A culpa pode ser saudável para uma criança

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Sentir que fizeram algo errado ajuda as crianças a aprender a serem atenciosas com os outros. (Efrem Lukatsky/Associated Press)

A culpa pode ser um elemento complexo na equação pais-filhos; nós nos sentimos culpados, eles se sentem culpados, nós podemos fazer com que eles se sintam culpados e depois nos sentimos culpados por isso. Mas certos tipos de culpa são um aspecto saudável do desenvolvimento da criança.

Tina Malti, professora de psicologia da Universidade de Toronto que estudou o surgimento da culpa na criança, a considera uma emoção semelhante à empatia.

“A culpa moral é saudável, e positiva para o desenvolvimento”, afirmou. “A culpa ajuda a criança a refrear a agressão, o comportamento antissocial”.

Uma criança que faz outra chorar pode ter uma reação de empatia, ela disse, e sentir-se mal porque a outra criança está triste. Ou pode se sentir culpada porque o que quer que tenha feito à outra criança infringiu suas próprias normas do que é certo ou errado. “Estas duas reações podem ser totalmente independentes, ou podem aparecer juntas”.

Segundo a dra. Malti, existe um caminho evolutivo da culpa; crianças muito pequenas talvez chorem quando quebram um brinquedo, mas só adquirem uma compreensão suficiente da perspectiva das outras pessoas, experimentando uma emoção mais complexa de culpa, depois dos 6 anos. A partir deste momento, ela acrescenta, a maioria das crianças relata sua culpa em relação à transgressão, e isto pode ajudá-las a tratar as outras pessoas atenciosamente. “Existem muitas evidências de que a culpa saudável promove um comportamento social nas crianças”, afirmou.

A culpa faz parte do desenvolvimento normal das crianças, e nós na realidade não queremos que as crianças cresçam sem isto, mas também nos preocupamos se elas se julgam de maneira demasiado rigorosa, ou se sentirem responsáveis por coisas que estão muito além do seu poder (o caso clássico é o da criança que se culpa pelo fato de os pais brigarem ou se divorciarem).

A dra. Helen Egger, presidente do Departamento de Psiquiatria da Criança e do Adolescente na New York University Langone Health, disse que, nas crianças menores, a culpa pode estar mesclada ao pensamento mágico e à sensação da própria onipotência, como quando elas se sentem responsáveis pela doença ou pela deficiência de um irmão. À medida que as crianças crescem, este tipo de preocupação pode estar ligado a problemas de ansiedade, afirma a doutora.

As crianças menores que sofrem de ansiedade correm um risco cada vez maior de desenvolverem sintomas depressivos, e “uma sensação esmagadora de culpa é um sintoma fundamental de depressão”.

Portanto, de que maneira os pais podem favorecer o desenvolvimento da consciência e de sentimentos morais, evitando oprimir os filhos com sombrios sentimentos de castigo? Quando construtiva, a culpa deveria dar à criança uma sensação adequada de poder, a determinação realista a se comportar de maneira diferente. É preciso que os pais se preocupem com ações específicas, e não com o caráter da criança; a mensagem não é que haja algo errado com a criança, mas que ela escolheu fazer algo errado.

“Na realidade, as crianças se sentem mal quando fazem alguma coisa que fere outra pessoa ou quando fez algo errado”, disse a dra. Eggar. “Não devemos procurar fazer com que uma pessoa se sinta culpada”. Um passo muito importante no desenvolvimento é “fazer com que saibam o que é certo e o que é errado, saibam comportar-se de maneira certa, e quando elas não fizerem, que saibam reparar o seu ato com honestidade e simplicidade”. [Dr. Perri Klass]

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Startup Grail do Vale do Silício vê esperança em teste de câncer

Sem título.png90A busca de uma análise de sangue simples que detecte o câncer cedo atraiu muitos poderosos, de Bill Gates até a Merck & Co. Agora começam a aparecer evidências de que isso poderia funcionar, pelo menos para um tipo específico de tumor maligno.

Um estudo realizado por pesquisadores em Hong Kong e publicado nesta semana no New England Journal of Medicine usou fragmentos de DNA no sangue para detectar um tipo de câncer de cabeça e pescoço chamado carcinoma de nasofaringe.

