Artemis I: Nasa diz que nova tentativa de lançar foguete à Lua será dia 23 ou 27

Confirmação depende dos resultados dos testes de abastecimento, previstos para o dia 17
Por Raisa Toledo

As duas tentativas de lançamento do foguete SLS, no dia 29 de agosto e no dia 3 de setembro, foram adiadas por problemas no abastecimento de hidrogênio líquido.
As duas tentativas de lançamento do foguete SLS, no dia 29 de agosto e no dia 3 de setembro, foram adiadas por problemas no abastecimento de hidrogênio líquido. Foto: Aubrey Gemignani/NASA

Após dois scrubs, como são chamados os adiamentos ou cancelamentos de lançamentos, a Nasa já tem uma nova previsão para iniciar a missão Artemis I ao redor da Lua. As duas possíveis datas são os dias 23 e 27 de setembro. A última tentativa ocorreu no sábado passado, 3, e foi suspensa após a identificação de um vazamento de hidrogênio em uma das linhas de combustível do foguete Space Launch System (SLS).

Em entrevista coletiva concedida pela Nasa nesta quinta-feira, um porta-voz da agência espacial americana informou que são necessários quatro dias entre a realização do teste e um possível lançamento, motivo pelo qual o dia 23 está sendo considerado. Novos testes devem ser realizados no dia 17. Depois do último adiamento, as equipes decidiram substituir a vedação em uma interface, chamada de desconexão rápida, entre a linha de alimentação de combustível de hidrogênio líquido e o foguete.

Antes, no dia 29 de agosto, a primeira tentativa foi adiada também devido a um vazamento de hidrogênio, que impediu o resfriamento de um dos quatro motores do SLS.

Além dos testes de abastecimento, a Nasa precisa resetar as baterias do sistema de lançamento. O procedimento busca atender os critérios do Eastern Range (área de segurança da Força Aérea dos Estados Unidos para lançamentos espaciais e testes de mísseis) para a certificação do sistema de terminação de voo do foguete, que permite que um lançamento seja interrompido de maneira controlada.

De acordo com o porta-voz, os custos de falhar seriam muito maiores do que os de adiar o lançamento como tem sido feito até agora, razão pela qual a equipe precisa “fazer tudo certo”. “Muitas outras coisas são precisas para fazer um foguete voar do que apenas lançá-lo”, afirmou.

Após a realização dos testes, a Nasa vai analisar novamente se as datas previstas são realistas. Até o momento, os representantes da agência espacial estão confiantes de que os problemas serão resolvidos. No dia 23, o lançamento está previsto para as 7h47, no horário de Brasília, com uma janela de 1h20. No dia 27, a previsão é iniciar às 12h37, com uma janela de 1h10.

Programa Artemis

Sucessor do programa Apollo, que levou o homem à Lua pela primeira vez em 1969, o programa Artemis faz parte do objetivo da Nasa de estabelecer uma presença humana permanente no satélite natural.

A Artemis I, sem tripulação, é a primeira das três missões planejadas com essa finalidade. Ela testará os sistemas integrados desenvolvidos pela Nasa e a resistência da cápsula Orion, que fica na ponta do foguete SLS e precisará aguentar velocidade e temperatura bastante elevadas durante o retorno à Terra.

Esses testes são importantes para embasar a realização da Artemis II, uma missão tripulada ao redor da Lua prevista para 2024, e a Artemis III, que pretende levar ao satélite natural a primeira mulher e a primeira pessoa negra, em 2025.

Sua cópia está lá fora e você provavelmente compartilha o DNA com ela

Essa pessoa muito parecida com você não é seu gêmeo, mas cientistas dizem que seus genomas podem ter muito em comum
Kate Golembiewski

Exemplos de fotografias utilizadas no estudo do pesquisador Manel Esteller, que aponta que DNA de sósias é parecido – François Brunelle

THE NEW YORK TIMES – Charlie Chasen e Michael Malone se conheceram em Atlanta em 1997, quando Malone atuou como cantor convidado na banda de Chasen. Eles rapidamente se tornaram amigos, mas não percebiam o que as pessoas ao seu redor viam: os dois podiam passar por gêmeos.

Malone e Chasen são “doppelgängers”, em alemão. Eles são incrivelmente parecidos, mas não são parentes. Seus ancestrais imediatos nem sequer são da mesma parte do mundo: os antepassados de Chasen vieram da Lituânia e da Escócia, enquanto os de Malone são da República Dominicana e das Bahamas.

Os dois amigos, juntamente com centenas de outros sósias não relacionados, participaram de um projeto de fotografia do artista canadense François Brunelle. A série de imagens “Eu Não Sou um Sósia!” foi inspirada pela descoberta de Brunelle de seu próprio sósia, o ator inglês Rowan Atkinson.

O projeto fez sucesso nas redes sociais e em outras partes da internet, mas também chamou a atenção de cientistas que estudam as relações genéticas. O doutor Manel Esteller, pesquisador do Instituto de Pesquisas de Leucemia Josep Carreras, em Barcelona, na Espanha, já havia estudado as diferenças físicas entre gêmeos idênticos e queria examinar o inverso: pessoas que se parecem, mas não são parentes. “Qual é a explicação para isso?”, ele se perguntou.

Em um estudo publicado na terça-feira (23) na revista Cell Reports, Esteller e sua equipe recrutaram 32 pares de sósias das fotografias de Brunelle para fazer testes de DNA e preencher questionários sobre seus estilos de vida. Os pesquisadores usaram um software de reconhecimento facial para quantificar as semelhanças entre os rostos dos participantes. Dezesseis desses 32 pares alcançaram pontuações gerais semelhantes a gêmeos idênticos analisados pelo mesmo software. Os pesquisadores então compararam o DNA desses 16 pares de “doppelgängers” para ver se seu DNA era tão semelhante quanto seus rostos.

Esteller descobriu que os 16 pares que eram “verdadeiros” sósias compartilhavam um número significativamente maior de genes do que os outros 16 pares que o software considerou menos semelhantes. “Essas pessoas realmente se parecem porque compartilham partes importantes do genoma, ou a sequência de DNA”, disse ele. Que pessoas mais parecidas tenham mais genes em comum “pode parecer senso comum, mas nunca foi demonstrado”, disse ele.

Parece haver algo muito forte em termos de genética que está fazendo com que dois indivíduos parecidos também tenham perfis semelhantes em todo o genomaOlivier Elemento

Olivier Elemento
Diretor do Instituto Englander de Medicina de Precisão na Weill Cornell Medicine, em Nova York

O DNA sozinho, entretanto, não conta toda a história de nossa constituição. Nossas experiências vividas e as de nossos ancestrais influenciam quais de nossos genes são ativados ou desativados —o que os cientistas chamam de epigenomas. E o microbioma, nosso copiloto microscópico composto por bactérias, fungos e vírus, é ainda mais influenciado pelo meio ambiente. Esteller descobriu que, embora os genomas dos “doppelgängers” fossem semelhantes, seus epigenomas e microbiomas eram diferentes. “A genética os une, e a epigenética e o microbioma os separam”, afirmou ele.

Essa discrepância nos diz que as aparências semelhantes dos pares têm mais a ver com seu DNA do que com os ambientes onde cresceram. Isso surpreendeu Esteller, que esperava encontrar uma influência ambiental maior.

Como a aparência dos “doppelgängers” é mais atribuível a genes compartilhados do que a experiências de vida compartilhadas, isso significa que, até certo ponto, suas semelhanças são apenas obra do acaso, propiciadas pelo crescimento populacional. Afinal, existe um número limitado de maneiras de construir um rosto.

“Parece haver algo muito forte em termos de genética que está fazendo com que dois indivíduos parecidos também tenham perfis semelhantes em todo o genoma”, disse Olivier Elemento, diretor do Instituto Englander de Medicina de Precisão na Weill Cornell Medicine, em Nova York, que não participou do estudo. As discrepâncias entre as previsões do DNA e a aparência real das pessoas podem alertar os médicos para problemas, disse ele.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Espaçonave Starliner, da Boeing, alcança a órbita após duas tentativas frustradas

Apesar do sucesso, lançamento foi prejudicado após quatro propulsores falharem durante o voo
Por Christian Davenport – Washington Post Bloomberg

Lançamento da espaçonave Starline, da Boeing, em direção à Estação Espacial Internacional

A espaçonave Starliner, da Boeing, finalmente alcançou a órbita na quinta-feira, 19,  em direção a Estação Espacial Internacional, dando um grande passo após duas tentativas frustradas que se tornaram parte dos muitos problemas da empresa e símbolo da sua queda. 

