Entre o industrial e o artesanato

A fundadora da Santa & Cole, Nina Masso, comenta os últimos lançamentos da tradicional editora de luminárias catalã

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Nina Masso, designer e fundadora da Santa&Cole apresenta uma das criações da marca Foto: Santa&Cole

Santa & Cole é uma editora de design catalã, pequena e global, interessada em oferecer ao mercado produtos bem projetados, sejam eles móveis domésticos, mobiliário urbano ou luminárias. Operando em 70 países, ela chega agora ao Brasil para compor a linha da FAS Iluminação. “Embora nossa gama de produtos seja vasta, todos eles partilham uma filosofia comum: não acumular, mas, sim, selecionar. Não se deliciar com a quantidade, mas, sim, com a qualidade”, como afirmou a fundadora da marca, Nina Masso, nesta entrevista ao Casa. [Marcelo Lima]

Mais do que um fabricante de luminárias, a Santa & Cole se coloca como uma editora de design. O que isso significa?
Para nós, o trabalho de edição significa dar a oportunidade a um autor de mostrar seu objeto ao mundo. O editor é humilde, a importância vai para o produto e seu criador. Estamos sempre em busca de objetos capazes de contar histórias, que possam figurar em nosso catálogo por anos. Quando um objeto é escolhido, ele passa de anônimo a conhecido, esse é o nosso trabalho. Muitos de nossos produtos foram desenhados há anos, mas ou não foram para o mercado ou passaram despercebidos. Outros, são fruto da descoberta de novos talentos que nos ajudaram a entender melhor a nossa função no mercado.

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As luminárias Coke Bartrina, com altura regulável Foto: Santa&Cole

Como a luz aparece trabalhada nas luminárias da marca?
Nós gostamos do sol e da sua luz, especialmente ao amanhecer e ao anoitecer, quando essa luz se torna mágica e tudo parece mais bonito, até a pessoa que está na sua frente. Esse é o conceito que nos guia em nossas escolhas. Luz amigável, luz quente, capaz de tornar o nosso ambiente mais confortável. Como acontece, por exemplo, na The Cesta Family, que, hoje, por meio de uma bateria, pode ficar nos acompanhando em casa. Interessante notar que se trata de uma coleção projetada nos anos 60 mas que está passando, provavelmente, por seu momento mais bonito desde a sua criação.

Qual o peso da tecnologia e do artesanato nas criações de vocês?
A tecnologia nos ajuda a melhorar. Ponto. Assim a vemos, sem nenhum fascínio especial. Na verdade, somos um pouco nostálgicos em relação ao fim das lâmpadas incandescentes. Há algo melhor do que a luz de uma vela para tornar um ambiente mais amigável e relaxante? Ocorre que, comumente, fontes de luz são substituídas por novas tecnologias e temos de aprender a lidar com elas. Nos últimos tempos, o mundo da iluminação deu um grande passo com a incorporação do LED. No início, para nós foi um desafio, ficamos assustados com sua frieza. Quanto ao artesanato, a maioria de nossos produtos utiliza processos manuais e, nesse sentido, estamos sempre atentos para dar o reconhecimento que ele merece.

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As luminárias Mina, com cúpula de poergaminho Foto: Santa&Cole
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Designers Ivana Preiss e Filip Vasic criam banco ergonômico para mulheres amamentarem

Poltrona giratória e com balanço pretende garantir conforto para mães e bebês em locais públicos
Por Mariana Conte I Fotos: Divulgação

design_banco_para_amamentacao_5Amamentar em público não deveria ser polêmico, mas é. A erotização do seio feminino faz com que esse ato substancial entre mãe e filho seja julgado e, em alguns lugares, até proibido. Num esforço para capacitar mulheres a amamentarem como quiserem e oferecer maior comodidade a elas, o estúdio de design de Praga 52hours projetou o Heer, um banco ergonomicamente pensado para mães amamentarem confortavelmente em público.

design_banco_para_amamentacao_2Ivana Preiss e Filip Vasic são os nomes por trás da ideia, que surgiu depois que os dois testemunharam uma jovem mãe ser hostilizada por amamentar em público. Ao descobrir que muitas mulheres passavam por experiências negativas, e percebendo que os espaços públicos carecem de infra-estrutura adaptada às necessidades de mães e bebês, a dupla enviou um questionário para mais de cem mães em vários países e criou o banco Heer baseado nesta pesquisa, com a ajuda do designer industrial Nikola Knezevic.

