Uma máscara para aliviar a doação de rosto

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A máscara fabricada por impressoras 3D é feita de plástico duro, mas reproduz as sutilezas de um rosto de carne e osso. (Vincent Tullo para The New York Times)

A maioria dos avanços médicos beneficia os vivos.

Este foi feito para os mortos.

Em um futuro próximo, alguém com morte cerebral, provavelmente um homem, será levado para o departamento de cirurgia plástica do Centro Médico Langone, da NYU, em Manhattan. Um técnico vai passar um sensor sobre seu rosto, registrando até seus mínimos detalhes.

Então, cirurgiões vão extrair a face da pessoa à beira da morte e a colocarão em um homem à espera de um transplante de rosto.

Então, no centro da cidade, uma equipe de especialistas em impressão 3D da Universidade de Nova York começará seu trabalho. O objetivo será fabricar uma réplica da face escaneada do doador, tão realista que os parentes dele se sentirão à vontade para usá-la no funeral de seu ente querido, mesmo que a cerimônia seja com caixão aberto.

Até agora, o melhor que a medicina conseguia oferecer aos doadores era uma máscara de silicone produzida a partir de um molde, com detalhes reproduzidos com tinta.

“Uma máscara de silicone talvez tenha uma precisão de 75%”, afirmou Eduardo Rodriguez, diretor do programa de transplante facial do Langone, da NYU. “Uma máscara fabricada por impressoras 3D tem 95% de precisão”.

Médicos que realizam transplantes faciais estão produzindo grandes avanços em enxertos de pele, osso, nervos e músculos para dar aos pacientes uma nova esperança. Em 2015, Rodriguez realizou o mais extenso transplante até então, em um ex-bombeiro.

Mas essas maravilhas da medicina não podem ocorrer sem os doadores. E pedir para uma família que doe o rosto de um parente não é como pedir um coração ou pulmões. Organizações que angariam órgãos para transplante dizem que, para muitas famílias, remover a face de seus entes queridos representaria uma segunda perda.

A esperança da NYU é que uma substituição mais bem feita dos rostos encorajará mais famílias às doações, reduzindo o tempo de espera dos pacientes na fila dos transplantes faciais.

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Leslie Brnstein, administrador do Centro Médico Langone, da NYU, teve seu rosto escaneado para demonstrar a fabricação de uma máscara. (Vincent Tullo para The New York Times)

O LaGuardia Studio, que a NYU utiliza para as impressões 3D, realiza normalmente projetos para departamentos de arte e engenharia. O processo de imprimir um rosto, porém, é o mesmo, só que mais acelerado, porque o hospital terá de liberar os corpos dos doadores para as famílias o mais rapidamente possível.

“Estamos condensando em 36 horas, basicamente, o que gostamos de ter duas semanas para fazer”, afirmou Andrew Buckland, gerente do estúdio.

O dispositivo manual que escaneia o rosto dos doadores tem cinco câmeras com lentes que registram as faces a partir de variados ângulos. O aparelho projeta uma grade sobre o rosto, o que permite ao sensor constituir um mapa tridimensional.

Os técnicos, então, passarão várias horas ajustando os arquivos nos computadores do estúdio e depois os enviarão para uma grande impressora carregada com um cartucho contendo um foto-polímero à base de acrílico.

A impressora fabrica camadas tão finas que são necessárias 600 delas para imprimir 1 centímetro. Podem ser necessárias 10 mil camadas para fabricar um rosto, o que leva mais de 24 horas.

A seguir, os técnicos levarão a máscara para o hospital, onde o rosto do doador terá sido removido enquanto ele ainda é mantido vivo por aparelhos. “Porque queremos colher a face enquanto ela ainda está sendo irrigada por um coração pulsante”, afirmou Rodriguez.

Após a morte do doador, os médicos colocarão a máscara sobre os ossos de sua face e cobrirão a sutura que une a máscara à pele do crânio com uma bandagem.

