Trevor Paglen examina a história da fotografia e sua relação com a vigilância estatal

Mostra de Paglen faz das tecnologias contemporâneas seu conceito central, mas grande parte das obras olham para o passado
Sophie Haigney, The New York Times – Life/Style

O artista americano Trevor Paglen em Berkeley, Califórnia. Foto: Aubrey Trinnaman/The New York Times

Em uma pequena galeria no Carnegie Museum of Art, em Pittsburgh, há um cubo de acrílico repleto de peças de computador. A caixa tem cerca de 40 cm de lado, uma reminiscência da caixa de Donald Judd, atualizada para a era digital. É também um hotspot de Wi-Fi aberto com a qual é possível conectar o celular.

Mas antes que o seu telefone se conecte com a internet, ele determina o tráfego por meio da rede do Projeto Tor, que torna o seu celular anônimo, assim como localização e atividade. Quando se conectar, você poderá andar pelo museu sem que seja possível localizá-lo. Esta escultura, intitulada Autonomy Cube, é o tipo de objeto pelo qual Trevor Paglen, de 45 anos, se tornou conhecido, como um dos principais artistas que chamam a atenção para o poder e a ubiquidade da tecnologia de vigilância.

“Ele faz parte de uma série à qual eu me refiro como objetos impossíveis”, diz ao se referir à sua mais recente obra em uma entrevista por telefone. Ele lançou também uma escultura de um satéliteno espaço que descreveu como “um espelho gigantesco no céu, sem valor comercial ou científico, unicamente de valor estético”.

Ele enviou também uma cápsula do tempo com 100 imagens de toda a história humana, em uma órbita perpétua, micro-esculpida em um disco em uma concha folheada a ouro. Estes objetos devem ser considerados “impossíveis” porque não há nenhum incentivo à sua criação em um mundo em que o desenvolvimento tecnológicofoi comercializado, em que a vigilância já se tornou comum e onde o espaço continua em grande parte militarizado.

Sua produção seria, então, um ato de otimismo? “Eu não usaria a palavra ‘otimismo’, mas o que você quer dizer com aquela palavra está ali”, disse Paglen. “São muito contraditórias entre si e contraditórias em relação aos sistemas em que se encontram”. O Autonomy Cube está instalado no Carnegie Museum em uma mostra da obra de Paglen intitulada Opposing Geometries.

Organizada como parte da Hillman Phtography Iniciative 2020, uma incubadora de pensamento inovador sobre fotografia, a mostra poderá ser visitada até março. Como quase toda a obra de Paglen, a mostra faz das tecnologias contemporâneas o seu conceito central, mas grande parte das obras aqui olham para o passado, também.

A exposição, sobre fotografias, demonstra principalmente que embora hoje “vigilância”, “visão computadorizada” e “aprendizado das máquinas” tenham se tornado termos da moda, eles têm uma longa história interligada à fotografia. A mostra inclui imagens da série They Took the Faces From the Accused and the Dead… que reúne milhares de fotos de um banco de dados do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, um arquivo de retratos falados que foi usado para testar os primeiros programas de software de reconhecimento facial sem o consentimento dos envolvidos.

Nas versões de Paglen, partes dos rostos dos envolvidos são bloqueadas, deixando estranhos buracos quadrados que constituem ao mesmo tempo uma referência das suas identidades roubadas e também um meio de devolvê-las ao anonimato. “A mostra olha formas históricas de fotografiae a relação entre essas formas de fotografia e diferentes tipos do poder da polícia ou do poder do Estado”, disse Paglen. “O que é essa relação entre a fotografia e o poder?”.

Autonomy Cube já passou por diversos museus no mundo e agora pode ser visto em Pittsburgh, nos EUA. Foto: Twitter @trevorpaglen

A multiplicidade de significados na obra de Paglen faz parte do seu apelo a tecnólogos e pensadores. “Há muita retórica a respeito de como a Inteligência Artificial (IA)mudará o mundo, e as pessoas não se dão conta de quanto a tecnologia já mudou o mundo, e depois delas perceberem isto, muitas vezes reagem com pavor ou se sentem impotentes”, disse David Danks, professor de filosofia da Carnegie Mellon University, cuja obra versa sobre ética tecnologia e que faz parte da equipe de criação da Hillman Photography Iniciative. 

“Acho que um aspecto realmente importante da obra de Trevor é o fato de que ela não só implica uma reação, não só educa. Acho que Trevor é muito bom em dar indiretamente indicações às pessoas sobre como elas podem tornar-se autônomas.” Muitas das obras nesta exposição são extensões do constante interesse de Paglen nas relações entre fotografia e inteligência artificial, como a sua ImageNet Roulette, um projeto de arte digital e aplicativo que viralizou no fim do ano passado e permitia aos usuários carregarem seus rostos para ver como a IA poderia rotulá-los.

Frequentemente, os resultados foram racistas, sexistas ou mesmo estereotipados – um choque para os usuários, que solicitaram à ImageNet, um grande banco de dados de imagens, a retirada de meio milhão de imagens. No entanto, em Opposing Geometries, Paglen – que é PhD em geografia e tem mestrado em Belas Artes – medita sobre a história das imagens e sobre o futuro. “Se olharmos para estas histórias de produção tecnológica da imagem, elas são sempre, se não parte de um projeto militar, pelo menos adjacentes a um projeto e alimentadas por ele, por isso, de certo modo, temos estas histórias muito contíguas”, afirmou.

