Descoberta sobre células-tronco pode levar à cura do diabetes

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco deram “passo crítico” para encontrar uma solução para a doença
Por Lucas Agrela

(Getty images/Getty Images)

São Paulo – Pesquisadores conseguiram pela primeira vez criar células humanas que produzem insulina utilizando células-tronco. A novidade científica é um avanço em direção à criação de uma cura para o diabetes tipo 1.

“Os tratamentos terapêuticos atuais tratam apenas os sintomas da doença com injeções de insulina”, segundo Gopika Nair, autora do estudo, realizado pela Universidade da Califórnia em São Francisco. “Nosso trabalho aponta para diversas avenidas empolgantes para finalmente encontramos uma cura para a doença.” O estudo completo foi publicado periódico Nature Cell Biology.

Com a nova técnica, os pesquisadores conseguiram reproduzir em laboratório células beta pancreáticas que são destruídas pelo diabetes tipo 1. Elas são responsáveis pela produção de insulina.

Para driblar a dificuldade encontrada por outros pesquisadores para criar as células beta a partir das células-tronco, o time de cientistas da universidade utilizou um modelo baseado em como as células são organizadas no pâncreas humano.

“Agora, podemos gerar células que produzem insulina que são e agem de forma muito similar às células-beta do pâncreas que temos em nossos corpos. Esse é um passo crítico em direção à criação de células que podem ser transplantadas para pacientes com diabetes”, afirmou, em comunicado, Matthias Hebrok, PhD, professor emérito em pesquisa sobre diabetes da Hurlbut-Johnson, na UCSF, e diretor do Centro de Diabetes da UCSF.

Apesar do avanço científico significativo, ainda são necessários testes em humanos e uma série de certificações de órgãos de saúde para que a solução seja efetivamente aplicada em pacientes de diabetes. A equipe de pesquisadores considera alterar células com a técnica de edição genética conhecida como CRISPR para implantar as células de laboratório sem precisar ministrar remédios imunossupressores.

Anúncios

Esquizofrenia pode estar ligada à falta de vitamina D na gestação

A falta do nutriente durante o desenvolvimento fetal pode ser responsável por até 8% dos casos da doença

Esquizofrenia: o distúrbio é caracterizado pela perda de contato com a realidade, alucinações, delírios, pensamentos desordenados e índice reduzido de emoções (Thinkstock/VEJA/VEJA)

Pesquisadores dinamarqueses descobriram uma relação entre a deficiência de vitamina D durante a gestação e o desenvolvimento de esquizofrenia na vida adulta. A equipe fez essa ligação depois de observar que o risco de esquizofrenia aumentava para indivíduos que nasciam em estações mais frias (inverno e primavera), épocas em que há menos luz solar – principal responsável pela produção de vitamina D no corpo. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, indica que a falta do nutriente durante o desenvolvimento fetal pode ser responsável por até 8% dos casos de esquizofrenia.

“O novo estudo mostra que em uma amostra muito grande de bebês dinamarqueses, aqueles com deficiência de vitamina D ao nascer têm uma probabilidade 44% maior de apresentar esquizofrenia quando adultos”, disse John McGrath, principal autor da pesquisa, em nota. Embora a maioria dos pacientes não apresente sinais do transtorno até os 15 anos de idade, neurologistas já haviam considerado a possibilidade que a doença pudesse começar no útero. Outras evidências apontam para fatores genéticos, o que indica a existência de mais de um elemento capaz de provocar o distúrbio. 

De acordo com o especialista, o feto em desenvolvimento é totalmente dependente dos estoques de vitamina D da mãe; portanto, é possível que assegurar níveis adequados do nutriente nas gestantes possa resultar na prevenção de alguns casos de esquizofrenia. A vitamina D é fundamental para o processo de absorção de cálcio pelos ossos, e uma deficiência pode levar a distúrbios como osteoporose e raquitismo. No entanto, seus efeitos em outras funções do organismo ainda precisam ser melhor exploradas.

