Vício em smartphone não existe, diz Samuel Veissière, pesquisador da Universidade McGill, no Canadá

De acordo com novo diagnóstico, é a interação social que causa dependência. E nos smartphones está disponível de forma ilimitada

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Vício em smartphone (IStock/Getty Images)

Há um novo veredito no mundo da tecnologia. De acordo com Samuel Veissière, pesquisador da Universidade McGill, no Canadá, e especialista em antropologia cognitiva, as telas não criam um vício em tecnologia, mas sim em contato social.

Para ele, estar conectado com outros seres humanos é um desejo evolutivo. Foi necessário que essa característica prevalecesse para que a espécie continuasse a sobreviver.

Assim, ele revisou dezenas de estudos a respeito do vício em smartphones e concluiu que a ‘nomofobia’ — termo que descreve a dependência destes aparelhos — é criada através dos aspectos sociais dos aparelhos. Logo, os celulares funcionam como uma adaptação das necessidades primitivas e a tecnologia é apenas o aspecto secundário. “Gostamos de nos comparar, de saber dos outros, de competir”, disse. “O problema dos smartphones é que a tecnologia dá acesso excessivo a algo que desejamos muito”, completa.

Em seu artigo publicado no último dia 20 na revista científica Frontiers in Psychology, ele afirma que a disponibilidade constante é um problema geral da vida humana, não somente em redes sociais. “No mundo pós-industrial onde os alimentos são abundantes e estão sempre disponíveis, nossos desejos por gordura e açúcar, que surgiram durante a nossa longa evolução, podem ficar facilmente sobrecarregados e levar a obesidade, diabetes e doenças cardíacas”, explica.  “As necessidades e recompensas das relações sociais podem ser igualmente comparadas em um ambiente onde precisamos construir um perfil virtual para continuar interagindo”, afirmou. E o vício, claro, é o resultado.

Mas há controvérsias. De acordo co um estudo realizado na Universidade de Seul, na Coreia do Sul, divulgado em dezembro de 2017, a dependência de smartphones pode ser, sim, considerada um vício. Passar horas em frente a tela produz alterações químicas no cérebro, com reações e síndrome de abstinência semelhantes ao que acontece com dependentes de drogas. E não somente isso. Alista de efeitos negativos dos celulares só aumenta: metade dos adolescentes americanos são considerados adictos  e o uso do Facebook já se mostrou a causa de transtornos de ansiedade em alguns casos.

Por isso, até mesmo investidores da Apple se mostraram preocupados e pediram para a empresa fazer algo a respeito. [André Lopes]

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Bactérias ajudam recém-nascidos

IW_06_BABIESMuitos estudos sugerem que partos por cesariana e amamentação breve podem alterar a população de microrganismos nos intestinos do bebê e explicar o aumento descontrolado de preocupantes problemas de saúde em crianças e adultos, como asma, alergias, doença celíaca, diabetes tipo 1 e obesidade.

Isso poderia levar a uma redução do número de cesáreas programadas e ao aumento do número de mães que optariam por alimentar os filhos exclusivamente com o próprio leite durante seis meses, a fim de ampliar a quantidade de tipos e de bactérias que habitam os intestinos dos bebês.

Estes organismos realizam funções importantes, como digerir nutrientes não utilizados, produzir vitaminas, estimular o desenvolvimento normal do sistema imunológico, combater as bactérias nocivas e promover a maturação dos intestinos.

Os bebês estão expostos a alguns organismos também no útero, mas os organismos encontrados no nascimento e nos primeiros meses de vida influenciam consideravelmente os que passam a residir permanentemente em seus intestinos.

Um estudo dinamarquês com dois milhões de crianças nascidas entre 1977 e 2012 mostrou que as nascidas por meio de cesárea estavam significativamente mais expostas a problemas como asma, distúrbios sistêmicos do tecido conectivo, artrite juvenil, inflamação dos intestinos, deficiências do sistema imunológico e leucemia.

As crianças nascidas pelo canal da vagina adquirem em primeiro lugar os micróbios que habitam a vagina e os intestinos maternos. Entretanto, as que nascem por meio de cirurgia antes da ruptura das membranas e do início do trabalho de parto adquirem micróbios principalmente da pele da mãe, do pessoal e do ambiente do berçário.

