AFROPUNK 2020: o festival feito com dendê

Por Pedro Batalha

Pedro Batalha e Hisan Silva com Afrocidade

Criado em 2005 como um espaço político de protagonismo e emancipação da cultura negra no mundo, o festival Afropunk desembarcou em Salvador, na Bahia, com um enorme desafio pela frente: produzir shows simultâneos em quatro lugares no mundo durante uma pandemia. “Foi uma correria enorme, porque a gente vive em uma cidade que não tem tanta estrutura quanto o eixo Rio-São Paulo, então foi uma aposta muito grande escolher a Bahia como base do Afropunk esse ano”, nos contou Bruno Zambelli, diretor criativo responsável pela direção dos shows nacionais na edição que aconteceu 100% digital durante o último final de semana.

As apresentações foram gravadas no atual Centro de Convenções de Salvador e no histórico Passeio Público, em frente ao Teatro Vila Velha. Com poucos dias para realização das gravações, a equipe de produção pensou em alternativas criativas e eficazes para mostrar ao mundo o melhor que a Bahia tem a oferecer culturalmente.

>Veja o estilo vibrante do público do Afropunk 2019<

Além de ser espaço de diversidade musical, o festival também é um espaço para explorar as possibilidades de criação de imagem de moda e foi pensando nisso que os estilistas Pedro Batalha e Hisan Silva, da Dendezeiro, assinaram o styling e o figurino do Global Stage, vestindo artistas como Larissa Luz, Àttoxxá, Afrocidade, Hiran e Mahal Pita. A maquiadora de Lailane Dorea (Beberes) foi responsável pela beleza dos artistas.

Com apenas quatro dias para criar e produzir figurinos para mais de 20 artistas performarem durante o festival, os estilistas, junto com a direção criativa de Bruno Zambelli e a direção de arte de Leonardo Tavares, deram vida ao conceito de cada show.

O show do Àttoxxá teve participação de Hiran e tinha como tema a Nasa, representada através de iluminação e projeções espaciais. O figurino foi pensado para transformar os integrantes da banda em ‘Astronautas Baianos’ através de uma releitura fashion de um uniforme espacial. Os macacões brancos foram decorados com listras bordô que trouxeram um toque de sportswear para a estética espacial. Hiran foi representado como um ser alienígena punk do espaço, com peças como uma camisa de paetê prata e um colar metálico da Afrotik. “Estar no Afropunk foi uma experiência incrível. Eu sempre sonhei em estar em um palco dessa magnitude, ainda mais com uma causa tão nobre e tão próxima de quem eu sou” disse Hiran.

>Veja o editoral Hiran<

Áttoxxá. foto: hisan silva
ÁTTOXXÁ. FOTO: HISAN SILVA

As cenas da cantora Larissa Luz com participação de Carlinhos Brown tiveram múltiplos conceitos que se conectam em um único tema: ‘Ancestralidade Futurista’. Os figurinos propunham uma releitura das tradições de religiões de matriz africanas, banhando diversas simbologias religiosas num futurismo baiano. Em um dos seus figurinos, a cantora faz referência ao orixá Iansã, através de uma armadura prateada com búzios cromados confeccionada pelo Atelier Fabulous em Salvador, sugerindo o culto e a permanência dessa matriz no futuro.

larissa luz. foto: hisan silva
LARISSA LUZ. FOTO: HISAN SILVA

A performance do Afrocidade com Majur e Mahal Pita com a temática de “Cidade”, era o momento de mostrar um pouco de Salvador através do cenário e do figurino. Com isso, os estilistas reuniram diversas marcas soteropolitanas de microempreendedores – a maioria encabeçada por pessoas negras. Estão entre elas: Munira, Teroy13 e artistas como Dulove e Bernardo Conceição. Majur foi vestida pelo stylist Bruno Pimentel com um look da estilista Jal Vieira e acessórios de Flávia Schumann.

