Conheça Katie Bouman, a cientista responsável pela imagem do buraco negro

Dados para gerar imagem foram obtidos a partir de oito conjuntos de radiotelescópios
Gustavo Frank

Katie Bouman – Reprodução/Twitter/MIT

O assunto mais popular nas rodas de conversa nesta quarta-feira (10) é a imagem real do buraco negro no universo, uma descoberta feita pelo telescópio Event Horizon. 

Entre os 200 pesquisadores responsáveis pela descoberta, um nome chama a atenção: o de Katie Bouman. A cientista, de 29 anos, foi quem liderou a criação de um algoritmo que permitiu aos demais estudiosos capturarem a imagem do buraco negro pela primeira vez. No Facebook, ela compartilhou a felicidade com a descoberta. 

“Observando, incrédula, a primeira imagem que eu já fiz de um buraco negro enquanto estava em processo de reconstrução”.

Watching in disbelief as the first image I ever made of a black hole was in the process of being reconstructed.

Para conseguir armazenar a imagem, que reservaram um total de 5 petabytes de informação —que equivalem a 5 milênios de músicas MP3 tocando ou selfies tiradas por 40 mil pessoas ao longo de toda a vida—, foi preciso uma “pilha de discos rígidos de dados de imagem”, manuseada por Katie, que os abraçou para essa foto, no mínimo, icônica:

O MIT, uma das instituições de tecnologia mais respeitas do mundo, comparou a criação de Katie à pesquisa que permitiu aos astronautas pousarem na lua, colocando sua imagem ao lado de Margaret Hamilton, que recebeu o crédito por ter escrito o código de software crucial que permitiu à Nasa tornar possível uma missão à Lua. 

Os estudos feitos pela jovem começaram em 2016, quando começou a liderar o desenvolvimento do algoritmo enquanto cursava engenharia elétrica e ciência da computação. Em 2017, ela conquistou o doutorado, último e mais alto título acadêmico recebido por um indivíduo, na área. 

Em entrevista ao MIT News, Katie explicou que tentar tirar uma foto de um buraco negro é comparável a “fotografar uma laranja na lua, mas com um radiotelescópio. Imaginar algo tão pequeno significa que precisaríamos de um telescópio com 10 mil quilômetros de diâmetro, o que não é prático, porque o diâmetro da Terra não chega a 13 mil quilômetros”.

Para contornar este desafio, o algoritmo de Bouman não depende de um único telescópio. Em vez disso, reúne dados de radiotelescópios em todo o mundo.

Atualmente, Katie Bouman está lecionando na Universidade de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena. Seu foco de pesquisa é “projetar sistemas que integram fortemente algoritmo e design de sensor, tornando possível observar fenômenos anteriormente difíceis ou impossíveis de medir com abordagens tradicionais”. UNIVERSA

Anúncios

Descoberta sobre células-tronco pode levar à cura do diabetes

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco deram “passo crítico” para encontrar uma solução para a doença
Por Lucas Agrela

(Getty images/Getty Images)

São Paulo – Pesquisadores conseguiram pela primeira vez criar células humanas que produzem insulina utilizando células-tronco. A novidade científica é um avanço em direção à criação de uma cura para o diabetes tipo 1.

“Os tratamentos terapêuticos atuais tratam apenas os sintomas da doença com injeções de insulina”, segundo Gopika Nair, autora do estudo, realizado pela Universidade da Califórnia em São Francisco. “Nosso trabalho aponta para diversas avenidas empolgantes para finalmente encontramos uma cura para a doença.” O estudo completo foi publicado periódico Nature Cell Biology.

Com a nova técnica, os pesquisadores conseguiram reproduzir em laboratório células beta pancreáticas que são destruídas pelo diabetes tipo 1. Elas são responsáveis pela produção de insulina.

Para driblar a dificuldade encontrada por outros pesquisadores para criar as células beta a partir das células-tronco, o time de cientistas da universidade utilizou um modelo baseado em como as células são organizadas no pâncreas humano.

