Beyoncé, Radiohead e Kendrick Lamar são atrações do festival Coachella deste ano

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A organização do Coachella divulgou nesta terça-feira, 3, o line-up da edição deste ano do festival de música. Beyoncé, Kendrick Lamar, Radiohead e o compositor Hans Zimmer são as principais atrações do evento deste ano.

As principais atrações das sextas (14 e 21 de abril) são Radiohead, Father John Misty, The XX e mais. Já nos sábados (15 e 22 de abril), o festival contará com Beyonce, Bon Iver, Future e diversas outras atrações. Os shows dos domingos (16 e 23 de abril) incluem Kendrick Lamar, Lorde, Hans Zimmer e New Order.

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Um presente de ano novo de Brian Eno: um jardim musical em crescimento

Brian Eno, a musician and producer, at his studio.O compositor e pioneiro da música ambiente (ambient music) Brian Eno uma vez escreveu que considera possível que “nossos netos nos olhem e pensem: ‘Quer dizer que você costumava ouvir exatamente a mesma coisa várias vezes seguidas?'”.

Com seu mais novo álbum, Reflection, lançado no domingo, 1º, seu sétimo disco em sete anos, Eno está na sua tentativa mais ousada até agora de criar o que ele descreveu como uma terceira categoria de música, a generativa, para se juntar às duas que conhecemos — ao vivo e gravada. Usando algoritmos e uma tecnologia portátil cada vez mais poderosa, a música generativa, segundo ele, vai permitir que ouvintes escutem canções que se recriam novamente todo dia, ou noite, mudando de acordo com o tempo, o humor, o clima e outras variáveis.

A versão tradicional de Reflection é uma canção única de 54 minutos, parecida com o que Eno vem fazendo desde o fim dos anos 1970, e usa passagens meditativas em looping que mudam com variações lentas. Mas um aplicativo do projeto, disponível no iTunes, cria o que Eno chama de “uma versão sem fim e continuamente em mutação da peça de música”, tocando a partir dos algoritmos que ele afinou enquanto escutava semanas da música que o sistema criou. “É como jardinagem”, Eno escreveu sobre o processo no material promocional do projeto, que ele realizou com a ajuda de Peter Chilvers, um colaborador de longa data. “Você planta as sementes e então segue tomando conta delas até que tem um jardim de que goste.”

Eno, como um futurista, tem frequentemente acompanhado sua música com pronunciamentos políticos. Com o lançamento do novo álbum, ele postou seu pensamentos sobre o fim de 2016 num post muito compartilhado no Facebook. Nele, teorizou sobre como os desenvolvimentos políticos tumultuados do ano passado podem não marcar o começo de um período de declínio, mas o fim de um período que ele acredita que esteja acontecendo por 40 anos, marcado pela concentração de riqueza e pelo crescimento da ideologia que “zombou da generosidade social e patrocinou um tipo de egoísmo justificado”.

“No ano passado as pessoas começaram a acordar para isso”, Eno escreveu, acrescentando: “Acho que passamos por uma desilusão em massa em 2016, e finalmente percebemos que é tempo de pular fora da caçarola. Isso é o começo de algo grande. Vai envolver engajamento: não apenas tuítes, curtidas e passadas, mas ação política e social criativa, também.” / Tradução Guilherme Sobota – O Estado de S. Paulo

Randy Kennedy ,
The New York Times

Haruki Murakami e Seiji Ozawa trocam experiências sobre música em novo livro

CADERNO 2Duas visões. Obra traz reunião de diálogos entre o escritor Murakami e o maestro Seiji Ozawa


A música clássica não é estranha ao escritor japonês Haruki Murakami. Sua trilogia 1Q84 começa com um personagem ouvindo a Sinfonietta de Janácek. Bach, Brahms e Debussy povoam as páginas de Norwegian Wood. Mozart está por toda parte em Dance, Dance, Dance. Em O Incolor Tsukuru Tazaki, são os Anos de Peregrinação de Liszt que acompanham a viagem do protagonista rumo a si próprio – e a narrativa que transforma a voz única de Tsukuru em um caleidoscópio de versões de si mesmo sugere que, mais do que tema, a música é em muitos casos forma na obra do escritor.

