Mulheres conquistam espaço no mercado de arte

1491331908701.jpgJudith Lauand foi a primeira mulher a expor com os artistas concretos brasileiros na década de 1950


A questão de gênero chegou à SP-Arte. A crescente participação de mulheres artistas, bem como a presença de trabalhos que discutem as desigualdades entre homens e mulheres, levou os organizadores a reconhecer que o movimento em defesa da correção de distorções históricas, que já vem pressionando o circuito norte-americano e europeu há algum tempo, finalmente está chegando ao Brasil. “Não foi proposital, mas é possível notar que está todo mundo mais atento”, afirma Fernanda Feitosa, diretora do evento. Segundo ela, trata-se de um fenômeno mundial: “Os curadores estão sempre revendo, desenvolvendo leituras diferentes ao longo da história, buscando outros enfoques e vieses, realizando resgates importantes”.

Feitosa destaca que 11 das 159 galerias da feira têm participação exclusivamente feminina, estando situadas sobretudo nos segmentos curatoriais da feira como o Solo, o Repertório e o Núcleo de Performance. E anuncia que uma das dez visitas guiadas oferecidas ao público realizará um circuito dedicado às mulheres na arte do século 20. Segundo a pesquisadora Bruna Fetter, autora de Narrativas Conflitantes & Convergentes: As Feiras nos Ecossistemas Contemporâneos da Arte, esse resultado é “um fenômeno interessante, que advém de um grande esforço coletivo das mulheres, reivindicando mais espaço e visibilidade nas instituições”.

Dentre os espaços da SP-Arte que privilegiam a participação feminina se destaca a galeria Cheim & Read, que optou por trazer, em sua primeira participação, um trio feminino de peso: Louise Bourgeois, Lynda Benglis e Joan Mitchell. “Acredito que estamos numa época de revisionismo, reconsiderando artistas mulheres de grande importância histórica. Parece que o Brasil é um lugar ideal para expormos agora, especialmente porque tem uma história tão rica cultural de importantes artistas – Tarsila do Amoral, Lygia Clark, Beatriz Milhazes, Tomie Ohtake e Lygia Pape para citar apenas algumas”, afirma o galerista Adam Sheffer.

Dentre os destaques internacionais é possível citar os trabalhos da croata Sanja Iveković e da austríaca Renate Bertlmann, como exemplos de mulheres que lidam com a questão da desigualdade de gênero em seus trabalhos. Há também várias brasileiras, de diferentes gerações, como Judith Lauand, Carolina Martinez e Lydia Okumura.

1491331877817Joan Mitchell é um dos destaques femininos da Cheim & Read (Foto: Cheim & Read)


Mulher, latina, de origem asiática e com um trabalho de forte teor conceitual, Lydia é um exemplo clássico das dificuldades vivenciadas pelas artistas para conseguir penetrar num universo majoritariamente masculino. “É impressionante como elas conseguiram circular em ambientes tão restritos”, constata a marchande que a representa, Jaqueline Martins, da galeria homônima considerada uma das brasileiras com maior presença feminina em seu pool de artistas. Jaqueline se diz atenta à questão, mas reconhece que as mulheres ainda estão em desvantagem. “Temos 18 artistas e 8 são mulheres”, diz ela, mas concorda que mesmo em setores mais conservadores como as feiras de arte já é possível sentir uma mudança de mentalidade. E que os compradores estão mais atentos. “Fazem esforço para manter um orçamento mais cuidadoso, para equilibrar melhor as aquisições.”

Por outro lado, reconhece que ainda há muito que caminhar. Bruna Fetter concorda: “Mesmo tendo essa situação específica no Brasil, onde mulheres têm maior participação no mercado da arte e em coleções institucionais do que em outros países, isso não quer dizer que as mulheres estão em pé de igualdade. Não tenho registro de instituição nacional que tenha em seus acervos mais do que 30% de obras de artistas mulheres em suas coleções. Geralmente, esse número fica na casa dos 20%. Ainda é pouco, muito pouco”.

