Humanos geneticamente modificados: soberanos ou oprimidos?

Em Gattaca, há um mercado negro em que pessoas geneticamente modificadas comercializam seus materiais biológicos para burlar sistemas de biometria

E se você pudesse editar seu próprio DNA, você o faria? Removeria do seu código genético o gene responsável por algum distúrbio psicológico que você venha a ter, ou alguma doença herdada de seus pais, ou então o gene que te faz mais propenso à obesidade, ou talvez até o gene que te faz ter olhos castanhos e não azuis? Bem, talvez agora seja um pouco tarde demais, mas, e seus filhos? Se você pudesse escolher não apenas os traços físicos, mas também cognitivos e biológicos do seu filho, você o faria?

O que ocorre é que, em 2018, um cientista chinês modificou o código genético de duas gêmeas para que elas nascessem imunes ao vírus HIV, catapora e cólera. Ainda que o feito possa ser visto como uma conquista tecnológica, foi especialmente a questão ética que fez com que o mundo se chocasse diante da novidade – e por conta disso mesmo o cientista foi condenado pela justiça chinesa. Essa abordagem, popularmente conhecida como “designer baby”, vem sendo especulada pelo menos desde 2015, porém somente agora algum cientista realmente aplicou a teoria em pacientes humanos.

Técnicas como a CRISPR, que está entre as mais conhecidas no quesito edição genética, têm se mostrado inovadoras até mesmo na agricultura e pecuária, mas não se sabe dizer ao certo quais são os efeitos colaterais, inclusive em longo prazo, que uma modificação no DNA humano poderia gerar. Isto é, mesmo que essas crianças chinesas sejam imunes aos vírus designados, será que essa mudança não acarretará em alguma mutação ainda desconhecida ou até mesmo sem cura?

Já em 1982, o filme “Blade Runner” trouxe em pauta a ideia dos humanos artificiais, os replicantes. Diferentemente do livro de Phillip K. Dick, publicado em 1968, no longa dirigido por Ridley Scott não ficamos realmente cientes se os replicantes são robôs ou algum outro tipo de criatura artificial, uma vez que o texto de abertura localiza a história como ocorrendo no início do século 21, quando “a Corporação Tyrell avançou na evolução Robótica por meio da fase NEXUS – um ser virtualmente idêntico a um humano – conhecido como Replicante. Os replicantes NEXUS 6 eram superiores em força e agilidade, e pelo menos iguais em inteligência, comparados aos engenheiros genéticos que os criar.

Enquanto no livro os replicantes são chamados de androides, então confirmando a ideia de que se trata de uma máquina cibernética apesar de algumas menções a tecnologias genéticas e biológicas, é especialmente no longa de Scott e de Dennis Villeneuve — diretor da sequência — que nos certificamos de que os replicantes são, na realidade, seres humanos geneticamente modificados para serem mais fortes e mais ágeis, porém o fato de ganharem consciência ou vontade própria é o que os fazem ser caçados ou “aposentados”.

Essa mesma premissa retorna nos anos 1990, quando o filme “Gattaca” (1997) aborda um futuro no qual a maioria das pessoas tiveram seu código genético editado antes mesmo de nascer, de modo que têm suas capacidades físicas e cognitivas aprimoradas. Aqueles que nasceram sem passar por esse procedimento são chamados de “Criança de Deus” (God child) e, por conta de seus “defeitos” não corrigidos por meio da edição genética, são renegados a uma casta inferior, portanto subjugados a um determinismo genético.

A diferença entre essas duas ficções no que diz respeito à abordagem que fazem do humano geneticamente modificado é que, enquanto em “Gattaca” os humanos geneticamente modificados são considerados a elite, em “Blade Runner” os replicantes são tratados como objetos sem autonomia, subservientes aos humanos naturais – agir por conta própria e demonstrar sentimentos é um comportamento desviante e passível de punição.