Mas faltava um livro de Murakami sobre música. E é isso que ele nos oferece em Absolutely on Music. Recém-lançada no mercado americano e europeu, a obra é uma reunião de diálogos entre o escritor e outro ícone da cultura japonesa, o maestro Seiji Ozawa. Nome estelar da regência, durante 30 anos diretor da Sinfônica de Boston, ele precisou diminuir o ritmo de apresentações há alguns anos por conta de um câncer no esôfago. Com o tempo livre, aceitou o convite de Murakami para essas conversas.

O mundo da música clássica costuma ser tão fechado em torno de si mesmo que é, de cara, interessante vê-lo dialogar com outras áreas, aqui por meio da conversa entre maestro e escritor. E Murakami não é, de qualquer forma, um interlocutor qualquer. O próprio Ozawa, a certa altura, se surpreende com a invejável coleção de CDs e LPs do amigo, mas ressalta que seu conhecimento não é enciclopédico ou superficial: cada peça, cada gravação parece ter sido ouvida e refletida à exaustão.

Não por caso, são interessantes passagens como aquela em que ambos discutem diferentes interpretações de Ozawa para o mesmo concerto ou a mesma sinfonia; ou então o modo como relacionam a música de diferentes autores: Beethoven, diz Ozawa, trabalha o diálogo entre as partes, enquanto Brahms coloca o todo acima da sonoridade individual do instrumento. Já entre Mahler e Strauss, a diferença é outra: o primeiro trabalha com sons crus, enquanto a sonoridade straussiana é mais “redonda”.

Da mesma forma, é estabelecido um contato entre as gravações do pianista Glenn Gould e o conceito de “ma” presente na música asiática: a importância da pausa na interpretação, dos “espaços vazios” onde você simbolicamente coloca a sua audiência e a torna parte da interpretação musical. Outra noção é a da aproximação com o repertório ocidental por meio de uma “melancolia” particularmente japonesa.

Há muitos insights como esses, assim como história de juventude (aluno de Leonard Bernstein e Herbert von Karajan, Ozawa conta, com honestidade saborosa, que mal falava outro idioma além do japonês e, por conta disso, não entendia quase nada do que lhe era dito por ambos). Mas Murakami é um escritor e está interessado em aspectos extramusicais, ou em uma interessante reflexão quase filosófica sobre o ato de fazer música. E é aqui que há um descompasso claro entre os dois personagens. Quando Murakami pergunta sobre a liberdade do intérprete ou arrisca uma análise psicanalítica de Beethoven, Mahler e a relação de ambos com a tradição germânica (no primeiro, ela se dá na superfície; no segundo, nos subterrâneos da mente), fica no vácuo.

Esse descompasso não é necessariamente um problema. O próprio Murakami se dá conta dele quando escreve, na apresentação, que Ozawa vive em um mundo que “transcende o pensamento racional, da mesma forma que um lobo só pode viver nas profundezas da floresta”. Nesse sentido, Absolutely on Music pode decepcionar, mas não completamente. Afinal, na dificuldade de se definir ou pensar a música em palavras há muito a se descobrir sobre a nossa relação com essa forma de arte tão particular e, ainda assim, universal. [O Estado de S. Paulo]

ABSOLUTELY ON MUSIC
Autores: Haruki Murakami e Seiji Ozawa
Editora: Knopf (352 págs.; R$ 93 (versão e-book: R$ 49)

CINEMA | Estreias da Semana: Animais Noturnos, Invasão Zumbi, Um Gato de Rua Chamado Bob, Estados Unidos Pelo Amor…

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Confira agora os filmes que chegam às telas em 29 de dezembro

Animais Noturnos

A trama mostra a história de Susan, uma mulher que recebe um manuscrito do livro de seu ex-marido, um homem a quem ela deixou há 20 anos, pedindo sua opinião. O livro acompanha duas histórias: a história do romance, intitulado Animais Noturnos, que conta a história de um homem cuja família de férias se torna violenta e mortal; e a história de Susan, que se encontra recordando seu primeiro casamento e enfrenta algumas verdades escuras sobre si mesma.