O estudo

Os pesquisadores chegaram a este resultado depois analisar os dados de 2.602 indivíduos nascidos entre 1981 e 2001 que foram diagnosticados com esquizofrenia quando jovens. Os níveis de vitamina D foram verificadas através de amostras de sangue coletadas quando esses participantes eram recém nascidos (essas informações estavam disponíveis no Registro Nacional Dinamarquês). Para efeitos de comparação, a equipe também investigou as concentrações do nutriente em amostras adicionais de pessoas que não tinham o distúrbio.

O resultado mostrou que aqueles nascidos com deficiência de vitamina D tinham um risco 44% maior de desenvolver a doença. Além disso, essa deficiência poderia responder por cerca de 8% de todos os diagnósticos de esquizofrenia na Dinamarca. “A esquizofrenia é um grupo de desordens cerebrais mal compreendidas caracterizadas por sintomas como alucinações, comprometimento cognitivo e delírios. O santo graal para o distúrbio seria evitar que os indivíduos desenvolvessem a doença”, comentou McGrath.

Para ele, algumas intervenções de saúde pública simples, baratas e seguras podem prevenir distúrbios cerebrais, como no caso do uso de folato para diminuir o risco de desenvolvimento de espinha bífida (defeito congênito no qual a medula espinhal do bebê não de desenvolve de maneira adequada). Este tipo de intervenção também poderia ser a solução para a esquizofrenia através da utilização da vitamina D. 

Aliás, dados científicos divulgados anteriormente podem até mesmo reforçar esta hipótese. Isso porque alguns estudos identificaram uma ligação genética entre a esquizofrenia e o autismo, destacando também a relação entre o autismo e a deficiência de vitamina D no desenvolvimento fetal. Portanto, é possível que, pelo menos em alguns casos, a teoria dos pesquisadores dinamarqueses possa se sustentar.

Próximos passos

Apesar dos achados importantes, os cientistas ressaltam que a descoberta provavelmente não explica completamente o surgimento da esquizofrenia nas pessoas já que em regiões com níveis relativamente altos de luz solar também existem casos da doença. Além disso, o problema pode aparecer em indivíduos que apresentam níveis normais de vitamina D ao nascer.

Segundo a equipe, o próximo passo é realizar ensaios clínicos randomizados avaliando se a administração ou não de suplementos de vitamina D em mulheres grávidas poderia efetivamente proteger seus filhos de distúrbios do desenvolvimento neurológico, como autismo e esquizofrenia. 

Esquizofrenia

De acordo com o National Institute of Mental Health dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), a esquizofrenia – que afeta cerca de 1% da população mundial – é uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Entre os sintomas mais comuns da doença estão alucinações, delírios e problemas cognitivos. No Brasil, esse transtorno afeta cerca de 2 milhões de pessoas. 

Informações da revista Saúde apontam que a esquizofrenia pode começar com uma simples apatia que surge entre o final da adolescência e o início da vida adulta (18 a 30 anos). Segundo especialistas, alguns sintomas devem colocar as pessoas em estado de atenção: dificuldade no aprendizado desde a infância, apatia, pouca vontade de trabalhar, estudar ou participar de interações sociais; falta de reação a situações que demandam emoções (felicidade e tristeza, por exemplo), surgimento de vozes na cabeça e outras alterações nos órgãos sensoriais; e mania de perseguição injustificada.

Em teste macabro, pessoas escolhem quem carro autônomo deve matar

Brasileiros preferem poupar mulheres, crianças, animais e pessoas em forma

Moral Machine

SMilhões de pessoas, espalhadas por mais de 200 países e territórios mundo afora, já participaram de um experimento virtual macabro, que usa desenhos engraçadinhos para lhes perguntar: num acidente de trânsito, se tiver de escolher, quem você prefere que morra?

