Foi dada a largada para a primeira caminhada espacial totalmente feminina da NASA

A tripulação composta 100% por mulheres já está em missão

Jessica Meir e Christina Koch se preparam para comandar a primeira caminhada espacial 100% feminina da NASA (Foto: Instagram Jessica Meir/ Reprodução)

Um grande passo para as mulheres, um passo maior ainda para a humanidade: começou esta manhã a primeira caminhada espacial de tripulação 100% feminina da Nasa.

A missão, que está sendo transmitida ao vivo no YouTube da NASA, em que o mundo inteiro pode acompanhar o momento histórico, tem previsão de duração de seis horas.

As astronautas Christina Koch (em sua quarta caminhada espacial) e Jessica Meir (estreando em uma missão do gênero) vão trocar uma bateria defeituosa no exterior da Estação Espacial Internacional. 

A americana Christina Koch tem 40 anos e é formada em engenharia elétrica e física, com um mestrado em engenharia elétrica. Ela foi recrutada pela Nasa em 2013, quando fez seu primeiro de quatro vôos espaciais. Com uma carreira estelar (literalmente!), ela está no caminho de bater o recorde de vôo espacial mais longo entre mulheres, com 328 dias – de acordo com o site da NASA.

Já a astronauta sueca-americana-isralense Jessica Meir, de 42 anos, é formada em biologia com mestrado em estudos espaciais e doutorado em biologia marinha.

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Marie Curie: a vagabunda que ganhou dois prêmios Nobel

Por Marcia Barbosa, Professora Titular (UFRGS) e diretora da Academia Brasileira de Ciências

Cientista Marie Curie

Marcia está almoçando com os colegas. Um deles trouxe o filho, Pedro, de cinco anos que acompanha atentamente a conversa dos adultos. O menino, então, interrompe o debate com uma pergunta: qual a pior ofensa que pode ser feita a uma mulher? A pergunta inusitada capta a atenção de todos. Como uma pergunta retórica, Pedro responde: a pior ofensa que podemos fazer a uma mulher é chamá-la de vagabunda. Marcia lembra quantas vezes o termo foi direta ou indiretamente usado contra ela, particularmente quando disputava algum espaço de ciência e de poder. Ela não está só neste universo de vagabundas. Ela lembra de outra cientista que teve sua vida pessoal escrutinada pela opinião pública: Marie Curie.

Nascida na Polônia em uma família de professores, Marie desejava estudar. Mulheres não eram aceitas nas universidades de seu país. Era comum naquela época pensar que mulheres com formação acadêmica seriam intimidadoras e não conseguiriam se casar. 

O pai de Marie não pensava assim, mas como professor não tinha os recursos para manter as filhas estudando na França onde mulheres já eram aceitas nas universidades. Marie e a irmã combinam a ida para a França onde Marie trabalharia para a irmã se formar em medicina e, depois esta ajudaria Marie em seus estudos. Seguindo o plano à risca Marie trabalha como governanta e depois da irmã formada ingressa na universidade. Brilhante, logo atrairia a atenção de um jovem professor, Pierre Curie. Ela estava obcecada em compreender o mecanismo pelo qual alguns materiais emitiam energia. Pierre percebendo a genialidade da que viria a se tornar sua esposa, muda de área de pesquisa e os dois passam a trabalhar juntos. Esta colaboração daria o prêmio Nobel de Física ao casal em 1903 pelos avanços no conhecimento do mecanismo pelo qual alguns materiais emitem energia, a radioatividade. Enquanto o Nobel trazia para Pierre um emprego na prestigiosa Universidade de Sourbonne, Marie continuava atuando como assistente de laboratório.

A vida de nossa heroína enfrenta outros desafios além de não ser reconhecida com um emprego de professora. Em 1906, Pierre é atropelado e morre. Viúva e com duas filhas para criar, Marie não aceita a ajuda do Estado e sai em busca de um emprego na Universidade o que consegue por seu brilhantismo. Como docente, inicia uma nova linha de pesquisa analisando materiais que possuíam radioatividade. Ela viria a descobrir dois elementos novos para a tabela periódica, o rádio e polônio ao mesmo tempo que enfrentava o descrédito de colegas que jocosamente a chamavam de Madame Pierre Curie. Nesta época Harvard nega a Marie uma honraria alegando que ela não havia feito nada de extraordinário depois da morte do marido.

Em 1909 Marie sofre o primeiro ataque misógino e xenofóbico. Ela competia com Edouard Branly, um francês, por uma cadeira na Academia Francesa de Ciências. Os jornais locais atacam a candidatura de Marie por ela não ser francesa, enquanto tratavam com elogios o pesquisador francês que, afinal, era um bom católico apoiado pelo Papa. Os jornalistas chegaram ao extremo de propagar a inverdade de Marie ser judia, o que exaltou ainda mais os ânimos, pois o antissemitismo era forte na Europa nesta época. Os acadêmicos franceses cederam ao machismo da imprensa e Marie nunca entrou na Academia Francesa de Ciências. Curiosamente os brasileiros foram menos preconceituosos e Marie foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Ciências como membro correspondente.

Apesar de tudo, o trabalho de Marie crescia em prestígio e ela era sempre a única mulher na sala das reuniões internacionais. Em 1911, no entanto, um grande escândalo põe à prova mais uma a grande cientista. Jornais parisienses publicam cartas amorosas entre Marie Curie e Paul Langevin, um homem casado. A esposa de Langevin tinha repassado as cartas em uma tentativa de humilhar Marie. Os jornais chamam a grande cientista de destruidora de lares. As “fake news” de que ela mantinha o caso com o Paul mesmo antes do marido falecer e que isto causara sua morte e de que ela era uma judia que vinha para destruir os valores morais franceses cresciam no terreno fértil do machismo. A misoginia ataca as mulheres que se sobressaem. Neste ambiente de terror, ao voltar para casa de um evento, vê sua residência rodeada por uma turba raivosa que a chamam de vagabunda. Foge com as filhas para casa de amigos. Cientistas que apoiam Marie são perseguidos por seus chefes. É o desespero de uma sociedade que acha insuportável uma mulher inteligente.

É neste ambiente de misoginia e xenofobia que ela é agraciada sozinha com o Nobel de Química de 1911. Até hoje ela é a única pessoa que tem dois prêmios em áreas de ciência. O comitê do Nobel, no entanto, não fugiu à regra do machismo dominante. Ao perceber o impacto que a notícia do relacionamento de Marie com Paul tinha na imprensa francesa, sugerem que ela não vá à cerimônia. Afinal, as alegações de que ela era uma vagabunda deixariam o rei da Suécia, que entrega o prêmio, em uma situação desconfortável. Marie não se deixou intimidar pelo preconceito e foi receber o prêmio.

