Este projeto ajuda a reduzir a desigualdade de gênero na ciência

Página reúne o contato de fontes relacionadas à ciência no mundo todo para entrevistas e palestras
Por Ariane Alves

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Cena do filme “Estrelas Além do Tempo” (2016), que conta a história das cientistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson (Facebook/Hidden Figures/Reprodução)

São Paulo – A desigualdade de gênero é um problema em muitos campos de trabalho. Na ciência, o quadro é igualmente grave. Só no Brasil, apenas 25% das bolsas de pesquisa da categoria mais alta vão para as mulheressegundo levantamento da organização Gênero e Número feito em 2017. Atenta à questão, uma iniciativa pretende colocar as cientistas espalhadas pelo mundo literalmente no mapa, apresentando de maneira visual a distribuição das profissionais pelo mundo.

Pense na última vez em que você viu um painel ou foi a um evento comandado apenas por homens. Provavelmente, não faz muito tempo. No Facebook, a página “Aqui só fala homem branco” ironiza a situação, divulgando chamadas de eventos ou fotos de palcos totalmente masculinos e excludentes às mulheres e às pessoas negras. A ausência de diversidade chama cada vez mais atenção em um momento permeado por muitas iniciativas que tentam alterar o cenário.

Chamada “500 Women Scientists” (500 Mulheres Cientistas, em português), a organização por trás do projeto que mapeia as mulheres é uma das que pretende reduzir a desigualdade de gênero na ciência, que se deve a muitos fatores, sendo um deles a sub-representação feminina nos espaços de discussão. A principal ferramenta do site é a página “Request a Woman Scientist” (“Solicitar Uma Cientista”, em português), que apresenta um mapa interativo para que jornalistas, organizadores de conferências e outros obtenham rapidamente detalhes de contato de mulheres cientistas em vários campos.

A ferramenta permite filtrar por área do conhecimento, grau de estudo da profissional, país e região, além da busca por palavras-chave. O resultado exibe uma lista com nome e e-mail das cientistas.

Cientistas brasileiras ao alcance

No Brasil, a ONG feminista Think Olga mantém desde 2014 o projeto “Entreviste Uma Mulher” um repositório de contatos de mulheres da academia, que estão disponíveis para dar entrevistas ou participar de eventos sobre seu campo de estudo. A planilha conta com mais de 150 nomes e o processo de cadastro de uma nova fonte é bastante simples.

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Altos níveis de estresse podem encolher o cérebro e afetar a memória

Estudo com pessoas de meia idade sugere atenção com a rotina
Por Ariane Alves

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. (Compassionate Eye Foundation/Paul Bradbury/OJO Images Ltd/Getty Images)

São Paulo – O cortisol, hormônio ligado ao estresse, pode ter seus níveis relacionados ao tamanho do cérebro e à diminuição das funções cognitivas. Isso significa que pessoas mais estressadas tendem a apresentar redução no volume do cérebro e perda de memória. É o que mostra um estudo publicado esta semana pela Academia Americana de Neurologia.

A equipe coletou dados cognitivos de 2.231 participantes entre 40 e 50 anos, que tiveram seus níveis de cortisol medidos pela manhã antes de comer. No geral, as pessoas com níveis mais elevados de cortisol foram associadas a uma pior estrutura e cognição do cérebro.

“O cortisol afeta muitas funções diferentes, por isso é importante investigar completamente como os altos níveis do hormônio podem afetar o cérebro”, disse em um comunicado Justin B. Echouffo-Tcheugui, professor da Escola de Medicina de Harvard e coautor do estudo. “Enquanto outros estudos examinaram o cortisol e a memória, acreditamos que o nosso é o primeiro a explorar, em pessoas de meia-idade, níveis de cortisol e volume cerebral em jejum, bem como habilidades de memória e pensamento”, afirma.

Vida moderna como “fator de risco”
A vida nas grandes cidades torna a ideia de uma rotina sem nenhum tipo de estresse praticamente impossível. O que os pesquisadores querem agora é mapear as causas e consequências das alterações provocadas pela rotina agitada. “Em nossa busca para entender o envelhecimento cognitivo, um dos fatores que atraem interesse e preocupação significativos é o crescente estresse da vida moderna”, acrescenta Sudha Seshadri, professora no Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas e co-autora da pesquisa.

