‘Se um robô escrever um romance, devemos admitir que ele é consciente’, diz Ian McEwan

Escritor inglês trata de triângulo amoroso entre um casal e um robô no livro ‘Máquinas Como Eu’
André Cáceres, O Estado de S.Paulo

Alicia Vikander é a robô Ava em ‘Ex Machina’ (2014), de Alex Garland Foto: Universal Pictures

O ano é 1982: a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher envia uma força expedicionária ao outro lado do Atlântico para reaver o controle das Ilhas Malvinas. Na vida real, ela obtém sucesso; no novo livro do romancista inglês Ian McEwan, as tropas são repelidas pelos argentinos com uma tecnologia balística baseada em algoritmos do matemático Alan Turing (1912-1954). Na vida real, Turing morreu aos 41 anos, perseguido pelo Estado graças à sua condição homossexual; em Máquinas Como Eu(Companhia das Letras), ele viveu o bastante para viabilizar a construção de robôs quase indistinguíveis de seres humanos.

A história contrafactual — ou ucronia — é um subgênero fértil da ficção especulativa. Seu exemplar mais conhecido é O Homem do Castelo Alto, em que Philip K. Dickimagina as consequências da vitória nazista na 2.ª Guerra Mundial. Em Máquinas Como Eu, Ian McEwan trilha um caminho mais parecido com o de A Máquina Diferencial, de William Gibson e Bruce Sterling, situado numa Inglaterra vitoriana em que o cientista Charles Babbage (1791-1871) conseguiu construir computadores tão potentes quanto os do século 20, adiantando em décadas o progresso tecnológico. 

Embora o romance de McEwan se passe em 1982, essa é uma linha do tempo alternativa. Smartphones, internet e inteligências artificiais convivem com uma decepcionante turnê de reunião dos Beatles — com John Lennon ainda vivo. “O presente é o mais frágil dos artefatos improváveis”, pensa o protagonista Charlie Friend, ecoando o leitmotiv da ucronia. “Podia ser diferente. Qualquer parte dele, ou sua totalidade, podia ser outra coisa.”

Frustrado com fracassos financeiros sucessivos, inculto, formado em antropologia, mas amante de eletrônica, Charlie leva (mal) a vida apostando na bolsa de valores pelo computador. Quando surge uma nova coqueluche tecnológica, ele torra o dinheiro de uma herança para comprar o androide Adão (as ginoides Eva já estavam esgotadas). Se sua aquisição não  satisfaz seus desejos consumistas, pelo menos acaba servindo para aproximá-lo da vizinha de cima, Miranda, por quem logo se apaixona e com quem divide a criação do robô como se fosse um filho de ambos. 

McEwan constrói a todo momento um jogo de espelhos para brincar com a dualidade humano-robô ou espontâneo-automático. Por vezes, o relacionamento de Charlie e Miranda é tão frio e artificial que eles parecem ser as máquinas, enquanto o fascínio infantil de Adão pela arte, ciência e filosofia é tão genuíno que ele soa muito mais vivo do que seus donos. Quando os três visitam o pai de Miranda, um escritor de relativo sucesso já no ocaso da vida, após poucos minutos de conversa, ele pensa que o culturalmente oco Charlie é o robô e passa a entabular uma profunda discussão sobre Shakespeare com Adão.

O Teste de Turing, desenvolvido em 1950 para determinar a capacidade de uma máquina de se passar por um humano, leva à proposição de que, se um robô é indistinguível de um ser consciente, devemos tratá-lo como tal. Os dilemas morais derivados dessa questão começam a se insinuar no romance quando Miranda “trai” Charlie com Adão: “Poderia ter corrido escada acima e os impedido, irrompendo no quarto como o marido cômico num cartão-postal dos velhos balneários. Mas minha situação tinha um aspecto excitante, não apenas de subterfúgio e descoberta, mas de originalidade, de precedência moderna, de ser o primeiro homem corneado por um artefato. (…) No momento, apesar do horror da traição, tudo era interessante demais e eu não tinha como escapar do papel de quem escuta atrás da porta, de voyeur cego, humilhado e atento.”

Máquinas Como Eu vem sendo rotulado como um triângulo amoroso entre um homem, uma mulher e um robô, mas é muito mais que isso. Subjacente a essa trama, uma sombra do passado de Miranda retorna para acossar o trio. Ela teria fornecido falso testemunho em um tribunal. É possível que o leitor considere que seu crime foi cometido por uma razão justa, mas Adão segue um código moral muito mais rígido e, talvez, assustadoramente, melhor que o nosso. E é justamente nessa dissonância moral que reside a tensão do romance.

As implicações éticas que decorrem da criação de um ser artificial remontam a Frankenstein ou o Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley. Contos como O Homem de Areia (1817), de E.T.A. Hoffman, e Moxon’s Master (1899), de Ambrose Bierce, já tratam de autômatos humanoides, mas a palavra robô — derivada de “robota”, trabalho forçado em sérvio — foi empregada pela primeira vez na peça Rossum’s Universal Robots(1920), de Karel Capek. 

O mais relevante ficcionista nessa seara, autor de dezenas de contos e romances sobre robôs, foi Isaac Asimov (cujas leis da robótica são citadas por McEwan no livro, embora feridas quando Adão quebra o pulso Charlie no momento em que o este o tenta desligar). Ele tratou da mecanização do trabalho em As Cavernas de Aço (1953): “Eles roubam os empregos dos homens. É por isso que sempre são protegidos pelo governo. Eles trabalham em troca de nada e, por causa disso, famílias têm que morar lá nos abrigos e comer purê de levedura cru.” Entretanto, otimista inveterado como era, Asimov vislumbrou seres mecânicos como potencialmente mais capazes para tomar decisões e guiar sabiamente a humanidade do que governantes humanos em contos como Evidência (1946) e O Conflito Evitável (1950), incluídos na coletânea Eu, Robô. Seus romances Os Robôs do Amanhecer (1983) e Fundação e Terra (1986) também apontam para essa direção.