A conquista, porém, foi um pouco prejudicada após a Boeing divulgar que dois dos quatro propulsores que deveriam colocar a espaçonave na órbita correta falharam. O Starliner possui 12 propulsores que podem ser usados ​​para tais manobras. Os backups entraram em ação, disseram as autoridades, e a espaçonave entrou na órbita correta.

As autoridades estão otimistas de que o problema não interromperá a missão. A nave tem apenas alguns grandes disparos de propulsores a caminho da estação. E assim que o Starliner se aproximar, ele usará propulsores menores para ajustar sua posição para acoplar.

Ele usaria os propulsores maiores novamente quando saísse da estação para sair de órbita em seu retorno à Terra, mas isso também não deve representar um problema, disse Steve Stich, gerente do programa de tripulação comercial da Nasa

Enquanto isso, engenheiros em terra investigarão por que os propulsores falharam. Eles estão “tentando entender o que aconteceu e montar um plano para ver se conseguem recuperar os propulsores”, disse Stich.

“O sistema foi projetado para ser redundante e funcionou como deveria”, disse Mark Nappi, um vice-presidente da Boeing que supervisiona o programa Starliner. “E agora a equipe está trabalhando para descobrir por que essas anomalias ocorreram.” Ele acrescentou: “A espaçonave está em excelentes condições. Hoje parece muito bom, e temos muita confiança no veículo.”

O voo é um teste para a Boeing para demonstrar que sua cápsula autônoma pode se encontrar com a estação e depois estacionar. O voo de quinta-feira foi um teste da espaçonave sem pessoas a bordo. Se a missão for bem, A Boeing mais tarde começaria a levar astronautasda Nasa. 

A notícia das falhas do propulsor veio depois que a espaçonave decolou com sucesso do Cabo Canaveral a bordo de um foguete Atlas V, iluminando os céus sobre a Costa Espacial da Flórida.

A cápsula ainda precisa alcançar a estação espacial, voando em órbita a 17.500 mph. Em seguida, ele precisa se aproximar cada vez mais da estação, pausando em vários incrementos para garantir que esteja posicionado corretamente. Então a Nasa daria luz verde para atracar. 

O retorno também é um grande teste. O Starliner se desprenderia da estação depois de alguns dias, depois viria arremessando-se pela atmosfera espessa, gerando temperaturas de cerca de 3,5 mil graus Fahrenheit. O escudo térmico tem que aguentar. Os pára-quedas têm que trabalhar para desacelerá-lo para o pouso. Assim como os airbags que o Starliner implanta para garantir um toque suave em um dos locais de pouso remotos escolhidos no oeste dos Estados Unidos.

Mas enquanto a Nasa e a Boeing estão aplaudindo, o lançamento foi um grande alívio e uma vitória muito necessária, este é apenas o primeiro passo. Há um longo caminho pela frente. 

“Vamos dar um passo de cada vez”, disse Kathy Lueders, administradora associada da Nasa para operações espaciais antes do voo. “Vamos usar isso como aprendizado para nós e então poderemos levar nossas tripulações.”

A Boeing havia tentado e falhado em duas tentativas anteriores de realizar o voo de teste sem tripulação para a estação espacial. A primeira tentativa de voo, em dezembro de 2019, deu errado por causa de um grande problema de software. O relógio de bordo da cápsula estava com 11 horas de atraso. Os controladores terrestres lutaram para se comunicar com a espaçonave e tiveram que terminar a missão sem atracar na estação espacial.

A Boeing passou cerca de 18 meses corrigindo os problemas de software, passando por todas as 1 milhão de linhas de código e investigando o problema junto com a Nasa. Finalmente, a espaçonave retornou à plataforma de lançamento em julho de 2021, mas horas antes do lançamento, os engenheiros descobriram que 13 válvulas no módulo de serviço não podiam ser abertas. A Boeing e a Nasa disseram que resolveram o problema e estão prontos para voar novamente.

Depois que o ônibus espacial Space Shuttle foi aposentado em 2011, a Nasa procurou o setor privado para transportar carga e suprimentos e, eventualmente, seus astronautas para a estação espacial. Em 2014, celebrou contratos com a Boeing e SpaceXpara desenvolver naves espaciais capazes de levar astronautas sob seu programa de tripulação comercial. Inicialmente, a maioria da indústria espacial esperava que a Boeing lançaria primeiro por causa de sua longa herança em voos espaciais. Mas a SpaceX voou sua primeira missão tripulada em 2020 e várias outras desde então. Apesar dos problemas da Boeing, funcionários da Nasa demonstraram confiança na empresa e sua cápsula.

O astronauta da Nasa Barry “Butch” Wilmore disse que ele e seus colegas designados para os voos Starliner “não estariam aqui se não estivéssemos confiantes de que esta seria uma missão bem-sucedida. Mas sempre há incógnitas desconhecidas. Isso é o que historicamente sempre nos pegaram. São essas coisas que não sabemos e não esperamos.” Ainda assim, acrescentei: “Estamos prontos”. 

Suni Williams, outro astronauta da Nasa que poderia voar em um dos primeiros voos do Starliner, reconheceu que “há muito trabalho pela frente antes de chegarmos ao voo tripulado. Mas estamos ansiosos. Estamos prontos para a espaçonave ir para a estação espacial, ter muito sucesso, voltar, ter um bom pouso suave. E então estaremos prontos para o trabalho.”

Ator anglo-brasileiro Alfred Enoch lembra episódio de racismo em hotel de luxo Rio

Artista estreou no cinema nacional em “Medida Provisória”, primeiro filme dirigido por Lázaro Ramos
Yasmin Setubal

Colete Serpent’ne, calça Retropy, colares Sara Joias e relógio Cartier na Sara Joias Foto: Marcus Sabah
Colete Serpent’ne, calça Retropy, colares Sara Joias e relógio Cartier na Sara Joias Foto: Marcus Sabah

Eram dez e meia da manhã de uma sexta-feira que prometia um temporal daqueles no Rio. Alfred Enoch caminhava a passos largos por um dos corredores da Feira de São Cristóvão, cenário escolhido para as fotos deste ensaio. Pisava naquele lugar pela primeira vez, apesar de visitar o Brasil anualmente desde a infância. Rasgando um português perfeito, com direito a “carioquices” (como o famoso “mermo”), o ator cumprimentou a todos com a cortesia típica de quem nasceu e ainda mora em Londres, na Inglaterra. “Vejo que perdi muita coisa sendo criado fora, mas, quando criança, não sentia a necessidade de afirmar essa parte da minha identidade, porque, para mim, era muito óbvio: sou metade brasileiro, metade inglês”, pontua ele, que já morou em Salvador, na Bahia, em dois momentos: aos 3 anos, por um trimestre, e aos 6, por mais de um ano.

Camisa e calça Gucci Foto: Marcus Sabah
Camisa e calça Gucci Foto: Marcus Sabah

Aos 33, o ator coleciona sucessos no currículo, como o Dino Thomas nos filmes da saga “Harry Potter” e Wes Gibbins no seriado “Como defender um assassino” — onde atuou junto a nomes do quilate de Viola Davis —, e faz sua estreia no cinema nacional como protagonista de “Medida Provisória”, primeiro longa-metragem dirigido por Lázaro Ramos, lançado na última quinta-feira. “Além de ter uma carreira internacional reconhecida, ele tem uma forte ligação com a nossa cultura e com a nossa língua. A partir disso, saí em busca do contato do Alfred”, lembra Lázaro. “Gosto de dizer que a cena da sacada, na qual ele grita ‘esse país também é meu’, é muito emblemática para o filme e também para a história pessoal dele.”

Camisa Ori Rio, calça Handred e colares Sara Joias Foto: Marcus Sabah
Camisa Ori Rio, calça Handred e colares Sara Joias Foto: Marcus Sabah

Alfred é filho do ator britânico William Russell, conhecido por “Doctor Who”, e da médica brasileira com ascendência afro-barbadiana Etheline Enoch, que se apaixonaram em 1981, durante uma turnê no Rio de um espetáculo estrelado pelo veterano, hoje com 97 anos. “Meu pai convidou minha mãe para passar o Natal em Londres, e ela nunca mais voltou”, conta. Apesar de iniciar sua fluência em português aos 3 anos, o artista admite certa insegurança com o idioma. “Não acho que falo bem e me cobro demais. Quando já estou há muito tempo aqui, consigo relaxar, mas quando chego, fico bolado tentando falar direitinho. Sei que é uma besteira, e que esse lugar de cobrança não me ajuda, mas é como se esses erros colocassem a minha brasilidade em jogo”, pondera ele, graduado em Português e Espanhol pela Universidade de Oxford.