A equipe também investigou se os níveis mais altos de cortisol estavam ligados ao APOE4, fator de risco genético que tem sido associado a doenças cardiovasculares e ao mal de Alzheimer, mas não encontraram uma relação direta entre ambos.

Apesar da associação entre aumento dos níveis de cortisol e a perda de memória e diminuição do cérebro, não se pode afirmar que se trata de uma relação de causa. No entanto, a equipe observa que é importante acompanhar o nível de cortisol no organismo e buscar maneiras de estresse, como dormir o suficiente e fazer exercícios moderados.

O que é a síndrome do pânico, doença que Gisele Bündchen enfrenta

O problema atinge 2% da população brasileira e é caracterizado por crises de taquicardia, suores, tremores, falta de ar, dor no peito e medo de morrer
Por Letícia Naísa

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Gisele: a modelo detalha em sua biografia que sofreu com problemas de saúde mental 

São Paulo — Prestes a lançar uma autobiografia, a modelo Gisele Bündchen conta em seu livro que já teve pensamentos suicidas e sofreu com síndrome do pânico.

O transtorno, que atinge cerca de 2% da população brasileira, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é caracterizado por crises recorrentes de pânico. Os sintomas incluem taquicardia, suores, tremores, falta de ar, dor no peito, náusea, medo de morrer ou de perder o controle, e pode ser confundido com problemas cardíacos ou Acidente Vascular Cerebral (AVC).

A crise dura poucos minutos, segundo especialistas. O problema maior do transtorno é viver com o medo. A diferença entre uma crise isolada e o transtorno é a frequência dos sintomas e o quanto eles afetam a vida do paciente.

“Uma das características da doença é o medo persistente de um novo ataque”, afirma Ana Paula Carvalho, psiquiatra do Hospital da Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “Chamamos isso de medo do medo.”

As causas da síndrome do pânico ainda são um mistério para a medicina. Segundo Ana Paula, elas podem ser multifatoriais: estresse, fatores ambientais e hábitos de vida não saudáveis, como fumar e ingerir bebidas alcoólicas.

“Mais de 50% das pessoas que têm síndrome do pânico também têm outro tipo de transtorno psiquiátrico, como ansiedade ou depressão”, afirma Ana Paula. De acordo com a OMS, 9,3% dos brasileiros têm transtorno de ansiedade. A depressão atinge 5,8% da população.

Ao todo, transtornos de ansiedade e depressão atingem 332 milhões de pessoas no mundo. Para a OMS, o investimento em tratamento é essencial. Segundo estudo da entidade, de 2016, cada dólar investido em tratamento poderia dar retorno de 4 dólares em termos de melhora de saúde e habilidade de trabalho.

No Brasil, o investimento público em saúde mental previsto para 2018 é de 1,3 bilhão de reais, segundo o Ministério da Saúde. O atendimento é feito por meio da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). Os principais atendimentos em saúde mental são realizados nos 2.550 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) que existem no país.

Tratamento

Gisele desenvolveu o problema em 2003, após passar por uma turbulência em um avião pequeno. A partir de então, a modelo passou a temer túneis, elevadores e qualquer tipo de lugar fechado.

Segundo Yuri Busin, psicólogo e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (Casme), esse tipo de temor é comum em quem tem o transtorno. Tanto uma experiência traumática quanto outros problemas de saúde mental podem desencadear a síndrome do pânico.

O tratamento inclui a psicoterapia e o uso de remédios prescritos. “O medicamento faz a pessoa se sentir bem e a psicoterapia faz ela entender o problema e modificar a forma como ela age”, afirma Busin.

Durante uma crise, o psicólogo aconselha que a pessoa tente se acalmar. “O melhor é se recolher. Apesar de a sensação ser uma das piores possíveis, ela passa depois de um tempo”, diz Busin.

A psiquiatra Ana Paula aconselha quem tiver suspeita de síndrome do pânico deve procurar uma avaliação de um especialista o mais rapidamente possível. “O tratamento é longo. Quanto mais cedo a pessoa buscar ajuda, melhor.”