Rodriguez teve a ideia dos rostos fabricados por impressoras 3D após realizar um transplante total de face em 2015, em Patrick Hardison, um ex-bombeiro do Mississippi cujo rosto derreteu em um incêndio. Ele estava na lista de espera havia mais de um ano.

Hardison acabou recebendo a face de um mecânico de bicicleta do Brooklin, de 26 anos, chamado David Rodenbaugh, que entrou em coma após um acidente ciclístico.

Quando Rodriguez se encontrou com a família de Rodenbaugh, antes da operação, os parentes perguntaram como ficaria o corpo — e Rodriguez lhes contou sobre a máscara de silicone, explicando suas limitações. Eles concordaram em autorizar o procedimento de remoção da face. “O principal foco deles era ver seu filho ajudando o máximo de pessoas possível”, afirmou Rodriguez.

A máscara fabricada por impressoras 3D, disse Rodriguez, demonstra consideração pelo sacrifício da família.

“Tentamos respeitar a dignidade de homens e mulheres que doaram suas faces”, afirmou. [Andy Newman e Marc Santora]

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Adolescência agora vai até os 24 anos, diz estudo

A nova definição reflete mudanças de comportamento, como a demora para concluir os estudos, casar e ter filhos

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Estudo divulgado pela revista científica Lancet Child & Adolescent Health afirma que a definição de adolescência mudou, passando agora para o período entre 10 e 24 anos de idade (Istock/Getty Images)

Até quando vai a adolescência? Alguns podem achar que ela dura a vida toda. Mas cientistas definiram um período para essa fase da vida, que fica entre a infância e a vida adulta.

Estudo divulgado pela revista científica Lancet Child & Adolescent Health afirma que a definição de adolescência mudou, passando agora para o período entre 10 e 24 anos de idade. Pela definição anterior, essa etapa da vida ia até os 19 anos.

A nova definição reflete mudanças de comportamento, como a demora para concluir os estudos, casar e ter filhos.

De acordo com o estudo, a definição adequada desta etapa da vida é essencial para o desenvolvimento de leis, políticas sociais e serviços.

O estudo lembra que a definição do início da adolescência já foi antecipada anteriormente para 10 anos – costumava ser padronizada como 14.

Neurocientista, estrela Mayim Bialik de ‘Big Bang’ lança guia para garotas

Mayim Bialik fala sobre mudanças no corpo, estereótipos sociais e empoderamento em novo livro, misturando ciência com experiências pessoais

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Capa do livro “‘Girling Up’ – Como se tornar uma mulher saudável, esperta e espetacular”, da atriz americana Mayim Bialik (Primavera Editorial/Divulgação)

A atriz Mayim Bialik, famosa por dar vida à neurobióloga Amy na sitcom americana The Big Bang Theory, não é inteligente apenas nos papéis que interpreta na TV. A artista exibe com orgulho um PhD em neurociência pela renomada Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos. Com 42 anos e dois filhos, a americana acaba de lançar seu terceiro livro, um guia sobre puberdade voltado para jovens mulheres.

Publicado com o título de Girling Up – How to Be Strong, Smart and Spectacular(“Girling Up – Como se tornar uma mulher saudável, esperta e espetacular”, Primavera Editorial, 155 páginas, 34,90 reais), o livro fala sobre as mudanças físicas e hormonais no corpo das meninas do ponto de vista da neurociência, trazendo explicações científicas de forma compreensível. Além disso, a obra também discute estereótipos sociais e saúde mental feminina, trazendo experiências da vida pessoal de Mayim. Ela estrelou na televisão com apenas 14 anos, na série americana Blossom.

Em entrevista a VEJA, a atriz fala sobre seu novo livro, maternidade, feminismo e ciência.