Drama – (Nocturnal Animals) EUA, 2016. Direção: Tom Ford. Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Isla Fisher. Duração: 117 min. Classificação: 16 anos.

Invasão Zumbi

Um surto viral misterioso deixa a Coréia em estado de emergência. Como um vírus não identificado se alastra pelo país, o governo Coreano declara lei marcial. Todos que estão no trem expresso para Busan, uma cidade que defendeu com sucesso o surto viral.

Ação – (Busanhaeng) Coreia do Sul, 2016. Direção: Sang-Ho Yeon. Elenco: Yoo Gong, Dong-Seok Ma, Woo-Sik Choi. Duração: 120 min. Classificação: 14 anos.

Um Gato de Rua Chamado Bob

Um viciado tem sua vida mudada quando encontra um gato de rua.

Drama – (A Street Cat Named Bob) Inglaterra, 2016. Direção: Roger Spottiswoode. Elenco: Luke Treadaway, Ruta Gedmintas. Duração: 103 min. Classificação: não definido.

Estados Unidos Pelo Amor

A Polônia vive um momento eufórico de liberdade e incerteza com o futuro em 1990. Quatro mulheres em momentos peculiares de suas vidas lutam pela felicidade.

Drama – (United States of Love) Polônia, Suécia, 2016. Direção: Tomasz Wasilewski. Elenco: Julia Kijjowska, Magdalena Cielecka, Dorota Kolak. Duração: 104 min. Classificação: a definir.

As Mil e Uma Noites Vol.2 – O Desolado

O diretor Miguel Gomes segue contanto histórias fantasiosas inspiradas na crise econômica vivida por Portugal entre 2013 e 2014; neste volume: “Crônica de Fuga de Simão ‘Sem Tripas'”, “As Lágrimas da Juíza” e “Os Donos de Dixie”.

Drama – Portugal, França, Alemanha, Suiça, 2016. Direção: Miguel Gomes. Elenco: Crista Alfaiate, Joao Pedro Benard, Chico Chapas. Duração: 131 min. Classificação: a definir.

As Mil e Uma Noites Vol.3 – O Encantado

Terceira parte da série As mil e uma noites, neste volume os contos: “Xerazade”, “O Inebriante Canto dos Tentilhões” e “Floresta Quente”.

Drama – Portugal, França, Alemanha, Suiça, 2016. Direção: Miguel Gomes. Elenco: Crista Alfaiate, Joao Pedro Benard, Chico Chapas. Duração: 125 min. Classificação: a definir.

Debbie Reynolds, atriz e mãe de Carrie Fisher, morre aos 84 anos

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Debbie Reynolds e Carrie Fisher (Foto: Foto AP/Jill Connelly)
Debbie Reynolds, atriz, cantora e mãe de Carrie Fisher, morreu nesta quarta-feira (28) na Califórnia, nos Estados Unidos, aos 84 anos de idade. Reynolds sofreu um derrame quando estava na casa do filho, Todd Fisher, organizando o funeral da filha, que havia falecido no dia anterior.

Reynolds foi levada às pressas para um hospital mas não sobreviveu. Seu filho Todd disse, falando com a Variety sobre as últimas palavras da mãe, que Debbie “queria ficar com Carrie.”

Aos 16 anos, quando estudava em Burbank, Reynolds ganhou um concurso de beleza, e um contrato com a Warner Bros., e adquiriu um novo prenome. Após ganhar um contrato com a Warner Bros, ela obteve apenas um papel secundário em June Bride de 1948, seu filme de estreia.

Reynolds encontro o estrelato em 1952, quando ela fez o papel de Kathy em Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain), onde contracenou com Gene Kelly, co-diretor e protagonista do musical. Já em 1955, ela atuou com outro nome grande – Frank Sinatra em Armadilha Amorosa.