Produção dos shows

Os shows tiveram estruturas de iluminação e projeção criadas especialmente para cada apresentação. O artista digital Leonardo Tavares foi um dos nomes que trabalhou pela primeira vez num audiovisual dessa magnitude. “Foi um sentimento que eu, desde que recebi o convite até hoje, não consigo explicar. Sempre foi um sonho ir ao festival, mas ter meu dedo num projeto desses foi mágico. Trabalhar dessa maneira com audiovisual foi algo que eu nunca havia feito e tô muito feliz com o resultado de tudo. Salvador foi o lugar certo pra que esse rolê acontecesse, afinal, é o maior festival de cultura preta do mundo acontecendo na cidade mais preta fora da África”, diz Leonardo.

Afrocidade. Foto: Hisan Silva

Todo o braço brasileiro do festival foi construído por uma equipe baiana, do processo de concepção à produção, figurino e styling, montagem de equipamentos e estrutura e diversos outros serviços. “O mundo precisa entender o que a gente faz. Não é pra sermos vistos como ‘menores ou pequenos’ e sim em um nível global. A gente faz história e forma opinião”, ressalta Zambelli.

No meio do festival, o FFW bateu um papo com a coordenadora de produção Joyce Alexandrino.

Como foi o processo de produzir o festival Afropunk? 

Afropunk é sempre um desafio! Sempre acompanhei o movimento, de longe, através das redes e porque esse é um universo com o qual eu me identifico muito. Quando trabalhei na produção do Carnaval Afropunk – primeira iniciativa do festival aqui na cidade -, o processo já foi intenso e prazeroso e agora essa emoção se repetiu. Foi rápido, tivemos poucos dias para produzir tantas atrações e conteúdos diferentes, mas por contarmos com uma equipe que já conhece e se reconhece na proposta do projeto, as coisas fluíram muito bem. Estamos orgulhosos e confiantes de ter feito um trabalho que apresenta e representa muito bem os talentos afrobaianos.

Para você, qual a importância deste festival ter ocorrido na Bahia?

Acho que essa é uma importância que estamos construindo desde a confirmação de que a primeira edição do festival na América Latina aconteceria na Bahia. Quando um projeto desse tamanho decide apostar numa cidade, isso traz movimento para diversas áreas, dos artistas à rede hoteleira e, mais do que isso, planta frutos. O plano era realizar a primeira edição física agora em novembro na cidade, mas por conta da pandemia houve o adiamento. Na primeira versão global e digital do festival, tivemos talentos baianos que têm um valor artístico enorme e que, mais do que isso, inspiram novos criadores a acreditarem que é possível estar no maior festival de cultura negra do mundo sem sair da própria cidade. Então podemos dizer que isso é importante para a Bahia porque potencializa a cena que temos hoje e nos motiva a construir possibilidades para a juventude preta no futuro.

Larissa Luz. Foto: Hisan Silva
Larissa Luz. Foto: Hisan Silva
Hiran. Foto: Hisan Silva

Luxo, mistério e grande elenco em ‘The undoing’, nova série da HBO

Nicole Kidman e Hugh Grant em ‘The undoing’, série da HBO (Foto: Divulgação/HBO)

HBO não atendeu à insistência de fãs de “Big little lies” que pediam uma terceira temporada quando a série terminou, ano passado. Mas fez melhor: lança hoje “The undoing”. As produções têm em comum figuras essenciais. Nicole Kidman, de novo, além de estrelar é produtora executiva. E David Kelley assina o roteiro, que se inspira num romance (“You should have known”, de Jean Hanff Korelitz). Num primeiro momento, uma trama lembrará a outra. À medida que o espectador for avançando, porém, ele entenderá as diferenças também estruturais entre os enredos. Cada um com os seus encantos.

Nicole é Grace, uma psicanalista. Muito engajada num grupo de mães da escola do filho de 10 anos, circula em meio a personagens ricos, como ela. A futrica e o clima competitivo entre as mulheres equivalem aos da trama passada na Califórnia. Em vez da ensolarada Monterey, o ambiente é a Nova York dos casacos pesados e da fumaça de vapor saindo dos bueiros. Somos apresentados ao casal Grace e Jonathan Fraser (Hugh Grant), um pediatra inglês especializado em oncologia. Eles vivem num apartamento elegante com o filho, Henry (Noah Jupe), em clima de aparente felicidade. Dormem abraçados e namoram sob o chuveiro. O menino recebe a educação dos abastados e é tratado com delicadeza pelos pais.

