Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna recebem Nobel de Química pela descoberta de ‘tesouras genéticas’ para editar DNA

Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram laureadas na manhã desta quarta-feira, 7. Antes delas, apenas cinco outras pesquisadoras tinham recebido o Nobel de Química. É a primeira vez que duas mulheres recebem o prêmio juntas
Roberta Jansen e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

BREAKING NEWS: The 2020 #NobelPrize in Chemistry has been awarded to Emmanuelle Charpentier and Jennifer A. Doudna “for the development of a method for genome editing.”

As pesquisadoras Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram laureadas na manhã desta quarta-feira, 7, com o Prêmio Nobel de Química 2020 por seus trabalhos pelo “desenvolvimento de métodos para editar o genoma”. O secretário geral da Academia Real de Ciências da SuéciaGöran Hansson, resumiu as descobertas como a “reescrita do código da vida”.

A dupla da França e dos Estados Unidos recebeu o prêmio pela descoberta, como definiu o comitê do prêmio, de “uma das ferramentas mais afiadas da tecnologia genética: a tesoura genética CRISPR/Cas9”. Segundo a academia, a partir dessa ferramenta hoje é “possível alterar o DNA de animais, plantas e microrganismos com extrema precisão”.

O trabalho é considerado revolucionário ao abrir caminho para novas terapias contra cânceres, assim como “pode tornar realidade o sonho de curar doenças hereditárias”, aponta o comitê. As duas vão dividir igualmente o prêmio de 10 milhões de coroas suecas

“Há um poder enorme nessa ferramenta genética, que afeta a todos nós. Não só revolucionou a ciência básica, mas também resultou em colheitas inovadoras e levará a novos tratamentos médicos inovadores”, disse Claes Gustafsson, presidente do Comitê do Nobel de Química, durante a apresentação do prêmio.

Segundo ele, essa “tesoura genética” transformou a ciência molecular. “Hoje podemos editar basicamente qualquer genoma e responder todos os tipos de perguntas. E isso pode ser usado para corrigir falhas genéticas, como a que causa anemia falciforme. Você pode praticamente tirar a célula hematopoética, consertar e voltar para o paciente”, explicou.

“Fiquei muito emocionada, muito surpresa, parece que não é real”, afirmou Emmanuelle Charpentier, em participação na coletiva, com a voz embargada.

Como costuma acontecer na ciência, a descoberta dessas tesouras genéticas foi inesperada. Emmanuelle Charpentier estudava o streptococcus pyogenes, uma das bactérias mais danosas para a Humanidade e acabou descobrindo uma molécula até então desconhecida, tracrRNA. O trabalho de Charpentier mostrou que a tracrRNA fazia parte do antigo sistema imunológico da bactéria, CRISPR/Cas, capaz de desarmar vírus cortando seu DNA.

Emmauelle Charpentier e Jennifer Doudna foram laureadas pelo desenvolvimento do método de tesoura genética

Emmanuelle publicou sua descoberta em 2011. No mesmo ano, ela começou a trabalhar com Jennifer Doudna, uma experiente bioquímica com vasto conhecimento em RNA. Juntas, elas conseguiram recriar as tesouras genéticas da bactéria em laboratório, simplificando seus componentes de forma a torná-las mais fáceis de usar.

Em um experimento que marcou época, elas reprogramaram as tesouras genéticas. Originalmente, as tesouras reconheciam o DNA dos vírus, mas as duas cientistas provaram que poderiam controlá-la de forma a cortar qualquer molécula de DNA em lugares específicos. Quando o DNA é cortado, fica fácil reescrever o código da vida.

Desde que Emmanuelle e Jennifer descobriram a CRISPR/Cas9 em 2012, seu uso se popularizou em todo o mundo. Esta ferramenta contribuiu para muitas descobertas importantes da pesquisa básica. Pesquisadores que trabalham com plantas foram capazes de desenvolver novas variantes, resistentes a secas e vários tipos de pestes. Na Medicina, testes clínicos com novas terapias contra o câncer estão em desenvolvimento e o sonho de conseguir curar uma doença herdada está prestes a se tornar realidade. As tesouras genéticas levaram as ciências da vida para uma nova era, trazendo grandes benefícios para a Humanidade.

Quem são as vencedoras do Nobel de Química de 2020

Emmanuelle Charpentier nasceu em 1968 em Juvisy-sur-Orge, França. Obteve seu PhD. em 1995 no Instituto Pasteur, em Paris, França. É diretora da Unidade Max Planck para a Ciência de Patógenos, em BerlimAlemanha.

Jennifer A. Doudna nasceu em 1964 em Washington, D.C, nos EUA. Obteve seu PhD. em 1989 na Escola Médica de Harvard, em Boston, EUA. É professora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA e pesquisadora do Instituto Médico Howard Hughes.

As duas cientistas se somam a um grupo de pouquíssimas mulheres que já receberam o Nobel de Química. Antes delas, apenas cinco outras pesquisadoras tinham sido laureadas. É primeira vez que duas mulheres são laureadas juntas.  Desde 1901, foram 185 agraciados, entre eles, apenas sete mulheres, contando a premiação desta quarta-feira. 

“Espero que essa premiação ofereça um exemplo positivo, especialmente para as jovens que queiram seguir o caminho das ciências, mostrando que as mulheres também podem ganhar prêmios mais importantes e ter um impacto positivo nas pesquisas”, disse Emmanuelle.

Saiba quem foram os premiados em anos anteriores

Prêmio Nobel de Química 2019: John Goodenough, da Alemanha e naturalizado americano, M. Stanley Whittingham, do Reino Unido e naturalizado americano, e Akira Yoshino, do Japão

Em 2019, os pesquisadores John Goodenough, nascido na Alemanha e naturalizado americano, M. Stanley Whittingham, nascido no Reino Unido e naturalizado americano, e Akira Yoshino, japonês, foram laureados pelo desenvolvimento das baterias de lítio. O trio criou “mundo recarregável”, nas palavras do comitê do Prêmio Nobel.

Prêmio Nobel de Química 2018: Frances H. Arnold, George P. Smith, ambos dos Estados Unidos, Gregory P. Winter, do Reino Unido

Em 2018, Frances H. Arnold, nascida nos Estados Unidos, levou o prêmio por uma invenção conhecida como evolução dirigida de enzimas. Ela dividiu a honraria com o americano George P. Smith e o britânico sir Gregory P. Winter, laureados pelo pioneirismo no desenvolvimento de uma técnica conhecida como “phage display”.

Prêmio Nobel de Química 2017: Jacques Dubochet, da Suíça, Joachim Frank, da Alemanha, e Richard Henderson, da Escócia

Em 2017, o prêmio foi dividido entre o suíço Jacques Dubochet, o alemão Joachim Frank e o escocês Richard Henderson. Eles se destacaram pelo desenvolvimento de métodos de microscopia que revolucionaram a bioquímica utilizando temperaturas muito baixas.

Prêmio Nobel de Química 2016: Jean-Pierre Sauvage, da França, J. Fraser Stoddart, do Reino Unido, e Bernard L. Feringa, da Holanda

O prêmio de 2016 foi compartilhado pelo francês Jean-Pierre Sauvage, o britânico sir J. Fraser Stoddart e o holandês Bernard L. Feringa por seus trabalhos no design e síntese de máquinas moleculares.

Prêmio Nobel de Química 2015: Tomas Lindahl, da Suécia, Paul Modrich, dos Estados Unidos, Aziz Sancar, da Turquia

Em 2015, o prêmio foi para o sueco Tomas Lindahl, o americano Paul Modrich e o turco Aziz Sancar por seus estudos sobre reparação do DNA danificado.