Enquanto os longas de Scott e Villeneuve trazem os replicantes menos como uma possibilidade de tecnologia futura e mais como uma metáfora sobre nossa relação com o outro (um recurso bastante comum na ficção científica que aborda robôs e alienígenas, por exemplo), “Gattaca” usa a mesma possibilidade tecnológica para extrapolar questões de preconceito e exclusão social por meio de uma lógica genética mais literal do que muitas vezes percebemos, afinal, o racismo também tem seu aspecto genético que, no entanto, possui pouca importância diante da subjetividade do que é visível, no caso, a cor da pele. Tão subjetiva é essa característica que, aliás, não são poucos os casos de membros de grupos separatistas e racistas que tiveram uma surpresa ao descobrir que possuem uma porcentagem de ancestralidade africana em seu sangue – como foi o famoso caso do supremacista branco Craig Cobb, que descobriu ter 14% de herança genética subsaariana.

Nesse sentido, quando pensamos em edição genética, pensamos menos na criação de uma geração de humanos acessórios como os replicantes do que o uso deliberado da técnica para a geração de uma nova onda de eugenia. O termo, aliás, foi criado em 1883 por Francis Galton e tinha como significado a ideia de um indivíduo “bem nascido”. Nesse sentido, o conceito foi se desdobrando como um “estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente.”

Para além da conhecida absorção do preceito ao longo do regime nazista na Alemanha, também no Brasil houve reflexos desse pensamento no início do século passado. O chamado Movimento eugênico brasileiro chegou até mesmo a ter uma publicação, o Boletim de Eugenia, no qual as elites brasileiras defendiam o conceito como um símbolo de modernidade, um recurso capaz de fazer o país progredir a partir de uma pauta que incluía educação higiênica e sanitária, educação sexual, seleção de imigrantes, controle matrimonial e reprodução humana visando à questão da miscigenação, do branqueamento e, por consequência, da suposta regeneração racial. Dentre alguns nomes célebres que apoiaram o movimento estava o escritor Monteiro Lobato e Edgard Roquette-Pinto, considerado pai da radiodifusão no Brasil. Segundo a pesquisadora Nancy Leys Stepan, autora do livro “A Hora da Eugenia: raça, gênero e nação na América Latina”, os movimentos eugenistas latino-americanos tinham como premissa a ideia de que a miscigenação é o principal motivo pelo qual não conseguimos nos firmar como nações, enquanto que outros antropólogos como Néstor García Canclini têm sua obra especialmente dedicada à questão da complexidade dos povos latino-americanos justamente por conta da miscigenação.

Esse é um tema que aparece no episódio “Designer DNA” da série informativa “Explained”, disponível no Netflix. Lá são abordados os temores de que tal tecnologia não seja apenas usada para curar doenças hoje incuráveis, mas que também acabemos usando-as de forma acessória e racista ao reproduzir preconceitos e estereótipos que possuímos hoje. Nesse sentido, para além da explicação técnica, um dos pontos mais altos do episódio é quando somos expostos ao depoimento de Rebecca Cokley, uma ativista americana dos direitos das pessoas com deficiência física. Ela, como uma mulher grávida e anã, declara que, ainda que tivesse a possibilidade de editar seu filho, ela não o faria. Não é como se ter nanismo fosse um fator limitante para sua existência e no seu dia a dia: o pior de tudo, para ela, é o preconceito. Por isso, Cokley assume que preferiria manter esse traço como algo identitário, já que toda sua família também possui essa característica genética.

O documentário, aliás, também fala sobre pessoas que nasceram com autismo e Síndrome de Down, por exemplo, como uma forma de fazer a provocação: até que ponto usaremos a tecnologia de edição genética para curar doenças ou então acabar eliminando a diversidade entre os indivíduos? Até que ponto vemos discrepâncias genéticas como erros e não como diversidade? O que alguns cientistas defendem é que, na realidade, as técnicas de edição genética devem ser melhor usadas não para eliminar a existência de pessoas com alguma disfunção, como é o caso do autismo, mas sim para ajudá-las. Segundo o pesquisador Simon Baron-Cohen, “pessoas autistas têm uma combinação especial de forças e desafios.
Essas forças incluem excelente atenção aos detalhes, memória detalhista, reconhecimento de padrões e honestidade. Nosso objetivo, como clínicos e também como cientistas, é fazer o mundo um lugar mais confortável para todas as pessoas, incluindo as autistas, viverem.”