No primeiro episódio, Grace se reúne com outras mães para organizar uma noite de gala: um leilão beneficente arrecadará ainda mais fundos para a escola. Nesse encontro tão cheio de ordem, uma copeira de uniforme engomado serve docinhos enquanto as mulheres bem vestidas falam de amenidades. Todo esse arranjo tranquilo é abalado quando Elena Alves (Matilda De Angelis) irrompe na sala. Ela surge com um bebê nos braços. Sem fazer cerimônia, levanta a blusa e amamenta o filho, quebrando aquela perfeição de modos geral e provocando um mal-estar inaudito. Diferentemente das outras mães, a moça mora no Harlem, área mais pobre da cidade, e seu filho é bolsista. Tem um ar triste. O gesto de Elena é só um prenúncio da dinâmica que puxa a dramaturgia de “The undoing”: nela, tudo se desfaz o tempo inteiro, como indica o título. A aparente estabilidade dos personagens vai sendo rompida em etapas, até a corda esticar e a eletricidade da história subir a limites inimagináveis. Um crime e um desaparecimento abalarão a vida de Grace, transformando o drama do início num mistério policial. Não digo mais para evitar o spoiler.

A série tem ainda um elenco de primeiríssima. Donald Sutherland faz o pai da protagonista. Edgar Ramirez é um detetive e Lily Rabe, Sylvia Steinetz, amiga de Grace. Diferentemente de “Big little lies”, não há pausas para respirar ou rir. É tudo mais pesado e assustador. Não perca. [PATRÍCIA KOGUT]

James Gunn e O Esquadrão Suicida estampam capa da revista Empire

Edição de dezembro pretende mergulhar na sequência do filme da DC
ARTHUR ELOI

A revista Empire revelou que a capa da edição de dezembro de 2020 será estampada pelo Esquadrão Suicida de James Gunn.

A arte reúne os coloridos personagens da sequência, com a Arlequina (Margot Robbie) logo no centro. Há ainda uma versão exclusiva, que traz o diretor junto ao elenco.

O Esquadrão Suicida usará alguns dos mesmos personagens do longa de David Ayer, mas não terá tantas conexões com a trama. O longa deve se inspirar nas HQs do grupo na década de 1980, escritas por Jon Ostrander e Kim Yale.

Keith Jarrett encara um futuro sem piano depois de sofrer dois derrames

Músico rompe silêncio de anos e revela que é improvável que volte a se apresentar
Nate Chinen

O pianista Keith Jarrett – Daniela Yohannes/ECM Records/NY Times

THE NEW YORK TIMES – Da última vez que Keith Jarrett se apresentou em público, seu relacionamento com o piano era a menor de suas preocupações. Foi no Carnegie Hall, em 2017, algumas semanas depois do início do governo de um presidente novo e polarizador.

Jarrett —um dos mais elogiados pianistas vivos, um artista de jazz galvanizador que também gravou um grande repertório de música clássica— abriu o show com um discurso indignado sobre a situação política, e disparou comentários ininterruptos durante o concerto. Ele encerrou agradecendo a audiência por levá-lo às lágrimas.

Jarrett deveria voltar ao Carnegie Hall no mês de março seguinte para outro dos recitais solo que tanto fizeram para estabelecer sua lenda, como o capturado no disco “Budapest Concert”, que sai em 30 de outubro.

Mas o show no Carnegie Hall foi cancelado abruptamente, assim como as demais apresentações que o pianista tinha em seu calendário. Na época, a ECM, gravadora pela qual Jarrett lança seus trabalhos há muito tempo, mencionou problemas de saúde não especificados. Não houve atualizações oficiais sobre a situação de Jarrett nos dois últimos anos.

Mas este mês, Jarrett, 75, rompeu o silêncio e revelou claramente o que aconteceu com ele: um derrame no final de fevereiro de 2018, seguido por um novo acidente vascular em maio. É improvável que ele volte a tocar em público.

“Fiquei paralisado”, ele disse ao The New York Times, falando por telefone de sua casa, no noroeste do estado de Nova Jersey. “Meu lado esquerdo continua parcialmente paralisado. Consigo andar, com a ajuda de uma bengala, mas demorei muito tempo para isso. Foi preciso um ano ou mais de trabalho. E não estou me movimentando muito nem dentro de casa, para dizer a verdade.”