No restante de sua vida, ela viria a mostrar o seu valor não somente como pesquisadora, mas como ser humano. Ela foi parte fundamental do desenvolvimento da radiografia. Durante a I guerra mundial, ao invés de fugir para um local mais tranquilo como fizeram muitas pessoas, ela e a filha se integraram ao esforço de guerra, criando uma “ambulância” que ia ao campo de batalha gerando radiografias de partes dos corpos dos soldados franceses feridos, evitando amputações. Ela estava salvando o povo que a havia chamado de vagabunda. Marie mostrou à França e a cada uma de nós mulheres que lugar de mulher é onde ela quiser estar e que não devemos ser intimidadas pelo atraso dos que dizem que mulheres não devem estudar e pelo machismo moralista que vocifera contra mulheres brilhantes.

Marcia desperta de seu devaneio. Serenamente olha para o menino e diz: Estás enganado, Pedro, vagabunda é um elogio.

Físicos e discípulos de Carl Sagan imaginam o futuro em livros

‘O Futuro da Humanidade’, de Michio Kaku, e ‘Crônicas Espaciais’, de Neil deGrasse Tyson, têm enfoques distintos sobre viagens interplanetárias e expansão do universo
André Cáceres, O Estado de S. Paulo

Dois físicos falam sobre as conquistas espaciais no futuro
Keir Dullea como o astronauta Dave de ‘2001, Uma Odisseia no Espaço’ Foto: Metro Goldwyn Mayer

“Apesar de todas as aparentes impossibilidades, é bastante provável que se possa inventar um meio de viajar para a Lua; e como ficarão felizes os primeiros a terem sucesso nessa tentativa.” Essa frase não seria tão surpreendente se não tivesse sido escrita em 1638, mais de três séculos antes de se mostrar verdadeira. Seu autor, o clérigo inglês John Wilkins (1614-1672), é prova que desde muito cedo na história a exploração espacial é um sonho humano. Em verdade, uma das mais antigas ficções de que se tem notícia, Uma História Verdadeira, de Luciano de Samósata, versa sobre uma viagem à Lua já no século 2. Agora, 50 anos depois do primeiro pouso na Lua, dois livros chegam ao Brasil para discutir os próximos passos da humanidade em direção ao infinito.

O Futuro da Humanidade (Editora Crítica), de Michio Kaku, e Crônicas Espaciais (editora Planeta), de Neil deGrasse Tyson, guardam semelhanças interessantes. Ambos os autores são físicos, divulgadores científicos e ilustres discípulos de Carl Sagan – Tyson, inclusive, apresentou em 2014 o remake da série documental Cosmos, criada em 1980 por Sagan. No entanto, os livros têm enfoques distintos para abordar o tema do universo. Enquanto Crônicas Espaciais é uma compilação de textos antigos de Tyson, muitos deles já desatualizados, a obra de Kaku é um instigante e organizado panorama do que deve acontecer com a humanidade nos próximos anos, décadas, séculos e até mesmo em um futuro incalculavelmente distante, no fim do universo.

Dois físicos falam das conquistas espaciais futuras
O físico Michio Kaku, autor de ‘O Futuro da Humanidade’: otimismo Foto: Editora Planeta

O Futuro da Humanidade é um verdadeiro guia de como poderá ser a expansão humana pelo universo. “Poderá ser”, porque a maior parte dos conceitos e tecnologias discutidos por Kaku ainda são parte da física teórica, não tendo sido testados. Por seu caráter especulativo, ainda que com enorme embasamento teórico, o livro é permeado pelas palavras “possível”, “provável” e “improvável” – o termo “impossível” praticamente não aparece. Kaku demonstra, com essa escolha lexical, que conhece muito bem as três leis postuladas pelo escritor de ficção científica Arthur C. Clarke: “Quando um cientista distinto e experiente diz que algo é possível, é quase certeza que tem razão. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado”, “O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se um pouco além dele, adentrando o impossível” e “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”.

Kaku começa narrando uma breve história da engenharia de foguetes desde o século 19, com o russo Konstantin Tsiolkovski (1857-1935), que lançou as bases teóricas e matemáticas das viagens espaciais, passando pelo americano Robert Goddard (1882-1945), pioneiro que enfrentou o ceticismo da imprensa – em 1929, após uma tentativa frustrada de lançamento de um protótipo, ele virou chacota no jornal local: “Foguete para a Lua erra o alvo por 385 mil quilômetros” –, até o alemão Wernher von Braun (1912-1977), que ajudou Hitler a bombardear as cidades dos Aliados com seus foguetes V2, foi cooptado pelos EUA depois da 2ª Guerra Mundial e virou figurai fundamental para a conquista lunar em 1969.

Nas décadas seguintes ao feito de Neil Armstrong, Buzz Aldrin e companhia, o interesse pela exploração espacial decresceu, acidentes como o da Columbia em 1986 ajudaram a minar o apoio da opinião pública aos empreendimentos, e as verbas minguaram. Mas com a entrada de empresas privadas, a possibilidade de mineração de asteroides e o renovado interesse das pessoas pelo espaço nos últimos anos –como se pode verificar pelo cinema hollywoodiano – a humanidade volta a olhar para cima, segundo Kaku. 

Tyson oferece argumentos para apoiar a exploração do universo. A curto prazo, a ciência sempre esbarra por acaso em novas descobertas e tecnologias benéficas para a sociedade enquanto mira em outras coisas; a longuíssimo prazo, se sobrevivermos às ameaças climática e nuclear em que nos metemos, precisaremos, como espécie encontrar um novo lar, uma vez que nosso Sol tem “apenas” mais alguns bilhões de anos de vida antes de esgotar o combustível de seu núcleo e se expandir, engolindo a Terra em suas chamas. Sem falar que o custo dessas empreitadas, por maiores que sejam, são ínfimos em termos de porcentagem do orçamento de um país, e podem se tornar investimentos lucrativos com a exploração mineral dos asteroides, constituídos de ferro, níquel, carbono e cobalto, além de elementos valiosos como metais de terras raras, platina, paládio, ródio, rutênio, irídio e ósmio.

Os próximos anos, com expedições à Marte empreendidas pela Nasa e por empresas privadas como a SpaceX, de Elon Musk, serão cruciais para o futuro. As diferenças entre os projetos são grandes: enquanto a parceria entre Nasa e Boeing é mais cautelosa, planejando primeiro estabelecer uma base na Lua com infraestrutura para lançar, em um segundo momento, uma viagem a Marte, a SpaceX é mais ousada e pretende enviar uma missão tripulada diretamente ao planeta vermelho já em 2022.