Já Philip K. Dick, autor de Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (1968), que inspirou Blade Runner (1982), foi pioneiro na ficção sobre robôs como questionamento existencial. Seus perturbadores replicantes se tornaram praticamente um arquétipo literário, com a capacidade de se misturar na sociedade sem distinção para os humanos. Em Dick, qualquer um pode ser um robô. O incipit do conto A Formiga Elétrica (1969) resume o assombro de sua obra: “O que você sentiria, depois de pensar que era homem, se um belo dia acordasse e descobrisse que tinha virado robô?” 

Se em Asimov eles roubam seu emprego e em Dick colocam em xeque sua condição humana, no livro de McEwan a tensão provém da consciência de que a humanidade estaria se deparando com uma versão melhorada de si. Adão compõe haicais, filosofa sobre a vida e a morte, e ainda detém um senso moral muito mais apurado que os falhos Charlie e Miranda.

Máquinas Como Eu recupera ainda diversos motivos enunciados em obras anteriores de McEwan. A ingenuidade de Adão no início do romance, enquanto ele aprende a viver, lembra Leonard Marnham, protagonista de O Inocente. A ideia de que um erro cometido no passado não possa ser consertado e retorne para acossar Miranda no pior momento possível remete à trama de Reparação. O sentimento que Adão passa a nutrir — e reprimir, a pedido de Charlie — por Miranda é uma sombra da obsessão narrada em Amor Sem Fim. A descrição do ambiente político acirrado durante a Guerra das Malvinas como pano de fundo lembra a atmosfera de Sábado

Todas essas e muitas outras características consagradas de McEwan retornam em Máquinas Como Eu, com a adição de uma preocupação mais específica que espreita a cada página: em um mundo no qual delegamos cada vez mais decisões morais às inteligências artificiais, devemos acatar passivamente a nossa dependência cada vez maior em relação às máquinas? O último poema de Adão soa como um vaticínio: “É sobre máquinas como eu e gente como vocês, e nosso futuro juntos… a tristeza que está por vir.”

Leia abaixo os melhores trechos da entrevista que Ian McEwan concedeu ao Aliás:

Ian McEwan
O escritor britânico Ian McEwan, autor de ‘Máquinas Como Eu’ Foto: Lauren Fleishman/The New York Times

A tensão no romance gira em torno da diferença na moralidade de humanos e máquinas. Mas em certo ponto Adão quebra as leis da robótica ao quebrar o pulso de Charlie. Isso indica que a moralidade das máquinas é suscetível a falhas como a nossa?
Há duas questões aí. O primeiro ponto é a diferença moral de Adão para Miranda. Se ela deve ir para a prisão ou não, porque ela mentiu em um tribunal. Creio que qualquer pessoa acredita que a ação de Miranda é justificável, mas Adão tem uma visão moral mais consistente. Então eu estou abrindo a possibilidade de que nós poderíamos acabar criando seres artificiais superiores moralmente a nós. Sobre a questão do pulso quebrado, eu deixo a ambiguidade quanto a ter sido acidental ou não. A única coisa de que temos certeza é que, se você tem uma consciência, e nós pensamos que Adão tem, faria qualquer coisa para defendê-la.

Se seguirmos à risca as leis, Miranda estaria errada. Nosso sistema judiciário tem uma moralidade mais próxima à das máquinas do que à dos humanos?
Percebi que meus leitores ficaram divididos. Alguns deles acreditam que ela deveria ser presa, porque a lei é a lei. E do ponto de vista de Adão, ele explica: “Você disse que pagaria qualquer preço para colocar esse estuprador na cadeia. Bem, o preço são 12 meses na cadeia.” Eu não tenho uma resposta para essa questão, mas é um dilema moral que mostra como a inteligência humana é diferente da inteligência robótica. Especialmente quando temos o aprendizado de máquina, em que elas começam a tirar suas próprias conclusões.

E nós lidaremos com esse problema na vida real em breve, com carros autônomos.
No momento, a inteligência artificial não está em robôs humanoides, mas em laptops, smartphones e computadores. Os veículos autônomos terão de decidir quanta proteção fornecer ao motorista e quanta proteção dar aos pedestres. Esse é um ótimo exemplo de como estamos delegando às máquinas algumas decisões morais muito importantes. Se você sacrifica a vida do motorista para salvar a do pedestre se torna um dilema no qual as máquinas podem ser melhores do que nós. Em meio segundo, um humano não tem tempo de pensar em muitas opções, mas uma máquina pode analisar todo um leque de possibilidades antes de se decidir. Mas eu ainda acho que esse é um ponto de virada muito importante para a raça humana. Nós já tivemos a tragédia do Boeing 737-Max, em que o computador decidiu que o avião estava em estol, quando não estava. Como em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o piloto não pôde se impor à máquina. Nós estamos bem no começo dos problemas relacionados a delegar decisões às máquinas, e isso será uma mudança profunda para a civilização.