Camisa poloSerpent’ne e colar Dipuá Foto: Marcus Sabah
Camisa poloSerpent’ne e colar Dipuá Foto: Marcus Sabah

No filme, o ator vive o advogado Antônio, que sofre com a imposição de uma medida provisória absurda, que pretende devolver todos os negros à África. Seu par romântico é a cirurgiã Capitu, interpretada por Tais Araújo. “Trabalhar com ele foi maravilhoso, é um cara muito técnico, mas sem perder a espontaneidade. Aprendi demais e era lindo vê-lo tomando posse dessa identidade brasileira”, elogia a atriz.

A implementação da medida 1888 e o consequente embranquecimento da população brasileira, de carona no discurso da reparação histórica, é o grande argumento do filme. Para o ator, que não cresceu no Brasil, injustiças sociais e o racismo não escolhem país. Mas é no Rio onde ainda habita a lembrança de um episódio dolorido da infância. Aos 10 anos, um segurança o impediu de entrar num hotel de luxo com seus pais. Estava de bermuda, chinelo e molhado por causa da chuva que batia forte. “Ele achava que não tinha por que eu estar naquele lugar. Isso te diz muito sobre quais espaços os corpos negros são permitidos ocupar”, afirma. “Percebo essa desigualdade desde sempre, porque minha mãe era praticamente, senão a única, pessoa negra da turma de Medicina, e estudava enquanto trabalhava como professora de escola primária. Ela não teve os mesmos privilégios que eu.”

Regata Ori Rio, calça Handred, colar menor Dipuá e colar mais longo, Sara Joias Foto: Marcus Sabah
Regata Ori Rio, calça Handred, colar menor Dipuá e colar mais longo, Sara Joias Foto: Marcus Sabah

Acostumado a vir ao Brasil para passar férias e “fazer tudo aquilo que uma pessoa faz quando não tem compromissos”, o ator, que é apaixonado por “se perder num bloco” de carnaval de rua, conta que se viu desafiado ao trabalhar num país tropical por conta do clima quente e do ritmo da cidade. Mas se diz aberto a convites e mais oportunidades por aqui. “Só estou esperando me chamarem.”

Sem qualquer perfil oficial nas redes sociais, enquanto uma fan page no Instagram dedicada a ele esbanja mais de 170 mil seguidores, Alfred não acompanhou a repercussão de sua vinda ao Brasil para o lançamento do filme. “Não tenho talento e nem saco para tecnologia. Brinco que o transporte público é a minha rede social. As pessoas vêm e falam comigo. Melhor que viver a vida com o celular na mão”, finaliza.

SpaceX completa viagem histórica para o turismo espacial; veja como foi o pouso

Empresa de Elon Musk realiza feito inédito de levar civis em um voo orbital, sem astronautas ou pilotos
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Pouso da cápsula Crew Dragon foi amortecido com paraquedas

A primeira missão a levar civis para a órbita da Terra foi encerrada com sucesso neste sábado, 18. Após uma viagem de três dias, a nave da SpaceX, empresa de exploração espacial do bilionário Elon Musk, pousou na costa da Flórida, no Oceano Atlântico, às 20h07 (horário de Brasília). 

A missão, chamada de Inspiration4, é histórica e coloca Elon Musk à frente na corrida do turismo espacial. Os voos turísticos para o espaço realizados em julho pela Blue Origin, de Jeff Bezos, e pela Virgin Galactic, de Richard Branson, ficaram em altitudes mais baixas e não chegaram a entrar em órbita. A SpaceX já havia se tornado no ano passado a primeira companhia privada a realizar um voo orbital tripulado – porém, na ocasião, a nave contava com a presença de astronautas profissionais.

A preparação para a cápsula Crew Dragon reentrar na atmosfera começou na sexta-feira, 17, com manobras de diminuição de altitude e alinhamento da trajetória da cápsula com o local de pouso – durante a viagem, a nave chegou a uma altitude de 575 km, bem acima da posição da Estação Espacial Internacional, que está em órbita a 408 km de distância da Terra.

Na noite deste sábado, os primeiros paraquedas da cápsula se abriram às 20h03 e, um minuto depois, foram acionados os paraquedas principais para amortecer o pouso. A nave pousou no oceano às 20h07 – na sequência, embarcações foram receber a tripulação. Dez minutos antes do pouso, no momento da reentrada na atmosfera, a cápsula passou por um período de “blackout” de quatro minutos, sem comunicação com a Terra.  

Reveja abaixo a transmissão do pouso:

Ao contrário de Bezos e Branson, Elon Musk não embarcou na aventura. Quatro passageiros participaram da missão: Jared Isaacman (bilionário de 38 anos, fundador da empresa de pagamentos Shift4 Payments), Hayley Arceneaux (médica de 29 anos que sobreviveu a um câncer ósseo), Chris Sembroski (veterano da força aérea dos Estados Unidos de 42 anos) e Sian Proctor (geologista de 51 anos). Os tripulantes participaram de treinamentos e simulação com a SpaceX desde fevereiro.

Isaacman pagou por todos os assentos no voo – o valor desembolsado não foi revelado. O plano é usar a viagem para arrecadar fundos para um hospital americano de tratamento de câncer infantil. Entre as cargas da Inspiration4, estarão um conjunto de experimentos relacionados à saúde, e os objetos usados na viagem serão leiloados. A missão pretende arrecadar US$ 200 milhões para o hospital de pesquisa – Isaacman doará outros US$ 100 milhões. 

Nos últimos três dias, os tripulantes deram uma volta na Terra a cada 90 minutos. Na sexta-feira, 17, os passageiros participaram de uma transmissão de aproximadamente 10 minutos direto do espaço, em que falaram sobre a experiência e mostraram alguns objetos que levaram para viagem. Isaacman afirmou que a cápsula Crew Dragon estava se deslocando a 7,6 quilômetros por segundo. “Estamos muito orgulhosos de compartilhar essa experiência com todo mundo. Sabemos o quanto somos afortunados por estar aqui”, afirmou o bilionário. 

Chris Sembroski chegou a tocar ukulele dentro da nave na transmissão – o instrumento será um dos itens a serem aproveitados no leilão beneficente. Já a médica Hayley Arceneaux mostrou um ultrassom portátil, usado para examinar passageiros. 

Futuro

O voo da SpaceX é um novo salto nas viagens turísticas ao espaço. A nave com Jeff Bezos, fundador da Amazon, atingiu a altitude de 107 km e viajou por 10 minutos, enquanto o planador com Richard Branson chegou a 80,5 km em um voo de 90 minutos. Nenhum dos dois veículos chegaram a entrar em órbita, e eles passaram longe da localização da Estação Espacial Internacional. 

“A viagem da Inspiration4 é de outra ordem de grandeza. As iniciativas da Virgin Galactic e da Blue Origin foram apenas passeios, enquanto a SpaceX concluiu uma missão espacial de verdade”, afirma Cassio Leandro Dal Ri Barbosa, astrônomo e professor do Centro Universitário FEI.https://arte.estadao.com.br/uva/?id=y3A332

Para Alexandre Zabot, professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o voo da SpaceX consolida uma nova era no setor. 

“Esse tipo de viagem exige foguetes com uma capacidade de lançamento de carga para o espaço muito diferenciada. Até então, víamos algumas aventuras pontuais relacionadas ao turismo espacial. Agora, já vemos três empresas mostrando tecnologias maduras e fazendo voos inaugurais com civis”, diz Zabot. “Estão abertas as portas para um turismo espacial permanente, gerenciado por companhias privadas”. 

Bezos e Branson reconheceram o sucesso da Inspiration4. “Parabéns Elon Musk, SpaceX e equipe pelo sucesso no lançamento da Inspiration4 na noite passada. É mais um passo em direção a um futuro de um espaço acessível a todos”, afirmou o fundador da Amazon no Twitter na quinta-feira, 18. Também na rede social, Branson parabenizou a empresa por alcançar a órbita e disse que a viagem é “outro grande momento para a exploração espacial”. 

Vídeo

Inspiration4 | In-Flight Update with the Crew

Join us for the first live, on-orbit update from the Inspiration4 crew – the world’s first all-civilian human spaceflight to orbit!

