Quem é a chef argentina Paola Carosella, alvo de boicote por apoiadores do governo

Com mais de 5 milhões de seguidores no Instagram, a chef e ativista declarou que ‘é muito difícil se relacionar com quem apoia Bolsonaro por dois motivos: ou porque é um escroto, ou porque é burro’

Paola Carosella é chef e militante — Foto: Divulgação

A chef argentina Paola Carosella, de 49 anos, chegou em São Paulo em 2001, quando veio passar uma temporada por aqui ajudando o então patrão, Francis Mallmann, a montar o restaurante Figueira Rubaiyat. Nesse período, aconteceu o Corralito, confisco de depósitos bancários que transformou o dólar em peso, fazendo uma brutal desvalorização nos investimentos e poder de comprados argentinos. Quando voltou para a Argentina, vendeu a casa da mãe, o carro, doou móveis e roupas e se mudou de vez para São Paulo. Com quatro malas na mão e sem conhecer absolutamente ninguém. Justo ela, que hoje é uma celebrity chef, dona do badalado Arturito, aberto em 2008 em Pinheiros, e de La Guapa Empanadas, em vários pontos da cidade, soma mais de 5 milhões de seguidores no Instagram e volta e meia causa frisson nas redes por seu ativismo, geralmente ao redor de temas que vão de política a defesa do alimento fresco e de qualidade, passando por movimentos que falam do desperdício de alimentos.

O robalo fresco servido no Arturito vem de uma comunidade de pescadores de Paraty — Foto: Reprodução
O robalo fresco servido no Arturito vem de uma comunidade de pescadores de Paraty — Foto: Reprodução

O status de celebridade, Paola sabe, vem muito por conta do programa “Masterchef”, da TV Bandeirantes, que participou desde 2014 e fez sete temporadas. Ela é parada na rua por fãs e seus empreendimentos são sucesso. Famosa por não temer dar suas opiniões sobre assuntos muitas vezes polêmicos, agora, ela está envolvida em mais um caso que vêm abalando as redes sociais. Na segunda-feira, durante uma entrevista ao DiaCast, canal do YouTube, a argentina criticou os eleitores de Jair Bolsonaro (PL). Ela declarou que é “muito difícil se relacionar com quem apoia Bolsonaro por dois motivos: ou porque é um escroto, ou porque é burro”, disparou. Em outro momento, declarou que “já ficou muito claro que não teve programa de governo, que (ele) não faz a mínima ideia do que está fazendo, que está lutando contra um comunismo que não existe”.

Isso bastou para ela entrar na mira de apoiadores do presidente, que foram ao Google boicotar o restaurante Arturito, que recebeu uma enxurrada de avaliações negativas fez com que a classificação do lugar passasse de 4,5 estrelas ao meio-dia de segunda-feira para 1,7 estrelas no início da tarde desta terça, dia 24 de maio. O número de comentários saltou de 3,8 mil para mais de 40 mil. Além disso, a hashtag #VoltaParaArgentinaCozinheira ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter.

Capelacci de abóbora e ricota, manteiga de sálvia, espinafre e parmesão é um prato vegetariano do restaurante — Foto: Reprodução
Capelacci de abóbora e ricota, manteiga de sálvia, espinafre e parmesão é um prato vegetariano do restaurante — Foto: Reprodução

Por outro lado, ela também teve apoiadores. Felipe Neto, por exemplo, foi ao Twitter para defendê-la. “Paola Carosella está certíssima. Todo bolsonarista ou é escroto, ou burro. O único erro dela foi porque eu colocaria um ‘colossalmente’ antes de cada adjetivo. Bolsonarista não é apenas ‘escroto’, é ‘colossalmente escroto’ ou ‘colossalmente burro'”, escreveu o Youtuber, que ainda comentou sobre as sugestões de boicote aos restaurantes da chef. “Morrendo de rir com bolsonaristas achando que vão cancelar uma das melhores chefs de cozinha do mundo. Só 36% do país aprovam esse genocida aliado da milícia. Vocês não cancelam mais ninguém. Não conseguiram comigo e não conseguirão com a Paola”, disparou Felipe.