Para brasileiros, mulheres, crianças, animais e pessoas em forma são os que mais merecem ser salvos.

De um lado, os cenários hipotéticos formulados pelos criadores do experimento “Moral Machine” (Máquina Moral) servem a um propósito prático. A ideia é ajudar a calibrar os “sensores de certo e errado” dos carros autônomos, que são a aposta de empresas de tecnologia como Uber e Google e de montadoras tradicionais, como a Ford, para o tráfego do futuro.

Afinal, se um dia as ruas das cidades ficarem cheias de veículos sem motoristas humanos, as máquinas é que terão de fazer escolhas quando houver risco sério de acidente –como decidir sacrificar a vida do motorista para salvar um grupo de crianças em idade pré-escolar que estão atravessando a rua, por exemplo.

Por outro lado, os dilemas propostos pela Máquina Moral (que pode ser acessada, inclusive em português, no endereço moralmachine.mit.edu) abrem uma janela indiscreta para as percepções de gente do planeta todo sobre o valor dos diferentes tipos de vida humana (e animal; bichos de estimação também são incluídos nos cenários virtuais).

Sugestões do público para a “consciência” dos computadores

Pesquisa revelou preferência por salvar maior número de pessoas e crianças

Preferência de acordo com os atributos dos personagens

Isso significa que os 40 milhões de respostas computadas até agora podem ajudar a investigar as diferenças e semelhanças entre as noções de moralidade de gente no Brasil, no Cazaquistão ou na Islândia. Trata-se de um tema muito importante para a psicologia social: até que ponto existe um conjunto universal de ideias sobre o certo e o errado?

O Brasil está no conjunto dito “Sulino”, junto com os demais países latino-americanos e, curiosamente, com a França e países de colonização francesa. Esses países são os que exibem as preferências mais altas por poupar mulheres, crianças e animais (ainda que a preferência por humanos prevaleça neles). E, o que é mais estranho, quando a escolha é entre salvar uma pessoa em forma e alguém obeso, os países “sulinos” são os que optam de modo mais claro por quem está em forma.

Os resultados do experimento, coordenado por Edmond Awad, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos), foram publicados em artigo recente na revista científica Nature.

Quanto ao tema mais filosófico do parágrafo anterior, a resposta curta é: sim, um acordo mínimo sobre quem deve ser salvo preferencialmente existe. Ao mesmo tempo, as variações regionais são consideráveis e intrigantes.

Alguns dos principais resultados estão resumidos no infográfico desta página. Em média, no mundo todo, as pessoas preferem atropelar animais a passar por cima de seres humanos, tendem a salvar o máximo possível de vidas (quando a escolha fica entre atropelar duas ou três pessoas, por exemplo) e a poupar preferencialmente crianças.

Até aí, as escolhas parecem óbvias e naturais, assim como a preferência, estatisticamente um pouco menos comum, por poupar quem respeita a lei (pedestres que cruzam na faixa destinada a eles, digamos). A coisa fica um pouco mais sinistra, porém, quando se considera que a preferência pelos “cidadãos de bem” empata com a dada aos de status social elevado (moradores de rua são considerados mais descartáveis, em média).

Além desses temas comuns, a variabilidade quanto às escolhas dos “jogadores” do experimento ajudou os pesquisadores a criar uma espécie de mapa-múndi da moralidade, no qual é possível dividir quase toda a Terra em certos agrupamentos genéricos, que compartilham preferências sobre certos aspectos do certo e do errado.

Esses grupos, montados pelos pesquisadores a partir dos dados de 130 países que tiveram ao menos uma centena de participantes no estudo, são três. O conjunto denominado “Ocidental” engloba a maioria dos países europeus, bem como EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Com culturas que são, em média, mais individualistas, são o que dão mais ênfase a salvar o maior número possível de pessoas, e também privilegiam as mulheres.

