horas), da qual participei, em 2014, na Serpentine Gallery, em Londres.

Marina lembra que, ao vir ao Brasil estudar xamanismo, “os xamãs ensinavam os mesmos tipos de sinais”. A propósito do Brasil, Marina conta sua viagem a Serra Pelada, a Curitiba, a São Paulo e a Abadiânia. Revela ainda ter encontrado na Europa, nos anos 1970, o artista brasileiro Antonio Dias, que a teria impressionado.

Há passagens hilariantes no livro de Marina Abramovic, que tem muito bom humor, um humor balcânico, como ela diz. Numa dessas passagens, ela conta uma experiência com monges budistas que a convidaram para prepará-los para uma apresentação num festival étnico em Berlim. Marina viajou ao Tibete e passou algum tempo lá ensaiando 12 monges para a apresentação. Feito isso, voltou para a Alemanha. Cinco dias antes da apresentação, 12 monges chegaram a Berlim, mas não eram os 12 que ela havia preparado, eram outros completamente desconhecidos. Ao perguntar onde estavam “seus monges”, responderam-lhe que aqueles não tinham passaporte; então, vieram esses no lugar. Marina enlouqueceu, mas tudo deu certo ao final.

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de ‘Cenas do Teatro Moderno e Contemporâneo’ (Ed. Iluminuras)

Capa Pelas paredes V3 DS.inddCapa do livro de memórias ‘Pelas Paredes’, de Marina Abramovic

Pelas Paredes: Memórias de Marina Abramovic
Autora: Marina Abramovic
Tradução: Waldea Pereira
Editora: José Olympio
416 páginas
R$ 69,90

Marido de Natalie Portman, Benjamin Millepied moderniza o balé clássico

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“É hora de redefinir o que uma instituição de dança significa nos dias de hoje”, diz Benjamin Millepied à Serafina. Depois de passar 20 anos nos Estados Unidos, o bailarino e coreógrafo voltou à França em 2014 para dirigir o Balé da Ópera de Paris, a companhia nacional de balé mais antiga do mundo.

Chegou à cidade determinado a instilar uma nova energia na instituição. O documentário “Reset”, previsto para estrear em primeiro de junho nos cinemas, acompanha os 39 dias que antecedem a estreia de um balé original do coreógrafo na companhia parisiense, de 2015, chamado “Clear, Loud, Bright, Forward”.

Millepied foi bailarino principal do New York City Ballet por 10 anos, coreografou os passos (e até apareceu em cena) do filme “Cisne Negro” (2010) – quando conheceu a atriz Natalie Portman, hoje sua mulher e mãe de seus dois filhos – e vem se reinventando como embaixador da dança clássica. Como coreógrafo, colaborou com gente como os músicos Philip Glass e James Blake, o artista plástico Mark Bradford e a estilista Iris van Herpen.

Na França, começou as mudanças pelos pisos das salas de ensaio, que eram de madeira antiga e foram trocados pelo tecnológico linóleo. Reforçou a presença online da companhia, criando perfis em redes sociais e uma plataforma de vídeos, a 3ème Scene, em que artistas convidados, como Alex Prager, comandavam curtas exclusivos estrelados pelos bailarinos. E escalou pela primeira vez nos 348 anos da história da companhia uma mestiça para protagonizar um balé clássico de repertório.

“As grandes companhias ainda são geridas da mesma maneira que o eram há décadas. Isso não faz sentido. É preciso repensar como levamos dança para as pessoas. Quero uma companhia com origens e cores diferentes no palco. Como a gente vai mudar o público do balé se ele não se identifica com os bailarinos?”, diz ele. A tentativa de modernização da companhia francesa foi mais difícil do que imaginava, e no ano passado, 4 meses depois da estreia do espetáculo retratado no documentário, Millepied renunciou ao cargo.

“Tentei ser criativo e aplicar minha visão e ideias do que uma companhia daquele porte deveria ser, mas tive muita dificuldade. Havia muita burocracia lá. Espero ter deixado minha marca, mas eu não era o homem certo para o trabalho”.

Nascido em Bordeaux, Benjamin viveu parte da sua infância em Dakar, capital do Senegal, na África e passou grande parte da vida adulta como um estrangeiro nos EUA. E foi para lá que o dançarino francês voltou. Levou seus planos a Los Angeles, onde vive agora com a família, dedicando-se à L.A. Dance Project, companhia que fundou com Charles Fabius, em 2012.

Lá, seu projeto se torna cada vez mais ambicioso, com previsão de 40 performances anuais, além de um balé inédito concebido exclusivamente para transmissão online, via Periscope, a ser apresentado no final de maio, na fundação do artista Donald Judd, em Marfa. Será estrelado pela bailarina brasileira Carla Korbes.

“Ele tem um ritmo de vida e um pensamento muito rápido e usa isso como diretor e coreógrafo”, conta Korbes, que integra o LADP desde 1999. “Ele se interessa por coisas que vão além do balé. Inspira-se muito em artistas de outras áreas, músicos, pintores, escritores e leva isso para a dança”.