 

No livro, a senhora fala sobre como lidar com o que acontece com o nosso corpo física e psicologicamente durante a puberdade. Qual importância de discutir isso com as meninas?
Eu acho que nós vivemos em uma sociedade que é muito dominada pela opinião dos homens. Na maior parte da história da humanidade, as mulheres confiaram umas nas outras para obter apoio e aprender em conjunto. Por isso, encorajar as jovens a compreender como ocorrem essas mudanças e o desenvolvimento do organismo é o primeiro passo para que meninas e mulheres reconquistem o direito sobre seus corpos – coisa que todas nós merecemos.

Por ter começado a atuar cedo, a senhora viveu quase toda a puberdade na mira do público. Isso influenciou de alguma forma sua passagem pela adolescência? 
Crescer em frente aos olhos do público foi um grande desafio. Acabei me tornando consciente dos padrões impostos às mulheres na nossa sociedade ainda muito nova, principalmente por causa do meio em que trabalhava. Naquela época, gostaria de ter dito a mim mesma que talvez nunca me encaixasse na sociedade da maneira que acreditava que deveria me encaixar, mas tudo bem, porque isso ficaria menos doloroso de aceitar com o tempo. Felizmente, sempre fui tratada muito bem dentro do set de filmagem e minha equipe tinha muito respeito por mim. Acredito que crescer e aprender os benefícios e malefícios do mundo dos negócios me fez amadurecer mais rápido.

Quando surgiu o interesse por ciência? 
Eu tive um professor de biologia quando tinha 15 anos que despertou em mim o amor pela ciência. Terminei de gravar Blossom quando eu tinha 19 anos, naquela época já havia acabado o Ensino Médio há dois anos. Meus avós, imigrantes, tinham uma tradição muito forte de fazer faculdade. Então, quando eu terminei o programa na TV, pensei que essa seria a oportunidade ideal para ingressar em uma graduação – neurociência.

Alguém duvidou da sua capacidade de se tornar uma neurocientista? 
Muitas pessoas duvidam das mulheres, por todos os tipos de motivos. Para mim, foi muito difícil ser uma minoria nas minhas aulas de ciência. Eu tive meu primeiro filho durante a graduação e recebi meu doutorado com oito meses de gravidez do segundo. E, apesar de ser muito bom ser mãe, ficou incrivelmente difícil equilibrar tudo aquilo. Mas tive vários exemplos de pessoas fortes na vida e isso me fez querer ter certeza de que estava estudando muito para acompanhar todos os outros estudantes.

Como mãe de dois meninos, a senhora acredita que homens também têm um papel importante no combate à desigualdade de gênero? 
Feminismo é, por definição, uma crença no fato de que as mulheres têm certas habilidades que ultrapassam as distinções de raça, classe social e gênero. Homens e mulheres, juntos, podem apoiar essa missão. Meninos podem ser feministas, assim como meninas. E, sim, homens e mulheres podem não ser iguais, mas é necessário que as pessoas entendam que eles precisam ser igualmente respeitados e apreciados por todas as coisas especiais que possuem. [Leticia Fuentes]

Desmitificando o distanciamento

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Nikolaus Maack, de Ottawa, começou a distanciar-se da família há dez anos. (Alexi Hobbs para The New York Times)

É a imagem clássica das festas de fim de ano: pais, irmãos e respectivos filhos reunidos ao redor da mesa da família para festejar. Mas nem sempre a coisa funciona dessa maneira.

Depois de anos de insatisfação, alguns adultos resolvem deixar de falar com os pais ou de comparecer às festas, e há pais que desaprovam tão intensamente os filhos que estes deixam de ser bem-vindos ao lar.

Nos últimos cinco anos, começou a se delinear um quadro mais claro a este respeito, quando novos pesquisadores se dedicaram ao estudo desse tipo de ruptura dos laços familiares. Suas conclusões contestam a ideia de que as relações familiares não podem ser dissolvidas e sugerem que o distanciamento não é absolutamente incomum.

Em geral, o distanciamento ocorre quando um ou mais membros da família decidem cortar os laços por causa de um relacionamento negativo. “Como a pessoa tenta distanciar-se e manter esta distância, ela faz os outros se distanciarem também”, afirmou Kristina Scharp, professora assistente da Utah State University, em Logan.