“Agora, podemos gerar células que produzem insulina que são e agem de forma muito similar às células-beta do pâncreas que temos em nossos corpos. Esse é um passo crítico em direção à criação de células que podem ser transplantadas para pacientes com diabetes”, afirmou, em comunicado, Matthias Hebrok, PhD, professor emérito em pesquisa sobre diabetes da Hurlbut-Johnson, na UCSF, e diretor do Centro de Diabetes da UCSF.

Apesar do avanço científico significativo, ainda são necessários testes em humanos e uma série de certificações de órgãos de saúde para que a solução seja efetivamente aplicada em pacientes de diabetes. A equipe de pesquisadores considera alterar células com a técnica de edição genética conhecida como CRISPR para implantar as células de laboratório sem precisar ministrar remédios imunossupressores.

Esquizofrenia pode estar ligada à falta de vitamina D na gestação

A falta do nutriente durante o desenvolvimento fetal pode ser responsável por até 8% dos casos da doença

Esquizofrenia: o distúrbio é caracterizado pela perda de contato com a realidade, alucinações, delírios, pensamentos desordenados e índice reduzido de emoções (Thinkstock/VEJA/VEJA)

Pesquisadores dinamarqueses descobriram uma relação entre a deficiência de vitamina D durante a gestação e o desenvolvimento de esquizofrenia na vida adulta. A equipe fez essa ligação depois de observar que o risco de esquizofrenia aumentava para indivíduos que nasciam em estações mais frias (inverno e primavera), épocas em que há menos luz solar – principal responsável pela produção de vitamina D no corpo. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, indica que a falta do nutriente durante o desenvolvimento fetal pode ser responsável por até 8% dos casos de esquizofrenia.

“O novo estudo mostra que em uma amostra muito grande de bebês dinamarqueses, aqueles com deficiência de vitamina D ao nascer têm uma probabilidade 44% maior de apresentar esquizofrenia quando adultos”, disse John McGrath, principal autor da pesquisa, em nota. Embora a maioria dos pacientes não apresente sinais do transtorno até os 15 anos de idade, neurologistas já haviam considerado a possibilidade que a doença pudesse começar no útero. Outras evidências apontam para fatores genéticos, o que indica a existência de mais de um elemento capaz de provocar o distúrbio. 

De acordo com o especialista, o feto em desenvolvimento é totalmente dependente dos estoques de vitamina D da mãe; portanto, é possível que assegurar níveis adequados do nutriente nas gestantes possa resultar na prevenção de alguns casos de esquizofrenia. A vitamina D é fundamental para o processo de absorção de cálcio pelos ossos, e uma deficiência pode levar a distúrbios como osteoporose e raquitismo. No entanto, seus efeitos em outras funções do organismo ainda precisam ser melhor exploradas.

O estudo

Os pesquisadores chegaram a este resultado depois analisar os dados de 2.602 indivíduos nascidos entre 1981 e 2001 que foram diagnosticados com esquizofrenia quando jovens. Os níveis de vitamina D foram verificadas através de amostras de sangue coletadas quando esses participantes eram recém nascidos (essas informações estavam disponíveis no Registro Nacional Dinamarquês). Para efeitos de comparação, a equipe também investigou as concentrações do nutriente em amostras adicionais de pessoas que não tinham o distúrbio.

O resultado mostrou que aqueles nascidos com deficiência de vitamina D tinham um risco 44% maior de desenvolver a doença. Além disso, essa deficiência poderia responder por cerca de 8% de todos os diagnósticos de esquizofrenia na Dinamarca. “A esquizofrenia é um grupo de desordens cerebrais mal compreendidas caracterizadas por sintomas como alucinações, comprometimento cognitivo e delírios. O santo graal para o distúrbio seria evitar que os indivíduos desenvolvessem a doença”, comentou McGrath.