Seu romance trata disso apenas tangencialmente, mas quão grave será o problema da mecanização do trabalho?
Em última instância, se pudermos mudar nossos conceitos sobre trabalho, será uma fantástica oportunidade para a humanidade. Nós nos acostumamos a nos definir pelo nosso trabalho. Talvez agora possamos aprender a nos definir pela nossa vida. Por essa razão, penso que deveríamos… e diversos economistas estão escrevendo sobre isso… temos de taxar robôs. Se eles tomam empregos, seus donos devem pagar impostos sobre seus lucros. Somente assim nós deixaríamos de nos definir pelo trabalho e começar a enxergar a vida de uma maneira completamente diferente. Para isso, precisaríamos de uma renda universal. E para isso, teríamos de ser muito generosos e redefinir lucros e para que servem esses lucros. Não para acionistas, mas para todos cujas atividades foram assumidas por máquinas. Isso demandaria uma transformação muito grande em nossa atitude. Mas deveríamos nos lembrar que, por muitos séculos, os aristocratas viveram suas vidas inteiras sem trabalhar, com pessoas que fariam todo o trabalho por eles. Se a aristocracia pode viver sem empregos, então qualquer pessoa pode.

Adão escreve haicais, mas não consegue escrever romances. Você teme que a inteligência artificial possa superar os humanos mesmo em áreas como a literatura?
Já existem inteligências artificiais produzindo arte abstrata, escrevendo música no estilo do século 18, mas acredito que escrever um romance requer uma compreensão absoluta do coração humano. A partir do momento em que um robô escrever um romance muito bom, ou mesmo um ruim, acho que devemos admitir que ele é consciente. Antes de escrever um romance você precisa saber o que é estar imerso em um mundo de decisões humanas, amor humano, ódio humano. Embora eu não ache que isso vá ocorrer nos próximos 15 anos ou enquanto eu estiver vivo, acredito que é concebível.

Se um robô parece humano, age como um humano e parece ter sentimentos, então não deveria fazer diferença para nós quanto a como devemos tratá-lo?
Eu concordo. Acho que um dos problemas que teremos é que os robôs serão mais e mais sofisticados, e dirão que são conscientes e que sentem dor e emoções, mas nós não saberemos se devemos acreditar neles ou não. Pode ser que nunca solucionemos essa questão. Mas se eles se comportarem de tal maneira, acho que nós simplesmente devemos aplicar o Teste de Turing, que reza que se você não pode dizer a diferença entre um robô e um humano, deve tratá-lo como um humano. Um dia haverá direitos e responsabilidades para robôs. Mas isso ainda está muito distante. Temos de lembrar quão complexos são nossos cérebros, nossas máquinas ainda estão longe desse nível. Não teríamos nem baterias para esse tipo de robô. Estamos apenas especulando.

Há uma espécie de simbologia religiosa na criação de um ser consciente. Quais serão as consequências para nossos sistemas religiosos quando atingirmos esse patamar?
Eu realmente não sei. Acho que, para algumas pessoas, o sentimento religioso é muito profundo, não o vejo desaparecendo. Não sei se fará alguma diferença para elas. Pessoas têm fé e fé não requer explicações racionais. Na verdade, a fé é uma forma crença não embasada.

Se ‘o presente é o mais frágil dos artefatos improváveis’, isso suscita interpretações ambíguas: temos livre-arbítrio e podemos alterar a realidade ao nosso redor, ou não temos nenhum poder de escolha e o passado determina o presente sem que possamos modificá-lo?
É uma questão muito interessante e complexa. O presente é um construto muito frágil. Uma das razões que nos fazem tentar tão arduamente prever o futuro, mesmo que nós mesmos estejamos produzindo esse futuro, é que a cada instante as possibilidades humanas, tanto individuais quanto coletivas, são muitas. Há vários momentos em nossas vidas em que sabemos quão facilmente as coisas poderiam ter sido diferentes. Vocês poderiam ter um outro presidente, nós poderíamos não estar discutindo o Brexit, a Guerra das Malvinas poderia ter ido para outra direção. E, no nível individual, nós somos filhos de adultos que poderiam tranquilamente nunca ter se conhecido. Sua mãe poderia ter ficado em casa no dia em que conheceu o homem que se tornaria seu pai. Imagine que em qualquer segundo as possibilidades do destino humano se ramificam, se multiplicam diante de nós, como no conto de Borges, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. Então a minha decisão de situar o livro em uma década alternativa de 1980 foi para não ter de arriscar previsões e apenas me permitir especular sobre o destino humano e social. Eu não acredito no livre-arbítrio, não consigo ver nenhum argumento para embasá-lo. Nós não escolhemos nossos pais, nossa infância, e ainda assim ele parece ser uma ilusão necessária de que somos responsáveis por nossos atos, especialmente no âmbito legal. O livre-arbítrio é uma ficção muito importante com a qual temos de conviver.

Em outras entrevistas, o sr. afirmou que seu livro não é uma ficção científica. Por quê?
Eu não penso exatamente assim. Eu fiz uma piada sobre sapatos anti-gravidade e isso foi noticiado como se eu odiasse o gênero. A ficção científica que eu amo é a literatura que explora os dilemas humanos na Terra em relação às novas tecnologias. Por exemplo, filmes como Blade Runner, Ex Machina ou Westworld, ou livros como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, ou The Day of the Triffids, de John Wyndham. Estou menos interessado em viagens espaciais ou civilizações remotas, pois acredito que a ficção científica é um excelente caminho para se explorar como lidamos com novas tecnologias e como isso vai impactar nossa sociedade. Fico muito feliz em chamar esse livro de ficção científica, é uma grande tradição.