O procedimento, conhecido como “biópsia líquida”, detectou o câncer antes e com maior precisão do que os métodos já existentes — e em definitiva aumentou as chances de sobrevivência dos pacientes.

Esses resultados poderiam ser úteis para as perspectivas comerciais da Grail, uma startup de capital fechado do Vale do Silício que desde que foi fundada em 2016 levantou mais de US$ 1,1 bilhão de vários investidores, entre eles os bilionários Gates e Jeff Bezos, além da Merck e da chinesa Tencent Holdings.

Dennis Lo, um dos principais autores do estudo e professor em Hong Kong, também é cofundador de uma empresa de biotecnologia chamada Cirina, que concordou com se fusionar com a Grail em maio.

Sonho
O sonho de um teste não invasivo de detecção de câncer é baseado na descoberta de que os tumores liberam constantemente fragmentos de DNA no fluxo sanguíneo.

Já existem análises de sangue comercializadas para monitorar a mutação do tumor após o diagnóstico, mas detectar o câncer nas etapas iniciais é mais complicado, em parte porque o DNA canceroso é liberado em quantidades muito menores.

“Nossa aspiração é criar um teste comercial” para o carcinoma de nasofaringe, disse o presidente da Grail, Ken Drazan, em uma entrevista por telefone. Se for bem-sucedido, o teste que seria comercializado no Sudeste Asiático seria o primeiro produto da Grail.

Dezenas de empresas têm trabalhado para desenvolver ou vender algum tipo de teste de biópsia líquida, de acordo com um relatório de 2015 da Piper Jaffray. Mas a maioria tem focado em testes para pacientes que já foram diagnosticados.

Experimento
O carcinoma de nasofaringe forneceu um experimento para testar o conceito para a equipe de pesquisadores integrada por Allen Chan, Rossa Chiu e Lo, do Instituto Li Ka Shing de Ciências da Saúde da Chinese University of Hong Kong. Os três são cofundadores da Cirina.

Esse tipo de câncer, que é frequente no sul da China e no Sudeste Asiático, surge de uma confluência de fatores: além das mutações genéticas, ele também está associado ao consumo de peixe salgado e ao tabagismo, assim como a uma infecção pelo vírus Epstein-Barr, membro da família do vírus do herpes.

Os dados apresentados “sugerem que as vidas foram salvas por causa desses exames”, escreveu Richard Ambinder, professor de Oncologia da Johns Hopkins School of Medicine que não participou do estudo, em editorial na revista científica. Li Hui e Caroline Chen, da Bloomberg

Enfrentando a ansiedade com a realidade virtual

IW_06_VR1Teste do software de terapia com realidade virtual da Limbix, com uso de visor, no escritório da empresa na Califórnia. (Jason Henry para The New York Times)


SAN FRANCISCO — Dawn Jewell tratou recentemente um paciente assombrado por um acidente de carro. Ele tinha desenvolvido um quadro agudo de ansiedade envolvendo o cruzamento onde o acidente tinha ocorrido, e agora era incapaz de fazer aquele caminho.

Assim, Dawn Jewell, psicóloga do Colorado, tratou o paciente com uma técnica chamada terapia de exposição, oferecendo orientação emocional enquanto eles voltavam juntos ao fatídico cruzamento.

Mas eles não voltaram ao local fisicamente: usaram a realidade virtual.

Dawn faz parte de um grupo de psicólogos que está testando um novo serviço de uma startup do Vale do Silício chamada Limbix, que proporciona a terapia de exposição por meio do Daydream View, o visor do Google que funciona em conjunto com um smartphone.

“O recurso traz a exposição num formato que os pacientes consideram seguro”, disse Dawn.

O serviço recria locais externos recorrendo a outro produto Google, o Street View, um banco de dados de fotos que mostram cenas de ruas e outros locais de todo o mundo.

O serviço também pode proporcionar tratamentos de outras maneiras, por exemplo, levando pacientes ao topo de arranha-céus virtuais para que enfrentem o medo de altura, ou a um bar virtual, para lidar com o vício em álcool.