Prêmio Nobel de Química 2014: Eric Betzig, William E. Moerner, ambos dos Estados Unidos, e Stefan W. Hell, da Romênia

A edição de 2014 do Prêmio Nobel de Química laureou o americano Eric Betzig, o romeno Stefan W. Hell e o americano William E. Moerner pelo desenvolvimento da microscopia de fluorescência de super-resolução

Prêmio Nobel de Química 2013: Martin Karplus, da Áustria, Michael Levitt, da África do Sul, e Arieh Warshel, de Israel

O prêmio de 2013 foi concedido ao austríaco Martin Karplus, ao sul-africano Michael Levitt e ao israelense Arieh Warshel pelo desenvolvimento de modelos multiescala para sistemas químicos complexos

Prêmio Nobel de Química 2012: Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka, ambos dos Estados Unidos

Em 2012, os americanos Robert J. Lefkowitz e Brian K. Kobilka foram premiados pelos estudos sobre os receptores acoplados a proteínas G.

Prêmio Nobel de Química 2011: Dan Shechtman, de Israel

A edição de 2011 premiou o israelense Dan Shechtman por seu trabalho com semicristais.

Prêmio Nobel de Química 2010: Richard F. Heck, dos Estados Unidos, Ei-ichi Negishi, da China, Akira Suzuki, do Japão

Em 2010, o prêmio foi entregue ao americano Richard F. Heck, ao chinês Ei-ichi Negishi e ao japonês Akira Suzuki pelo catalisador de paládio de acoplamento cruzado em sínteses orgânicas.

Prêmio Nobel de Química 2009: Venkatraman Ramakrishnan, da Índia, Thomas A. Steitz, dos Estados Unidos, e Ada E. Yonath, de Israel

O prêmio de 2009 foi concedido ao indiano Venkatraman Ramakrishnan, ao americano Thomas A. Steitz e à israelense Ada E. Yonath pelos seus estudos sobre a estrutura molecular do ribossomo.

Sobre o Prêmio Nobel

Cada um dos vencedores dos prêmios deste ano, anunciados entre 5 e 12 de outubro, receberá um cheque de dez milhões de coroas suecas (aproximadamente R$ 6,2 milhões) – um valor que não era pago há dez anos. Em 2011, a Fundação Nobel reduziu o valor do prêmio de dez milhões para oito milhões de coroas suecas. Em 2017, a instituição aumentou o valor para nove milhões. Somente este ano voltará ao valor original.

A Fundação Nobel administra os bens de Alfred Nobel, que deixou a maior parte de sua fortuna para a criação do prêmio com o seu nome em testamento feito em Paris, em 1895. Nobel inventou a dinamite em 1866, criação que o tornou rico.  A fundação concede os prêmios de medicinafísicaquímicaeconomialiteratura e paz.

Pela primeira vez desde 1944, a cerimônia de premiação física em 10 de dezembro foi cancelada, por conta da pandemia de covid-19, e substituída por um evento on-line, no qual os laureados receberão os prêmios em seu país de residência. Uma cerimônia ainda está marcada em Oslo para o Prêmio da Paz, mas reduzida ao mínimo.

O tradicional banquete dos prêmios Nobel, celebrado todo ano em dezembro em Estocolmo, na Suécia, também foi cancelado. O banquete do Nobel foi cancelado anteriormente durante as duas guerras mundiais. Também não ocorreu em 1907, 1924 e 1956.

Meghan Markle pode concorrer à presidência dos Estados Unidos, diz agente Jonathan Shalit

‘Ela tem todo o direito’, declara assessor da duquesa em entrevista

Meghan, Harry | Crédito: Getty Images

Em entrevista ao “Sunday Telegraph”, Jonathan Shalit, agente de Meghan Markle, disse que a duquesa poderia concorrer à presidência dos Estados Unidos.

O agente afirmou que não está “além do reino das possibilidades” Meghan ingressar na politica, mas admitiu nunca ter discutido o assunto com ela.

“Meghan nasceu nos Estados Unidos e tem todo o direito de concorrer à presidência”, disse o assessor, lembrando do ator Ronaldo Reagan, que governou o país nos anos 1980. “Era um ator que acabou na Casa Branca. Nunca diga nunca”, observou.

A afirmação veio dias depois da divulgação do acordo, de cerca de 795 milhões, assinado pelo príncipe Harry e por Meghan com a Netflix que inclui um documentário sobre a princesa Diana.

Jeanette Epps, da Nasa, será a primeira mulher negra em longa missão na Estação Espacial Internacional

Astronauta foi designada pela Nasa para a missão Boeing Starliner-1, prevista para durar seis meses em 2021
O Globo

A astronauta da Nasa Jeanette J. Epps Foto: Reprodução/NASA

Nasa anunciou que a astronauta Jeanette Epps foi designada para a missão de seis meses prevista para 2021 chamada de Boeing Starliner-1. Ela viajará com os também astronautas Sunita Williams e Josh Cassada, tornando-se a primeira mulher negra a participar de uma longa missão na Estação Espacial Internacional (ISS).

Há dois anos, a astronauta foi programada para voar a bordo de uma espaçonave russa e se tornar a primeira mulher negra a integrar a tripulação da Estação Espacial Internacional. No entanto, no último minuto, Epps foi removida da missão e substituída sem qualquer explicação por Serena Auñon-Chanceler, uma mulher branca.

Graduada em física pela Le Moyne College, em Nova York, Jeanette obteve, pela faculdade de Maryland, mestrado em Ciências e o doutorado em Engenharia Aeroespacial. Em 2017, a NASA anunciou que Epps receberia a posição de engenheira de voo na Estação Espacial Internacional, na metade de 2018, nas Expedições 56 e 57, tornando-se a primeira afro-americana membro da Estação Espacial e a décima-quinta afroamericana a voar ao espaço, mas em 16 de janeiro de 2018, a própria NASA anunciou que Epps havia sido substituída por Serena M. Auñón-Chancellor, mas que Epps seria “considerada para atribuição em missões futuras”.

Detalhes sobre a decisão ainda não foram divulgados, e o anúncio sobre a nova atribuição de Epps não mencionou a Expedição 56.

“Vários fatores são considerados ao fazer as designações de vôo”, disse a NASA em um comunicado. “Essas decisões são questões de pessoal para as quais a NASA não fornece informações.”

Primeira missão tripulada da Nasa ao espaço em nove anos é cancelada por causa do mau tempo

Seria o primeiro voo espacial promovido pelo governo dos Estados Unidos desde 2011
Joey Roulette, Reuters

O lançamento do foguete SpaceX Falcon 9 com a sonda tripulada Crew Dragon foi adiado para sábadoral, na Flórida Foto: Joe Raedle/Getty Images/AFP

O lançamento do foguete Falcon 9 da empresa aeronáutica SpaceXque levaria astronautas da Nasa ao espaço depois de nove anos, foi suspenso por causa do mau tempo na Flórida.

“Infelizmente não lançaremos hoje”, disse Mike Taylor, diretor da SpaceX, aos astronautas da Nasa Bob Behnken e Doug Hurley, acrescentando que o clima não melhoraria até dez minutos após o horário programado para decolagem. A viagem  foi remarcada para a tarde de sábado, 30.

O lançamento estava agendado para 16h33, horário local (17h33 no Brasil). O presidente Donald Trump, sua esposa, Melania, o vice-presidente, Mike Pence e o chefe da Nasa, Jim Bridenstine, compareceram ao centro espacial Kennedy. A contagem regressiva foi interrompida menos de 17 minutos antes do foguete decolar, levando os astronautas a uma viagem de 19 horas a bordo da recém-projetada cápsula Crew Dragon. O destino seria a Estação Espacial Internacional. 