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Cientista Frances Arnold transforma micróbios em fábricas vivas

Ganhadora do Prêmio Nobel de Química, Frances Arnold estuda métodos de evolução direcionada que podem realizar reações desejadas de maneira mais limpa e eficiente
Natalie Angier, The New York Times

Frances Arnold ganhou o Prêmio Nobel de Química por seu trabalho na produção de novas proteínas por meio do uso de algoritmos evolutivos.
Frances Arnold ganhou o Prêmio Nobel de Química por seu trabalho na produção de novas proteínas por meio do uso de algoritmos evolutivos. Foto: Erika Gerdemark / The New York Times

PASADENA, CALIFÓRNIA – Frances Arnold, professora de Engenharia Química do Instituto de Tecnologia da Califórnia, vive de máximas. A conhecida por engenheiros, “mantenha isso simples, estúpido”, é uma delas. Outra é mais pessoal: “Desista do pensamento de que você tem controle. Você não tem. O melhor que você pode fazer é adaptar-se, antecipar-se, ser flexível, sentir o ambiente e reagir”.

Acontece que Arnold, que no ano passado se tornou a quinta mulher na história a ganhar o Prêmio Nobel de Química, construiu uma carreira de sucesso baseada em sua disposição de ceder o controle em laboratório a uma força poderosa: a evolução.

Arnold, de 62 anos, ganhou fama e o Prêmio Nobel pelo desenvolvimento de uma técnica chamada evolução dirigida, uma maneira de gerar uma série de novas enzimas e outras biomoléculas que podem ser usadas de diversas maneiras – desintoxicar um derramamento químico, por exemplo, ou interromper a dança de acasalamento de uma praga agrícola, ou remover manchas de roupa em água fria.

Em vez de buscar projetar novas proteínas racionalmente, peça por peça cuidadosamente calculada, a abordagem de Arnold permite que algoritmos evolutivos básicos façam o trabalho.

Um químico pode começar com uma proteína que já tem algumas características em que está interessado, como a estabilidade em altas temperaturas ou um talento especial para cortar as gorduras. Usando um truque de laboratório padrão, como reação em cadeia da polimerase, é possível mutar aleatoriamente o gene que codifica a proteína.

Então, pode-se procurar pequenas melhorias na proteína resultante – um ritmo acelerado de atividade, por exemplo, ou uma inclinação vaga para realizar uma tarefa que não estava realizando antes. Um químico pode alterar a versão melhorada novamente e filtrar o resultado para um desempenho ainda melhor. Repetindo conforme necessário.

Os pesquisadores tratam as proteínas e seus micróbios transportadores exatamente como as pessoas tratam os micróbios das doenças quando os atacam com antibióticos: incentivam os micróbios a enfrentar o desafio, adaptar-se, sobreviver.

Por meio da evolução direcionada, o laboratório de Arnold gerou micróbios que fazem o que os organismos da natureza nunca fizeram. Alguns deles, por exemplo, costuram o carbono, o elemento que define a vida, e o silício, o material da areia e dos chips de computador, mas até agora, não da vida. Tudo o que foi preciso foram alguns ajustes mutacionais em uma proteína bacteriana chamada citocromo c.

“Mostramos pela primeira vez que os organismos vivos podem usar seus mecanismos para unir carbono e silício e formar um vínculo”, disse Jennifer Kan, pesquisadora de pós-doutorado que trabalha no laboratório de Arnold. “Nós nem sequer temos que importunar tanto a proteína para que ela faça isso”.

Para Arnold, as descobertas foram surpreendentes. “No laboratório, estamos descobrindo que a natureza pode fazer química que nunca sonhamos ser possível”, antecipou-se. “Estamos adicionando camadas inteiras da tabela periódica à química do mundo biológico”.

Diana Kormos-Buchwald, que está no Instituto de Tecnologia da Califórnia e é amiga de Arnold, afirmou que “Frances essencialmente inventou o campo da química evolutiva. Em vez de analisar os materiais e tentar produzi-los por meio da síntese química padrão, ela encontrou uma maneira de usar a própria natureza para povoar o ambiente com todas as variantes possíveis de moléculas de importância biológica ou química”. 

Arnold tem outro mantra: “A natureza não se importa com seus cálculos”. Analisando as mutações evoluídas que se mostraram mais eficazes em melhorar o desempenho de uma proteína, a equipe encontrou as mudanças em todos os tipos de lugares imprevisíveis. “Estava longe do lugar ativo da proteína, ou estava na superfície”, disse. “Era onde todo mundo dizia que não importaria, mas importava. Eu alegremente levei os resultados para os bioquímicos e disse: “Nan nani na não, você não pode prever isso, mas eu achei, e vou fazer isso de novo e de novo. Isso realmente os irritou”.

Arnold é também uma fervorosa ambientalista e pretende fazer o bem pelo planeta. Os métodos de evolução direcionada podem produzir enzimas especializadas que realizarão as reações desejadas de maneira muito mais limpa e eficiente, comparadas aos processos químicos padrão, com sua dependência de solventes, plásticos e metais preciosos.

