SpaceX completa viagem histórica para o turismo espacial; veja como foi o pouso

Empresa de Elon Musk realiza feito inédito de levar civis em um voo orbital, sem astronautas ou pilotos
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Pouso da cápsula Crew Dragon foi amortecido com paraquedas

A primeira missão a levar civis para a órbita da Terra foi encerrada com sucesso neste sábado, 18. Após uma viagem de três dias, a nave da SpaceX, empresa de exploração espacial do bilionário Elon Musk, pousou na costa da Flórida, no Oceano Atlântico, às 20h07 (horário de Brasília). 

A missão, chamada de Inspiration4, é histórica e coloca Elon Musk à frente na corrida do turismo espacial. Os voos turísticos para o espaço realizados em julho pela Blue Origin, de Jeff Bezos, e pela Virgin Galactic, de Richard Branson, ficaram em altitudes mais baixas e não chegaram a entrar em órbita. A SpaceX já havia se tornado no ano passado a primeira companhia privada a realizar um voo orbital tripulado – porém, na ocasião, a nave contava com a presença de astronautas profissionais.

A preparação para a cápsula Crew Dragon reentrar na atmosfera começou na sexta-feira, 17, com manobras de diminuição de altitude e alinhamento da trajetória da cápsula com o local de pouso – durante a viagem, a nave chegou a uma altitude de 575 km, bem acima da posição da Estação Espacial Internacional, que está em órbita a 408 km de distância da Terra.

Na noite deste sábado, os primeiros paraquedas da cápsula se abriram às 20h03 e, um minuto depois, foram acionados os paraquedas principais para amortecer o pouso. A nave pousou no oceano às 20h07 – na sequência, embarcações foram receber a tripulação. Dez minutos antes do pouso, no momento da reentrada na atmosfera, a cápsula passou por um período de “blackout” de quatro minutos, sem comunicação com a Terra.  

Reveja abaixo a transmissão do pouso:

Ao contrário de Bezos e Branson, Elon Musk não embarcou na aventura. Quatro passageiros participaram da missão: Jared Isaacman (bilionário de 38 anos, fundador da empresa de pagamentos Shift4 Payments), Hayley Arceneaux (médica de 29 anos que sobreviveu a um câncer ósseo), Chris Sembroski (veterano da força aérea dos Estados Unidos de 42 anos) e Sian Proctor (geologista de 51 anos). Os tripulantes participaram de treinamentos e simulação com a SpaceX desde fevereiro.

Isaacman pagou por todos os assentos no voo – o valor desembolsado não foi revelado. O plano é usar a viagem para arrecadar fundos para um hospital americano de tratamento de câncer infantil. Entre as cargas da Inspiration4, estarão um conjunto de experimentos relacionados à saúde, e os objetos usados na viagem serão leiloados. A missão pretende arrecadar US$ 200 milhões para o hospital de pesquisa – Isaacman doará outros US$ 100 milhões. 

Nos últimos três dias, os tripulantes deram uma volta na Terra a cada 90 minutos. Na sexta-feira, 17, os passageiros participaram de uma transmissão de aproximadamente 10 minutos direto do espaço, em que falaram sobre a experiência e mostraram alguns objetos que levaram para viagem. Isaacman afirmou que a cápsula Crew Dragon estava se deslocando a 7,6 quilômetros por segundo. “Estamos muito orgulhosos de compartilhar essa experiência com todo mundo. Sabemos o quanto somos afortunados por estar aqui”, afirmou o bilionário. 

Chris Sembroski chegou a tocar ukulele dentro da nave na transmissão – o instrumento será um dos itens a serem aproveitados no leilão beneficente. Já a médica Hayley Arceneaux mostrou um ultrassom portátil, usado para examinar passageiros. 

Futuro

O voo da SpaceX é um novo salto nas viagens turísticas ao espaço. A nave com Jeff Bezos, fundador da Amazon, atingiu a altitude de 107 km e viajou por 10 minutos, enquanto o planador com Richard Branson chegou a 80,5 km em um voo de 90 minutos. Nenhum dos dois veículos chegaram a entrar em órbita, e eles passaram longe da localização da Estação Espacial Internacional. 

“A viagem da Inspiration4 é de outra ordem de grandeza. As iniciativas da Virgin Galactic e da Blue Origin foram apenas passeios, enquanto a SpaceX concluiu uma missão espacial de verdade”, afirma Cassio Leandro Dal Ri Barbosa, astrônomo e professor do Centro Universitário FEI.https://arte.estadao.com.br/uva/?id=y3A332

Para Alexandre Zabot, professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o voo da SpaceX consolida uma nova era no setor. 

“Esse tipo de viagem exige foguetes com uma capacidade de lançamento de carga para o espaço muito diferenciada. Até então, víamos algumas aventuras pontuais relacionadas ao turismo espacial. Agora, já vemos três empresas mostrando tecnologias maduras e fazendo voos inaugurais com civis”, diz Zabot. “Estão abertas as portas para um turismo espacial permanente, gerenciado por companhias privadas”. 

Bezos e Branson reconheceram o sucesso da Inspiration4. “Parabéns Elon Musk, SpaceX e equipe pelo sucesso no lançamento da Inspiration4 na noite passada. É mais um passo em direção a um futuro de um espaço acessível a todos”, afirmou o fundador da Amazon no Twitter na quinta-feira, 18. Também na rede social, Branson parabenizou a empresa por alcançar a órbita e disse que a viagem é “outro grande momento para a exploração espacial”. 

Inspiration4 | In-Flight Update with the Crew

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The Inspiration4 mission is part of Jared’s ambitious fundraising goal to give hope to all kids with cancer and other life-threatening diseases. Visit St. Jude Children’s Research Hospital® to learn how you can help the Inspiration4 crew reach their $200M fundraising goal.

During their multi-day journey in orbit, the Inspiration4 crew will conduct scientific research designed to advance human health on Earth and for future long-duration spaceflights.

Junte-se a nós para a primeira atualização ao vivo em órbita da tripulação do Inspiration4 – o primeiro vôo espacial humano totalmente civil a orbitar!

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Durante sua jornada de vários dias em órbita, a tripulação do Inspiration4 conduzirá pesquisas científicas destinadas a promover a saúde humana na Terra e para futuros voos espaciais de longa duração.

‘Esforço para ciência no Brasil é 4 vezes maior’, diz biomédica Jaqueline Goes de Jesus que sequenciou coronavírus e ‘virou’ Barbie

Pesquisadora integra o time de especialistas que fez o sequenciamento genômico do primeiro caso de Covid-19 detectado no Brasil em apenas 48 horas
André Biernath

Jaqueline Goes de Jesus virou boneca na coleção da Barbie que faz homenagem a mulheres que atuaram na linha de frente da pandemia

SÃO PAULO | BBC NEWS BRASIL – Prestes a completar 32 anos, a biomédica Jaqueline Goes de Jesus ainda não se sente 100% confortável com os holofotes que iluminaram sua carreira nos últimos meses.

Graduada pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e doutora em patologia humana e experimental pela Universidade Federal da Bahia, a pesquisadora integra o time de especialistas que fez o sequenciamento genômico do primeiro caso de Covid-19 detectado no Brasil em apenas 48 horas, um recorde que só foi igualado pelo Instituto Pasteur, na França.

O projeto, que ganhou destaque nacional e internacional, contou com uma parceria entre o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto Adolfo Lutz, também na capital paulista.

Dali em diante, a vida de Goes de Jesus virou de cabeça pra baixo: ela foi homenageada na Assembleia Legislativa da Bahia, se tornou personagem da Turma da Mônica e, mais recentemente, virou até boneca Barbie, numa linha produzida para celebrar mulheres que estiveram na linha de frente do combate à Covid-19.

“Tudo isso ainda é muito estranho. Eu sou apenas uma cientista, que faço parte de um grupo de pesquisa, e às vezes sinto que as homenagens ficam muito direcionadas só para mim”, diz a biomédica.

Mas os colegas de laboratório, como a cientista Ester Sabino, a convenceram sobre a importância de assumir esse papel de relevância.

“Com o tempo, percebi que represento outras questões que vão além da ciência. Eu sou mulher, nordestina, negra e ocupo uma posição de destaque que dificilmente vemos no Brasil”, analisa.

Goes de Jesus espera que seu trabalho possa servir de exemplo e inspiração para as futuras gerações de pesquisadores brasileiros.

“Eu não tive referências científicas na minha infância. E jamais pensei que, fazendo graduação em biomedicina, poderia ser cientista”, conta.

“Isso é muito grave, porque não damos oportunidades para as pessoas serem aquilo que elas desejam de verdade”, completa.

A biomédica também chama atenção para o pouco investimento em ciência no Brasil e como isso impactou não apenas a condução da pandemia atual, mas estimula a ida de jovens pesquisadores para o exterior — ela própria foi recentemente para o Reino Unido, onde continua a fazer estudos com vírus.

“Para fazer ciência no Brasil, a gente tem que se esforçar quatro vezes mais”, lamenta.

Nessa entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Goes de Jesus ainda falou sobre o estágio da pandemia de Covid-19 no país e mostrou preocupação com o relaxamento nas medidas restritivas em várias cidades.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Antes de 2020, a senhora já havia trabalhado e fazia pesquisas com o HIV e com os agentes infecciosos por trás de dengue e zika. O que mudou em seu trabalho com a chegada do Sars-CoV-2?