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This is another piece that was supposed to open at @altmansiegel a few weeks ago. This is from a body of work that looks at 19th Century photography in the western US in relation to contemporary forms of computer vision and AI. Trying to think through some of the histories of image-making, technology, extraction, and colonialism that create a thread from contemporary Silicon Valley to 19th Century survey photography. The place is a weird ridge in Nevada that was photographed by Timothy O’Sullivan on the Wheeler “reconnaissance” survey of the west in 1867 – O’Sullivan’s image is one of my all-time favorite photographs ever made. It took me years to find this place – rummaging around the desert over many summers. One time I thought I’d found it. Problem was that it got dark and there was no trail and I only knew that my truck was about 2 miles north of me parked on a dirt road that was perpendicular to the direction I’d hiked. I had to follow the north star (good thing I had to learn how to read the sky from photographing satellites). I have to admit I never actually found the site. I was talking to Bill Fox one day and mentioned my ongoing quest, and he told me he’d been there with Mark Klett. Bill put me in touch with Mark, who very generously gave me the GPS coordinates – Mark had found the site as part of his “Third View” project with Byron Wolf. The image is made with an 8×10 camera, whose film has been scanned and run through the computer vision software that we built in my studio and then printed as a traditional gelatin silver print. Karnak, Montezuma Range Haar; Hough Transform; Hough Circles; Watershed, 2018 Silver gelatin print Triptych, each element: 80 × 39.9 in. (203.20 × 101.35 cm) 81 ½ × 121 in. (207.01 × 307.34 cm) (framed)

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Entre estas histórias entrelaçadas, estão a da fotografia e da colonização do Oeste americano. Enquanto imagens indeléveis de lugares como as do parque Yosemite, tiradas nos anos 1860, há muito tempo fazem parte do tecido dos mitos americanos. Paglen está interessado nelas enquanto primitivas afirmações de controle militar.

O Departamento da Guerra (atualmente conhecido como Departamento de Defesa) financiou inúmeras missões de reconhecimento no Oeste, realizadas nos anos 1860 e 1870, e enviou fotógrafoscomo testemunhas da conquista do novo território. Entretanto, estas fotos sublimes, disse Paglen, eram como “o olhar do Estado sobre um novo território”, tema que ele explora em sua exposição no Carnegie Museum.

Algumas das fotos de Paglen parecem se estranhamente com as primeiras fotografias de Carleton Watkins do parque Yosemite e na realidade foram criadas usando um processo de impressão histórico chamado ‘albumen’. Mas ele também passou as fotografias por algoritmos de visão computacional, que têm dificuldade para identificar os objetos no seu ambiente natural, gerando linhas e formas na superfície das imagens.

As fotosque resultam do processo são ao mesmo tempo hiper-modernas e antigas, ligando passado e presente pela tecnologia. “Há mais imagens hoje feitas por máquinas para máquinas para serem interpretadas do que todas as imagens que existiram para a humanidade”, disse Dan Leers, o curador de Opposing Geometries. “Mas em lugar de levantar as mãos, Trevor faz o caminho inverso da história da fotografia e, em alguns casos, volta a usar especificamente as imagens existentes, e, em outros, admitindo processos históricos na produção destas imagens”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

O Museu Britânico reabre em meio a um mundo mudado

Além dos novos protocolos sanitários, museu atende aos apelos dos movimentos antirracistas e contextualiza algumas de suas peças controversas
Alex Marshall, The New York Times

Galeria de arte egípcia do Museu Britânico Foto: Tom Jamieson/The New York Times

LONDRES — Depois de passar 163 dias fechado por causa da pandemia do coronavírus, o Museu Britânico se tornou mais recente entre os grandes museus europeus a retomar as visitações na quinta feira.

E, como ocorre atualmente em outras instituições, havia estações de desinfetante para as mãos e corredores de mão única, restrição ao número de visitantes e muitas máscaras. Mas o museu também fez algumas mudanças permanentes.

O diretor do museu, Hartwig Fischer, disse em entrevista que o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis em maio e os subsequentes protestos do movimento Black Lives Matter em todo o mundo tinham “alterado o grau de conscientização de todos”. Os acontecimentos o levaram a intensificar o trabalho do museu no sentido de remediar seus elos com a escravidão e o colonialismo, disse ele.

O museu fez duas mudanças principais para a reabertura, disse Fischer. A primeira foi transferir o busto de Hans Sloane (médico e colecionador de curiosidades cujo patrimônio formava a base do museu na época de sua fundação, em 1753) de um pódio de destaque em uma galeria importante para uma caixa de exposição. Agora Sloane não é apenas celebrado como colecionador de história natural, sendo descrito também como “dono de escravos”. A vitrine contém outros objetos relacionados ao envolvimento britânico no comércio de escravos.

A segunda mudança foi a criação de um caminho dirigido pelo museu chamado “Coleção e império”, com placas explicando como determinados artigos, como um escudo de casca de árvore da Austrália, chegaram ao museu (a placa destaca que a maioria dos artigos foi comprada ou doada ao museu, e não roubada).

“Nossa tarefa é elucidar a história dessa instituição, e a história de cada objeto nela”, disse Fischer a respeito das alterações. “São mudanças inspiradas pela ideia da abertura.”

As alterações anunciadas podem parecer discretas, mas seu anúncio causou polêmica na Grã-Bretanha essa semana.

A decisão de transferir o busto, descrita por Fischer em entrevista ao jornal conservador Daily Telegraph, irritou alguns tradicionalistas. O grupo Save Our Statues disse no Twitter que o gesto era uma “demonstração de desrespeito e ingratidão ao homem cuja generosidade ajudou a preservar muito da história mundial que milhões desfrutam hoje”. Outros usuários do Twitter apontaram que o próprio Sloane não era dono de escravos, mas sua riqueza veio de plantações que pertenciam à mulher dele.