Trailer do documentário “Reset”, de Thierry Demaizière e Alban Teurlai

“Gosto da energia criativa colaborativa que existe em L.A. e, embora haja muito talento, não há um histórico de dança ou uma companhia de sucesso aqui. Há espaço e também o desafio para estabelecer uma”, diz Millepied. [Luísa Graça – De São Paulo]

Masp chega ao 3º ano sob nova direção enfrentando demissões e divergências

Escadaria do subsolo do museu, onde está retrospectiva da artista Teresinha Soares

Silas Marti
De São Paulo

Quando assumiu o comando artístico do Masp, Adriano Pedrosa anunciou como primeiro gesto o resgate dos famosos cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi. Transparentes, eles dão a impressão de que as telas dos maiores mestres da arte estão flutuando na grande galeria do museu.

Num choque de gestão que já dura três anos, Pedrosa, com carta branca de uma nova diretoria liderada pelo empresário Heitor Martins, ressuscitou uma instituição então fracassada, afundada em dívidas e sem relevância no cenário contemporâneo.

Mas seu jeito direto e reto e a cobrança de metas em estilo corporativo de Martins, métodos que alguns veem como transparentes e sinceros até demais, vêm causando atritos no maior museu de arte da América Latina, que acumula uma série de pedidos de demissão no ano em que completa sete décadas.

Figuras importantes de um time escolhido a dedo para dinamizar e atualizar o endereço mais famoso da avenida Paulista estão deixando seus cargos num efeito dominó.

Essas baixas atingem tanto a área artística do museu, responsável pela linha de exposições que entram em cartaz, quanto a administração executiva, que sanou as contas da instituição, com dívidas que ultrapassavam R$ 40 milhões.

Visitante na galeria de pinturas do museu, com os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi


Flavia Velloso, consultora financeira hoje na direção do MuBE, foi a primeira a se desligar do Masp, um ano depois da troca de comando, que encerrou duas décadas desastrosas de domínio do arquiteto Júlio Neves e seus asseclas à frente do museu.

Ela diz que deixou o cargo depois de cumprir o combinado, que era reestruturar questões estatutárias e atrair novos patronos e conselheiros que pudessem pôr a mão no bolso para ajudar a instituição. Mas pessoas nos bastidores do Masp afirmam que ela bateu de frente com Pedrosa e preferiu se distanciar.

Na sequência, foram embora a curadora de fotografia, Rosângela Rennó, o diretor financeiro, Miguel Gutierrez, e a responsável por mediação com o público, Luiza Proença, a última desse time a sair.

Rennó diz que se tornou inviável continuar colaborando com o museu porque vive no Rio e a distância impediria que ela participasse em tempo integral das discussões, como exige Pedrosa. Pessoas ligadas à cúpula do museu, no entanto, também afirmam que houve um desentendimento com o diretor artístico.

Gutierrez, que não será substituído, não deu detalhes das circunstâncias de sua saída, mas integrantes do alto escalão do museu afirmam que seu estilo administrativo não agradou a nova direção.

No horizonte há uma série de possíveis baixas. Em breve, a curadora de arte moderna e contemporânea, a venezuelana Julieta González, também deve deixar o museu. Enquanto isso, Miguel Chaia, vice-presidente e segundo na linha de comando depois de Martins, chegou a entregar sua carta de demissão, mas voltou atrás por insistência do empresário e permanece no museu até segunda ordem.

“Toda a diretoria e o Heitor batalham para o Masp ficar de pé. O Adriano tem um estilo de trabalho mais fechado, mas eficiente”, observa Chaia. “Meu problema é de ordem pessoal no interior de uma instituição que não curto e para a qual não tenho mais tempo. São conflitos de pessoas com concepções fortes.”

De um lado dessa batalha, está uma visão mais plural do museu, que gostaria que o Masp voltasse a olhar para seu acervo histórico e assumisse uma vocação de museu de história da arte, como foi idealizado por Pietro Maria Bardi, um de seus fundadores.

Ex-funcionários e pessoas que frequentam as reuniões da direção e do conselho, aliás, dizem que Martins e Pedrosa pouco conhecem o acervo do museu, com joias renascentistas e impressionistas.

Demitida há um mês, depois de quase quatro décadas gerenciando os empréstimos do acervo do Masp, Eugenia Gorini Esmeraldo, por exemplo, diz que o diretor artístico “conhecia pouco o acervo e não se interessava muito”, embora elogie as mudanças realizadas pela nova gestão.

Outros, no entanto, defendem uma linha mais popular, com mostras capazes de atrair multidões ao museu.

Vista da rua da escada que dá acesso ao primeiro andar do museu


Há ainda a visão de Pedrosa, que impõe um programa calcado numa espécie de reparação histórica, reposicionando artistas esquecidos, como Agostinho Batista de Freitas e Teresinha Soares -com uma retrospectiva aberta na semana passada-, e abrindo espaço para minorias no Masp, começando por um resgate de mostras clássicas idealizadas por Lina Bo Bardi.

Mesmo dividido, o Masp reagiu bem às mudanças, com público em alta desde que Martins e Pedrosa, que não quiseram comentar as demissões nem as divergências no comando do museu, assumiram as rédeas há três anos.

De 289 mil visitantes em 2014, o Masp pulou para 408 mil no ano passado, superando os 307 mil recebidos pela Pinacoteca, um dos museus mais robustos da cidade.