Já seu trabalho como a protagonista Molly Brown em A Inconquistável Molly, de 1964, rendeu sua primeira e única indicação ao Oscar. Em 2016, Reynolds foi a vencedora do Jean Hersholt Humanitarian Award, prêmio da Academia para personalidades com contribuições excepcionais em causas humanitárias.

A morte de Reynolds gerou uma enorme reação de Hollywood. A apresentadora e dubladora Ellen DeGeneres (Procurando Nemo, Procurando Dory) enviou uma mensagem de carinho para a família de Debbie e Carrie, falando que não consegue imaginar o que eles estão enfrentando.

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O cineasta e autor Albert Brooks disse que Reynolds foi sua “mãe de filmes” e afirmou que seu coração está com Billie Lourd, filha de Carrie Fisher e neta de Debbie.

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Já Grant Gustin, ator que vive Barry Allen em The Flash, falou que a atuação de Reynolds em Cantando na Chuva acendeu sua paixão por atuar. “Descanse com Carrie, Debbie,” disse Gustin.

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No último sábado, Carrie Fisher sofreu um ataque cardíaco em avião que ia do Reino Unido para Los Angeles. A atriz de 60 anos foi levada por paramédicos quando a aeronave chegou em Los Angeles. Os paramédicos precisaram de 15 minutos até recuperar a pulsação da atriz. [Guilherme Jacobs]

Carrie Fisher virou mito pop e ícone nerd como Leia na saga ‘Star Wars’

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Na sexta, 23, Carrie Fisher pegou um avião em Londres e voou para Los Angeles, para passar o Natal em família. Fora à Inglaterra para lançar o novo livro, Meu Diário como a Princesa Leia. Deu entrevistas, recebeu o carinho dos fãs. Ninguém imaginava que iria ocorrer aquilo – em pleno voo, sentiu-se mal. Desembarcou inconsciente, já diagnosticada com um ataque cardíaco. Surgiram algumas notícias otimistas, mas, no domingo, 25, em pleno Natal, o irmão pediu uma corrente de orações. Seu estado era crítico. Piorou ainda mais – na terça, 27, terminou a última batalha da princesa mais amada do cinema. Carrie Fisher morreu, aos 60 anos, que completou em 21 de outubro. Foi casada com Paul Simon, com quem teve a filha, Billie Catherine.

Na economia, na política, nas artes, 2016 tem sido duro. Acaba logo, ano. Que venha uma nova esperança em 2017. É justamente a fala final da princesa Leia em Rogue One – Uma História Star Wars, de Gareth Edwards. Embora muito bom, o filme – e também a animação Sing – está sendo atropelado pelo novo Paulo Gustavo, Minha Mãe É Uma Peça 2. Muita gente reclama da reduzida participação de Leia em Rogue One. A história do roubo dos planos da Estrela da Morte é anterior a O Retorno de Jedi, que virou Episódio VI. Carrie foi vista como uma Leia quase sexagenária, mas ainda firme na liderança dos rebeldes contra o Império em Episódio VII – O Despertar da Força. Que mágica poderia fazer com que ressurgisse jovem em Rogue One? A mágica chama-se ‘digitalização’. Não deu muito certo. Leia virou uma espécie de boneca, mas ainda será vista, em dezembro do ano que vem, quando estiver se completando um ano de sua morte, em Star Wars – Episódio VIII, ao lado do irmão, Luke Skywalker/Mark Hamill.

Filha da também atriz Debbie Reynolds, famosa por seus musicais na Metro – entre eles o clássico Cantando na Chuva –, Carrie tinha 2 anos quando seu pai, o cantor Eddie Fisher, foi consolar Elizabeth Taylor, que ficara viúva, e terminou abandonando mulher e filhos. Foi um típico escândalo hollywoodiano na segunda metade dos anos 1950 e, com certeza, repercutiu na vida familiar, mas fica para a psicanálise definir até que ponto isso contribuiu para o distúrbio de transtorno bipolar e o vício de cocaína que, em diferentes momentos, quase acabaram com a vida de Carrie. Em 1973, prestes a completar 18 anos, matriculou-se na London Central School of Speach and Drama. Na sequência, foi aceita no curso de Artes do Sarah Lawrence College, que abandonou ao ser escolhida para o papel de Leia em Star Wars/Guerra nas Estrelas, de George Lucas, em 1977.