Já o conjunto “Oriental”, no qual entram tanto o Japão quanto muitos países islâmicos, não segue tão de perto a preferência geral por poupar crianças (quando comparadas a idosos) e dá mais peso que a média à preferência por pessoas de status elevado. Ambos os dados se encaixam na classificação mais geral dessas culturas como coletivistas, nas quais a tradição, a ordem social e a hierarquia, representadas pela idade avançada e pelo status, tendem a ser mais valorizadas.

Para a equipe de pesquisadores, a ideia não é transformar os dados em algo prescritivo, ou de direcionar a programação dos carros autônomos conforme as preferências de cada mercado (automóveis brasileiros salvando mais crianças e chineses salvando mais idosos, por exemplo). Em vez disso, a intenção é entender a complexidade dos desafios por trás da criação de uma ética da IA (inteligência artificial).

“Nos últimos dois ou três anos, mais pessoas começaram a falar sobre a ética da IA”, declarou Awad à revista MIT Technology Review. “Mais pessoas começaram a se tornar cônscias de que a IA pode ter diferentes consequências éticas para grupos diferentes de pessoas. E isso é algo promissor.” [Reinaldo José Lopes]

Este projeto ajuda a reduzir a desigualdade de gênero na ciência

Página reúne o contato de fontes relacionadas à ciência no mundo todo para entrevistas e palestras
Por Ariane Alves

hidden-figures-3.png
Cena do filme “Estrelas Além do Tempo” (2016), que conta a história das cientistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson (Facebook/Hidden Figures/Reprodução)


São Paulo – A desigualdade de gênero é um problema em muitos campos de trabalho. Na ciência, o quadro é igualmente grave. Só no Brasil, apenas 25% das bolsas de pesquisa da categoria mais alta vão para as mulheressegundo levantamento da organização Gênero e Número feito em 2017. Atenta à questão, uma iniciativa pretende colocar as cientistas espalhadas pelo mundo literalmente no mapa, apresentando de maneira visual a distribuição das profissionais pelo mundo.

Pense na última vez em que você viu um painel ou foi a um evento comandado apenas por homens. Provavelmente, não faz muito tempo. No Facebook, a página “Aqui só fala homem branco” ironiza a situação, divulgando chamadas de eventos ou fotos de palcos totalmente masculinos e excludentes às mulheres e às pessoas negras. A ausência de diversidade chama cada vez mais atenção em um momento permeado por muitas iniciativas que tentam alterar o cenário.

Chamada “500 Women Scientists” (500 Mulheres Cientistas, em português), a organização por trás do projeto que mapeia as mulheres é uma das que pretende reduzir a desigualdade de gênero na ciência, que se deve a muitos fatores, sendo um deles a sub-representação feminina nos espaços de discussão. A principal ferramenta do site é a página “Request a Woman Scientist” (“Solicitar Uma Cientista”, em português), que apresenta um mapa interativo para que jornalistas, organizadores de conferências e outros obtenham rapidamente detalhes de contato de mulheres cientistas em vários campos.

A ferramenta permite filtrar por área do conhecimento, grau de estudo da profissional, país e região, além da busca por palavras-chave. O resultado exibe uma lista com nome e e-mail das cientistas.

Cientistas brasileiras ao alcance

No Brasil, a ONG feminista Think Olga mantém desde 2014 o projeto “Entreviste Uma Mulher” um repositório de contatos de mulheres da academia, que estão disponíveis para dar entrevistas ou participar de eventos sobre seu campo de estudo. A planilha conta com mais de 150 nomes e o processo de cadastro de uma nova fonte é bastante simples.