De um ponto de vista mais superficial, porém, outra questão que surge é a possibilidade e editar aspectos estéticos como a cor dos olhos, da pele e dos cabelos. Vivemos em um momento no qual lutamos pela desconstrução dos estereótipos de beleza que, por consequência, acabam trazendo consigo também uma perspectiva racista. O medo, nesse sentido, reside não tanto na capacidade de os pais poderem escolher a cor da pele e dos cabelos dos filhos, mas sim a reprodução desses preconceitos e estereótipos. E é nesse sentido que alguns chegam a fazer a pergunta se edição genética não poderia se tornar, no fim das contas, um sinônimo de racismo e de eugenia.

Em artigo para o Huffpost, Julia Brucculieri discute a homogeneização do ideal de beleza no Instagram e como a própria criatividade vem sendo limada a favor dos likes. Se hoje já praticamos essa estandardização através de soluções cosméticas, como agiríamos diante da possibilidade de edição genética?

Afinal, como aponta o biólogo molecular David King em artigo para o The Guardian, hoje já nos utilizamos de técnicas de “aprimoramento” como a cirurgia plástica para nos conformar às expectativas sexistas, racistas e idadistas. No entanto, “mais sutilmente, mas igualmente profundo, assim que começarmos a editar nossos filhos para ser do jeito que quisermos, estaremos apagando a diferença fundamentalmente ética entre commodities e seres humanos. Novamente, isso não é especulação: já há um mercado internacional de barrigas de aluguel nos quais os bebês são comprados e vendidos. O trabalho dos pais é amar as crianças incondicionalmente, independentemente de quão espertas/atléticas/superficialmente bonitas elas são; não transferir nossos impulsos e preconceitos em seus genes.”

Desse modo, quando pensamos em um futuro povoado por pessoas geneticamente modificadas, parece-nos mais plausível imaginar um mundo no qual essas técnicas levarão à obtenção de um status superior aos demais em vez do surgimento de uma geração de indivíduos especificamente confeccionados para serem melhores funcionários. Mas apesar de esse cenário parecer distópico demais justamente por se utilizar da edição genética como metodologia, hoje já observamos outros meios que possuem a mesma finalidade: desde o consumo de cafeína até outras substâncias que são capazes de “hackear” nossa produtividade e, portanto, tornarmos mais eficientes e melhores trabalhadores.

Um passo adiante seriam os prostéticos e os implantáveis, que também podem ter a finalidade de aprimorar nossas capacidades físicas e cognitivas, o que nos leva à provocação: no futuro, tornar-se pós-humano não será mais uma opção? Seja qual for o meio, o que se vislumbra é a finalidade de ser melhores, mais rápidos e mais fortes – afinal, nosso trabalho nunca acaba. [Lidia Zuin]

Primeira mulher astronauta nos EUA, Jerrie Cobb morre aos 88 anos

Símbolo na luta por igualdade de gênero, ela nunca chegou a ir ao espaço. Em vez de mandá-la em missão espacial, a Nasa a transformou em consultora

Jerrie Cobb viveu frustrada por não ter podido participar de missões: ‘Meu país, minha cultura, não estavam preparados para permitir que uma mulher fosse enviada para o espaço’, escreveu ela em sua autobriografia Foto: Ilustração de Luiz Lopes sobre foto de divulgação/Nasa

A primeira mulher dos EUA a passar nos testes físicos e se tornar astronauta morreu aos 88 anos, na Flórida, no dia 18 de março. A morte de Geraldyn Cobb — conhecida como Jerrie Cobb — foi anunciada pelo jornalista Miles O’Brien, porta-voz da família.