Maria Hirszman ,
Especial para o Estado de S. Paulo

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Na terra de bolinhas e espelhos, com Yayoi Kusama

08_dots_story_detail.jpgUm visitante espiando por um olho mágico a Infinity Mirror Room “Love Forever” (1966/1994). (Tyrone Turner para The New York Times)

Revisão de Arte
Por Roberta Smith

WASHINGTON — A exposição “Yayoi Kusama: Infinity Mirrors” no Museu Hirshhorn, em Washington, é uma boa diversão se a pessoa gosta de ser deslumbrada por interiores espelhados que criam incontáveis reflexos cada vez menores dela mesma. E quem não gosta?

Kusama, que nasceu no Japão em 1929, fez sua primeira sala Infinity Mirror (espelho infinito), “Phalli’s Field”, em Nova York, em 1965, preenchendo o piso de 1,4 metro quadrado de um espaço espelhado com centenas de falos estofados revestidos com um tecido de bolinhas vermelhas sobre fundo branco. O efeito foi glorioso, e ainda é: “Phalli’s Field” é o primeiro ambiente espelhado na mostra do Hirshhorn, que ficará aberta até 14 de maio. Trata-se de um surpreendente jardim de cactos benignos.

08_dots2_web720A artista ultrapop japonesa Yayoi Kusama vem deslumbrando públicos há 50 anos criando ilusões esculturais. (Tyrone Turner para The New York Times)


“Phalli’s Field” e as outras 19 salas espelhadas de Kusama a estabeleceram como uma figura amada. Multidões fazem fila para entrar em suas salas, absorverem os efeitos ilusórios, e saírem, em geral depois de uma selfie. Algum tempo atrás, ela transcendeu o mundo artístico para se tornar um acessório da cultura popular, no mesmo time de Andy Warhol, David Hockney e Keith Haring. Quando fez “Phalli’s Field”, Kusama já era um fenômeno. Ela chegou em 1958 e se estabeleceu como uma grande artista. Seu triunfo se baseou em suas pinturas “Infinity Net”, que ela apresentou em sua primeira exposição em galeria, em 1960, junto com as esculturas “Accumulations”, ligeiramente posteriores.

Já em 1962, Kusama estava realizando performances solo e logo depois estava organizando Happenings orgíacos que envolviam outras pessoas, geralmente nuas e pintadas com bolinhas. Estas foram em geral registradas, mais especialmente pelo cineasta experimental e artista de instalações Jud Yalkut.

A produtividade de Kusama cobrou seu preço. No início dos anos 1970, ela se retirou do mundo das artes visuais para escrever. Em 1973, retornou ao Japão. Em 1975, sofreu um colapso nervoso e foi hospitalizada. Em 1977, outro colapso a levou de volta ao hospital. Desde então, ela tem vivido e trabalhado na mesma instituição ou perto dela.

08_dots3_web720 (1)Yayoi Kusama deslumbrou fãs com ilusões esculturais por mais de 50 anos. “Life (Repetitive Vision)”, 1998. (Tyrone Turner para The New York Times)


Ela publicou pelo menos dois romances e construiu uma reputação sólida no Japão. Em 2009, voltou a pinturas relacionadas com a arte folclórica. Ela pretendia que esta série, “My Eternal Soul”, totalizasse 200 telas, mas produziu 500. Quatorze delas estão expostas na mostra.

A leve dispersão de pinturas, esculturas e obras em papel nos espaços entre os ambientes oferecem um cardápio saboroso da grandeza de Kusama. Elas parecem ter a intenção de fazer das salas espelhadas as expressões definitivas de sua visão. Mas isso não funciona muito bem, em parte porque a mostra saneia Kusama; ela transmite muito pouco o sentido de seus problemas psicológicos ou de sua genuína transgressão.

Por fim, ela cria um desejo por obras de Kusama que são mais sutilmente absorventes, como as pinturas e esculturas dos anos 1950 e 1960. As salas Infinity Mirror são deslumbrantes, mas são também Kusama Lite.