Jaqueline Goes de Jesus – A mudança foi muito mais no quesito de reconhecimento do nosso trabalho do que no trabalho em si. É óbvio que a demanda aumentou muito.

O Brasil, apesar de não ter ficado entre os primeiros no número de genomas do coronavírus sequenciados, sem dúvidas foi o país que mais trouxe avanços na América Latina. Isso tanto pelo trabalho do nosso grupo quanto de outras equipes que trabalham com isso. A gente também tem a FioCruz e os laboratórios de saúde pública fazendo essa vigilância genômica.

Eu diria que nós tivemos um reconhecimento maior no âmbito social e político. E talvez isso veio à tona para a população, que pode finalmente conhecer o trabalho de um cientista. Isso abre as portas para uma série de outras discussões que eram e são extremamente necessárias, no sentido do reconhecimento da ciência.

Imagem em primeiro plano mostra uma mulher negra com fone de ouvido
Em entrevista à BBC News Brasil, Goes de Jesus diz que Brasil errou ao não ouvir a ciência durante a pandemia – BBC News Brasil

BBC News Brasil – Numa perspectiva mais geral, a pandemia exigiu respostas rápidas para problemas muito complexos. Como a senhora vê a transformação da ciência durante esses últimos meses?

Goes de Jesus – A pandemia trouxe um senso coletivo muito maior para a área da ciência. Eu costumo dizer que na ciência a gente tem como único produto, ou um dos principais, a publicação científica. É ali que você resume seu projeto, seu trabalho e o desenvolvimento de uma linha de pesquisa.

Durante a pandemia, houve um compartilhamento maior desses resultados, com uma aceleração na quantidade de publicações e do índice de produtividade dos pesquisadores. Em grande parte dos países, os grupos conseguiram colaborar mais, mesmo que de maneira informal. O fato de muitas pesquisas sobre o coronavírus serem desenvolvidas e publicadas faz com que exista uma aceleração do conhecimento a respeito do vírus e da doença. E isso contribui, já que a gente utiliza esses trabalhos para basear as ações necessárias para conter o problema.

Eu ainda acho que nós precisamos avançar muito mais nesse sentido. É urgente trazer novos conhecimentos. E, muitas vezes, essa urgência não é compatível com o tempo que uma revista leva para publicar o artigo.

Eu passei por essa situação quando nós fomos divulgar o sequenciamento dos primeiros casos de Covid-19 no Brasil. Naquele momento, essa informação era muito importante e não podíamos esperar a publicação científica completa para revelar esses dados.

Mas, posteriormente, nós também tivemos uma dificuldade enorme em publicar o trabalho numa grande revista, com um alto fator de impacto, porque aquela informação já não era mais uma novidade, não havia uma exclusividade nela. Isso atrapalha um pouco a vida do cientista e talvez precisemos pensar nessa velocidade com que os conhecimentos são gerados e divulgados.

BBC News Brasil – Mas a senhora acha que é possível aliar o melhor dos dois mundos? Ou seja, manter o processo rigoroso da publicação científica, com revisão dos dados por especialistas independentes, e mesmo assim acelerar esse processo?

Goes de Jesus – Sim. Sou uma jovem pesquisadora e tenho recebido muitos trabalhos para fazer essa revisão. Quando nós abrimos esse leque para novos cientistas, que nunca tinham sido convidados para realizar esse trabalho, aumentamos o número de revisores e conseguimos ampliar a velocidade do processo.

A pandemia trouxe um novo contexto e é necessário que se revejam essas questões. Muitos trabalhos acabam esperando meses e meses para serem rejeitados ou publicados. O pesquisador perde todo esse tempo para a revista dar um parecer. Talvez a pandemia traga isso de legado e exponha a necessidade de abrir o universo da revisão por pares e trazer um pouco mais de celeridade ao processo.

BBC News Brasil – Como foi o trabalho de receber a amostra do primeiro caso de Covid-19 no Brasil e fazer o sequenciamento genético em poucas horas?

Goes de Jesus – Nós realmente fizemos o sequenciamento num tempo muito curto, mas isso não aconteceu porque a nossa equipe era hiper, master, ultra competente. Não que todos os pesquisadores não fossem competentes, claro, mas fazer tudo em 48 horas refletiu, na verdade, o processo de preparação que fizemos para que isso fosse possível.

Nós já tínhamos montado toda a estrutura para que, quando o primeiro caso fosse confirmado, nós já tivéssemos os equipamentos e os reagentes prontos no laboratório. Ou seja, as 48 horas refletem, na verdade, dois meses de preparação e toda uma cadeia de trabalho e treinamento.

Eu particularmente já fazia sequenciamentos desde 2016, com o vírus zika. Meus colegas de laboratório também já tinham essa experiência. E a gente manteve a parceria com o Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz, por conta de um projeto anterior que eu desenvolvia com dengue.

Nós estreitamos os laços e, a partir daí, surgiu a oportunidade de fazer o genoma do Sars-CoV-2. Então a gente já tinha se organizado antes, junto com o pessoal do Adolfo Lutz, e sabíamos que a possibilidade de o primeiro caso ser detectado em São Paulo era grande. Quando isso efetivamente aconteceu, colocamos a mão na massa e realizamos todo o processo laboratorial.

Contamos também com o apoio dos epidemiologistas e bioinformatas do Reino Unido. Temos um contato muito próximo com eles e todo esse processo de montagem do genoma e publicação aconteceu em conjunto. Meu rostinho ficou conhecido por uma questão de facilidade de comunicação, mas existe uma equipe muito grande por trás de tudo.

Com o sequenciamento dos primeiros casos e a importância disso para a saúde pública, veio a necessidade de fazer a vigilância genômica, que é o monitoramento dos novos casos, para entender se há a introdução ou a emergência de novas variantes, como o vírus está se dispersando, quais as medidas tomadas e como fazer o controle da transmissão viral.

Três pessoas com roupa especial e touca posam para foto
Claudia Gonçalves, Jaqueline Goes e Claudio Sacchi, parte da equipe brasileira que conseguiu sequenciar genoma de coronavírus em aproximadamente 48 horas após confirmação de diagnóstico – Arquivo pessoal / BBc News Brasil

BBC News Brasil – Esses primeiros casos são simbólicos e, como a senhora relatou, eles mostram esse preparo e organização de toda a equipe. Mas como o trabalho de vocês se desenvolveu a partir dali?

Goes de Jesus – Os primeiros casos foram feitos em parceria com o Instituto Adolfo Lutz. Depois desse primeiro momento, dividimos o grupo e parte do laboratório continuou com o sequenciamento genético, inclusive implementando novas tecnologias com capacidade de processamento maior.

Enquanto isso, o grupo da Dra. Ester Sabino, do qual eu, a Ingra Morales, a Flávia Salles e a Érika Manuli fazemos parte, deu continuidade aos casos que estavam chegando a pedido da Secretaria de Laboratórios Públicos do Ministério da Saúde, que naquela época era coordenada pelo Dr. Julio Croda.

Então a gente tinha essa demanda específica. O Instituto Adolfo Lutz ficou com a demanda estadual e nós, no Instituto de Medicina Tropical da USP, continuamos a fazer o sequenciamento genético para tentar trazer o máximo de informações. E foi assim que conseguimos publicar o primeiro artigo de grande porte, na revista Science em julho do ano passado. Ali mostramos a geração de quase 500 novos genomas, analisados entre março e junho de 2020.

Conseguimos medir também o impacto das várias medidas que haviam sido tomadas pelo Brasil, ou pelos diferentes Estados. Até porque a gente não teve uma ação unificada para a implementação das medidas não-farmacológicas de mitigação da pandemia. E as medidas adotadas em alguns lugares estavam tendo impacto significativo na transmissão do coronavírus em diferentes centros.

BBC News Brasil – O Brasil vive um problema de baixo investimento em ciência, com cortes significativos nas verbas nas últimas décadas. A senhora acredita que a história da pandemia poderia ter sido diferente no país se tivéssemos mais investimento na pesquisa e no desenvolvimento?

Goes de Jesus – Com certeza. Acho que temos uma questão ideológica que envolve o investimento em ciência. Isso acontece em qualquer país, e no Brasil não é diferente. Quando existe um alinhamento governamental que entende que ciência é extremamente importante e faz investimentos nela, a gente já tem o primeiro passo.

Se o governo investe na ciência, a probabilidade de ele seguir as orientações do que a ciência traz como resposta é muito maior. E aqui não estou falando só da saúde, mas também da área econômica, social, de infraestrutura…

E o país consegue ter esse retorno do investimento, porque de fato temos um aumento do conhecimento. Nesses casos, o governo entende aqueles resultados obtidos através da pesquisa e implementa isso na forma de políticas públicas e de novas diretrizes, baseadas justamente em ciência.

Se o Brasil tivesse investido muito em ciência, ou pelo menos um pouquinho mais, é provável que teríamos um maior alinhamento governamental. E aqui não estou falando apenas da esfera federal, mas também de Estados e municípios.

Esse maior investimento faria com que tivéssemos um retorno científico, no sentido de entender melhor o que está acontecendo ou de fazer pesquisas para encontrar as respostas. A partir desse novo conhecimento, poderiam ser implementadas medidas para reduzir a transmissão do vírus e, na cadeia dos resultados, a gente teria obviamente um impacto muito menor da pandemia na saúde dos brasileiros.

Eu sou uma defensora nata da ciência, não poderia ser diferente. Mas existe um raciocínio lógico por trás disso. A gente sabe que os países mais desenvolvidos são aqueles que apostam e investem na ciência.