Apesar de na Internet a imagem de Paola e seu restaurante ter perdido popularidade por conta da campanha de apoiadores do presidente, na terça-feira o Arturito manteve seu sucesso: a fila de espera para uma mesa de duas pessoas chegava a 40 minutos às 12h30 e as reservas para sexta, sábado e domingo já estavam esgotadas.

O valor dos pratos, apesar de estarem na média de restaurantes de São Paulo, também têm sido alvo de internautas que ficaram com raiva da declaração da chef. O menu do dia, chamado de prato do agricultor, sai por R$ 55. Já os pratos mais caros do cardápio são a anchova assada no forno a lenha com molho tahine verde e abóbora assada (R$ 120) e o corte de carne brasileira sustentável (com bois criados sem veneno, pastando livremente) com gratin de mandioca, mandioquinha e batata e molho chimichurri (R$ 180).

A questão do preço sempre foi uma preocupação de Paola. Defensora de que comida de qualidade não precisa custar tanto, diz que o preço final do prato tem que ser uma porcentagem da matéria-prima (todos os fornecedores são escolhidos por ela), da folha de pagamento, dos custos de manter o lugar, da “grande fatia de impostos do Brasil” e de uma fatia de “lucro lógico” para o chef que, “com muita sorte, não deve ser superior a 12%”. “Muita gente vem ao Arturito e diz que o restaurante não é nada demais. Não é nada demais mesmo. Quem vem esperando um Alex Atala não encontra. A pesquisa dele é outra. O que eu faço é um delicioso frango com batata”, disse ela em entrevista ao “Ela”. 

Todas as saladas são colhidas por agricultores orgânicos  — Foto: Reprodução
Todas as saladas são colhidas por agricultores orgânicos — Foto: Reprodução

Além da fama de boa cozinheira, Paola tem 1,77 metro, uma beleza exótica de traços fortes e fala doce. Pensa bastante antes de expressar sua opinião. Não faz dieta. Mas, se come duas empanadas no almoço toma somente sopa no jantar. Adora acompanhar o programa pelo Twitter, “para saber o que as pessoas estão pensando”. Já foi convidada para posar nua, mas recusou, afinal, diz : “Sou uma mera cozinheira.”

A chef, empresária e ativista Paola Carosella — Foto: Reprodução
A chef, empresária e ativista Paola Carosella — Foto: Reprodução

Cozinheira que nasceu de uma família de classe média baixa, de imigrantes italianos, na periferia de Buenos Aires. O pai era bipolar e passava longos períodos internado. Ele e a mãe de Paola, filha única, se separaram quando era ainda pequena. “Fomos sempre nós duas mesmo. Nos mudamos para Buenos Aires, minha mãe foi fazer faculdade de Direito. Nossa vida foi bem difícil, melhorando aos poucos”, conta Paola.

Aos 18 anos, ela sabia o que queria fazer da vida. Foi trabalhar como secretária e o patrão, quando soube que cozinhava bem, convidou-a para preparar os almoços da empresa. Aí foi conseguindo outros empregos por restaurantes em Buenos Aires. Até que a mãe lhe deu, em 1992, uma viagem para Paris, onde estagiou por seis meses. Cinco anos depois, estava no importante grupo de Francis Mallman na Argentina, onde fez carreira até chegar a São Paulo com quatro malas.

Agô, novo bar em Santa Teresa, no Rio, celebra religiões de matriz africana

Agô homenageia terreiros nos pratos, na decoração repleta de obras de arte e na música
Por Eduardo Vanini

Kananda Soares abriu as portas de seu novo bar em Santa Teresa — Foto: Ana Branco

Faz 20 anos que Kananda Soares passa pela encruzilhada entre as ruas Monte Alegre e Áurea, em Santa Teresa, no caminho de casa para o trabalho. A cada travessia, jamais deixou de repetir a expressão “agô”, pedido de licença para movimentos de entrada, saída e passagem em iorubá. “Aqui é um dos principais locais de despacho no bairro”, conta. “Um dia, voltando do trabalho, vi uma plaquinha de ‘aluga-se’ no imóvel onde funcionou uma farmácia por cem anos. Na mesma hora, pensei no nome: ‘Agô’. Parece que recebi.”

