O novo perfil de CEO que as grandes corporações buscam para se reinventar

O Chief Executive Officer da companhia dá lugar ao Chief Entrepreneur Officer, novo perfil no mercado que combina fluência digital e espírito empreendedor
Por Marcelo Nakagawa *

Louis Gerstner, da IBM, em evento em 1999. FOTO: Colin Braley/Reuters

Na segunda metade do século 20, ser CEO ou Chief Executive Officer da companhia era o maior sonho de muitos executivos. CEOs como Jack Welch da GE, John Reed do Citibank, Lee Iacocca da Chrysler ou Louis Gerstner da IBM personificavam os heróis do capitalismo ao liderar reinvenções épicas das suas companhias investindo fortemente em inovação, desenvolvimento de pessoas e eficiência operacional.

Mas na virada do século, quando estes executivos ambiciosos chegaram ao poder, diversas grandes corporações tornaram-se moedores de carne com empregados se estapeando para bater metas (cada vez maiores) e clientes como um meio para que estas metas fossem atendidas. “Eu até entregava o resultado, mas depois só via sangue e corpos por todo o lado. Hoje eu me arrependo…”, diz um executivo.

Se não bastasse este tipo tóxico de ambiente profissional, de alguma forma muitas empresas ainda se tornaram hipócritas tanto com seus colaboradores como com seus clientes e parceiros. Criaram declarações de missão, visão e valores que eram ironizadas pelos seus funcionários, além de campanhas publicitárias em que alardeavam suas (questionáveis) contribuições para um mundo melhor e mais feliz.

Neste contexto, o sonho de ser CEO da companhia, aos poucos, passou a atrair um número menor de interessados. Não queriam ser aquele cara sozinho lá no topo cercado de puxa-sacos e que liderava pelo medo. Com isso, sucessão tornou-se um grande desafio para muitas corporações em função da ausência de executivos que poderiam ocupar os próximos cargos estratégicos. E isso já começava nos programas de trainees. Uma das grandes multinacionais presentes no Brasil contratou 20 trainees em 2016. No ano seguinte, apenas quatro continuavam na empresa. Por que tantos desistiram? “Diferença entre discurso e prática”, explica, educadamente, uma das trainees que foi trabalhar em uma startup.

E agora, para complicar, as corporações ainda precisam não apenas entender, mas dominar e construir vantagens competitivas tirando proveito das novas tecnologias da 4ª Revolução Industrial. O problema é que isso não é possível quando o principal executivo da empresa é um analfabeto em novas tecnologias digitais exponenciais como inteligência artificial, big data, machine learning ou blockchain. Terá que terceirizar sua capacidade visionária com terceiros, incluindo aí, diversos pseudo especialistas, futuristas e consultores.

Assim como ocorreu no passado, quando foram buscar na capacidade empreendedora e inovadora de Welch, Reed, Iacocca e Gerstner, agora muitos conselhos de administração buscam um novo perfil de CEO. Alguém com fluência digital, com espírito empreendedor, cabeça de executivo e capacidade de inovar não apenas produtos, serviços ou modelos de negócios, mas inovar principalmente em como sua organização pensa e age, tornando-a mais ética, colaborativa e ágil.

“Sempre fomos uma empresa gerida pelo comando e pelo controle. Agora temos mais autonomia e agilidade, menos burocracia e hierarquia, buscando dar protagonismo às pessoas”, disse Gustavo Werneck, um dos exemplos desse novo tipo de Chief Entrepreneur Officer (ele é o CEO da centenária Gerdau), durante evento que discutiu o capitalismo consciente nesta semana.

* Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

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Pesquisa revela preconceito contra mulheres no mercado de Tecnologia da Informação

Estudo feito pela Yoctoo aponta que 82,8% das entrevistadas sofreram com a questão de gênero nas empresas

Pesquisa revela que 82,8% das mulheres entrevistadas já sofreram preconceito de gênero no mercado de tecnologia. Foto: Pixabay

A presença das mulheres no mercado de Tecnologia da Informação ainda é tímida. E aquelas que conseguem uma oportunidade sofrem com preconceito de gênero. É o que revela um estudo realizado pela Yoctoo, consultoria de recrutamento especializada na seleção de profissionais de TI e digital. 