E o Brasil ainda não conseguiu encontrar esse casamento entre ciência e ações governamentais, seja do ponto de vista de investimento ou de entender aquelas informações e como implementá-las por meio de diretrizes, campanhas e ações.

BBC News Brasil – Um fenômeno relacionado a esse baixo investimento em ciência é a chamada “fuga de cérebros”, em que os cientistas brasileiros saem do país e vão para a Europa ou os Estados Unidos. A senhora, inclusive, se mudou recentemente para o Reino Unido. É possível ser cientista no Brasil ou, para continuar na área, é preciso ir para o exterior?

Goes de Jesus – A fuga de cérebros é, de fato, um fenômeno muito forte. Grande parte dos pesquisadores que eu conheço e que tiveram oportunidade de estudar fora, em países onde existe um investimento maior em ciência, fizeram isso. Para fazer ciência no Brasil, a gente tem que se esforçar quatro vezes mais.

E aí, quando a gente sai do Brasil, seja para uma temporada ou para realmente estabelecer residência, percebemos a diferença na nossa produtividade. Produzimos muito mais quando estamos fora por conta do investimento em recursos.

É possível, sim, fazer ciência no Brasil. Eu faço isso há dez anos, desde a iniciação científica. Mas não é fácil, e a gente tem que driblar uma série de dificuldades. Os reagentes não chegam no prazo esperado, não existe legislação, não temos um fluxo de logística, e tudo isso impede que o pesquisador tenha uma eficiência maior em seu trabalho.

Um indivíduo que fez mestrado e doutorado passou por uma graduação e ainda dedicou seis anos de sua vida para chegar num nível de pesquisador, onde ele consegue ter os próprios recursos para trabalhar. É um investimento muito caro, de tempo e de dinheiro.

E aí, quando temos esses doutores, que poderiam trazer muito resultado e conhecimento para nosso país, eles não são remunerados da forma correta e não têm oportunidades nas universidades. O Brasil ainda abarca a ciência só no âmbito das universidades públicas estaduais e federais. Nós temos pouquíssimos centros privados que fazem pesquisa.

Tudo isso contribui para que o indivíduo procure oportunidades fora do país, até porque isso não falta. Eu tenho um alerta configurado no meu e-mail e, todos os dias, eu recebo três, quatro, cinco vagas dentro da minha área no exterior. E no Brasil a gente fica competindo por uma vaga…

BBC News Brasil – Essas dificuldades que a senhora descreveu ajudam a desenvolver uma versatilidade e uma capacidade de adaptação no cientista brasileiro? Essas habilidades são valorizadas no exterior?

Goes de Jesus – O Brasil é uma boa escola para isso. Eu não gosto de romantizar o sofrimento, seja ele qual for. Mas, uma vez que você passa por um processo de formação no Brasil, em que é preciso driblar tantas dificuldades e dar o famoso jeitinho, nós conseguimos resolver situações extremamente inusitadas.

Fora do Brasil, principalmente nos países que têm investimentos em ciência, isso não acontece. Daí, quando você se encontra numa dificuldade no exterior, é muito mais fácil de manejar aquela situação, até porque ela é costumeira no Brasil. É nossa rotina.

Então aqui no Reino Unido, quando acontece uma situação diferente, os pesquisadores nativos ficam um pouco perdidos. E a gente já está tentando resolver, ajeita de um lado, ajeita de outro, e conseguimos trazer soluções que não são obviamente as melhores, mas pelo menos resolvem aquilo por um período de tempo.

BBC News Brasil – No início da entrevista, falávamos sobre como a pandemia ajudou de alguma maneira a popularizar a ciência. E a senhora é parte desse processo e virou até personagem da Turma da Mônica e boneca Barbie. Como foi participar desses projetos e aliar a pesquisa a esse universo pop?

Goes de Jesus – Tudo isso ainda é muito estranho. Eu sou apenas uma cientista, que faço parte de um grupo de pesquisa, e às vezes sinto que as homenagens ficam muito direcionadas só para mim

Mas teve uma coisa que ouvi de alguns colegas que me ajudou a entender um pouco mais essa situação e ver algum sentido nisso tudo. Eu represento outras questões que não apenas a ciência. E essa representatividade tem um apelo muito grande no Brasil. Com o tempo, percebi que represento outras questões que vão além da ciência. Eu sou mulher, nordestina, negra e ocupo uma posição de destaque que dificilmente vemos no Brasil. Agora, talvez, isso é mais discutido e conseguimos trazer mais pessoas com essas características para os holofotes.

Mas, durante toda a minha vida, eu sempre vi homens brancos de meia idade sendo responsáveis por falar na mídia e por representar grupos que, talvez, envolvessem pessoas diversas. Mas era sempre aquela mesma figura da pessoa considerada mais apropriada para aparecer.

Trazer a Dra. Jaqueline Goes para esse universo pop também é uma quebra de paradigma. É você mostrar a visão de que o mundo mudou e nós precisamos acompanhar essa mudança. Nós temos pesquisadoras jovens, negras, mulheres que ocupam posição de destaque também, mas que nunca foram vistas dessa forma. É importante, porque trazemos representatividade.

Eu recebo muitas mensagens de escolas pedindo para que eu faça palestras ou participe de um bate-papo com as crianças. Muitas vezes eu não consigo dar conta de tudo, mas eu faço um esforço muito grande para comparecer a esses eventos online. Porque são as crianças de hoje, inspiradas nessa representatividade, que vão mudar o futuro. A gente precisa investir nisso.

Eu não tive referências científicas na minha infância. As minhas primeiras referências só vieram na época do mestrado, quando eu já estava graduada. Tudo isso agora é diferente. E jamais pensei que, fazendo graduação em biomedicina, poderia ser cientista. Isso é muito grave, porque não damos oportunidades para as pessoas serem aquilo que elas desejam de verdade. Às vezes, é só o que coube para ela naquele momento.

Calhou de eu cair na ciência e gostar, mas nunca foi a minha pretensão. E também acho que essa não era a pretensão de muitos dos meus colegas. Trazer isso para o universo pop, inclusive com outras cientistas, como foi o caso da homenagem com a Barbie, significa que nós carregamos essa representatividade. A criança olha para uma boneca e pensa que pode ser como ela. Isso é algo diferente do que eu vi durante toda a minha vida.

No início, eu não queria aceitar, ficava muito com essa coisa de que trabalhamos em grupo e todos deveriam receber a homenagem. A minha ideia mudou quando ouvi da minha supervisora, a Dra. Ester Sabino, uma pessoa muito sábia, que era importante eu trazer essas outras representatividades extremamente urgentes para nossa sociedade.

Imagem mostra seis bonecas Barbie com roupas de profissionais da saúde
Jaqueline Góes de Jesus (segunda da esq. à dir) foi homenageada com Barbie cientista – Divulgação Mattel/BBC News Brasil

BBC News Brasil – Os cientistas estão acostumados a trocar ideias e informações com os colegas, numa linguagem acadêmica e, muitas vezes, pouco acessível. Como dialogar com o público geral?

Goes de Jesus – Vou falar algo que nunca comentei em entrevistas. Essa semana, eu estava refletindo com um amigo e cheguei à conclusão de que isso faz parte da minha trajetória. Eu sou professora. E, enquanto professora, preciso pegar algo que é muito complexo e trazer para o universo do estudante, que está aprendendo sobre aquilo pela primeira vez.

Comecei a dar aula com 16 anos em uma escola infantil. A partir dessa experiência de ensinar para as crianças, depois passar pela graduação dentro da universidade, de ser professora universitária e participar de um projeto de aulas online, a gente vai desenvolvendo essas habilidades.

Precisamos pegar algo complexo e passar para diferentes públicos. Para isso, precisamos de experiência e confiança, além de usar ferramentas como as comparações, falar de maneira calma… Isso facilita muito quando falamos de ciência para a população. Até porque precisamos trazer algo que seja da realidade daqueles indivíduos.

Não adianta ir pra mídia e usar termos técnicos. Precisamos destrinchar aquele conhecimento e transformá-lo em algo que seja fácil para o público degustar. No momento em que se gosta daquilo, fica fácil buscar mais informações. E isso aconteceu durante a pandemia. Eu vi as pessoas procurando por ciência e por conhecimento como buscavam por resultados de jogos de futebol. Ainda não é o ideal, mas é muito gostoso de ver isso acontecer.

BBC News Brasil – Em relação à pandemia, a senhora já vê alguma luz no fim do túnel? Existe alguma perspectiva de fim da crise sanitária, quando pensamos na realidade brasileira?

Goes de Jesus – Eu vivo uma realidade no Reino Unido que é completamente incompatível com a brasileira. Aqui, a vacinação avançou e temos praticamente 80% da população completamente imunizada. Isso muda a forma como a gente vive.

Falando do Brasil, eu ainda tenho um receio pelo surgimento de novas variantes. Esse é um grande receio, aliás. Então, sempre que as pessoas perguntam sobre perspectivas, eu respondo que é muito complicado falar de previsão. Como cientista que entende o processo de disseminação viral e o surgimento de novas variantes, eu pensaria [num fim para a pandemia] em 2024. E sei que não é uma previsão muito agradável. E tenho até receio de falar isso para as pessoas, para que não seja usado fora de contexto ou recebido como como grande verdade.

Sobre o modo como os brasileiros estão levando a pandemia, abrindo tudo sem que as pessoas estejam completamente vacinadas, é muito complicado. Nós temos grandes centros com uma boa porcentagem da população com as duas doses, mas, em outros lugares, estamos longe de alcançar isso. É difícil dizer que, em 2022, já estaremos livres da pandemia, com todo mundo vacinado.