Islândia descobre seu primeiro negro

Estudo revela 780 descendentes de ex-escravo Hans Jonathan
Martin Selsoe Sorensen, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

Some of the estimated 780 living descendants of Hans Jonathan, an escaped slave, attend a commemoration at his burial site in Iceland.
Descendentes de Jonathan realizam cerimônia no local onde ele foi enterrado na Islândia Foto: NYT

Muito tempo depois de sua morte, Hans Jonathan finalmente recebe a merecida atenção. Embora já fosse uma espécie de celebridade na Islândia e tema uma biografia bem recebida, ele agora é também centro de um estudo genético inovador. Acredita-se que Hans Jonathan tenha sido o primeiro negro a viver na Islândia.

Na Dinamarca, porém, onde Hans Jonathan (ele não tem sobrenome) foi escravo, lutou numa guerra, perdeu uma famosa disputa judicial sobre escravidão se livrou da servidão fugindo para a Islândia, sua extraordinária história não desperta muito interesse.

Quando uma sua descendente nascida nos Estados Unidos pediu ao governo dinamarquês que o declaresse, postumamente, um homem livre, recebeu apenas uma polida rejeição.

Quem hoje passa em frente da mansão de cinco andares situada a menos de cem metros do Palácio Real de Amelienborg, em Copenhague, não encontra nenhum marco histórico falando da família Schimmelmann, que era dona do imóvel, ou dos escravos que lá viviam, entre eles, Hans Jonathan.

“Quem fala ou escreve sobre comércio de escravos colonialismo dinamarquês dirige-se a surdos”, disse Gilsi Palsson, professor de antropologia da Universidade da Islândia, autor de The Man Who Stole Himself: The Slave Odissey of Hans Jonathan.

O passado colonial quase desapareceu da memória coletiva dinamarquesa. O país tem comunidades com laços históricos com a Groenlândia e com as Ilhas Feroe, mas são relativamente poucos habitantes com ligações ancestrais com as antigas colônias dinamarquesas do Caribe, África e Índia.

Hans Jonathan nasceu em 1784 em St. Croix, na época, possessão dinamarquesa e hoje parte das Ilhas Virgens Americanas. Sua mãe era uma escrava doméstica negra de propriedade dos Schimmelmanns, uma família germano-dinamarquesa. Seu pai era branco.

Quando Hans Jonathan tinha 7 anos, os Schimmelmanns o levaram para Copenhague. Em 1801, ele se alistou como voluntário para lutar pela Marinha dinamarquesa , saindo incólume de uma feroz batalha naval contra os ingleses.

“Foi um combate furioso”, disse Palsson, cuja biografia de Hans Jonathan foi publicada na Islândia em 2014 e em inglês em 2016. “Seu navio foi bombardeado pesadamente.”

Hans Jonathan ganhou a simpatia de seus oficiais, que falaram dele para a família real dinamarquesa. O príncipe herdeiro e governante de facto, futuro rei Frederik VI, escreveu em uma carta que Hans Jonathan era “considerado livre e detentor de direitos”.

A Revolução Francesa trouxe novas ideias sobre igualdade e liberdade.  Como várias outros países colonialistas, a Dinamarca ainda permitia a escravidão no Caribe, mas em casa movimentos abolicionistas começaram a ganhar força. Entretanto, o status dos escravos, trazidos das colônias,  era ainda incerto.

Quando Henrietta Schimmelmann tentou reclamar a posse de Hans Jonathan para levá-lo de volta para St. Croix, e ele foi ao tribunal confirmar sua condição de homem livre, num caso que ficou famoso à época. Mas, por motivos desconhecidos, não conseguiu apresentar a carta do príncipe Frederik. Em 1802, o tribunal negou sua reivindicação e determinou que ele voltasse a pertencer aos Schimmelmanns, que quiseram vendê-lo em St. Croix.

Hans Jonathan então fugiu para a Islândia, estabeleceu-se no vilarejo de Djupivogur, casou-se com uma islandesa, teve filhos e viveu como homem livre até a morte, em 1827.