Mas não faltam dúvidas sobre como deverá ser o futuro do museu da Paulista.

Mostras com maior potencial de público, como a de Toulouse-Lautrec, em junho, e de Jean-Michel Basquiat, no ano que vem, representam um lado da queda de braço entre um grupo de patrocinadores, entre eles o banco Itaú, ansiosos para ver resultados numéricos, e curadores, liderados por Pedrosa, que tentam implementar uma visão mais conceitual.

No meio do caminho, uma leva de funcionários da antiga gestão foi deixando o Masp no rastro da troca de comando, muitos deles mais velhos e assustados com o que veem como agressividade de uma nova geração acostumada a uma hierarquia mais rígida e a uma administração mais dinâmica, algo resumido como modelo de museu americano.

“Essas pessoas novas que chegaram tinham de saber que estavam encontrando uma equipe muito fragilizada, que também tinha feito resistência à gestão anterior”, diz Paulo Portella Filho, antigo responsável pelo serviço educativo do museu. “Deve existir uma insegurança muito grande que transparece como esnobismo, porque havia muito desrespeito e grosseria.”

Galeria de pinturas do museu, com os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi


Martins, que acaba de aprovar no conselho do museu a criação de um fundo independente para atenuar a dependência do Masp das leis de incentivo, não esconde que se inspirou em instituições como o Metropolitan, de Nova York, para tocar a instituição.

Lá dentro, profissionais de áreas estratégicas do museu atribuem a essa mudança de funcionamento um ambiente de trabalho mais intenso, hierarquizado e competitivo, com pressões para cumprir metas que comparam a uma empresa com fins lucrativos.

IMPERADOR
Mas esse não é um conflito generalizado. Pedrosa, um dos curadores mais influentes e poderosos de sua geração, não deixou de ser assediado por bienais e outras instituições, mas parece firme em seu compromisso com a reestruturação do Masp.

Sua equipe, que inclui Rodrigo Moura, ex-todo-poderoso do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, e Fernando Oliva, com passagem por uma série de instituições, também parece permanecer fiel a sua visão para o museu, mesmo com sua fama de duro e difícil, que acabou rendendo a ele o apelido de “imperador” nos corredores da instituição.

Patricia Carta, uma amiga de longa data de Pedrosa escalada por ele como curadora à frente do departamento de moda do Masp, defende o estilo de Pedrosa como um fator positivo para a instituição.

“Ele é um cara fechado, não é espalhafatoso. É bastante convicto das ideias dele e sistemático na maneira de trabalhar”, afirma Carta. “Não é um cara chapa, que fica dando pancadinha nas costas e chamando para tomar um chope, mas ele conhece o que faz.”

Philadelphia Museum of Art

museum-install.jpegAs obras da nova ala Frank Gehry do Philadelphia Museum of Art devem terminar em 2020, mas isso não significa que os amantes da arte não possam desfrutar de algumas peças de estréia. A empresa de design Pentagram desenvolveu uma tapume que funciona como uma parede de galeria ao ar livre. A empresa apelidou a instalação de Construcionismo. O tapume conta com 75 peças das coleções do museu, com trabalhos de artistas como Andy Warhol e Barbara Kruger. []

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Bienal Whitney 2017 traz arte contemporânea revigorada

IW_07_WHITNEY1Caixas de vidro laminado de Larry Bell, no Whitney Museum of American Art. (Coleção do artista; cortesia de Hauser Wirth & Schimmel, Los Angeles; Foto de George Etheredge para The New York Times)


Crítico de Arte
Por Jason Farago

Tudo teve que ser reinventado para a Bienal Whitney 2017 – a primeira a se realizar na nova sede do Museu Whitney. Mas esta importante mostra da arte contemporânea americana parece revigorada de outras maneiras também.

O Whitney escolheu dois curadores jovens para esta sempre aguardada exposição: Christopher Y. Lew, de 36 anos, e Mia Locks, de 34. É também a primeira vez que os curadores da bienal não são brancos. Após meses na estrada, eles resumiram a arte dos últimos anos numa mostra que, apesar de toda sua energia, não sobrecarrega o museu.

A exposição, que fica aberta até 11 de junho, é ambiciosa, mas concisa. São 63 participantes, o que a deixa atrás das bienais de 2010 e 2012 depois da explosão de mais de 100 artistas em 2014. Embora ocupe somente dois pavimentos do novo edifício e boa parte do saguão, dispõe de mais espaço do que na sua sede antiga.

07_whitney3_web720Os curadores da Bienal Whitney, Christopher Y. Lew, 36 anos, e Mia Locks, 34, selecionaram 63 artistas. (Scot Rudd)


Os curadores também capitalizaram as invejáveis sacadas de frente para a cidade do Whitney, que terão objetos de arte tanto volumosos (uma série de caixas de vidro laminadas de vermelho de Larry Bell) como invisíveis (uma obra sonora do jovem artista Zarouhie Abdalian).

Mesmo as janelas do chão ao teto do quinto andar foram tomadas por uma impactante composição colorida do artista Raúl de Nieves, que poderá ser vista da rua ao anoitecer.