Isso porque nós temos a possibilidade de surgirem novas variantes e o Brasil já mostrou que é capaz de fazer isso. Tivemos a P.1 [a atual Gama] e diversas outras que se desenvolveram no país. E esse é o grande empecilho para que estejamos tranquilos no ano que vem.

Enquanto brasileira, se eu pudesse dizer o que precisa ser feito agora seria continuar com as restrições, deixar em funcionamento apenas o que é estritamente necessário, não incentivar eventos e aglomerações e acelerar a vacinação.

Precisamos investir na compra de vacinas. A gente sabe que tem como comprar mais doses se houver uma intenção real do governo de fazer isso. E ouvimos o presidente falar que vai reduzir o orçamento para compra de vacinas em tantos por cento no ano que vem. Não! A gente precisa aumentar esse percentual, não reduzi-lo. A epidemia não acabou.

A gente volta mais uma vez para a questão dos governos que investem e acreditam na ciência. É algo que se retroalimenta. Infelizmente, não temos isso no Brasil.

É complicado fazer previsões sobre o fim da pandemia, mas eu diria no final de 2023, início de 2024, se não tivermos novas variantes surgindo com tanta velocidade como temos observado.

BBC News Brasil – Quais foram os principais erros cometidos na condução da pandemia no Brasil e o que podemos aprender com eles?

Goes de Jesus – Acho que a gente errou em não ouvir a ciência. Enquanto cientistas, trouxemos informações e conhecimentos de forma muito rápida para o governo e a sociedade brasileira. No início da pandemia, eu me recordo de ter sido convocada, junto de outros pesquisadores, para dar direcionamento em relação ao que deveria ser feito no país.

A minha sugestão era que nós fizéssemos um controle maior nos aeroportos e fechássemos as fronteiras. Assim, a gente poderia ao menos conter a introdução de novas variantes do vírus, de modo a mitigar aquilo que já tinha entrado no Brasil com os primeiros casos.

Infelizmente, nada disso aconteceu. Essa reunião foi final de março de 2020. Pouquíssimas das nossas recomendações foram acatadas. Depois disso, trouxemos o estudo na Science em julho falando das medidas não-farmacológicas e o impacto que elas tiveram na redução da pandemia. Ainda assim, vimos muitas cidades seguindo o caminho contrário, de não estabelecer a quarentena e o lockdown, de não preconizar o uso de máscara, e com governantes dizendo que tudo era uma baboseira.

Infelizmente, por mais que nossos governantes não acreditassem ou tivessem uma opinião contrária, a figura deles como exemplo era necessária para que a gente tivesse outro curso na pandemia. Erramos em não ouvir a ciência.

E continuamos a errar. O Brasil está fazendo uma série de reaberturas que não eram para acontecer neste momento. Não sei se nós aprendemos com esses erros ainda.

Mas também vejo pelo lado positivo, em que aprendemos muito sobre prevenção de epidemias, disseminação de doenças por via respiratória, sobre questões de higiene… Se a gente começar a olhar outras doenças relacionadas à falta de higiene, veremos que a prevenção para Covid-19 ajudou a evitar outras doenças.

E, agora, boa parte da população entende que, quando temos recursos, interesses políticos, econômicos e sociais no desenvolvimento de uma vacina, ela pode ficar pronta em tempo recorde. O mundo inteiro se debruçou no desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19 e temos várias delas já aprovadas.

BBC News Brasil – Pensando em representatividade e inspiração, como uma criança ou um jovem pode virar cientista no futuro? Qual caminho devem seguir?

Goes de Jesus – Essa é uma pergunta difícil. As pessoas têm uma ideia de que cientista só trabalha na saúde. E eu gosto de lembrar das outras áreas, inclusive as ciências sociais. Se tornar cientista, para mim, é algo que vem de dentro. Você precisa ter um instinto curioso.

As crianças são cientistas por natureza. Elas trazem essa curiosidade e querem descobrir o ambiente e tudo ao redor. Para aqueles jovens que continuam com desejo de explicar os fenômenos sociais, políticos, de saúde e da área das exatas, o passo principal é fazer uma graduação em algo que agrade. Se você gosta de engenharia, vai fazer. E, dentro dessa área, procure grupos de estudo que trabalham com um tópico de seu interesse.

Não adianta se envolver com áreas nas quais você não tem aptidão ou afinidade. Tem que gostar. Se não, não flui. Ser cientista não é uma posição em que você trabalha das 8 às 16 horas e, no outro dia, aparecem outras demandas. Você vive a pesquisa. Às vezes você está tomando banho e se lembra de algo que poderia ter feito no experimento e não fez. Ou sonha com o experimento que fará no dia seguinte.

Você é sempre cientista, seja no laboratório, em casa ou numa festa com os amigos. Está sempre pensando e buscando entender os fenômenos. Primeiro, é preciso ser curioso. Depois, seguir a carreira, fazer graduação, entrar em grupos de pesquisa para mestrado e doutorado. E, claro, ter sempre essa vontade de explicar as coisas dentro de si.

SpaceX lança voo orbital com civis e leva turismo espacial a novas alturas

Empresa de Elon Musk é a terceira companhia privada a levar pessoas comuns ao espaço neste ano, sem a presença de astronautas e pilotos; voos de Jeff Bezos e Richard Branson, realizados em julho, não chegaram a entrar em órbita
Por Giovanna Wolf e Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Reprodução/Inspiration

Pela terceira vez neste ano, uma empresa privada leva pessoas para “turistar” no espaço – e desta vez, o salto foi ainda mais alto. Nesta quarta-feira, 15, a SpaceX, empresa de exploração espacial do bilionário Elon Musk, lançou uma tripulação com quatro civis em uma viagem na órbita da Terra. Com o feito, o fundador da Tesla leva o turismo espacial a outro patamar: os voos da Blue Origin, de Jeff Bezos, e da Virgin Galactic, de Richard Branson, realizados em julho, ficaram em altitudes mais baixas e não chegaram a entrar em órbita. 

A missão, chamada de Inspiration4, é a primeira da história a lançar pessoas comuns em órbita terrestre. Até então, a SpaceX só havia enviado uma tripulação de astronautas para esse tipo de viagem espacial no ano passado, o que também foi um feito inédito para uma companhia privada. A decolagem do foguete Falcon 9 ocorreu com sucesso às 21h03 (horário de Brasília). 

A sequência a seguir foi muito rápida: às 21h04, a nave atingiu velocidade supersônica, às 21h06, o primeiro estágio se separou, às 21h08, a nave atingiu 10 mil km/h, às 21h11, a nave atingiu 20 mil km/h. Na sequência, vieram eventos fundamentais: às 21h12, a nave atingiu velocidade máxima (27,3 km/h) enquanto ao mesmo tempo o primeiro estágio pousava na Terra. Às 21h13, a nave entrou em órbita e, às 21h15, o segundo estágio se separou. Nesse momento, a nave estava a 200 km de altitude e seguiu viagem em direção a altitude máxima (575 km).  

Em três minutos, às 21h06, a nave já havia superado a altitude dos voos de Bezos e Branson, cruzando a marca de 100 km de altitude. 

Reveja a transmissão abaixo:

Ao contrário de Bezos e Branson, Elon Musk não embarcou na aventura. A nave foi lançada com quatro passageiros: Jared Isaacman (bilionário de 38 anos, fundador da empresa de pagamentos Shift4 Payments), Hayley Arceneaux (médica de 29 anos que sobreviveu a um câncer ósseo), Chris Sembroski (veterano da força aérea dos Estados Unidos de 42 anos) e Sian Proctor (geologista de 51 anos). 

Isaacman pagou por todos os assentos no voo – o valor desembolsado não foi revelado. O plano é usar a viagem para arrecadar fundos para um hospital americano de tratamento de câncer infantil. Entre as cargas da Inspiration4, estarão um conjunto de experimentos relacionados à saúde, e os objetos usados serão leiloados. A missão pretende arrecadar US$ 200 milhões para o hospital de pesquisa – Isaacman doará outros US$ 100 milhões. 

A nave atingiu velocidade máxima de 27,3 mil km/h e chegará a uma altitude de 575 quilômetros – bem acima da posição da Estação Espacial Internacional, que está em órbita a 408 km de distância da Terra. A tripulação viajará em órbita por cerca de três dias e depois reentrará na atmosfera. O pouso final será um mergulho na Costa do Golfo ou na Costa Atlântica da Flórida.

Tripulação da Inspiration4: Chris Sembroski, Sian Proctor, Jared Isaacman e Hayley Arceneaux
Tripulação da Inspiration4: Chris Sembroski, Sian Proctor, Jared Isaacman e Hayley Arceneaux

Fora de órbita

O voo da SpaceX é diferente das viagens realizadas pela Blue Origin e pela Virgin Galactic em julho. A nave com Jeff Bezos, fundador da Amazon, atingiu a altitude de 107 km e viajou por 10 minutos, enquanto o planador com Richard Branson chegou a 80,5 km em um voo de 90 minutos. Nenhum dos dois veículos chegaram a entrar em órbita, e eles passaram longe da localização da Estação Espacial Internacional. 