Fischer disse que não acessa as redes sociais, acrescentando estar ciente da confusão criada e defendendo a decisão tomada. Sempre há quem se queixe, disse ele: “Temos que fazer a coisa certa”.

Essa semana, as críticas ao museu vieram principalmente dos conservadores, mas, em junho, seus detratores foram os ativistas da justiça social quando a instituição emitiu um comunicado em apoio às manifestações do movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]. No comunicado, Fischer disse que o Museu Britânico estava “alinhado com o espírito e a alma” do movimento. A declaração foi ridicularizada na internet.

“Nossas vidas importavam quando vocês ROUBARAM TODAS AS NOSSAS COISAS?” perguntou no Twitter a autora Stephanie Yeboah. “Se importamos tanto assim, devolvam o que levaram.”

A falta de diversidade entre os funcionários do alto escalão da curadoria também foi destacada em junho, quando um entrevistador da BBC perguntou a Fischer quantos pretos havia entre os 150 curadores do museu. Ele respondeu que nenhum era preto, acrescentando que “trata-se de um problema importante que precisamos sanar” (na verdade ele se enganou: de acordo com uma porta-voz do museu, há entre os curadores um arqueólogo preto).

Fischer disse que o museu tenta se redimir dos elos com o colonialismo e a escravidão desde antes da chegada dele, em 2016, por meio da pesquisa das origens das peças do acervo na tentativa de descobrir como foram adquiridos, e envolvendo as comunidades ligadas aos artefatos nas decisões de curadoria. O novo texto que explica os elos de Hans Sloane com a escravidão, por exemplo, foi “escrito em parceria com a comunidade preta britânica”, disse ele.

“Não é um começo no sentido de encarar a própria história”, disse Fischer, acrescentando, “Veremos muitos outros gestos do tipo no futuro”.

Os debates na Grã-Bretanha a respeito dos legados do colonialismo e da escravidão se tornaram cada vez mais contundentes depois que uma estátua de Edward Colston, mercador de escravos do século 17, foi derrubada em junho em Bristol, Inglaterra, durante um protesto do Black Lives Matter. Essa semana, os jornais e as redes sociais foram consumidos por um debate envolvendo a canção Rule, Britannia! (1740), tradicionalmente tocada no concerto Last Night at the Proms, que encerra o festival anual de música clássica da BBC. O refrão da canção patriótica inclui o verso, “Os britânicos jamais serão escravos, jamais”.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson deixou de lado as solicitações para que a canção fosse retirada do evento. “Acho que é hora de parar de sentir vergonha da nossa história”, disse ele aos repórteres na terça feira.

Alguns defensores do Museu Britânico dizem que é impossível vencer no clima atual. “O Museu Britânico é como aquele colega da turma quer todos decidiram intimidar e constranger”, disse por e-mail Bonnie Greer, jornalista e dramaturga nascida em Chicago. Bonnie, americana preta, foi vice-diretora do conselho do museu durante quatro anos, e realizou uma série de debates ali este ano a respeito de como as instituições culturais podem acertar suas contas com o legado do colonialismo.

“Eles fazem muito, e deveríamos falar a respeito disso”, disse ela. O fato de o museu não alardear seus feitos é “provavelmente uma coisa britânica”.

A romancista egípcia Ahdaf Soueif, que deixou o conselho do museu no ano passado em protesto contra uma série de questões, incluindo o legado colonial, disse que realocar o busto de Sloane e criar o novo caminho “parecem medidas excelentes”.

“Acho que eles estão começando a se mobilizar”, disse ela.

Na quinta feira, no museu, entrevistados disseram ter ouvido a respeito do busto de Sloane na mídia.

Kath Miller, de 73 anos, disse considerar positivo o fato de o museu não ocultar seus elos com a escravidão. “Provavelmente não era boa pessoa”, disse ela, de pé diante do busto. “Não parece ser.”

Maria Morte, de 50, disse ter lido a respeito do busto no jornal. “É uma medida no espírito dos tempos, não?” disse ela.

“Me parece uma decisão acertada”, acrescentou. “Antes, falava-se apenas em suas viagens e em como ele reuniu seu acervo. Mas não se pode ignorar o legado da escravidão.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

SP-Arte começa dia 24, em ambiente virtual

A maior feira de arte da América Latina vai reunir 136 expositores em sua primeira edição online
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

SP-Arte começa na segunda,24, em ambiente virtual
Eleonore Koch. Pintora está entre os artistas mais valorizados dos últimos três anos Foto: SP-Arte

Seguindo o exemplo de grandes feiras de arte internacionais, como a Art Basel e Frieze, a SP-Arte realiza, a partir de segunda-feira, dia 24, sua primeira edição virtual em 16 anos de existência – criada pela empresária Fernanda Feitosa, ela continua sob sua direção, abrigando agora em ambiente virtual 136 galerias, número ligeiramente menor que o registrado na edição física do ano passado (164 expositores). A feira poderá ser visitada no site http://www.sp-arte.com. Por causa da pandemia do covid-19, a feira, que deveria ter sido aberta em abril, foi cancelada, provocando uma discussão entre associações que representam as galerias e a direção da SP-Arte pela devolução do dinheiro pago pelo aluguel dos espaços no pavilhão da Bienal. Segundo Fernanda Feitosa, a SP-Arte devolveu a integralidade dos pagamentos efetuados e diversas galerias, muitas delas expositoras desde a primeira edição e outras recentes, optaram por deixar o credito para a edicao de 2021.