Kaku debate os principais combustíveis utilizados atualmente por foguetes químicos e as apostas mais promissoras para reduzir os custos das viagens ao espaço. Os entraves e as vantagens de tecnologias ainda não disponíveis, como a fissão nuclear, a propulsão iônica, o motor de plasma e até a antimatéria são explicados de forma didática pelo físico. Os obstáculos mais imediatos têm soluções mais próximas e plausíveis, enquanto os passos seguintes trazem desafios que a ciência ainda levará muitas décadas para superar – caso seja mesmo possível, Kaku pondera. 

A velocidade da luz é o limite para se mover pelo universo, e, mesmo com tecnologias ainda em desenvolvimento, qualquer viagem para fora do nosso sistema solar, em direção e outra estrela, seria longa demais para uma pessoa. Kaku fala sobre como a medicina pode nos tornar virtualmente imortais com inovações da nanotecnologia e da engenharia genética, mas ressalta que há questões éticas ainda não resolvidas por trás dessas inovações. Uma solução para os perigos da colonização espacial depende dos avanços na inteligência artificial – robôs autorreplicantes poderiam se espalhar pelo espaço, fincando a bandeira humana e instalando bases para os colonos que chegariam posteriormente, já com as habitações prontas. 

Dessa forma, a humanidade poderia, em algumas centenas de anos, se espalhar pelo espaço como nossos ancestrais outrora se espalharam pelo oceano. “A distância até as estrelas pode parecer imensa”, escreve Kaku. “O físico Freeman Dyson, de Princeton, sugere que, para atingi-las, é preciso aprender algo com as viagens dos polinésios milhares de anos atrás. Em vez de arriscarem-se numa extensa jornada Pacífico afora, que teria todas as chances de acabar em desastre, eles pularam de ilha em ilha, espalhando-se pelas massas de terra do oceano uma de cada vez. Sempre que chegavam a uma, criavam bases permanentes e daí partiam para a ilha seguinte. Ele propõe a criação de colônias intermediárias no espaço profundo, usando a mesma lógica. A chave dessa estratégia estaria nos cometas. Juntamente a planetas órfãos que, de alguma forma, tenham sido ejetados de seus sistemas estelares, eles poderiam criar a trilha para as estrelas.”

Dyson não é o único astro da física consultado por Kaku em O Futuro da Humanidade. A lista de entrevistas feitas por ele nos últimos anos e que embasaram sua investigação para o livro conta com 12 ganhadores do Nobel, cientistas como Stephen Hawking, Ray Kurtzweil, Steven Pinker, celebridades como Stan Lee e Buzz Aldrin, além de uma miríade de citações a obras clássicas da ficção científica, como Fundação, de Isaac Asimov, 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, e Star Maker, de Olaf Stapledon.

Toda essa pesquisa fornece o instrumental teórico para Kaku especular sobre campos tão distantes quanto a exobiologia (que estuda as possíveis formas de vida existentes em planetas distantes) e a cosmologia (que se dedica à origem, evolução e fim do universo, ou dos multiversos, se esse for o caso).

Kaku medita de forma surpreendentemente sóbria sobre o que aconteceria caso nos deparássemos com alienígenas — e faz seu palpite mais arriscado em todo o livro ao dizer que acredita em um contato por rádio por iniciativas como o Seti (Search for Extraterrestial Intelligence) nos próximos anos – e sobre a possibilidade de que a física como conhecemos esteja enganada e que seja realmente possível viajar em velocidades maiores que a da luz. 

No melhor dos cenários, ele imagina uma humanidade próspera, praticamente imortal, espalhada harmoniosamente por toda a galáxia e pensando em maneiras de impedir ou escapar da morte do universo, em um futuro inimaginavelmente distante.

O FUTURO  DA HUMANIDADE. AUTOR: MICHIO KAKU. EDITORA: CRÍTICA. 368 PÁG., R$ 62,90

CRÔNICAS ESPACIAIS. AUTOR: NEIL DE GRASSE TYSON. EDITORA: PLANETA. 384 PÁG.,R$ 48,90

‘Se um robô escrever um romance, devemos admitir que ele é consciente’, diz Ian McEwan

Escritor inglês trata de triângulo amoroso entre um casal e um robô no livro ‘Máquinas Como Eu’
André Cáceres, O Estado de S.Paulo

Alicia Vikander é a robô Ava em ‘Ex Machina’ (2014), de Alex Garland Foto: Universal Pictures

O ano é 1982: a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher envia uma força expedicionária ao outro lado do Atlântico para reaver o controle das Ilhas Malvinas. Na vida real, ela obtém sucesso; no novo livro do romancista inglês Ian McEwan, as tropas são repelidas pelos argentinos com uma tecnologia balística baseada em algoritmos do matemático Alan Turing (1912-1954). Na vida real, Turing morreu aos 41 anos, perseguido pelo Estado graças à sua condição homossexual; em Máquinas Como Eu(Companhia das Letras), ele viveu o bastante para viabilizar a construção de robôs quase indistinguíveis de seres humanos.

A história contrafactual — ou ucronia — é um subgênero fértil da ficção especulativa. Seu exemplar mais conhecido é O Homem do Castelo Alto, em que Philip K. Dickimagina as consequências da vitória nazista na 2.ª Guerra Mundial. Em Máquinas Como Eu, Ian McEwan trilha um caminho mais parecido com o de A Máquina Diferencial, de William Gibson e Bruce Sterling, situado numa Inglaterra vitoriana em que o cientista Charles Babbage (1791-1871) conseguiu construir computadores tão potentes quanto os do século 20, adiantando em décadas o progresso tecnológico. 

Embora o romance de McEwan se passe em 1982, essa é uma linha do tempo alternativa. Smartphones, internet e inteligências artificiais convivem com uma decepcionante turnê de reunião dos Beatles — com John Lennon ainda vivo. “O presente é o mais frágil dos artefatos improváveis”, pensa o protagonista Charlie Friend, ecoando o leitmotiv da ucronia. “Podia ser diferente. Qualquer parte dele, ou sua totalidade, podia ser outra coisa.”

Frustrado com fracassos financeiros sucessivos, inculto, formado em antropologia, mas amante de eletrônica, Charlie leva (mal) a vida apostando na bolsa de valores pelo computador. Quando surge uma nova coqueluche tecnológica, ele torra o dinheiro de uma herança para comprar o androide Adão (as ginoides Eva já estavam esgotadas). Se sua aquisição não  satisfaz seus desejos consumistas, pelo menos acaba servindo para aproximá-lo da vizinha de cima, Miranda, por quem logo se apaixona e com quem divide a criação do robô como se fosse um filho de ambos. 