“A viagem da Inspiration4 é de outra ordem de grandeza. Nos voos suborbitais, basicamente você lança um míssil que sobe até acabar o combustível e depois cai de volta para a Terra. As iniciativas da Virgin Galactic e da Blue Origin foram apenas passeios, enquanto a SpaceX concluiu uma missão espacial de verdade”, afirma Cassio Leandro Dal Ri Barbosa, astrônomo e professor do Centro Universitário FEI. 

Dentro disso, há um aumento de custo. Como a viagem é prevista para durar três dias, é necessário que técnicos em Terra monitorem com cautela o voo. A tripulação também precisa passar por simulações e treinamentos mais detalhados – Isaacman e os outros três viajantes treinaram com a SpaceX desde fevereiro.

Para Alexandre Zabot, professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o voo da SpaceX consolida uma nova era no setor. 

“Esse tipo de viagem exige foguetes com uma capacidade de lançamento de carga para o espaço muito diferenciada. Até então, víamos algumas aventuras pontuais relacionadas ao turismo espacial. Agora, já vemos três empresas mostrando tecnologias maduras e fazendo voos inaugurais com civis”, diz Zabot. “Estão abertas as portas para um turismo espacial permanente, gerenciado por companhias privadas”. 

É também um novo capítulo da rinha entre Elon Musk e Jeff Bezos na corrida espacial. Há algum tempo, o fundador da Tesla celebra o pioneirismo da SpaceX e zomba do rival. Em 2019, ao apresentar o novo protótipo do Starship, foguete da empresa, Musk chegou a dizer que tem “muito respeito por qualquer pessoa que tenha lançado um foguete em órbita”. 

Missão Inspiration4, da SpaceX, deve deixar concorrentes do turismo espacial comendo poeira

Lançamento está marcado para a noite desta quarta (15); tripulantes, todos civis, ficarão na órbita da Terra por três dias
Phillippe Watanabe

Dois homens e duas mulheres sorriem de pé em um gramado verde. Ao fundo, um foguete branco aparece.
Da esq. para a dir., Jared Isaacman, Hayley Arceneaux, Sian Proctor e Chris Sembroski, passageiros da Inspiration4, em foto de divulgação da série documental da Netflix sobre a missão – John Kraus/Netflix/Divulgação/AFP

Os primeiros civis a se aventurar sozinhos fora da Terra, sem a presença de astronautas profissionais, estão prestes a decolar em um foguete da empresa privada SpaceX, do bilionário Elon Musk. O voo está agendado para a noite desta quarta-feira (15).

A missão Inspiration4, a bordo da cápsula Crew Dragon, não deve ficar tão longe de casa, porém, permanecendo na órbita do nosso planeta por cerca de três dias.

O tempo não parece tão longo, mas já é muito maior do que os poucos minutos que as experiências recentes de turismo espacial proporcionaram aos viajantes.

Se você está achando que se trata de mais um voo privado de bilionários ao espaço, em parte, você está certo. Sim, é um voo privado e tem um novo bilionário que decolará em um foguete. Desta vez, é Jared Isaacman, 38, fundador da empresa de pagamentos Shift4 Payments.

Mas há um tanto a mais nessa missão, em relação aos voos privados recentes do empresário Richard Branson, dono da Virgin Galactic, e do CEO da Amazon, Jeffrey Bezos, dono da companhia espacial Blue Origin.

Primeiro, como já dito, a questão da tripulação: a primeira composta totalmente por civis —logicamente, nenhum deles terá a responsabilidade de pilotar a nave. O comando é automatizado, observado por engenheiros que ficam em terra firme.

Além de Isaacman, outras três pessoas foram escolhidas para integrar o voo. Daí, inclusive, vem o nome da missão, Inspiration4. A ideia é ter representados na nave valores como liderança, esperança, generosidade e prosperidade.

Uma mulher e três homem olhando para a cãmera; ao redor da cabeça de cada um deles está a extremidade de saída do foguete que os levará ao espaço
As quatro pessoas que compõem a primeira missão sem astronautas profissionais ao espaço; na foto, Hayley Arceneaux (esq.acima), Sian Proctor (dir. acima), Chris Sembroski (esq.abaixo) e Jared Isaacman (dir. abaixo) – John Kraus/Inspiration4/AFP

A ideia de liderança está a cargo de Isaacman, que inclusive tem experiência como piloto. É ele, com sua fortuna, que paga pelas vagas dos colegas de voo. O valor desembolsado não foi divulgado.

A esperança está associada a Hayley Arceneaux, 29, assistente médica do hospital infantil St. Jude, em Memphis, no Tennessee (EUA), que superou um câncer —sendo tratada nesse mesmo hospital— quando tinha 10 anos de idade.

Além disso, Arceneaux será a pessoa mais jovem a chegar ao espaço e a primeira a fazer isso com uma prótese (como consequência do tumor ósseo, uma parte dos ossos da perna esquerda dela tiveram que ser substituídos).

A generosidade está associada a Christopher Sembroski, 42. Ele fez uma doação para o hospital St. Jude (ao todo, a missão pretende levantar cerca de US$ 200 milhões para a instituição), em um concurso promovido por Isaacman para sortear um felizardo para entrar a bordo.

O engenheiro acabou não tendo sorte de cara. A vaga não veio para ele, mas, sim, para um amigo, que, pelo entusiasmo de Sembroski pelo assunto, resolveu redirecionar o prêmio.

Por fim, a prosperidade está associada a Sian Proctor, 51, geóloga e empreendedora que quase chegou a ser astronauta pela Nasa e agora realizará o sonho de ir ao espaço. Assim, ela se tornará a quarta mulher negra a alcançar o feito.

Dois homens e duas mulheres posam de pé em um fundo cinzento vestindo trajes de astronauta, com capacetes com visor por onde podemos ver seus rostos
Da esq. para dir. Chris Sembroski, Sian Proctor, Jared Isaacman e Hayley Arceneaux, tripulantes da missão Inspiration4 – Inspiration4/John Kraus/Divulgação/Reuters

Proctor conseguiu seu lugar na nave ganhando um concurso da empresa de Isaacman, no qual os participantes tinham que usar o software da Shift4 Payments para montar uma loja online e tuitar vídeos sobre seus sonhos relacionados a empreendedorismo e espaço.

“Esse primeiro voo é muito simbólico. Inaugura o turismo espacial em órbita, que até agora não tinha sido feito de forma privada”, diz Lucas Fonseca, empreendedor espacial.

Mas, para além da tripulação 100% civil, a missão Inspiration4 deve fazer história também por questões técnicas.

Os voos feitos até o momento por outros bilionários duraram pouquíssimo tempo. “Você sobe, sobe, sobe, passa a linha que limita o espaço e desce”, resume Cássio Barbosa, astrofísico do Centro Universitário FEI. “É um míssil que sobe, acaba o combustível e ele desce”, brinca.

Isso porque as missões comerciais anteriores, realizadas em julho pela Virgin Galactic, empresa de Branson, e pela Blue Origin, de Bezos, foram voos suborbitais. Nesse tipo a velocidade não costuma exceder os 4.000 km/h.

“Não tem graça falar de espaço em um voo suborbital que dura minutinhos, que é só para enxergar a curvatura da Terra e ver o espaço escuro”, diz Barbosa. “Vai experimentar a gravidade zero, mas qualquer em montanha-russa de respeito você consegue ter o mesmo friozinho na barriga.”

Já para um voo orbital, como é o caso da atual missão da SpaceX, uma cápsula precisa chegar a velocidades maiores do que 27.000 km/h. Há, com isso, uma diferença no tamanho do foguete necessário, nos riscos e na complexidade da tarefa.

A tripulação dará uma volta completa no globo terrestre a cada 90 minutos, em uma velocidade de cerca de 22 vezes a do som. A órbita ao redor da Terra será mais distante do que a da Estação Espacial Internacional e do telescópio Hubble.

Segundo o especialista da FEI, a Inspiration4 é diferente de tudo o que se viu até o momento na área de turismo espacial. “É um voo realmente espacial, no sentido que a gente está acostumado.”

A cápsula Crew Dragon, que levará os três sortudos e o bilionário para o espaço, foi originalmente desenvolvida para fornecer serviços de transporte de tripulação à Nasa.

Com ela, desde o ano passado, já foram feitas três missões com tripulação até a Estação Espacial Internacional. A cápsula estará a bordo de um foguete reutilizável Falcon 9.

Se Branson e Bezos foram os primeiros no turismo espacial, Musk parece, pelo menos em parte, ter ultrapassado os outros bilionários.

“Dentre essas empresas que se propõem a fazer turismo espacial, é de longe o voo mais notável”, diz Fonseca, que relembra que o turismo no espaço teve início no começo dos anos 2000, quando uma nave russa levou um homem para visitar a Estação Espacial Internacional —mais uma vez, ao custo de milhões de dólares.

Foguete branco está pousado de pé em um pátio, ao ar livre
Foguete Falcon 9, da SpaceX, que levará a cápsula com os passageiros da missão Inspiration4 – Patrick T. Fallon/AFP

Somente “em parte”, por uma questão prática. Considerando que voos suborbitais já são para poucas pessoas na Terra, pelo volume de dinheiro movimentado, missões orbitais, como a da SpaceX, devem ter menos candidatos ainda no planeta, prevê Barbosa.

“Envolve uma mobilização de infraestrutura muito grande, o que leva os custos a um patamar muito superior”, diz o pesquisador.

“Ainda falta uma fila de pagantes, pagando do próprio bolso, para ir”, diz Fonseca.

Barbosa afirma que, após os voos turísticos suborbitais e orbitais, o próximo passo, um grande passo para a iniciativa privada na próxima década, pode ser a instalação de hotéis na órbita da Terra.