De acordo com o levantamento, 82,8% das mulheres entrevistadas disseram já ter sofrido preconceito de gênero no ambiente de trabalho. “É um cenário preocupante, que mostra o quanto ainda estamos longe de tornar a área de tecnologia um ambiente igualitário”, afirma Paulo Exel, diretor da Yoctoo.

As empresas também ‘engatinham’ em políticas de diversidade e inclusão, na opinião de 91% das entrevistadas ouvida pela pesquisa. As mulheres também acreditam que o ambiente familiar não incentiva que meninas busquem carreiras ligadas à tecnologia. “Isso ajuda a a explicar o motivo de ainda vermos poucas mulheres em cursos relacionados à tecnologia ou interessadas em seguir carreira na área”, comenta Paulo Exel.

Sobre as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mercado de TI, 42% declaram que precisam provar o tempo todo que são competentes tecnicamente.

Por que é tão difícil encontrar o emprego perfeito?

Satisfação de trabalhadores com suas funções vai além de recompensa financeira
Robb Todd, The New York Times

O Washington Post está usando robôs para escrever algumas reportagens básicas e, com isso, deixar os repórteres livres para trabalharem nos projetos maiores. Foto: Justin T. Gellerson para The New York Times

Conforme mais pessoas procuram a realização em suas carreiras, e não apenas o dinheiro, a disputa por empregos criativos de baixa remuneração está aumentando. Mas os concorrentes dotados de ambição artística não são a única preocupação. Não foi um robô quem escreveu isso, mas, se tivesse sido, não teria sido fácil descobri-lo.

Os executivos do ramo do jornalismo dizem que as tecnologias emergentes não vão substituir os repórteres, mas a Bloomberg News usa uma inteligência artificial chamada Cyborg para escrever cerca de um terço do seu conteúdo, de acordo com reportagem do Times. A ideia é que tal prática deixaria os repórteres com tempo livre para se dedicar a matérias mais importantes do que informes de rendimentos corporativos.

“Algo que reparei é que nossos artigos escritos pela IA não tem nenhum erro de digitação”, disse ao Times o diretor executivo da Patch, Warren St. John. A Patch, um grupo de jornalismo voltado para as comunidades, usa robôs para escrever a respeito de assuntos como beisebol infantil, futebol americano do ensino médio, terremotos e previsão do tempo. O mesmo fazem Washington Post, Los Angeles Times e Associated Press.

“O trabalho do jornalismo é criativo”, disse ao Times a diretora de parcerias jornalísticas da AP, Lisa Gibbs. “É uma questão de curiosidade e narrativa, investigação e cobrança das autoridades, pensamento crítico e julgamento – e é nisso que desejamos que nossos jornalistas invistam sua energia.”

Mas, ao ser associada a um emprego, a palavra “criativa” deve ser motivo de alerta, escreveu Judy Rosen no Times. Para os escritores e outros do tipo, o termo adquiriu um “poder de atração talismânico”. “Isso aponta para outro tipo de sonho de classe média, livre do desgastante trabalho manual ou da monotonia dos cubículos e planilhas”, escreveu ela. “Esse sonho promete uma carreira e uma vida com espaço para a expressão de si, a imaginação e até a beleza.”

Lisa alertou que o lado negativo desses trabalhos é a necessidade de abrir mão da segurança financeira e dos benefícios empregatícios tradicionais. “Em troca do privilégio de nos dedicarmos a um trabalho ‘criativo’, pede-se que aceitemos condições de precariedade e ansiedade financeira que seriam impensáveis para os empregados de épocas anteriores”, escreveu ela, acrescentando que isso busca disfarçar “como liberdade boêmia a ruptura de um contrato social que resulta nos maus negócios da economia dos bicos”.

Tornar-se um banqueiro também pode ser uma carreira que oferece menos liberdade do que as pessoas imaginam. O repórter do Times Charles Duhigg, que também se formou pela Faculdade de Administração de Harvard, escreveu que um de seus antigos colegas de turma é um milionário infeliz que odeia o próprio emprego, mas não acredita que possa abandoná-lo.

“Tenho a sensação de estar desperdiçando minha vida”, disse a Duhigg o colega não identificado. “Quando eu morrer, será que alguém vai se importar com o fato de eu ter aumentado o lucro por um ponto percentual? Meu trabalho parece ser completamente sem sentido.” Duhigg não estava tentando fazer com que sentíssemos pena dos ricos, e sim argumentar que a satisfação com o próprio trabalho vai além da recompensa financeira.