Jerrie entrou para a Nasa, a agência espacial americana, em 1961, quando tinha 30 anos de idade. No entanto, ela nunca chegou a ser enviada ao espaço. Em vez de mandá-la em missão, a Nasa a transformou em consultora.

Ela fez sessões de fotos dentro de uma cápsula espacial, usadas como propaganda pelo governo, mas nunca integrou uma missão real Foto: Divulgação/Nasa

O mais perto que ela chegou das estrelas foram as sessões de fotos dentro de uma cápsula espacial, usadas como propaganda pelo governo americano.

Quando a soviética Valentina Tereshkova enfim tornou-se a primeira mulher no espaço, em 1963, Jerrie não segurou a irritação.

— Acho que sou a consultora menos consultada de uma agência do governo — disse a repórteres na ocasião, com menos de um ano de emprego.

Uma semana depois, ela foi desligada do programa espacial.

Quando Neil Armstrong deu os primeiros passos na Lua, em 1969, Jerrie tinha capacitação suficiente para ser parte do time. Mas ela estava na floresta amazônica pilotando aviões com ajuda humanitária — trabalho que lhe rendeu homenagens dos governos de Brasil, Colômbia, Peru e Equador, além de uma indicação ao Nobel da Paz, em 1981.

— Eu daria minha vida para poder voar no espaço — afirmou Jerrie em 1998.

Em 1997, em sua autobiografia “Jerrie Cobb, solo pilot”, ela fez uma reflexão sobre os seus anos na Nasa:

“Meu país, minha cultura, não estavam preparados para permitir que uma mulher fosse enviada para o espaço”.

Ela recebeu homenagens dos governos de Brasil, Colômbia, Peru e Equador, além de uma indicação ao Nobel da Paz, em 1981, pelo seu trabalho em ajuda humanitária Foto: Divulgação/Nasa

Conheça Katie Bouman, a cientista responsável pela imagem do buraco negro

Dados para gerar imagem foram obtidos a partir de oito conjuntos de radiotelescópios
Gustavo Frank

Katie Bouman – Reprodução/Twitter/MIT

O assunto mais popular nas rodas de conversa nesta quarta-feira (10) é a imagem real do buraco negro no universo, uma descoberta feita pelo telescópio Event Horizon. 

Entre os 200 pesquisadores responsáveis pela descoberta, um nome chama a atenção: o de Katie Bouman. A cientista, de 29 anos, foi quem liderou a criação de um algoritmo que permitiu aos demais estudiosos capturarem a imagem do buraco negro pela primeira vez. No Facebook, ela compartilhou a felicidade com a descoberta. 

“Observando, incrédula, a primeira imagem que eu já fiz de um buraco negro enquanto estava em processo de reconstrução”.

Watching in disbelief as the first image I ever made of a black hole was in the process of being reconstructed.

Para conseguir armazenar a imagem, que reservaram um total de 5 petabytes de informação —que equivalem a 5 milênios de músicas MP3 tocando ou selfies tiradas por 40 mil pessoas ao longo de toda a vida—, foi preciso uma “pilha de discos rígidos de dados de imagem”, manuseada por Katie, que os abraçou para essa foto, no mínimo, icônica:

O MIT, uma das instituições de tecnologia mais respeitas do mundo, comparou a criação de Katie à pesquisa que permitiu aos astronautas pousarem na lua, colocando sua imagem ao lado de Margaret Hamilton, que recebeu o crédito por ter escrito o código de software crucial que permitiu à Nasa tornar possível uma missão à Lua. 

Os estudos feitos pela jovem começaram em 2016, quando começou a liderar o desenvolvimento do algoritmo enquanto cursava engenharia elétrica e ciência da computação. Em 2017, ela conquistou o doutorado, último e mais alto título acadêmico recebido por um indivíduo, na área. 