O lançamento foi programado para um dia em que houve chuva constante. O estado da Flórida e o Serviço Nacional de Meteorologia emitiram um aviso de tornado para a área. Os gerentes de operações de voo estavam monitorando diversas condições climáticas, incluindo a ameaça de raios, mesmo quando as equipes começaram a carregar o foguete com combustível.

Para a Nasa, a SpaceX e Musk, um lançamento seguro representaria um marco na busca pela produção de espaçonaves reutilizáveis, o que tornaria viagens espaciais mais baratas. Musk é o fundador e CEO da Spacex e também o CEO da Tesla. 

Falcon 9 and Crew Dragon will lift off from Launch Complex 39A – the same place Saturn V launched humanity to the Moon and from where the first and final Space Shuttle missions lifted off pic.twitter.com/wOSsbCRqi7 — SpaceX (@SpaceX) May 25, 2020

“Bob e eu estamos trabalhando nesse programa há cinco anos, todos os dias”, disse Hurley, de 53 anos, na chegada com Behnken, de 49, ao centro espacial Kennedy na semana passada. “De diversas formas, foi uma maratona e isso é o que você pode esperar no desenvolvimento de um veículo de transporte humano que pode ir e voltar da Estação Espacial Internacional.” 

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A cápsula Crew Dragon partirá com os astronautas Doug Hurley e Bob Behnken Foto: NASA/Kim Shiflett/Handout via REUTERS

A Nasa, na esperança de estimular um mercado espacial comercial, concedeu US$ 3,1 bilhões à SpaceX e US $ 4,5 bilhões à Boeing Co para o desenvolvimento de cápsulas espaciais de duelo, experimentando um modelo de contrato que permite à agência espacial comprar assentos das duas empresas. A cápsula Boeing CST-100 Starliner deverá ser lançada em 2021. 

pic.twitter.com/iSGrzHgENp — Elon Musk (@elonmusk) May 24, 2020

Jim Bridenstine, da Nasa, declarou que a missão estava pronta depois de checagens finais de engenharia. A SpaceX testou com sucesso a Crew Dragon sem astronautas no ano passado, na sua primeira missão à estação espacial. O veículo acabou destruído no mês seguinte durante um teste em solo quando uma das válvulas do sistema de emergência explodiu. O caso levou a uma investigação que se estendeu por nove meses e foi encerrada em janeiro./COM INFORMAÇÕES DA AFP

Pesquisadores de Stanford criam privada que faz reconhecimento anal por algoritmos

Publicação na revista ‘Nature’, mostra equipamento que poderia ser usado para a detecção de diferentes tipos de doença, incluindo câncer

Privada conectada faz reconhecimento biométrico do ânus 

Cientistas da universidade Stanford, nos EUA, criaram uma privada inteligente que usa algoritmos e sensores de movimento para detectar a saúde dos usuários – o aparelho analisa urina e fezes, além de fazer o reconhecimento do ânus por imagem. O estudo foi publicado na edição de 6 de abril da revista Nature, uma das mais respeitadas publicações científicas do mundo. 

“Sabemos que parece estranho, mas a sua impressão anal é única”, afirmou em comunicado Sanjiv Gambhir, pesquisador que liderou o estudo. Segundo ele, o invento poderia ser usado para identificar sinais de câncer de cólon e de próstata. A ideia é que o equipamento possa fazer monitoramento contínuo, parte da rotina das pessoas – é algo feito em outras áreas de saúde, por exemplo, por relógios conectados, como o Apple Watch. 

“Todo mundo usa o banheiro – não tem como evitar – e isso aumenta o valor desse equipamento como detector de doenças”, falou Gambhir. 

Nos modelos apresentados, a privada tem sensores de pressão que a colocam em funcionamento quando alguém senta. Câmeras registram as fezes – os dados são enviados para um servidor criptografado na nuvem que procura inconsistências que indicam problemas de saúde. O mesmo se aplica ao ânus do usuário. Em relação à urina, sensores detectam o fluxo, a velocidade e o volume produzido.

Até o o momento, a privada conectada foi testada em 21 pessoas – em um estudo com outras 300 pessoas, 52% disseram se sentiriam confortáveis de alguma forma ao utilizar o equipamento. Ainda não há indicações de uso amplo e comercial do aparelho. 

“Para ter todos os benefícios da privada inteligente, os usuários devem ficar tranquilos com uma câmera que escaneia seus ânus”, disse Gambhir. 

Aves de Rapina | Diretora Cathy Yan comenta bilheteria do filme

Cathy Yan disse que expectativas eram altas tanto para equipe quanto para o estúdio
NICOLAOS GARÓFALO

Aves de Rapina (Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa) 

Um dos principais lançamentos da DC nos cinemas em 2020, Aves de Rapina (Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa) levantou diversas discussões após seu lançamento nos cinemas, em fevereiro. Apesar de receber grandes elogios da crítica e do público (o filme registra 78% de aprovação de ambos no site RottenTomatoes), o longa de Cathy Yan foi alvo de xingamentos e boicotes antes mesmo de sua estreia. Mesmo limitado pela censura para maiores e pela exibição encurtada pela pandemia do COVID-19, o filme arrecadou mais que o dobro de seu orçamento, mas a bilheteria de US$ 201,8 milhões ainda foi classificada como “decepcionante” por alguns críticos mais ácidos da produção estrelada por Margot Robbie.

Em entrevista ao THR, Yan lembrou a sensação de decepção trazida pela arrecadação abaixo do esperado no final de semana de estreia de Aves de Rapina. “Sei que [a Warner Bros.] tinha expectativas muito altas para o filme – todos tínhamos. [Também queríamos] desfazer as expectativas em torno de um filme protagonizado por mulheres e o que mais me decepcionou nisso foi a ideia de que talvez não estejamos preparados [para esse tipo de produção]”, afirmou a diretora, que disse também já se sentir pressionada por ser uma cineasta não-branca comandando um blockbuster.

Eu acho que existem certas formas de interpretar o sucesso ou o fracasso do filme, e todos têm esse direito. Mas eu sinto que todo mundo foi extremamente rápido para escolher um lado”, disse Yan sobre as análises das cifras de Aves de Rapina lançadas ao longo de suas primeiras semanas de exibição.

Aves de Rapina acompanha a jornada de Arlequina (Margot Robbie) após o término de sua relação com o Coringa. Com diversas gangues de Gotham em seu encalço, o caminho da Palhaça acaba se cruzando com o de Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Renee Montoya (Rosie Perez) e Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), mulheres que também estão em busca de sua liberdade. O longa arrecadou US$ 201,8 milhões no mundo, partindo de um orçamento de US$ 84,5 milhões. O filme já está disponível em plataformas on demand no Brasil.

‘Previsão sem dados não é ciência, é opinião’, diz Alexandre Chiavegatto Filho, diretor do Labdaps, da USP

Diretor do Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde, Alexandre Chiavegatto Filho está à espera de dados confiáveis para desenvolver algoritmos brasileiros contra o covid-19
Por Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Alexandre Chiavegatto Filho, diretor do Labdaps, da USP

Alexandre Chiavegatto Filho acredita que a inteligência artificial (IA) poderá ter um papel muito importante ainda na atual crise do coronavírus. Ele comanda o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (Labdaps) da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolve pesquisas de IA em saúde. Hoje, a especialidade do centro são estudos para predizer óbito ou sobrevivência após condições específicas de saúde. 