Se há menos galerias na edição virtual, que vai até o dia 30, a perda de alguns participantes foi compensada pela entrada de novos parceiros – aliás novíssimos, caso da HOA, galeria de arte paulistana fundada este ano pela artista Igi Lola Ayedun, dedicada à arte contemporânea latino-americana, que já usa a internet como ponto operacional. Igualmente criada por artistas e tendo como curadores brasileiros e africanos, a 01.01 Platform promove artistas emergentes com o apoio de instituições do Reino Unido, Portugal e Gana. Tentando uma nova abordagem do mercado, ela propõe uma forma alternativa de colecionismo, que leve em conta a cultura produzida nos países da antiga rota comercial da escravidão.

SP-Arte começa na segunda,24, em ambiente virtual
Pasta. Tela da nova série, inédita, que a SP-Arte mostra antes da exposição no Rio Foto: SP-Arte

Nessa sua incursão pelo que foi denominado SP-Arte Viewing Room, a 01.01 Platform vai, por exemplo, colocar um jovem artista, o paulistano Moisés Patrício, de 36 anos, ao lado do veterano norte-americano Melvin Edwards, de 83 anos. Patrício, que combina fotografia, vídeo e performance em suas instalações, usa elementos da cultura afro em suas obras, assim como Edwards. Estreiam ainda na SP-Arte o coletivo de artistas Levante Nacional Trovoa e o recém-criado escritório de arte Projeto Vênus, do curador Ricardo Sardenberg.

SP-Arte começa na segunda,24, em ambiente virtual
Tomasello. Obra do pintor argentino, um dos destaques internacionais da feira Foto: SP-Arte

“O momento, claro, é marcado por mudanças profundas no mercado, não só por causa da pandemia, e a SP-Arte quer participar ativamente do processo dessas mudanças, incentivando uma nova forma de ver a arte”, diz Fernanda Feitosa, justificando a presença na programação da feira de aulas para democratizar o acesso à arte ao público fora desse circuito – uma delas vai ser uma ‘master class’ sobre como formar uma coleção sem traços colonialistas.

Isso significa uma mudança de rota radical, longe da arte dos grandes mestres antigos, modernos e contemporâneos? Não exatamente. As galerias participantes são as mesmas e seus perfis continuam os mesmos. A diferença, segundo Fernanda Feitosa, é que a SP-Arte assume o papel de uma plataforma de fomento cultural num momento em que a cultura do país passa por uma grave crise de apoio institucional e governamental. Haverá debates online, palestras de artistas e obras na feira que fazem referência à situação dos negros e das mulheres no País, à violência e aos desastres ecológicos (em fotos de Araquém Alcântara e João Farkas, para ficar só em dois nomes).

Ao contrário do procedimento adotado em outras feiras internacionais, que tentam simular o modelo físico da exposição, a SP-Arte optou criar, por meio do Viewing Room, uma plataforma imersiva que contemple os mais variados tipos de visitantes – e não só colecionadores tradicionais. Assim, na página de cada galeria, o visitante poderá ver até 30 obras de um ou mais artistas, tanto emergentes como consagrados, algumas acompanhadas de descrições e contando com outros recursos (zoom , vídeos etc.). A tendência é que as obras com preços inferiores a R$ 50 mil tenham maior procura (no ano passado, apenas 3% das peças vendidas ultrapassaram R$ 1 milhão). “Não que nomes consagrados como Antonio Dias ou Mira Schendel tenham menor chances na versão online”, adverte Fernanda. Como a edição virtual chega a colecionadores internacionais, num momento de dólar alto, a venda de mestres modernos e contemporâneos não deve ser afetada”, acredita Fernanda Feitosa.

Galeria arte A Gentil Carioca no RJ instala bebedouro em fachada para pessoas que vivem em situação de rua

Ação funcionará por três meses, liberando até 500 litros de água por dia

Galeria no RJ tem bebedouro em fachada para pessoas que vivem nas ruas (Foto: Divulgação)

Um bebedouro ativado por aproximação e uma saboneteira foram instalados na fachada da galeria de arte A Gentil Carioca, na Lapa, região central do Rio de Janeiro, voltados para pessoas em situação de rua.

A ação, nomeada de Água de Beber, foi feita em parceria de coletivo de mesmo nome e Mais Amor Menos Capital, Taboa Engenharia, e o Gentil Apoio da 342 Artes, e permanecerá lá por três meses, liberando 500 litros de água potável por dia. 

Essa mesma fachada da galeria, a Parede Gentil, já recebeu obras de artistas como  Anna Bella Geiger, Paulo Bruscky, Maria Nepomuceno, Arjan Martins, OPAVIVARÁ!, Carlos Garaicoa, entre outros. O endereço é Rua Gonçalves Ledo, 17.

Para a Água de Beber, também foram escritas recomendações para o uso, em que pedem para manter o distânciamento de 1,5m de outras pessoas e não encostar na torneira – que é ativada por aproximação. 

Esse é o primeiro projeto realizado pelo coletivo Água de Beber, que pretende implementar outras fontes de água potável pela cidade e pelo país.

Galeria no RJ tem bebedouro em fachada para pessoas que vivem na rua   (Foto: Divulgação)
Galeria no RJ tem bebedouro em fachada para pessoas que vivem na rua (Foto: Divulgação)

Architecture, art and design – 100 years of the Bauhaus (3/3) | DW Documentary

O legado da escola de arquitetura e design da Bauhaus continua a influenciar a sociedade de hoje. Mas o que aconteceu com as visões utópicas do futuro da Bauhaus?

O documentário de três partes bauhausWORLD marca o 100º aniversário da inauguração da mais conhecida escola de arte, arquitetura e design da Alemanha, a Bauhaus. Explorando o legado desta instituição alemã icônica, nossa equipe de filmagem viajou pelo mundo, encontrando arquitetos, artistas, planejadores urbanos, realizadores e sonhadores. Os ideais sociais e os princípios de design da Bauhaus ainda moldam a forma como vivemos hoje?