“Seria uma futura utilização da Estação Espacial”, explica. “Ficaria a cargo da iniciativa privada fazer uma pousada para ficar alguns dias.”

Nasa tem um desafio para chegar à Lua até 2024: seu programa de US$ 1 bilhão para o traje espacial

Agência tem trabalhado há 14 anos na nova geração de trajes espaciais, que funcionam como mini espaçonaves enquanto protegem os astronautas do vácuo do espaço sideral
Christian Davenport, The Washington Post

Astronauta entra em traje espacial e se prepara para treinamento Foto: Jonathan Newton/Washington Post

Desde que a Casa Branca ordenou a Nasa a mandar astronautas à Lua até 2024, como parte do programa Artemis, todo tipo de desafio intimidador tem aparecido: o desenvolvimento do foguete que a agência espacial usaria sofreu reveses e atrasos; a espaçonave que levaria os astronautas à superfície lunar não ainda está pronta e foi atrasada pelas empresas que perderam a licitação para fabricá-la; e o Congresso não apresentou o financiamento que a Nasa afirma ser necessário.

Mas outra razão pela qual a meta de 2024 poderá não ser cumprida é que os trajes espaciais necessários para os astronautas caminharem na superfície lunar não ficarão prontos a tempo, e o programa total de seu desenvolvimento, que no fim das contas produzirá apenas dois trajes prontos para voar, poderia custar mais de US$ 1 bilhão.

O Escritório do Inspetor Geral (EIG) da Nasa afirmou em um relatório publicado na terça-feira que o desenvolvimento dos trajes atrasou quase dois anos em razão de faltas de financiamento, impactos da pandemia de coronavírus e desafios técnicos. Como resultado, o organismo auditor do governo concluiu que os trajes voadores ficarão prontos, na melhor das hipóteses, em 2025 e que “um pouso na Lua no fim de 2024, como a Nasa planeja atualmente, não é factível”.

A Nasa tem trabalhado na nova geração de trajes espaciais, que funcionam como mini espaçonaves enquanto protegem os astronautas do vácuo do espaço sideral, há 14 anos, afirmou o EIG. Em 2016, a Nasa decidiu reunir dois projetos de desenvolvimento de trajes espaciais num só programa, sob sua supervisão. Até 2017, a agência tinha gastado US$ 200 milhões e, desde então, gastou outros US$ 220 milhões, constatou o EIG. Mesmo que o programa tenha sido mantido na agência, componentes para os trajes ainda são fornecidos por 27 empresas.

No futuro, a Nasa planeja gastar mais US$ 625,2 milhões, afirmou o EIG. Isso levaria o montante gasto no desenvolvimento e nos testes a mais de US$ 1 bilhão até o ano fiscal de 2025, “quando o primeiro de dois trajes espaciais voadores estará disponível”, constatou o EIG. Além desses dois trajes, o programa desenvolveria um traje experimental que poderia ser usado na estação espacial, dois trajes “qualificatórios”, para testagem do sistema de suporte de vida durante o uso e um outro traje, “usado para testar o design e as funções do traje espacial antes de os astronautas o vestirem”.

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Foto de 1969 mostra o astronauta Neil Armstrong, que se tornou o primeiro homem a pisar na Lua, em traje espacial Foto: AP

Os problemas com o desenvolvimento do traje espacial “de nenhuma maneira são o único fator influenciando a viabilidade da agenda de retorno à Lua da agência”, afirmou o EIG. O organismo também afirmou que “atrasos significativos” no foguete do Sistema de Lançamento Espacial da Nasa e na espaçonave Orion também contribuem. E atrasos relativos ao desenvolvimento da espaçonave para pousar na Lua “também inviabilizarão um pouso em 2024”, afirmou o EIG.

Em abril, a Nasa concedeu à SpaceX, de Elon Musk, um contrato de US$ 3 bilhões para usar a espaçonave Starship para transportar astronautas à superfície da Lua, no programa conhecido como Sistema de Aterrissagem de Humanos. Mas os perdedores da licitação, a Blue Origin, de Jeff Bezos, e a Dynetics, uma empresa especializada em defesa militar com base no Alabama, protestaram contra a decisão. Os protestos não foram bem-sucedidos, mas forçaram a Nasa a atrasar a execução de seus contratos com a SpaceX.

O esforço marca a primeira vez em que a Nasa lidera o desenvolvimento de um novo traje que pode ser usado no vácuo do espaço sideral em mais de 40 anos. O relatório do EIG ressaltou que os trajes espaciais atualmente a bordo da Estação Espacial Internacional “excederam seu tempo de vida projetado em mais de 25 anos, necessitando de custosa manutenção para garantir a segurança do astronauta”.

Eles também não vestem todos os tipos de corpos. Em 2019, a astronauta da Nasa Anne McClain cancelou o que teria sido a primeira caminhada no espaço exclusivamente feminina, a partir da estação espacial, depois de decidir que o traje era grande demais para ela. Isso desencadeou uma onda de críticas, de que a Nasa não estava acomodando as necessidades das mulheres astronautas em um programa espacial há muito dominado por homens.

Os novos trajes terão “novo desenho, para acomodar uma gama maior de tamanhos e melhorar o caimento, o conforto e a mobilidade”, afirmou o EIG. Os trajes terão uma parte inferior mais flexível, que permitirá a astronautas caminhar e ajoelhar mais facilmente e evitar os “saltos de coelho” que os astronautas das missões Apollo davam na Lua entre os anos 1960 e o início da década de 1970.

Ao desenvolver os novos trajes, afirmou o EIG, a Nasa, que os desenvolve em instalações próprias, encontrou várias dificuldades técnicas e de design. Até as botas deram problemas.

Se a Nasa aterrissar no polo sul da Lua, conforme esperado, o traje e as botas têm de ser capazes de aguentar “mudanças extremas de temperatura” e a transição entre o “ambiente moderado” onde a espaçonave terá pousado e o “ambiente extremo”, da região permanentemente sombria do polo.

Isso cria um desafio, afirmou o EIG, porque “o acesso a materiais adequados é limitado e a tecnologia necessária para ajudar a enfrentar esses desafios ainda está sendo testada”.

No Twitter, Musk ofereceu os serviços de sua empresa, “A SpaceX poderia fazer isso, se necessário”. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Terapia online estoura no divã da pandemia e incrementa startups

Com saúde mental em alta há mais de um ano, empresas e plataformas como Zenklub, Vittude e Eurekka têm demanda crescente; avaliações psicológicas também viraram soluções na crise
Bianca Zanatta, Estadão

Zenklub
Os sócios-fundadores da Zenklub, Rui Brandão (à esq.) e José Simões.  Foto: Sillas Henrique/Zenklub

Com a pandemia do coronavírus avançando em seu segundo ano e o período de isolamento social esticando seus tentáculos a perder de vista, os brasileiros tiveram necessidade de encarar o divã de uma vez por todas. Segundo uma pesquisa da plataforma de saúde mental e desenvolvimento pessoal Zenklub realizada no primeiro trimestre de 2021, a quantidade de horas aproveitadas em sessões de terapia online no Brasil aumentou 1.856% em relação a 2019. Isso significa que, no último ano, os brasileiros passaram mais de 80 mil horas em sessões online com psicólogos.

Apesar de as mulheres ainda serem o público majoritário (69%), o novo cenário trouxe um universo novo de pessoas que nunca tinham entrado em um consultório, de acordo com o médico Rui Brandão, CEO da startup. 

“Todos sentiram um abalo emocional e a terapia deixou de ser tabu”, ele afirma. No caso dos homens, Brandão acredita que o anonimato do processo online ajudou. “Os clientes precisaram lidar com o relacionamento familiar, mas também passaram a ver o autoconhecimento como matemática, uma forma de construção da consciência psicológica para antecipar questões e prevenir algo pior”, explica.

Os resultados refletem a mudança de comportamento. Desde o início da pandemia, o faturamento da startup saltou 650% e o número de profissionais psicólogos que trabalham com a plataforma foi de 461, em maio de 2020, para mais de 5 mil. O Zenklub tem hoje 150 mil usuários finais e atende 300 empresas. O mundo corporativo, aliás, foi um dos grandes responsáveis pela guinada. 

“Em 2019, sabendo que a depressão vai ser a doença mais incapacitante, as empresas já estavam se abrindo um pouco mais para a importância dos cuidados com saúde mental, mas ainda era tabu”, observa Brandão. “Agora nos tornamos a pílula dourada para as organizações porque abraçar a saúde mental foi uma forma de acolher e dar segurança aos colaboradores. É um espaço muito maior do que só tratar a doença. É uma ferramenta de gestão que ajuda nas questões de desenvolvimento socioemocional dos liderados.”

Com forte atuação em psicoterapia e medicina, a startup de saúde e bem-estar Eurekka também expandiu o negócio na pandemia, criando um modelo de franquia e tornando-se um hub de startups para ajudar profissionais da área a ganhar mercado. A empresa oferece atendimento e ajuda emocional por meio da inteligência artificial e serviços como o Eurekka MED, com especialidades como clínica geral, nutrição e personal trainer.

Com sede em Porto Alegre, a startup possui hoje 40 franqueados distribuídos no País e faz mais de 2 mil atendimentos mensais. A alta na demanda gerou um faturamento de R$ 4,5 milhões em 2020 e a meta para 2021 é de R$ 20 milhões.