Jarrett não percebeu inicialmente como seu primeiro derrame tinha sido grave. “Fui com certeza apanhado de surpresa”, ele disse. Mas depois que emergiram novos sintomas, ele foi levado a um hospital, onde gradualmente se recuperou o bastante para ter alta. O segundo derrame aconteceu em casa, e ele foi internado em uma lar de repouso.

No período que passou lá, de julho de 2018 a maio deste ano, Jarrett fez uso esporádico da sala de piano, tocando alguns contrapontos com a mão direita. “Fiquei tentando fingir que era Bach com uma mão só”, ele disse. “Mas era só uma brincadeira.” Quanto tentou tocar alguns temas conhecidos de bebop em seu estúdio caseiro, recentemente, ele descobriu que tinha esquecido as melodias.

A voz de Jarrett é mais suave e fraca, agora. Mas ao longo de duas conversas cada qual com cerca de uma hora de duração, ele provou estar lúcido e legível, apesar de algumas falhas de memória ocasionais. Declarações mais pesadas ou canhestras eram pontuadas por um risinho que parecia uma exalação vagamente rítmica: ah-ha-ha-ha.

Criado na religião ciência cristã, que defende que tratamentos médicos sejam evitados, Jarrett retornou a essa âncora espiritual —até certo ponto. “Não costumo ficar indagando ‘por que eu?’, pelo menos não frequentemente”, ele disse. “Porque, como cientista cristão, a expectativa seria que eu dissesse ‘vade retro, Satanás’. E isso foi algo que de certa forma fiz, quando estava internado. Não sei se tive sucesso, porém, porque cá estou eu”.

“Não sei qual deve ser meu futuro”, acrescentou. “No momento, não sinto que sou um pianista. É tudo que posso dizer a esse respeito.”

Depois de uma pausa, ele reconsiderou. “Mas quando ouço música para piano tocada com as duas mãos, é muito frustrante, de um jeito físico. Se ouço Schubert, ou alguma coisa tocada suavemente, isso é mais que o bastante. Porque sei que não conseguiria mais fazê-lo. O máximo de recuperação que posso conseguir em minha mão esquerda é talvez voltar a ser capaz de segurar uma xícara. Assim, não estamos em uma daquelas situações do tipo ‘atire no pianista’. A situação é: ‘já levei o tiro’. Ah-ha-ha-ha.”

Se a perspectiva de um Keith Jarrett que já não se considera pianista é chocante, talvez isso aconteça porque é difícil recordar um momento em que ele não o tenha sido. Criado em Allentown, Pensilvânia, ele foi uma criança prodígio. De acordo com o folclore familiar, Jarrett tinha três anos quando uma tia apontou para um riacho próximo e disse que ele devia transformar seu ruído em música —o primeiro improviso dele ao piano.

O público mais amplo descobriu sua existência no final da década de 1960, quando ele se tornou parte de um grupo liderado pelo saxofonista e flautista Charles Lloyd que personificava o “zeitgeist”. O brilhante baterista do grupo, Jack DeJohnette, em seguida ajudou a encaminhar Miles Davis ao rock e ao funk. Jarrett seguiu o caminho do colega, e se tornou parte de uma versão incandescente da banda de Davis; nas gravações ao vivo, seus interlúdios ao piano elétrico são fascinantes.

Jarrett não demorou a chegar a um resultado semelhante em seus shows pessoais, permitindo que as passagens improvisadas se tornassem o evento principal. Ele estava trabalhando há alguns anos com essa abordagem, em 1975, quando tocou o que viria a ser conhecido como “The Köln Concert”, um marco sonoro hipnotizante que continua a ser um dos discos de piano solo mais vendidos de todos os tempos.

O disco também foi apontado como exemplo de triunfo sobre a adversidade, que incluía tanto dores físicas e a exaustão de Jarrett naquele momento quanto sua frustração por estar tocando um piano de má qualidade.

Keith Jarret após uma apresentação no teatro La Fenice, em Veneza, em um evento de jazz – Michele Crosera -19.ju.2006/AFP

Essa sensação de superar obstáculos intransigentes é um traço duradouro do mito de Jarrett. Às vezes, ao longo dos anos, chegava a parecer que ele mesmo criava obstáculos para sua carreira. Transformava seus concertos em testes de intensidade hercúlea, e costumava interrompê-los para ralhar com a audiência por tirar fotos ou porque alguém estava tossindo demais.