Embora não faltem mídias novas, Lew e Locks também selecionaram uma grande quantidade de óleos e acrílicos sobre tela. Os pintores na exposição incluem Jo Baer (87 anos), um minimalista que depois mudou para uma veia mais poética; figuras em meio de carreira como Dana Schutz, Frances Stark, Carrie Moyer e Ulrike Müller; e artistas jovens como Shara Hughes, uma abstracionista, e Celeste Dupuy-Spencer, que pinta cenas frágeis da vida diária de Los Angeles. Em muitos casos, essas obras de pintores são instaladas em galerias contemplativas de um só artista.

Uma descoberta é Aliza Nisenbaum, uma artista de origem mexicana que pinta retratos de imigrantes, alguns dos quais entraram ilegalmente no país, bem como naturezas-mortas de cartas manuscritas a painéis de recados. “Ela estava se correspondendo com um membro de família muito próximo que está preso”, explicou Locks, “e por isso esses são retratos dessa pessoa por meio das cartas.”

Artistas negros, latinos e asiáticos estão bem representados nesta bienal – o que nem sempre aconteceu em edições passadas. Mas Lew e Locks se eximiram da defesa direta, e muitos artistas da exposição, da fotógrafa Deana Lawson ao cineasta Tuan Andrew Nguyen, abordam questões de identidade com devaneios, nostalgia, sátira e humor.

07_whitney2_web720.jpgUm vitral e esculturas, todas de Raúl de Nieves, na Bienal do Whitney. (Coleção do artista; cortesia da Company Gallery, Nova York; Foto de George Etheredge para The New York Times)


Uma das figuras antigas da mostra é o artista de Chicago William Pope.L – que, por galhofa, se autodenomina “o artista negro mais amigável da América”, e cujas visões sobre raça e individualidade são altamente inconstantes. Aqui ele retrabalha uma instalação de 2014 em que centenas de fatias de mortadela são fixadas com pequenas fotos difíceis de decifrar. Pope.L sugere num texto adjacente que as fotos representam o povo judeu – mas de novo, os modelos podem não ser absolutamente judeus. Tome-se a pungente mortadela do jeito que se quiser. Locks coloca a coisa da seguinte maneira: “Gosto da ideia de que é uma grade perfeita, este sistema perfeito, com os pontos de encontro mais falsos, mais frouxos que já se viu. Literalmente deteriorantes”.

Embora muitos artistas da exposição venham das duas grandes capitais da arte do país, o ano de viagens da dupla de curadores rendeu outras descobertas. Maya Stovall, de Detroit, contribuiu com vídeos que documentam performances do lado de fora de lojas de bebidas alcoólicas. E há vários artistas de Porto Rico, cuja permanente crise de endividamento também informou o pensamento dos curadores sobre arte e economia.

Quando os curadores do Whitney planejaram as primeiras exposições do museu em sua nova sede, eles adiaram a bienal por um ano para se concentrar na coleção permanente. Isto significou que os curadores da bienal atravessaram os Estados Unidos durante uma eleição presidencial.

Algumas obras na mostra tocam diretamente a política nacional, como os desenhos de Dupuy-Spencer de um comício de Trump. Ou a reportagem de Nova Orleans da fotógrafa An-My Lê. Mas Lew e Locks não retrabalharam sua lista de artistas após o 8 de novembro. Os temas já estavam na arte.

Para Locks, “Quando pessoas ficam falando de racismo, quando pessoas ficam falando de desigualdade, quando pessoas ficam falando de dívida – quando as conversas surgem sem que você as provoque – você percebe: Estas são as ideias!”

Os artistas foram apanhados “num momento de autorreflexão coletiva, introspecção, busca de identidade”, ela acrescentou. “E, de certa maneira, isto se tornou parte da exposição.”

Mulheres conquistam espaço no mercado de arte

1491331908701.jpgJudith Lauand foi a primeira mulher a expor com os artistas concretos brasileiros na década de 1950


A questão de gênero chegou à SP-Arte. A crescente participação de mulheres artistas, bem como a presença de trabalhos que discutem as desigualdades entre homens e mulheres, levou os organizadores a reconhecer que o movimento em defesa da correção de distorções históricas, que já vem pressionando o circuito norte-americano e europeu há algum tempo, finalmente está chegando ao Brasil. “Não foi proposital, mas é possível notar que está todo mundo mais atento”, afirma Fernanda Feitosa, diretora do evento. Segundo ela, trata-se de um fenômeno mundial: “Os curadores estão sempre revendo, desenvolvendo leituras diferentes ao longo da história, buscando outros enfoques e vieses, realizando resgates importantes”.

Feitosa destaca que 11 das 159 galerias da feira têm participação exclusivamente feminina, estando situadas sobretudo nos segmentos curatoriais da feira como o Solo, o Repertório e o Núcleo de Performance. E anuncia que uma das dez visitas guiadas oferecidas ao público realizará um circuito dedicado às mulheres na arte do século 20. Segundo a pesquisadora Bruna Fetter, autora de Narrativas Conflitantes & Convergentes: As Feiras nos Ecossistemas Contemporâneos da Arte, esse resultado é “um fenômeno interessante, que advém de um grande esforço coletivo das mulheres, reivindicando mais espaço e visibilidade nas instituições”.