Para ele, algumas intervenções de saúde pública simples, baratas e seguras podem prevenir distúrbios cerebrais, como no caso do uso de folato para diminuir o risco de desenvolvimento de espinha bífida (defeito congênito no qual a medula espinhal do bebê não de desenvolve de maneira adequada). Este tipo de intervenção também poderia ser a solução para a esquizofrenia através da utilização da vitamina D. 

Aliás, dados científicos divulgados anteriormente podem até mesmo reforçar esta hipótese. Isso porque alguns estudos identificaram uma ligação genética entre a esquizofrenia e o autismo, destacando também a relação entre o autismo e a deficiência de vitamina D no desenvolvimento fetal. Portanto, é possível que, pelo menos em alguns casos, a teoria dos pesquisadores dinamarqueses possa se sustentar.

Próximos passos

Apesar dos achados importantes, os cientistas ressaltam que a descoberta provavelmente não explica completamente o surgimento da esquizofrenia nas pessoas já que em regiões com níveis relativamente altos de luz solar também existem casos da doença. Além disso, o problema pode aparecer em indivíduos que apresentam níveis normais de vitamina D ao nascer.

Segundo a equipe, o próximo passo é realizar ensaios clínicos randomizados avaliando se a administração ou não de suplementos de vitamina D em mulheres grávidas poderia efetivamente proteger seus filhos de distúrbios do desenvolvimento neurológico, como autismo e esquizofrenia. 

Esquizofrenia

De acordo com o National Institute of Mental Health dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), a esquizofrenia – que afeta cerca de 1% da população mundial – é uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Entre os sintomas mais comuns da doença estão alucinações, delírios e problemas cognitivos. No Brasil, esse transtorno afeta cerca de 2 milhões de pessoas. 

Informações da revista Saúde apontam que a esquizofrenia pode começar com uma simples apatia que surge entre o final da adolescência e o início da vida adulta (18 a 30 anos). Segundo especialistas, alguns sintomas devem colocar as pessoas em estado de atenção: dificuldade no aprendizado desde a infância, apatia, pouca vontade de trabalhar, estudar ou participar de interações sociais; falta de reação a situações que demandam emoções (felicidade e tristeza, por exemplo), surgimento de vozes na cabeça e outras alterações nos órgãos sensoriais; e mania de perseguição injustificada.

Em teste macabro, pessoas escolhem quem carro autônomo deve matar

Brasileiros preferem poupar mulheres, crianças, animais e pessoas em forma

Moral Machine

SMilhões de pessoas, espalhadas por mais de 200 países e territórios mundo afora, já participaram de um experimento virtual macabro, que usa desenhos engraçadinhos para lhes perguntar: num acidente de trânsito, se tiver de escolher, quem você prefere que morra?

Para brasileiros, mulheres, crianças, animais e pessoas em forma são os que mais merecem ser salvos.

De um lado, os cenários hipotéticos formulados pelos criadores do experimento “Moral Machine” (Máquina Moral) servem a um propósito prático. A ideia é ajudar a calibrar os “sensores de certo e errado” dos carros autônomos, que são a aposta de empresas de tecnologia como Uber e Google e de montadoras tradicionais, como a Ford, para o tráfego do futuro.

Afinal, se um dia as ruas das cidades ficarem cheias de veículos sem motoristas humanos, as máquinas é que terão de fazer escolhas quando houver risco sério de acidente –como decidir sacrificar a vida do motorista para salvar um grupo de crianças em idade pré-escolar que estão atravessando a rua, por exemplo.

Por outro lado, os dilemas propostos pela Máquina Moral (que pode ser acessada, inclusive em português, no endereço moralmachine.mit.edu) abrem uma janela indiscreta para as percepções de gente do planeta todo sobre o valor dos diferentes tipos de vida humana (e animal; bichos de estimação também são incluídos nos cenários virtuais).

Sugestões do público para a “consciência” dos computadores

Pesquisa revelou preferência por salvar maior número de pessoas e crianças

Preferência de acordo com os atributos dos personagens

Isso significa que os 40 milhões de respostas computadas até agora podem ajudar a investigar as diferenças e semelhanças entre as noções de moralidade de gente no Brasil, no Cazaquistão ou na Islândia. Trata-se de um tema muito importante para a psicologia social: até que ponto existe um conjunto universal de ideias sobre o certo e o errado?