Instituto Tomie Ohtake inaugura exposição de Yoko Ono

s007spectre1Yoko Ono Pintura para o Vento, Pinturas e Desenhos de Yoko Ono, AG Gallery Nova York, 1961 (Foto: Foto: George Maciunas/Cortesia de Yoko Ono)


Por Paula Jacob

Mais uma exposição que promete virar o quarteirão com filas de espera. Depois do sucesso com Yayoi Kusama, é a vez de Yoko Ono ocupar o Instituto Tomie Ohtake com suas obras mais emblemáticas. A exposição O céu ainda é azul, você sabe… revela a pesquisa da artista em torno da própria arte, com itens que propõem o contato do espectador com a obra, tornando corpo físico e objeto uma coisa só.

Yoko Ono Lighting Piece (Peça de Acender), 1955, realizada por Yoko Ono em 24 de maio de 1962. Sogetsu Art Center, Tóquio, Japão (Foto:  Foto: Yoshioka Yasuhiro ©Sogetsu-Kai Foundation/Cortesia de Yoko Ono)Yoko Ono Lighting Piece (Peça de Acender), 1955, realizada por Yoko Ono em 24 de maio de 1962. Sogetsu Art Center, Tóquio, Japão (Foto: Foto: Yoshioka Yasuhiro ©Sogetsu-Kai Foundation/Cortesia de Yoko Ono)


Yoko Ono realizando Lighting Piece (Peça de Acender), 1962. Sogetsu Arts Center, Tóquio, Japão (Foto: Foto: Yoshioka Yasuhiro / ©Sogetsu-Kai Foundation. Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)Yoko Ono realizando Lighting Piece (Peça de Acender), 1962. Sogetsu Arts Center, Tóquio, Japão (Foto: Foto: Yoshioka Yasuhiro / ©Sogetsu-Kai Foundation. Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)


A curadoria é de Gunnar B. Kvaran, crítico islandês e diretor do Astrup Fearnley Museum of Modern Art, que trouxe o senso político e social de Yoko como elemento principal da mostra. Começando pelo trabalho Lighting Piece / Peça de Acender (1955), primeira obra instrução criada por ela. A partir daí, anos 60, 70 e 80 também são contemplados na exposição, assim como as criações mais atuais.

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John Lennon e Yoko Ono, retrato de Iain Macmillan, 1969. Londres (Foto: ©Yoko Ono)


Yoko Ono e John Lennon WAR IS OVER! if you want it Happy Christmas from John & Yoko (A GUERRA ACABOU! se você quiser, Feliz Natal de John e Yoko). Times Square, Nova York, 15 de dezembro, 1969 (Foto: ©Yoko Ono)Yoko Ono e John Lennon WAR IS OVER! if you want it Happy Christmas from John & Yoko (A GUERRA ACABOU! se você quiser, Feliz Natal de John e Yoko). Times Square, Nova York, 15 de dezembro, 1969 (Foto: ©Yoko Ono)


John Lennon e Yoko Ono, capa do álbum Two Virgins (Dois Virgens), 1968 (Foto: Foto: John Lennon/Cortesia de Yoko Ono)John Lennon e Yoko Ono, capa do álbum Two Virgins (Dois Virgens), 1968 (Foto: Foto: John Lennon/Cortesia de Yoko Ono)


Efemeridade, feminismo e diversas outras questões sociais aparecem nas obras. Yoko Ono, portanto, questiona os limites da arte e a apresenta como forma decisiva de protesto, sempre convidando o visitante a participar dessa conexão com a sociedade e com o seu interior.

O céu ainda é azul, você sabe…
Local: Tomie Ohtake
Endereço: Av. Faria Lima 201 – Complexo Aché Cultural (entrada pela Rua Coropés, 88), Pinheiros, São Paulo
Datas: de 01 de abril até 28 de maio de 2017
Horários: de terça a domingo, das 11h às 20h
Preços: R$12,00 e R$6,00 (meia-entrada); às terças terças-feiras, entrada gratuita (mediante retirada de senhas na bilheteria do Instituto Tomie Ohtake) – os ingressos podem ser adquiridos no site http://www.ingresse.com a partir do dia 01/03
Telefone: (11) 2245-1900
institutotomieohtake.org.br