McEwan constrói a todo momento um jogo de espelhos para brincar com a dualidade humano-robô ou espontâneo-automático. Por vezes, o relacionamento de Charlie e Miranda é tão frio e artificial que eles parecem ser as máquinas, enquanto o fascínio infantil de Adão pela arte, ciência e filosofia é tão genuíno que ele soa muito mais vivo do que seus donos. Quando os três visitam o pai de Miranda, um escritor de relativo sucesso já no ocaso da vida, após poucos minutos de conversa, ele pensa que o culturalmente oco Charlie é o robô e passa a entabular uma profunda discussão sobre Shakespeare com Adão.

O Teste de Turing, desenvolvido em 1950 para determinar a capacidade de uma máquina de se passar por um humano, leva à proposição de que, se um robô é indistinguível de um ser consciente, devemos tratá-lo como tal. Os dilemas morais derivados dessa questão começam a se insinuar no romance quando Miranda “trai” Charlie com Adão: “Poderia ter corrido escada acima e os impedido, irrompendo no quarto como o marido cômico num cartão-postal dos velhos balneários. Mas minha situação tinha um aspecto excitante, não apenas de subterfúgio e descoberta, mas de originalidade, de precedência moderna, de ser o primeiro homem corneado por um artefato. (…) No momento, apesar do horror da traição, tudo era interessante demais e eu não tinha como escapar do papel de quem escuta atrás da porta, de voyeur cego, humilhado e atento.”

Máquinas Como Eu vem sendo rotulado como um triângulo amoroso entre um homem, uma mulher e um robô, mas é muito mais que isso. Subjacente a essa trama, uma sombra do passado de Miranda retorna para acossar o trio. Ela teria fornecido falso testemunho em um tribunal. É possível que o leitor considere que seu crime foi cometido por uma razão justa, mas Adão segue um código moral muito mais rígido e, talvez, assustadoramente, melhor que o nosso. E é justamente nessa dissonância moral que reside a tensão do romance.

As implicações éticas que decorrem da criação de um ser artificial remontam a Frankenstein ou o Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley. Contos como O Homem de Areia (1817), de E.T.A. Hoffman, e Moxon’s Master (1899), de Ambrose Bierce, já tratam de autômatos humanoides, mas a palavra robô — derivada de “robota”, trabalho forçado em sérvio — foi empregada pela primeira vez na peça Rossum’s Universal Robots(1920), de Karel Capek. 

O mais relevante ficcionista nessa seara, autor de dezenas de contos e romances sobre robôs, foi Isaac Asimov (cujas leis da robótica são citadas por McEwan no livro, embora feridas quando Adão quebra o pulso Charlie no momento em que o este o tenta desligar). Ele tratou da mecanização do trabalho em As Cavernas de Aço (1953): “Eles roubam os empregos dos homens. É por isso que sempre são protegidos pelo governo. Eles trabalham em troca de nada e, por causa disso, famílias têm que morar lá nos abrigos e comer purê de levedura cru.” Entretanto, otimista inveterado como era, Asimov vislumbrou seres mecânicos como potencialmente mais capazes para tomar decisões e guiar sabiamente a humanidade do que governantes humanos em contos como Evidência (1946) e O Conflito Evitável (1950), incluídos na coletânea Eu, Robô. Seus romances Os Robôs do Amanhecer (1983) e Fundação e Terra (1986) também apontam para essa direção.

Já Philip K. Dick, autor de Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (1968), que inspirou Blade Runner (1982), foi pioneiro na ficção sobre robôs como questionamento existencial. Seus perturbadores replicantes se tornaram praticamente um arquétipo literário, com a capacidade de se misturar na sociedade sem distinção para os humanos. Em Dick, qualquer um pode ser um robô. O incipit do conto A Formiga Elétrica (1969) resume o assombro de sua obra: “O que você sentiria, depois de pensar que era homem, se um belo dia acordasse e descobrisse que tinha virado robô?” 

Se em Asimov eles roubam seu emprego e em Dick colocam em xeque sua condição humana, no livro de McEwan a tensão provém da consciência de que a humanidade estaria se deparando com uma versão melhorada de si. Adão compõe haicais, filosofa sobre a vida e a morte, e ainda detém um senso moral muito mais apurado que os falhos Charlie e Miranda.

Máquinas Como Eu recupera ainda diversos motivos enunciados em obras anteriores de McEwan. A ingenuidade de Adão no início do romance, enquanto ele aprende a viver, lembra Leonard Marnham, protagonista de O Inocente. A ideia de que um erro cometido no passado não possa ser consertado e retorne para acossar Miranda no pior momento possível remete à trama de Reparação. O sentimento que Adão passa a nutrir — e reprimir, a pedido de Charlie — por Miranda é uma sombra da obsessão narrada em Amor Sem Fim. A descrição do ambiente político acirrado durante a Guerra das Malvinas como pano de fundo lembra a atmosfera de Sábado

Todas essas e muitas outras características consagradas de McEwan retornam em Máquinas Como Eu, com a adição de uma preocupação mais específica que espreita a cada página: em um mundo no qual delegamos cada vez mais decisões morais às inteligências artificiais, devemos acatar passivamente a nossa dependência cada vez maior em relação às máquinas? O último poema de Adão soa como um vaticínio: “É sobre máquinas como eu e gente como vocês, e nosso futuro juntos… a tristeza que está por vir.”

Leia abaixo os melhores trechos da entrevista que Ian McEwan concedeu ao Aliás:

Ian McEwan
O escritor britânico Ian McEwan, autor de ‘Máquinas Como Eu’ Foto: Lauren Fleishman/The New York Times

A tensão no romance gira em torno da diferença na moralidade de humanos e máquinas. Mas em certo ponto Adão quebra as leis da robótica ao quebrar o pulso de Charlie. Isso indica que a moralidade das máquinas é suscetível a falhas como a nossa?
Há duas questões aí. O primeiro ponto é a diferença moral de Adão para Miranda. Se ela deve ir para a prisão ou não, porque ela mentiu em um tribunal. Creio que qualquer pessoa acredita que a ação de Miranda é justificável, mas Adão tem uma visão moral mais consistente. Então eu estou abrindo a possibilidade de que nós poderíamos acabar criando seres artificiais superiores moralmente a nós. Sobre a questão do pulso quebrado, eu deixo a ambiguidade quanto a ter sido acidental ou não. A única coisa de que temos certeza é que, se você tem uma consciência, e nós pensamos que Adão tem, faria qualquer coisa para defendê-la.

Se seguirmos à risca as leis, Miranda estaria errada. Nosso sistema judiciário tem uma moralidade mais próxima à das máquinas do que à dos humanos?
Percebi que meus leitores ficaram divididos. Alguns deles acreditam que ela deveria ser presa, porque a lei é a lei. E do ponto de vista de Adão, ele explica: “Você disse que pagaria qualquer preço para colocar esse estuprador na cadeia. Bem, o preço são 12 meses na cadeia.” Eu não tenho uma resposta para essa questão, mas é um dilema moral que mostra como a inteligência humana é diferente da inteligência robótica. Especialmente quando temos o aprendizado de máquina, em que elas começam a tirar suas próprias conclusões.