Dentre os espaços da SP-Arte que privilegiam a participação feminina se destaca a galeria Cheim & Read, que optou por trazer, em sua primeira participação, um trio feminino de peso: Louise Bourgeois, Lynda Benglis e Joan Mitchell. “Acredito que estamos numa época de revisionismo, reconsiderando artistas mulheres de grande importância histórica. Parece que o Brasil é um lugar ideal para expormos agora, especialmente porque tem uma história tão rica cultural de importantes artistas – Tarsila do Amoral, Lygia Clark, Beatriz Milhazes, Tomie Ohtake e Lygia Pape para citar apenas algumas”, afirma o galerista Adam Sheffer.

Dentre os destaques internacionais é possível citar os trabalhos da croata Sanja Iveković e da austríaca Renate Bertlmann, como exemplos de mulheres que lidam com a questão da desigualdade de gênero em seus trabalhos. Há também várias brasileiras, de diferentes gerações, como Judith Lauand, Carolina Martinez e Lydia Okumura.

1491331877817Joan Mitchell é um dos destaques femininos da Cheim & Read (Foto: Cheim & Read)


Mulher, latina, de origem asiática e com um trabalho de forte teor conceitual, Lydia é um exemplo clássico das dificuldades vivenciadas pelas artistas para conseguir penetrar num universo majoritariamente masculino. “É impressionante como elas conseguiram circular em ambientes tão restritos”, constata a marchande que a representa, Jaqueline Martins, da galeria homônima considerada uma das brasileiras com maior presença feminina em seu pool de artistas. Jaqueline se diz atenta à questão, mas reconhece que as mulheres ainda estão em desvantagem. “Temos 18 artistas e 8 são mulheres”, diz ela, mas concorda que mesmo em setores mais conservadores como as feiras de arte já é possível sentir uma mudança de mentalidade. E que os compradores estão mais atentos. “Fazem esforço para manter um orçamento mais cuidadoso, para equilibrar melhor as aquisições.”

Por outro lado, reconhece que ainda há muito que caminhar. Bruna Fetter concorda: “Mesmo tendo essa situação específica no Brasil, onde mulheres têm maior participação no mercado da arte e em coleções institucionais do que em outros países, isso não quer dizer que as mulheres estão em pé de igualdade. Não tenho registro de instituição nacional que tenha em seus acervos mais do que 30% de obras de artistas mulheres em suas coleções. Geralmente, esse número fica na casa dos 20%. Ainda é pouco, muito pouco”.

Maria Hirszman ,
Especial para o Estado de S. Paulo

Na terra de bolinhas e espelhos, com Yayoi Kusama

08_dots_story_detail.jpgUm visitante espiando por um olho mágico a Infinity Mirror Room “Love Forever” (1966/1994). (Tyrone Turner para The New York Times)

Revisão de Arte
Por Roberta Smith

WASHINGTON — A exposição “Yayoi Kusama: Infinity Mirrors” no Museu Hirshhorn, em Washington, é uma boa diversão se a pessoa gosta de ser deslumbrada por interiores espelhados que criam incontáveis reflexos cada vez menores dela mesma. E quem não gosta?

Kusama, que nasceu no Japão em 1929, fez sua primeira sala Infinity Mirror (espelho infinito), “Phalli’s Field”, em Nova York, em 1965, preenchendo o piso de 1,4 metro quadrado de um espaço espelhado com centenas de falos estofados revestidos com um tecido de bolinhas vermelhas sobre fundo branco. O efeito foi glorioso, e ainda é: “Phalli’s Field” é o primeiro ambiente espelhado na mostra do Hirshhorn, que ficará aberta até 14 de maio. Trata-se de um surpreendente jardim de cactos benignos.

08_dots2_web720A artista ultrapop japonesa Yayoi Kusama vem deslumbrando públicos há 50 anos criando ilusões esculturais. (Tyrone Turner para The New York Times)


“Phalli’s Field” e as outras 19 salas espelhadas de Kusama a estabeleceram como uma figura amada. Multidões fazem fila para entrar em suas salas, absorverem os efeitos ilusórios, e saírem, em geral depois de uma selfie. Algum tempo atrás, ela transcendeu o mundo artístico para se tornar um acessório da cultura popular, no mesmo time de Andy Warhol, David Hockney e Keith Haring. Quando fez “Phalli’s Field”, Kusama já era um fenômeno. Ela chegou em 1958 e se estabeleceu como uma grande artista. Seu triunfo se baseou em suas pinturas “Infinity Net”, que ela apresentou em sua primeira exposição em galeria, em 1960, junto com as esculturas “Accumulations”, ligeiramente posteriores.

Já em 1962, Kusama estava realizando performances solo e logo depois estava organizando Happenings orgíacos que envolviam outras pessoas, geralmente nuas e pintadas com bolinhas. Estas foram em geral registradas, mais especialmente pelo cineasta experimental e artista de instalações Jud Yalkut.

A produtividade de Kusama cobrou seu preço. No início dos anos 1970, ela se retirou do mundo das artes visuais para escrever. Em 1973, retornou ao Japão. Em 1975, sofreu um colapso nervoso e foi hospitalizada. Em 1977, outro colapso a levou de volta ao hospital. Desde então, ela tem vivido e trabalhado na mesma instituição ou perto dela.