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O Heer possui uma poltrona giratória com balanço, para que as mães encontrem a melhor posição para si mesmas e possam ninar a criança, proporcionando maior conforto. E também oferece privacidade, caso a mãe queira. A outra metade do Heer destina-se a usuários públicos em geral e a acompanhantes da mulher, e foi pensado especialmente no caso de ela estar com outra criança.

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A questão da privacidade pode ser interpretada como um reforço ao estigma de que as mães devem se esconder enquanto amamentam, mas os responsáveis pelo projeto acreditam que embora a amamentação em público esteja se tornando cada vez mais aceita, por várias razões culturais e  psicológicas, muitas mães ainda se sentem desconfortáveis ​​com isso e os locais designados para a amamentação são raros, mal concebidos, isolados e desconfortáveis, praticamente reforçando a exclusão das mães. Apesar de qualquer lugar ser lugar para amamentar, o banco Heer pretende ser uma opção confortável para mães e bebês.

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Por enquanto, o móvel é apenas um protótipo, mas o produto final está em desenvolvimento e será feito com materiais totalmente recicláveis. Ivana e Filip pretendem que o banco seja instalado em breve em aeroportos, shopping centers, parques, e outros locais públicos – afinal bebês sentem fome em qualquer lugar.

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Ceramista Hideko Honma indica 5 peças que não podem faltar em qualquer casa

A renomada artesã ensina sua arte em um workshop no Casa Vogue Experience 2018
Texto: Carol Scolforo I Retrato: Gui Gomes

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Ceramista Hideko Honma

Hideko Honma é hoje uma marca reconhecida nacionalmente, mas há 20 anos era apenas o nome de uma artesã que dava os primeiros moldes à cerâmica e via o marido torcer o nariz para suas peças. “Eu era péssima. Fazia cursos, mas não adiantava. Ele dizia que eu não sabia o que estava fazendo”.

Mãe de quatro filhos, ela partiu sozinha para o Japão a fim de aprender com os mestres – e foi o marido quem a incentivou. De volta ao Brasil, construiu uma marca sólida, que produz peças com significado e essência. E volta todo ano ao Japão, para aprender mais.

Com formação em História da Arte, Hideko é também professora no ateliê que leva seu nome, em São Paulo. Com voz calma, transmite lições a cada duas frases. “A minha bandeira é a de que todos conseguem fazer cerâmica. Mas quero que as pessoas entendam que o processo é mais encantador que o resultado. Exige paciência, disciplina”, diz.

Esta é uma das lições que ela leva ao seu workshop de cerâmica, às 11h do dia 9/11, dentro da programação do Casa Vogue Experience 2018. Os inscritos vão aprender a fazer o chawan, a tradicional tigela japonesa que é peça favorita de Hideko. “Leva cinco anos para aprender a fazer um chawan honesto. É sério, parece exagero meu, mas não é. Quem for, aprenderá”, conta.

A seguir, ela indica cinco peças de cerâmica que todo mundo deveria ter em casa:

1. Chawan:
Hideko aconselha ter este item em tamanhos variados, porque serve para os mais diferentes usos

2. Travessas:
Para levar do forno à mesa, unem beleza e funcionalidade: “Para gratinar, são ótimas e práticas”, comenta ela.

3. Pratos:
Os dela aparecem nas mesas de alguns dos mais badalados restaurantes de São Paulo, como o do hotel Palácio Tangará e o antigo La Brasserie Erick Jacquin, primeiro a adotar suas criações

4. Xícaras de café e xícaras de chá yunomi:
Elas mantêm os líquidos aquecidos na temperatura ideal

5. Vasos: 
Podem ser apenas decorativos ou com água até a borda nos dias de calor. “Coloque poucas flores e água até a borda e você verá seus convidados se encantarem”, diz Hideko.

Jovem designer Majeda Calarke resgata técnicas indianas de tear

Majeda Calarke trabalha com a pesquisa do fazer manual pelo mundo
Por Giovanna Maradei I Fotos: Divulgação

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Majeda Calarke

“O ser humano pode criar a beleza, mas não a perfeição”. A máxima bastante verdadeira está longe de ser um problema para o trabalho da designer Majeda Calarke, um dos talentos em ascensão que foram destaque na 100% Design, durante o Festival de Design de Londres.

Inglesa de descendência Indiana, Majeda trabalha com diferentes tecidos, sempre tomando o cuidado para desenvolver um trabalho manual, sustentável e que, acima de tudo, resgate e valorize técnicas de povos ancestrais.