Yoko Ono Water Event (Evento Aquático), 1971. Convite e instruções para o Evento Aquático incluídos na exposição This Is Not Here (Isto não é aqui), Everson Museum of Art, Syracuse, Nova York, 1971. Offset sobre papel, Coleção Particular  (Foto: ©Yoko Ono)Yoko Ono Water Event (Evento Aquático), 1971. Convite e instruções para o Evento Aquático incluídos na exposição This Is Not Here (Isto não é aqui), Everson Museum of Art, Syracuse, Nova York, 1971. Offset sobre papel, Coleção Particular (Foto: ©Yoko Ono)


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Yoko Ono, still do vídeo Walking On Thin Ice (Andando sobre gelo fino), colagem de Yoko Ono, 1981 (Foto: ©Yoko Ono)


Yoko Ono Filme no 4 (Bottoms) (Traseiros), 1966, still da produção – Yoko Ono dirigindo (Foto: Foto: John D. Drysdale/Cortesia de Yoko Ono)Yoko Ono Filme no 4 (Bottoms) (Traseiros), 1966, still da produção – Yoko Ono dirigindo (Foto: Foto: John D. Drysdale/Cortesia de Yoko Ono)


Obras de Yoko Ono por Yoko Ono, 24 de novembro de 1961, Carnegie Recital Hall, Nova York – fotografia como sugestão de pôster (Foto:  Foto: George Maciunas/Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)Obras de Yoko Ono por Yoko Ono, 24 de novembro de 1961, Carnegie Recital Hall, Nova York – fotografia como sugestão de pôster (Foto: Foto: George Maciunas/Cortesia de Lenono Photo Archive, Nova York)

MAC mostra os infinitos caminhos que levam à arte

art.jpgFernando Lindote: Lusus Naturae – Foto: Sidney Kair


Museu reúne nove artistas de diferentes regiões em uma mostra que discute os desígnios da contemporaneidadeApresentar os diferentes caminhos da arte contemporânea brasileira é o desafio da mostra Os desígnios da arte contemporânea no Brasil, que está sendo apresentada no segundo andar do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Um desafio que o curador José Antonio Marton propõe reunindo o trabalho de nove artistas de diferentes regiões do Brasil. “São trabalhos que, apesar da diversidade de paisagens, dialogam entre si e questionam o público”, explica.

A reflexão sobre os movimentos da sociedade se fundem na arte de Alan Fontes, Ana Prata, Fernando Lindote, James Kudo, Paulo Almeida, Rodrigo Bivar, Sergio Lucena, Tatiana Blass e Ulysses Boscolo. Porém, trazem narrativas diversas.

20170331_02_mac-768x573Tatiana Blass: Entrevista # 10, óleo sobre tela de 2014 – Foto: Everton Ballardin


“A mostra nos revela uma produção contemporânea pulsante”, observa Ana Magalhães, curadora do MAC. “Ao longo da história da arte contemporânea, a questão da morte da pintura foi levantada para falar do esgotamento desse suporte como um suporte necessariamente atrelado à tradição artística, contra a qual se bateram e se fascinaram os artistas do século 20. Mas também para falar do fim da narrativa linear da arte, ou do fim da história da arte como discurso sobre a produção artística. Mas efetivamente a pintura permaneceu como meio importante da prática artística contemporânea, em várias partes do mundo. No Brasil, os artistas que lançam mão desse meio são muitos e o fazem, como veremos aqui, de formas muito diferentes.” 

Onde as memórias se perdem

20170331_03_mac-768x432Alan Fontes: instalação lembra as Cataratas de Foz do Iguaçu – Foto Divulgação


O jeito de ver, contar, sentir e registrar a história resulta nos múltiplos caminhos que o visitante percorre no espaço. Alan Fontes, mineiro de Belo Horizonte, questiona a destruição da história e da natureza. Na instalação Onde as Memórias se Perdem, apresenta uma pintura retratando as Cataratas de Foz do Iguaçu. “A obra foi executada com uma paleta reduzida em tons frios, que instaura uma indefinição espacial e temporal na cena”, explica o artista. “O fluxo contínuo de água que abre seu caminho de forma contundente na paisagem, erodindo e lavando infinitamente a rocha, está metaforicamente relacionado com o volume intermitente de imagens produzidas na contemporaneidade, assim como a consequente sensação de esquecimento gerada pela constatação da nossa incapacidade de lembrar e reter definitivamente a memória.”