Em entrevista ao MIT News, Katie explicou que tentar tirar uma foto de um buraco negro é comparável a “fotografar uma laranja na lua, mas com um radiotelescópio. Imaginar algo tão pequeno significa que precisaríamos de um telescópio com 10 mil quilômetros de diâmetro, o que não é prático, porque o diâmetro da Terra não chega a 13 mil quilômetros”.

Para contornar este desafio, o algoritmo de Bouman não depende de um único telescópio. Em vez disso, reúne dados de radiotelescópios em todo o mundo.

Atualmente, Katie Bouman está lecionando na Universidade de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena. Seu foco de pesquisa é “projetar sistemas que integram fortemente algoritmo e design de sensor, tornando possível observar fenômenos anteriormente difíceis ou impossíveis de medir com abordagens tradicionais”. UNIVERSA

Descoberta sobre células-tronco pode levar à cura do diabetes

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco deram “passo crítico” para encontrar uma solução para a doença
Por Lucas Agrela

(Getty images/Getty Images)

São Paulo – Pesquisadores conseguiram pela primeira vez criar células humanas que produzem insulina utilizando células-tronco. A novidade científica é um avanço em direção à criação de uma cura para o diabetes tipo 1.

“Os tratamentos terapêuticos atuais tratam apenas os sintomas da doença com injeções de insulina”, segundo Gopika Nair, autora do estudo, realizado pela Universidade da Califórnia em São Francisco. “Nosso trabalho aponta para diversas avenidas empolgantes para finalmente encontramos uma cura para a doença.” O estudo completo foi publicado periódico Nature Cell Biology.

Com a nova técnica, os pesquisadores conseguiram reproduzir em laboratório células beta pancreáticas que são destruídas pelo diabetes tipo 1. Elas são responsáveis pela produção de insulina.

Para driblar a dificuldade encontrada por outros pesquisadores para criar as células beta a partir das células-tronco, o time de cientistas da universidade utilizou um modelo baseado em como as células são organizadas no pâncreas humano.

“Agora, podemos gerar células que produzem insulina que são e agem de forma muito similar às células-beta do pâncreas que temos em nossos corpos. Esse é um passo crítico em direção à criação de células que podem ser transplantadas para pacientes com diabetes”, afirmou, em comunicado, Matthias Hebrok, PhD, professor emérito em pesquisa sobre diabetes da Hurlbut-Johnson, na UCSF, e diretor do Centro de Diabetes da UCSF.

Apesar do avanço científico significativo, ainda são necessários testes em humanos e uma série de certificações de órgãos de saúde para que a solução seja efetivamente aplicada em pacientes de diabetes. A equipe de pesquisadores considera alterar células com a técnica de edição genética conhecida como CRISPR para implantar as células de laboratório sem precisar ministrar remédios imunossupressores.

Esquizofrenia pode estar ligada à falta de vitamina D na gestação

A falta do nutriente durante o desenvolvimento fetal pode ser responsável por até 8% dos casos da doença

Esquizofrenia: o distúrbio é caracterizado pela perda de contato com a realidade, alucinações, delírios, pensamentos desordenados e índice reduzido de emoções (Thinkstock/VEJA/VEJA)

Pesquisadores dinamarqueses descobriram uma relação entre a deficiência de vitamina D durante a gestação e o desenvolvimento de esquizofrenia na vida adulta. A equipe fez essa ligação depois de observar que o risco de esquizofrenia aumentava para indivíduos que nasciam em estações mais frias (inverno e primavera), épocas em que há menos luz solar – principal responsável pela produção de vitamina D no corpo. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, indica que a falta do nutriente durante o desenvolvimento fetal pode ser responsável por até 8% dos casos de esquizofrenia.

“O novo estudo mostra que em uma amostra muito grande de bebês dinamarqueses, aqueles com deficiência de vitamina D ao nascer têm uma probabilidade 44% maior de apresentar esquizofrenia quando adultos”, disse John McGrath, principal autor da pesquisa, em nota. Embora a maioria dos pacientes não apresente sinais do transtorno até os 15 anos de idade, neurologistas já haviam considerado a possibilidade que a doença pudesse começar no útero. Outras evidências apontam para fatores genéticos, o que indica a existência de mais de um elemento capaz de provocar o distúrbio. 