Quando é realizada uma cesárea de emergência, depois da ruptura das membranas e do início do trabalho de parto, o bebê adquire menos micróbios da mãe do que durante um parto normal, mas muitos mais do que em uma cesárea programada.

Os cientistas descobriram que essas diferenças na microbiota intestinal persistem nas crianças até pelo menos os 7 anos de idade, segundo um estudo realizado na Finlândia e publicado em 2004.

Para combater as consequências de um parto cirúrgico sobre o microbioma do recém-nascido, cresce o número de gestantes que solicitam que as equipes médicas transfiram os micróbios da vagina materna para os seus bebês logo depois do nascimento. Algumas inclusive começaram a fazer as trocas de micróbios por conta própria.

Entretanto, uma comissão de especialistas do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas alertou recentemente que a prática, conhecida como semeadura vaginal, é prematura e possivelmente perigosa.

A comissão citou um risco potencial na transferência de organismos patogênicos, da mulher para o recém-nascido. A dra. Suchitra Hourigan, gastroenterologista pediátrica e diretora do Instituto de Medicina Translacional Inova de Falls Church, Virginia, disse que, no momento, a amamentação é a melhor e mais segura maneira de expor o bebê nascido por cesárea às bactérias de sua mãe. O leite materno contém muitas das mesmas bactérias benéficas encontradas na vagina.

Alguns estudos mostraram que “até mesmo pequenas quantidades do suplemento de leite da fórmula” podem modificar a microbiota na amamentação materna. [Jane E. Brody]

Há 10 mil anos, britânicos tinham pele escura e olhos azuis, diz estudo

A partir de uma análise de DNA, cientistas do Reino Unido reconstruíram a aparência do mais antigo esqueleto de um humano moderno encontrado na Grã-Bretanha, o Homem de Cheddar; ele é ancestral de 10% da atual população branca

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Modelo do Homem de Cheddar, que viveu há cerca de 10 mil anos, quando os primeiros humanos modernos chegaram à Grã-Bretanha; reconstrução foi feita a partir da análise do DNA. Foto: Tom Barnes / Channel 4 / Museum of Natural History

Os primeiros habitantes da Grã-Bretanha, que viveram há cerca de 10 mil anos, provavelmente tinham a pele negra de acordo com uma análise do DNA do mais antigo esqueleto humano encontrado na ilha. De acordo com os cientistas, 10% dos habitantes brancos da Grã-Bretanha atual, entre aqueles que têm ancestrais britânicos, descendem dessa primeira população.

O fóssil no qual os estudos se basearam, conhecido como Homem de Cheddar, é um esqueleto do período Mesolítico – há cerca de 10 mil anos -, descoberto em 1903 na caverna Gough, na Garganta de Cheddar, em Somerset. A pesquisa foi realizada por cientistas do Museu de História Natural do Reino Unido.

Inicialmente, acreditava-se que o Homem de Cheddar tinha pele clara e cabelo liso, mas a reconstrução de sua aparência com base na análise do DNA sugere fortemente que ele tinha olhos azuis, pele “muito escura ou negra” e cabelos escuros e crespos.

Além de ser o mais antigo fóssil da espécie humana – o Homo sapiens – já encontrado em território britânico, o Homem de Cheddar é também o esqueleto mais completo dessa época. De acordo com os cientistas, as populações que viviam na Europa adquiriram um tom de pele cada vez mais claro ao longo do tempo, porque a pele branca absorve mais luz solar, produzindo mais vitamina D.

A nova descoberta sugere que a pele clara surgiu mais tarde, após o surgimento da agricultura, provavelmente porque ao mudar a dieta as populações europeias começaram a obter menos vitamina D a partir de fontes como peixes.

“Até recentemente, sempre se supunha que os humanos se adaptaram rapidamente para ter uma pele mais clara depois de sua entrada na Europa há 45 mil anos. A pele mais clara é mais eficiente para absorver a luz ultra-violeta e isso ajuda os humanos a evitar a deficiência de vitamina D em climas com menos luz solar”, explicou um dos autores do estudo, Tom Booth, do Museu de História Natural do Reino Unido.