Ele afirma que os pesquisadores estão de plantão à espera dos dados para treinar algoritmos para o novo coronavírus. Segundo o pesquisador, os sistemas poderão ajudar hospitais a dar prioridade a UTIs e ou a fazer diagnósticos que possam compensar a ausência de testes específicos para covid-19.

O uso de IA sempre soa futurista. Como ela pode ser usada agora para combater o coronavírus? 

Ela pode ser usada em todas as áreas que precisem de decisões inteligentes, como a prioridade para uso de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs). É uma forma de predição: quais pacientes vão se beneficiar mais ao serem transferidos para UTI? Outra área crítica é a prioridade na ventilação pulmonar. Testes também são importantes: não existe teste para todos, então é preciso fazer planos de predição para priorizar quais pacientes podem dar positivo. A IA pode ajudar predizer gravidade e ajudar com a  intervenção apropriada para os diferentes tipos de pacientes. 

Por que isso não está sendo usado agora? 

Tudo depende dos dados. A IA está demorando para entrar na conversa da covid-19 porque precisamos de dados de qualidade. Até agora, não tínhamos dados confiáveis. Fazer previsão sem dados não é ciência, é quase opinião. O aprendizado de máquina precisa de dados do passado para entender regras e projetar o futuro. 

Dados de outros países não podem ajudar? 

A China não tem histórico de transparência de dados, então perdemos essa informações. Agora, começam a chegar dados de outros países e surgem pesquisas nesse sentido. O problema é que outros países têm distribuições socioeconômicas, demográficas e genéticas diferentes do Brasil. Porém, estão aumentando o número de exames e casos confirmados no País, então existe um potencial grande para usarmos esse dados e desenvolver algoritmos que se adequarão melhor aqui do que os de outros países. 

O volume de dados no Brasil ainda não parece ser grande. Ainda assim, dá para treinar um algoritmo ‘local’? 

O importante em aprendizado de máquina não é tanto o número de pessoas, mas sim ter variáveis preditoras fortes. Às vezes, com poucas pessoas é possível ter bons resultados. Estamos publicando um estudo de predição de óbito por febre amarela com apenas 40 pessoas, mas com resultados muito bons. Ter resultados de exames clínicos é muito importante.  

Vai dar tempo de usar esses algoritmos no Brasil ainda durante a crise?

Sim, os hospitais têm esses dados. Todo prontuário de exame é registrado. Ao ser digitalizado, está pronto para análise. Nosso grande desafio é conseguir os dados, meu laboratório está de plantão aguardando o recebimento. Em termos técnicos, temos bons computadores e algoritmos que estão no estado da arte. Estamos nos preparando há anos para uma emergência como essa. 

Pandemia nos ensina que sem ciência não há futuro

Por Ergon Cugler, pesquisador da EACH/USP, associado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas (OIPP) e ao Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (GETIP)

Oavanço da Sars-Cov-2 e do covid-19 tem modificado rotinas drasticamente ao redor do mundo. Após o alastramento na China, Irã e Itália sofrem com letalidade acima do observado em território chinês. Mais recentemente, potências como EUA têm seu sistema de saúde sobrecarregado e países como o Brasil passam a seguir orientações sanitaristas e apostam em medidas para retardação da crise, tendo o SUS como determinante.

Dentre as lições da Itália no combate ao coronavírus, cabe destaque ao gráfico elaborado por D. Harris e adaptado por C. Bergstrom sobre a retardação do pico da epidemia. Segundo pesquisadores, medidas de controle como lavar as mãos, trabalho remoto, evitar sair de casa, restrições a aglomerações e viagens podem proporcionar não apenas o achatamento da curva de contágio, mas retardar seu pico – evitando sobrecarregar o sistema de saúde e viabilizando tempo para adequação de normas e procedimentos em relação à pandemia –, caso contrário, não há leitos, máscaras, respiradores, equipe ou estrutura para atender a população contaminada.

Nesse cenário, enquanto os altos custos limitam os cidadãos estadunidenses de realizarem os testes do covid-19 – desestimulando o atendimento primário –, o SUS tem disponibilizado testes gratuitos em larga escala através de parceria com a Fiocruz. A própria adoção de protocolo unificado de atendimento e proteção à população demanda articulação que só existe decorrente de anos de enraizamento da Estratégia Saúde da Família e de atenção básica que o sistema universalizado propicia.

Para além do SUS, tal operação de retardação do contágio é somente possível através da cooperação da comunidade científica internacional. A questão é também econômica, pois ao não distribuir o contágio através do achatamento da curva, pessoas doentes ou em quarentena não poderão desempenhar suas funções, interrompendo cadeias de produção. Do distanciamento social até a mudança de rotina, foram necessários exemplos práticos do alastramento do covid-19 e da sobrecarga do sistema de saúde com mortes na Itália e Irã para que os governos de diversos países se mobilizassem aos alertas de cientistas.

Vácuo

No campo da ciência política, autores como P. Bachrach e M. Baratz (1963) apontam a não decisão como uma forma de decisão. Diversos são os exemplos no caso brasileiro, do contingenciamento de recursos para universidades e bolsas de pesquisa – incluindo no campo de saúde, da Capes e CNPq – à relativização do governo diante do exponencial desmatamento da Amazônia, como aponta a pesquisadora Gabriela Lotta.

Como sempre, o obscurantismo não ataca apenas retoricamente as universidades e a produção científica, mas influi diretamente no corte de verbas e no esvaziamento dos institutos de pesquisa. Da mesma forma, minimiza os impactos climáticos e desdenha dos alertas da comunidade científica, tratando as evidências como opiniões a serem rebatidas sem dados ou referências.

No entanto, com o covid-19, a imobilidade consciente causada por teorias conspiratórias no núcleo de governos foi varrida pelo avanço explícito do vírus, fazendo da comunidade científica linha de frente do real combate à pandemia – exemplo do sequenciamento genético do vírus pelas pesquisadoras da USP Ester Cerdeira e Jaqueline Goes, em apenas 48 horas, e da vacina em desenvolvimento por cientistas do Incor, da Faculdade de Medicina da USP. É da inércia de governos em meio ao caos que a comunidade científica pode – e deve – explorar contradições e se apresentar à população ao expor as consequências para seu futuro.

Tal prontidão de cientistas nos mais diversos países tem constituído uma rede sólida de informações, colocando a ciência na vanguarda das decisões governamentais. Com a coalizão sendo pautada pela ciência, inaugura-se a oportunidade de combater o obscurantismo institucionalmente, utilizando da transparência e atualização constante das medidas adotadas como instrumentos de supressão das fake news, por exemplo.

Responsabilidade

O texto publicado pela jornalista italiana Mariella Bussolati no Business Insider, “Pandemia em tempos de Antropoceno”, nos recorda que “a emergência do coronavírus nos dá a oportunidade de nos prepararmos para enfrentar a emergência climática e ambiental” que se acirrará nas próximas décadas. Ainda, diante do imediatismo do governo dos EUA em cobrar vacina da comunidade científica após diversos cortes na saúde, em nota publicada pela centenária revista Science, o pesquisador e editor H. H. Thorp respondeu: “Ciência não se faz da noite para o dia, precisa de investimento e, sobretudo para uma vacina, precisa-se de tempo e investimento”.