08_dots3_web720 (1)Yayoi Kusama deslumbrou fãs com ilusões esculturais por mais de 50 anos. “Life (Repetitive Vision)”, 1998. (Tyrone Turner para The New York Times)


Ela publicou pelo menos dois romances e construiu uma reputação sólida no Japão. Em 2009, voltou a pinturas relacionadas com a arte folclórica. Ela pretendia que esta série, “My Eternal Soul”, totalizasse 200 telas, mas produziu 500. Quatorze delas estão expostas na mostra.

A leve dispersão de pinturas, esculturas e obras em papel nos espaços entre os ambientes oferecem um cardápio saboroso da grandeza de Kusama. Elas parecem ter a intenção de fazer das salas espelhadas as expressões definitivas de sua visão. Mas isso não funciona muito bem, em parte porque a mostra saneia Kusama; ela transmite muito pouco o sentido de seus problemas psicológicos ou de sua genuína transgressão.

Por fim, ela cria um desejo por obras de Kusama que são mais sutilmente absorventes, como as pinturas e esculturas dos anos 1950 e 1960. As salas Infinity Mirror são deslumbrantes, mas são também Kusama Lite.

Instituto Tomie Ohtake inaugura exposição de Yoko Ono

s007spectre1Yoko Ono Pintura para o Vento, Pinturas e Desenhos de Yoko Ono, AG Gallery Nova York, 1961 (Foto: Foto: George Maciunas/Cortesia de Yoko Ono)


Por Paula Jacob

Mais uma exposição que promete virar o quarteirão com filas de espera. Depois do sucesso com Yayoi Kusama, é a vez de Yoko Ono ocupar o Instituto Tomie Ohtake com suas obras mais emblemáticas. A exposição O céu ainda é azul, você sabe… revela a pesquisa da artista em torno da própria arte, com itens que propõem o contato do espectador com a obra, tornando corpo físico e objeto uma coisa só.

Yoko Ono Lighting Piece (Peça de Acender), 1955, realizada por Yoko Ono em 24 de maio de 1962. Sogetsu Art Center, Tóquio, Japão (Foto:  Foto: Yoshioka Yasuhiro ©Sogetsu-Kai Foundation/Cortesia de Yoko Ono)Yoko Ono Lighting Piece (Peça de Acender), 1955, realizada por Yoko Ono em 24 de maio de 1962. Sogetsu Art Center, Tóquio, Japão (Foto: Foto: Yoshioka Yasuhiro ©Sogetsu-Kai Foundation/Cortesia de Yoko Ono)


Yoko Ono realizando Lighting Piece (Peça de Acender), 1962. Sogetsu Arts Center, Tóquio, Japão (Foto: Foto: Yoshioka Yasuhiro / ©Sogetsu-Kai Foundation. Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)Yoko Ono realizando Lighting Piece (Peça de Acender), 1962. Sogetsu Arts Center, Tóquio, Japão (Foto: Foto: Yoshioka Yasuhiro / ©Sogetsu-Kai Foundation. Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)


A curadoria é de Gunnar B. Kvaran, crítico islandês e diretor do Astrup Fearnley Museum of Modern Art, que trouxe o senso político e social de Yoko como elemento principal da mostra. Começando pelo trabalho Lighting Piece / Peça de Acender (1955), primeira obra instrução criada por ela. A partir daí, anos 60, 70 e 80 também são contemplados na exposição, assim como as criações mais atuais.

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John Lennon e Yoko Ono, retrato de Iain Macmillan, 1969. Londres (Foto: ©Yoko Ono)


Yoko Ono e John Lennon WAR IS OVER! if you want it Happy Christmas from John & Yoko (A GUERRA ACABOU! se você quiser, Feliz Natal de John e Yoko). Times Square, Nova York, 15 de dezembro, 1969 (Foto: ©Yoko Ono)Yoko Ono e John Lennon WAR IS OVER! if you want it Happy Christmas from John & Yoko (A GUERRA ACABOU! se você quiser, Feliz Natal de John e Yoko). Times Square, Nova York, 15 de dezembro, 1969 (Foto: ©Yoko Ono)


John Lennon e Yoko Ono, capa do álbum Two Virgins (Dois Virgens), 1968 (Foto: Foto: John Lennon/Cortesia de Yoko Ono)John Lennon e Yoko Ono, capa do álbum Two Virgins (Dois Virgens), 1968 (Foto: Foto: John Lennon/Cortesia de Yoko Ono)


Efemeridade, feminismo e diversas outras questões sociais aparecem nas obras. Yoko Ono, portanto, questiona os limites da arte e a apresenta como forma decisiva de protesto, sempre convidando o visitante a participar dessa conexão com a sociedade e com o seu interior.