Surgiu assim a mais nova empreitada da empresária, que já faz e acontece na região com a sua Favela Hype, mix de loja e bar a poucos metros dali. Totalmente inspirado nos terreiros, o Agô reverencia as religiões de matriz africana dos batuques que partem das caixas de som ao cardápio. O drinque Vulgo Malvadão, por exemplo, mistura gim, frutas vermelhas, espumante e pimenta dedo-de-moça, enquanto o Água de Oxum vai de cachaça, seriguela, leite de coco e louro. Para comer, o destaque é a opção “Monte o seu ebozinho”, que traz lombo de porco flambado na cachaça e farofa de dendê e quiabo entre as possibilidades. “Não é uma comida litúrgica, mas nos inspiramos na cultura e nos pratos servidos nas festas”, diz Kananda, que consultou os búzios antes de abrir as portas.

Decoração tem obras de arte e celebra os terreiros

Com os caminhos abertos, a clientela apareceu logo. Gente como a jornalista e influenciadora Luiza Brasil já deu pinta por lá, assim como a atriz Aline Borges. “É uma mistura do novo com o que é ancestral”, elogia a moça, no ar em “Pantanal”, da TV Globo. “E os drinques temáticos são deliciosos, o meu preferido é o Laroiê (tangerina, morango, hortelã e gim).”

A decoração é outro ponto alto, com detalhes como o símbolo de Exu cravado no piso da entrada, as ferraduras de cavalo atrás da porta e uma caveira de boi pendurada na parede. Obras de arte de artistas negros, como Raphael Cruz, que também pintou a fachada, e Joelington Rios completam a ambientação, assim como uma enorme foto de Daniel, o preto-velho mais famoso de Santa Teresa, feita por Yedda Affini, artista em ascensão entre na arte contemporânea e filha de Kananda. “Aqui é um bar de protagonismo preto”, avisa a dona do espaço. “As religiões de matriz africana são muito demonizadas. Ainda associam Exu ao diabo. Ocupar este lugar, num bairro de construções coloniais, é uma ressignificação.”

Confira fotos do Agô, no bar inaugurado em Santa Teresa, no Rio

O salão do bar tem móveis antigos e obras de arte — Foto: Ana Branco
A fachada foi pintada pelo artista Raphael Cruz — Foto: Ana Branco
O drinque Vulgo Malvadão é uma das pedidas — Foto: Ana Branco
Camisetas temáticas também são vendidas no espaço — Foto: Ana Branco
Obra de Joelington Rios está a venda por lá — Foto: Ana Branco
O pastel de jiló é uma das delícias do cardápio — Foto: Divulgação

Lasai, de Rafa Costa e Silva, fecha as portas para reabrir menor, servindo apenas oito pessoas por noite

O novo endereço é pertinho do primeiro, fica no Largo dos Leões, número 35: ‘Era muito exaustivo receber quarenta pessoas por noite da forma que desejamos’

A equipe do novo Lasai: Zigor Sololuze, Sabrina Mello, Luiza Lucchesi, Malena Cardiel, chef Rafa Costa e Silva, Maira Freire, Vinicius Maciel e Mara Cristina Foto: Ana Branco / Agência O Globo
A equipe do novo Lasai: Zigor Sololuze, Sabrina Mello, Luiza Lucchesi, Malena Cardiel, chef Rafa Costa e Silva, Maira Freire, Vinicius Maciel e Mara Cristina Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Não foi por falta de prêmios ou lista de espera. Depois de 8 anos de funcionamento, o Lasai, de Rafa Costa e Silva e Malena Cardiel, fechou as portas do sobrado na Conde de Irajá, em Botafogo. Mas, segundo o casal de chefs, para ficar ainda melhor: mais potente, altamente moderno, nanotecnológico e ainda mais concentrado em proporcionar uma experiência única aos clientes. O novo endereço é pertinho do primeiro, fica no Largo dos Leões, número 35.