Altos níveis de estresse podem encolher o cérebro e afetar a memória

Estudo com pessoas de meia idade sugere atenção com a rotina
Por Ariane Alves

34340_500xx_
. (Compassionate Eye Foundation/Paul Bradbury/OJO Images Ltd/Getty Images)


São Paulo – O cortisol, hormônio ligado ao estresse, pode ter seus níveis relacionados ao tamanho do cérebro e à diminuição das funções cognitivas. Isso significa que pessoas mais estressadas tendem a apresentar redução no volume do cérebro e perda de memória. É o que mostra um estudo publicado esta semana pela Academia Americana de Neurologia.

A equipe coletou dados cognitivos de 2.231 participantes entre 40 e 50 anos, que tiveram seus níveis de cortisol medidos pela manhã antes de comer. No geral, as pessoas com níveis mais elevados de cortisol foram associadas a uma pior estrutura e cognição do cérebro.

“O cortisol afeta muitas funções diferentes, por isso é importante investigar completamente como os altos níveis do hormônio podem afetar o cérebro”, disse em um comunicado Justin B. Echouffo-Tcheugui, professor da Escola de Medicina de Harvard e coautor do estudo. “Enquanto outros estudos examinaram o cortisol e a memória, acreditamos que o nosso é o primeiro a explorar, em pessoas de meia-idade, níveis de cortisol e volume cerebral em jejum, bem como habilidades de memória e pensamento”, afirma.

Vida moderna como “fator de risco”
A vida nas grandes cidades torna a ideia de uma rotina sem nenhum tipo de estresse praticamente impossível. O que os pesquisadores querem agora é mapear as causas e consequências das alterações provocadas pela rotina agitada. “Em nossa busca para entender o envelhecimento cognitivo, um dos fatores que atraem interesse e preocupação significativos é o crescente estresse da vida moderna”, acrescenta Sudha Seshadri, professora no Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas e co-autora da pesquisa.

A equipe também investigou se os níveis mais altos de cortisol estavam ligados ao APOE4, fator de risco genético que tem sido associado a doenças cardiovasculares e ao mal de Alzheimer, mas não encontraram uma relação direta entre ambos.

Apesar da associação entre aumento dos níveis de cortisol e a perda de memória e diminuição do cérebro, não se pode afirmar que se trata de uma relação de causa. No entanto, a equipe observa que é importante acompanhar o nível de cortisol no organismo e buscar maneiras de estresse, como dormir o suficiente e fazer exercícios moderados.

O que é a síndrome do pânico, doença que Gisele Bündchen enfrenta

O problema atinge 2% da população brasileira e é caracterizado por crises de taquicardia, suores, tremores, falta de ar, dor no peito e medo de morrer
Por Letícia Naísa

gisele-ok
Gisele: a modelo detalha em sua biografia que sofreu com problemas de saúde mental 


São Paulo — Prestes a lançar uma autobiografia, a modelo Gisele Bündchen conta em seu livro que já teve pensamentos suicidas e sofreu com síndrome do pânico.

O transtorno, que atinge cerca de 2% da população brasileira, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é caracterizado por crises recorrentes de pânico. Os sintomas incluem taquicardia, suores, tremores, falta de ar, dor no peito, náusea, medo de morrer ou de perder o controle, e pode ser confundido com problemas cardíacos ou Acidente Vascular Cerebral (AVC).

A crise dura poucos minutos, segundo especialistas. O problema maior do transtorno é viver com o medo. A diferença entre uma crise isolada e o transtorno é a frequência dos sintomas e o quanto eles afetam a vida do paciente.

“Uma das características da doença é o medo persistente de um novo ataque”, afirma Ana Paula Carvalho, psiquiatra do Hospital da Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “Chamamos isso de medo do medo.”

As causas da síndrome do pânico ainda são um mistério para a medicina. Segundo Ana Paula, elas podem ser multifatoriais: estresse, fatores ambientais e hábitos de vida não saudáveis, como fumar e ingerir bebidas alcoólicas.

“Mais de 50% das pessoas que têm síndrome do pânico também têm outro tipo de transtorno psiquiátrico, como ansiedade ou depressão”, afirma Ana Paula. De acordo com a OMS, 9,3% dos brasileiros têm transtorno de ansiedade. A depressão atinge 5,8% da população.