Kylie Agllias, que é assistente social na Austrália, em 2016 escreveu um livro intitulado “Family Estrangement” (Distanciamento Familiar, em tradução livre). Nele, a autora diz que o distanciamento “ocorre ao longo de anos e até décadas. Toda a mágoa e as traições e todas as coisas que vão se acumulando minam a confiança de uma pessoa”.

Para um estudo que publicou em junho, Kristina Scharp falou com 52 filhos adultos e constatou que eles se distanciaram dos pais de várias maneiras ao longo do tempo. “Alguns saíram de casa. Outros deixaram de fazer qualquer esforço para atender às expectativas, como uma mulher de 48 anos que, depois de ficar 33 anos sem contato algum com o pai, não quis visitá-lo no hospital e nem assistir ao seu enterro. Outros ainda preferiram limitar as conversações com um membro da família a uma breve conversa superficial ou reduzir a frequência dos contatos.

O distanciamento é um “processo contínuo”, disse Kristina. “Em nossa cultura, há uma quantidade enorme de culpa por não perdoar a família”, afirmou. Por isso, “conseguir distanciar-se é difícil, mas manter a distância é mais difícil ainda”.

Faz três anos desde que Nikolaus Maack, 47, teve contato com a maior parte dos familiares. Mas ele começou a distanciar-se dez anos antes. O temperamento do pai sempre o deixou muito nervoso, contou, e ele sempre achou os almoços com a família, por ocasião das festas, particularmente desagradáveis. Por fim, Maack, funcionário público em Ottawa, parou de comparecer.

Contatado por e-mail, o pai recusou-se a dar entrevista, mas disse que deixara de considerar Nikolaus um filho.

Em 2014, 8% de aproximadamente 2 mil britânicos adultos contaram ter excluído de suas relações um membro da família, como mostra uma pesquisa de âmbito nacional, representativa, encomendada pela Stand Alone, uma organização de apoio a pessoas que cortaram relacionamentos familiares.

Em um estudo publicado pela revista “Australian Social Work”, adultos informaram que se afastaram dos pais por três razões principais: maus ratos, traição e falta de amor dos genitores. As razões frequentemente se sobrepunham, constatou Kylie Agllias. Segundo relatou a maioria dos participantes, o distanciamento se deu depois de uma infância ao longo da qual o relacionamento com os pais sempre foi ruim.

Por exemplo, Nikolaus ficou ressentido porque costumeiramente devia tomar conta de dois irmãos menores, a ponto de decidir que nunca teria filhos.

Em 2014, após um relacionamento muito longo, ele e a namorada resolveram casar em uma cerimônia extremamente simples. Nikolaus não convidou a família, em parte porque a cerimônia seria uma reunião informal, mas também por medo de que o pai se comportasse de maneira desagradável. Ele concluiu que ninguém mais compareceria sem ele. “Fiquei triste por muito tempo, porque não sabia se deveria convidá-los ou não”, disse, “mas por fim, decidi: ‘Não vou deixar que eles venham’”.

A família descobriu pelo Facebook que ele havia se casado. Um irmão disse que ficou magoado por nem sequer ter sido comunicado. A irmã e o pai deixaram claro que não queriam mais falar com ele, Nikolaus e a esposa contaram depois. Outros familiares confirmaram.

Atualmente, um irmão ainda conversa com Nikolaus, mas os dois não conversam com os outros. [Catherine Saint Louis]

A culpa pode ser saudável para uma criança

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Sentir que fizeram algo errado ajuda as crianças a aprender a serem atenciosas com os outros. (Efrem Lukatsky/Associated Press)

A culpa pode ser um elemento complexo na equação pais-filhos; nós nos sentimos culpados, eles se sentem culpados, nós podemos fazer com que eles se sintam culpados e depois nos sentimos culpados por isso. Mas certos tipos de culpa são um aspecto saudável do desenvolvimento da criança.