O Brasil está no conjunto dito “Sulino”, junto com os demais países latino-americanos e, curiosamente, com a França e países de colonização francesa. Esses países são os que exibem as preferências mais altas por poupar mulheres, crianças e animais (ainda que a preferência por humanos prevaleça neles). E, o que é mais estranho, quando a escolha é entre salvar uma pessoa em forma e alguém obeso, os países “sulinos” são os que optam de modo mais claro por quem está em forma.

Os resultados do experimento, coordenado por Edmond Awad, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos), foram publicados em artigo recente na revista científica Nature.

Quanto ao tema mais filosófico do parágrafo anterior, a resposta curta é: sim, um acordo mínimo sobre quem deve ser salvo preferencialmente existe. Ao mesmo tempo, as variações regionais são consideráveis e intrigantes.

Alguns dos principais resultados estão resumidos no infográfico desta página. Em média, no mundo todo, as pessoas preferem atropelar animais a passar por cima de seres humanos, tendem a salvar o máximo possível de vidas (quando a escolha fica entre atropelar duas ou três pessoas, por exemplo) e a poupar preferencialmente crianças.

Até aí, as escolhas parecem óbvias e naturais, assim como a preferência, estatisticamente um pouco menos comum, por poupar quem respeita a lei (pedestres que cruzam na faixa destinada a eles, digamos). A coisa fica um pouco mais sinistra, porém, quando se considera que a preferência pelos “cidadãos de bem” empata com a dada aos de status social elevado (moradores de rua são considerados mais descartáveis, em média).

Além desses temas comuns, a variabilidade quanto às escolhas dos “jogadores” do experimento ajudou os pesquisadores a criar uma espécie de mapa-múndi da moralidade, no qual é possível dividir quase toda a Terra em certos agrupamentos genéricos, que compartilham preferências sobre certos aspectos do certo e do errado.

Esses grupos, montados pelos pesquisadores a partir dos dados de 130 países que tiveram ao menos uma centena de participantes no estudo, são três. O conjunto denominado “Ocidental” engloba a maioria dos países europeus, bem como EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Com culturas que são, em média, mais individualistas, são o que dão mais ênfase a salvar o maior número possível de pessoas, e também privilegiam as mulheres.

Já o conjunto “Oriental”, no qual entram tanto o Japão quanto muitos países islâmicos, não segue tão de perto a preferência geral por poupar crianças (quando comparadas a idosos) e dá mais peso que a média à preferência por pessoas de status elevado. Ambos os dados se encaixam na classificação mais geral dessas culturas como coletivistas, nas quais a tradição, a ordem social e a hierarquia, representadas pela idade avançada e pelo status, tendem a ser mais valorizadas.

Para a equipe de pesquisadores, a ideia não é transformar os dados em algo prescritivo, ou de direcionar a programação dos carros autônomos conforme as preferências de cada mercado (automóveis brasileiros salvando mais crianças e chineses salvando mais idosos, por exemplo). Em vez disso, a intenção é entender a complexidade dos desafios por trás da criação de uma ética da IA (inteligência artificial).

“Nos últimos dois ou três anos, mais pessoas começaram a falar sobre a ética da IA”, declarou Awad à revista MIT Technology Review. “Mais pessoas começaram a se tornar cônscias de que a IA pode ter diferentes consequências éticas para grupos diferentes de pessoas. E isso é algo promissor.” [Reinaldo José Lopes]

Este projeto ajuda a reduzir a desigualdade de gênero na ciência

Página reúne o contato de fontes relacionadas à ciência no mundo todo para entrevistas e palestras
Por Ariane Alves

hidden-figures-3.png
Cena do filme “Estrelas Além do Tempo” (2016), que conta a história das cientistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson (Facebook/Hidden Figures/Reprodução)


São Paulo – A desigualdade de gênero é um problema em muitos campos de trabalho. Na ciência, o quadro é igualmente grave. Só no Brasil, apenas 25% das bolsas de pesquisa da categoria mais alta vão para as mulheressegundo levantamento da organização Gênero e Número feito em 2017. Atenta à questão, uma iniciativa pretende colocar as cientistas espalhadas pelo mundo literalmente no mapa, apresentando de maneira visual a distribuição das profissionais pelo mundo.