Embora quase esquecido na Dinamarca, na Islândia Hans Jonathan se  tornou muito conhecido, uma figura folclórica. Kari Stefansson, diretor da empresa deCODE Genectics, cujo pai era de Djupivogur, disse que as pessoas gostam muito dessa história que, segundo ele, “mostra que o racismo não é inato, mas um comportamento aprendido.”

DeCODE publicou neste ano um estudo aproveitando a vantagem do fundo genético altamente homogêneo da Islândia, dos notáveis registros genéticos do país e do lugar único de Hans Jonathan na história islandesa.

Pesquisadores identificaram 780 descendentes vivos do ex-escravo, colheram amostras de 182 e isolaram fragmentos caracteristicamente africanos que só poderiam ter vindo de Hans Jonatthan. Eles conseguiram reconstruir 38% do genoma da mãe de Hans Jonathan e rastrearam o material até a África Ocidental.

“É interessante constatar que  fragmentos de um genoma africano foram encontrados nos genomas de islandeses atuais”, disse Stefansson.

Os islandeses já conheciam a história de Hans Jonathan, mas muitos de seus decententes, que vivem espalhados por vários países, passaram a vida sem saber que tinham como ancestral um negro escravo.

Entre estes está Kirsten Pflomm, gerente de comunicações de Connecticut que, ao pesquisar online seu nome, 15 anos atrás, descobriu ela e toda a família estavam listados em um site escrito em islandês. Kirsten contatou o administrador do site e ficou conhecendo a dramática história do remoto avô.

“Visivelmente branquíssima”, Kristen disse que nunca passou por nada nem de longe parecido com racismo. Ela não está atrás de nenhum pedido oficial de desculpa pelo tempo que Hans Jonathan viveu acorrentado, nem espera maior conscientização dos dinamarqueses em relação à escravidão e à colonização. “Isso é uma discussão mais ampla que não me inclui”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

O que os historiadores dizem sobre a real aparência de Jesus

Esqueça os cabelos compridos e olhos azuis: para pesquisadores, ele tinha a pele e os olhos escuros e os cabelos curtos.

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Concepção artística do designer gráfico especialista em reconstituição facial forense Cícero Moraes mosta que judeus que viviam no Oriente Médio no século 1 tinham a pele, o cabelo e os olhos escuros (Foto: Cícero Moraes/BBC Brasil)

Foram séculos e séculos de eurocentrismo – tanto na arte quanto na religião – para que se sedimentasse a imagem mais conhecida de Jesus Cristo: um homem branco, barbudo, de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis. Apesar de ser um retrato já conhecido pela maior parte dos cerca de 2 bilhões de cristãos no mundo, trata-se de uma construção que pouco deve ter tido a ver com a realidade.

O Jesus histórico, apontam especialistas, muito provavelmente era moreno, baixinho e mantinha os cabelos aparados, como os outros judeus de sua época.

A dificuldade para se saber como era a aparência de Jesus vem da própria base do cristianismo: a Bíblia, conjunto de livros sagrados cujo Novo Testamento narra a vida de Jesus – e os primeiros desdobramentos de sua doutrina – não faz qualquer menção que indique como era sua aparência.

“Nos evangelhos ele não é descrito fisicamente. Nem se era alto ou baixo, bem-apessoado ou forte. A única coisa que se diz é sua idade aproximada, cerca de 30 anos”, comenta a historiadora neozelandesa Joan E. Taylor, autora do recém-lançado livro What Did Jesus Look Like? e professora do Departamento de Teologia e Estudos Religiosos do King’s College de Londres.

“Essa ausência de dados é muito significativa. Parece indicar que os primeiros seguidores de Jesus não se preocupavam com tal informação. Que para eles era mais importante registrar as ideias e os papos desse cara do que dizer como ele era fisicamente”, afirma o historiador André Leonardo Chevitarese, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro Jesus Histórico – Uma Brevíssima Introdução.

Em 2001, para um documentário produzido pela BBC, o especialista forense em reconstruções faciais britânico Richard Neave utilizou conhecimentos científicos para chegar a uma imagem que pode ser considerada próxima da realidade. A partir de três crânios do século 1, de antigos habitantes da mesma região onde Jesus teria vivido, ele e sua equipe recriaram, utilizando modelagem 3D, como seria um rosto típico que pode muito bem ter sido o de Jesus.