Durante a pandemia, aprendemos arduamente a necessidade de financiamento progressivo e constante para que a comunidade científica esteja a postos para eventuais crises. Aliás, ciência se faz a longo prazo, não para atender apenas ao imediatismo. Mais do que isso, a universalidade e gratuidade do atendimento do SUS, com sua excelência e eficácia no monitoramento e contenção do coronavírus, e a valorização da ciência e da universidade – junto aos institutos de pesquisa –, com sua incorporação aos processos de tomada de decisão governamental, se mostram cada vez mais fundamentais à vida.

É necessário utilizar do protagonismo em meio à pauta para que além de conduzir cooperativamente com os governos a gestão da atual crise, se consolide espaço para a ciência ter voz e influência, pois a comunidade científica está provando que, quando um alerta é realmente ouvido, torna-se possível reagir rápido o suficiente para sua contenção.

Por fim, com a experiência do covid-19 e antes que a emergência climática e ambiental se torne irreversível, por exemplo, é necessário também que estejamos atentos, pois todo filme de desastre começa com cientistas sendo ignorados.

Mais poderosas, mulheres cientistas produzem mais que homens no Brasil

Em 20 anos, presença feminina passou de 35% para 44% entre os pesquisadores que publicam estudos
Giovana Girardi

A partir da esq., Igra Morales, Flavia Sales, Ester Sabino, Erika Manuli e Jaqueline Goes, as cientistas que sequenciaram o genoma dos primeiros casos de coronavírus no Brasil

Na semana passada, o esforço para rapidamente sequenciar o genoma do coronavírus identificado em um brasileiro foi liderado por um grupo de pesquisa composto em sua maioria por mulheres – fato que acabou chamando tanta ou mais atenção que o feito científico em si. Mulheres que se destacam na ciência, porém, estão longe de ser uma raridade no País, apesar de ainda reinarem algumas desigualdades.

A proporção entre homens e mulheres que publicam pesquisas no Brasil vem crescendo e está cada vez mais próxima, como revelou o recém-publicado relatório A Jornada do Pesquisador pela Lente de Gênero, da editora científica Elsevier. O levantamento aponta uma proporção de 0,79 mulher para cada homem que publica artigos no Brasil. Em porcentagem: 44,25% são mulheres e 55,75%, homens. O estudo foi antecipado pela Revista Pesquisa Fapesp.

A pesquisa considerou a paridade de gênero entre cientistas de 15 países – além da União Europeia como bloco – a partir de publicações em periódicos da base Scopus em dois períodos: entre 2014 e 2018 e entre 1999 e 2003.

Ao longo desses 20 anos, houve um avanço da participação feminina em todo o mundo. Passou de 29% para 38% o número de mulheres entre os autores de pesquisas científicas. No Brasil, no início do século, 35,3% dos autores eram mulheres.

Atualmente, em termos de paridade, o País só perde para Portugal (48,32%), e para a Argentina, única nação que tem mais mulheres cientistas assinando artigos que homens: 51%. Mas fica à frente de países como Estados Unidos (33,62%), Alemanha (32,02%) e França (38,91%). A pior proporção foi registrada no Japão, com apenas 15,22% de mulheres entre os autores de pesquisas.

Mas se na autoria da pesquisa, o mundo como um todo está mais próximo da paridade de gênero do que há uma década, com o tempo, a proporção de mulheres para homens como autores diminui. Isso contribui para que os homens publiquem mais, tenham maior impacto e exposição ao avanço da carreira internacional.

No Brasil, no período de 2014 a 2018, cada homem publicou, em média, 4,27 artigos, ante 3,11 por mulher. Mas essa diferença, aparentemente, teve pouco impacto no nível de citação dos autores por outros pesquisadores, que foi similar para os dois gêneros.


CARGOS DE CHEFIA

“Em geral a presença feminina melhorou como um todo na educação no País. No ensino médio, elas completam mais os estudos que os meninos. Uma análise feita pela OCDE com pessoas entre 18 e 30 anos mostrou que enquanto 30% delas não havia terminado o ensino médio, entre os homens era mais de 40%”, comenta a bioquímica Helena Nader, de 72 anos.

Ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e atual vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena afirma que há avanços claros, mas pondera que ainda são poucas as pesquisadoras do Brasil que chegam a cargos elevados na academia.

“O cenário está melhorando, hoje as mulheres são maioria entre os ingressantes do ensino superior e elas também se formam mais que os rapazes. Na pós, como um todo, também, mas entre os bolsistas de produtividades do CNPq os homens ainda são maioria”, aponta.

Essas bolsas do CNPq, principal órgão de fomento à ciência do País, têm os valores mais altos e aumentam à medida que cresce a produção do pesquisador. Levantamento feito pela ONG Gênero e Número sobre a base do CNPq em 2015 observou que apenas 5% dos bolsistas 1A<, o nível mais elevado do órgão, eram mulheres – uma situação que foi apelidada de “teto de vidro” na ciência.

A fim de dar visibilidade ao trabalho das mulheres que fazem ciência no Brasil, a Gênero e Número lançou recentemente a plataforma Open Box da Ciência, que selecionou 250 pesquisadoras do Brasil que mais se destacam nas suas áreas (leia mais abaixo). “Na ABC, em uma ação afirmativa, ficou em quase meio a meio os ingressantes deste ano. Mas nas agências de fomento, quantas mulheres foram presidentes? Nenhuma na Finep, no CNPq, na Fapesp”, enumera.

Na Capes, dos 49 coordenadores de áreas, somente 14 são mulheres. Uma delas é Cristina Parada, de 56 anos, que coordena a área de Enfermagem. Pesquisadora e chefe do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, ela diz que sente menos a disparidade de gênero justamente por estar na área com a maior presença feminina.

Mas diz que na produção científica em geral ainda há o problema. “Trabalhamos muito, com competência, mas ainda somos menos conhecidas e reconhecidas”, afirma. Na sua experiência profissional, diz que sempre buscou adotar uma postura em que demandou ser tratada em pé de igualdade. Mas sabe que não é assim para todas, em especial em relação à maternidade.Trabalhamos muito, com competência, mas ainda somos menos conhecidas e reconhecidas”

Uma das questões que faz as mulheres serem preteridas em bolsas de produtividade é porque o tempo considerado para medir a produção corre igual para os dois gêneros. Então mulheres que se ausentaram na gravidez ou na licença maternidade acabam ficando com indicadores mais baixos – um critérios que as mulheres tentam mudar.

“Eu busco ter esse cuidado com quem trabalha conosco, com nossas alunas, porque a maternidade é tão importante, tão única e cada vez mais rara. A maioria vai passar por isso uma, no máximo duas vezes na ida. E a gente tem de alguma maneira proteger alunas, colegas de trabalho. Fazer crítica é absolutamente incabível”, ressalta.

“Acho que o que a mulher brasileira conseguiu em tão pouco tempo, não ocorreu em nenhum outro lugar. Não podíamos ir à escola, votar. A mulher percebeu que consegue ter família, cuidar dos filhos, fazer ciência. Agora já temos mais mulheres como reitoras, apesar de ainda serem minoria. Está aumentando”, diz Helena.

Além dela, a SBPC teve somente duas outras presidentes mulheres: a pioneira Carolina Bori e Glaci Zancan. Na ABC, Helena é a segunda mulher a ocupar uma vice-presidência. Mas ela afirma que está preocupada que haja um retrocesso.

“A ciência está sob ataque. O país está retrocedendo, com machismo, com piada de mulher. E me preocupa que isso venha de representantes do governo. Está voltando a velha ideia de que a responsabilidade dos filhos, da casa, é da mulher. E que se mantenham os recursos na ciência, ou não vamos ter nem mulher nem homem na ciência.”O país está retrocedendo, com machismo, com piada de mulher. E me preocupa que isso venha de representantes do governo. Está voltando a velha ideia de que a responsabilidade dos filhos, da casa, é da mulher.”