Foi onde tudo começou – a saga intergaláctica, o megassucesso de Lucas e seu elenco. Carrie, Mark Hamill e, principalmente, Harrison Ford. Aos 21 anos, por insegurança ou o quê – talvez tenha sido só para desfrutar a nova liberdade que o feminismo concedera às mulheres –, Carrie já se transformara numa devoradora de homens. Entre seus casos, sim, você acertou, Harrison Ford e ela tiveram um tão tórrido quanto breve romance. Pouco antes, em 1975, ela fizera um pequeno papel em Shampoo, de Hal Ashby, e também andou ficando com Warren Beatty, que dividia o holofote com Julie Christie, sua parceira na época, e Goldie Hawn. Depois de Guerra nas Estrelas, Carrie seguiu aparecendo com destaque em O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, em 1980 e 83.

Fora da série, Carrie enumerou papéis de maior ou menor destaque em filmes de John Landis (Os Irmãos Cara de Pau), Sidney Lumet (Garbo Fala!), Woody Allen (Hannah e Suas Irmãs) e Rob Reiner (Harry e Sally – Feitos Um para o Outro). Foram anos de muita atividade, entre cinema e TV. Carrie virou ícone da cultura nerd. Vale lembrar que, no lançamento de O Retorno de Jedi, havia posado com um biquíni de metal na capa de Rolling Stone. A edição foi uma das que mais rapidamente se esgotou, em toda a história da publicação, e o biquíni tornou-se referência cultural do século 20. Mas o sucesso não lhe bastava. Sabe aquela angústia que corrói a alma? Carrie a sentia. Tentava aplacar com drogas, com sexo. Salvou-a, como ela disse certa vez, a escrita.

Em 1987, aos 31 anos, publicou o primeiro livro – Postcards from the Edge, parcialmente autobiográfico, sobre a relação tumultuada de uma jovem atriz viciada em drogas com a mãe estrela de cinema. Em 1990, Mike Nichols assinou a adaptação para cinema, com Meryl Streep e Shirley MacLaine nos papéis de, digamos, Carrie e Debbie. Chamou-se, no Brasil, Lembranças de Hollywood. Carrie tomou gosto pela escrita e não parou mais. Surgiram novos livros – Surrender the Pink, Delusions of Grandma. Carrie tornou-se roteirista, muitas vezes sem crédito, mas com a fama de conseguir consertar scripts mal escritos e estruturados. Um exemplo – Máquina Mortífera 3, o megahit de Mel Gibson e Danny Glover.

No teatro, fez Agnes de Deus, nos anos 1980. Mais de 20 anos depois, escreveu o espetáculo solo autobiográfico Wishful Drinking. Matou de rir plateias dos EUA e da Inglaterra com a desgraceira de sua história familiar. A peça virou livro (mais um) e a incansável Carrie ainda escreveu mais uma (auto)biografia – como a princesa Leia, sua personagem mais famosa. Para os fãs, como Leia, será eterna. Sua mãe, que já enterrou Eddie Fisher (em 2010) e Elizabeth Taylor, com quem voltara às boas (em 2011), enterra agora a filha. Que a Força esteja com Debbie.

Luiz Carlos Merten ,
O Estado de S.Paulo

“Animais Noturnos”, o filme corajoso de Tom Ford

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Susan, a personagem de Amy Adams no thriller psicológico “Animais Noturnos” do diretor Tom Ford

Tom Ford fez seu primeiro filmeDireito de Amar” em 2009 e o tom da crítica foi desigual. Teve quem elogiou mas também houve quem criticou a cinematografia extremamente cuidadosa e plástica, como numa propaganda de moda. Quem conhece o trabalho de Ford na indústria fashion, no entanto, já está familiarizado com essa estética dele desde sua estada na Gucci (nos anúncios com o fotógrafo Mario Testino e a stylist Carine Roitfeld). O que se convencionou chamar de porn chic seguiu como uma marca dele após sua saída do grupo Kering, sempre rodeado de polêmica: nu frontal masculino, mulheres-objeto com uma pele tão perfeita que parecem mulheres infláveis, um close em seios com um dos perfumes assinados por ele no meio, podolatria… A lista segue.