Pense na última vez em que você viu um painel ou foi a um evento comandado apenas por homens. Provavelmente, não faz muito tempo. No Facebook, a página “Aqui só fala homem branco” ironiza a situação, divulgando chamadas de eventos ou fotos de palcos totalmente masculinos e excludentes às mulheres e às pessoas negras. A ausência de diversidade chama cada vez mais atenção em um momento permeado por muitas iniciativas que tentam alterar o cenário.

Chamada “500 Women Scientists” (500 Mulheres Cientistas, em português), a organização por trás do projeto que mapeia as mulheres é uma das que pretende reduzir a desigualdade de gênero na ciência, que se deve a muitos fatores, sendo um deles a sub-representação feminina nos espaços de discussão. A principal ferramenta do site é a página “Request a Woman Scientist” (“Solicitar Uma Cientista”, em português), que apresenta um mapa interativo para que jornalistas, organizadores de conferências e outros obtenham rapidamente detalhes de contato de mulheres cientistas em vários campos.

A ferramenta permite filtrar por área do conhecimento, grau de estudo da profissional, país e região, além da busca por palavras-chave. O resultado exibe uma lista com nome e e-mail das cientistas.

Cientistas brasileiras ao alcance

No Brasil, a ONG feminista Think Olga mantém desde 2014 o projeto “Entreviste Uma Mulher” um repositório de contatos de mulheres da academia, que estão disponíveis para dar entrevistas ou participar de eventos sobre seu campo de estudo. A planilha conta com mais de 150 nomes e o processo de cadastro de uma nova fonte é bastante simples.

Altos níveis de estresse podem encolher o cérebro e afetar a memória

Estudo com pessoas de meia idade sugere atenção com a rotina
Por Ariane Alves

34340_500xx_
. (Compassionate Eye Foundation/Paul Bradbury/OJO Images Ltd/Getty Images)


São Paulo – O cortisol, hormônio ligado ao estresse, pode ter seus níveis relacionados ao tamanho do cérebro e à diminuição das funções cognitivas. Isso significa que pessoas mais estressadas tendem a apresentar redução no volume do cérebro e perda de memória. É o que mostra um estudo publicado esta semana pela Academia Americana de Neurologia.

A equipe coletou dados cognitivos de 2.231 participantes entre 40 e 50 anos, que tiveram seus níveis de cortisol medidos pela manhã antes de comer. No geral, as pessoas com níveis mais elevados de cortisol foram associadas a uma pior estrutura e cognição do cérebro.

“O cortisol afeta muitas funções diferentes, por isso é importante investigar completamente como os altos níveis do hormônio podem afetar o cérebro”, disse em um comunicado Justin B. Echouffo-Tcheugui, professor da Escola de Medicina de Harvard e coautor do estudo. “Enquanto outros estudos examinaram o cortisol e a memória, acreditamos que o nosso é o primeiro a explorar, em pessoas de meia-idade, níveis de cortisol e volume cerebral em jejum, bem como habilidades de memória e pensamento”, afirma.

Vida moderna como “fator de risco”
A vida nas grandes cidades torna a ideia de uma rotina sem nenhum tipo de estresse praticamente impossível. O que os pesquisadores querem agora é mapear as causas e consequências das alterações provocadas pela rotina agitada. “Em nossa busca para entender o envelhecimento cognitivo, um dos fatores que atraem interesse e preocupação significativos é o crescente estresse da vida moderna”, acrescenta Sudha Seshadri, professora no Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas e co-autora da pesquisa.