MAIS NAS BIOLÓGICAS, MENOS NAS EXATAS

A distribuição mais equânime observada no estudo de gênero por autores, porém, não se mantém em todas as áreas do conhecimento. As cientistas brasileiras ocupam posições melhores nas médicas e biológicas. Considerando os temas dos artigos publicados entre 2014 e 2018, a participação feminina era majoritária na autoria de estudos sobre diabetes e endocrinologia (1,44 mulher para cada homem); psicologia (1,65) e pediatria (1,81).

A área com mais mulheres, disparada no estudo, é enfermagem, com 2,7 mulheres para cada homem – uma hegemonia que se repete em todo o mundo e que, no caso do Brasil aumentou ao longo dos anos. No levantamento anterior, apesar de elas já serem maioria, a relação era menor: 1,6 para 1.

Chamam atenção os saltos observados em algumas áreas. Em fertilidade e nascimento, por exemplo, elas deixaram de ser minoria no período de 1999 a 2003 (0,8 mulher para cada homem) para se tornarem maioria no período de 2014 a 2018 (1,53 para 1). Isso também ocorreu em clínica médica geral (de 0,77 para 1,32) e em neurociência (de 0,85 para 1,20).

Elas são maioria também, mas já em mais pé de igualdade com homens, em estudos de bioquímica, câncer, biologia molecular e celular, odontologia, medicina, farmacologia e saúde pública.

Nas exatas, porém, elas ainda estão sub-representadas. Apenas 0,25 para 1 tanto na ciência da computação quanto em matemática – em taxas que praticamente não mudaram desde o período anterior. Nas engenharias e na área de energia, elas são apenas 0,3 para cada homem.

Mas em todas as outras áreas houve alguma melhora. Em ciências planetárias, por exemplo, a proporção subiu de 0,26 para 0,46 para cada homem. Em economia, foi de 0,1 para 0,4. Em ciências agrícolas, de 0,56 para 0,82.


PERFIS

Para chamar a atenção para o avanço feminino dos últimos anos, foi lançada no começo de fevereiro uma plataforma online, a Open Box da Ciência, que destaca 250 cientistas consideradas protagonistas em suas áreas.

Foram selecionadas 50 mulheres em cada uma de cinco áreas analisadas – Ciências Sociais Aplicadas; Ciências Biológicas; Ciências Exatas e da Terra; Ciências da Saúde e Engenharias.

O projeto cruzou dados do Censo da Educação Superior com informações de outras bases de dados oficiais, como a Plataforma Lattes, para rastrear os número de artigos científicos publicados, prêmios recebidos, eventos organizados pelas cientistas e se elas estão engajadas em divulgação científica. Helena Nader, Cristina Parada e a cirurgiã Angelita Habr-Gama (veja um perfil dela nesta reportagem) são algumas das pesquisadoras destacadas. Conheça as histórias de outras cinco.


SAÚDE

AS MULHERES E O GENOMA DO CORONAVÍRUS

ESTER SABINO
PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE MOLÉSTIAS INFECCIOSAS DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

Médica, pesquisadora, especialista em vírus, Ester Sabino, de 60 anos, foi a primeira mulher a exercer o cargo de diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A médica Ester Sabino, de 60 anos, faz ciência de ponta não é de hoje no Brasil. Em meados dos anos 1990, foi uma das pesquisadoras a montar uma rede que fez o sequenciamento genético do HIV no Instituto Adolfo Lutz, quando o País despontava no tratamento da aids.

Em 2015 se tornou a primeira mulher a dirigir o Instituto de Medicina Tropical da USP e no ano seguinte, com a epidemia de zika, mergulhou nas arboviroses. Mas foi na semana que passou, ao liderar o grupo que sequenciou o genoma dos dois casos de coronavírus no Brasil, que Ester ficou instantaneamente famosa. Ela e toda a sua equipe – formada majoritariamente por mulheres.

O feito de sequenciar o genoma rapidamente pareceu ter recebido ainda mais destaque por ter mulheres à frente dele. “Passei um bom tempo lendo comentários das matérias para tentar entender o que estava acontecendo. Não entendi muito bem ainda, mas acho que foi uma história que mexeu com algum sentimento das pessoas, com o emocional”, disse Ester ao Estado, na terça-feira, 5 (leia a reportagem completa), “É um sentimento de orgulho pela ciência brasileira, por serem mulheres por trás das pesquisas. Orgulho acho que foi a palavra que mais ouvi”, conta a coordenadora do Projeto Cadde (Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus), que desenvolveu uma tecnologia rápida e barata para sequenciar vírus e, assim, conseguir monitorar o desenvolvimento de epidemias em tempo real.É um sentimento de orgulho pela ciência brasileira, por serem mulheres por trás das pesquisas. Orgulho acho que foi a palavra que mais ouvi.”

O trabalho com o coronavírus foi possível justamente porque o Cadde vem acumulando experiência no assunto desde o surto de zika. “Aqui no Brasil temos tido muitas epidemias. Então, estamos ficando espertos”, brinca. “Veja a Itália. Quantas epidemias eles tiveram nos últimos tempos? Talvez pudessem ter feito com o sarampo. Mas aqui temos sarampo, zika, chikungunya, dengue, febre amarela. É uma atrás da outra.”


JAQUELINE GOES DE JESUS
BIOMÉDICA, FAZ SEU PÓS-DOC EM MOLÉSTIAS INFECCIOSAS NA USP

Jaqueline Goes de Jesus, de 30 anos, esteve à frente do trabalho de sequenciamento do genoma do coronavírus -TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A bioquímica Jaqueline Goes de Jesus, de 30 anos, pós-doutoranda em Moléstias Infecciosas sob orientação de Ester, estava fazendo esse monitoramento para o surto atual de dengue quando o coronavírus chegou ao Brasil. Foi ela que fez a ponte com o Instituto Adolfo Lutz, responsável pela vigilância da doença em SP e que recebeu a amostra para confirmar a infecção.

“Fizemos o sequenciamento dentro da nossa rotina que já tínhamos com a dengue. As pessoas falaram bastante de ter sido feito em 48 horas , e na hora a gente pensou: ‘mas isso é normal aqui dentro’. Depois vimos outros pesquisadores elogiando e pensamos: ‘puxa, acho que é uma grande coisa mesmo’”, diz Jaqueline.

Da noite para o dia, a pesquisadora baiana, formada na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, conta que viu o número de seguidores na sua conta de instagram passar de mil para mais de cem mil. “Descobri que teve uma campanha por eu ser mulher, negra, nordestina.”

Apesar de assustada com a repercussão inicial, Jaqueline agora quer aproveitar a onda. “Ganhamos visibilidade como cientistas e isso ajuda a inspirar outras mulheres. A maior parte dos comentários foi porque as mulheres estavam querendo incentivar outras mulheres na ciência. Elas se sentiram representadas, viram que têm em quem se inspirar”, afirma Jaqueline.Descobri que teve uma campanha por eu ser mulher, negra, nordestina.”

Ela planeja agora usar sua conta no instagram, que ganhou milhares de seguidores, para divulgar os trabalhos do grupo. “Vou fazer a divulgação científica das nossas descobertas lá. Mostrar coisas que acontecem na universidade e as pessoas nem sabem. E não ser pontual, mas mostrar que a ciência é importante.”