Ao todo, transtornos de ansiedade e depressão atingem 332 milhões de pessoas no mundo. Para a OMS, o investimento em tratamento é essencial. Segundo estudo da entidade, de 2016, cada dólar investido em tratamento poderia dar retorno de 4 dólares em termos de melhora de saúde e habilidade de trabalho.

No Brasil, o investimento público em saúde mental previsto para 2018 é de 1,3 bilhão de reais, segundo o Ministério da Saúde. O atendimento é feito por meio da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). Os principais atendimentos em saúde mental são realizados nos 2.550 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) que existem no país.

Tratamento

Gisele desenvolveu o problema em 2003, após passar por uma turbulência em um avião pequeno. A partir de então, a modelo passou a temer túneis, elevadores e qualquer tipo de lugar fechado.

Segundo Yuri Busin, psicólogo e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (Casme), esse tipo de temor é comum em quem tem o transtorno. Tanto uma experiência traumática quanto outros problemas de saúde mental podem desencadear a síndrome do pânico.

O tratamento inclui a psicoterapia e o uso de remédios prescritos. “O medicamento faz a pessoa se sentir bem e a psicoterapia faz ela entender o problema e modificar a forma como ela age”, afirma Busin.

Durante uma crise, o psicólogo aconselha que a pessoa tente se acalmar. “O melhor é se recolher. Apesar de a sensação ser uma das piores possíveis, ela passa depois de um tempo”, diz Busin.

A psiquiatra Ana Paula aconselha quem tiver suspeita de síndrome do pânico deve procurar uma avaliação de um especialista o mais rapidamente possível. “O tratamento é longo. Quanto mais cedo a pessoa buscar ajuda, melhor.”

Islândia descobre seu primeiro negro

Estudo revela 780 descendentes de ex-escravo Hans Jonathan
Martin Selsoe Sorensen, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

Some of the estimated 780 living descendants of Hans Jonathan, an escaped slave, attend a commemoration at his burial site in Iceland.
Descendentes de Jonathan realizam cerimônia no local onde ele foi enterrado na Islândia Foto: NYT

Muito tempo depois de sua morte, Hans Jonathan finalmente recebe a merecida atenção. Embora já fosse uma espécie de celebridade na Islândia e tema uma biografia bem recebida, ele agora é também centro de um estudo genético inovador. Acredita-se que Hans Jonathan tenha sido o primeiro negro a viver na Islândia.

Na Dinamarca, porém, onde Hans Jonathan (ele não tem sobrenome) foi escravo, lutou numa guerra, perdeu uma famosa disputa judicial sobre escravidão se livrou da servidão fugindo para a Islândia, sua extraordinária história não desperta muito interesse.

Quando uma sua descendente nascida nos Estados Unidos pediu ao governo dinamarquês que o declaresse, postumamente, um homem livre, recebeu apenas uma polida rejeição.

Quem hoje passa em frente da mansão de cinco andares situada a menos de cem metros do Palácio Real de Amelienborg, em Copenhague, não encontra nenhum marco histórico falando da família Schimmelmann, que era dona do imóvel, ou dos escravos que lá viviam, entre eles, Hans Jonathan.

“Quem fala ou escreve sobre comércio de escravos colonialismo dinamarquês dirige-se a surdos”, disse Gilsi Palsson, professor de antropologia da Universidade da Islândia, autor de The Man Who Stole Himself: The Slave Odissey of Hans Jonathan.

O passado colonial quase desapareceu da memória coletiva dinamarquesa. O país tem comunidades com laços históricos com a Groenlândia e com as Ilhas Feroe, mas são relativamente poucos habitantes com ligações ancestrais com as antigas colônias dinamarquesas do Caribe, África e Índia.