Lula com verduras e bokchoy Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Lula com verduras e bokchoy Foto: Ana Branco / Agência O Globo

A mudança já era um desejo antigo, que veio junto com o nascimento do filho Emiliano, de 3 anos. “O restaurante, até a chegada do Emi, era a nossa única prioridade. Ele mudou tudo na nossa vida. Queremos dar atenção ao nosso filho e também atender com excelência os nossos clientes. É muito exaustivo receber quarenta pessoas por noite da forma que desejamos, então, a solução foi desenvolver um Lasai pocket: em vez de acolher quarenta clientes por noite, serão oito por dia, quarenta por semana”, calcula Rafa.

Nesse modelo mais intimista, com projeto dos arquitetos Joyce Camillo e Leonardo Jara, há apenas uma bancada em que o cliente fica quase dentro da cozinha. “Vamos mostrar de maneira mais profunda a nossa proposta”, conta Malena.

O que existe de mais moderno em termos de equipamentos, técnicas e serviços do universo gastronômico está no novo espaço. Louças da Revol Porcelaine recicladas, fogões, fornos, grelhas, geladeiras, armários de vácuo e máquinas de café da tecnológica e perfeccionista alemã Miele, copos Riedel e talheres Arthur Hupp.

Rabo de porco crocante, berinjela, semente de mostarda Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Rabo de porco crocante, berinjela, semente de mostarda Foto: Ana Branco / Agência O Globo

O restaurante permanece fiel à proposta de desenvolver novos traços da identidade da gastronomia brasileira, com ingredientes locais e sustentáveis. Rafa valoriza o conceito que prega a integração entre o produtor e o cozinheiro, o resgate do sabor verdadeiro dos alimentos, a criatividade somada à inovação técnica e à sustentabilidade. “É maravilhoso plantar o que vou cozinhar e contar com produtores sérios. Minha criação de galinhas e a horta orgânica são essenciais para realizar o que eu desejo”, diz ele.

Grande parte dos ingredientes é fornecida pela horta do próprio Lasai, localizada no Vale das Videiras, interior do Rio, e por produtores com práticas sustentáveis, incluindo pescadores e criadores. O chef Claude Troisgros é um dos fãs do Lasai. “Rafa, com sabedoria, alma, técnica e paixão, elevou a gastronomia carioca e brasileira a um alto nível. Sua cozinha, que valoriza e respeita o produto, transformou-se no seu grande diferencial”, elogia o francês.

A comida do Lasai conquistou por ser artesanal, delicada, intelectual, autoral, sutil e forte. Entre os pratos que serão servidos no menu degustação (R$ 725), estão vieira com tutano, brócolis com atum blue fin; couve-flor tostada na manteiga lardo; nabo na manteiga cozido com molho untuoso e crocante de quiabo; chuchu com frutos do mar e caldo de frutos do mar; couve-flor tostada na manteiga lardo; flan quente de queijo com rabanete cru frio; tempurá de tripa; crocante de peixe cru frio com tempero de raspa de limão; ebolo de beterraba com calda de beterraba.

E o que acontece com a casa lindinha do antigo endereço? Ali será inaugurado o Nak, um mix de café, padaria e mercado, em clima mais casual.

Novidade dois em um.

Restaurantes dizem que fim do serviço da Uber Eats é bomba no setor

Estabelecimentos afirmam ter receio do aumento da concentração no serviço de entrega

Serviço de delivery do Uber Eats – REUTERS

SÃO PAULO – A decisão da Uber de encerrar seu serviço de entrega de refeições de restaurantes pelo Uber Eats no Brasil caiu como uma bomba no setor, segundo Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, associação de bares e restaurantes, que diz temer as consequências do aumento na concentração da atividade.

Ele afirma que o anúncio da Uber assusta porque acontece semanas depois da decisão dos acionistas da startup Delivery Center de também encerrar a operação da empresa, um sinal de que o mercado brasileiro pode estar pouco atrativo ao investimento na área.