Esqueletos de judeus dessa época mostram que a altura média era de 1,60 m e que a grande maioria deles pesava pouco mais de 50 quilos. A cor da pele é uma estimativa.

Taylor chegou a conclusões semelhantes sobre a fisionomia de Jesus. “Os judeus da época eram biologicamente semelhantes aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio”, afirma.

“Certamente ele era moreno, considerando a tez de pessoas daquela região e, principalmente, analisando a fisionomia de homens do deserto, gente que vive sob o sol intenso”, comenta o designer gráfico brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituição facial forense com trabalhos realizados para universidades estrangeiras. Ele já fez reconstituição facial de 11 santos católicos – e criou uma imagem científica de Jesus Cristo a pedido da reportagem.

“O melhor caminho para imaginar a face de Jesus seria olhar para algum beduíno daquelas terras desérticas, andarilho nômade daquelas terras castigadas pelo sol inclemente”, diz o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor da Universidade Federal de Alagoas e autor do livro O Código da Vinci e o Cristianismo dos Primeiros Séculos.

Outra questão interessante é a cabeleira. Na Epístola aos Coríntios, Paulo escreve que “é uma desonra para o homem ter cabelo comprido”. O que indica que o próprio Jesus não tivesse tido madeixas longas, como costuma ser retratado.

“Para o mundo romano, a aparência aceitável para um homem eram barbas feitas e cabelos curtos. Um filósofo da antiguidade provavelmente tinha cabelo curto e, talvez, deixasse a barba por fazer”, afirma a historiadora Joan E. Taylor.

Chevitarese diz que as primeiras iconografias conhecidas de Jesus, que datam do século 3, traziam-no como um jovem imberbe e de cabelos curtos. “Era muito mais a representação de um jovem filósofo, um professor, do que um deus barbudo”, pontua ele.

“No centro da iconografia paleocristã, Cristo aparece sob diversas angulações: com o rosto barbado, como um filósofo ou mestre; ou imberbe, com o rosto apolíneo; com o pálio ou a túnica; com o semblante do deus Sol ou de humilde pastor”, contextualiza a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Museu de Arte Sacra de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião.

Imagens

Joan acredita que as imagens que se consolidaram ao longo dos séculos sempre procuraram retratar o Cristo, ou seja, a figura divina, de filho de Deus – e não o Jesus humano. “E esse é um assunto que sempre me fascinou. Eu queria ver Jesus claramente”, diz.

A representação de Jesus barbudo e cabeludo surgiu na Idade Média, durante o auge do Império Bizantino. Como lembra o professor Chevitarese, eles começaram a retratar a figura de Cristo como um ser invencível, semelhante fisicamente aos reis e imperadores da época.

“Ao longo da história, as representações artísticas de Jesus e de sua face raras vezes se preocuparam em apresentar o ser humano concreto que habitou a Palestina no início da era cristã”, diz o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“Nas Igrejas Católicas do Oriente, o ícone de Cristo deve seguir uma série de regras para que a imagem transmita essa outra percepção da realidade de Cristo. Por exemplo, a testa é alta, com rugas que normalmente se agrupam entre os olhos, sugerindo a sabedoria e a capacidade de ver além do mundo material, nas cenas com várias pessoas ele é sempre representado maior, indicando sua ascendência sobre o ser humano normal, e na cruz é representado vivo e na glória, indicando, desde aí, a sua ressurreição.”

Como a Igreja ocidental não criou tais normas, os artistas que representaram Cristo ao longo dos séculos criaram-no a seu modo. “Pode ser uma figura doce ou até fofa em muitas imagens barrocas ou um Cristo sofrido e martirizado como nas obras de Caravaggio ou Goya”, pontua Ribeiro Neto.

“O problema da representação fiel ao personagem histórico é uma questão do nosso tempo, quando a reflexão crítica mostrou as formas de dominação cultural associadas às representações artísticas”, prossegue o sociólogo.