Novas abordagens de educação e treinamento, arquitetura, pintura, dança e design foram exploradas e desenvolvidas na Bauhaus. Seu fundador e diretor Walter Gropius atraiu as principais figuras criativas da época, incluindo Hannes Meyer, Mies van der Rohe, Lyonel Feininger, Oskar Schlemmer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, László Moholy-Nagy, Anni Albers, Josef Albers e Gunta Stölzl. Hoje, a Bauhaus é considerada o berço do modernismo e tornou-se sinônimo de design elegante e funcional.

Fundada em Weimar em 1919, a escola Bauhaus mudou-se para Dessau em 1925 e depois para Berlim, onde foi forçada a fechar em 1933 depois que Hitler assumiu o poder. Muitos de seus artistas, arquitetos e visionários emigraram, espalhando e espalhando a doutrina Bauhaus pelo mundo.

A cineasta Lydia Ranke e sua equipe viajaram o mundo para fazer o documentário de três partes bauhausWORLD. Ao lado dos locais da Bauhaus de Weimar, Dessau e Berlim, eles visitaram Tóquio, Amã, Tel Aviv, Nova York, Chicago, Medellín e a Cidade do México, conversando com especialistas de Norman Foster e a arquiteta mexicana Tatiana Bilbao com o crítico de arquitetura Mark Wigley, designer de móveis Yinka Ilori e a estilista Kasia Kucharska.

A terceira e última parte do bauhausWORLD, “The Utopia”, explora a influência da filosofia Bauhaus na sociedade globalizada de hoje. Qual é o seu legado? O que aconteceu com suas visões utópicas do futuro? Eles ainda têm relevância no século 21? Descobrimos se as perguntas que a Bauhaus colocou foram respondidas e se ainda podemos aprender com as soluções que ela propôs há 100 anos.

Architecture, art and design – 100 years of the Bauhaus (2/3) | DW Documentary

A Bauhaus ainda exerce influência na arte, design e arquitetura em todo o mundo. Mas isso é o culpado pela obsessão do mundo moderno com o design?

Novas abordagens de educação e treinamento, arquitetura, pintura, dança e design foram exploradas e desenvolvidas na Bauhaus. Seu fundador e diretor Walter Gropius atraiu as principais figuras criativas da época, incluindo Hannes Meyer, Mies van der Rohe, Lyonel Feininger, Oskar Schlemmer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, László Moholy-Nagy, Anni Albers, Josef Albers e Gunta Stölzl. Hoje, a Bauhaus é considerada o berço do modernismo e tornou-se sinônimo de design elegante e funcional.

Fundada em Weimar em 1919, a escola Bauhaus mudou-se para Dessau em 1925 e depois para Berlim, onde foi forçada a fechar em 1933 depois que Hitler assumiu o poder. Muitos de seus artistas, arquitetos e visionários emigraram, espalhando e espalhando a doutrina Bauhaus pelo mundo.

A cineasta Lydia Ranke e sua equipe viajaram o mundo para fazer o documentário de três partes bauhausWORLD. Ao lado dos locais da Bauhaus de Weimar, Dessau e Berlim, eles visitaram Tóquio, Amã, Tel Aviv, Nova York, Chicago, Medellín e a Cidade do México, conversando com especialistas de Norman Foster e a arquiteta mexicana Tatiana Bilbao com o crítico de arquitetura Mark Wigley, designer de móveis Yinka Ilori e a estilista Kasia Kucharska.

A parte 2 do bauhausWORLD, “The Effect”, leva os espectadores em uma viagem de Dessau a Nova York, Älmhult na Suécia e Ulm na Alemanha para examinar a influência que a Bauhaus ainda exerce na arte, design e arquitetura ao redor do mundo. Hoje o nome da Bauhaus se transformou em uma marca. É o culpado pela obsessão do mundo moderno com o design?

Architecture, art and design – 100 years of the Bauhaus (1/3) | DW Documentary

Como a escola de arquitetura e design da Bauhaus, a escola de arte mais conhecida da Alemanha, moldou o mundo em que vivemos hoje?

O documentário de três partes bauhausWORLD marca o 100º aniversário da inauguração da mais conhecida escola de arte, arquitetura e design da Alemanha, a Bauhaus. Explorando o legado desta instituição alemã icônica, nossa equipe de filmagem viajou pelo mundo, encontrando arquitetos, artistas, planejadores urbanos, realizadores e sonhadores. Os ideais sociais e os princípios de design da Bauhaus ainda moldam a forma como vivemos hoje?

Novas abordagens de educação e treinamento, arquitetura, pintura, dança e design foram exploradas e desenvolvidas na Bauhaus. Seu fundador e diretor Walter Gropius atraiu as principais figuras criativas da época, incluindo Hannes Meyer, Mies van der Rohe, Lyonel Feininger, Oskar Schlemmer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, László Moholy-Nagy, Anni Albers, Josef Albers e Gunta Stölzl. Hoje, a Bauhaus é considerada o berço do modernismo e tornou-se sinônimo de design elegante e funcional.

Fundada em Weimar em 1919, a escola Bauhaus mudou-se para Dessau em 1925 e depois para Berlim, onde foi forçada a fechar em 1933 depois que Hitler assumiu o poder. Muitos de seus artistas, arquitetos e visionários emigraram, espalhando e espalhando a doutrina Bauhaus pelo mundo.