E nós lidaremos com esse problema na vida real em breve, com carros autônomos.
No momento, a inteligência artificial não está em robôs humanoides, mas em laptops, smartphones e computadores. Os veículos autônomos terão de decidir quanta proteção fornecer ao motorista e quanta proteção dar aos pedestres. Esse é um ótimo exemplo de como estamos delegando às máquinas algumas decisões morais muito importantes. Se você sacrifica a vida do motorista para salvar a do pedestre se torna um dilema no qual as máquinas podem ser melhores do que nós. Em meio segundo, um humano não tem tempo de pensar em muitas opções, mas uma máquina pode analisar todo um leque de possibilidades antes de se decidir. Mas eu ainda acho que esse é um ponto de virada muito importante para a raça humana. Nós já tivemos a tragédia do Boeing 737-Max, em que o computador decidiu que o avião estava em estol, quando não estava. Como em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o piloto não pôde se impor à máquina. Nós estamos bem no começo dos problemas relacionados a delegar decisões às máquinas, e isso será uma mudança profunda para a civilização.

Seu romance trata disso apenas tangencialmente, mas quão grave será o problema da mecanização do trabalho?
Em última instância, se pudermos mudar nossos conceitos sobre trabalho, será uma fantástica oportunidade para a humanidade. Nós nos acostumamos a nos definir pelo nosso trabalho. Talvez agora possamos aprender a nos definir pela nossa vida. Por essa razão, penso que deveríamos… e diversos economistas estão escrevendo sobre isso… temos de taxar robôs. Se eles tomam empregos, seus donos devem pagar impostos sobre seus lucros. Somente assim nós deixaríamos de nos definir pelo trabalho e começar a enxergar a vida de uma maneira completamente diferente. Para isso, precisaríamos de uma renda universal. E para isso, teríamos de ser muito generosos e redefinir lucros e para que servem esses lucros. Não para acionistas, mas para todos cujas atividades foram assumidas por máquinas. Isso demandaria uma transformação muito grande em nossa atitude. Mas deveríamos nos lembrar que, por muitos séculos, os aristocratas viveram suas vidas inteiras sem trabalhar, com pessoas que fariam todo o trabalho por eles. Se a aristocracia pode viver sem empregos, então qualquer pessoa pode.

Adão escreve haicais, mas não consegue escrever romances. Você teme que a inteligência artificial possa superar os humanos mesmo em áreas como a literatura?
Já existem inteligências artificiais produzindo arte abstrata, escrevendo música no estilo do século 18, mas acredito que escrever um romance requer uma compreensão absoluta do coração humano. A partir do momento em que um robô escrever um romance muito bom, ou mesmo um ruim, acho que devemos admitir que ele é consciente. Antes de escrever um romance você precisa saber o que é estar imerso em um mundo de decisões humanas, amor humano, ódio humano. Embora eu não ache que isso vá ocorrer nos próximos 15 anos ou enquanto eu estiver vivo, acredito que é concebível.

Se um robô parece humano, age como um humano e parece ter sentimentos, então não deveria fazer diferença para nós quanto a como devemos tratá-lo?
Eu concordo. Acho que um dos problemas que teremos é que os robôs serão mais e mais sofisticados, e dirão que são conscientes e que sentem dor e emoções, mas nós não saberemos se devemos acreditar neles ou não. Pode ser que nunca solucionemos essa questão. Mas se eles se comportarem de tal maneira, acho que nós simplesmente devemos aplicar o Teste de Turing, que reza que se você não pode dizer a diferença entre um robô e um humano, deve tratá-lo como um humano. Um dia haverá direitos e responsabilidades para robôs. Mas isso ainda está muito distante. Temos de lembrar quão complexos são nossos cérebros, nossas máquinas ainda estão longe desse nível. Não teríamos nem baterias para esse tipo de robô. Estamos apenas especulando.

Há uma espécie de simbologia religiosa na criação de um ser consciente. Quais serão as consequências para nossos sistemas religiosos quando atingirmos esse patamar?
Eu realmente não sei. Acho que, para algumas pessoas, o sentimento religioso é muito profundo, não o vejo desaparecendo. Não sei se fará alguma diferença para elas. Pessoas têm fé e fé não requer explicações racionais. Na verdade, a fé é uma forma crença não embasada.

Se ‘o presente é o mais frágil dos artefatos improváveis’, isso suscita interpretações ambíguas: temos livre-arbítrio e podemos alterar a realidade ao nosso redor, ou não temos nenhum poder de escolha e o passado determina o presente sem que possamos modificá-lo?
É uma questão muito interessante e complexa. O presente é um construto muito frágil. Uma das razões que nos fazem tentar tão arduamente prever o futuro, mesmo que nós mesmos estejamos produzindo esse futuro, é que a cada instante as possibilidades humanas, tanto individuais quanto coletivas, são muitas. Há vários momentos em nossas vidas em que sabemos quão facilmente as coisas poderiam ter sido diferentes. Vocês poderiam ter um outro presidente, nós poderíamos não estar discutindo o Brexit, a Guerra das Malvinas poderia ter ido para outra direção. E, no nível individual, nós somos filhos de adultos que poderiam tranquilamente nunca ter se conhecido. Sua mãe poderia ter ficado em casa no dia em que conheceu o homem que se tornaria seu pai. Imagine que em qualquer segundo as possibilidades do destino humano se ramificam, se multiplicam diante de nós, como no conto de Borges, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. Então a minha decisão de situar o livro em uma década alternativa de 1980 foi para não ter de arriscar previsões e apenas me permitir especular sobre o destino humano e social. Eu não acredito no livre-arbítrio, não consigo ver nenhum argumento para embasá-lo. Nós não escolhemos nossos pais, nossa infância, e ainda assim ele parece ser uma ilusão necessária de que somos responsáveis por nossos atos, especialmente no âmbito legal. O livre-arbítrio é uma ficção muito importante com a qual temos de conviver.

Em outras entrevistas, o sr. afirmou que seu livro não é uma ficção científica. Por quê?
Eu não penso exatamente assim. Eu fiz uma piada sobre sapatos anti-gravidade e isso foi noticiado como se eu odiasse o gênero. A ficção científica que eu amo é a literatura que explora os dilemas humanos na Terra em relação às novas tecnologias. Por exemplo, filmes como Blade Runner, Ex Machina ou Westworld, ou livros como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, ou The Day of the Triffids, de John Wyndham. Estou menos interessado em viagens espaciais ou civilizações remotas, pois acredito que a ficção científica é um excelente caminho para se explorar como lidamos com novas tecnologias e como isso vai impactar nossa sociedade. Fico muito feliz em chamar esse livro de ficção científica, é uma grande tradição.