Um perfil de Jarrett publicado pela The New York Times Magazine em 1997 trazia uma manchete irônica: “O mártir do Jazz”. No ano seguinte, Jarrett anunciou que vinha lutando contra uma enfermidade complicada e misteriosa conhecida como síndrome de fadiga crônica.

Enquanto readquiria a força, ele gravou uma série de “songbooks” de baladas em seu estúdio caseiro, mais tarde reunidos no tocante e belíssimo disco “The Melody at Night, With You”. Depois ele voltou a reunir o trio com quem trabalhava há muito tempo, uma unidade magicamente coesa com DeJohnette e o virtuose do baixo Gary Peacock.

O primeiro show de seu retorno, em 1998, surgiu recentemente em disco, ampliando uma discografia já volumosa. O álbum captura um espírito de reunião jubiloso não só entre Jarrett e seus colegas de grupo, mas também entre o artista e seu público. O disco leva o título de “After the Fall”; a ECM o lançou em março de 2018, inadvertidamente pouco depois do primeiro derrame do pianista.

Perdas vêm abalando o círculo musical de Jarrett, recentemente. Peacock morreu no mês passado, aos 85 anos. Jon Christensen, baterista do influente quarteto que Jarrett liderou na Europa na década de 1970, morreu alguns meses atrás.

Jarrett também liderou um quarteto inovador nos Estados Unidos, nos anos 1970, e os demais membros —o saxofonista Dewey Redman, o baixista Charlie Haden, o baterista Paul Motian, todos figuras importantes do jazz moderno— também já morreram.

Diante dessas e de outras verdades difíceis, Jarrett não vem exatamente encontrando consolo na música, como seria o caso no passado. Mas ele extrai satisfação de algumas das gravações de sua última turnê solo pela Europa.

O pianista instruiu a ECM a lançar o concerto final da turnê no ano passado, com o título “Munich 2016”. E mostra ainda mais entusiasmo pelo show de abertura da temporada, “The Budapest Concert”, que ele chegou a pensar em definir como “o padrão ouro”.

Ao começar a chegar a um acordo com os trabalhos que registrou no passado como fato consumado, Jarrett não hesita em fincar suas bandeiras.

“Sinto que sou o John Coltrane dos pianistas”, ele disse, mencionando o saxofonista que transformou a linguagem e o espírito do jazz na década de 1960. “Todo mundo que tocou saxofone depois dele demonstrou o quanto lhe devia. Mas não por meio da música que faziam, que era só uma imitação.”

E é claro que imitação —mesmo imitação do próprio estilo— é anátema ante a invenção pura, partindo da página em branco, que Jarrett afirma ser seu método. “Não faço ideia do que vou tocar, antes de um show”, disse Jarrett. “Se tenho uma ideia musical, digo não a ela.” (Ao descrever seu processo, ele ainda prefere falar no presente.)

Para além de seus recursos criativos, as condições de cada show são únicas: as características do piano, o som da sala, o clima da audiência, até mesmo o jeito da cidade. Jarrett tinha tocado quatro vezes em Budapeste antes de seu show de 2016 na Sala Nacional de Concertos Bela Bartok, sentindo uma afinidade que atribui a fatores pessoais: sua avó materna era húngara, e ele estava acostumado desde a infância a tocar a música de Bartok.

“Eu sentia ter algum motivo para estar próximo daquela cultura”, ele afirmou.

O uso da música folclórica por Bartok e outros compositores húngaros foi mais um estímulo para conduzir Jarrett a uma qualidade sombria —“uma espécie de tristeza existencial, que podemos chamar de uma profundidade”— que é presença poderosa na primeira metade do concerto.

A segunda metade, algo que os admiradores de “The Köln Concert” apreciarão, traz algumas das composições improvisadas mais cintilantes da carreira de Jarrett. As baladas em questão, como “Part V” e “Part VII”, cintilam diante de bases atonais aceleradas ou derivadas do bebop, construindo gradualmente um argumento em favor de uma expressão madura que não teria sido possível em estágios anteriores de sua carreira.