Outra que decolou na pandemia é a Vittude, fundada por Tatiana Pimenta, que completou 5 anos de vida em maio. A healthtech, que oferece soluções de saúde mental para usuários individuais e para o mundo corporativo, viu a receita crescer 540% só em 2020 e pretende quadruplicar o resultado em 2021. 

Um dos pulos do gato para chegar ao novo patamar foi o desenvolvimento da Vittude Match, ferramenta de inteligência artificial que auxilia na escolha do psicólogo mais indicado para cada demanda. 

Tatiana Pimenta, Vittude
Tatiana Pimenta, fundadora da Vittude. Foto: Divulgação

Em maio de 2020, a startup tinha aproximadamente 12 clientes corporativos. Hoje são mais de 130, entre gigantes como Grupo Boticário, SAP, Sky, Saint-Gobain, Alelo e Olist, totalizando 450 mil vidas cobertas. Soma-se a isso o acesso mensal dos mais de 3 milhões de usuários únicos, atendidos por 850 psicólogos que trabalham ativamente com a Vittude (na lista de espera, há mais de 14 mil cadastrados).

Avaliação de riscos

Inserida no nicho de mensuração e previsão de riscos psicossociais por meio de tecnologia, a Bee Touch cresceu 70% entre março de 2020 e março de 2021 com soluções como a plataforma Avax Psi, que faz avaliações psicológicas digitais a partir da ciência de dados.

Hoje, a healthtech cobre mais de 300 mil vidas, alcançadas por meio de parcerias com instituições de Mato Grosso do Sul e São Paulo, como a OAB/MS e a Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo (CAASP), da OAB paulista. 

No segundo caso, já foram realizadas mais de 2 mil consultas online desde o início da pandemia. A plataforma CAASPisco, desenvolvida pela Bee Touch, bateu 21 mil acessos. Ainda neste semestre, há a expectativa de um aumento de pelo menos 50% na cobertura de vidas, com a entrada de novas empresas no portfólio, e a previsão é de que o faturamento triplique até o final do ano.

Cinquentona repaginada 

Empresa cinquentenária com foco em pesquisa, desenvolvimento e geração de conhecimento para a área psicológica, a Vetor Editora migrou para o digital um mês antes do começo da pandemia, percebendo que as necessidades dos clientes estavam cada vez mais ligadas à agilidade nas avaliações psicológicas. 

De acordo com o CEO Ricardo Mattos, a nova plataforma, batizada de Vol (Vetor Online), trouxe funcionalidades para facilitar o uso no dia a dia. “Antes o psicólogo enviava o link para o avaliado, mas não conseguia acompanhar o teste de fato. Agora ele se conecta com o avaliado pela plataforma e não só vê a pessoa pela câmera como vê como ela está realizando o teste”, explica.

A empresa também apostou com força na área educacional, com o desenvolvimento do Idem (Itinerário do Ensino Médio) – avaliação aprofundada que vai apontar as questões socioemocionais do aluno e identificar suas aptidões para escolher o caminho a seguir no ensino médio -, aulas online ao vivo e cursos de EAD de psicologia forense e Entrevista Diagnóstica para Transtornos da Personalidade (E-TRAP), entre outros.

Outro braço que impulsionou o crescimento é o organizacional. “Hoje 80% dos usuários da Vol vêm do mercado de RH, de empresas que estão usando nossos instrumentos para fazer contratações”, comemora o executivo. 

Ele fala que os testes da Vetor possuem validação científica e por isso possibilitam fazer contratações mais assertivas, reduzindo o turnover nas empresas. “Fomos de 300 aplicações diárias no começo da pandemia para 3 mil agora”, fala Mattos. “A plataforma já passou de 1 milhão de aplicações na base.” 

Para Mattos, a grande sacada, além da digitalização, foi voltar ao nicho da terceirização de serviços que o fundador da empresa, Glauco Bardella, fazia muito no passado – e que hoje passou a ser uma forte demanda do mercado.

Machismo até na Lua: só 2% das crateras lunares têm nomes de mulheres cientistas

União Internacional Astronômica tenta reverter a pouca representatividade feminina na nomenclatura dos corpos celestes do Sistema Solar
Katherine Kornei, do New York Times

A Lua Foto: Alexandre Cassiano

A superfície da Lua é marcada por crateras, relíquias de impactos violentos no passado cósmico. Algumas das maiores são visíveis a olho nu, e um telescópio amador pode mostrar centenas delas. Um observatório astronômico pode tornar visíveis milhões de crateras.

Bettina Forget, artista e pesquisadora da Universidade Concordia, em Montreal, tem desenhado as crateras lunares há anos. Como também é uma astrônoma amadora, seus desenhos combinam seus dois interesses na arte e na ciência.

As crateras da Lua são batizadas, por convenção, com os nomes de cientistas, engenheiros e exploradores do espaço. Algumas têm nomes muito familiares, como Newton, Copérnico e Einstein, mas outras não. E foi observando e desenhando crateras que Forget questionou: quem são essas pessoas? Quantas são mulheres?

Forget recorreu aos arquivos da União Astronômica Internacional, organização incubida de nomear as crateras da Lua e outras características dos corpos celestes no Sistema Solar. Ela decidiu procurar as crateras com nomes de mulheres.

— Não havia quase nada — diz Forget.

Das 1.578 crateras lunares que tinham recebido um nome, apenas 32 homenageavam mulheres (uma 33ª foi escolhida em fevereiro).

— Eu não esperava 50%, não sou tão otimista. Mas só 2%? Fiquei muito chocada — diz Forget, para quem ter tão poucas crateras lunares com nomes de mulheres é uma afirmação forte. — Isso cria um ambiente em que se pensa que as mulheres não deram sua contribuição.

Em 2016, Forget começou um projeto de desenhar todas as crateras que têm nomes de mulheres. Cannon e Mitchell, nomes de astrônomas dos século XIX e XX, estão no lado visível da Lua. Resnik e Chawla, homenagens a astronautas, estão no lado mais distante do satélite, que não é visível da Terra. Nesses casos, ela usou imagens da NASA. Esses desenhos se tornaram a exposição “Women with Impact” (Mulheres de Impacto), que circula por galerias e planetários do Canadá mostrando a pouca representatividade das mulheres nas chamadas STEM: ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

— Uma cratera é a ausência de matéria, um vazio. É um paralelo com o vazio de mulheres nas STEM.

Em fevereiro, a mais recente cratera lunar a receber um nome foi batizada em homenagem à cientista da computação e mulher negra Annie Easley.

O nome de Easley foi sugerido por outra cientista, a canadense Catherine Neish, que já tinha feito a União Astronômica Internacional nomear crateras em homenagem a Elisabetta Pierazzo e Marie Tharp, em 2015.

— Eu estava motivada a aumentar os números — diz Neish.

A cientista Kelsi N. Singer afirma que a escassez de crateras lunares com nomes de mulheres é uma surpresa ao mesmo tempo que não é.

— Não era permitido às mulheres serem cientistas, engenheiras e exploradoras até o século XX. Como as crateras costumam ser batizadas com os nomes de pessoas que já morreram, há um atraso histórico.

As mulheres são bem representadas quando falamos das características do planeta Vênus e dos satélites de Urano (mas estes últimos foram batizados com nomes de personagens das obras de Shakespeare e de Alexander Pope). Mas esses lugares são exceções no sistema Solar. A União Astronômica Internacional reconhece o problema e, hoje, prioriza os nomes de mulheres quando nomeia características dos corpos celestes, como as crateras da Lua.

— Decidimos que se temos a escolha de nomear uma cratera lunar, será com o nome de uma mulher — diz Rita Schulz, cientista no Centro Europeu de Tecnologia e Pesquisa Espacial, na Holanda, e chefe do grupo responsável pela nomenclatura do Sistema Solar na União Astronômica Internacional.

A cientista Catherine Neish já tem um nome em mente para outra cratera lunar:

— Poucas pessoas podem dar nome a uma cratera lunar porque não têm uma razão científica válida para tal. Eu quero usar o meu privilégio para reconhecer algumas das mulheres que vieram antes de mim — encerra.

Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna recebem Nobel de Química pela descoberta de ‘tesouras genéticas’ para editar DNA

Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram laureadas na manhã desta quarta-feira, 7. Antes delas, apenas cinco outras pesquisadoras tinham recebido o Nobel de Química. É a primeira vez que duas mulheres recebem o prêmio juntas
Roberta Jansen e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

BREAKING NEWS: The 2020 #NobelPrize in Chemistry has been awarded to Emmanuelle Charpentier and Jennifer A. Doudna “for the development of a method for genome editing.”

As pesquisadoras Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram laureadas na manhã desta quarta-feira, 7, com o Prêmio Nobel de Química 2020 por seus trabalhos pelo “desenvolvimento de métodos para editar o genoma”. O secretário geral da Academia Real de Ciências da SuéciaGöran Hansson, resumiu as descobertas como a “reescrita do código da vida”.

A dupla da França e dos Estados Unidos recebeu o prêmio pela descoberta, como definiu o comitê do prêmio, de “uma das ferramentas mais afiadas da tecnologia genética: a tesoura genética CRISPR/Cas9”. Segundo a academia, a partir dessa ferramenta hoje é “possível alterar o DNA de animais, plantas e microrganismos com extrema precisão”.