Estudos mostraram que a satisfação dos trabalhadores não aumenta muito depois de oferecida uma recompensa suficiente para sustentar a si e à própria família. A ideia de autonomia é mais importante, bem como a de pares que respeitamos e de um trabalho que contribua para um mundo melhor.

E nem é necessário dedicar-se à busca pela cura do câncer, disse ao Times o professor de administração Barry Schwartz, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Não importa se você é um vendedor ou cobrador de pedágio”, disse ele. “Se enxergar seu objetivo como sendo solucionar os problemas das pessoas, cada dia trará 100 oportunidades de melhorar a vida de alguém, e nossa satisfação aumenta dramaticamente”.

Quer ser chefe? 8 mulheres CEOs falam sobre como chegaram lá

Além dos conselhos, as diretoras dividem as dores e delícias de ocupar as posições mais altas de suas empresas
FLÁVIA BEZERRA

Dia Internacional da Mulher é comemorado neste dia 08 de março (Foto: Reprodução)

Um exercício rápido para fazer nesta sexta, 08, Dia Internacional da Mulher: quantas mulheres são diretoras ou ocupam cargos de liderança na empresa em que você trabalha? Provavelmente, poucas. Segundo dados divulgados pelo IBGE no ano passado, a participação das mulheres em nos cargos gerenciais diminuiu nos últimos anos: em 2011, elas respondiam por 39,5% destes cargos. Cinco anos depois, o número passou para 37,8%.

Pensando nisso, a revistaGlamour conversou com 8 líderes sobre as dores e delícias de ocupar as posições mais altas de suas empresas. Todas deram dicas sobre como chegar lá e (adivinha só?) comentaram sobre como o machismo esteve presente na trajetória delas. Inspire-se abaixo:

CAMILA COSTA, CEO da ID\TBWA (agência de publicidade digital), investidora anjo e mentora de startups lideradas por mulheres
“Hoje, lidero mais de 100 pessoas e tento fazer isso por exemplo e de forma zero impositiva. Sem dúvida, liderar é meu maior desafio, mas também minha maior alegria. É preciso ouvir muito, ter conhecimento para orientar e vontade para se envolver. Às vezes, também é necessário sair da visão de líder e enxergar com os olhos de cada pessoa do time. A forma de liderar feminina é, geralmente, diferente do jeito masculino. Isso não é demérito, muito pelo contrário… É fortaleza! A minha dica é: sejam autênticas, dedicadas e proativas. Busquem sempre conhecimento e conteúdo. Tragam temas relevantes e novidades para as rodas de conversa ou na orientação de seus times. E não se esqueçam de tirar o melhor proveito do dom especial que recebemos: o do cuidado. Afinal, fortalecendo pessoas e promovendo a diversidade, podemos impactar com relevância e inspiração.”

MARINA PROENÇA, COO da ClickBus, plataforma de vendas online de passagens rodoviárias
“Conseguir ser executiva de alta performance, conciliando vida pessoal e profissional é um grande desafio. Por muito tempo, abandonei família, casa e amigos. Atualmente, os fins de semana, feriados e as últimas semanas do ano são 100% deles. E atente-se ao machismo que vive dentro de você. Eu, por exemplo, já pensei ‘ah, não vou pedir equiparação salarial porque, apesar de trabalhar mais e entregar mais resultados, ele é mais experiente’. Por isso, a importância de compartilhar conteúdo e criar debates sobre o tema com o time. Quer chegar na diretoria? Desenvolva visão sistêmica, estratégica, capacidade analítica e, principalmente, habilidade de compreender as pessoas do seu time e não criar empecilhos, mas facilitar o caminho dos seus liderados. Para se destacar? Nada diferente dos homens: foque na entrega dos resultados.”

ALEXANDRA AVELAR, country manager da Socialbakers, empresa global de marketing de mídia social
“Nunca tive uma líder mulher. Junto com a objetividade masculina, herdei o machismo velado. Não entendia o que era a maternidade, suas necessidades e direitos. Acabava perdendo em empatia, sem nem mesmo perceber. Quando engravidei, embora já tivesse aprendido e mudado bastante, pude entender melhor o que está envolvido ali. Não foi fácil sentir na pele a falta de compreensão que um dia foi minha. O momento mais difícil da minha carreira, aliás, foi ter sido demitida após a licença-maternidade. Por tudo isso, temos que unir forças e educar. Educar gestores, educar nossas crianças… Eu mesma, antes de ser mãe, não tinha acesso a informações que tenho hoje, com as quais tento conscientizar outros líderes. Ah!, e saiba tirar vantagem da atual ‘desvantagem’ de ser mulher. A forma como lidamos com as emoções, a preocupação com o todo, o cuidado (que nos é tão peculiar), os aprendizados da maternidade… Essas podem ser fortalezas, se permitirmos. Não precisamos deixar de lado a feminilidade para isso. Agora, para se destacar, é preciso se preparar e ir à luta. A gente pode mais do que imagina.”