A cineasta Lydia Ranke e sua equipe viajaram o mundo para fazer o documentário de três partes bauhausWORLD. Ao lado dos sites da Bauhaus de Weimar, Dessau e Berlim, eles visitaram cidades como Tóquio, Amã, Tel Aviv, Nova York, Chicago, Cidade do México e Medellín, conversando com especialistas dos arquitetos Norman Foster e Tatiana Bilbao ao crítico de arquitetura Mark Wigley, móveis a estilista Yinka Ilori e a estilista Kasia Kucharska.

“O Código” é a primeira parte do bauhausWORLD. A busca pelo segredo do sucesso duradouro da Bauhaus leva até o Japão – uma jornada que ilustra como o fechamento forçado da escola que levou o movimento ao exílio serviu para espalhar sua filosofia por todo o mundo.

Instituto Hercule Florence ganha página no Google Arts & Culture

Com acesso gratuito, plataforma mostra a arte e a ciência do pioneiro do processo fotográfico no século 19
Por Leila Kiyomura

Hercule Florence, Apiacás – Divulgação/Academia de Ciências de São Petersburgo

A história do desenhista e pintor autodidata Hercule Florence, que nasceu em Nice, na França, em 1804, desembarcou aos 20 anos no Rio de Janeiro como desenhista da Expedição Langsdorff – de 1825 a 1829 – e viveu em Campinas (SP), foi contada em livro, pela primeira vez, em 1976, numa pesquisa do professor Boris Kossoy, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Três décadas depois, Kossoy lançou uma edição revista e ampliada pela Editora da USP (Edusp). Hercule Florence: A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil passou a ser referência para o reconhecimento internacional do pioneiro do processo fotográfico no século 19. E, neste ano, às vésperas de ser lançada a quarta edição do livro, o Instituto Hercule Florence (IHF) apresenta a trajetória e as obras do artista e inventor na plataforma digital Google Arts & Culture.

Com isso, o instituto está ao lado de mais de 2 mil museus e galerias de todo o mundo. A plataforma disponibiliza 87 obras, além das anotações do pintor observando a paisagem brasileira.

O professor Boris Kossoy e Antonio Florence, tetraneto do artista francês, juntos na preservação e difusão da obra de Hercule Florence – Foto: Divulgação

O visitante vai navegar com o jovem irrequieto que sonhava com as aventuras de Robinson Crusoe. Vai acompanhar o artista inventor por uma viagem fluvial do Tietê ao Amazonas através das províncias brasileiras. E voltar no tempo para conhecer o Brasil entre 1825 a 1829.

Poderá identificar, em seus desenhos, um registro do cotidiano dos índios e também cidades como o Rio de Janeiro, com o Pão de Açúcar e o Corcovado. Paisagens em traços leves acompanhadas de anotações como esta: “A 3 de setembro de 1825, partimos do Rio de Janeiro. Um vento fresco ajudou-nos a vencer, em 24 horas, a travessia de 70 léguas, até Santos”.

Os objetivos do Instituto Hercule Florence são a coleta, organização, conservação e divulgação da bibliografia e de documentos sobre o século 19 brasileiro.”

Os manuscritos e as imagens foram extraídos da edição fac-símile do livro L’Ami des Arts Livré à Lui-Même, apontada como a obra mais importante de Hercule Florence. “Por ter sido um dos principais retratistas do Brasil do século 19, o Instituto Hercule Florence foi procurado pelo Google Arts & Culture para que sua iconografia fizesse parte da plataforma. Essa inclusão dará ao artista visibilidade universal”, afirma Antonio Florence, tetraneto de Florence, que fundou o instituto em 2007. “Os objetivos do instituto são a coleta, organização, conservação e divulgação da bibliografia e de documentos sobre o século 19 brasileiro, reunindo um acervo próprio composto de biblioteca e arquivos especializados.”

Hercule Florence, Indienne Apiacá – Divulgação/Academia de Ciências de São Petersburgo

O centro de interesses do Instituto Hercule Florence é o estudo dos diversos viajantes do século 19 e suas narrativas, além da produção da Expedição Langsdorff, missão científica que percorreu o interior do Brasil, de São Paulo até o Amazonas, resultando em um minucioso levantamento de dados geográficos e etnográficos do País. Em uma das anotações, Florence observa o drama dos viajantes contraindo uma doença que desconheciam e que os estudiosos acreditam ter sido a malária: “Salto Augusto (2 de maio de 1828) – Atacadíssimos pela doença, permanecem privados da mínima ação os Srs. de Langsdorff e Rubzoff. Tão fracos se sentem que lhes é impossível abandonar a rede. Somos unicamente 15 os que nos conservamos com saúde, num conjunto de 34 pessoas, das quais apenas oito se livraram das sezões.”

No final dessa expedição, Hercule Florence resolveu ficar na vila de São Carlos, atual Campinas, em São Paulo, onde constituiu família e ficou até a sua morte, aos 75 anos, em 1879.

As realizações de Hercule Florence em variados campos das ciências e da artes são de importância definitiva para os estudos da cultura brasileira.”

Boris Kossoy, estudioso da trajetória de Hercule Florence desde 1972, acredita que, com a inclusão do instituto na plataforma Google Arts & Culture, o acervo e também os estudos sobre o artista francês em diferentes áreas ganham maior visibilidade. “O contato entre o Google e o instituto se dá em função da diversidade das referências iconográficas relativas à Expedição Langsdorff, uma das mais importantes missões científicas que visitaram o Brasil no século 19, além dos relatos de pesquisas com a zoofonia, poligrafia e a fotografia, dentre outras investigações do inventor que constam dos seus diários, hoje recuperados e disponibilizados on-line.”