O trabalho é considerado revolucionário ao abrir caminho para novas terapias contra cânceres, assim como “pode tornar realidade o sonho de curar doenças hereditárias”, aponta o comitê. As duas vão dividir igualmente o prêmio de 10 milhões de coroas suecas

“Há um poder enorme nessa ferramenta genética, que afeta a todos nós. Não só revolucionou a ciência básica, mas também resultou em colheitas inovadoras e levará a novos tratamentos médicos inovadores”, disse Claes Gustafsson, presidente do Comitê do Nobel de Química, durante a apresentação do prêmio.

Segundo ele, essa “tesoura genética” transformou a ciência molecular. “Hoje podemos editar basicamente qualquer genoma e responder todos os tipos de perguntas. E isso pode ser usado para corrigir falhas genéticas, como a que causa anemia falciforme. Você pode praticamente tirar a célula hematopoética, consertar e voltar para o paciente”, explicou.

“Fiquei muito emocionada, muito surpresa, parece que não é real”, afirmou Emmanuelle Charpentier, em participação na coletiva, com a voz embargada.

Como costuma acontecer na ciência, a descoberta dessas tesouras genéticas foi inesperada. Emmanuelle Charpentier estudava o streptococcus pyogenes, uma das bactérias mais danosas para a Humanidade e acabou descobrindo uma molécula até então desconhecida, tracrRNA. O trabalho de Charpentier mostrou que a tracrRNA fazia parte do antigo sistema imunológico da bactéria, CRISPR/Cas, capaz de desarmar vírus cortando seu DNA.

Emmauelle Charpentier e Jennifer Doudna foram laureadas pelo desenvolvimento do método de tesoura genética

Emmanuelle publicou sua descoberta em 2011. No mesmo ano, ela começou a trabalhar com Jennifer Doudna, uma experiente bioquímica com vasto conhecimento em RNA. Juntas, elas conseguiram recriar as tesouras genéticas da bactéria em laboratório, simplificando seus componentes de forma a torná-las mais fáceis de usar.

Em um experimento que marcou época, elas reprogramaram as tesouras genéticas. Originalmente, as tesouras reconheciam o DNA dos vírus, mas as duas cientistas provaram que poderiam controlá-la de forma a cortar qualquer molécula de DNA em lugares específicos. Quando o DNA é cortado, fica fácil reescrever o código da vida.

Desde que Emmanuelle e Jennifer descobriram a CRISPR/Cas9 em 2012, seu uso se popularizou em todo o mundo. Esta ferramenta contribuiu para muitas descobertas importantes da pesquisa básica. Pesquisadores que trabalham com plantas foram capazes de desenvolver novas variantes, resistentes a secas e vários tipos de pestes. Na Medicina, testes clínicos com novas terapias contra o câncer estão em desenvolvimento e o sonho de conseguir curar uma doença herdada está prestes a se tornar realidade. As tesouras genéticas levaram as ciências da vida para uma nova era, trazendo grandes benefícios para a Humanidade.

Quem são as vencedoras do Nobel de Química de 2020

Emmanuelle Charpentier nasceu em 1968 em Juvisy-sur-Orge, França. Obteve seu PhD. em 1995 no Instituto Pasteur, em Paris, França. É diretora da Unidade Max Planck para a Ciência de Patógenos, em BerlimAlemanha.

Jennifer A. Doudna nasceu em 1964 em Washington, D.C, nos EUA. Obteve seu PhD. em 1989 na Escola Médica de Harvard, em Boston, EUA. É professora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA e pesquisadora do Instituto Médico Howard Hughes.

As duas cientistas se somam a um grupo de pouquíssimas mulheres que já receberam o Nobel de Química. Antes delas, apenas cinco outras pesquisadoras tinham sido laureadas. É primeira vez que duas mulheres são laureadas juntas.  Desde 1901, foram 185 agraciados, entre eles, apenas sete mulheres, contando a premiação desta quarta-feira. 

“Espero que essa premiação ofereça um exemplo positivo, especialmente para as jovens que queiram seguir o caminho das ciências, mostrando que as mulheres também podem ganhar prêmios mais importantes e ter um impacto positivo nas pesquisas”, disse Emmanuelle.

Saiba quem foram os premiados em anos anteriores

Prêmio Nobel de Química 2019: John Goodenough, da Alemanha e naturalizado americano, M. Stanley Whittingham, do Reino Unido e naturalizado americano, e Akira Yoshino, do Japão

Em 2019, os pesquisadores John Goodenough, nascido na Alemanha e naturalizado americano, M. Stanley Whittingham, nascido no Reino Unido e naturalizado americano, e Akira Yoshino, japonês, foram laureados pelo desenvolvimento das baterias de lítio. O trio criou “mundo recarregável”, nas palavras do comitê do Prêmio Nobel.

Prêmio Nobel de Química 2018: Frances H. Arnold, George P. Smith, ambos dos Estados Unidos, Gregory P. Winter, do Reino Unido

Em 2018, Frances H. Arnold, nascida nos Estados Unidos, levou o prêmio por uma invenção conhecida como evolução dirigida de enzimas. Ela dividiu a honraria com o americano George P. Smith e o britânico sir Gregory P. Winter, laureados pelo pioneirismo no desenvolvimento de uma técnica conhecida como “phage display”.

Prêmio Nobel de Química 2017: Jacques Dubochet, da Suíça, Joachim Frank, da Alemanha, e Richard Henderson, da Escócia

Em 2017, o prêmio foi dividido entre o suíço Jacques Dubochet, o alemão Joachim Frank e o escocês Richard Henderson. Eles se destacaram pelo desenvolvimento de métodos de microscopia que revolucionaram a bioquímica utilizando temperaturas muito baixas.

Prêmio Nobel de Química 2016: Jean-Pierre Sauvage, da França, J. Fraser Stoddart, do Reino Unido, e Bernard L. Feringa, da Holanda

O prêmio de 2016 foi compartilhado pelo francês Jean-Pierre Sauvage, o britânico sir J. Fraser Stoddart e o holandês Bernard L. Feringa por seus trabalhos no design e síntese de máquinas moleculares.

Prêmio Nobel de Química 2015: Tomas Lindahl, da Suécia, Paul Modrich, dos Estados Unidos, Aziz Sancar, da Turquia

Em 2015, o prêmio foi para o sueco Tomas Lindahl, o americano Paul Modrich e o turco Aziz Sancar por seus estudos sobre reparação do DNA danificado.

Prêmio Nobel de Química 2014: Eric Betzig, William E. Moerner, ambos dos Estados Unidos, e Stefan W. Hell, da Romênia

A edição de 2014 do Prêmio Nobel de Química laureou o americano Eric Betzig, o romeno Stefan W. Hell e o americano William E. Moerner pelo desenvolvimento da microscopia de fluorescência de super-resolução

Prêmio Nobel de Química 2013: Martin Karplus, da Áustria, Michael Levitt, da África do Sul, e Arieh Warshel, de Israel

O prêmio de 2013 foi concedido ao austríaco Martin Karplus, ao sul-africano Michael Levitt e ao israelense Arieh Warshel pelo desenvolvimento de modelos multiescala para sistemas químicos complexos

Prêmio Nobel de Química 2012: Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka, ambos dos Estados Unidos

Em 2012, os americanos Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka foram premiados pelos estudos sobre os receptores acoplados a proteínas G.

Prêmio Nobel de Química 2011: Dan Shechtman, de Israel

A edição de 2011 premiou o israelense Dan Shechtman por seu trabalho com semicristais.

Prêmio Nobel de Química 2010: Richard F. Heck, dos Estados Unidos, Ei-ichi Negishi, da China, Akira Suzuki, do Japão

Em 2010, o prêmio foi entregue ao americano Richard F. Heck, ao chinês Ei-ichi Negishi e ao japonês Akira Suzuki pelo catalisador de paládio de acoplamento cruzado em sínteses orgânicas.

Prêmio Nobel de Química 2009: Venkatraman Ramakrishnan, da Índia, Thomas A. Steitz, dos Estados Unidos, e Ada E. Yonath, de Israel

O prêmio de 2009 foi concedido ao indiano Venkatraman Ramakrishnan, ao americano Thomas A. Steitz e à israelense Ada E. Yonath pelos seus estudos sobre a estrutura molecular do ribossomo.

Sobre o Prêmio Nobel

Cada um dos vencedores dos prêmios deste ano, anunciados entre 5 e 12 de outubro, receberá um cheque de dez milhões de coroas suecas (aproximadamente R$ 6,2 milhões) – um valor que não era pago há dez anos. Em 2011, a Fundação Nobel reduziu o valor do prêmio de dez milhões para oito milhões de coroas suecas. Em 2017, a instituição aumentou o valor para nove milhões. Somente este ano voltará ao valor original.

A Fundação Nobel administra os bens de Alfred Nobel, que deixou a maior parte de sua fortuna para a criação do prêmio com o seu nome em testamento feito em Paris, em 1895. Nobel inventou a dinamite em 1866, criação que o tornou rico.  A fundação concede os prêmios de medicinafísicaquímicaeconomialiteratura e paz.

Pela primeira vez desde 1944, a cerimônia de premiação física em 10 de dezembro foi cancelada, por conta da pandemia de covid-19, e substituída por um evento on-line, no qual os laureados receberão os prêmios em seu país de residência. Uma cerimônia ainda está marcada em Oslo para o Prêmio da Paz, mas reduzida ao mínimo.

O tradicional banquete dos prêmios Nobel, celebrado todo ano em dezembro em Estocolmo, na Suécia, também foi cancelado. O banquete do Nobel foi cancelado anteriormente durante as duas guerras mundiais. Também não ocorreu em 1907, 1924 e 1956.