The Inspiration4 mission is part of Jared’s ambitious fundraising goal to give hope to all kids with cancer and other life-threatening diseases. Visit St. Jude Children’s Research Hospital® to learn how you can help the Inspiration4 crew reach their $200M fundraising goal.

During their multi-day journey in orbit, the Inspiration4 crew will conduct scientific research designed to advance human health on Earth and for future long-duration spaceflights.

Junte-se a nós para a primeira atualização ao vivo em órbita da tripulação do Inspiration4 – o primeiro vôo espacial humano totalmente civil a orbitar!

A missão Inspiration4 é parte da ambiciosa meta de arrecadação de fundos de Jared para dar esperança a todas as crianças com câncer e outras doenças fatais. Visite o St. Jude Children’s Research Hospital® para saber como você pode ajudar a equipe do Inspiration4 a atingir sua meta de arrecadação de fundos de US $ 200 milhões.

Durante sua jornada de vários dias em órbita, a tripulação do Inspiration4 conduzirá pesquisas científicas destinadas a promover a saúde humana na Terra e para futuros voos espaciais de longa duração.

‘Esforço para ciência no Brasil é 4 vezes maior’, diz biomédica Jaqueline Goes de Jesus que sequenciou coronavírus e ‘virou’ Barbie

Pesquisadora integra o time de especialistas que fez o sequenciamento genômico do primeiro caso de Covid-19 detectado no Brasil em apenas 48 horas
André Biernath

Jaqueline Goes de Jesus virou boneca na coleção da Barbie que faz homenagem a mulheres que atuaram na linha de frente da pandemia

SÃO PAULO | BBC NEWS BRASIL – Prestes a completar 32 anos, a biomédica Jaqueline Goes de Jesus ainda não se sente 100% confortável com os holofotes que iluminaram sua carreira nos últimos meses.

Graduada pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e doutora em patologia humana e experimental pela Universidade Federal da Bahia, a pesquisadora integra o time de especialistas que fez o sequenciamento genômico do primeiro caso de Covid-19 detectado no Brasil em apenas 48 horas, um recorde que só foi igualado pelo Instituto Pasteur, na França.

O projeto, que ganhou destaque nacional e internacional, contou com uma parceria entre o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto Adolfo Lutz, também na capital paulista.

Dali em diante, a vida de Goes de Jesus virou de cabeça pra baixo: ela foi homenageada na Assembleia Legislativa da Bahia, se tornou personagem da Turma da Mônica e, mais recentemente, virou até boneca Barbie, numa linha produzida para celebrar mulheres que estiveram na linha de frente do combate à Covid-19.

“Tudo isso ainda é muito estranho. Eu sou apenas uma cientista, que faço parte de um grupo de pesquisa, e às vezes sinto que as homenagens ficam muito direcionadas só para mim”, diz a biomédica.

Mas os colegas de laboratório, como a cientista Ester Sabino, a convenceram sobre a importância de assumir esse papel de relevância.

“Com o tempo, percebi que represento outras questões que vão além da ciência. Eu sou mulher, nordestina, negra e ocupo uma posição de destaque que dificilmente vemos no Brasil”, analisa.

Goes de Jesus espera que seu trabalho possa servir de exemplo e inspiração para as futuras gerações de pesquisadores brasileiros.

“Eu não tive referências científicas na minha infância. E jamais pensei que, fazendo graduação em biomedicina, poderia ser cientista”, conta.

“Isso é muito grave, porque não damos oportunidades para as pessoas serem aquilo que elas desejam de verdade”, completa.

A biomédica também chama atenção para o pouco investimento em ciência no Brasil e como isso impactou não apenas a condução da pandemia atual, mas estimula a ida de jovens pesquisadores para o exterior — ela própria foi recentemente para o Reino Unido, onde continua a fazer estudos com vírus.

“Para fazer ciência no Brasil, a gente tem que se esforçar quatro vezes mais”, lamenta.

Nessa entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Goes de Jesus ainda falou sobre o estágio da pandemia de Covid-19 no país e mostrou preocupação com o relaxamento nas medidas restritivas em várias cidades.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Antes de 2020, a senhora já havia trabalhado e fazia pesquisas com o HIV e com os agentes infecciosos por trás de dengue e zika. O que mudou em seu trabalho com a chegada do Sars-CoV-2?

Jaqueline Goes de Jesus – A mudança foi muito mais no quesito de reconhecimento do nosso trabalho do que no trabalho em si. É óbvio que a demanda aumentou muito.

O Brasil, apesar de não ter ficado entre os primeiros no número de genomas do coronavírus sequenciados, sem dúvidas foi o país que mais trouxe avanços na América Latina. Isso tanto pelo trabalho do nosso grupo quanto de outras equipes que trabalham com isso. A gente também tem a FioCruz e os laboratórios de saúde pública fazendo essa vigilância genômica.

Eu diria que nós tivemos um reconhecimento maior no âmbito social e político. E talvez isso veio à tona para a população, que pode finalmente conhecer o trabalho de um cientista. Isso abre as portas para uma série de outras discussões que eram e são extremamente necessárias, no sentido do reconhecimento da ciência.

Imagem em primeiro plano mostra uma mulher negra com fone de ouvido
Em entrevista à BBC News Brasil, Goes de Jesus diz que Brasil errou ao não ouvir a ciência durante a pandemia – BBC News Brasil

BBC News Brasil – Numa perspectiva mais geral, a pandemia exigiu respostas rápidas para problemas muito complexos. Como a senhora vê a transformação da ciência durante esses últimos meses?

Goes de Jesus – A pandemia trouxe um senso coletivo muito maior para a área da ciência. Eu costumo dizer que na ciência a gente tem como único produto, ou um dos principais, a publicação científica. É ali que você resume seu projeto, seu trabalho e o desenvolvimento de uma linha de pesquisa.

Durante a pandemia, houve um compartilhamento maior desses resultados, com uma aceleração na quantidade de publicações e do índice de produtividade dos pesquisadores. Em grande parte dos países, os grupos conseguiram colaborar mais, mesmo que de maneira informal. O fato de muitas pesquisas sobre o coronavírus serem desenvolvidas e publicadas faz com que exista uma aceleração do conhecimento a respeito do vírus e da doença. E isso contribui, já que a gente utiliza esses trabalhos para basear as ações necessárias para conter o problema.

Eu ainda acho que nós precisamos avançar muito mais nesse sentido. É urgente trazer novos conhecimentos. E, muitas vezes, essa urgência não é compatível com o tempo que uma revista leva para publicar o artigo.

Eu passei por essa situação quando nós fomos divulgar o sequenciamento dos primeiros casos de Covid-19 no Brasil. Naquele momento, essa informação era muito importante e não podíamos esperar a publicação científica completa para revelar esses dados.

Mas, posteriormente, nós também tivemos uma dificuldade enorme em publicar o trabalho numa grande revista, com um alto fator de impacto, porque aquela informação já não era mais uma novidade, não havia uma exclusividade nela. Isso atrapalha um pouco a vida do cientista e talvez precisemos pensar nessa velocidade com que os conhecimentos são gerados e divulgados.

BBC News Brasil – Mas a senhora acha que é possível aliar o melhor dos dois mundos? Ou seja, manter o processo rigoroso da publicação científica, com revisão dos dados por especialistas independentes, e mesmo assim acelerar esse processo?

Goes de Jesus – Sim. Sou uma jovem pesquisadora e tenho recebido muitos trabalhos para fazer essa revisão. Quando nós abrimos esse leque para novos cientistas, que nunca tinham sido convidados para realizar esse trabalho, aumentamos o número de revisores e conseguimos ampliar a velocidade do processo.

A pandemia trouxe um novo contexto e é necessário que se revejam essas questões. Muitos trabalhos acabam esperando meses e meses para serem rejeitados ou publicados. O pesquisador perde todo esse tempo para a revista dar um parecer. Talvez a pandemia traga isso de legado e exponha a necessidade de abrir o universo da revisão por pares e trazer um pouco mais de celeridade ao processo.

BBC News Brasil – Como foi o trabalho de receber a amostra do primeiro caso de Covid-19 no Brasil e fazer o sequenciamento genético em poucas horas?

Goes de Jesus – Nós realmente fizemos o sequenciamento num tempo muito curto, mas isso não aconteceu porque a nossa equipe era hiper, master, ultra competente. Não que todos os pesquisadores não fossem competentes, claro, mas fazer tudo em 48 horas refletiu, na verdade, o processo de preparação que fizemos para que isso fosse possível.