De acordo com o especialista, o feto em desenvolvimento é totalmente dependente dos estoques de vitamina D da mãe; portanto, é possível que assegurar níveis adequados do nutriente nas gestantes possa resultar na prevenção de alguns casos de esquizofrenia. A vitamina D é fundamental para o processo de absorção de cálcio pelos ossos, e uma deficiência pode levar a distúrbios como osteoporose e raquitismo. No entanto, seus efeitos em outras funções do organismo ainda precisam ser melhor exploradas.

O estudo

Os pesquisadores chegaram a este resultado depois analisar os dados de 2.602 indivíduos nascidos entre 1981 e 2001 que foram diagnosticados com esquizofrenia quando jovens. Os níveis de vitamina D foram verificadas através de amostras de sangue coletadas quando esses participantes eram recém nascidos (essas informações estavam disponíveis no Registro Nacional Dinamarquês). Para efeitos de comparação, a equipe também investigou as concentrações do nutriente em amostras adicionais de pessoas que não tinham o distúrbio.

O resultado mostrou que aqueles nascidos com deficiência de vitamina D tinham um risco 44% maior de desenvolver a doença. Além disso, essa deficiência poderia responder por cerca de 8% de todos os diagnósticos de esquizofrenia na Dinamarca. “A esquizofrenia é um grupo de desordens cerebrais mal compreendidas caracterizadas por sintomas como alucinações, comprometimento cognitivo e delírios. O santo graal para o distúrbio seria evitar que os indivíduos desenvolvessem a doença”, comentou McGrath.

Para ele, algumas intervenções de saúde pública simples, baratas e seguras podem prevenir distúrbios cerebrais, como no caso do uso de folato para diminuir o risco de desenvolvimento de espinha bífida (defeito congênito no qual a medula espinhal do bebê não de desenvolve de maneira adequada). Este tipo de intervenção também poderia ser a solução para a esquizofrenia através da utilização da vitamina D. 

Aliás, dados científicos divulgados anteriormente podem até mesmo reforçar esta hipótese. Isso porque alguns estudos identificaram uma ligação genética entre a esquizofrenia e o autismo, destacando também a relação entre o autismo e a deficiência de vitamina D no desenvolvimento fetal. Portanto, é possível que, pelo menos em alguns casos, a teoria dos pesquisadores dinamarqueses possa se sustentar.

Próximos passos

Apesar dos achados importantes, os cientistas ressaltam que a descoberta provavelmente não explica completamente o surgimento da esquizofrenia nas pessoas já que em regiões com níveis relativamente altos de luz solar também existem casos da doença. Além disso, o problema pode aparecer em indivíduos que apresentam níveis normais de vitamina D ao nascer.

Segundo a equipe, o próximo passo é realizar ensaios clínicos randomizados avaliando se a administração ou não de suplementos de vitamina D em mulheres grávidas poderia efetivamente proteger seus filhos de distúrbios do desenvolvimento neurológico, como autismo e esquizofrenia. 

Esquizofrenia

De acordo com o National Institute of Mental Health dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), a esquizofrenia – que afeta cerca de 1% da população mundial – é uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Entre os sintomas mais comuns da doença estão alucinações, delírios e problemas cognitivos. No Brasil, esse transtorno afeta cerca de 2 milhões de pessoas. 

Informações da revista Saúde apontam que a esquizofrenia pode começar com uma simples apatia que surge entre o final da adolescência e o início da vida adulta (18 a 30 anos). Segundo especialistas, alguns sintomas devem colocar as pessoas em estado de atenção: dificuldade no aprendizado desde a infância, apatia, pouca vontade de trabalhar, estudar ou participar de interações sociais; falta de reação a situações que demandam emoções (felicidade e tristeza, por exemplo), surgimento de vozes na cabeça e outras alterações nos órgãos sensoriais; e mania de perseguição injustificada.