Para a série de tecidos quase transparentes, por exemplo, a designer foi a Bangladesh aprender com artesãs locais o fazer manual que há séculos tem sustentando aquela comunidade. Batizado de “tecido de ar”, por ser um tecido tão fino que poderia passar até por um anel, o produto pode ser feito de seda ou algodão e ganha formas e cores mais contemporâneas nas mãos de Majeda.

O mesmo processo de aprendizado aconteceu para a fabricação de outros produtos, como os tapetes de lã que resgatam técnicas desenvolvidas há anos no Reino Unido. “Os panos tecidos nestes moinhos combinam qualidade e história, uma vez que utilizam habilidades locais”, explica o site de Majeda.

A designer também faz questão de destacar o quão inspirador é o contato com cada um dos artesãos que conhece pelo mundo. “Há algo sobre o ato de fazer tecido à mão que me conecta a uma longa linha de tecelões que, ao longo da história, se sentaram em frente a um tear. É uma tradição antiga que está desaparecendo em um mundo de produção em massa e perfeição fabricada”, sentencia a jovem dedigner.

Pelos caminhos do design

Aristeu Pires comenta sua trajetória e as particularidades de sua produção

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O sofá de dois lugares Beatriz Foto: Estúdio Aristeu Pires

Muitas foram as razões que levaram o designer brasileiro Aristeu Pires a abandonar uma sólida carreira na área de ciências da computação para se dedicar ao desenho de móveis e objetos. Tarefa à qual ele vem se exercitando, com prazer, há quase duas décadas. “Primeiro, senti a necessidade de me dedicar a um trabalho que não me afastasse tanto do convívio familiar. Depois, bateu uma vontade de desenvolver uma atividade mais criativa, coisa que eu não fazia”, conta o designer autodidata, que, após um ano de trabalho nos Estados Unidos – que lhe rendeu, inclusive, uma loja em Chicago –, lançou sua primeira coleção de móveis no início de 2016, juntamente com a inauguração de seu showroom na cidade de Canela, na Serra Gaúcha. “Nunca me arrependi de ter trocado a computação pelo design. Os sistemas ficam obsoletos. Já os móveis viram ‘vintage’”, conforme ele afirmou nesta entrevista ao Casa. [Marcelo Lima]

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Aristeu Pires Foto: Estúdio Aristeu Pires

Qual sua formação na área de design? 
Não tive nenhum aprendizado propriamente formal, apenas li muitas coisas, e, principalmente, procurei me cercar de profissionais experientes, alguns que vinham de gerações de marceneiros. Também aprendi muito em conversas e em encontros importantes ao longo da vida, em especial com grandes mestres do design que tive a felicidade de conhecer, como Sérgio Rodrigues e Fernando Mendes.

O que te levou a abandonar a computação para se dedicar ao desenho de móveis?
Antes de mais nada, eu adorava o que fazia, principalmente porque trabalhava na área de desenvolvimento e, nos últimos anos, de soluções. O que me atraía no design era o processo criativo. Mas devo admitir que o que pesou na decisão foi a qualidade de vida. O meu trabalho demandava muitas viagens e isso começou a limitar meu convívio familiar.

Seus móveis são famosos pela qualidade de fabricação que incluem técnicas de marcenaria e acabamentos artesanais. No que eles diferem da produção convencional?
Na parte de usinagem da madeira, que representa apenas 5% do trabalho, empregamos tecnologia de ponta, o que gera uma precisão muito maior e, acima de tudo, o risco de acidentes fica bastante minimizado. Já os outros 95% do trabalho são totalmente feitos à mão. Fazendo um paralelo, seria como comer uma pizza artesanal em uma pizzaria de primeira linha e comprar uma congelada no supermercado e depois esquentar em casa.

Você concorda que a cadeira é o móvel mais complexo para se desenhar? Por falar nisso, por que todas as que você projeta são batizadas com nomes de mulheres?
Sim, com toda certeza. A cadeira, além das características estéticas, requer atenção especial em função de sua ergonomia muito particular, que exige uma estrutura forte, mas que, no entanto, não deve pesar visualmente. Além disso, uma cadeira acaba sempre sendo transportada de um lugar para outro, sem falar que muitas pessoas se movimentam muito. Quanto aos nomes, além de ter algumas mulheres em especial para homenagear, tenho 6 filhas, 5 netas e 5 irmãs. A cadeira te acolhe, te abraça, te envolve. Já uma mesa é totalmente previsível. Só precisa ter a altura certa e permanecer estável.