Página do livro L’Ami des Arts Livré à Lui-Même, de Hercule Florence – Reprodução

Na avaliação de Kossoy, o interesse entre o Google e o Instituto Hercule Florence se deu em função da exposição O Olhar de Hercule Florence sobre os Índios Brasileiros, realizada em 2015 na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. “Essa exposição aconteceu por ocasião do seminário internacional Índios no Brasil; Vida, Cultura e Morte promovido pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP, que deu origem a um livro com o mesmo nome organizado pelas historiadoras Maria Luiza Tucci Carneiro e Miriam Rossi.”

Segundo Kossoy, “em termos da divulgação global, que ora se faz da obra de Florence, é importante a comprovação da descoberta de um processo fotográfico em 1833”. O professor destaca outras atividades do instituto, como o lançamento, em 2018, do fac-símile do manuscrito L’Ami des Arts Livré à Lui-Même. “Através dessa edição todos puderam conhecer Hercule Florence, sua autobiografia e seus trabalhos, uma obra que reúne um tesouro de informações da maior importância para os estudos da cultura brasileira, com a excelência da qualidade gráfica e editorial.”

Hoje, felizmente Hercule Florence é reconhecido como um dos inventores da fotografia, ao lado de Nièpce, Daguerre, Fox Talbot e Hippolyte Bayard.”

Kossoy faz uma síntese da trajetória de Hercule Florence. “Suas realizações em variados campos das ciências e das artes são de importância definitiva para os estudos da cultura brasileira”, acentua. “Exemplo disso é a documentação iconográfica da Expedição Langsdorff, que registra com apuro técnico e artístico a flora, a fauna, costumes, populações indígenas de diferentes grupos, entre outros temas. Se pensarmos no âmbito das artes gráficas, a descoberta de um meio de imprimir foi uma das motivações prioritárias de Florence, pois não se conformava com a falta de equipamentos gráficos de impressão, como a tipografia, no País.”

Hercule Florence,  Salmo Dourado – Reprodução

O professor conta que a questão de Florence era como multiplicar o conhecimento e as informações. Trabalhou arduamente nesse sentido a partir de 1830 e desenvolveu um meio prático e barato de impressão ao qual deu o nome de poligrafia, um processo que mereceria aperfeiçoamentos durante muitos anos. A seguir, junto com suas experiências com a poligrafa, foi informado que determinados materiais fotossensíveis, como o nitrato de prata, tinham a propriedade de escurecer pela ação da luz.

Desde 1833, Florence já obtinha resultados satisfatórios em seu intuito de “imprimir” por esse método, além de descobrir também a obtenção de imagens em papel quando colocado na “camera obscura”. O professor lembra que, no decorrer da década de 1830, o inventor e artista aperfeiçoou seu processo descobrindo inclusive uma forma de “fixar” as imagens de modo que se tornassem permanentes. Quando a descoberta de Daguerre foi anunciada na França, em 1839, Florence já imprimia, em série, diplomas maçônicos e rótulos para a identificação de atividades comerciais. “Sua descoberta não prosperou no meio caboclo e escravocrata em que viveu, permanecendo no anonimato por cerca de 140 anos. Hoje, felizmente Florence é reconhecido como um dos inventores da fotografia, ao lado de Nièpce, Daguerre, Fox Talbot e Hippolyte Bayard.”

Hercule Florence, Chef Mundurucu – Divulgação/Academia de Ciências de São PetersburgoPágina de rosto de L’Ami des Arts Livré à Lui-Même, de Hercule Florence – Reprodução

A página do Instituto Hercule Florence (IHF) na plataforma Google Arts & Culture pode ser acessada gratuitamente através deste link.

Fechadas, galerias abrem mão de sedes físicas, mas seguem vendendo na crise

Espaços relatam aumento de procura por obras mais baratas, motivada por safra de novos colecionadores
Carolina Moraes
Clara Balbi

Foto de espaço de galpão amplo mostra duas telas de grande dimensão com um espectador no centro da imagem
Exposição da Marina Rheingantz, em 2019, no galpão da Fortes D’Aloia & Gabriel, que será reformado para abrigar mais exposições após o fechamento do outro endereço da galeria – Eduardo Ortega/Divulgação

SÃO PAULO – Luciana Caravello fechou sua galeria de 500 metros quadrados no Rio de Janeiro e a trocou, no início de julho, por um espaço de 70 metros quadrados em São Paulo. Ali, funcionará sem exposições, só para mostrar obras a compradores.

A mudança, que já estava sendo gestada, foi impulsionada pela pandemia. “O tal do ‘stay home’ me fez ver que dá para fazer –eu posso ter um galpão em algum lugar e ficar remota. Mas, em março, isso ainda era surreal”, conta.

Essa transformação dos espaços físicos das galerias, motivada pela transição para o digital, é uma de tantas que o mercado de arte tem promovido para se adaptar ao novo cenário. Outra é atrair novos colecionadores, ofertando obras mais acessíveis.

Algumas das casas especializadas nesse perfil dizem ter registrado até mesmo altas de vendas neste período de quarentena. Elas trabalham com artistas em início e meio de carreira, e com preços que giram em torno dos R$ 5.000 aos R$ 50 mil, aproximadamente.

Lucas Cimino, sócio da galeria Zipper, é um dos que afirma ter registrado um recorde histórico de transações. Ele, que trabalha com obras dos R$ 20 mil a R$ 70 mil, diz que as vendas em junho, um “mês normalmente morto”, mais do que triplicaram em relação ao mesmo período de outros anos.

Além da Zipper, as também paulistas Janaina Torres e OMA afirmam ter alcançado altas inéditas.