Hans Jonathan nasceu em 1784 em St. Croix, na época, possessão dinamarquesa e hoje parte das Ilhas Virgens Americanas. Sua mãe era uma escrava doméstica negra de propriedade dos Schimmelmanns, uma família germano-dinamarquesa. Seu pai era branco.

Quando Hans Jonathan tinha 7 anos, os Schimmelmanns o levaram para Copenhague. Em 1801, ele se alistou como voluntário para lutar pela Marinha dinamarquesa , saindo incólume de uma feroz batalha naval contra os ingleses.

“Foi um combate furioso”, disse Palsson, cuja biografia de Hans Jonathan foi publicada na Islândia em 2014 e em inglês em 2016. “Seu navio foi bombardeado pesadamente.”

Hans Jonathan ganhou a simpatia de seus oficiais, que falaram dele para a família real dinamarquesa. O príncipe herdeiro e governante de facto, futuro rei Frederik VI, escreveu em uma carta que Hans Jonathan era “considerado livre e detentor de direitos”.

A Revolução Francesa trouxe novas ideias sobre igualdade e liberdade.  Como várias outros países colonialistas, a Dinamarca ainda permitia a escravidão no Caribe, mas em casa movimentos abolicionistas começaram a ganhar força. Entretanto, o status dos escravos, trazidos das colônias,  era ainda incerto.

Quando Henrietta Schimmelmann tentou reclamar a posse de Hans Jonathan para levá-lo de volta para St. Croix, e ele foi ao tribunal confirmar sua condição de homem livre, num caso que ficou famoso à época. Mas, por motivos desconhecidos, não conseguiu apresentar a carta do príncipe Frederik. Em 1802, o tribunal negou sua reivindicação e determinou que ele voltasse a pertencer aos Schimmelmanns, que quiseram vendê-lo em St. Croix.

Hans Jonathan então fugiu para a Islândia, estabeleceu-se no vilarejo de Djupivogur, casou-se com uma islandesa, teve filhos e viveu como homem livre até a morte, em 1827.

Embora quase esquecido na Dinamarca, na Islândia Hans Jonathan se  tornou muito conhecido, uma figura folclórica. Kari Stefansson, diretor da empresa deCODE Genectics, cujo pai era de Djupivogur, disse que as pessoas gostam muito dessa história que, segundo ele, “mostra que o racismo não é inato, mas um comportamento aprendido.”

DeCODE publicou neste ano um estudo aproveitando a vantagem do fundo genético altamente homogêneo da Islândia, dos notáveis registros genéticos do país e do lugar único de Hans Jonathan na história islandesa.

Pesquisadores identificaram 780 descendentes vivos do ex-escravo, colheram amostras de 182 e isolaram fragmentos caracteristicamente africanos que só poderiam ter vindo de Hans Jonatthan. Eles conseguiram reconstruir 38% do genoma da mãe de Hans Jonathan e rastrearam o material até a África Ocidental.

“É interessante constatar que  fragmentos de um genoma africano foram encontrados nos genomas de islandeses atuais”, disse Stefansson.

Os islandeses já conheciam a história de Hans Jonathan, mas muitos de seus decententes, que vivem espalhados por vários países, passaram a vida sem saber que tinham como ancestral um negro escravo.

Entre estes está Kirsten Pflomm, gerente de comunicações de Connecticut que, ao pesquisar online seu nome, 15 anos atrás, descobriu ela e toda a família estavam listados em um site escrito em islandês. Kirsten contatou o administrador do site e ficou conhecendo a dramática história do remoto avô.

“Visivelmente branquíssima”, Kristen disse que nunca passou por nada nem de longe parecido com racismo. Ela não está atrás de nenhum pedido oficial de desculpa pelo tempo que Hans Jonathan viveu acorrentado, nem espera maior conscientização dos dinamarqueses em relação à escravidão e à colonização. “Isso é uma discussão mais ampla que não me inclui”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