Cientista Frances Arnold transforma micróbios em fábricas vivas

Ganhadora do Prêmio Nobel de Química, Frances Arnold estuda métodos de evolução direcionada que podem realizar reações desejadas de maneira mais limpa e eficiente
Natalie Angier, The New York Times

Frances Arnold ganhou o Prêmio Nobel de Química por seu trabalho na produção de novas proteínas por meio do uso de algoritmos evolutivos.
Frances Arnold ganhou o Prêmio Nobel de Química por seu trabalho na produção de novas proteínas por meio do uso de algoritmos evolutivos. Foto: Erika Gerdemark / The New York Times

PASADENA, CALIFÓRNIA – Frances Arnold, professora de Engenharia Química do Instituto de Tecnologia da Califórnia, vive de máximas. A conhecida por engenheiros, “mantenha isso simples, estúpido”, é uma delas. Outra é mais pessoal: “Desista do pensamento de que você tem controle. Você não tem. O melhor que você pode fazer é adaptar-se, antecipar-se, ser flexível, sentir o ambiente e reagir”.

Acontece que Arnold, que no ano passado se tornou a quinta mulher na história a ganhar o Prêmio Nobel de Química, construiu uma carreira de sucesso baseada em sua disposição de ceder o controle em laboratório a uma força poderosa: a evolução.

Arnold, de 62 anos, ganhou fama e o Prêmio Nobel pelo desenvolvimento de uma técnica chamada evolução dirigida, uma maneira de gerar uma série de novas enzimas e outras biomoléculas que podem ser usadas de diversas maneiras – desintoxicar um derramamento químico, por exemplo, ou interromper a dança de acasalamento de uma praga agrícola, ou remover manchas de roupa em água fria.

Em vez de buscar projetar novas proteínas racionalmente, peça por peça cuidadosamente calculada, a abordagem de Arnold permite que algoritmos evolutivos básicos façam o trabalho.

Um químico pode começar com uma proteína que já tem algumas características em que está interessado, como a estabilidade em altas temperaturas ou um talento especial para cortar as gorduras. Usando um truque de laboratório padrão, como reação em cadeia da polimerase, é possível mutar aleatoriamente o gene que codifica a proteína.

Então, pode-se procurar pequenas melhorias na proteína resultante – um ritmo acelerado de atividade, por exemplo, ou uma inclinação vaga para realizar uma tarefa que não estava realizando antes. Um químico pode alterar a versão melhorada novamente e filtrar o resultado para um desempenho ainda melhor. Repetindo conforme necessário.

Os pesquisadores tratam as proteínas e seus micróbios transportadores exatamente como as pessoas tratam os micróbios das doenças quando os atacam com antibióticos: incentivam os micróbios a enfrentar o desafio, adaptar-se, sobreviver.

Por meio da evolução direcionada, o laboratório de Arnold gerou micróbios que fazem o que os organismos da natureza nunca fizeram. Alguns deles, por exemplo, costuram o carbono, o elemento que define a vida, e o silício, o material da areia e dos chips de computador, mas até agora, não da vida. Tudo o que foi preciso foram alguns ajustes mutacionais em uma proteína bacteriana chamada citocromo c.

“Mostramos pela primeira vez que os organismos vivos podem usar seus mecanismos para unir carbono e silício e formar um vínculo”, disse Jennifer Kan, pesquisadora de pós-doutorado que trabalha no laboratório de Arnold. “Nós nem sequer temos que importunar tanto a proteína para que ela faça isso”.

Para Arnold, as descobertas foram surpreendentes. “No laboratório, estamos descobrindo que a natureza pode fazer química que nunca sonhamos ser possível”, antecipou-se. “Estamos adicionando camadas inteiras da tabela periódica à química do mundo biológico”.

Diana Kormos-Buchwald, que está no Instituto de Tecnologia da Califórnia e é amiga de Arnold, afirmou que “Frances essencialmente inventou o campo da química evolutiva. Em vez de analisar os materiais e tentar produzi-los por meio da síntese química padrão, ela encontrou uma maneira de usar a própria natureza para povoar o ambiente com todas as variantes possíveis de moléculas de importância biológica ou química”. 

Arnold tem outro mantra: “A natureza não se importa com seus cálculos”. Analisando as mutações evoluídas que se mostraram mais eficazes em melhorar o desempenho de uma proteína, a equipe encontrou as mudanças em todos os tipos de lugares imprevisíveis. “Estava longe do lugar ativo da proteína, ou estava na superfície”, disse. “Era onde todo mundo dizia que não importaria, mas importava. Eu alegremente levei os resultados para os bioquímicos e disse: “Nan nani na não, você não pode prever isso, mas eu achei, e vou fazer isso de novo e de novo. Isso realmente os irritou”.

Arnold é também uma fervorosa ambientalista e pretende fazer o bem pelo planeta. Os métodos de evolução direcionada podem produzir enzimas especializadas que realizarão as reações desejadas de maneira muito mais limpa e eficiente, comparadas aos processos químicos padrão, com sua dependência de solventes, plásticos e metais preciosos.

Ela fundou várias empresas, incluindo uma empresa chamada Provivi, que está desenvolvendo técnicas para sintetizar feromônios de acasalamento de insetos de forma limpa, barata e em escala industrial, com o objetivo de afastar pragas agrícolas por meio da confusão, e não do extermínio. “Todos os meus projetos são sobre sustentabilidade, biorremediação, tornando as coisas mais limpas”, garantiu. “Eu recebo alunos que chegam e dizem que querem ajudar as pessoas. Eu digo, as pessoas recebem ajuda demais. Por que você não ajuda o planeta?”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

O programa do Google que diagnostica câncer de pulmão ‘com mais eficiência que médicos’

O câncer de pulmão mata mais de 1,8 milhão pessoas por ano, mais do que qualquer outro tipo de tumor
Por James Gallagher – BBC Brasil

A inteligência artificial poderia melhorar a detecção de câncer em 5% (Foto: Getty Images)

Será que a Inteligência Artificial (IA) pode ser mais eficiente do que médicos no diagnóstico de câncer de pulmão?

É o que sugere um estudo recente realizado por cientistas da Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, em parceria com o Google, que esperam aumentar com esta tecnologia a eficácia do diagnóstico da doença.

A identificação de tumores em estágio inicial facilitaria o tratamento do câncer.

A equipe responsável pela pesquisa afirmou que a inteligência artificial terá um papel “enorme” no futuro da medicina, mas o software ainda não está pronto para uso clínico.

O estudo se concentrou no câncer de pulmão, que mata mais pessoas (1,8 milhão por ano) do que qualquer outro tipo de tumor.