No fundo, outras duas pinturas questionam a destruição dos casarões da avenida Paulista.

Ana Prata, também mineira, de Sete Lagoas, traz as séries Sol e Montanha, Amarelo e Grande Circo. São imagens de quem busca o invisível. “Os desígnios da arte contemporânea são múltiplos e inumeráveis”, opina a artista. “Acho que se decifrarmos os seus desígnios perderíamos a vontade de olhar, de entender e buscar. Perderia o sentido que a arte tem de tornar visíveis coisas invisíveis.”

20170331_04_mac-768x432Ana Prata: Grande Circo, 2013 – Foto: Divulgação


As cores de Fernando Lindote, de Santana do Livramento, cidade gaúcha que faz fronteira com o Uruguai, movimentam o espaço. Buscam a simbologia da cultura brasileira na escultura do papagaio em bronze e na pintura Primeiro Imperador, uma espécie de ser mítico que habita as florestas. Na mostra, é possível observar o artista que não abdica do humor do cartunista e chargista.

20170331_05_macFernando Lindote e a figura mítica do Primeiro Imperador – Foto: Divulgação


Tatiana Blass debate o tempo, a vida e a morte em sua instalações e pinturas. Na instalação Zona Morta, 2007, o visitante revê e reflete sobre sonhos e lembranças. Há quadros, discos, um velho piano com uma partitura do caderno Invenções a Duas Vozes, obrigatório no aprendizado clássico, fotos, uma decoração dos anos 1960. E, ao sair, há um corpo estendido no chão de alumínio fundido, com o título Para o Morto.

20170331_00_mac-768x403Tatiana Blass: sonhos e lembranças – Foto: Divulgação


Sergio Lucena e o encontro da luz
Nas telas de Sergio Lucena, o visitante mergulha no silêncio. Paraibano de João Pessoa, o artista surpreende pelo encontro com a luz. As cores se fundem e são a paisagem. E o retrato de um pintor consagrado no Brasil e no exterior.

20170331_06_mac-768x403Nas telas de Lucena, contemplação e silêncio – Foto: Divulgação


Para chegar à luz e cor, Lucena, 53 anos, percorreu um longo caminho. Entrou nos cursos de Física e Psicologia na Universidade Federal da Paraíba, mas não concluiu. Acreditou e trabalhou pelas trilhas que a sua arte foi desenhando. Em 1992, ganha uma bolsa de estudos para estudar em Berlim. Sua trajetória é pontuada por diversas fases. Uma árdua busca. O desenho denso em detalhes, perfeito, foi se libertando da forma e hoje é a nuance do tempo, do espaço, da natureza do ser sensível. “A paisagem é o meu tema maior. Ela corresponde para mim à fusão dos estados físico, psicológico e espiritual”, explica Lucena. “A pintura de paisagem é o caminho que percorro na busca das relações entre as múltiplas esferas da realidade.”


Memórias de um lugar
James Kudo, 49 anos, paulista de Pereira Barreto, traz a série Florestas e surpreende pelas cores e síntese da paisagem. Uma síntese também da sua própria história e lembranças.

20170331_07_mac-768x432James Kudo: cor e luz – Foto: Divulgação


Nos tons de azul do céu, da água, o preto que transformou as montanhas, no aconchego de um tecido xadrez que remete à memória de uma casa, de um lar, Kudo pinta a trajetória da sua cidade natal, fundada por imigrantes japoneses no dia 11 de agosto de 1928,  chamada de Novo Oriente. Parte desse município que passou a ser chamado de Pereira Barreto foi inundada, em 1990, pela usina hidrelétrica de Três Irmãos. São as imagens dos lugares de sua infância que são reverenciadas em seus desenhos.

Universo poético

20170331_09_mac-768x403Ulysses Bôscolo: pequenas telas formam a paisagem de pássaros – Foto: Divulgação


Na série Pássaros,  o paulistano Ulysses Bôscolo, 39 anos, propicia ao visitante as imagens e cores dos pássaros. “Uma série de telas pequenas e do mesmo tamanho distribuídas no espaço como se fossem notas musicais em uma partitura”,  define o curador Antonio Marton. Apresenta também uma série de xilogravuras. Não tem o encanto e a delicadeza dos pássaros mas trazem a força do seu desenho. São obras que revelam as várias faces do artista, gravador e ilustrador.