Vista da exposição 'AAA - Antologia de Arte e Arquitetura', organizada em conjunto pela Bergamin & Gomide e pela Fortes d'Aloia & Gabriel; exposição será exibida em ambiente virtual por causa da pandemia de coronavírus
Vista da exposição ‘AAA – Antologia de Arte e Arquitetura’, organizada em conjunto pela Bergamin & Gomide e pela Fortes d’Aloia & Gabriel; exposição será exibida em ambiente virtual por causa da pandemia de coronavírus Eduardo Ortega/Divulgação

No caso de Caravello, a equipe trabalhando remotamente e as vendas online estimularam a mudança para São Paulo, que, segundo ela, já tinha um público disposto a comprar pela internet. Ela também lançará uma plataforma mais interativa, com salas de exposições virtuais e a compras diretamente no site.

Por causa da quarentena, exposições não estão no horizonte, mas ela planeja alugar espaços temporários para mostrar seus artistas no futuro.

O cenário de pandemia também impulsionou o fechamento da galeria da Fortes D’Aloia & Gabriel na Vila Madalena e a reforma do galpão na Barra Funda, ambos bairros da zona oeste de São Paulo, um processo gestado há três anos.

“A gente já tinha o projeto desenvolvido, mas é uma hora em que você tem que repensar o tempo das coisas e das operações”, diz Alexandre Gabriel, da Fortes.

A galeria não pretende reduzir o número de exposições. Uma reforma prevista para ser finalizada em março de 2021 mudará a disposição do galpão, com um espaço expositivo de 400 metros quadrados.

“Neste ano, o foco de todo mundo foi o site, porque não tinha feiras. Então, a forma como você trabalha o online teve que necessariamente mudar num ritmo superforte”, afirma. No caso da Fortes, isso englobou registros das montagens em vídeos e salas virtuais com formatos diferentes para cada exposição.

Ele diz acreditar que a sofisticação das exposições e vendas no ambiente virtual não substituirão espaços físicos, mas que não há retorno para os sites pensados num mundo pré-pandemia.

A transição para o digital ainda pode ter garantido fôlego renovado ao mercado de arte. Depois de março e abril com vendas pingadas, nos últimos meses, os negócios começaram a voltar, dizem os galeristas.

Se os resultados não se equiparam aos de antes da pandemia —uma das casas estima que o faturamento neste primeiro semestre representou um quarto daquele alcançado no mesmo período do ano passado, por exemplo—, eles parecem ser o suficiente para manter o otimismo das casas, que em março previam uma hecatombe.

Até porque, elas declaram, não foram só as exposições e feiras virtuais ou a presença nas redes sociais que contribuíram para essa retomada. Segundo os marchands, a própria quarentena parece ter renovado o interesse pela arte.

De um lado, eles dizem, os colecionadores, isolados em casa, passaram a conviver mais com os acervos que já possuem, o que estimulou o interesse em novas aquisições.

De outro, uma nova safra de clientes, mais jovens e acostumados às compras via redes sociais, vem se delineando. “Acho que as pessoas começaram a notar aquela parede vazia, ou aquele trabalho que não tinha significado, e isso incomodou mais do que antigamente”, resume Cimino, da Zipper.

Isso, aliado ao cancelamento em série das feiras internacionais, que comprometem boa parte do orçamento das casas, faz com que as perspectivas do mercado de arte soem mais favoráveis do que a de muitos outros setores. Só uma participação na SP-Arte, por exemplo, pode ultrapassar os R$ 100 mil, e alguns espaços viajavam para mais de uma dezena de eventos do tipo num ano.

Mesmo assim, o período está longe de ser de vacas gordas. Várias galerias menores continuam a sofrer. E a OMA e a Janaina Torres, outras a relatarem altas de vendas, creditam seus crescimentos a uma ação promocional do projeto Partilha, nascido da união de espaços pequenos e médios na pandemia. As galerias que participam da iniciativa oferecem descontos sobre trabalhos de outros artistas em compras de obras selecionadas.

Thomaz Pacheco, da OMA, diz que iniciou a ação já em abril, um mês antes das demais galerias a adotarem. Ela resultou na comercialização de 33 obras, mais do que as 26 do seu pico de vendas anterior, na SP-Arte. Além disso, vários desses negócios foram fechados com colecionadores novos.

Pacheco avalia que a quantidade de obras vendidas e a conquista de mais de dez novos clientes fez valer a pena baixar os preços. Mais importante, porém, foi o fato de que a ação conseguiu beneficiar vários artistas da galeria. “Em tempos adversos como esses, é fundamental a preocupação com quem está construindo com a gente. Porque a galeria ganha com todos os artistas, mas o artista só ganha com o próprio trabalho.”

Mesmo mantendo os valores, espaços maiores também relatam ter visto uma procura maior por obras mais acessíveis. Além de funcionarem melhor no ambiente virtual, elas também são mais atrativas para os novos colecionadores.

Um cliente novo provavelmente não comprará um trabalho de R$ 200 mil de uma casa que não conhece, exemplifica Alexandre Gabriel, da Fortes, pois isso “exige um nível de envolvimento com a galeria”. “Ele vai comprar uma fotografia ou um desenho de um artista conhecido.”

“Estamos nos adaptando”, diz Thiago Gomide, da Bergamin & Gomide, que conta ter apostado em obras de artistas mais jovens do seu time, como Marcelo Cipis, e estar vendendo trabalhos de R$ 20 mil a R$ 200 mil. Antes, a faixa girava em torno de R$ 1,5 milhão, e a maioria das vendas era para estrangeiros.

Luisa Strina, a mais poderosa galerista do país, afirma que recentemente voltou ao ritmo normal de vendas. Segundo ela, sempre há mercado para coisas boas. “O desejo continua, ele não vai embora.” Questionada sobre as suas expectativas para o futuro, ela responde que o cenário é incerto. “Se eu soubesse, contava. Mas não dá para saber.”​