Nós já tínhamos montado toda a estrutura para que, quando o primeiro caso fosse confirmado, nós já tivéssemos os equipamentos e os reagentes prontos no laboratório. Ou seja, as 48 horas refletem, na verdade, dois meses de preparação e toda uma cadeia de trabalho e treinamento.

Eu particularmente já fazia sequenciamentos desde 2016, com o vírus zika. Meus colegas de laboratório também já tinham essa experiência. E a gente manteve a parceria com o Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz, por conta de um projeto anterior que eu desenvolvia com dengue.

Nós estreitamos os laços e, a partir daí, surgiu a oportunidade de fazer o genoma do Sars-CoV-2. Então a gente já tinha se organizado antes, junto com o pessoal do Adolfo Lutz, e sabíamos que a possibilidade de o primeiro caso ser detectado em São Paulo era grande. Quando isso efetivamente aconteceu, colocamos a mão na massa e realizamos todo o processo laboratorial.

Contamos também com o apoio dos epidemiologistas e bioinformatas do Reino Unido. Temos um contato muito próximo com eles e todo esse processo de montagem do genoma e publicação aconteceu em conjunto. Meu rostinho ficou conhecido por uma questão de facilidade de comunicação, mas existe uma equipe muito grande por trás de tudo.

Com o sequenciamento dos primeiros casos e a importância disso para a saúde pública, veio a necessidade de fazer a vigilância genômica, que é o monitoramento dos novos casos, para entender se há a introdução ou a emergência de novas variantes, como o vírus está se dispersando, quais as medidas tomadas e como fazer o controle da transmissão viral.

Três pessoas com roupa especial e touca posam para foto
Claudia Gonçalves, Jaqueline Goes e Claudio Sacchi, parte da equipe brasileira que conseguiu sequenciar genoma de coronavírus em aproximadamente 48 horas após confirmação de diagnóstico – Arquivo pessoal / BBc News Brasil

BBC News Brasil – Esses primeiros casos são simbólicos e, como a senhora relatou, eles mostram esse preparo e organização de toda a equipe. Mas como o trabalho de vocês se desenvolveu a partir dali?

Goes de Jesus – Os primeiros casos foram feitos em parceria com o Instituto Adolfo Lutz. Depois desse primeiro momento, dividimos o grupo e parte do laboratório continuou com o sequenciamento genético, inclusive implementando novas tecnologias com capacidade de processamento maior.

Enquanto isso, o grupo da Dra. Ester Sabino, do qual eu, a Ingra Morales, a Flávia Salles e a Érika Manuli fazemos parte, deu continuidade aos casos que estavam chegando a pedido da Secretaria de Laboratórios Públicos do Ministério da Saúde, que naquela época era coordenada pelo Dr. Julio Croda.

Então a gente tinha essa demanda específica. O Instituto Adolfo Lutz ficou com a demanda estadual e nós, no Instituto de Medicina Tropical da USP, continuamos a fazer o sequenciamento genético para tentar trazer o máximo de informações. E foi assim que conseguimos publicar o primeiro artigo de grande porte, na revista Science em julho do ano passado. Ali mostramos a geração de quase 500 novos genomas, analisados entre março e junho de 2020.

Conseguimos medir também o impacto das várias medidas que haviam sido tomadas pelo Brasil, ou pelos diferentes Estados. Até porque a gente não teve uma ação unificada para a implementação das medidas não-farmacológicas de mitigação da pandemia. E as medidas adotadas em alguns lugares estavam tendo impacto significativo na transmissão do coronavírus em diferentes centros.

BBC News Brasil – O Brasil vive um problema de baixo investimento em ciência, com cortes significativos nas verbas nas últimas décadas. A senhora acredita que a história da pandemia poderia ter sido diferente no país se tivéssemos mais investimento na pesquisa e no desenvolvimento?

Goes de Jesus – Com certeza. Acho que temos uma questão ideológica que envolve o investimento em ciência. Isso acontece em qualquer país, e no Brasil não é diferente. Quando existe um alinhamento governamental que entende que ciência é extremamente importante e faz investimentos nela, a gente já tem o primeiro passo.

Se o governo investe na ciência, a probabilidade de ele seguir as orientações do que a ciência traz como resposta é muito maior. E aqui não estou falando só da saúde, mas também da área econômica, social, de infraestrutura…

E o país consegue ter esse retorno do investimento, porque de fato temos um aumento do conhecimento. Nesses casos, o governo entende aqueles resultados obtidos através da pesquisa e implementa isso na forma de políticas públicas e de novas diretrizes, baseadas justamente em ciência.

Se o Brasil tivesse investido muito em ciência, ou pelo menos um pouquinho mais, é provável que teríamos um maior alinhamento governamental. E aqui não estou falando apenas da esfera federal, mas também de Estados e municípios.

Esse maior investimento faria com que tivéssemos um retorno científico, no sentido de entender melhor o que está acontecendo ou de fazer pesquisas para encontrar as respostas. A partir desse novo conhecimento, poderiam ser implementadas medidas para reduzir a transmissão do vírus e, na cadeia dos resultados, a gente teria obviamente um impacto muito menor da pandemia na saúde dos brasileiros.

Eu sou uma defensora nata da ciência, não poderia ser diferente. Mas existe um raciocínio lógico por trás disso. A gente sabe que os países mais desenvolvidos são aqueles que apostam e investem na ciência.

E o Brasil ainda não conseguiu encontrar esse casamento entre ciência e ações governamentais, seja do ponto de vista de investimento ou de entender aquelas informações e como implementá-las por meio de diretrizes, campanhas e ações.

BBC News Brasil – Um fenômeno relacionado a esse baixo investimento em ciência é a chamada “fuga de cérebros”, em que os cientistas brasileiros saem do país e vão para a Europa ou os Estados Unidos. A senhora, inclusive, se mudou recentemente para o Reino Unido. É possível ser cientista no Brasil ou, para continuar na área, é preciso ir para o exterior?

Goes de Jesus – A fuga de cérebros é, de fato, um fenômeno muito forte. Grande parte dos pesquisadores que eu conheço e que tiveram oportunidade de estudar fora, em países onde existe um investimento maior em ciência, fizeram isso. Para fazer ciência no Brasil, a gente tem que se esforçar quatro vezes mais.

E aí, quando a gente sai do Brasil, seja para uma temporada ou para realmente estabelecer residência, percebemos a diferença na nossa produtividade. Produzimos muito mais quando estamos fora por conta do investimento em recursos.

É possível, sim, fazer ciência no Brasil. Eu faço isso há dez anos, desde a iniciação científica. Mas não é fácil, e a gente tem que driblar uma série de dificuldades. Os reagentes não chegam no prazo esperado, não existe legislação, não temos um fluxo de logística, e tudo isso impede que o pesquisador tenha uma eficiência maior em seu trabalho.

Um indivíduo que fez mestrado e doutorado passou por uma graduação e ainda dedicou seis anos de sua vida para chegar num nível de pesquisador, onde ele consegue ter os próprios recursos para trabalhar. É um investimento muito caro, de tempo e de dinheiro.

E aí, quando temos esses doutores, que poderiam trazer muito resultado e conhecimento para nosso país, eles não são remunerados da forma correta e não têm oportunidades nas universidades. O Brasil ainda abarca a ciência só no âmbito das universidades públicas estaduais e federais. Nós temos pouquíssimos centros privados que fazem pesquisa.

Tudo isso contribui para que o indivíduo procure oportunidades fora do país, até porque isso não falta. Eu tenho um alerta configurado no meu e-mail e, todos os dias, eu recebo três, quatro, cinco vagas dentro da minha área no exterior. E no Brasil a gente fica competindo por uma vaga…

BBC News Brasil – Essas dificuldades que a senhora descreveu ajudam a desenvolver uma versatilidade e uma capacidade de adaptação no cientista brasileiro? Essas habilidades são valorizadas no exterior?

Goes de Jesus – O Brasil é uma boa escola para isso. Eu não gosto de romantizar o sofrimento, seja ele qual for. Mas, uma vez que você passa por um processo de formação no Brasil, em que é preciso driblar tantas dificuldades e dar o famoso jeitinho, nós conseguimos resolver situações extremamente inusitadas.

Fora do Brasil, principalmente nos países que têm investimentos em ciência, isso não acontece. Daí, quando você se encontra numa dificuldade no exterior, é muito mais fácil de manejar aquela situação, até porque ela é costumeira no Brasil. É nossa rotina.