“Nesse sentido, o problema não é termos um Cristo loiro de olhos azuis. É termos fiéis negros ou mulatos, com feições caboclas, imaginando que a divindade deve se apresentar com feições europeias porque essas representam aqueles que estão ‘por cima’ na escala social.”

Essa distância entre o Jesus “europeu” e os novos fiéis de países distantes foi reduzida na busca por uma representação bem mais aproximada, um “Jesus étnico”, segundo o historiador Chevitarese. “Retratos de Jesus em Macau, antiga colônia portuguesa na China, mostram-no de olhos puxados, com a forma de se vestir própria de um chinês. Na Etiópia, há registros de um Jesus com feições negras.”

No Brasil, o Jesus “europeu” convive hoje com imagens de um Cristo mais próximo dos fiéis, como nas obras de Cláudio Pastro (1948-2016), considerado o artista sacro mais importante do país desde Aleijadinho. Responsável por painéis, vitrais e pinturas do interior do Santuário Nacional de Aparecida, Pastro sempre pintou Cristo com rostos populares brasileiros.

Para quem acredita nas mensagens de Jesus, entretanto, suas feições reais pouco importam. “Nunca me ocupei diretamente da aparência física de Jesus. Na verdade, a fisionomia física de Jesus não tem tanta importância quanto o ar que transfigurava de seu olhar e gestos, irradiando a misericórdia de Deus, face humana do Espírito que o habitava em plenitude. Fisionomia bem conhecida do coração dos que nele creem”, diz o teólogo Francisco Catão, autor do livro Catecismo e Catequese, entre outros.

Morre Stephen Hawking, o gênio pop da física

Físico britânico tinha 76 anos e sofria havia décadas de uma doença degenerativa

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Morre aos 76 anos o físico britânico Stephen Hawking

Stephen Hawking, o físico genial que apresentou as maravilhas e os mistérios da ciência a milhões de leitores e desenvolveu estudos pioneiros sobre o universo, morreu nesta quarta-feira, aos 76 anos, em sua residência em Cambridge, na Grã-Bretanha. Hawking sofria desde os 21 anos de idade de uma doença degenerativa chamada esclerose lateral amiotrófica (ELA), que paralisou seus movimentos e até sua voz, confinando-o a uma cadeira de rodas pelo resto da vida – mas que não limitou seu brilhantismo e sua curiosidade, que o impulsionaram até o fim a buscar respostas para as grandes questões da ciência.

A morte do físico britânico foi confirmada em uma nota divulgada por seus filhos, Lucy, Robert e Tim. “Ele era um grande cientista e um homem extraordinário cujo legado viverá por muitos anos. Sua coragem e persistência com seu brilhantismo e humor inspiraram pessoas ao redor do mundo.” O comunicado não detalhou a causa da morte.

As contribuições do físico britânico

A enorme contribuição de Hawking para a ciência veio em duas frentes. Na divulgação científica, introduziu a cosmologia ao público leigo com livros que explicaram o mundo fascinante da astrofísica com uma linguagem acessível e apelo pop como O Grande Projeto (2010), O Universo numa Casca de Noz (2001) e, principalmente, Uma Breve História do Tempo (1988), um best-seller que vendeu mais de 10 milhões de cópias ao redor do planeta. Na área acadêmica, desenvolveu estudos sobre gravidade, teoria quântica, relatividade e, acima de tudo, buracos negros.

Encantado pelos mistérios do universo, o próprio Hawking era um mistério para a medicina. Com base em casos semelhantes, os médicos lhe deram poucos anos de vida depois do diagnóstico da doença. Erraram por muito. A ELA, porém, deixou o físico incapaz de se mover. Quando Hawking alcançou o estrelato, após a publicação de Uma Breve História do Tempo, já não tinha capacidade nem de falar – e “sua voz”, que se tornaria mundialmente conhecida, seria o som metálico do sintetizador usado para ler o que ele digitava.

O estrelato de Hawking

O próprio astrofísico atribuía sua notoriedade a essa condição. “As pessoas são fascinadas pelo contraste entre minhas capacidades físicas extremamente limitadas e a imensidade do universo de que trato”, explicava, com boas doses de modéstia e humor.