BIOLÓGICAS

DO SONO AO SEXO

MONICA LEVY ANDERSEN
PROFESSORA E VICE-CHEFE DO DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA DA UNIFESP

Monica Levy Andersen, de 46 anos, é professora e vice-chefe do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, onde lidera investigações sobre a relação entre sono e sexualidade – DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O tema principal de pesquisa da bióloga Monica Levy Andersen, de 46 anos, é considerado ainda meio tabu mesmo dentro da ciência: o impacto que dormir mal pode ter sobre a sexualidade.

Especialista em sono, já descobriu que não ter boas noites de sono pode levar à impotência. A apneia, por exemplo, pode acabar prejudicando a ereção; o homem privado de sono tem redução de testosterona; a mulher tem menos frequência sexual e satisfação; a insônia pode piorar a TPM.

“Havia apenas cinco pesquisadores em todo o mundo que estudava o assunto quando eu comecei, em 2000. Tem muito estudo sobre sono no mundo, mas a maioria sobre os impactos nas alterações cardíacas, no bem-estar em geral. Acho que ainda existe um certo tabu, vergonha”, conta a pesquisadora, que percebe, por outro lado, uma enorme curiosidade de colegas por seus resultados, mesmo que velada, algumas vezes.

Por parte dos pacientes que ela avalia no Instituto do Sono, da Unifesp, há um sentimento de alívio. “Muitos têm dificuldade de debater isso com seus médicos. Mas já ouvi de homens comentários do tipo: ‘Ufa, agora está explicado… Tenho apneia e há três anos não tenho uma ereção’”, lembra a pesquisadora.

No ano passado ela coordenou a quarta edição do maior levantamento sobre problemas de sono na capital paulista, o Episono São Paulo. É uma pesquisa feita de porta em porta, na casa das pessoas, para basicamente saber como dorme o paulistano e quais consequências ele pode ter – não apenas no campo sexual.Em muitos casos, quando vai se buscar um especialista brasileiro em um assunto, é sempre o fulano, quase nunca a mulher.”

Cerca de mil entrevistados – com idades entre 20 e 80 anos – foram depois para o Instituto do Sono para passar a noite e ter possíveis distúrbios avaliados por polissonografia. Os dados ainda estão sendo compilados e devem ser divulgados no segundo semestre. O levantamento anterior, de 2007, tinha mostrado que 1/3 das mulheres participantes tinha insônia e 40% dos homens roncavam e tinham apneia.

Monica conta que sempre quis ser cientista e uma das suas linhas de trabalho é incentivar crianças a também buscarem uma carreira em ciências. Para isso, edita o gibi “Dona Ciência”<, que traduz para linguagens mais simples descobertas científicas e também divulga a presença de mulheres na ciência.

A bióloga afirma que não chegou a enfrentar dificuldades específicas por ser mulher em nenhum momento da carreira, mas reconhece que elas ainda enfrentam barreiras na academia. “Em muitos casos, quando vai se buscar um especialista brasileiro em um assunto, é sempre o fulano, quase nunca a mulher”, afirma.

Para tentar minimizar alguns tipos de situação que podem constranger as mulheres, ela criou na Unifesp um grupo de trabalho de valorização da maternidade na ciência.

Monica escolheu não ser mãe quando surgiram oportunidades no exterior que eram também seu sonho – ela fez seu pós-doc na Universidade Emory, onde depois foi professora visitante, e também teve esse cargo na Escola de Medicina de Harvard. Mas entende que a maternidade ainda é “uma questão” para as cientistas.

“As bolsas de produtividade são dadas com base na análise do triênio ou do quinquênio de produção. Uma mulher que teve de ficar de repouso por alguns meses na gestação, que saiu para a licença maternidade, que no início da vida da criança não tem todo o combustível para tocar o dia a dia da pesquisa, acaba sendo prejudicada diante da colega que não tem filhos ou do colega homem”, pontua.

“E aí ela não ganha a bolsa e acaba sendo ainda mais prejudicada na sua produção futura. Defendemos que na avaliação deveria ser abonada a licença-maternidade. É claro que ela não tem como produzir o mesmo que os demais, mas é cobrada igual. Mas queremos mães que amamentem, que ensinem bem seus filhos. Não que sejam forçadas a ir para o mercado sob o risco de conseguir concorrer em um edital”, explica.


CIÊNCIAS SOCIAIS

VOZ PARA OS SABERES PLURAIS

MARIA APARECIDA MOURA
PROFESSORA TITULAR DA UFMG, COORDENA O NÚCLEO DE ESTUDOS DAS MEDIAÇÕES E USOS SOCIAIS DOS SABERES E INFORMAÇÕES EM AMBIENTES DIGITAIS

Maria Aparecida Moura, de 54 anos, foi a primeira professora negra titular da UFMG, coordena o Núcleo de Estudos das Mediações e Usos Sociais dos Saberes e Informações em Ambientes Digitais – WASHINGTON ALVES/ESTADÃO

“Venho de uma família de mulheres que sempre trabalharam como empregada doméstica, lavadeira. Eu mesma trabalhei em casa de família. Minha mãe e minha avó lavavam a roupa de pessoas que estavam em pensionato fazendo faculdade e eu sempre ia com elas levar as roupas desses jovens. Eu sempre via todos lá concentrados, estudando, e eu pensava que devia ser boa aquela vida. No meu mais profundo ser eu achava que aquilo era para mim, mas minha mãe falava: estudar para quê? Para esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque?”

O sonho de se tornar estudante universitária levaria ainda um tempinho para acontecer na vida de Maria Aparecida Moura, a primeira professora titular negra da UFMG. Ela só entrou na faculdade aos 24 anos, depois de ter sua primeira filha. Mas avançou continuamente na carreira, chegando a fazer pós-doc na Maison de Sciences de l’ Homme, na França.

Sua filha também ganhou destaque em sua carreira, se tornando bailarina naquele país. Hoje aos 54 anos, Maria Aparecida é um dos destaques do Brasil nas pesquisas em ciências sociais aplicadas. No ano passado, ganhou uma bolsa da Capes para atuar como professora visitante sênior na Universidade Paris-Est Créteil.

“As mulheres negras chegam tardiamente à universidade e chegam com um acúmulo do processo de escravidão. Nós deixamos de ser um produto só recentemente e agora pesquisamos e disputamos a narrativa científica sobre as nossas vidas”, afirma a pesquisadora.

No ano passado, quando voltou a Paris, ela levou a mãe junto, em sua primeira viagem para o exterior. “Não tinha nada disso que o ministro (Paulo Guedes) diz de farra de empregada doméstica na Disney. Me senti pessoalmente ferida, porque sou do tempo em que a gente só comia depois dos patrões, eles não assinavam carteira, eu dormia na casa deles e na hora de ir embora a patroa conferia a minha bolsa”, relata.

Com formação em biblioteconomia, mestrado em Educação, doutorado em Comunicação e pós-doc em Semiótica, ela trabalha unindo vários conhecimentos. Coordenadora na UFMG do Núcleo de Estudos das Mediações e Usos Sociais dos Saberes e Informações em Ambientes Digitais e de um museu virtual sobre saberes plurais, ela une comunicação, inovação, tecnologia e organização de informações relacionadas a questões com identidade, resgate de memória sociais e produção de conhecimento de grupos marginalizados.

A ideia é que essas pessoas possam ser protagonistas dos seus registros, em oposição ao que Maria Aparecida define como “racismo epistêmico – em que a história é sempre contada pelo branco”. Em outro trabalho, ela e duas colegas identificaram mestres de ofício no Vale do Jequitinhonha para contar suas histórias de vida e preservar seus conhecimentos que hoje estou desaparecendo e são mantidos por essas poucas pessoas.