Novas luminárias investem em formatos e materiais inusitados

Participar ativamente da decoração: esse parece ser o objetivo primordial da nova safra de luminárias decorativas

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Na coleção de Cristiana Bertolucci, e Sérgio Cabral, as bolhas no interior da massa de vidro são formadas pelo calor ao qual o produto fica exposto durante sua confecção Foto: Cristiana Bertolucci Estúdio

Participar ativamente da decoração. Esse parece ser o objetivo primordial da nova safra de luminárias decorativas que acaba de chegar ao mercado ostentando assinaturas de peso. Diferentes em suas propostas, materiais e técnicas, elas só falam a mesma língua quando surgem iluminando os mais diversos ambientes. A partir daí, é impossível, a qualquer uma delas, passar desapercebida. No caso do arquiteto goiano Leo Romano a inspiração para compor a linha Ball Up, da Klaxon, veio da infância. Especificamente do movimento dos balões a gás que tocam o teto após se soltarem das mãos das crianças.

Com aparência de ‘água endurecida’ a não menos impactante coleção Sólido Etéreo, dos designers Cristiana Bertolucci e Sérgio Cabral, traz peças únicas, desenvolvidas a partir de vidro soprado combinado a outros materiais. Por fim, a Labluz convidou o designer Paulo Alves para assinar sua primeira coleção autoral e o resultado não poderia ser outro: um delicado trabalho de marcenaria e encaixes, na melhor tradição do móvel modernista brasileiro. [Marcelo Lima]

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Na coleção de Leo Romano, as cúpulas parecem estar ‘beijando’ o teto, enquanto que as hastes, logo abaixo, remetem aos cordões que ligam às crianças aos seus balões Foto: Klaxon

Funcionais, mas com algo a mais

Como na divertida mesa Piscina, Mariana Ramos e Ricardo Inneco, designers brasilienses radicados em São Paulo, procuram projetar móveis que vão além de sua função objetiva
Por Marcelo Lima

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A mesa Piscina, nas versões pequena e grande, da Novo Ambiente. Foto: Marcellous de Leme

Mariana Ramos e Ricardo Inneco já se conheciam em Brasília, mas só começaram a projetar juntos quando chegaram a São Paulo e descobriram ser vizinhos. “Tínhamos interesses comuns e demos início a nossa história”, lembra Inneco. Apenas anos depois, a dupla passou a trabalhar sob o título RAIN, junção dos sobrenomes Ramos e Innecco. “Acreditamos que os objetos atuam como agentes. Procuramos explorá-los para além de sua função e reforçar sua presença espacial”, como afirmaram nesta entrevista ao Casa.

Vocês nasceram e estudaram em Brasília. Como a vivência na cidade influenciou a visão de design da dupla?
Mariana Ramos: Brasília, sem dúvida, é uma fonte de inspiração permanente. Trata-se de uma cidade muito particular por ter um plano urbanístico modernista, assim como a maior parte de sua arquitetura. É cheia de espaços vazios, obras monumentais, muito verde, água, céu. É uma cidade-jardim. Ter crescido neste ambiente fez o modernismo ser para nós uma grande referência. Buscamos uma certa tranquilidade no nosso desenho, acredito que isso seja uma herança de lá.

Os produtos de vocês exibem um forte componente gráfico e escultural. Como compatibilizar estes elementos e funcionalidade?
M.R: Penso que eles derivam de geometrias simples e isso acentua essa característica. Além disso, eles têm uma profunda relação com o material do qual são feitos, o que colabora para o perfil escultórico. Buscamos entender bem o material antes de trabalhá-lo. Quando projetamos, avaliamos o peso, a forma, a escala de cada peça. Tudo para atingirmos uma presença marcante e silenciosa.

Como é trabalhar na Barra Funda e como funciona o estúdio de vocês? 
Ricardo Innecco: São Paulo é uma cidade efervescente na qual conseguimos iniciar e concluir todo nosso ciclo de trabalho. Aqui projetamos, produzimos, expomos e vendemos nossos produtos. A Barra Funda foi uma ótima escolha. Nos primeiros anos, muitos de nossos fornecedores eram nossos vizinhos. Só depois, buscamos fábricas mais estruturadas. Mas ainda hoje conseguimos fazer protótipos e comprar materiais no bairro.

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Ricardo Innecco e Mariana Ramos Foto: Marcellus de Leme