A equipe também investigou se os níveis mais altos de cortisol estavam ligados ao APOE4, fator de risco genético que tem sido associado a doenças cardiovasculares e ao mal de Alzheimer, mas não encontraram uma relação direta entre ambos.

Apesar da associação entre aumento dos níveis de cortisol e a perda de memória e diminuição do cérebro, não se pode afirmar que se trata de uma relação de causa. No entanto, a equipe observa que é importante acompanhar o nível de cortisol no organismo e buscar maneiras de estresse, como dormir o suficiente e fazer exercícios moderados.

O que é a síndrome do pânico, doença que Gisele Bündchen enfrenta

O problema atinge 2% da população brasileira e é caracterizado por crises de taquicardia, suores, tremores, falta de ar, dor no peito e medo de morrer
Por Letícia Naísa

gisele-ok
Gisele: a modelo detalha em sua biografia que sofreu com problemas de saúde mental 


São Paulo — Prestes a lançar uma autobiografia, a modelo Gisele Bündchen conta em seu livro que já teve pensamentos suicidas e sofreu com síndrome do pânico.

O transtorno, que atinge cerca de 2% da população brasileira, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é caracterizado por crises recorrentes de pânico. Os sintomas incluem taquicardia, suores, tremores, falta de ar, dor no peito, náusea, medo de morrer ou de perder o controle, e pode ser confundido com problemas cardíacos ou Acidente Vascular Cerebral (AVC).

A crise dura poucos minutos, segundo especialistas. O problema maior do transtorno é viver com o medo. A diferença entre uma crise isolada e o transtorno é a frequência dos sintomas e o quanto eles afetam a vida do paciente.

“Uma das características da doença é o medo persistente de um novo ataque”, afirma Ana Paula Carvalho, psiquiatra do Hospital da Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “Chamamos isso de medo do medo.”

As causas da síndrome do pânico ainda são um mistério para a medicina. Segundo Ana Paula, elas podem ser multifatoriais: estresse, fatores ambientais e hábitos de vida não saudáveis, como fumar e ingerir bebidas alcoólicas.

“Mais de 50% das pessoas que têm síndrome do pânico também têm outro tipo de transtorno psiquiátrico, como ansiedade ou depressão”, afirma Ana Paula. De acordo com a OMS, 9,3% dos brasileiros têm transtorno de ansiedade. A depressão atinge 5,8% da população.

Ao todo, transtornos de ansiedade e depressão atingem 332 milhões de pessoas no mundo. Para a OMS, o investimento em tratamento é essencial. Segundo estudo da entidade, de 2016, cada dólar investido em tratamento poderia dar retorno de 4 dólares em termos de melhora de saúde e habilidade de trabalho.

No Brasil, o investimento público em saúde mental previsto para 2018 é de 1,3 bilhão de reais, segundo o Ministério da Saúde. O atendimento é feito por meio da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). Os principais atendimentos em saúde mental são realizados nos 2.550 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) que existem no país.

Tratamento

Gisele desenvolveu o problema em 2003, após passar por uma turbulência em um avião pequeno. A partir de então, a modelo passou a temer túneis, elevadores e qualquer tipo de lugar fechado.

Segundo Yuri Busin, psicólogo e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (Casme), esse tipo de temor é comum em quem tem o transtorno. Tanto uma experiência traumática quanto outros problemas de saúde mental podem desencadear a síndrome do pânico.

O tratamento inclui a psicoterapia e o uso de remédios prescritos. “O medicamento faz a pessoa se sentir bem e a psicoterapia faz ela entender o problema e modificar a forma como ela age”, afirma Busin.

Durante uma crise, o psicólogo aconselha que a pessoa tente se acalmar. “O melhor é se recolher. Apesar de a sensação ser uma das piores possíveis, ela passa depois de um tempo”, diz Busin.

A psiquiatra Ana Paula aconselha quem tiver suspeita de síndrome do pânico deve procurar uma avaliação de um especialista o mais rapidamente possível. “O tratamento é longo. Quanto mais cedo a pessoa buscar ajuda, melhor.”