Ela fundou várias empresas, incluindo uma empresa chamada Provivi, que está desenvolvendo técnicas para sintetizar feromônios de acasalamento de insetos de forma limpa, barata e em escala industrial, com o objetivo de afastar pragas agrícolas por meio da confusão, e não do extermínio. “Todos os meus projetos são sobre sustentabilidade, biorremediação, tornando as coisas mais limpas”, garantiu. “Eu recebo alunos que chegam e dizem que querem ajudar as pessoas. Eu digo, as pessoas recebem ajuda demais. Por que você não ajuda o planeta?”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

O programa do Google que diagnostica câncer de pulmão ‘com mais eficiência que médicos’

O câncer de pulmão mata mais de 1,8 milhão pessoas por ano, mais do que qualquer outro tipo de tumor
Por James Gallagher – BBC Brasil

A inteligência artificial poderia melhorar a detecção de câncer em 5% (Foto: Getty Images)

Será que a Inteligência Artificial (IA) pode ser mais eficiente do que médicos no diagnóstico de câncer de pulmão?

É o que sugere um estudo recente realizado por cientistas da Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, em parceria com o Google, que esperam aumentar com esta tecnologia a eficácia do diagnóstico da doença.

A identificação de tumores em estágio inicial facilitaria o tratamento do câncer.

A equipe responsável pela pesquisa afirmou que a inteligência artificial terá um papel “enorme” no futuro da medicina, mas o software ainda não está pronto para uso clínico.

O estudo se concentrou no câncer de pulmão, que mata mais pessoas (1,8 milhão por ano) do que qualquer outro tipo de tumor.

É por isso que os EUA recomendam a realização de exames para identificar a doença a pacientes considerados de alto risco devido a um longo histórico de tabagismo.

No entanto, esses exames podem resultar em biópsias invasivas para pessoas que não têm câncer, além de não conseguirem detectar alguns tumores.Como foi o estudo?

O estudo utilizou inteligência artificial para determinar se a análise de tomografias computadorizadas poderia ser aprimorada.

O primeiro passo foi treinar o software por meio de 42.290 imagens de tomografias de pulmão de quase 15 mil pacientes.

Os pesquisadores não indicaram à inteligência artificial o que procurar, apenas quais pacientes tinham câncer e quais não.

Em seguida, o software foi testado contra uma equipe de seis radiologistas especializados na interpretação de tomografias.

O programa foi mais eficiente do que os radiologistas ao examinar uma única tomografia computadorizada, e foi tão eficaz quanto quando havia várias tomografias para serem interpretadas.

Os resultados, publicados na revista científica Nature Medicine, mostram que a inteligência artificial poderia aumentar a detecção do câncer em 5%, e ao mesmo tempo reduzir os falsos positivos (pessoas diagnosticadas erroneamente com câncer) em 11%.

“O próximo passo é aplicá-la a pacientes em um ensaio clínico”, afirmou Mozziyar Etemadi, da Universidade Northwestern, à BBC.

Segundo Etemadi, a inteligência artificial às vezes “sinaliza um nódulo pulmonar que, em todos os aspectos, parece benigno, mas o programa acredita que não é. E eles geralmente estão certos”.

“Uma área de pesquisa científica é descobrir por quê”, acrescentou.

Etemadi afirma que, se for realizado um trabalho conjunto entre a inteligência artificial e os médicos, o resultado seria ainda mais eficaz – e a IA poderia ter um grande papel na medicina.

Rebecca Campbell, do instituto de pesquisa Cancer Research, do Reino Unido, diz que é animador ver inovações tecnológicas que possam um dia ajudar a detectar câncer de pulmão em estágio inicial.

“Do mesmo modo que aprendemos com a experiência, esses algoritmos executam uma tarefa repetidamente, e cada vez ela é ajustada um pouco para melhorar a precisão”, diz ela.

“Detectar o câncer precocemente, quando é mais provável que o tratamento seja bem-sucedido, é uma das formas mais poderosas de melhorar a sobrevivência, e o desenvolvimento de uma tecnologia que não seja invasiva poderia ter um papel importante”, completa Campbell.

“Os próximos passos serão testar essa tecnologia ainda mais para ver se ela pode ser aplicada com precisão a um grande número de pessoas”.

Humanos geneticamente modificados: soberanos ou oprimidos?

Em Gattaca, há um mercado negro em que pessoas geneticamente modificadas comercializam seus materiais biológicos para burlar sistemas de biometria

E se você pudesse editar seu próprio DNA, você o faria? Removeria do seu código genético o gene responsável por algum distúrbio psicológico que você venha a ter, ou alguma doença herdada de seus pais, ou então o gene que te faz mais propenso à obesidade, ou talvez até o gene que te faz ter olhos castanhos e não azuis? Bem, talvez agora seja um pouco tarde demais, mas, e seus filhos? Se você pudesse escolher não apenas os traços físicos, mas também cognitivos e biológicos do seu filho, você o faria?

O que ocorre é que, em 2018, um cientista chinês modificou o código genético de duas gêmeas para que elas nascessem imunes ao vírus HIV, catapora e cólera. Ainda que o feito possa ser visto como uma conquista tecnológica, foi especialmente a questão ética que fez com que o mundo se chocasse diante da novidade – e por conta disso mesmo o cientista foi condenado pela justiça chinesa. Essa abordagem, popularmente conhecida como “designer baby”, vem sendo especulada pelo menos desde 2015, porém somente agora algum cientista realmente aplicou a teoria em pacientes humanos.

Técnicas como a CRISPR, que está entre as mais conhecidas no quesito edição genética, têm se mostrado inovadoras até mesmo na agricultura e pecuária, mas não se sabe dizer ao certo quais são os efeitos colaterais, inclusive em longo prazo, que uma modificação no DNA humano poderia gerar. Isto é, mesmo que essas crianças chinesas sejam imunes aos vírus designados, será que essa mudança não acarretará em alguma mutação ainda desconhecida ou até mesmo sem cura?