A obra do paulistano Paulo Almeida, 39 anos, também registra os ambientes que o cercam. São grandes pinturas que trazem detalhes da arquitetura ou reflexos dos espaços captados ou flagrados pelo seu olhar fotográfico. São estratégias onde ele reconstrói um novo espaço com as suas obras e compartilha esse universo com os artistas e os visitantes da mostra.

20170331_10_macPaulo Almeida :Biennial Pavilion on the mirrors, 2015 – Foto: Divulgação


Descobertas do contemporâneo
Nas imagens de Rodrigo Bivar, há a pausa de uma busca. Apesar de jovem – nasceu no Distrito Federal, Brasília , em 1981 – a sua inquietação já o levou por diversos caminhos. Vai seguindo os desígnios da contemporaneidade. E se até há pouco tempo ele registrava cenas e paisagens do cotidiano, agora ele compõe as formas das cores. Nada a ver com o óbvio dos limites dos espaços. Ele se dá a autonomia e o direito ao infinito da arte.

20170331_11_macRodrigo Bivar: uma nova paisagem – Foto: Divulgação


A exposição Os desígnios da arte contemporânea no Brasil, com curadoria de José Antônio Marton, está no Museu de Arte Contemporânea da USP, na Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, até 30 de julho de 2017. Funciona às terças, das 10 às 21 horas, e quarta a domingo, das 10 às 18 horas. Entrada gratuita. Mais informações no tel. (11) 2648-0254. Site: www.mac.usp.br

Exposição da brasileira Lygia Pape estreia no MoMA

The first major retrospective exhibition in the United States devoted to Brazilian artist Lygia PapeA artista Lygia Pape ganha sua primeira exposição individual no MoMa  (Foto: Jewel Samad/AFP)


Pioneira, exuberante, experimental, inclassificável: a obra da brasileira Lygia Pape (1927-2004), que buscou levar a arte abstrata para as ruas do Rio de Janeiro, desembarca na terça-feira, 21,  no Met Breuer, a nova filial do Metropolitan Museum of Art, em Nova York.

Será a primeira retrospectiva dessa grande artista nos Estados Unidos, com dezenas de pinturas, esculturas, gravações, curtas-metragens, fotografias, instalações e performances.

Durante suas cinco décadas de carreira, Pape combinou a abstração geométrica com noções de corpo, tempo e espaço para aproximar os objetos artísticos da vida real.

Começou com o Grupo Frente, um coletivo de artistas fascinados com as formas geométricas e as cores puras. Em 1959, se afastou e fundou no Rio de Janeiro, junto com Hélio Oiticica e Lygia Clark, o neoconcretismo, que foca na abstração geométrica, mas ressalta a experimentação, o processo e a interação visual.
1490103871845.jpgA artista começou com o Grupo Frente, um coletivo de artistas fascinados com as formas geométricas e as cores puras (Foto: Jewel Samad; AFP)


Forma e política: desafio duplo
“Ela era uma artista muito concentrada na experimentação com legados da vanguarda europeia, em particular com o vocabulário abstrato da arte geométrica, mas também com a ideia de aplicá-lo a um novo conceito, que era o Brasil do pós-Guerra e, depois, durante a longa e dolorosa ditadura”, explicou à AFP a espanhola Iria Candela, curadora da exposição.

Pape “enfrenta o desafio da forma, e depois enfrenta o desafio da situação política em seu país”, afirmou.

Com a chegada da ditadura, Pape sai às ruas para refletir a experiência viva do corpo e da subjetividade na obra artística.

Em Divisor (1968), por exemplo, dezenas de pessoas desfilaram pelo Rio cobertas com um enorme pano branco – somente apareciam as cabeças por pequenos buracos – em um corpo coletivo com reminiscências do Carnaval, mas também da vigilância militar do espaço público.