JULIANA PROSERPIO, co-founder da Echos, consultoria de inovação de design thinking
“Comecei na Echos aos 25 anos. Em reuniões, tinha muita dificuldade de conseguir mostrar credibilidade e falar. Era mulher, a mais nova da turma e ainda propunha algo desconhecido. Me lembro de uma reunião de início de projeto que não conseguia nem terminar uma frase e logo era interrompida. A estratégia foi começar a levar uma pessoa de apoio, um homem mais velho que me passava a voz. É lógico que funcionou… Hoje, porém, não investiria na mesma estratégia, pois ela reforça a estrutura machista. Por causa disso, acredito muito nos programas internos de desenvolvimento e conscientização dos funcionários. Ampliar a capacidade de comunicação e de contar histórias, além da empatia, também são importantíssimos.”

TAHIANA D’EGMONT, CMO da MaxMilhas, empresa de passagens aéreas com desconto emitidas por milhas de quem deseja vender
“Como comecei a trabalhar muito jovem, era vista como ‘pouco importante’ em reuniões com pessoas mais experientes na sala (e, em sua grande maioria, homens). O que me ajudou a superar este desafio foi me preparar muito, evoluir constantemente e entregar valor não só no discurso, mas, principalmente, na ação. Já tive que lidar e, ainda lido, com a atenção de uma reunião 100% centrada nos homens. Também me incomoda muito quando eles tentam me explicar em detalhes questões técnicas que já sei.. Sempre tenho que falar ‘essa parte eu já sei, vamos ao que realmente importa?’. Todos devem reconhecer seus privilégios e dores para que, em conjunto, possamos evoluir como plurais. Líderes mulheres e homens precisam entender que seus resultados vêm do resultado do time e não das suas conquistas pessoais.”

LIVIA RIGUEIRAL, CEO do Homer, ferramenta de parcerias imobiliárias exclusiva para corretores 
“Já trabalhei em uma empresa em que, após ser promovida e passar a gerenciar pessoas mais velhas do que eu, colegas homens e mulheres acreditavam fielmente que eu estava tendo um caso com o chefe. Foi bem difícil para mim na época. A equipe já não conversava comigo direito e ainda falavam mal de mim pelas costas. Me lembro de um estudo da consultoria Mckinsey, de 2011, que destacava que homens são promovidos segundo o potencial, enquanto as mulheres, com base no que elas já realizaram. A partir daí já dá para entender porque a liderança feminina acontece menos: se somos promovidas pelo que já realizamos, como vamos ser líderes se não temos liderança no CV? Outro aspecto importante é a licença-paternidade estendida… Ela tem que acontecer! É fato que a licença-maternidade impacta tanto na diferença de salário, quanto no alcance da liderança. E, por fim, meninas: não percam a autenticidade. A sociedade está acostumada com um padrão de liderança mais masculino e, muitas vezes, mais agressivo. Por isso, muitas acham que para ser boas precisam ser rudes.”

ISABELA VENTURA, CEO da Squid, plataforma de marketing com digital influencers
“Embora com melhorias, sabemos que o mercado de trabalho ainda é hostil e torturante para muitas mulheres. Precisamos parar de criticar o feminismo e começar a pensar que todas as as políticas que igualam oportunidades às mulheres são bem-vindas. Ser feminista é acreditar na igualdade social, política e econômica de ambos os sexos. Eu, infelizmente, nunca tive a oportunidade de ser liderada por uma mulher, mas tive a sorte der ser inspirada por homens incríveis. Me lembro bem quando recebi o melhor e mais valioso conselho de um grande líder, que me disse que meu medo de ser julgada me reprimia. O medo está, de fato, na base de muitas das barreiras que nós enfrentamos: medo de não ser admirada. Medo de não fazer a escolha certa. Medo de ser antipática. Medo de ser uma fraude. Medo de ser julgada como péssima profissional… Mas, atenta: características exclusivamente humanas e femininas, como criatividade, imaginação, intuição e emoção, serão ainda mais importantes no futuro. As máquinas são muito boas em simular, mas não em ser. E é aí que, ao meu ver, o feminino vira o jogo.”