Parte dessa evolução tem a ver com a estrutura dos concertos solo de Jarrett, que costumavam se desenrolar em arcos longos e ininterruptos mas agora envolvem uma série de peças separadas, com pausas para aplausos. Muitas vezes, a forma que serve como traço de união a esses concertos mais recentes só se torna aparente em retrospecto. Mas o concerto de Budapeste foi uma exceção.

“Eu percebi enquanto ainda estava tocando, o que explica porque o escolhi como o melhor show da turnê”, disse Jarrett. “Eu soube na hora. Sabia que havia alguma coisa acontecendo.”

O fator crucial, ele reconheceu, foi uma audiência incrivelmente receptiva. “Algumas audiências parecem aplaudir mais quando há algo de louco acontecendo”, ele disse. “Não sei por quê, mas não era o que eu estava procurando em Budapeste.”

Já que Jarrett produziu a vasta maioria de sua obra gravada diante de uma audiência, a reputação dele por ranzinzice talvez seja mais fácil de compreender como o lado turbulento de uma relação de codependência.

Ele expressou a questão de modo muito sucinto durante um concerto solo no Carnegie Hall em 2015, quando anunciou: “Eis uma coisa importante que ninguém parece perceber: eu não conseguiria sem vocês/”

Ao renegociar seus laços com o piano, Jarrett enfrenta a probabilidade de que aquela outra relação —a que o une ao seu público— tenha chegado ao fim.

“No momento, não consigo nem falar sobre isso”, ele disse, quando a questão surgiu, rindo sua risadinha enigmática. “É o que sinto a respeito.”

E embora a magnífica realização do concerto de Budapeste seja fonte de orgulho, não é difícil perceber que ela também pode ser interpretada como uma demonstração do espírito zombeteiro do universo.

“Só posso tocar com a mão direita, e isso não me convence mais”, disse Jarrett. “Cheguei a ter sonhos em que estou tão limitado quanto estou na realidade —e assim me vejo tentando tocar, em meus sonhos, mas eles são como a vida real.”

Tradução de Paulo Migliacci 

Série ‘Bárbaros’, da Netflix, recria batalha entre o Império Romano e povos germânicos

Batalha da Floresta de Teutoburgo marcou derrota romana e fim da expansão do império para o norte

Barbaros
Laurence Rupp vive um bárbaro criado por romanos em ‘Bárbaros’ Foto: Netflix

A série Bárbaros, da Netflix, lançada nesta sexta-feira, 23, recria um dos mais relevantes períodos da história antiga: a Batalha da Floresta de Teutoburgo. O confronto entre o Império Romano e povos germânicos no ano 9 d.C. marcou uma importante derrota de Roma e decretou o fim da expansão imperial para o norte da Europa.

A produção alemã estrelada pelo austríaco Laurence Rupp (de Os Sonhados) foi criada por Arne Nolting, Jan-Martin Scharf e Andreas Heckmann. A direção fica a cargo de Barbara Eder e Steve Saint Leger, de Vikings.

Rupp interpreta Arminius, um bárbaro criado e treinado pelos romanos que acaba se tornando um líder militar germânico e arma uma emboscada para destruir três legiões romanas que dominavam territórios onde hoje fica a Alemanha.

A batalha retratada pela série, que conta com seis episódios, foi importante porque definiu o rio Reno como fronteira do Império Romano – fronteira essa que seria invadida séculos mais tarde pelos povos germânicos.

Ainda que Roma continuasse a se expandir por muito tempo em outras direções, essa batalha é um ponto de virada na relação do império com os povos germânicos.

Chamados de “bárbaros” pelos romanos por não conseguirem falar o idioma latino adequadamente, as recorrentes invasões desses povos a Roma iriam contribuir em larga medida para o declínio e  queda do Império Romano.

Confira o trailer de Bárbaros

Adele deixa fãs impressionados em novo vídeo após emagrecer 45 kg

H.E.R., Adele, Kate McKinnon em promo do programa Saturday Night Live (Foto: Reprodução NBC)

É a primeira vez em três anos que Adele aparece em um programa de TV. Em um teaser para o próximo episódio de ‘Saturday Night Live’, a cantora mostrou sua surpreendente perda de peso de 45 kg e deixou os fãs boquiabertos. A cantora de 32 anos também deixou escapar um sotaque americano enquanto brincava com a tentativa da comediante Kate McKinnon de imitar um sotaque britânico.