O Homem de Cheddar, porém, tem marcadores genéticos de pigmentação da pele normalmente associados ao biotipo das populações sub-saharianas, segundo o cientista. A descoberta, de acordo com ele, é coerente com várias outras descobertas relacionadas a fósseis humanos do Mesolítico em toda a Europa.

“Ele é apenas um indivíduo, mas também é um indicativo da população europeia naquela época. Eles tinham pele escura e a maior parte deles tinha olhos bem claros – azuis ou verdes – e cabelos castanhos escuros. O Homem de Cheddar subverte as expectativas sobre os tipos de traços genéticos que ocorrem juntos”, afirmou Booth.

De acordo com o cientista, o estudo indica que os olhos azuis se tornaram comuns na Europa muito antes da pele clara e do cabelo loiro – características que só começaram a se generalizar depois do advento da agricultura.

“Ele (o Homem de Cheddar) nos lembra que não podemos fazer suposições sobre a aparência das pessoas do passado com base em como elas se parecem hoje – e que as associações entre características físicas às quais nos acostumamos não são algo fixo”, declarou Booth.

O “primeiro inglês”. O Homem de Cheddar era um caçador-coletor – isto é, viveu antes do surgimento da agricultura – com cerca de 1,66 metro de estatura e que morreu com pouco mais de 20 anos.

Quando seu esqueleto foi encontrado, em 1903, foi divulgado que se tratava do “primeiro inglês”, com uma estimativa de idade – exagerada – de 40 mil a 80 mil anos. A datação com radiocarbono feita na década de 1970, porém, mostrou que o esqueleto tinha cerca de 10 mil anos.

Segundo o cientista, o esqueleto apresenta uma pélvis com formato estreito, normalmente encontrado nas mulheres. Ele tinha um buraco na testa, mas não ficou claro se ele era decorrente de um ferimento, de uma infecção, ou de um dano no momento da escavação.

Como todos os humanos da Europa em sua época, o Homem de Cheddar era intolerante à lactose e, depois de adulto, era incapaz de digerir o leite. Quando ele viveu, o canal da Mancha ainda não existia e, portanto, a Grã-Bretanha ainda não era uma ilha – estava ligada ao continente europeu. A paisagem, naquela época, se tornava densamente coberta por florestas.

“O Homem de Cheddar pertenceu a um grupo de pessoas que era formado principalmente por caçadores-coletores. Eles caçavam, coletavam sementes e castanhas e tinham vidas bastante complexas”, disse Booth.

Além das sementes e castanhas, a dieta do Homem de Cheddar teria incluído o veados-vermelhos (Cervus elaphus), auroques – um bovino pré-histórico extinto – e peixes de água doce.

Embora o esqueleto não tenha sido encontrado com nenhum animal ou vestígio cultural, outros sítios arqueológicos do Mesolítico oferecem pistas sobre sua dieta e sua vida cultura, de acordo com Booth. Um exemplo é o sítio de Star Carr, em North Yorkshire, onde foi encontrado um assentamento mil anos mais antigo que o Homem de Cheddar.

Em Star Carr, os arqueólogos não descobriram um esqueleto tão completo como do Homem de Cheddar, mas encontraram os topos dos crânios de veados-vermelhos trabalhados para serem usados como uma espécie de chapéu, pedras semipreciosas – incluindo âmbar, hematita e pirita – e um pingente de xisto gravado, que é considerada a mais antiga manifestação artística do Mesolítico na Grã-Bretanha.

A maior parte dos fósseis humanos do Mesolítico foi descoberta em cavernas e há uma forte tradição de enterros em cavernas na região.

“A pouco mais de um quilômetro de onde foi encontrado o Homem de Cheddar, existe uma outra caverna conhecida como Buraco de Aveline que é um dos maiores cemitérios do mesolítico na Grã-Bretanha. Os arqueólogos encontraram ali restos de cerca de 50 indivíduos, todos depositados dentro de um curto de período de 100 a 200 anos”, afirmou Booth.

O caso do Homem de Cheddar, porém, é considerado incomum, porque ele foi encontrado sozinho e em sua época eram comuns os enterros coletivos. “Ele foi retirado do sedimento, mas não ficou claro se após sua morte ele foi enterrado ou se foi apenas recoberto por sedimentos, ao longo do tempo, por deposição mineral natural”, disse o cientista.