Tina Malti, professora de psicologia da Universidade de Toronto que estudou o surgimento da culpa na criança, a considera uma emoção semelhante à empatia.

“A culpa moral é saudável, e positiva para o desenvolvimento”, afirmou. “A culpa ajuda a criança a refrear a agressão, o comportamento antissocial”.

Uma criança que faz outra chorar pode ter uma reação de empatia, ela disse, e sentir-se mal porque a outra criança está triste. Ou pode se sentir culpada porque o que quer que tenha feito à outra criança infringiu suas próprias normas do que é certo ou errado. “Estas duas reações podem ser totalmente independentes, ou podem aparecer juntas”.

Segundo a dra. Malti, existe um caminho evolutivo da culpa; crianças muito pequenas talvez chorem quando quebram um brinquedo, mas só adquirem uma compreensão suficiente da perspectiva das outras pessoas, experimentando uma emoção mais complexa de culpa, depois dos 6 anos. A partir deste momento, ela acrescenta, a maioria das crianças relata sua culpa em relação à transgressão, e isto pode ajudá-las a tratar as outras pessoas atenciosamente. “Existem muitas evidências de que a culpa saudável promove um comportamento social nas crianças”, afirmou.

A culpa faz parte do desenvolvimento normal das crianças, e nós na realidade não queremos que as crianças cresçam sem isto, mas também nos preocupamos se elas se julgam de maneira demasiado rigorosa, ou se sentirem responsáveis por coisas que estão muito além do seu poder (o caso clássico é o da criança que se culpa pelo fato de os pais brigarem ou se divorciarem).

A dra. Helen Egger, presidente do Departamento de Psiquiatria da Criança e do Adolescente na New York University Langone Health, disse que, nas crianças menores, a culpa pode estar mesclada ao pensamento mágico e à sensação da própria onipotência, como quando elas se sentem responsáveis pela doença ou pela deficiência de um irmão. À medida que as crianças crescem, este tipo de preocupação pode estar ligado a problemas de ansiedade, afirma a doutora.

As crianças menores que sofrem de ansiedade correm um risco cada vez maior de desenvolverem sintomas depressivos, e “uma sensação esmagadora de culpa é um sintoma fundamental de depressão”.

Portanto, de que maneira os pais podem favorecer o desenvolvimento da consciência e de sentimentos morais, evitando oprimir os filhos com sombrios sentimentos de castigo? Quando construtiva, a culpa deveria dar à criança uma sensação adequada de poder, a determinação realista a se comportar de maneira diferente. É preciso que os pais se preocupem com ações específicas, e não com o caráter da criança; a mensagem não é que haja algo errado com a criança, mas que ela escolheu fazer algo errado.

“Na realidade, as crianças se sentem mal quando fazem alguma coisa que fere outra pessoa ou quando fez algo errado”, disse a dra. Eggar. “Não devemos procurar fazer com que uma pessoa se sinta culpada”. Um passo muito importante no desenvolvimento é “fazer com que saibam o que é certo e o que é errado, saibam comportar-se de maneira certa, e quando elas não fizerem, que saibam reparar o seu ato com honestidade e simplicidade”. [Dr. Perri Klass]

Startup Grail do Vale do Silício vê esperança em teste de câncer

Sem título.png90A busca de uma análise de sangue simples que detecte o câncer cedo atraiu muitos poderosos, de Bill Gates até a Merck & Co. Agora começam a aparecer evidências de que isso poderia funcionar, pelo menos para um tipo específico de tumor maligno.

Um estudo realizado por pesquisadores em Hong Kong e publicado nesta semana no New England Journal of Medicine usou fragmentos de DNA no sangue para detectar um tipo de câncer de cabeça e pescoço chamado carcinoma de nasofaringe.

O procedimento, conhecido como “biópsia líquida”, detectou o câncer antes e com maior precisão do que os métodos já existentes — e em definitiva aumentou as chances de sobrevivência dos pacientes.