O céu ainda é azul, você sabe…
Local: Tomie Ohtake
Endereço: Av. Faria Lima 201 – Complexo Aché Cultural (entrada pela Rua Coropés, 88), Pinheiros, São Paulo
Datas: de 01 de abril até 28 de maio de 2017
Horários: de terça a domingo, das 11h às 20h
Preços: R$12,00 e R$6,00 (meia-entrada); às terças terças-feiras, entrada gratuita (mediante retirada de senhas na bilheteria do Instituto Tomie Ohtake) – os ingressos podem ser adquiridos no site http://www.ingresse.com a partir do dia 01/03
Telefone: (11) 2245-1900
institutotomieohtake.org.br

Yoko Ono Water Event (Evento Aquático), 1971. Convite e instruções para o Evento Aquático incluídos na exposição This Is Not Here (Isto não é aqui), Everson Museum of Art, Syracuse, Nova York, 1971. Offset sobre papel, Coleção Particular  (Foto: ©Yoko Ono)Yoko Ono Water Event (Evento Aquático), 1971. Convite e instruções para o Evento Aquático incluídos na exposição This Is Not Here (Isto não é aqui), Everson Museum of Art, Syracuse, Nova York, 1971. Offset sobre papel, Coleção Particular (Foto: ©Yoko Ono)


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Yoko Ono, still do vídeo Walking On Thin Ice (Andando sobre gelo fino), colagem de Yoko Ono, 1981 (Foto: ©Yoko Ono)


Yoko Ono Filme no 4 (Bottoms) (Traseiros), 1966, still da produção – Yoko Ono dirigindo (Foto: Foto: John D. Drysdale/Cortesia de Yoko Ono)Yoko Ono Filme no 4 (Bottoms) (Traseiros), 1966, still da produção – Yoko Ono dirigindo (Foto: Foto: John D. Drysdale/Cortesia de Yoko Ono)


Obras de Yoko Ono por Yoko Ono, 24 de novembro de 1961, Carnegie Recital Hall, Nova York – fotografia como sugestão de pôster (Foto:  Foto: George Maciunas/Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)Obras de Yoko Ono por Yoko Ono, 24 de novembro de 1961, Carnegie Recital Hall, Nova York – fotografia como sugestão de pôster (Foto: Foto: George Maciunas/Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)

MAC mostra os infinitos caminhos que levam à arte

art.jpgFernando Lindote: Lusus Naturae – Foto: Sidney Kair


Museu reúne nove artistas de diferentes regiões em uma mostra que discute os desígnios da contemporaneidadeApresentar os diferentes caminhos da arte contemporânea brasileira é o desafio da mostra Os desígnios da arte contemporânea no Brasil, que está sendo apresentada no segundo andar do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Um desafio que o curador José Antonio Marton propõe reunindo o trabalho de nove artistas de diferentes regiões do Brasil. “São trabalhos que, apesar da diversidade de paisagens, dialogam entre si e questionam o público”, explica.

A reflexão sobre os movimentos da sociedade se fundem na arte de Alan Fontes, Ana Prata, Fernando Lindote, James Kudo, Paulo Almeida, Rodrigo Bivar, Sergio Lucena, Tatiana Blass e Ulysses Boscolo. Porém, trazem narrativas diversas.

20170331_02_mac-768x573Tatiana Blass: Entrevista # 10, óleo sobre tela de 2014 – Foto: Everton Ballardin


“A mostra nos revela uma produção contemporânea pulsante”, observa Ana Magalhães, curadora do MAC. “Ao longo da história da arte contemporânea, a questão da morte da pintura foi levantada para falar do esgotamento desse suporte como um suporte necessariamente atrelado à tradição artística, contra a qual se bateram e se fascinaram os artistas do século 20. Mas também para falar do fim da narrativa linear da arte, ou do fim da história da arte como discurso sobre a produção artística. Mas efetivamente a pintura permaneceu como meio importante da prática artística contemporânea, em várias partes do mundo. No Brasil, os artistas que lançam mão desse meio são muitos e o fazem, como veremos aqui, de formas muito diferentes.” 

Onde as memórias se perdem

20170331_03_mac-768x432Alan Fontes: instalação lembra as Cataratas de Foz do Iguaçu – Foto Divulgação


O jeito de ver, contar, sentir e registrar a história resulta nos múltiplos caminhos que o visitante percorre no espaço. Alan Fontes, mineiro de Belo Horizonte, questiona a destruição da história e da natureza. Na instalação Onde as Memórias se Perdem, apresenta uma pintura retratando as Cataratas de Foz do Iguaçu. “A obra foi executada com uma paleta reduzida em tons frios, que instaura uma indefinição espacial e temporal na cena”, explica o artista. “O fluxo contínuo de água que abre seu caminho de forma contundente na paisagem, erodindo e lavando infinitamente a rocha, está metaforicamente relacionado com o volume intermitente de imagens produzidas na contemporaneidade, assim como a consequente sensação de esquecimento gerada pela constatação da nossa incapacidade de lembrar e reter definitivamente a memória.”

No fundo, outras duas pinturas questionam a destruição dos casarões da avenida Paulista.

Ana Prata, também mineira, de Sete Lagoas, traz as séries Sol e Montanha, Amarelo e Grande Circo. São imagens de quem busca o invisível. “Os desígnios da arte contemporânea são múltiplos e inumeráveis”, opina a artista. “Acho que se decifrarmos os seus desígnios perderíamos a vontade de olhar, de entender e buscar. Perderia o sentido que a arte tem de tornar visíveis coisas invisíveis.”