Em teste macabro, pessoas escolhem quem carro autônomo deve matar

Brasileiros preferem poupar mulheres, crianças, animais e pessoas em forma

Moral Machine

SMilhões de pessoas, espalhadas por mais de 200 países e territórios mundo afora, já participaram de um experimento virtual macabro, que usa desenhos engraçadinhos para lhes perguntar: num acidente de trânsito, se tiver de escolher, quem você prefere que morra?

Para brasileiros, mulheres, crianças, animais e pessoas em forma são os que mais merecem ser salvos.

De um lado, os cenários hipotéticos formulados pelos criadores do experimento “Moral Machine” (Máquina Moral) servem a um propósito prático. A ideia é ajudar a calibrar os “sensores de certo e errado” dos carros autônomos, que são a aposta de empresas de tecnologia como Uber e Google e de montadoras tradicionais, como a Ford, para o tráfego do futuro.

Afinal, se um dia as ruas das cidades ficarem cheias de veículos sem motoristas humanos, as máquinas é que terão de fazer escolhas quando houver risco sério de acidente –como decidir sacrificar a vida do motorista para salvar um grupo de crianças em idade pré-escolar que estão atravessando a rua, por exemplo.

Por outro lado, os dilemas propostos pela Máquina Moral (que pode ser acessada, inclusive em português, no endereço moralmachine.mit.edu) abrem uma janela indiscreta para as percepções de gente do planeta todo sobre o valor dos diferentes tipos de vida humana (e animal; bichos de estimação também são incluídos nos cenários virtuais).

Sugestões do público para a “consciência” dos computadores

Pesquisa revelou preferência por salvar maior número de pessoas e crianças

Preferência de acordo com os atributos dos personagens

Isso significa que os 40 milhões de respostas computadas até agora podem ajudar a investigar as diferenças e semelhanças entre as noções de moralidade de gente no Brasil, no Cazaquistão ou na Islândia. Trata-se de um tema muito importante para a psicologia social: até que ponto existe um conjunto universal de ideias sobre o certo e o errado?

O Brasil está no conjunto dito “Sulino”, junto com os demais países latino-americanos e, curiosamente, com a França e países de colonização francesa. Esses países são os que exibem as preferências mais altas por poupar mulheres, crianças e animais (ainda que a preferência por humanos prevaleça neles). E, o que é mais estranho, quando a escolha é entre salvar uma pessoa em forma e alguém obeso, os países “sulinos” são os que optam de modo mais claro por quem está em forma.

Os resultados do experimento, coordenado por Edmond Awad, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos), foram publicados em artigo recente na revista científica Nature.

Quanto ao tema mais filosófico do parágrafo anterior, a resposta curta é: sim, um acordo mínimo sobre quem deve ser salvo preferencialmente existe. Ao mesmo tempo, as variações regionais são consideráveis e intrigantes.

Alguns dos principais resultados estão resumidos no infográfico desta página. Em média, no mundo todo, as pessoas preferem atropelar animais a passar por cima de seres humanos, tendem a salvar o máximo possível de vidas (quando a escolha fica entre atropelar duas ou três pessoas, por exemplo) e a poupar preferencialmente crianças.

Até aí, as escolhas parecem óbvias e naturais, assim como a preferência, estatisticamente um pouco menos comum, por poupar quem respeita a lei (pedestres que cruzam na faixa destinada a eles, digamos). A coisa fica um pouco mais sinistra, porém, quando se considera que a preferência pelos “cidadãos de bem” empata com a dada aos de status social elevado (moradores de rua são considerados mais descartáveis, em média).

Além desses temas comuns, a variabilidade quanto às escolhas dos “jogadores” do experimento ajudou os pesquisadores a criar uma espécie de mapa-múndi da moralidade, no qual é possível dividir quase toda a Terra em certos agrupamentos genéricos, que compartilham preferências sobre certos aspectos do certo e do errado.