“Não acho que está mais fácil hoje para as meninas em situações iguais às que eu tinha. Mas acho que ao menos conseguimos formalizar como política de estado um conjunto de coisas que torna possível chegar lá. Mas continua muito difícil”, afirma.


EXATAS

ENTRE A FÍSICA DE PARTÍCULAS E A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

SANDRA PADULA
PROFESSORA DO INSTITUTO DE FÍSICA TEÓRICA DA UNESP

Física, Sandra Padula, de 63 anos, pesquisa na Unesp as partículas produzidas em colisões a altas energias no LHC, o grande acelerador de partículas localizado na fronteira entre Suíça e França – TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

No dia 10 de fevereiro, quando São Paulo ficou debaixo d’água, a física Sandra Padula, de 63 anos, esperava receber cerca de cem garotas, todas estudantes do ensino médio, para ter um dia de discussão sobre um assunto que nenhuma delas provavelmente jamais tinha visto na escola: a física de partículas.

Era um evento para celebrar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, criado pela ONU para ser comemorado no dia 11 de fevereiro. Apesar de a cidade ter ficado em boa parte intransitável, inclusive a Barra Funda, onde se localiza o IFT, cerca de 50 meninas conseguiram chegar para aprender sobre o tema cabeludo. No meio da tarde, porém, a luz teve de ser cortada no câmpus e a programação foi adiada. Será realizada justamente neste fim de semana que coincide com o Dia Internacional das Mulheres.

“Esse hoje é o meu xodó”, conta Sandra. “Nessa aventura incrível que é fazer física experimental de altas energias, veio também uma outra paixão: fazer divulgação científica e trazer alunos para explicar o que é isso”, diz a pesquisadora que investiga partículas presentes nos núcleos dos átomos. Ela colabora, desde 2008, com os experimentos que são feitos dentro do maior acelerador de partículas do mundo, o LHC.

Seu foco é nas propriedades do chamado plasma de quark-glúon, que se forma nas colisões de prótons de núcleos de chumbo. Supõe-se que esse estado da matéria seja similar a uma condição que teria existido no início do Universo. “É ciência pura em que buscamos entender o universo em que vivemos, como ele se comporta. Mas para poder estudar experimentalmente, é preciso desenvolver tecnologias sofisticadas que acabam levando a vários outros desdobramentos, como tomografia, ressonância, o touch screen”, explica.

“A física que a gente aprende na escola para no século 19, nem tem Higgs”, reconhece ela, citando talvez um dos mais famosos resultados do LHC, a comprovação da existência do bóson de Higgs, em 2012, partícula que havia sido teorizada nos anos 1960. E por isso mesmo ela se esforça para levar o conhecimento avançado da física experimental em eventos de divulgação em geral e em iniciativas voltadas especialmente para as meninas.Um tio me disse que eu ia esquecer da família. Que a realização é ter filhos. Fui a primeira da minha família a fazer graduação. Eu fiz física e a família veio depois.”

“Ainda existe uma estrutura de ideias silenciosas de que as exatas não são apropriadas para as mulheres”, diz, citando como um instrumento importante a criação da plataforma online Open Box da Ciência, que destaca 250 pesquisadoras brasileiras protagonistas em suas áreas. Sandra foi escolhida entre 50 cientistas da área de Ciências Exatas e da Terra. Ela conta que quando era adolescente também sentiu uma pressão da família para tentar outra área. Se era para ir para as exatas, que fosse para a engenharia, em vez de ser cientista. “Um tio me disse que eu ia esquecer da família. Que a realização é ter filhos. Fui a primeira da minha família a fazer graduação. Eu fiz física e a família veio depois.”

Para ela, as coisas estão mudando. Uma das escolas públicas que participa do seu projeto de divulgação, os estudantes foram incentivados a criar um varal de desejos. “Me mandaram uma foto do varal e várias meninas escreveram que queriam ser cientistas”, conta.

“Acho que a plataforma pode ajudar a mudar esse paradigma esquisito e mostrar que não é assim e que não precisa ser assim. Mostrar que mulheres escolheram essas áreas, inspirando outras meninas a irem atrás. Até que cheguemos a uma situação em que a gente não precise mais de uma plataforma para destacar as mulheres. Assim como talvez um dia a gente não precise mais de cotas, porque teremos alcançado a igualdade.”


ENGENHARIAS

EM ÁREA COM PREDOMÍNIO MASCULINO, ELA VÊ OÁSIS E LIBERDADE

BLUMA GUENTHER SOARES
QUÍMICA E PROFESSORA DO INSTITUTO DE MACROMOLÉCULAS DA UFRJ

Bluma Guenther Soares, de 68 anos, é química e professora do Instituto de Macromoléculas da UFRJ, onde atua há 50 anos – WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Ao completar 50 anos de UFRJ, a química Bluma Guenther Soares, de 68 anos, guarda, em meio as comemorações, uma mágoa. “Pior do que a falta de recursos atual da ciência, me dói o que andam falando por aí dos professores, dos cientistas. Estamos aqui trabalhando em janeiro, fevereiro, sem férias, porque temos alunos no laboratório para orientar, defesas de teses de doutorado para assistir, e ouvimos que somos parasitas, que ninguém trabalha, que aqui é balbúrdia”, afirma se referindo a declarações dos ministros da Economia, Paulo Guedes, e da Educação, Abraham Weintraub.

E mesmo com as dificuldades atuais, conta que não tem a menor intenção de se aposentar. “Se eu tiver com esse pique todo, vou até os 75 anos (quando ocorre a aposentadoria compulsória). Se parar, eu morro. Tenho ainda muitos planos, muitas coisas para fazer”, diz a professora do Instituto de Macromoléculas (IMA), que também dá aulas na graduação de Química, na pós em Ciência e Tecnologia de Polímeros e na Engenharia de Materiais e Metalúrgica.

Ela orienta atualmente cerca de 30 anos alunos e se dedica à pesquisa de materiais condutores voltados, principalmente, para blindagem eletromagnética, Bluma e seus alunos buscam por materiais que podem proteger equipamentos de ondas eletromagnéticas, que poderiam comprometer a transmissão de dados, por exemplo. Há uma aplicação tanto para a área civil quanto para a militar, para navios e aviões passarem despercebidos por radar.

Apesar de atuar nas engenharias, onde ainda há um predomínio masculino, Bluma conta que a questão de gênero para ela nunca foi forte. Originária da área de química, onde há uma presença maior de mulheres, ela defende que a universidade, como um todo, é um “oásis”. “No meio acadêmico existe competência, trabalho, todos são basicamente iguais. Acho que é um oásis num país que discrimina a todos: negro, pobre, mulher. Aqui ainda existe liberdade”, afirma.

Nascida no interior do Rio, na cidade de Barra do Piraí, o único obstáculo que ela lembra ter enfrentado foi a oposição da mãe quando disse que queria fazer Química. Para isso, teria de cursar o então Científico (uma das divisões da época para o que hoje é o Ensino Médio) – onde, praticamente só havia homem. A mãe queria que ela fizesse o Normal, para já poder sair com formação para ser professora. O acordo a que chegaram foi que ela faria os dois: um de manhã e o outro à noite.

“O duro mesmo é que lá só tinha o científico em um colégio estadual noturno. Era longe, tinha de pegar ônibus, ficava num lugar escuro. Mas depois que eu entrei na UFRJ minha mãe era só elogio, só orgulho, contava para todo mundo”, brinca. Bluma fez toda a sua carreira de graduação, mestrado e doutorado no mesmo câmpus do Fundão. O pós-doc foi na Universidade de Liège, na Bélgica.