Já em 1982, o filme “Blade Runner” trouxe em pauta a ideia dos humanos artificiais, os replicantes. Diferentemente do livro de Phillip K. Dick, publicado em 1968, no longa dirigido por Ridley Scott não ficamos realmente cientes se os replicantes são robôs ou algum outro tipo de criatura artificial, uma vez que o texto de abertura localiza a história como ocorrendo no início do século 21, quando “a Corporação Tyrell avançou na evolução Robótica por meio da fase NEXUS – um ser virtualmente idêntico a um humano – conhecido como Replicante. Os replicantes NEXUS 6 eram superiores em força e agilidade, e pelo menos iguais em inteligência, comparados aos engenheiros genéticos que os criar.

Enquanto no livro os replicantes são chamados de androides, então confirmando a ideia de que se trata de uma máquina cibernética apesar de algumas menções a tecnologias genéticas e biológicas, é especialmente no longa de Scott e de Dennis Villeneuve — diretor da sequência — que nos certificamos de que os replicantes são, na realidade, seres humanos geneticamente modificados para serem mais fortes e mais ágeis, porém o fato de ganharem consciência ou vontade própria é o que os fazem ser caçados ou “aposentados”.

Essa mesma premissa retorna nos anos 1990, quando o filme “Gattaca” (1997) aborda um futuro no qual a maioria das pessoas tiveram seu código genético editado antes mesmo de nascer, de modo que têm suas capacidades físicas e cognitivas aprimoradas. Aqueles que nasceram sem passar por esse procedimento são chamados de “Criança de Deus” (God child) e, por conta de seus “defeitos” não corrigidos por meio da edição genética, são renegados a uma casta inferior, portanto subjugados a um determinismo genético.

A diferença entre essas duas ficções no que diz respeito à abordagem que fazem do humano geneticamente modificado é que, enquanto em “Gattaca” os humanos geneticamente modificados são considerados a elite, em “Blade Runner” os replicantes são tratados como objetos sem autonomia, subservientes aos humanos naturais – agir por conta própria e demonstrar sentimentos é um comportamento desviante e passível de punição.

Enquanto os longas de Scott e Villeneuve trazem os replicantes menos como uma possibilidade de tecnologia futura e mais como uma metáfora sobre nossa relação com o outro (um recurso bastante comum na ficção científica que aborda robôs e alienígenas, por exemplo), “Gattaca” usa a mesma possibilidade tecnológica para extrapolar questões de preconceito e exclusão social por meio de uma lógica genética mais literal do que muitas vezes percebemos, afinal, o racismo também tem seu aspecto genético que, no entanto, possui pouca importância diante da subjetividade do que é visível, no caso, a cor da pele. Tão subjetiva é essa característica que, aliás, não são poucos os casos de membros de grupos separatistas e racistas que tiveram uma surpresa ao descobrir que possuem uma porcentagem de ancestralidade africana em seu sangue – como foi o famoso caso do supremacista branco Craig Cobb, que descobriu ter 14% de herança genética subsaariana.

Nesse sentido, quando pensamos em edição genética, pensamos menos na criação de uma geração de humanos acessórios como os replicantes do que o uso deliberado da técnica para a geração de uma nova onda de eugenia. O termo, aliás, foi criado em 1883 por Francis Galton e tinha como significado a ideia de um indivíduo “bem nascido”. Nesse sentido, o conceito foi se desdobrando como um “estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente.”

Para além da conhecida absorção do preceito ao longo do regime nazista na Alemanha, também no Brasil houve reflexos desse pensamento no início do século passado. O chamado Movimento eugênico brasileiro chegou até mesmo a ter uma publicação, o Boletim de Eugenia, no qual as elites brasileiras defendiam o conceito como um símbolo de modernidade, um recurso capaz de fazer o país progredir a partir de uma pauta que incluía educação higiênica e sanitária, educação sexual, seleção de imigrantes, controle matrimonial e reprodução humana visando à questão da miscigenação, do branqueamento e, por consequência, da suposta regeneração racial. Dentre alguns nomes célebres que apoiaram o movimento estava o escritor Monteiro Lobato e Edgard Roquette-Pinto, considerado pai da radiodifusão no Brasil. Segundo a pesquisadora Nancy Leys Stepan, autora do livro “A Hora da Eugenia: raça, gênero e nação na América Latina”, os movimentos eugenistas latino-americanos tinham como premissa a ideia de que a miscigenação é o principal motivo pelo qual não conseguimos nos firmar como nações, enquanto que outros antropólogos como Néstor García Canclini têm sua obra especialmente dedicada à questão da complexidade dos povos latino-americanos justamente por conta da miscigenação.

Esse é um tema que aparece no episódio “Designer DNA” da série informativa “Explained”, disponível no Netflix. Lá são abordados os temores de que tal tecnologia não seja apenas usada para curar doenças hoje incuráveis, mas que também acabemos usando-as de forma acessória e racista ao reproduzir preconceitos e estereótipos que possuímos hoje. Nesse sentido, para além da explicação técnica, um dos pontos mais altos do episódio é quando somos expostos ao depoimento de Rebecca Cokley, uma ativista americana dos direitos das pessoas com deficiência física. Ela, como uma mulher grávida e anã, declara que, ainda que tivesse a possibilidade de editar seu filho, ela não o faria. Não é como se ter nanismo fosse um fator limitante para sua existência e no seu dia a dia: o pior de tudo, para ela, é o preconceito. Por isso, Cokley assume que preferiria manter esse traço como algo identitário, já que toda sua família também possui essa característica genética.