CRISTIANA BRITO, diretora de relações institucionais e sustentabilidade para a América Latina da BASF, empresa química
“Enfrentar o preconceito é um dos maiores desafios do meu dia a dia. É claro que todos temos desafios. É preciso inovar, estar atualizada e buscar aprender sempre, independentemente do gênero. Mas, reconhecer sua capacidade para exercer determinada função e notar barreiras para o crescimento simplesmente porque se é mulher, poxa, realmente é muito frustrante. E como lido com isso? Insisto no meu ponto, deixo bem claro, volto no assunto quantas vezes for necessário. Se eu vejo alguma mulher tendo a opinião abafada em uma reunião, por exemplo, procuro apoiá-la de forma delicada, mas mantendo a firmeza. Trabalhando no livro ‘Mulher alfa: liderança que inspira’, pude perceber que disciplina, empatia, coragem e resiliência são características essenciais, que fazem a diferença feminina. Também podemos incluir assertividade, dedicação, poder de decisão, sociabilidade, flexibilidade, curiosidade e respeito. Boas líderes são mulheres que inspiram os que estão a sua volta. E é importante lembrar que as mulheres têm características de liderança diferentes dos homens, o que é ótimo! Equipes mistas são muito mais produtivas.”

Apple está contratando mais engenheiros de software do que de hardware

Desde a sua fundação até algum ponto não muito distante no passado, a Apple sempre se orgulhou de ser uma empresa de hardware. Era das coisas palpáveis, das soluções de design práticas, que Steve Jobs mais se orgulhava; basta ver que, até 2007, a empresa se chamava “Apple Computer, Inc.”. Em algum momento, entretanto, isso mudou — e o Thinknum tem números para mostrar essa mudança.

Segundo dados trazidos pelo site, a Apple está, pela primeira vez (desde pelo menos janeiro de 2016, quando a Thinknum começou a fazer esse levantamento), contratando mais engenheiros de software do que de hardware.

O GIF acima mostra que, desde que o site começou a levantar esses dados, a área de engenharia de hardware tem sido a mais popular entre as vagas de emprego disponibilizadas pela Apple — em alguns pontos, com uma larga vantagem sobre os demais segmentos. A virada ocorreu no terceiro trimestre de 2018, quando a procura por profissionais de engenharia de software conquistou a liderança, mantendo-a no período seguinte.

É bom notar que os dados referem-se somente às vagas de emprego anunciadas no site da Apple; contratações de empresas terceirizadas ou vagas anunciadas por outros portais não contam para o levantamento do Thinknum. Ainda assim, os dados são importantes — e, de certa forma, previsíveis, já que a Maçã não esconde de ninguém que está no caminho para se tornar uma empresa de serviços (e, portanto, software).

Com o iPhone (supostamente) vendo seus dias de maior glória atrás de si, é importante para a Apple, agora, criar um ecossistema ainda mais forte e atrativo para prender os clientes que já tem e atrair novos consumidores. Por outro lado, fica a torcida para que a área de hardware não seja completamente esquecida — muitos de nós (eu incluído), afinal, estamos aqui principalmente por conta dela. [MacMagazine]

VIA MACRUMORS

Após #MeToo, altos executivos relatam temor em orientar mulheres

Especialistas afirmam que o movimento se tornou um problema de gestão de riscos para os homens
Katrin Bennhold, The New York Times

Alguns executivos no Fórum Econômico Mundial disseram evitar reuniões a sós com colegas mulheres. Foto: Gian Ehrenzeller/EPA, via Shutterstock

DAVOS, SUÍÇA – Os homens participando da reunião anual do fórum Econômico Mundial em janeiro estavam preocupados com muitas coisas. Uma desaceleração econômica global, ameaças à segurança cibernética, populismo, guerra. E também orientar projetos com mulheres na era do movimento #MeToo, de acordo com o que muitos disseram. “Agora, penso duas vezes antes de passar tempo sozinho com alguma jovem colega”, disse um executivo americano das finanças, que pediu para não ser identificado porque o assunto é “demasiadamente polêmico”.