O setor tem vivido um cabo de guerra contra o iFood. Desde o ano passado, empresas como Rappi, Uber Eats e 99Food, além da associação dos restaurantes, foram ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) se queixar de que o gigante da entrega de comida impõe barreiras para os concorrentes ao forçar um modelo de contrato de exclusividade com os restaurantes.

“Pretendemos cobrar uma oposição firme do Cade porque estamos cada vez mais preocupados com essa concentração de mercado”, diz Solmucci.

A Abrasel vem tentando promover um modelo com código aberto para a padronização de cardápios e pedidos, batizado de Open Delivery.

Uber Eats vai deixar de fazer entregas de restaurantes no Brasil depois do dia 7 de março, segundo anúncio feito pela empresa nesta quinta-feira (6).

Sem os restaurantes, a empresa vai atuar em duas outras frentes. O chamado Cornershop by Uber vai fazer entregas de supermercados, atacados e outras lojas, enquanto o serviço Uber Flash ficará com as entregas de pacotes.

A Cornershop by Uber funciona em apenas cem cidades no Brasil, mas, segundo a Uber, o número de pedidos quase triplicou em 2021. A empresa também planeja expandir seu produto corporativo, o Uber Direct, de entregas no mesmo dia.

“A Uber segue seu compromisso com seus mais de 1 milhão de motoristas parceiros que geram renda fazendo viagens e entregas pela plataforma — o volume de viagens no Brasil já é maior do que o registrado no período anterior à pandemia”, disse a empresa em comunicado.

Procurado pelo Painel S.A., o iFood diz que não comenta decisões de negócio de outras empresas. “Com relação ao mercado de entrega de refeições, o iFood esclarece que o setor de delivery online segue em constante evolução com a entrada frequente de novos competidores e o surgimento de novos modelos de negócios. Essa competição intensa favorece restaurantes, entregadores e consumidores, e promove mais inovação para todo o ecossistema”, diz a empresa em nota.

O iFood afirma, ainda, que suas políticas comerciais estão em estrita conformidade com a legislação concorrencial e que segue cooperando com as autoridades responsáveis.

com Andressa Motter e Ana Paula Branco

Cozinhas africanas, no plural, conquistam espaço na alta gastronomia

Mais chefs nascidos em países do continente estão na lista do The Best Chef Awards, com os 100 melhores do mundo
Marina Mori, Estadão

A chef Selassie Atadika, à frente do restaurante nômade Midunu, em Acra, Gana
A chef Selassie Atadika, à frente do restaurante nômade Midunu, em Acra, Gana Foto: Arquivo pessoal

É o começo de um novo capítulo para as cozinhas africanas – assim mesmo, no plural. Até pouco mais de um ano atrás, nenhuma pessoa negra esteve nas listas dos 100 melhores chefs do mundo desde que o The Best Chef Awards foi lançado, em 2017.

Selassie Atadika, à frente do restaurante nômade Midunu, em Acra, Gana, foi a primeira e única africana a aparecer no ranking, em 2020. Seu trabalho ao promover a Nova Cozinha Africana, que tem plantas nativas e grãos ancestrais como protagonistas de fine dining, tem chamado atenção de todos os olhos antes voltados para qualquer outro continente que não a África.

“Já passou tempo demais para que chefs e cozinhas incríveis da África fossem notados”, disse Atadika em entrevista ao Paladar. “A culinária global precisa ir além quando se fala sobre diversidade, inclusão e visibilidade”.

Neste ano, o cenário já parece diferente. Ao lado de Atadika, que continuou no ranking em 2021, o congolês Dieuveil Malonga, de 29 anos, entrou para a lista na 94 ̊ posição com seu Meza Malonga e sua Afro Fusion, em Kigali, Ruanda.

O malinês Mory Sacko, do jovem e já estrelado Mosuke, em Paris, também apareceu entre os 100 melhores pela primeira vez, em 84 ̊ lugar. E quem levou o título de ‘estrela em ascensão’ foi Fatmata Binta, de Serra Leoa. A chef é idealizadora do projeto Fulani Kitchen, que tem como objetivo valorizar as receitas tradicionais da maior tribo nômade da África Ocidental. 