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O crânio do Homem de Cheddar, que viveu na Grã-Bretanha há 10 mil anos; não ficou claro se o buraco encontrado em sua testa foi resultado de um ferimento, de uma infecção, ou de um dano no momento da escavação. Foto: Museum of Natural History / UK

A reconstrução. O modelo do Homem de Cheddar foi feito pela empresa Kennis & Kennis Reconstructions, especializada em reconstruções paleontológicas. Os artistas tiraram as medidas do esqueleto, escanearam o crânio com tomografias e utilizaram uma impressora 3D para produzir uma base para o modelo.

“É claro que a reconstrução facial é em parte arte e em parte ciência. Mas há alguns padrões relacionados à espessura dos tecidos em diferentes regiões do rosto das pessoas, de modo que podemos utilizar essas convenções para desenvolver a morfologia facial”, disse Booth.

Segundo so cientistas, os britânicos atuais compartilham cerca de 10% de sua ascendência genética com a população europeia à qual pertencia o Homem de Cheddar, mas não há descendentes diretos. Eles acreditam que a população mesolítica de caçadores-coletores da qual fazia parte o Homem de Cheddar foi em sua maior parte substituída por agricultrores que migraram mais tarde para a Grã-Bretanha. Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

Uma máscara para aliviar a doação de rosto

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A máscara fabricada por impressoras 3D é feita de plástico duro, mas reproduz as sutilezas de um rosto de carne e osso. (Vincent Tullo para The New York Times)

A maioria dos avanços médicos beneficia os vivos.

Este foi feito para os mortos.

Em um futuro próximo, alguém com morte cerebral, provavelmente um homem, será levado para o departamento de cirurgia plástica do Centro Médico Langone, da NYU, em Manhattan. Um técnico vai passar um sensor sobre seu rosto, registrando até seus mínimos detalhes.

Então, cirurgiões vão extrair a face da pessoa à beira da morte e a colocarão em um homem à espera de um transplante de rosto.

Então, no centro da cidade, uma equipe de especialistas em impressão 3D da Universidade de Nova York começará seu trabalho. O objetivo será fabricar uma réplica da face escaneada do doador, tão realista que os parentes dele se sentirão à vontade para usá-la no funeral de seu ente querido, mesmo que a cerimônia seja com caixão aberto.

Até agora, o melhor que a medicina conseguia oferecer aos doadores era uma máscara de silicone produzida a partir de um molde, com detalhes reproduzidos com tinta.

“Uma máscara de silicone talvez tenha uma precisão de 75%”, afirmou Eduardo Rodriguez, diretor do programa de transplante facial do Langone, da NYU. “Uma máscara fabricada por impressoras 3D tem 95% de precisão”.

Médicos que realizam transplantes faciais estão produzindo grandes avanços em enxertos de pele, osso, nervos e músculos para dar aos pacientes uma nova esperança. Em 2015, Rodriguez realizou o mais extenso transplante até então, em um ex-bombeiro.

Mas essas maravilhas da medicina não podem ocorrer sem os doadores. E pedir para uma família que doe o rosto de um parente não é como pedir um coração ou pulmões. Organizações que angariam órgãos para transplante dizem que, para muitas famílias, remover a face de seus entes queridos representaria uma segunda perda.

A esperança da NYU é que uma substituição mais bem feita dos rostos encorajará mais famílias às doações, reduzindo o tempo de espera dos pacientes na fila dos transplantes faciais.

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Leslie Brnstein, administrador do Centro Médico Langone, da NYU, teve seu rosto escaneado para demonstrar a fabricação de uma máscara. (Vincent Tullo para The New York Times)

O LaGuardia Studio, que a NYU utiliza para as impressões 3D, realiza normalmente projetos para departamentos de arte e engenharia. O processo de imprimir um rosto, porém, é o mesmo, só que mais acelerado, porque o hospital terá de liberar os corpos dos doadores para as famílias o mais rapidamente possível.

“Estamos condensando em 36 horas, basicamente, o que gostamos de ter duas semanas para fazer”, afirmou Andrew Buckland, gerente do estúdio.