“Também me sinto assim”, disse outro executivo. O movimento #MeToo abriu as portas para que as mulheres denunciassem os assédios dos quais são vítimas, obrigando as empresas a levar o assunto mais a sério. Mais de 200 homens de destaque perderam seus empregos, e quase a metade deles foi substituída por mulheres.

Mas, numa consequência indesejada, as empresas tentam minimizar o risco de assédio sexual simplesmente limitando o convívio entre funcionárias e executivos do alto escalão, o que na prática exclui as mulheres de importantes oportunidades de orientação e exposição. “Basicamente, o movimento #MeToo se tornou um problema de gestão de risco para os homens”, disse Laura Liswood, secretária-geral do Council of Women World Leaders.

É um problema admitido por muitos. Em fevereiro do ano passado, duas pesquisas online a respeito dos efeitos do #MeToo no ambiente de trabalho identificaram que quase metade dos homens em cargos de gestão se sentia pouco à vontade com mulheres em atividades comuns do trabalho, como o trabalho em dupla ou a socialização. Um em cada seis administradores se disse reticente ao orientar uma colega, de acordo com os estudos, que, juntos, tiveram quase 9 mil participantes adultos nos Estados Unidos.

“Alguns homens me disseram que evitam jantar com uma orientanda, ou que temem designar uma mulher para trabalhar em parceria com um colega”, disse Pat Milligan, que comanda as pesquisas em liderança feminina para a empresa de consultoria Mercer. “Se permitirmos que isso ocorra, o resultado será um recuo de décadas. As mulheres precisam do apoio desses líderes, que, em sua maioria, ainda são homens”, disse. Além da questão da orientação, outros indicadores de igualdade de gênero estão piorando.

Em dezembro, o Fórum Econômico Mundial previu que seriam necessários 202 anos para alcançarmos a igualdade de gênero no ambiente de trabalho. Em 2016, essa estimativa era de 170 anos. Das empresas da lista Fortune 500, apenas 24 tinham mulheres na direção executiva em 2018, uma queda em relação às 32 do ano anterior.

“A questão de gênero produziu uma fadiga”, disse Pat, apontando que o movimento #MeToo surgiu após uma década dedicada à conscientização do público para os desequilíbrios entre os gêneros. “Estávamos defendendo bem a igualdade para as mulheres e a questão estava avançando bastante. Então, veio o #MeToo”.

Estilo de vida ‘workaholic’ pode ser prejudicial?

A cultura de veneração do trabalho gera debates sobre exploração, eficiência e ambições profissionais
Erin Griffith, The New York Times

Passar o tempo livre com algo que não esteja relacionado ao trabalho é considerado um motivo para sentir-se culpado Foto: Taylor Callery The New York Times

Nos sites da WeWork, em Nova York, algumas inscrições em almofadas imploram que você “faça aquilo de que gosta”. Letreiros em néon pedem: “Lute mais”. E murais espalham a boa nova: “Graças a Deus é segunda”. Até os pepinos nos seus recipientes refrigerados têm um programa. “Não pare quando está cansado”, alguém gravou recentemente nos legumes flutuantes. “Pare quando tiver terminado”.

Bem-vindo à cultura da atividade frenética, da obsessão pelo esforço incessantemente positivo, desprovido de humor e inescapável. Rise and Grind (algo como “levante e vá à luta”) é o tema de uma campanha da Nike e o título de um livro. Novas startups como a Hustle, que produz um conhecido boletim para empresas e séries de conferências, e a One37pm, uma companhia de conteúdo criada pelo santo patrono da agitação, Gary Vaynerchuk, glorificam a ambição não como meio para um fim, mas como estilo de vida.

“O atual status do empreendedorismo é maior do que uma carreira”, diz a página do site About Us” da One37pm. “É ambição, coragem e luta. É uma atuação viva que ilumina a sua criatividade… uma sessão de treino que faz circular as suas endorfinas”. Não só uma pessoa nunca para de trabalhar, ela nunca abandona uma espécie de fascínio pelo trabalho, em que o propósito principal de treinar ou de assistir a um concerto é buscar a inspiração que leva o indivíduo de volta à luta. Na nova cultura do trabalho, suportar ou simplesmente gostar do próprio emprego não basta. Os trabalhadores devem amar o que fazem, e depois promover aquele amor nas redes sociais, fundindo assim a própria identidade à dos empregadores.