Na mesa. Pera cozida e defumada com rooibos e crumble de gengibre, creme de amarula, do restaurante Midunu
Na mesa. Pera cozida e defumada com rooibos e crumble de gengibre, creme de amarula, do restaurante Midunu Foto: Acervo pessoal

Uma mudança significativa parece tomar forma com todas essas conquistas. “Vamos desenterrar os impactos da escravidão, do colonialismo, da exclusão econômica e muito mais”, pontua Atadika. Antes de adotar a cozinha como profissão e se consagrar como um dos rostos que têm elevado as tradições culinárias africanas, a ganense trabalhou durante uma década na ONU em missões humanitárias. Percorreu mais de 40 países dos 54 que compõem seu continente e percebeu que é possível mudar a forma como as pessoas enxergam um povo e uma história de séculos de dor ao reapresentar pratos tradicionais nos moldes da alta cozinha.

Fachada do restaurante Biyou'z Gastronomia Africana, no centro de São Paulo
Fachada do restaurante Biyou’z Gastronomia Africana, no centro de São Paulo Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Se um dia você tiver a oportunidade de acordar em qualquer cidade de Gana, perceberá que o desjejum mais clássico por lá é o waakye (leia “waachai”). A base é feita geralmente com arroz basmati, feijão de corda e folhas de sorgo vermelho, tudo cozido junto – o que dá ao prato um tom avermelhado.

Nas feiras de rua, é servido às colheradas em uma folha de bananeira com ovo cozido, macarrão e shito, molho apimentado típico do país. Em seu restaurante, Selassie Atadika apresenta o waakye em pequenos cubos levemente polvilhados com farinha de mandioca ao lado de singelos ninhos de macarrão, shito e ovos de codorna cozidos. “Quero celebrar e preservar a herança culinária africana. Cada refeição conta a história dos lugares que visitei e dos povos que conheci”, diz a chef.

A cozinha africana no Brasil

Por aqui, quem tem feito um trabalho semelhante de resgate cultural é Melanito Biyouha. Nascida em Camarões, na África Central, chegou ao Brasil em 2003 e, quatro anos depois, foi pioneira ao inaugurar o Biyou’z Gastronomia Africana, no centro de São Paulo, com 36 lugares. Hoje, conta com uma segunda unidade, maior, para receber até 100 pessoas, na Consolação.

 A chef Melanito Biyouha de restaurante africano Biyou’z, em São Paulo
A chef Melanito Biyouha de restaurante africano Biyou’z, em São Paulo Foto: Gabriela Biló/Estadão

 Se no início oferecia apenas pratos típicos de seu país natal, aos poucos passou a incluir no cardápio preparos clássicos de outras nações africanas, como Angola e Congo. Embora não tenha uma versão do waakye, vale experimentar o koki camaronês: um bolo de feijão fradinho cozido a vapor na folha de bananeira com azeite de dendê e servido com mix de ervilhas refogadas e inhame cozido (R$ 38). 

Da parte de Biyouha, não falta vontade de levar seu Biyou’z ao patamar de uma ‘alta gastronomia’. “O problema é que no Brasil a cultura africana é pouco conhecida. Conhecemos muitos restaurantes de outros países, mas quase não vemos restaurantes africanos por aqui”, diz a chef. Seu plano é que, em um futuro próximo, além de investir mais na casa, possa abrir em São Paulo uma escola de culinária com foco em técnicas e tradições de países da África. 

Koki camaronês: um bolo de feijão fradinho cozido a vapor na folha de bananeira com azeite de dendê e servido com mix de ervilhas refogadas e inhame cozido 
Koki camaronês: um bolo de feijão fradinho cozido a vapor na folha de bananeira com azeite de dendê e servido com mix de ervilhas refogadas e inhame cozido Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Para isso, é preciso haver demanda. Mas é difícil existir vontade de conhecer algo quando não se fala de forma coletiva sobre esse algo. Para além dos pratos e ingredientes que se tornaram heranças africanas de uma época de escravidão, da feijoada à moqueca e ao acarajé, pouco se sabe sobre as cozinhas africanas contemporâneas.