O dispositivo manual que escaneia o rosto dos doadores tem cinco câmeras com lentes que registram as faces a partir de variados ângulos. O aparelho projeta uma grade sobre o rosto, o que permite ao sensor constituir um mapa tridimensional.

Os técnicos, então, passarão várias horas ajustando os arquivos nos computadores do estúdio e depois os enviarão para uma grande impressora carregada com um cartucho contendo um foto-polímero à base de acrílico.

A impressora fabrica camadas tão finas que são necessárias 600 delas para imprimir 1 centímetro. Podem ser necessárias 10 mil camadas para fabricar um rosto, o que leva mais de 24 horas.

A seguir, os técnicos levarão a máscara para o hospital, onde o rosto do doador terá sido removido enquanto ele ainda é mantido vivo por aparelhos. “Porque queremos colher a face enquanto ela ainda está sendo irrigada por um coração pulsante”, afirmou Rodriguez.

Após a morte do doador, os médicos colocarão a máscara sobre os ossos de sua face e cobrirão a sutura que une a máscara à pele do crânio com uma bandagem.

Rodriguez teve a ideia dos rostos fabricados por impressoras 3D após realizar um transplante total de face em 2015, em Patrick Hardison, um ex-bombeiro do Mississippi cujo rosto derreteu em um incêndio. Ele estava na lista de espera havia mais de um ano.

Hardison acabou recebendo a face de um mecânico de bicicleta do Brooklin, de 26 anos, chamado David Rodenbaugh, que entrou em coma após um acidente ciclístico.

Quando Rodriguez se encontrou com a família de Rodenbaugh, antes da operação, os parentes perguntaram como ficaria o corpo — e Rodriguez lhes contou sobre a máscara de silicone, explicando suas limitações. Eles concordaram em autorizar o procedimento de remoção da face. “O principal foco deles era ver seu filho ajudando o máximo de pessoas possível”, afirmou Rodriguez.

A máscara fabricada por impressoras 3D, disse Rodriguez, demonstra consideração pelo sacrifício da família.

“Tentamos respeitar a dignidade de homens e mulheres que doaram suas faces”, afirmou. [Andy Newman e Marc Santora]

Adolescência agora vai até os 24 anos, diz estudo

A nova definição reflete mudanças de comportamento, como a demora para concluir os estudos, casar e ter filhos

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Estudo divulgado pela revista científica Lancet Child & Adolescent Health afirma que a definição de adolescência mudou, passando agora para o período entre 10 e 24 anos de idade (Istock/Getty Images)

Até quando vai a adolescência? Alguns podem achar que ela dura a vida toda. Mas cientistas definiram um período para essa fase da vida, que fica entre a infância e a vida adulta.

Estudo divulgado pela revista científica Lancet Child & Adolescent Health afirma que a definição de adolescência mudou, passando agora para o período entre 10 e 24 anos de idade. Pela definição anterior, essa etapa da vida ia até os 19 anos.

A nova definição reflete mudanças de comportamento, como a demora para concluir os estudos, casar e ter filhos.

De acordo com o estudo, a definição adequada desta etapa da vida é essencial para o desenvolvimento de leis, políticas sociais e serviços.

O estudo lembra que a definição do início da adolescência já foi antecipada anteriormente para 10 anos – costumava ser padronizada como 14.

Neurocientista, estrela Mayim Bialik de ‘Big Bang’ lança guia para garotas

Mayim Bialik fala sobre mudanças no corpo, estereótipos sociais e empoderamento em novo livro, misturando ciência com experiências pessoais

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Capa do livro “‘Girling Up’ – Como se tornar uma mulher saudável, esperta e espetacular”, da atriz americana Mayim Bialik (Primavera Editorial/Divulgação)

A atriz Mayim Bialik, famosa por dar vida à neurobióloga Amy na sitcom americana The Big Bang Theory, não é inteligente apenas nos papéis que interpreta na TV. A artista exibe com orgulho um PhD em neurociência pela renomada Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos. Com 42 anos e dois filhos, a americana acaba de lançar seu terceiro livro, um guia sobre puberdade voltado para jovens mulheres.