Esses resultados poderiam ser úteis para as perspectivas comerciais da Grail, uma startup de capital fechado do Vale do Silício que desde que foi fundada em 2016 levantou mais de US$ 1,1 bilhão de vários investidores, entre eles os bilionários Gates e Jeff Bezos, além da Merck e da chinesa Tencent Holdings.

Dennis Lo, um dos principais autores do estudo e professor em Hong Kong, também é cofundador de uma empresa de biotecnologia chamada Cirina, que concordou com se fusionar com a Grail em maio.

Sonho
O sonho de um teste não invasivo de detecção de câncer é baseado na descoberta de que os tumores liberam constantemente fragmentos de DNA no fluxo sanguíneo.

Já existem análises de sangue comercializadas para monitorar a mutação do tumor após o diagnóstico, mas detectar o câncer nas etapas iniciais é mais complicado, em parte porque o DNA canceroso é liberado em quantidades muito menores.

“Nossa aspiração é criar um teste comercial” para o carcinoma de nasofaringe, disse o presidente da Grail, Ken Drazan, em uma entrevista por telefone. Se for bem-sucedido, o teste que seria comercializado no Sudeste Asiático seria o primeiro produto da Grail.

Dezenas de empresas têm trabalhado para desenvolver ou vender algum tipo de teste de biópsia líquida, de acordo com um relatório de 2015 da Piper Jaffray. Mas a maioria tem focado em testes para pacientes que já foram diagnosticados.

Experimento
O carcinoma de nasofaringe forneceu um experimento para testar o conceito para a equipe de pesquisadores integrada por Allen Chan, Rossa Chiu e Lo, do Instituto Li Ka Shing de Ciências da Saúde da Chinese University of Hong Kong. Os três são cofundadores da Cirina.

Esse tipo de câncer, que é frequente no sul da China e no Sudeste Asiático, surge de uma confluência de fatores: além das mutações genéticas, ele também está associado ao consumo de peixe salgado e ao tabagismo, assim como a uma infecção pelo vírus Epstein-Barr, membro da família do vírus do herpes.

Os dados apresentados “sugerem que as vidas foram salvas por causa desses exames”, escreveu Richard Ambinder, professor de Oncologia da Johns Hopkins School of Medicine que não participou do estudo, em editorial na revista científica. Li Hui e Caroline Chen, da Bloomberg

Enfrentando a ansiedade com a realidade virtual

IW_06_VR1Teste do software de terapia com realidade virtual da Limbix, com uso de visor, no escritório da empresa na Califórnia. (Jason Henry para The New York Times)


SAN FRANCISCO — Dawn Jewell tratou recentemente um paciente assombrado por um acidente de carro. Ele tinha desenvolvido um quadro agudo de ansiedade envolvendo o cruzamento onde o acidente tinha ocorrido, e agora era incapaz de fazer aquele caminho.

Assim, Dawn Jewell, psicóloga do Colorado, tratou o paciente com uma técnica chamada terapia de exposição, oferecendo orientação emocional enquanto eles voltavam juntos ao fatídico cruzamento.

Mas eles não voltaram ao local fisicamente: usaram a realidade virtual.

Dawn faz parte de um grupo de psicólogos que está testando um novo serviço de uma startup do Vale do Silício chamada Limbix, que proporciona a terapia de exposição por meio do Daydream View, o visor do Google que funciona em conjunto com um smartphone.

“O recurso traz a exposição num formato que os pacientes consideram seguro”, disse Dawn.

O serviço recria locais externos recorrendo a outro produto Google, o Street View, um banco de dados de fotos que mostram cenas de ruas e outros locais de todo o mundo.

O serviço também pode proporcionar tratamentos de outras maneiras, por exemplo, levando pacientes ao topo de arranha-céus virtuais para que enfrentem o medo de altura, ou a um bar virtual, para lidar com o vício em álcool.

Com aporte da empresa de investimentos Sequoia Capital, a Limbix ainda não completou um ano. Os criadores do novo serviço, incluindo o diretor-executivo, Benjamin Lewis, trabalharam nas pioneiras iniciativas em realidade virtual do Google e do Facebook.