Esses grupos, montados pelos pesquisadores a partir dos dados de 130 países que tiveram ao menos uma centena de participantes no estudo, são três. O conjunto denominado “Ocidental” engloba a maioria dos países europeus, bem como EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Com culturas que são, em média, mais individualistas, são o que dão mais ênfase a salvar o maior número possível de pessoas, e também privilegiam as mulheres.

Já o conjunto “Oriental”, no qual entram tanto o Japão quanto muitos países islâmicos, não segue tão de perto a preferência geral por poupar crianças (quando comparadas a idosos) e dá mais peso que a média à preferência por pessoas de status elevado. Ambos os dados se encaixam na classificação mais geral dessas culturas como coletivistas, nas quais a tradição, a ordem social e a hierarquia, representadas pela idade avançada e pelo status, tendem a ser mais valorizadas.

Para a equipe de pesquisadores, a ideia não é transformar os dados em algo prescritivo, ou de direcionar a programação dos carros autônomos conforme as preferências de cada mercado (automóveis brasileiros salvando mais crianças e chineses salvando mais idosos, por exemplo). Em vez disso, a intenção é entender a complexidade dos desafios por trás da criação de uma ética da IA (inteligência artificial).

“Nos últimos dois ou três anos, mais pessoas começaram a falar sobre a ética da IA”, declarou Awad à revista MIT Technology Review. “Mais pessoas começaram a se tornar cônscias de que a IA pode ter diferentes consequências éticas para grupos diferentes de pessoas. E isso é algo promissor.” [Reinaldo José Lopes]

Este projeto ajuda a reduzir a desigualdade de gênero na ciência

Página reúne o contato de fontes relacionadas à ciência no mundo todo para entrevistas e palestras
Por Ariane Alves

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Cena do filme “Estrelas Além do Tempo” (2016), que conta a história das cientistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson (Facebook/Hidden Figures/Reprodução)


São Paulo – A desigualdade de gênero é um problema em muitos campos de trabalho. Na ciência, o quadro é igualmente grave. Só no Brasil, apenas 25% das bolsas de pesquisa da categoria mais alta vão para as mulheressegundo levantamento da organização Gênero e Número feito em 2017. Atenta à questão, uma iniciativa pretende colocar as cientistas espalhadas pelo mundo literalmente no mapa, apresentando de maneira visual a distribuição das profissionais pelo mundo.

Pense na última vez em que você viu um painel ou foi a um evento comandado apenas por homens. Provavelmente, não faz muito tempo. No Facebook, a página “Aqui só fala homem branco” ironiza a situação, divulgando chamadas de eventos ou fotos de palcos totalmente masculinos e excludentes às mulheres e às pessoas negras. A ausência de diversidade chama cada vez mais atenção em um momento permeado por muitas iniciativas que tentam alterar o cenário.

Chamada “500 Women Scientists” (500 Mulheres Cientistas, em português), a organização por trás do projeto que mapeia as mulheres é uma das que pretende reduzir a desigualdade de gênero na ciência, que se deve a muitos fatores, sendo um deles a sub-representação feminina nos espaços de discussão. A principal ferramenta do site é a página “Request a Woman Scientist” (“Solicitar Uma Cientista”, em português), que apresenta um mapa interativo para que jornalistas, organizadores de conferências e outros obtenham rapidamente detalhes de contato de mulheres cientistas em vários campos.

A ferramenta permite filtrar por área do conhecimento, grau de estudo da profissional, país e região, além da busca por palavras-chave. O resultado exibe uma lista com nome e e-mail das cientistas.

Cientistas brasileiras ao alcance

No Brasil, a ONG feminista Think Olga mantém desde 2014 o projeto “Entreviste Uma Mulher” um repositório de contatos de mulheres da academia, que estão disponíveis para dar entrevistas ou participar de eventos sobre seu campo de estudo. A planilha conta com mais de 150 nomes e o processo de cadastro de uma nova fonte é bastante simples.