Publicado com o título de Girling Up – How to Be Strong, Smart and Spectacular(“Girling Up – Como se tornar uma mulher saudável, esperta e espetacular”, Primavera Editorial, 155 páginas, 34,90 reais), o livro fala sobre as mudanças físicas e hormonais no corpo das meninas do ponto de vista da neurociência, trazendo explicações científicas de forma compreensível. Além disso, a obra também discute estereótipos sociais e saúde mental feminina, trazendo experiências da vida pessoal de Mayim. Ela estrelou na televisão com apenas 14 anos, na série americana Blossom.

Em entrevista a VEJA, a atriz fala sobre seu novo livro, maternidade, feminismo e ciência.

 

No livro, a senhora fala sobre como lidar com o que acontece com o nosso corpo física e psicologicamente durante a puberdade. Qual importância de discutir isso com as meninas?
Eu acho que nós vivemos em uma sociedade que é muito dominada pela opinião dos homens. Na maior parte da história da humanidade, as mulheres confiaram umas nas outras para obter apoio e aprender em conjunto. Por isso, encorajar as jovens a compreender como ocorrem essas mudanças e o desenvolvimento do organismo é o primeiro passo para que meninas e mulheres reconquistem o direito sobre seus corpos – coisa que todas nós merecemos.

Por ter começado a atuar cedo, a senhora viveu quase toda a puberdade na mira do público. Isso influenciou de alguma forma sua passagem pela adolescência? 
Crescer em frente aos olhos do público foi um grande desafio. Acabei me tornando consciente dos padrões impostos às mulheres na nossa sociedade ainda muito nova, principalmente por causa do meio em que trabalhava. Naquela época, gostaria de ter dito a mim mesma que talvez nunca me encaixasse na sociedade da maneira que acreditava que deveria me encaixar, mas tudo bem, porque isso ficaria menos doloroso de aceitar com o tempo. Felizmente, sempre fui tratada muito bem dentro do set de filmagem e minha equipe tinha muito respeito por mim. Acredito que crescer e aprender os benefícios e malefícios do mundo dos negócios me fez amadurecer mais rápido.

Quando surgiu o interesse por ciência? 
Eu tive um professor de biologia quando tinha 15 anos que despertou em mim o amor pela ciência. Terminei de gravar Blossom quando eu tinha 19 anos, naquela época já havia acabado o Ensino Médio há dois anos. Meus avós, imigrantes, tinham uma tradição muito forte de fazer faculdade. Então, quando eu terminei o programa na TV, pensei que essa seria a oportunidade ideal para ingressar em uma graduação – neurociência.

Alguém duvidou da sua capacidade de se tornar uma neurocientista? 
Muitas pessoas duvidam das mulheres, por todos os tipos de motivos. Para mim, foi muito difícil ser uma minoria nas minhas aulas de ciência. Eu tive meu primeiro filho durante a graduação e recebi meu doutorado com oito meses de gravidez do segundo. E, apesar de ser muito bom ser mãe, ficou incrivelmente difícil equilibrar tudo aquilo. Mas tive vários exemplos de pessoas fortes na vida e isso me fez querer ter certeza de que estava estudando muito para acompanhar todos os outros estudantes.

Como mãe de dois meninos, a senhora acredita que homens também têm um papel importante no combate à desigualdade de gênero? 
Feminismo é, por definição, uma crença no fato de que as mulheres têm certas habilidades que ultrapassam as distinções de raça, classe social e gênero. Homens e mulheres, juntos, podem apoiar essa missão. Meninos podem ser feministas, assim como meninas. E, sim, homens e mulheres podem não ser iguais, mas é necessário que as pessoas entendam que eles precisam ser igualmente respeitados e apreciados por todas as coisas especiais que possuem. [Leticia Fuentes]

Desmitificando o distanciamento

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Nikolaus Maack, de Ottawa, começou a distanciar-se da família há dez anos. (Alexi Hobbs para The New York Times)

É a imagem clássica das festas de fim de ano: pais, irmãos e respectivos filhos reunidos ao redor da mesa da família para festejar. Mas nem sempre a coisa funciona dessa maneira.