Talvez o cientista mais célebre desde Albert Einstein, Hawking sabia – e aparentemente gostava de – ser uma celebridade da cultura pop. Teve participação especial em séries como Os SimpsonsFuturamaStar Trek e Big Bang Theory, estrelou um documentário premiado e foi tema de um filme de Hollywood, e adorava dar declarações bombásticas – como quando afirmou que Deus não tem lugar nas teorias para a criação do universo ou que os humanos devem evitar o contato com ETs para sua própria sobrevivência – e fazer apostas públicas com outros cientistas renomados – em 2012 perdeu 100 dólares quando o bóson de Higgs foi detectado.

Para o astrônomo Martin Rees, que o conheceu quando ambos cursavam doutorados na Universidade de Cambridge, Hawking “se tornou possivelmente o cientista mais famoso do mundo, aclamado por suas pesquisas brilhantes, por seus livros best-sellers e, acima de tudo, por seu assombroso triunfo ante a adversidade”.

Rees, ex-presidente da Royal Society, uma das instituições científicas mais antigas e prestigiosas do mundo, na qual Hawking foi admitido em 1974, com apenas 32 anos, destaca, no entanto, que o sucesso entre o grande público não deve ofuscar as importantes contribuições de Hawking ao mundo da ciência pura, em particular nas áreas dos buracos negros, relatividade e gravidade. “Indubitavelmente ele fez mais que qualquer um desde Einstein para melhorar nosso conhecimento sobre a gravidade”, declarou o astrônomo a VEJA, em 2012.

Vício em smartphone não existe, diz Samuel Veissière, pesquisador da Universidade McGill, no Canadá

De acordo com novo diagnóstico, é a interação social que causa dependência. E nos smartphones está disponível de forma ilimitada

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Vício em smartphone (IStock/Getty Images)

Há um novo veredito no mundo da tecnologia. De acordo com Samuel Veissière, pesquisador da Universidade McGill, no Canadá, e especialista em antropologia cognitiva, as telas não criam um vício em tecnologia, mas sim em contato social.

Para ele, estar conectado com outros seres humanos é um desejo evolutivo. Foi necessário que essa característica prevalecesse para que a espécie continuasse a sobreviver.

Assim, ele revisou dezenas de estudos a respeito do vício em smartphones e concluiu que a ‘nomofobia’ — termo que descreve a dependência destes aparelhos — é criada através dos aspectos sociais dos aparelhos. Logo, os celulares funcionam como uma adaptação das necessidades primitivas e a tecnologia é apenas o aspecto secundário. “Gostamos de nos comparar, de saber dos outros, de competir”, disse. “O problema dos smartphones é que a tecnologia dá acesso excessivo a algo que desejamos muito”, completa.

Em seu artigo publicado no último dia 20 na revista científica Frontiers in Psychology, ele afirma que a disponibilidade constante é um problema geral da vida humana, não somente em redes sociais. “No mundo pós-industrial onde os alimentos são abundantes e estão sempre disponíveis, nossos desejos por gordura e açúcar, que surgiram durante a nossa longa evolução, podem ficar facilmente sobrecarregados e levar a obesidade, diabetes e doenças cardíacas”, explica.  “As necessidades e recompensas das relações sociais podem ser igualmente comparadas em um ambiente onde precisamos construir um perfil virtual para continuar interagindo”, afirmou. E o vício, claro, é o resultado.

Mas há controvérsias. De acordo co um estudo realizado na Universidade de Seul, na Coreia do Sul, divulgado em dezembro de 2017, a dependência de smartphones pode ser, sim, considerada um vício. Passar horas em frente a tela produz alterações químicas no cérebro, com reações e síndrome de abstinência semelhantes ao que acontece com dependentes de drogas. E não somente isso. Alista de efeitos negativos dos celulares só aumenta: metade dos adolescentes americanos são considerados adictos  e o uso do Facebook já se mostrou a causa de transtornos de ansiedade em alguns casos.

Por isso, até mesmo investidores da Apple se mostraram preocupados e pediram para a empresa fazer algo a respeito. [André Lopes]