É por isso que os EUA recomendam a realização de exames para identificar a doença a pacientes considerados de alto risco devido a um longo histórico de tabagismo.

No entanto, esses exames podem resultar em biópsias invasivas para pessoas que não têm câncer, além de não conseguirem detectar alguns tumores.Como foi o estudo?

O estudo utilizou inteligência artificial para determinar se a análise de tomografias computadorizadas poderia ser aprimorada.

O primeiro passo foi treinar o software por meio de 42.290 imagens de tomografias de pulmão de quase 15 mil pacientes.

Os pesquisadores não indicaram à inteligência artificial o que procurar, apenas quais pacientes tinham câncer e quais não.

Em seguida, o software foi testado contra uma equipe de seis radiologistas especializados na interpretação de tomografias.

O programa foi mais eficiente do que os radiologistas ao examinar uma única tomografia computadorizada, e foi tão eficaz quanto quando havia várias tomografias para serem interpretadas.

Os resultados, publicados na revista científica Nature Medicine, mostram que a inteligência artificial poderia aumentar a detecção do câncer em 5%, e ao mesmo tempo reduzir os falsos positivos (pessoas diagnosticadas erroneamente com câncer) em 11%.

“O próximo passo é aplicá-la a pacientes em um ensaio clínico”, afirmou Mozziyar Etemadi, da Universidade Northwestern, à BBC.

Segundo Etemadi, a inteligência artificial às vezes “sinaliza um nódulo pulmonar que, em todos os aspectos, parece benigno, mas o programa acredita que não é. E eles geralmente estão certos”.

“Uma área de pesquisa científica é descobrir por quê”, acrescentou.

Etemadi afirma que, se for realizado um trabalho conjunto entre a inteligência artificial e os médicos, o resultado seria ainda mais eficaz – e a IA poderia ter um grande papel na medicina.

Rebecca Campbell, do instituto de pesquisa Cancer Research, do Reino Unido, diz que é animador ver inovações tecnológicas que possam um dia ajudar a detectar câncer de pulmão em estágio inicial.

“Do mesmo modo que aprendemos com a experiência, esses algoritmos executam uma tarefa repetidamente, e cada vez ela é ajustada um pouco para melhorar a precisão”, diz ela.

“Detectar o câncer precocemente, quando é mais provável que o tratamento seja bem-sucedido, é uma das formas mais poderosas de melhorar a sobrevivência, e o desenvolvimento de uma tecnologia que não seja invasiva poderia ter um papel importante”, completa Campbell.

“Os próximos passos serão testar essa tecnologia ainda mais para ver se ela pode ser aplicada com precisão a um grande número de pessoas”.

Humanos geneticamente modificados: soberanos ou oprimidos?

Em Gattaca, há um mercado negro em que pessoas geneticamente modificadas comercializam seus materiais biológicos para burlar sistemas de biometria

E se você pudesse editar seu próprio DNA, você o faria? Removeria do seu código genético o gene responsável por algum distúrbio psicológico que você venha a ter, ou alguma doença herdada de seus pais, ou então o gene que te faz mais propenso à obesidade, ou talvez até o gene que te faz ter olhos castanhos e não azuis? Bem, talvez agora seja um pouco tarde demais, mas, e seus filhos? Se você pudesse escolher não apenas os traços físicos, mas também cognitivos e biológicos do seu filho, você o faria?

O que ocorre é que, em 2018, um cientista chinês modificou o código genético de duas gêmeas para que elas nascessem imunes ao vírus HIV, catapora e cólera. Ainda que o feito possa ser visto como uma conquista tecnológica, foi especialmente a questão ética que fez com que o mundo se chocasse diante da novidade – e por conta disso mesmo o cientista foi condenado pela justiça chinesa. Essa abordagem, popularmente conhecida como “designer baby”, vem sendo especulada pelo menos desde 2015, porém somente agora algum cientista realmente aplicou a teoria em pacientes humanos.

Técnicas como a CRISPR, que está entre as mais conhecidas no quesito edição genética, têm se mostrado inovadoras até mesmo na agricultura e pecuária, mas não se sabe dizer ao certo quais são os efeitos colaterais, inclusive em longo prazo, que uma modificação no DNA humano poderia gerar. Isto é, mesmo que essas crianças chinesas sejam imunes aos vírus designados, será que essa mudança não acarretará em alguma mutação ainda desconhecida ou até mesmo sem cura?

Já em 1982, o filme “Blade Runner” trouxe em pauta a ideia dos humanos artificiais, os replicantes. Diferentemente do livro de Phillip K. Dick, publicado em 1968, no longa dirigido por Ridley Scott não ficamos realmente cientes se os replicantes são robôs ou algum outro tipo de criatura artificial, uma vez que o texto de abertura localiza a história como ocorrendo no início do século 21, quando “a Corporação Tyrell avançou na evolução Robótica por meio da fase NEXUS – um ser virtualmente idêntico a um humano – conhecido como Replicante. Os replicantes NEXUS 6 eram superiores em força e agilidade, e pelo menos iguais em inteligência, comparados aos engenheiros genéticos que os criar.

Enquanto no livro os replicantes são chamados de androides, então confirmando a ideia de que se trata de uma máquina cibernética apesar de algumas menções a tecnologias genéticas e biológicas, é especialmente no longa de Scott e de Dennis Villeneuve — diretor da sequência — que nos certificamos de que os replicantes são, na realidade, seres humanos geneticamente modificados para serem mais fortes e mais ágeis, porém o fato de ganharem consciência ou vontade própria é o que os fazem ser caçados ou “aposentados”.

Essa mesma premissa retorna nos anos 1990, quando o filme “Gattaca” (1997) aborda um futuro no qual a maioria das pessoas tiveram seu código genético editado antes mesmo de nascer, de modo que têm suas capacidades físicas e cognitivas aprimoradas. Aqueles que nasceram sem passar por esse procedimento são chamados de “Criança de Deus” (God child) e, por conta de seus “defeitos” não corrigidos por meio da edição genética, são renegados a uma casta inferior, portanto subjugados a um determinismo genético.

A diferença entre essas duas ficções no que diz respeito à abordagem que fazem do humano geneticamente modificado é que, enquanto em “Gattaca” os humanos geneticamente modificados são considerados a elite, em “Blade Runner” os replicantes são tratados como objetos sem autonomia, subservientes aos humanos naturais – agir por conta própria e demonstrar sentimentos é um comportamento desviante e passível de punição.