Então aqui no Reino Unido, quando acontece uma situação diferente, os pesquisadores nativos ficam um pouco perdidos. E a gente já está tentando resolver, ajeita de um lado, ajeita de outro, e conseguimos trazer soluções que não são obviamente as melhores, mas pelo menos resolvem aquilo por um período de tempo.

BBC News Brasil – No início da entrevista, falávamos sobre como a pandemia ajudou de alguma maneira a popularizar a ciência. E a senhora é parte desse processo e virou até personagem da Turma da Mônica e boneca Barbie. Como foi participar desses projetos e aliar a pesquisa a esse universo pop?

Goes de Jesus – Tudo isso ainda é muito estranho. Eu sou apenas uma cientista, que faço parte de um grupo de pesquisa, e às vezes sinto que as homenagens ficam muito direcionadas só para mim

Mas teve uma coisa que ouvi de alguns colegas que me ajudou a entender um pouco mais essa situação e ver algum sentido nisso tudo. Eu represento outras questões que não apenas a ciência. E essa representatividade tem um apelo muito grande no Brasil. Com o tempo, percebi que represento outras questões que vão além da ciência. Eu sou mulher, nordestina, negra e ocupo uma posição de destaque que dificilmente vemos no Brasil. Agora, talvez, isso é mais discutido e conseguimos trazer mais pessoas com essas características para os holofotes.

Mas, durante toda a minha vida, eu sempre vi homens brancos de meia idade sendo responsáveis por falar na mídia e por representar grupos que, talvez, envolvessem pessoas diversas. Mas era sempre aquela mesma figura da pessoa considerada mais apropriada para aparecer.

Trazer a Dra. Jaqueline Goes para esse universo pop também é uma quebra de paradigma. É você mostrar a visão de que o mundo mudou e nós precisamos acompanhar essa mudança. Nós temos pesquisadoras jovens, negras, mulheres que ocupam posição de destaque também, mas que nunca foram vistas dessa forma. É importante, porque trazemos representatividade.

Eu recebo muitas mensagens de escolas pedindo para que eu faça palestras ou participe de um bate-papo com as crianças. Muitas vezes eu não consigo dar conta de tudo, mas eu faço um esforço muito grande para comparecer a esses eventos online. Porque são as crianças de hoje, inspiradas nessa representatividade, que vão mudar o futuro. A gente precisa investir nisso.

Eu não tive referências científicas na minha infância. As minhas primeiras referências só vieram na época do mestrado, quando eu já estava graduada. Tudo isso agora é diferente. E jamais pensei que, fazendo graduação em biomedicina, poderia ser cientista. Isso é muito grave, porque não damos oportunidades para as pessoas serem aquilo que elas desejam de verdade. Às vezes, é só o que coube para ela naquele momento.

Calhou de eu cair na ciência e gostar, mas nunca foi a minha pretensão. E também acho que essa não era a pretensão de muitos dos meus colegas. Trazer isso para o universo pop, inclusive com outras cientistas, como foi o caso da homenagem com a Barbie, significa que nós carregamos essa representatividade. A criança olha para uma boneca e pensa que pode ser como ela. Isso é algo diferente do que eu vi durante toda a minha vida.

No início, eu não queria aceitar, ficava muito com essa coisa de que trabalhamos em grupo e todos deveriam receber a homenagem. A minha ideia mudou quando ouvi da minha supervisora, a Dra. Ester Sabino, uma pessoa muito sábia, que era importante eu trazer essas outras representatividades extremamente urgentes para nossa sociedade.

Imagem mostra seis bonecas Barbie com roupas de profissionais da saúde
Jaqueline Góes de Jesus (segunda da esq. à dir) foi homenageada com Barbie cientista – Divulgação Mattel/BBC News Brasil

BBC News Brasil – Os cientistas estão acostumados a trocar ideias e informações com os colegas, numa linguagem acadêmica e, muitas vezes, pouco acessível. Como dialogar com o público geral?

Goes de Jesus – Vou falar algo que nunca comentei em entrevistas. Essa semana, eu estava refletindo com um amigo e cheguei à conclusão de que isso faz parte da minha trajetória. Eu sou professora. E, enquanto professora, preciso pegar algo que é muito complexo e trazer para o universo do estudante, que está aprendendo sobre aquilo pela primeira vez.

Comecei a dar aula com 16 anos em uma escola infantil. A partir dessa experiência de ensinar para as crianças, depois passar pela graduação dentro da universidade, de ser professora universitária e participar de um projeto de aulas online, a gente vai desenvolvendo essas habilidades.

Precisamos pegar algo complexo e passar para diferentes públicos. Para isso, precisamos de experiência e confiança, além de usar ferramentas como as comparações, falar de maneira calma… Isso facilita muito quando falamos de ciência para a população. Até porque precisamos trazer algo que seja da realidade daqueles indivíduos.

Não adianta ir pra mídia e usar termos técnicos. Precisamos destrinchar aquele conhecimento e transformá-lo em algo que seja fácil para o público degustar. No momento em que se gosta daquilo, fica fácil buscar mais informações. E isso aconteceu durante a pandemia. Eu vi as pessoas procurando por ciência e por conhecimento como buscavam por resultados de jogos de futebol. Ainda não é o ideal, mas é muito gostoso de ver isso acontecer.

BBC News Brasil – Em relação à pandemia, a senhora já vê alguma luz no fim do túnel? Existe alguma perspectiva de fim da crise sanitária, quando pensamos na realidade brasileira?

Goes de Jesus – Eu vivo uma realidade no Reino Unido que é completamente incompatível com a brasileira. Aqui, a vacinação avançou e temos praticamente 80% da população completamente imunizada. Isso muda a forma como a gente vive.

Falando do Brasil, eu ainda tenho um receio pelo surgimento de novas variantes. Esse é um grande receio, aliás. Então, sempre que as pessoas perguntam sobre perspectivas, eu respondo que é muito complicado falar de previsão. Como cientista que entende o processo de disseminação viral e o surgimento de novas variantes, eu pensaria [num fim para a pandemia] em 2024. E sei que não é uma previsão muito agradável. E tenho até receio de falar isso para as pessoas, para que não seja usado fora de contexto ou recebido como como grande verdade.

Sobre o modo como os brasileiros estão levando a pandemia, abrindo tudo sem que as pessoas estejam completamente vacinadas, é muito complicado. Nós temos grandes centros com uma boa porcentagem da população com as duas doses, mas, em outros lugares, estamos longe de alcançar isso. É difícil dizer que, em 2022, já estaremos livres da pandemia, com todo mundo vacinado.

Isso porque nós temos a possibilidade de surgirem novas variantes e o Brasil já mostrou que é capaz de fazer isso. Tivemos a P.1 [a atual Gama] e diversas outras que se desenvolveram no país. E esse é o grande empecilho para que estejamos tranquilos no ano que vem.

Enquanto brasileira, se eu pudesse dizer o que precisa ser feito agora seria continuar com as restrições, deixar em funcionamento apenas o que é estritamente necessário, não incentivar eventos e aglomerações e acelerar a vacinação.

Precisamos investir na compra de vacinas. A gente sabe que tem como comprar mais doses se houver uma intenção real do governo de fazer isso. E ouvimos o presidente falar que vai reduzir o orçamento para compra de vacinas em tantos por cento no ano que vem. Não! A gente precisa aumentar esse percentual, não reduzi-lo. A epidemia não acabou.

A gente volta mais uma vez para a questão dos governos que investem e acreditam na ciência. É algo que se retroalimenta. Infelizmente, não temos isso no Brasil.

É complicado fazer previsões sobre o fim da pandemia, mas eu diria no final de 2023, início de 2024, se não tivermos novas variantes surgindo com tanta velocidade como temos observado.

BBC News Brasil – Quais foram os principais erros cometidos na condução da pandemia no Brasil e o que podemos aprender com eles?

Goes de Jesus – Acho que a gente errou em não ouvir a ciência. Enquanto cientistas, trouxemos informações e conhecimentos de forma muito rápida para o governo e a sociedade brasileira. No início da pandemia, eu me recordo de ter sido convocada, junto de outros pesquisadores, para dar direcionamento em relação ao que deveria ser feito no país.

A minha sugestão era que nós fizéssemos um controle maior nos aeroportos e fechássemos as fronteiras. Assim, a gente poderia ao menos conter a introdução de novas variantes do vírus, de modo a mitigar aquilo que já tinha entrado no Brasil com os primeiros casos.