Com aporte da empresa de investimentos Sequoia Capital, a Limbix ainda não completou um ano. Os criadores do novo serviço, incluindo o diretor-executivo, Benjamin Lewis, trabalharam nas pioneiras iniciativas em realidade virtual do Google e do Facebook.

A Limbix se vale de mais de duas décadas de pesquisas e testes clínicos envolvendo a realidade virtual e a terapia de exposição. Num momento em que visores como Daydream e Oculus, do Facebook, encontram dificuldade para alcançar um público mais amplo no mundo dos jogos, a psicologia é uma área para a qual a realidade virtual pode trazer benefícios, de acordo com especialistas em medicina e tecnologia.

Já nos anos 1990, testes clínicos mostravam que esse tipo de tecnologia poderia ajudar no tratamento de fobias e outros traumas, como o distúrbio de estresse pós-traumático.

Tradicionalmente, os psicólogos tratam esses traumas ajudando os pacientes a imaginar que estão diante do medo, recriando mentalmente uma situação em que possam lidar com suas ansiedades. A realidade virtual leva as coisas um passo além.

“Temos bastante confiança no efeito positivo da RV no tratamento com a terapia de exposição, suplementando os recursos da própria imaginação do paciente”, disse Skip Rizzo, psicólogo clínico da Universidade do Sul da Califórnia.

Barbara Rothbaum ajudou como uma das pioneiras da prática na Faculdade de Medicina da Universidade Emory, em Atlanta, e o trabalho dela deu origem a uma empresa chamada Virtually Better, que há muito oferece ferramentas de realidade virtual para terapia de exposição destinadas a médicos e hospitais por meio de uma geração mais antiga de visores. De acordo com um teste clínico que ela ajudou a desenvolver, a realidade virtual se mostrou tão eficaz quanto viagens ao aeroporto no tratamento do medo de voar, com 90% dos pacientes superando a ansiedade.

Tecnologias como essa também se mostraram eficazes no tratamento do distúrbio de estresse pós-traumático (PTSD) entre veteranos de guerra. Diferentemente dos tratamentos construídos em torno da imaginação, a realidade virtual pode obrigar os pacientes a enfrentar seus traumas passados.

“O PTSD é um distúrbio que a pessoa evita enfrentar. Ninguém quer pensar nisso”, disse ela. “Precisamos do envolvimento emocional do paciente e, com a realidade virtual, isso é mais difícil de evitar”.

Agora, visores como o Daydream, do Google, que funciona em sincronia com smartphones comuns, e o Oculus, do Facebook, visor completo de US$ 400 que deu início ao novo ressurgimento das tecnologias de realidade virtual, podem trazer esse tipo de terapia a um público muito mais amplo.

A Virtually Better construiu sua tecnologia a partir de hardware de realidade virtual cujo valor unitário era na casa de milhares de dólares. Hoje, a Limbix e outras empresas, como a startup espanhola Psious, podem oferecer serviços muito mais acessíveis. A Limbix começa a disponibilizar suas ferramentas a psicólogos e outros terapeutas fora do grupo de testes iniciais. Por enquanto o serviço é gratuito, e a empresa planeja oferecer ferramentas mais sofisticadas no futuro.

Especialistas alertam que um serviço como o apresentado pela Limbix exige a orientação de psicólogos treinados e ainda está em desenvolvimento.

A Limbix trabalha com seu próprio psicólogo, Sean Sullivan, que ainda atende em seu consultório em San Francisco.

Sullivan está usando o novo serviço para tratar pacientes, incluindo um jovem que tinha medo de voar. Usando o serviço com a orientação de Sullivan, o rapaz, que pediu para não ter o nome revelado, passou várias sessões visitando um aeroporto virtual e, finalmente, pilotando um avião virtual.

Sob certos aspectos, disse o homem, o serviço ainda pode ser aperfeiçoado. Parte do mundo virtual é estática, construída a partir de imagens. Mas essas ferramentas ainda estão evoluindo na criação de cenas mais realistas.

E, mesmo no formato atual, o serviço é convincente. Recentemente o paciente embarcou num voo longo — e real. [Cade Metz]