A Limbix se vale de mais de duas décadas de pesquisas e testes clínicos envolvendo a realidade virtual e a terapia de exposição. Num momento em que visores como Daydream e Oculus, do Facebook, encontram dificuldade para alcançar um público mais amplo no mundo dos jogos, a psicologia é uma área para a qual a realidade virtual pode trazer benefícios, de acordo com especialistas em medicina e tecnologia.

Já nos anos 1990, testes clínicos mostravam que esse tipo de tecnologia poderia ajudar no tratamento de fobias e outros traumas, como o distúrbio de estresse pós-traumático.

Tradicionalmente, os psicólogos tratam esses traumas ajudando os pacientes a imaginar que estão diante do medo, recriando mentalmente uma situação em que possam lidar com suas ansiedades. A realidade virtual leva as coisas um passo além.

“Temos bastante confiança no efeito positivo da RV no tratamento com a terapia de exposição, suplementando os recursos da própria imaginação do paciente”, disse Skip Rizzo, psicólogo clínico da Universidade do Sul da Califórnia.

Barbara Rothbaum ajudou como uma das pioneiras da prática na Faculdade de Medicina da Universidade Emory, em Atlanta, e o trabalho dela deu origem a uma empresa chamada Virtually Better, que há muito oferece ferramentas de realidade virtual para terapia de exposição destinadas a médicos e hospitais por meio de uma geração mais antiga de visores. De acordo com um teste clínico que ela ajudou a desenvolver, a realidade virtual se mostrou tão eficaz quanto viagens ao aeroporto no tratamento do medo de voar, com 90% dos pacientes superando a ansiedade.

Tecnologias como essa também se mostraram eficazes no tratamento do distúrbio de estresse pós-traumático (PTSD) entre veteranos de guerra. Diferentemente dos tratamentos construídos em torno da imaginação, a realidade virtual pode obrigar os pacientes a enfrentar seus traumas passados.

“O PTSD é um distúrbio que a pessoa evita enfrentar. Ninguém quer pensar nisso”, disse ela. “Precisamos do envolvimento emocional do paciente e, com a realidade virtual, isso é mais difícil de evitar”.

Agora, visores como o Daydream, do Google, que funciona em sincronia com smartphones comuns, e o Oculus, do Facebook, visor completo de US$ 400 que deu início ao novo ressurgimento das tecnologias de realidade virtual, podem trazer esse tipo de terapia a um público muito mais amplo.

A Virtually Better construiu sua tecnologia a partir de hardware de realidade virtual cujo valor unitário era na casa de milhares de dólares. Hoje, a Limbix e outras empresas, como a startup espanhola Psious, podem oferecer serviços muito mais acessíveis. A Limbix começa a disponibilizar suas ferramentas a psicólogos e outros terapeutas fora do grupo de testes iniciais. Por enquanto o serviço é gratuito, e a empresa planeja oferecer ferramentas mais sofisticadas no futuro.

Especialistas alertam que um serviço como o apresentado pela Limbix exige a orientação de psicólogos treinados e ainda está em desenvolvimento.

A Limbix trabalha com seu próprio psicólogo, Sean Sullivan, que ainda atende em seu consultório em San Francisco.

Sullivan está usando o novo serviço para tratar pacientes, incluindo um jovem que tinha medo de voar. Usando o serviço com a orientação de Sullivan, o rapaz, que pediu para não ter o nome revelado, passou várias sessões visitando um aeroporto virtual e, finalmente, pilotando um avião virtual.

Sob certos aspectos, disse o homem, o serviço ainda pode ser aperfeiçoado. Parte do mundo virtual é estática, construída a partir de imagens. Mas essas ferramentas ainda estão evoluindo na criação de cenas mais realistas.

E, mesmo no formato atual, o serviço é convincente. Recentemente o paciente embarcou num voo longo — e real. [Cade Metz]