O documentário, aliás, também fala sobre pessoas que nasceram com autismo e Síndrome de Down, por exemplo, como uma forma de fazer a provocação: até que ponto usaremos a tecnologia de edição genética para curar doenças ou então acabar eliminando a diversidade entre os indivíduos? Até que ponto vemos discrepâncias genéticas como erros e não como diversidade? O que alguns cientistas defendem é que, na realidade, as técnicas de edição genética devem ser melhor usadas não para eliminar a existência de pessoas com alguma disfunção, como é o caso do autismo, mas sim para ajudá-las. Segundo o pesquisador Simon Baron-Cohen, “pessoas autistas têm uma combinação especial de forças e desafios.
Essas forças incluem excelente atenção aos detalhes, memória detalhista, reconhecimento de padrões e honestidade. Nosso objetivo, como clínicos e também como cientistas, é fazer o mundo um lugar mais confortável para todas as pessoas, incluindo as autistas, viverem.”

De um ponto de vista mais superficial, porém, outra questão que surge é a possibilidade e editar aspectos estéticos como a cor dos olhos, da pele e dos cabelos. Vivemos em um momento no qual lutamos pela desconstrução dos estereótipos de beleza que, por consequência, acabam trazendo consigo também uma perspectiva racista. O medo, nesse sentido, reside não tanto na capacidade de os pais poderem escolher a cor da pele e dos cabelos dos filhos, mas sim a reprodução desses preconceitos e estereótipos. E é nesse sentido que alguns chegam a fazer a pergunta se edição genética não poderia se tornar, no fim das contas, um sinônimo de racismo e de eugenia.

Em artigo para o Huffpost, Julia Brucculieri discute a homogeneização do ideal de beleza no Instagram e como a própria criatividade vem sendo limada a favor dos likes. Se hoje já praticamos essa estandardização através de soluções cosméticas, como agiríamos diante da possibilidade de edição genética?

Afinal, como aponta o biólogo molecular David King em artigo para o The Guardian, hoje já nos utilizamos de técnicas de “aprimoramento” como a cirurgia plástica para nos conformar às expectativas sexistas, racistas e idadistas. No entanto, “mais sutilmente, mas igualmente profundo, assim que começarmos a editar nossos filhos para ser do jeito que quisermos, estaremos apagando a diferença fundamentalmente ética entre commodities e seres humanos. Novamente, isso não é especulação: já há um mercado internacional de barrigas de aluguel nos quais os bebês são comprados e vendidos. O trabalho dos pais é amar as crianças incondicionalmente, independentemente de quão espertas/atléticas/superficialmente bonitas elas são; não transferir nossos impulsos e preconceitos em seus genes.”

Desse modo, quando pensamos em um futuro povoado por pessoas geneticamente modificadas, parece-nos mais plausível imaginar um mundo no qual essas técnicas levarão à obtenção de um status superior aos demais em vez do surgimento de uma geração de indivíduos especificamente confeccionados para serem melhores funcionários. Mas apesar de esse cenário parecer distópico demais justamente por se utilizar da edição genética como metodologia, hoje já observamos outros meios que possuem a mesma finalidade: desde o consumo de cafeína até outras substâncias que são capazes de “hackear” nossa produtividade e, portanto, tornarmos mais eficientes e melhores trabalhadores.

Um passo adiante seriam os prostéticos e os implantáveis, que também podem ter a finalidade de aprimorar nossas capacidades físicas e cognitivas, o que nos leva à provocação: no futuro, tornar-se pós-humano não será mais uma opção? Seja qual for o meio, o que se vislumbra é a finalidade de ser melhores, mais rápidos e mais fortes – afinal, nosso trabalho nunca acaba. [Lidia Zuin]

Primeira mulher astronauta nos EUA, Jerrie Cobb morre aos 88 anos

Símbolo na luta por igualdade de gênero, ela nunca chegou a ir ao espaço. Em vez de mandá-la em missão espacial, a Nasa a transformou em consultora

Jerrie Cobb viveu frustrada por não ter podido participar de missões: ‘Meu país, minha cultura, não estavam preparados para permitir que uma mulher fosse enviada para o espaço’, escreveu ela em sua autobriografia Foto: Ilustração de Luiz Lopes sobre foto de divulgação/Nasa

A primeira mulher dos EUA a passar nos testes físicos e se tornar astronauta morreu aos 88 anos, na Flórida, no dia 18 de março. A morte de Geraldyn Cobb — conhecida como Jerrie Cobb — foi anunciada pelo jornalista Miles O’Brien, porta-voz da família.

Jerrie entrou para a Nasa, a agência espacial americana, em 1961, quando tinha 30 anos de idade. No entanto, ela nunca chegou a ser enviada ao espaço. Em vez de mandá-la em missão, a Nasa a transformou em consultora.

Ela fez sessões de fotos dentro de uma cápsula espacial, usadas como propaganda pelo governo, mas nunca integrou uma missão real Foto: Divulgação/Nasa

O mais perto que ela chegou das estrelas foram as sessões de fotos dentro de uma cápsula espacial, usadas como propaganda pelo governo americano.

Quando a soviética Valentina Tereshkova enfim tornou-se a primeira mulher no espaço, em 1963, Jerrie não segurou a irritação.

— Acho que sou a consultora menos consultada de uma agência do governo — disse a repórteres na ocasião, com menos de um ano de emprego.

Uma semana depois, ela foi desligada do programa espacial.