Depois de anos de insatisfação, alguns adultos resolvem deixar de falar com os pais ou de comparecer às festas, e há pais que desaprovam tão intensamente os filhos que estes deixam de ser bem-vindos ao lar.

Nos últimos cinco anos, começou a se delinear um quadro mais claro a este respeito, quando novos pesquisadores se dedicaram ao estudo desse tipo de ruptura dos laços familiares. Suas conclusões contestam a ideia de que as relações familiares não podem ser dissolvidas e sugerem que o distanciamento não é absolutamente incomum.

Em geral, o distanciamento ocorre quando um ou mais membros da família decidem cortar os laços por causa de um relacionamento negativo. “Como a pessoa tenta distanciar-se e manter esta distância, ela faz os outros se distanciarem também”, afirmou Kristina Scharp, professora assistente da Utah State University, em Logan.

Kylie Agllias, que é assistente social na Austrália, em 2016 escreveu um livro intitulado “Family Estrangement” (Distanciamento Familiar, em tradução livre). Nele, a autora diz que o distanciamento “ocorre ao longo de anos e até décadas. Toda a mágoa e as traições e todas as coisas que vão se acumulando minam a confiança de uma pessoa”.

Para um estudo que publicou em junho, Kristina Scharp falou com 52 filhos adultos e constatou que eles se distanciaram dos pais de várias maneiras ao longo do tempo. “Alguns saíram de casa. Outros deixaram de fazer qualquer esforço para atender às expectativas, como uma mulher de 48 anos que, depois de ficar 33 anos sem contato algum com o pai, não quis visitá-lo no hospital e nem assistir ao seu enterro. Outros ainda preferiram limitar as conversações com um membro da família a uma breve conversa superficial ou reduzir a frequência dos contatos.

O distanciamento é um “processo contínuo”, disse Kristina. “Em nossa cultura, há uma quantidade enorme de culpa por não perdoar a família”, afirmou. Por isso, “conseguir distanciar-se é difícil, mas manter a distância é mais difícil ainda”.

Faz três anos desde que Nikolaus Maack, 47, teve contato com a maior parte dos familiares. Mas ele começou a distanciar-se dez anos antes. O temperamento do pai sempre o deixou muito nervoso, contou, e ele sempre achou os almoços com a família, por ocasião das festas, particularmente desagradáveis. Por fim, Maack, funcionário público em Ottawa, parou de comparecer.

Contatado por e-mail, o pai recusou-se a dar entrevista, mas disse que deixara de considerar Nikolaus um filho.

Em 2014, 8% de aproximadamente 2 mil britânicos adultos contaram ter excluído de suas relações um membro da família, como mostra uma pesquisa de âmbito nacional, representativa, encomendada pela Stand Alone, uma organização de apoio a pessoas que cortaram relacionamentos familiares.

Em um estudo publicado pela revista “Australian Social Work”, adultos informaram que se afastaram dos pais por três razões principais: maus ratos, traição e falta de amor dos genitores. As razões frequentemente se sobrepunham, constatou Kylie Agllias. Segundo relatou a maioria dos participantes, o distanciamento se deu depois de uma infância ao longo da qual o relacionamento com os pais sempre foi ruim.

Por exemplo, Nikolaus ficou ressentido porque costumeiramente devia tomar conta de dois irmãos menores, a ponto de decidir que nunca teria filhos.

Em 2014, após um relacionamento muito longo, ele e a namorada resolveram casar em uma cerimônia extremamente simples. Nikolaus não convidou a família, em parte porque a cerimônia seria uma reunião informal, mas também por medo de que o pai se comportasse de maneira desagradável. Ele concluiu que ninguém mais compareceria sem ele. “Fiquei triste por muito tempo, porque não sabia se deveria convidá-los ou não”, disse, “mas por fim, decidi: ‘Não vou deixar que eles venham’”.

A família descobriu pelo Facebook que ele havia se casado. Um irmão disse que ficou magoado por nem sequer ter sido comunicado. A irmã e o pai deixaram claro que não queriam mais falar com ele, Nikolaus e a esposa contaram depois. Outros familiares confirmaram.

Atualmente, um irmão ainda conversa com Nikolaus, mas os dois não conversam com os outros. [Catherine Saint Louis]