Este é o glamour da labuta, e está se tornando o princípio corrente. Da maneira mais visível, WeWork – que oferece espaços de trabalho compartilhados para startups de tecnologia, e que recentemente foi avaliada pelos investidores em 47 bilhões de dólares – exportou sua marca de workaholismo performático para 27 países, com 400 mil inquilinos, incluindo os trabalhadores de 30% das 500 da Fortune Global.

Em janeiro, o fundador da WeWork, Adam Neumann, anunciou que a sua startup passaria a chamar-se We Company, a fim de refletir sua expansão no setor de imóveis residenciais e na educação. Descrevendo a mudança, a revista de negócios Fast Company afirmou que “em vez de apenas alugar mesas, a companhia visa abranger todos os aspectos da vida das pessoas, tanto no mundo físico quanto no digital”.

Imaginamos que o cliente ideal seja alguém tão apaixonado pela estética do escritório da WeWork que dorme em um apartamento WeLive, malha em uma academia Rise da We, e manda as crianças em uma escola WeGrow.

Uma iniciativa sinistra e exploradora

Há os que acreditam que o trabalho duro não significa necessariamente trabalhadores felizes. David Heinemeier Hansson, cofundador da empresa de software Basecamp e autor do livro It Doesn’t Have to Be Crazy at Work, disse que “a grande maioria das pessoas que insistem na mania do esforço nada tem a ver com as que fazem concretamente o trabalho. São os gerentes, financistas e proprietários”.

Heinemeier Hansson afirmou que, embora os dados mostrem que longas horas de trabalho não melhoram nem a produtividade nem a criatividade, os mitos sobre o excesso de trabalho persistem porque justificam a riqueza criada para a elite de tecnólogos. “É uma coisa sinistra e abusiva”, acrescentou.

Elon Musk, que deverá garantir uma compensação em ações superior a US$ 50 bilhões se sua companhia, a Tesla, atingir os patamares certos de desempenho, é um exemplo da glorificação do trabalho de muitos que o beneficiarão em primeiro lugar. Ele tuitou em novembro que há lugares mais fáceis para se trabalhar do que a Tesla. “Por outro lado, ninguém jamais mudou o mundo trabalhando 40 horas semanais”. O número correto de horas “varia de uma pessoa para outra”, mas é de cerca de “80, podendo chegar ao pico de 100”.

É possível que a indústria tecnológica tenha adotado esta cultua quando empresas como a Google começaram a alimentar, agradar e bancar consultas médicas para seus funcionários. As regalias visavam ajudar as companhias a atrair o melhores talentos e a manter os funcionários o maior tempo possível sentados em suas mesas de trabalho.

Talvez todos nós tenhamos, até certo ponto, fome de significado. A participação em uma religião organizada está diminuindo, principalmente entre os integrantes da geração americana do milênio. Em San Francisco, o conceito de produtividade assumiu uma dimensão quase espiritual.

Os tecnólogos interiorizaram a  ideia – arraigada na ética protestante – de que o trabalho não é algo que as pessoas fazem para conseguir o que querem; o trabalho em si é tudo. Portanto, tudo o que torna a vida mais agradável ou as regalias de uma empresa que otimiza seu dia a fim de adequá-lo a mais trabalho ainda é intrinsecamente boa.

Aidan Harper, que criou uma campanha europeia chamada 4 Day Week, afirma que esta é uma coisa desumana e perversa. “Ela cria o pressuposto de que só valemos enquanto seres humanos pela capacidade de produzir – pela capacidade de trabalhar, e não pela nossa humanidade”, afirmou. Segundo Harper, é uma espécie de culto para convencer os trabalhadores a aceitarem a exploração com a mensagem de que mudarão o mundo. “Ela cria a ideia de que Elon Musk é nossos grande sacerdote”.

Desperdiçar tempo em tudo o que não esteja relacionado ao trabalho tornou-se uma razão para sentir-se culpado. Jonathan Crawford, um empreendedor de San Francisco, disse que sacrificou seus relacionamentos pessoais e engordou cerca de 20 quilos enquanto trabalhava na Storenvy, sua startup de comércio eletrônico. Se ele conseguia socializar-se, era em algum evento de rede. Se lia, era um livro relacionado a negócios.