Infelizmente, nada disso aconteceu. Essa reunião foi final de março de 2020. Pouquíssimas das nossas recomendações foram acatadas. Depois disso, trouxemos o estudo na Science em julho falando das medidas não-farmacológicas e o impacto que elas tiveram na redução da pandemia. Ainda assim, vimos muitas cidades seguindo o caminho contrário, de não estabelecer a quarentena e o lockdown, de não preconizar o uso de máscara, e com governantes dizendo que tudo era uma baboseira.

Infelizmente, por mais que nossos governantes não acreditassem ou tivessem uma opinião contrária, a figura deles como exemplo era necessária para que a gente tivesse outro curso na pandemia. Erramos em não ouvir a ciência.

E continuamos a errar. O Brasil está fazendo uma série de reaberturas que não eram para acontecer neste momento. Não sei se nós aprendemos com esses erros ainda.

Mas também vejo pelo lado positivo, em que aprendemos muito sobre prevenção de epidemias, disseminação de doenças por via respiratória, sobre questões de higiene… Se a gente começar a olhar outras doenças relacionadas à falta de higiene, veremos que a prevenção para Covid-19 ajudou a evitar outras doenças.

E, agora, boa parte da população entende que, quando temos recursos, interesses políticos, econômicos e sociais no desenvolvimento de uma vacina, ela pode ficar pronta em tempo recorde. O mundo inteiro se debruçou no desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19 e temos várias delas já aprovadas.

BBC News Brasil – Pensando em representatividade e inspiração, como uma criança ou um jovem pode virar cientista no futuro? Qual caminho devem seguir?

Goes de Jesus – Essa é uma pergunta difícil. As pessoas têm uma ideia de que cientista só trabalha na saúde. E eu gosto de lembrar das outras áreas, inclusive as ciências sociais. Se tornar cientista, para mim, é algo que vem de dentro. Você precisa ter um instinto curioso.

As crianças são cientistas por natureza. Elas trazem essa curiosidade e querem descobrir o ambiente e tudo ao redor. Para aqueles jovens que continuam com desejo de explicar os fenômenos sociais, políticos, de saúde e da área das exatas, o passo principal é fazer uma graduação em algo que agrade. Se você gosta de engenharia, vai fazer. E, dentro dessa área, procure grupos de estudo que trabalham com um tópico de seu interesse.

Não adianta se envolver com áreas nas quais você não tem aptidão ou afinidade. Tem que gostar. Se não, não flui. Ser cientista não é uma posição em que você trabalha das 8 às 16 horas e, no outro dia, aparecem outras demandas. Você vive a pesquisa. Às vezes você está tomando banho e se lembra de algo que poderia ter feito no experimento e não fez. Ou sonha com o experimento que fará no dia seguinte.

Você é sempre cientista, seja no laboratório, em casa ou numa festa com os amigos. Está sempre pensando e buscando entender os fenômenos. Primeiro, é preciso ser curioso. Depois, seguir a carreira, fazer graduação, entrar em grupos de pesquisa para mestrado e doutorado. E, claro, ter sempre essa vontade de explicar as coisas dentro de si.

SpaceX lança voo orbital com civis e leva turismo espacial a novas alturas

Empresa de Elon Musk é a terceira companhia privada a levar pessoas comuns ao espaço neste ano, sem a presença de astronautas e pilotos; voos de Jeff Bezos e Richard Branson, realizados em julho, não chegaram a entrar em órbita
Por Giovanna Wolf e Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Reprodução/Inspiration

Pela terceira vez neste ano, uma empresa privada leva pessoas para “turistar” no espaço – e desta vez, o salto foi ainda mais alto. Nesta quarta-feira, 15, a SpaceX, empresa de exploração espacial do bilionário Elon Musk, lançou uma tripulação com quatro civis em uma viagem na órbita da Terra. Com o feito, o fundador da Tesla leva o turismo espacial a outro patamar: os voos da Blue Origin, de Jeff Bezos, e da Virgin Galactic, de Richard Branson, realizados em julho, ficaram em altitudes mais baixas e não chegaram a entrar em órbita. 

A missão, chamada de Inspiration4, é a primeira da história a lançar pessoas comuns em órbita terrestre. Até então, a SpaceX só havia enviado uma tripulação de astronautas para esse tipo de viagem espacial no ano passado, o que também foi um feito inédito para uma companhia privada. A decolagem do foguete Falcon 9 ocorreu com sucesso às 21h03 (horário de Brasília). 

A sequência a seguir foi muito rápida: às 21h04, a nave atingiu velocidade supersônica, às 21h06, o primeiro estágio se separou, às 21h08, a nave atingiu 10 mil km/h, às 21h11, a nave atingiu 20 mil km/h. Na sequência, vieram eventos fundamentais: às 21h12, a nave atingiu velocidade máxima (27,3 km/h) enquanto ao mesmo tempo o primeiro estágio pousava na Terra. Às 21h13, a nave entrou em órbita e, às 21h15, o segundo estágio se separou. Nesse momento, a nave estava a 200 km de altitude e seguiu viagem em direção a altitude máxima (575 km).  

Em três minutos, às 21h06, a nave já havia superado a altitude dos voos de Bezos e Branson, cruzando a marca de 100 km de altitude. 

Reveja a transmissão abaixo:

Ao contrário de Bezos e Branson, Elon Musk não embarcou na aventura. A nave foi lançada com quatro passageiros: Jared Isaacman (bilionário de 38 anos, fundador da empresa de pagamentos Shift4 Payments), Hayley Arceneaux (médica de 29 anos que sobreviveu a um câncer ósseo), Chris Sembroski (veterano da força aérea dos Estados Unidos de 42 anos) e Sian Proctor (geologista de 51 anos). 

Isaacman pagou por todos os assentos no voo – o valor desembolsado não foi revelado. O plano é usar a viagem para arrecadar fundos para um hospital americano de tratamento de câncer infantil. Entre as cargas da Inspiration4, estarão um conjunto de experimentos relacionados à saúde, e os objetos usados serão leiloados. A missão pretende arrecadar US$ 200 milhões para o hospital de pesquisa – Isaacman doará outros US$ 100 milhões. 

A nave atingiu velocidade máxima de 27,3 mil km/h e chegará a uma altitude de 575 quilômetros – bem acima da posição da Estação Espacial Internacional, que está em órbita a 408 km de distância da Terra. A tripulação viajará em órbita por cerca de três dias e depois reentrará na atmosfera. O pouso final será um mergulho na Costa do Golfo ou na Costa Atlântica da Flórida.

Tripulação da Inspiration4: Chris Sembroski, Sian Proctor, Jared Isaacman e Hayley Arceneaux
Tripulação da Inspiration4: Chris Sembroski, Sian Proctor, Jared Isaacman e Hayley Arceneaux

Fora de órbita

O voo da SpaceX é diferente das viagens realizadas pela Blue Origin e pela Virgin Galactic em julho. A nave com Jeff Bezos, fundador da Amazon, atingiu a altitude de 107 km e viajou por 10 minutos, enquanto o planador com Richard Branson chegou a 80,5 km em um voo de 90 minutos. Nenhum dos dois veículos chegaram a entrar em órbita, e eles passaram longe da localização da Estação Espacial Internacional. 

“A viagem da Inspiration4 é de outra ordem de grandeza. Nos voos suborbitais, basicamente você lança um míssil que sobe até acabar o combustível e depois cai de volta para a Terra. As iniciativas da Virgin Galactic e da Blue Origin foram apenas passeios, enquanto a SpaceX concluiu uma missão espacial de verdade”, afirma Cassio Leandro Dal Ri Barbosa, astrônomo e professor do Centro Universitário FEI. 

Dentro disso, há um aumento de custo. Como a viagem é prevista para durar três dias, é necessário que técnicos em Terra monitorem com cautela o voo. A tripulação também precisa passar por simulações e treinamentos mais detalhados – Isaacman e os outros três viajantes treinaram com a SpaceX desde fevereiro.

Para Alexandre Zabot, professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o voo da SpaceX consolida uma nova era no setor. 

“Esse tipo de viagem exige foguetes com uma capacidade de lançamento de carga para o espaço muito diferenciada. Até então, víamos algumas aventuras pontuais relacionadas ao turismo espacial. Agora, já vemos três empresas mostrando tecnologias maduras e fazendo voos inaugurais com civis”, diz Zabot. “Estão abertas as portas para um turismo espacial permanente, gerenciado por companhias privadas”. 