Conhecemos o sabor do dendê, do purê de inhame e do frango ensopado com quiabo, mas sabemos que gosto tem a comida de países como Angola, Nigéria, Senegal, Benin? O problema começa quando tentamos encaixar a cultura de 54 países em uma só panela: a da cozinha africana, no singular.

“A gente tem uma perspectiva de homogeneidade, acha que tudo é uma coisa só. Restringimos algo que é super complexo e diverso, que são as histórias de todo um continente, e isso acaba refletindo na forma como o Brasil olha para a própria construção da sua cozinha”, diz Lourence Alves, historiadora, gastrônoma e doutora em nutrição, alimentação e saúde. 

Ndolé, prato de Camarões, leva banana, carne bovina, camarão moído e pasta de amendoim e é cozido com folha de boldo
Ndolé, prato de Camarões, leva banana, carne bovina, camarão moído e pasta de amendoim e é cozido com folha de boldo Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O primeiro passo para mudar essa ideia é reformular a visão que se tem sobre a África. “Você vai achar que cozinha africana é algo pobre por toda a referência de pobreza que acaba impregnando o imaginário em relação ao continente, que de é pobreza, conflito, doença. Mas essas não são características inerentes à África, são consequências dos processos de colonização que todo o território sofreu”, aponta a historiadora. 

O segundo passo é comer. Se aproximar de sabores e combinações que se entrelaçam com o que chamamos de comida brasileira, que tem muito da ancestralidade africana.

“A gente percebe uma similitude de ingredientes. Você pode provar um prato diferente [africano] e vai perceber que ele agrada muito o paladar, porque na verdade os sabores principais são de ingredientes que vieram séculos atrás e que incorporamos aqui”, diz Aline Araújo, mais conhecida pelo sobrenome artístico-culinário Chermoula, que divide seu tempo como pesquisadora da cozinha ancestral afrodiaspórica pelas Américas há mais de 15 anos, chef no Chermoula Culinária e professora no Gastromotiva.

Aline Chermoula, 36, dedica-se à cozinha diaspórica africana nas Américas.
Aline Chermoula, 36, dedica-se à cozinha diaspórica africana nas Américas. Foto: Felipe Rau/Estadão

A diferença entre as cozinhas africanas e as brasileiras é o espaço que a proteína animal ocupa na mesa. “A gente organiza o nosso prato tendo a carne como referência, mas lá a carne não aparece dessa forma tão protagonista”, explica Alves. Em geral, um molho refogado principalmente com vegetais e folhas (que pode ou não ter carne) é que dá nome ao prato.

“Esse molho tem bastante sabor e vai ter como acompanhamento uma base de água enriquecida com algum tipo de farinha ou amido e vai se transformar numa massa, que vai dar liga e funcionar como acompanhamento”, complementa a historiadora. Um exemplo é a muamba de galinha, da Angola, em que o ensopado é servido com pirão de milho ou mandioca.

Representatividade

Do outro lado do oceano, em Londres, Nokuthula Majozi, mais conhecida como Nokx, lidera a produção de tortas clássicas ao lado do chef britânico Calum Franklin no hotel 5 estrelas Rosewood London. Em 2021, a sous chef foi reconhecida como uma das 100 mulheres mais influentes em Hospitalidade no Reino Unido.

Nokuthula Majozi lidera a produção de tortas clássicas ao lado do chef britânico Calum Franklin no hotel 5 estrelas Rosewood London
Nokuthula Majozi lidera a produção de tortas clássicas ao lado do chef britânico Calum Franklin no hotel 5 estrelas Rosewood London Foto: John Carey

Nos próximos cinco anos, sua meta é voltar para a África do Sul, seu país de origem, e impulsionar a carreira de cozinheiras que vivem nos bastidores. “Nunca me inspirei em um chef negro porque não havia nenhum há 15 anos, quando comecei a trabalhar com gastronomia. Mas as coisas estão mudando e estou em uma missão para contribuir com esse processo”, disse Majozi ao Paladar.