A primeira performance pública de Divisor ocorreu em 1967 com crianças da Favela da Cabeça, e foi filmada pela própria Pape. O museu prevê recriá-la no próximo sábado, 25, em um trajeto de oito quadras do Metropolitan Museum até sua filial Met Breuer.

Pape “estava muito interessada em explorar todas as áreas de sua cidade, o Rio de Janeiro, e de se conectar nas pessoas e em suas formas de viver. Ela foi a primeira a levar estudantes de arquitetura para as favelas [especificamente a Favela da Maré] para estudar seu modo de vida e as formas de construção, construções precárias. Assim, por meio da sua vida, você poderá se conectar com a arte e a vida real”, disse a curadora.

The first major retrospective exhibition in the United States devoted to Brazilian artist Lygia PapeNo fim de sua vida, a obra da Lygia Pape foi ficando cada vez mais brasileira (Foto: Jewel Samad/AFP)


Em Roda dos Prazeres, uma escultura interativa e multissensorial montada por Pape pela primeira vez na praia da Barra da Tijuca em 1967, os participantes são convidados a saborear líquidos de cores básicas – verde, azul, vermelho e amarelo – de sabores surpreendentes (anis, vinagre, café, sal e banana) em um círculo de recipientes brancos.

A escultura foi recriada no Metropolitan, onde assistentes explicam como provar os líquidos com os conta-gotas sem “contaminar” os outros recipientes.

Um seio para o almoço
No fim de sua vida, sua obra foi ficando cada vez mais brasileira, mas sem perder a universalidade, como mostram suas séries Tupinambá.

Na exposição há uma delas, Banquete tupinambá (2000): uma mesa e duas cadeiras de estilo europeu, totalmente cobertas por penas roxas como as dos ibis e papagaios utilizados pelas tribos Tupi durante a colonização portuguesa.

E, sobre a mesa, como servido para o almoço, um seio nu que parece real. Uma referência ao canibalismo dos Tupis, mas também ao Movimento Antropofágico, iniciado no Modernismo, que reafirma a identidade brasileira que devora influências externas para criar uma cultura própria.

Uma multidão de formas será exibida até 23 de julho. Pape é a primeira grande artista da América Latina a ser escolhida para uma exposição no Met Breuer, em parte porque o edifício elaborado por Marcel Breuer “se relaciona intensamente” com a estética de Pape, segundo a curadora. [AFP]

Ícone do pop art, Andy Warhol segue presente

andy-loa01_people-andywarhol-_0423_11O mundo da arte lembra do excêntrico Andy Warhol, criador de algumas das imagens mais icônicas do século 20, com exposições que homenageiam sua vida e obra no aniversário de sua morte, que completa 30 anos nesta quarta-feira, 22.

Museus por todo o mundo exibem nos próximos dias algumas de suas obras mais cultuadas e vários livros recontam os 58 anos do artista e diretor norte-americano, ícone do pop art que ajudam a traçar o percurso artístico durante várias décadas do século passado.

Por causa do aniversário de sua morte, que ocorreu em 22 de fevereiro de 1987, também se analisa a influência do mítico estúdio nova-iorquino de Warhol, a “Factory”. Enquanto isso, novos retratos do artista, como o pintado por Lincoln Townely e que será exibido em Mayfair, em Londres, ganham as principais galerias mundiais.

Warhol conseguiu criar imagens que seguem presentes na vida cotidiana décadas depois de serem lançadas, como a série de quadros policromáticos dedicada a Marilyn Monroe pouco depois da morte da atriz, em 1962.

Também estão gravadas na memória de meio mundo as famosas “Latas de Sopa Campbell”, 32 pinturas sobre tela, também de 1962, que centenas de pessoas seguem admirando diariamente no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

Nascido Andrew Warhola em Pittsburght, em 1928, o artista era filho de uma família de classe operária de origem eslovaca. Desde criança, Warhol se destacou por sua habilidades artísticas que conseguiu desenvolver, em parte, durante os longos períodos que passava doente em seu próprio quarto.

Apesar de sua frágil saúde, Warhol se formou em Belas Artes em Pittsburgh em 1949, mesmo ano em que se mudou para Nova York e deu início à meteórica carreira. Começou desenhando capas de discos para a RCA Records na década de 1950, mas, pouco depois, seu talento foi reconhecido e ele passou a expor suas obras de artes em várias galerias da cidade nos anos 1960.