É também um novo capítulo da rinha entre Elon Musk e Jeff Bezos na corrida espacial. Há algum tempo, o fundador da Tesla celebra o pioneirismo da SpaceX e zomba do rival. Em 2019, ao apresentar o novo protótipo do Starship, foguete da empresa, Musk chegou a dizer que tem “muito respeito por qualquer pessoa que tenha lançado um foguete em órbita”. 

Missão Inspiration4, da SpaceX, deve deixar concorrentes do turismo espacial comendo poeira

Lançamento está marcado para a noite desta quarta (15); tripulantes, todos civis, ficarão na órbita da Terra por três dias
Phillippe Watanabe

Dois homens e duas mulheres sorriem de pé em um gramado verde. Ao fundo, um foguete branco aparece.
Da esq. para a dir., Jared Isaacman, Hayley Arceneaux, Sian Proctor e Chris Sembroski, passageiros da Inspiration4, em foto de divulgação da série documental da Netflix sobre a missão – John Kraus/Netflix/Divulgação/AFP

Os primeiros civis a se aventurar sozinhos fora da Terra, sem a presença de astronautas profissionais, estão prestes a decolar em um foguete da empresa privada SpaceX, do bilionário Elon Musk. O voo está agendado para a noite desta quarta-feira (15).

A missão Inspiration4, a bordo da cápsula Crew Dragon, não deve ficar tão longe de casa, porém, permanecendo na órbita do nosso planeta por cerca de três dias.

O tempo não parece tão longo, mas já é muito maior do que os poucos minutos que as experiências recentes de turismo espacial proporcionaram aos viajantes.

Se você está achando que se trata de mais um voo privado de bilionários ao espaço, em parte, você está certo. Sim, é um voo privado e tem um novo bilionário que decolará em um foguete. Desta vez, é Jared Isaacman, 38, fundador da empresa de pagamentos Shift4 Payments.

Mas há um tanto a mais nessa missão, em relação aos voos privados recentes do empresário Richard Branson, dono da Virgin Galactic, e do CEO da Amazon, Jeffrey Bezos, dono da companhia espacial Blue Origin.

Primeiro, como já dito, a questão da tripulação: a primeira composta totalmente por civis —logicamente, nenhum deles terá a responsabilidade de pilotar a nave. O comando é automatizado, observado por engenheiros que ficam em terra firme.

Além de Isaacman, outras três pessoas foram escolhidas para integrar o voo. Daí, inclusive, vem o nome da missão, Inspiration4. A ideia é ter representados na nave valores como liderança, esperança, generosidade e prosperidade.

Uma mulher e três homem olhando para a cãmera; ao redor da cabeça de cada um deles está a extremidade de saída do foguete que os levará ao espaço
As quatro pessoas que compõem a primeira missão sem astronautas profissionais ao espaço; na foto, Hayley Arceneaux (esq.acima), Sian Proctor (dir. acima), Chris Sembroski (esq.abaixo) e Jared Isaacman (dir. abaixo) – John Kraus/Inspiration4/AFP

A ideia de liderança está a cargo de Isaacman, que inclusive tem experiência como piloto. É ele, com sua fortuna, que paga pelas vagas dos colegas de voo. O valor desembolsado não foi divulgado.

A esperança está associada a Hayley Arceneaux, 29, assistente médica do hospital infantil St. Jude, em Memphis, no Tennessee (EUA), que superou um câncer —sendo tratada nesse mesmo hospital— quando tinha 10 anos de idade.

Além disso, Arceneaux será a pessoa mais jovem a chegar ao espaço e a primeira a fazer isso com uma prótese (como consequência do tumor ósseo, uma parte dos ossos da perna esquerda dela tiveram que ser substituídos).

A generosidade está associada a Christopher Sembroski, 42. Ele fez uma doação para o hospital St. Jude (ao todo, a missão pretende levantar cerca de US$ 200 milhões para a instituição), em um concurso promovido por Isaacman para sortear um felizardo para entrar a bordo.

O engenheiro acabou não tendo sorte de cara. A vaga não veio para ele, mas, sim, para um amigo, que, pelo entusiasmo de Sembroski pelo assunto, resolveu redirecionar o prêmio.

Por fim, a prosperidade está associada a Sian Proctor, 51, geóloga e empreendedora que quase chegou a ser astronauta pela Nasa e agora realizará o sonho de ir ao espaço. Assim, ela se tornará a quarta mulher negra a alcançar o feito.

Dois homens e duas mulheres posam de pé em um fundo cinzento vestindo trajes de astronauta, com capacetes com visor por onde podemos ver seus rostos
Da esq. para dir. Chris Sembroski, Sian Proctor, Jared Isaacman e Hayley Arceneaux, tripulantes da missão Inspiration4 – Inspiration4/John Kraus/Divulgação/Reuters

Proctor conseguiu seu lugar na nave ganhando um concurso da empresa de Isaacman, no qual os participantes tinham que usar o software da Shift4 Payments para montar uma loja online e tuitar vídeos sobre seus sonhos relacionados a empreendedorismo e espaço.

“Esse primeiro voo é muito simbólico. Inaugura o turismo espacial em órbita, que até agora não tinha sido feito de forma privada”, diz Lucas Fonseca, empreendedor espacial.

Mas, para além da tripulação 100% civil, a missão Inspiration4 deve fazer história também por questões técnicas.

Os voos feitos até o momento por outros bilionários duraram pouquíssimo tempo. “Você sobe, sobe, sobe, passa a linha que limita o espaço e desce”, resume Cássio Barbosa, astrofísico do Centro Universitário FEI. “É um míssil que sobe, acaba o combustível e ele desce”, brinca.

Isso porque as missões comerciais anteriores, realizadas em julho pela Virgin Galactic, empresa de Branson, e pela Blue Origin, de Bezos, foram voos suborbitais. Nesse tipo a velocidade não costuma exceder os 4.000 km/h.

“Não tem graça falar de espaço em um voo suborbital que dura minutinhos, que é só para enxergar a curvatura da Terra e ver o espaço escuro”, diz Barbosa. “Vai experimentar a gravidade zero, mas qualquer em montanha-russa de respeito você consegue ter o mesmo friozinho na barriga.”

Já para um voo orbital, como é o caso da atual missão da SpaceX, uma cápsula precisa chegar a velocidades maiores do que 27.000 km/h. Há, com isso, uma diferença no tamanho do foguete necessário, nos riscos e na complexidade da tarefa.

A tripulação dará uma volta completa no globo terrestre a cada 90 minutos, em uma velocidade de cerca de 22 vezes a do som. A órbita ao redor da Terra será mais distante do que a da Estação Espacial Internacional e do telescópio Hubble.

Segundo o especialista da FEI, a Inspiration4 é diferente de tudo o que se viu até o momento na área de turismo espacial. “É um voo realmente espacial, no sentido que a gente está acostumado.”

A cápsula Crew Dragon, que levará os três sortudos e o bilionário para o espaço, foi originalmente desenvolvida para fornecer serviços de transporte de tripulação à Nasa.

Com ela, desde o ano passado, já foram feitas três missões com tripulação até a Estação Espacial Internacional. A cápsula estará a bordo de um foguete reutilizável Falcon 9.

Se Branson e Bezos foram os primeiros no turismo espacial, Musk parece, pelo menos em parte, ter ultrapassado os outros bilionários.

“Dentre essas empresas que se propõem a fazer turismo espacial, é de longe o voo mais notável”, diz Fonseca, que relembra que o turismo no espaço teve início no começo dos anos 2000, quando uma nave russa levou um homem para visitar a Estação Espacial Internacional —mais uma vez, ao custo de milhões de dólares.

Foguete branco está pousado de pé em um pátio, ao ar livre
Foguete Falcon 9, da SpaceX, que levará a cápsula com os passageiros da missão Inspiration4 – Patrick T. Fallon/AFP

Somente “em parte”, por uma questão prática. Considerando que voos suborbitais já são para poucas pessoas na Terra, pelo volume de dinheiro movimentado, missões orbitais, como a da SpaceX, devem ter menos candidatos ainda no planeta, prevê Barbosa.

“Envolve uma mobilização de infraestrutura muito grande, o que leva os custos a um patamar muito superior”, diz o pesquisador.

“Ainda falta uma fila de pagantes, pagando do próprio bolso, para ir”, diz Fonseca.

Barbosa afirma que, após os voos turísticos suborbitais e orbitais, o próximo passo, um grande passo para a iniciativa privada na próxima década, pode ser a instalação de hotéis na órbita da Terra.

“Seria uma futura utilização da Estação Espacial”, explica. “Ficaria a cargo da iniciativa privada fazer uma pousada para ficar alguns dias.”