Crawford mudou o seu estilo de vida depois de se dar conta de que isso acabara com sua vida. Agora, ele aconselha seus colegas fundadores a procurarem atividades diferentes ou a lerem ficção, a verem filmes ou a se dedicarem a algum jogo. Bernie Klinder, um consultor de tecnologia, disse que tentou limitar-se a 11 horas diárias de trabalho cinco dias por semana. No entanto, ele é realista a respeito desta corrida destrutiva. “Procuro lembrar de que, se eu cair morto amanhã, todos os meus prêmios em acrílico pelo meu desempenho irão para o lixo no dia seguinte”, escreveu, “e a minha vaga estará no jornal antes mesmo do meu obituário”.

As armadilhas do excesso de atividade

O fim lógico da atividade excessiva é o esgotamento. É o tema de um ensaio viral de Anne Helen Petersen, crítica de cultura do site BuzzFeed, que trata de uma das incongruências da mania de trabalhar dos jovens. Ou seja: se os jovens millenials fossem supostamente preguiçosos, como poderiam também estar obcecados por seus empregos?

Os millenials, de acordo com Anne, só lutam desesperadamente para realizar suas grandes expectativas. Uma geração foi criada para esperar que boas notas e super-realizações extracurriculares os premiariam com empregos maravilhosos que lhes permitiriam cultivar suas paixões. Ao contrário, eles acabaram com um trabalho precário, sem sentido e com a dívida da universidade. Portanto, posar de rise and grinder começa a fazer sentido como mecanismo de defesa.

A maioria dos empregos – até os melhores empregos – está repleta de trabalho duro e inútil. A maioria das corporações acaba nos decepcionando de algum modo. E no entanto, muitas companhias ainda promovem as virtudes do trabalho com mensagens de fundo filosófico. A Spotify, que nos permite ouvir música, diz que sua missão é “revelar o potencial da criatividade humana”.

David Spence, professor da Escola de Administração de Empresas da Universidade de Leeds, na Grã-Bretanha, diz que esta postura das companhias, de economistas e políticos data pelo menos do surgimento do mercantilismo na Europa, no século 16. “Os empregadores se esforçam constantemente para venerar o trabalho com o fim de distrair de seus aspectos nada atraentes”, ele disse, mas esta propaganda pode ser contraproducente. Na Inglaterra do século 17, o trabalho era venerado como cura do vício, segundo Spencer, entretanto a verdade não compensadora simplesmente levava os trabalhadores a beber mais. Um cálculo equivocado?

As companhias de internet talvez tenham errado em seus cálculos ao encorajar seus funcionários a equilibrarem o trabalho com seu valor intrínseco enquanto seres humanos. Depois de uma longa era comprazendo-se com uma avaliação positiva, a indústria tecnológica agora experimenta uma reação negativa com temas que vão desde um comportamento monopólico à difusão da desinformação e à incitação à violência racial. Enquanto isso, os trabalhadores estão descobrindo o poder que eles têm. 

Em novembro, cerca de 20 mil funcionários do Google participaram de um protesto de rua contra assédio sexual na companhia. Os funcionários de outras empresas  anularam um contrato de inteligência artificial com o Departamento da Defesa dos Estados Unidos que poderia fazer com que drones militares  se tornassem mais letais.

Heinemeier Hansson mencionou os protestos dos funcionários como uma evidência de que os trabalhadores millenials poderiam revoltar-se contra a cultura do excesso de trabalho. “As pessoas não vão defender esse tipo de coisa ou comprar a propaganda segundo a qual a eterna felicidade está em monitorar as próprias pausas para ir à toalete”, disse. 

Ele se referia a uma entrevista que a ex-diretora executiva da Yahoo, Marissa Mayer, deu em 2016, em que afirmou que trabalhar 130 horas por semana era possível, “desde que o funcionário estabeleça uma estratégia para controlar seu sono, o uso do chuveiro e a frequência com que vai ao banheiro”.

Enfim, os trabalhadores precisam decidir seu grau de devoção. Os comentários de Marissa Mayer foram amplamente divulgados, mas desde então alguns compartilharam ansiosamente as próprias estratégias imitando seu cronograma. Do mesmo modo, os tuítes de Musk foram muito criticados, mas também geraram seguidores e pedidos de emprego. A triste realidade de 2019 é que pedir emprego a um bilionário via Twitter não é considerado algo embaraçoso, mas um expediente perfeitamente plausível para sobreviver.