Enquanto os longas de Scott e Villeneuve trazem os replicantes menos como uma possibilidade de tecnologia futura e mais como uma metáfora sobre nossa relação com o outro (um recurso bastante comum na ficção científica que aborda robôs e alienígenas, por exemplo), “Gattaca” usa a mesma possibilidade tecnológica para extrapolar questões de preconceito e exclusão social por meio de uma lógica genética mais literal do que muitas vezes percebemos, afinal, o racismo também tem seu aspecto genético que, no entanto, possui pouca importância diante da subjetividade do que é visível, no caso, a cor da pele. Tão subjetiva é essa característica que, aliás, não são poucos os casos de membros de grupos separatistas e racistas que tiveram uma surpresa ao descobrir que possuem uma porcentagem de ancestralidade africana em seu sangue – como foi o famoso caso do supremacista branco Craig Cobb, que descobriu ter 14% de herança genética subsaariana.

Nesse sentido, quando pensamos em edição genética, pensamos menos na criação de uma geração de humanos acessórios como os replicantes do que o uso deliberado da técnica para a geração de uma nova onda de eugenia. O termo, aliás, foi criado em 1883 por Francis Galton e tinha como significado a ideia de um indivíduo “bem nascido”. Nesse sentido, o conceito foi se desdobrando como um “estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente.”

Para além da conhecida absorção do preceito ao longo do regime nazista na Alemanha, também no Brasil houve reflexos desse pensamento no início do século passado. O chamado Movimento eugênico brasileiro chegou até mesmo a ter uma publicação, o Boletim de Eugenia, no qual as elites brasileiras defendiam o conceito como um símbolo de modernidade, um recurso capaz de fazer o país progredir a partir de uma pauta que incluía educação higiênica e sanitária, educação sexual, seleção de imigrantes, controle matrimonial e reprodução humana visando à questão da miscigenação, do branqueamento e, por consequência, da suposta regeneração racial. Dentre alguns nomes célebres que apoiaram o movimento estava o escritor Monteiro Lobato e Edgard Roquette-Pinto, considerado pai da radiodifusão no Brasil. Segundo a pesquisadora Nancy Leys Stepan, autora do livro “A Hora da Eugenia: raça, gênero e nação na América Latina”, os movimentos eugenistas latino-americanos tinham como premissa a ideia de que a miscigenação é o principal motivo pelo qual não conseguimos nos firmar como nações, enquanto que outros antropólogos como Néstor García Canclini têm sua obra especialmente dedicada à questão da complexidade dos povos latino-americanos justamente por conta da miscigenação.

Esse é um tema que aparece no episódio “Designer DNA” da série informativa “Explained”, disponível no Netflix. Lá são abordados os temores de que tal tecnologia não seja apenas usada para curar doenças hoje incuráveis, mas que também acabemos usando-as de forma acessória e racista ao reproduzir preconceitos e estereótipos que possuímos hoje. Nesse sentido, para além da explicação técnica, um dos pontos mais altos do episódio é quando somos expostos ao depoimento de Rebecca Cokley, uma ativista americana dos direitos das pessoas com deficiência física. Ela, como uma mulher grávida e anã, declara que, ainda que tivesse a possibilidade de editar seu filho, ela não o faria. Não é como se ter nanismo fosse um fator limitante para sua existência e no seu dia a dia: o pior de tudo, para ela, é o preconceito. Por isso, Cokley assume que preferiria manter esse traço como algo identitário, já que toda sua família também possui essa característica genética.

O documentário, aliás, também fala sobre pessoas que nasceram com autismo e Síndrome de Down, por exemplo, como uma forma de fazer a provocação: até que ponto usaremos a tecnologia de edição genética para curar doenças ou então acabar eliminando a diversidade entre os indivíduos? Até que ponto vemos discrepâncias genéticas como erros e não como diversidade? O que alguns cientistas defendem é que, na realidade, as técnicas de edição genética devem ser melhor usadas não para eliminar a existência de pessoas com alguma disfunção, como é o caso do autismo, mas sim para ajudá-las. Segundo o pesquisador Simon Baron-Cohen, “pessoas autistas têm uma combinação especial de forças e desafios.
Essas forças incluem excelente atenção aos detalhes, memória detalhista, reconhecimento de padrões e honestidade. Nosso objetivo, como clínicos e também como cientistas, é fazer o mundo um lugar mais confortável para todas as pessoas, incluindo as autistas, viverem.”

De um ponto de vista mais superficial, porém, outra questão que surge é a possibilidade e editar aspectos estéticos como a cor dos olhos, da pele e dos cabelos. Vivemos em um momento no qual lutamos pela desconstrução dos estereótipos de beleza que, por consequência, acabam trazendo consigo também uma perspectiva racista. O medo, nesse sentido, reside não tanto na capacidade de os pais poderem escolher a cor da pele e dos cabelos dos filhos, mas sim a reprodução desses preconceitos e estereótipos. E é nesse sentido que alguns chegam a fazer a pergunta se edição genética não poderia se tornar, no fim das contas, um sinônimo de racismo e de eugenia.

Em artigo para o Huffpost, Julia Brucculieri discute a homogeneização do ideal de beleza no Instagram e como a própria criatividade vem sendo limada a favor dos likes. Se hoje já praticamos essa estandardização através de soluções cosméticas, como agiríamos diante da possibilidade de edição genética?

Afinal, como aponta o biólogo molecular David King em artigo para o The Guardian, hoje já nos utilizamos de técnicas de “aprimoramento” como a cirurgia plástica para nos conformar às expectativas sexistas, racistas e idadistas. No entanto, “mais sutilmente, mas igualmente profundo, assim que começarmos a editar nossos filhos para ser do jeito que quisermos, estaremos apagando a diferença fundamentalmente ética entre commodities e seres humanos. Novamente, isso não é especulação: já há um mercado internacional de barrigas de aluguel nos quais os bebês são comprados e vendidos. O trabalho dos pais é amar as crianças incondicionalmente, independentemente de quão espertas/atléticas/superficialmente bonitas elas são; não transferir nossos impulsos e preconceitos em seus genes.”

Desse modo, quando pensamos em um futuro povoado por pessoas geneticamente modificadas, parece-nos mais plausível imaginar um mundo no qual essas técnicas levarão à obtenção de um status superior aos demais em vez do surgimento de uma geração de indivíduos especificamente confeccionados para serem melhores funcionários. Mas apesar de esse cenário parecer distópico demais justamente por se utilizar da edição genética como metodologia, hoje já observamos outros meios que possuem a mesma finalidade: desde o consumo de cafeína até outras substâncias que são capazes de “hackear” nossa produtividade e, portanto, tornarmos mais eficientes e melhores trabalhadores.

Um passo adiante seriam os prostéticos e os implantáveis, que também podem ter a finalidade de aprimorar nossas capacidades físicas e cognitivas, o que nos leva à provocação: no futuro, tornar-se pós-humano não será mais uma opção? Seja qual for o meio, o que se vislumbra é a finalidade de ser melhores, mais rápidos e mais fortes – afinal, nosso trabalho nunca acaba. [Lidia Zuin]