Quando Neil Armstrong deu os primeiros passos na Lua, em 1969, Jerrie tinha capacitação suficiente para ser parte do time. Mas ela estava na floresta amazônica pilotando aviões com ajuda humanitária — trabalho que lhe rendeu homenagens dos governos de Brasil, Colômbia, Peru e Equador, além de uma indicação ao Nobel da Paz, em 1981.

— Eu daria minha vida para poder voar no espaço — afirmou Jerrie em 1998.

Em 1997, em sua autobiografia “Jerrie Cobb, solo pilot”, ela fez uma reflexão sobre os seus anos na Nasa:

“Meu país, minha cultura, não estavam preparados para permitir que uma mulher fosse enviada para o espaço”.

Ela recebeu homenagens dos governos de Brasil, Colômbia, Peru e Equador, além de uma indicação ao Nobel da Paz, em 1981, pelo seu trabalho em ajuda humanitária Foto: Divulgação/Nasa

Conheça Katie Bouman, a cientista responsável pela imagem do buraco negro

Dados para gerar imagem foram obtidos a partir de oito conjuntos de radiotelescópios
Gustavo Frank

Katie Bouman – Reprodução/Twitter/MIT

O assunto mais popular nas rodas de conversa nesta quarta-feira (10) é a imagem real do buraco negro no universo, uma descoberta feita pelo telescópio Event Horizon. 

Entre os 200 pesquisadores responsáveis pela descoberta, um nome chama a atenção: o de Katie Bouman. A cientista, de 29 anos, foi quem liderou a criação de um algoritmo que permitiu aos demais estudiosos capturarem a imagem do buraco negro pela primeira vez. No Facebook, ela compartilhou a felicidade com a descoberta. 

“Observando, incrédula, a primeira imagem que eu já fiz de um buraco negro enquanto estava em processo de reconstrução”.

Watching in disbelief as the first image I ever made of a black hole was in the process of being reconstructed.

Para conseguir armazenar a imagem, que reservaram um total de 5 petabytes de informação —que equivalem a 5 milênios de músicas MP3 tocando ou selfies tiradas por 40 mil pessoas ao longo de toda a vida—, foi preciso uma “pilha de discos rígidos de dados de imagem”, manuseada por Katie, que os abraçou para essa foto, no mínimo, icônica:

O MIT, uma das instituições de tecnologia mais respeitas do mundo, comparou a criação de Katie à pesquisa que permitiu aos astronautas pousarem na lua, colocando sua imagem ao lado de Margaret Hamilton, que recebeu o crédito por ter escrito o código de software crucial que permitiu à Nasa tornar possível uma missão à Lua. 

Os estudos feitos pela jovem começaram em 2016, quando começou a liderar o desenvolvimento do algoritmo enquanto cursava engenharia elétrica e ciência da computação. Em 2017, ela conquistou o doutorado, último e mais alto título acadêmico recebido por um indivíduo, na área. 

Em entrevista ao MIT News, Katie explicou que tentar tirar uma foto de um buraco negro é comparável a “fotografar uma laranja na lua, mas com um radiotelescópio. Imaginar algo tão pequeno significa que precisaríamos de um telescópio com 10 mil quilômetros de diâmetro, o que não é prático, porque o diâmetro da Terra não chega a 13 mil quilômetros”.

Para contornar este desafio, o algoritmo de Bouman não depende de um único telescópio. Em vez disso, reúne dados de radiotelescópios em todo o mundo.

Atualmente, Katie Bouman está lecionando na Universidade de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena. Seu foco de pesquisa é “projetar sistemas que integram fortemente algoritmo e design de sensor, tornando possível observar fenômenos anteriormente difíceis ou impossíveis de medir com abordagens tradicionais”. UNIVERSA

Descoberta sobre células-tronco pode levar à cura do diabetes

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco deram “passo crítico” para encontrar uma solução para a doença
Por Lucas Agrela

(Getty images/Getty Images)

São Paulo – Pesquisadores conseguiram pela primeira vez criar células humanas que produzem insulina utilizando células-tronco. A novidade científica é um avanço em direção à criação de uma cura para o diabetes tipo 1.

“Os tratamentos terapêuticos atuais tratam apenas os sintomas da doença com injeções de insulina”, segundo Gopika Nair, autora do estudo, realizado pela Universidade da Califórnia em São Francisco. “Nosso trabalho aponta para diversas avenidas empolgantes para finalmente encontramos uma cura para a doença.” O estudo completo foi publicado periódico Nature Cell Biology.

Com a nova técnica, os pesquisadores conseguiram reproduzir em laboratório células beta pancreáticas que são destruídas pelo diabetes tipo 1. Elas são responsáveis pela produção de insulina.

Para driblar a dificuldade encontrada por outros pesquisadores para criar as células beta a partir das células-tronco, o time de cientistas da universidade utilizou um modelo baseado em como as células são organizadas no pâncreas humano.

“Agora, podemos gerar células que produzem insulina que são e agem de forma muito similar às células-beta do pâncreas que temos em nossos corpos. Esse é um passo crítico em direção à criação de células que podem ser transplantadas para pacientes com diabetes”, afirmou, em comunicado, Matthias Hebrok, PhD, professor emérito em pesquisa sobre diabetes da Hurlbut-Johnson, na UCSF, e diretor do Centro de Diabetes da UCSF.

Apesar do avanço científico significativo, ainda são necessários testes em humanos e uma série de certificações de órgãos de saúde para que a solução seja efetivamente aplicada em pacientes de diabetes. A equipe de pesquisadores considera alterar células com a técnica de edição genética conhecida como CRISPR para implantar as células de laboratório sem precisar ministrar remédios imunossupressores.