Em outra parte do clipe, ao apresentar o convidado musical do episódio, a cantora H.E.R, Adele pareceu sugerir que ela se apresentaria sozinha, ao dizer: “Ou talvez [o convidado musical] seja eu?”. Adele, vencedora do Grammy por 15 vezes, deixou os fãs confusos sobre sua participação no programa: não se sabe se ela se apresentará cantando no programa de esquetes enquanto H.E.R também apresentará seu novo single, Damage, ou se Adele participará como atriz.

O último show ao vivo de Adele foi no final de sua turnê de 2017, pouco antes de ela desistir de seus dois últimos shows no Estádio de Wembley, após danificar suas cordas vocais. Na época, ela disse em uma carta que foi forçada a cancelar os shows para uma audiência de 100.000 pessoas em Londres, revelando que estava “desesperada” para fazer os shows – que ela chamou de um “marco” em sua carreira.

Já se passaram quase 12 anos desde que Adele apareceu como convidada musical do SNL pela primeira vez ao lado de Josh Brolin. Ela então voltou em 2015 ao lado de Matthew McConaughey. Adele disse: “Isso acabou iniciando minha carreira na América, então parece que o círculo está completo e eu simplesmente não poderia dizer não!”.

Apple TV+: Scarlett Johansson estrelará filme do diretor chileno Sebastián Lelio

“Bride” será uma releitura do clássico “A Noiva de Frankenstein”

Scarlett Johansson In Balmain @ 2020 Film Independent Spirit Awards

 Segundo o The WrapScarlett Johansson (“Vingadores: Ultimato”) estrelará “Bride”, novo filme do aclamado diretor chileno Sebastián Lelio, que recentemente venceu o Oscar de filme estrangeiro por “Uma Mulher Fantástica”.

“Bride” é descrito como uma releitura do clássico do horror “A Noiva de Frankenstein”: aqui, teremos Johansson como uma mulher criada por um empreendedor genial, milimetricamente pensada para ser a esposa perfeita. Eventualmente, entretanto, ela rejeita sua razão de vida, foge do confinamento e precisa enfrentar um mundo que a considera um monstro — descobrindo, ao mesmo tempo, sua verdadeira identidade e seus poderes particulares.

O filme representará a terceira parceria da Apple com o estúdio A24, depois de “On The Rocks” e “O Céu em Todo Lugar”. Lelio escreverá o roteiro do filme junto a Lauren Schuker Blum e Rebecca Angelo, de “Orange is the New Black”, e Johansson atuará como produtora do filme.

Ainda não há mais informações sobre elenco, filmagens ou previsão de estreia.

Stranger Things 4 | Robin, Steve e Dustin se reúnem em fotos do set

Ao lado de Max, equipe da terceira temporada marcará presença no ano inédito
ARTHUR ELOI

A quarta temporada de Stranger Things já está sendo gravada, e o novo contará com o retorno de uma das melhores equipes da série: Steve (Joe Keery), Robin (Maya Hawkin) e Dustin (Gaten Matarazzo).

Novas fotos de bastidores mostram o trio reunido – junto com Max (Sadie Sink) – na frente da locadora em que Steve trabalha. Veja abaixo:

A produção de Stanger Things foi retomada em setembro após uma pausa por conta da pandemia do novo coronavírus. Ainda não há previsão de estreia para os episódios inéditos. Já as temporadas anteriores estão disponíveis no catálogo da Netflix.

Gloria Groove inicia fase de R&B com o single “A Tua Voz”

Faixa inédita também ganhou clipe
ARTHUR ELOI

Para marcar o início de uma nova fase, a cantora Gloria Groove lançou hoje (22) o single inédito “A Tua Voz”, que também ganhou clipe. Veja acima.

Groove chama o projeto de Affair, e descreve a nova fase como “a era R&B”. O último single da cantora saiu em agosto de 2020, chamado de “Deve Ser Horrível Dormir Sem Mim”, em parceria com Manu Gavassi.