Mas qual, então, é a diferença entre o Tom Ford estilista e o cineasta? Ele seguiria nesse caminho mais plástico no cinema? Sim, mas a adaptação do livro “Tony and Susan“, de Austin Wright, que surge como o segundo filme dele – e estreia nessa semana nos cinemas brasileiros – mexe com o significado dessa plasticidade toda. Se a história original trazia Susan como uma professora, aqui Ford a modifica, transformando-a em uma dona de galeria de arte e fazendo com que a trama tenha um pano de fundo e subtextos envolvendo a classe alta americana, o mundo da arte contemporânea (em um contexto mercadológico, até) e as relações amorosas dessa elite intelectualizada. O que pega é que “Animais Noturnos” traz um olhar bem cruel (e muitos diriam realista) sobre tudo isso. Um estilista do mercado de luxo fazendo críticas ao estilo de vida de clientes potenciais em seu trabalho “mais artístico”, que tal? Por essa a gente não esperava… A gente te explica o longa de maneira mais profunda nos itens abaixo – confira:

“Então vocês querem algo mais imperfeito?” A 1ª cena do filme já foi bastante descrita por aí quando apareceu no Festival de Veneza, mas se você não quiser saber sobre ela, pare de ler agora! Se não: que tal trazer, logo de cara, um monte de mulheres de meia idade plus size? E mais: nuas, mostrando todo o corpo, se mexendo, sacolejando? Tudo isso com a iluminação caprichada e estética de propaganda de moda, claro, à moda Tom Ford. Parece uma resposta pra quem criticou “Direito de Amar” dizendo que ele era fashion demais. O mais estranho, na medida que a história se desenrola, é que você percebe que essa cena choca apenas num nível estético mesmo – existem situações muito mais estressantes no livro escrito por Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), que nos deixam bem mais incomodados.

. “A burguesia não fede, mas é bem triste.” Susan Morrow (Amy Adams) deixou uma juventude idealista pra trás e concretizou o seu pesadelo. Virou sua própria mãe, interpretada por Laura Linney, uma mulher burguesa e cheia de valores conservadores, que valoriza sua posição social a ponto de ignorar a crise em seu casamento pra mantê-la. Dá pra entender porque Ford não quis incluir roupas da sua marca no figurino – ninguém ia ter o desejo de vesti-las depois de assistir ao filme! Quem iria querer ser Susan? Ficamos até com pena dela, tipo “pobre menina rica”.

. “Deserto tenso!” A história do livro que dá nome ao filme, “Animais Noturnos”, e toma conta das cenas enquanto a personagem Susan a lê é bem angustiante e violenta, além de ser quase menos fashion. “Quase” porque ela é habitada por gente linda: o próprio Jake Gyllenhaal mais Isla Fisher e até Aaron Taylor-Johnson no papel de um delinquente. Algumas cenas fortes podem sofrer daquele mal que os críticos já reclamaram sobre a cinematografia à campanha de moda, mas aqui ela se justifica porque quem está lendo o livro e imaginando a história é justamente Susan – esse clima ficcional, portanto, faz sentido.

. “Mas afinal, a história é sobre o quê?” Cada um pode ter sua leitura, claro, mas a gente acha que ela fala bastante sobre como não dá pra fugir da realidade, transformando-a em ficção. E também sobre a valorização das aparências, o vazio existencial num mundo onde o estético está acima da ética. Ford, mais uma vez, trabalha com uma personagem mulher que é bela, mas sofre com o envelhecimento, com a vida que tem, com expectativas que não são atendidas. Bem diferente da mulher segura de si e da sua sexualidade que ele apresenta na passarela. Ou não?