Destacavam-se nessa época seus retratos de Marilyn Monroe, Elvis Presley, Marlon Brando, Elizabeth Taylor e do boxeador Muhammad Ali, que, no entanto, também foram criticados pelo claro caráter comercial, classificado como superficial.

O artista, mesmo assim, não só ganhou relevância por suas obras de arte, mas também por ser um dos epicentros da vida cultural norte-americana e por definir as tendências dos anos 1960.

Em seu estúdio, Warhol reunia um amplo leque de artistas, músicos, escritores e celebridades da cultura alternativa até quando foi alvo de uma tentativa de homicídio em 1968. O reforço da segurança na lendária “Factory” levou ao seu declive.

Com o tempo, o artista continuou recebendo críticas negativas pelo caráter mercantil de suas obras, mas seguiu relevante pelas conexões com personalidades altamente influentes – e ricas -, como Mick Jagger, Liza Minnelli, John Lennon, Brigitte Bardot e até o xá do Irã na época, Mohammed Reza Pahlevi.

Nos anos 1980, os últimos de sua vida, Warhol melhorou sua imagem graças à amizade e promoção de importantes artistas emergentes, como Jean-Michel Basquiat e Enzo Cucchi. Sua inesperada morte no Hospital de Nova York causou um forte impacto. O anúncio oficial disse que ela ocorreu por causa de um ataque cardíaco durante uma operação rotineira da vesícula biliar do artista.

No entanto, 30 anos depois, a versão foi questionada por alguns médicos. Eles apontam que a intervenção cirúrgica de Warhol não era rotineira, mas sim uma operação complicada em uma pessoa gravemente doente.

“Era uma operação muito, muito grave – e não de rotina – em uma pessoa muito doente”, disse no último domingo o cirurgião aposentado e historiador John Ryan, segundo revelou ontem uma matéria do jornal “The New York Times” de Blake Gopnik, que prepara uma biografia de Warhol.

Acredita-se que a aversão que ele sentia pelos hospitais, um sentimento herdado de uma infância repleta de consultas médicas, fez com que o artista ignorasse uma evidente deterioração de sua saúde, o que resultou em sua morte prematura. O Estado de S.Paulo

Instituto Tomie Ohtake recebe exposição de Yoko Ono em 2017

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A amizade próxima entre Yoko Ono e Tomie Ohtake (1913-2015) rendeu uma longa troca de correspondências e visitas nos anos de 1990 e 2000. Yoko, inclusive, esteve no Brasil sem alarde e passou um tempo com Tomie, em sua casa. Infelizmente, não há registro desses encontros.

Em 2017, chega ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, a exposição “Dream Come True“, retrospectiva da artista visual focada em sua formação erudita e que propõe reflexões. São aproximadamente 80 obras, entre objetos, vídeos, filmes, instalações e gravações sonoras produzidas desde o início dos anos 1950 até os dias atuais.

A curadoria da montagem é do islandês Gunnar B. Kvaran, amigo próximo de Yoko, e Paulo Miyada, do Instituto Tomie Ohtake. “As obras permitem essa variação de suporte. Algumas só com texto, outras com algum vídeo e performance. Todas elas partem do princípio de que o público precisa interagir”, explica à Bazaar Carolina de Angelis, que integra a equipe de curadoria da mostra.

A exposição quer que o público tome a arte para si. Por exemplo: há uma pintura em que se pode pisar sobre a obra, o que se chama de “sacralizar o objeto artístico”. Tem também uma tela feita porYoko e que se pode pintar por cima, acrescentar coisas e ela vai se modificando (Add Colour Painting).

O highlight, no entanto, é a peça “Arriving“, que funciona com a contribuição de mulheres. Elas são convidadas a mandar uma foto de seus olhos e um depoimento sobre situações e relacionamentos abusivos.Vai sendo construída ao longo da exposição, e os textos são pendurados para leitura e vão sendo trocados de tempos em tempos. A exposição Dream ComeTrue entra em cartaz entre maio e junho no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. [André Aloi]