20170331_04_mac-768x432Ana Prata: Grande Circo, 2013 – Foto: Divulgação


As cores de Fernando Lindote, de Santana do Livramento, cidade gaúcha que faz fronteira com o Uruguai, movimentam o espaço. Buscam a simbologia da cultura brasileira na escultura do papagaio em bronze e na pintura Primeiro Imperador, uma espécie de ser mítico que habita as florestas. Na mostra, é possível observar o artista que não abdica do humor do cartunista e chargista.

20170331_05_macFernando Lindote e a figura mítica do Primeiro Imperador – Foto: Divulgação


Tatiana Blass debate o tempo, a vida e a morte em sua instalações e pinturas. Na instalação Zona Morta, 2007, o visitante revê e reflete sobre sonhos e lembranças. Há quadros, discos, um velho piano com uma partitura do caderno Invenções a Duas Vozes, obrigatório no aprendizado clássico, fotos, uma decoração dos anos 1960. E, ao sair, há um corpo estendido no chão de alumínio fundido, com o título Para o Morto.

20170331_00_mac-768x403Tatiana Blass: sonhos e lembranças – Foto: Divulgação


Sergio Lucena e o encontro da luz
Nas telas de Sergio Lucena, o visitante mergulha no silêncio. Paraibano de João Pessoa, o artista surpreende pelo encontro com a luz. As cores se fundem e são a paisagem. E o retrato de um pintor consagrado no Brasil e no exterior.

20170331_06_mac-768x403Nas telas de Lucena, contemplação e silêncio – Foto: Divulgação


Para chegar à luz e cor, Lucena, 53 anos, percorreu um longo caminho. Entrou nos cursos de Física e Psicologia na Universidade Federal da Paraíba, mas não concluiu. Acreditou e trabalhou pelas trilhas que a sua arte foi desenhando. Em 1992, ganha uma bolsa de estudos para estudar em Berlim. Sua trajetória é pontuada por diversas fases. Uma árdua busca. O desenho denso em detalhes, perfeito, foi se libertando da forma e hoje é a nuance do tempo, do espaço, da natureza do ser sensível. “A paisagem é o meu tema maior. Ela corresponde para mim à fusão dos estados físico, psicológico e espiritual”, explica Lucena. “A pintura de paisagem é o caminho que percorro na busca das relações entre as múltiplas esferas da realidade.”


Memórias de um lugar
James Kudo, 49 anos, paulista de Pereira Barreto, traz a série Florestas e surpreende pelas cores e síntese da paisagem. Uma síntese também da sua própria história e lembranças.

20170331_07_mac-768x432James Kudo: cor e luz – Foto: Divulgação


Nos tons de azul do céu, da água, o preto que transformou as montanhas, no aconchego de um tecido xadrez que remete à memória de uma casa, de um lar, Kudo pinta a trajetória da sua cidade natal, fundada por imigrantes japoneses no dia 11 de agosto de 1928,  chamada de Novo Oriente. Parte desse município que passou a ser chamado de Pereira Barreto foi inundada, em 1990, pela usina hidrelétrica de Três Irmãos. São as imagens dos lugares de sua infância que são reverenciadas em seus desenhos.

Universo poético

20170331_09_mac-768x403Ulysses Bôscolo: pequenas telas formam a paisagem de pássaros – Foto: Divulgação


Na série Pássaros,  o paulistano Ulysses Bôscolo, 39 anos, propicia ao visitante as imagens e cores dos pássaros. “Uma série de telas pequenas e do mesmo tamanho distribuídas no espaço como se fossem notas musicais em uma partitura”,  define o curador Antonio Marton. Apresenta também uma série de xilogravuras. Não tem o encanto e a delicadeza dos pássaros mas trazem a força do seu desenho. São obras que revelam as várias faces do artista, gravador e ilustrador.

A obra do paulistano Paulo Almeida, 39 anos, também registra os ambientes que o cercam. São grandes pinturas que trazem detalhes da arquitetura ou reflexos dos espaços captados ou flagrados pelo seu olhar fotográfico. São estratégias onde ele reconstrói um novo espaço com as suas obras e compartilha esse universo com os artistas e os visitantes da mostra.

20170331_10_macPaulo Almeida :Biennial Pavilion on the mirrors, 2015 – Foto: Divulgação


Descobertas do contemporâneo
Nas imagens de Rodrigo Bivar, há a pausa de uma busca. Apesar de jovem – nasceu no Distrito Federal, Brasília , em 1981 – a sua inquietação já o levou por diversos caminhos. Vai seguindo os desígnios da contemporaneidade. E se até há pouco tempo ele registrava cenas e paisagens do cotidiano, agora ele compõe as formas das cores. Nada a ver com o óbvio dos limites dos espaços. Ele se dá a autonomia e o direito ao infinito da arte.

20170331_11_macRodrigo Bivar: uma nova paisagem – Foto: Divulgação


A exposição Os desígnios da arte contemporânea no Brasil, com curadoria de José Antônio Marton, está no Museu de Arte Contemporânea da USP, na Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, até 30 de julho de 2017. Funciona às terças, das 10 às 21 horas, e quarta a domingo, das 10 às 18 horas. Entrada gratuita. Mais informações no tel. (11) 2648-0254. Site: www.mac.usp.br