Dieuveil Malonga, o congolês que apareceu como um dos 100 melhores chefs de 2021, também retornou à África em 2016 depois de um longo período fora – passou a juventude na Alemanha (foi lá que começou a carreira de cozinheiro) e aperfeiçoou as habilidades culinárias na França. Escolheu Ruanda, país vizinho à República Democrática do Congo, para estabelecer sua cozinha, que tem chamado de Afro Fusion. 

“É uma ponte entre a cozinha tradicional africana e a contemporânea, com influências alemãs e francesas”, explica o chef. Mas, além do Meza Malonga, um outro projeto foi responsável por colocá-lo entre os 50 Next, uma lista de pessoas que estão moldando o futuro da gastronomia, do The 50 Best Restaurants neste ano: o Chefs in Africa. Malonga criou a plataforma em 2016 para reunir cozinheiros de todos os países do continente africano, ganhou apoio da Unesco e já impulsionou a carreira de mais de quatro mil profissionais.

Para Aline Chermoula, movimentos como esse são essenciais para resgatar a identidade de povos negros e honrar sua história. “É um caminho novo para todos que estão distantes desses conhecimentos ancestrais africanos. Por isso, colocar essas cozinhas dentro de um padrão de alta gastronomia também significa reconhecer o valor delas.”

Diáspora africana

O termo se refere à imigração forçada de cerca de 11 milhões de pessoas do continente africano para as Américas entre os séculos 16 e 18 para tráfico escravagista. 

Para saber mais

– Kitutu: histórias e receitas da África na formação das cozinhas do Brasil, Raul Lody. 184 p., 2019, Editora Senac São Paulo.

– Alimentar a Cidade, Richard Graham. 464 p., 2013, Companhia das Letras.

Serviço

Onde provar as cozinhas africanas em São Paulo 

Biyou’z Gastronomia Africana

Alameda Barão de Limeira, 19, Campos Elíseos. 3221-6806. 12h/23h. 

Fernando de Albuquerque, 95, Consolação. 12h/22h.

O que provar: Ndolé, prato de Camarões feito com pasta de amendoim cozido com folha de boldo, camarão moído, banana-da-terra cozida e carne bovina refogada.

Chermoula Gastronomia

Almoços e jantares em domicílio. (11) 97242-3169. http://www.chermoula.com.br 

O que provar: Muamba de Galinha, tradicional da Angola. O ensopado é feito com quiabo, abóbora, alho, cebola e gindungo (pimenta malagueta) e servido com funge, pirão de milho ou mandioca.

Mamma Africa La Bonne Bouffe

​​Rua Cantagalo, 230, Tatuapé. 3582-7438. 12h/22h (sáb., 12h/17h30, 19h/22h30; dom. e feriados, 12h/16h).

O que provar: Injera, um tipo de crepe feito com o grão Teff, típico da Etiópia. A massa é fermentada por dois a três dias em água e depois assada na chapa e servida com acompanhamentos em pasta, leguminosas, verduras e carnes.

Sílvia Pfeifer estreia no papel de confeiteira em ateliê com seu sobrenome na Gávea

Atriz investe em novo ofício e se prepara para voltar à TV
Priscilla Aguiar Litwak

Doces. Sílvia e suas receitas vendidas no ateliê que leva seu sobrenome Foto: Divulgação
Doces. Sílvia e suas receitas vendidas no ateliê que leva seu sobrenome Foto: Divulgação

RIO  — Atriz com mais de 30 anos de carreira, Sílvia Pfeifer deu vida a personagens memoráveis, como a Isadora Venturini da novela “Meu bem, meu mal” (1990), da TV Globo. Por trás das telas, a gaúcha radicada na Zona Sul desde a década de 1990 acredita que também dá para viver vários papéis e tem investido no ofício de confeiteira.

A paixão de Sílvia pelas panelas é antiga, lá da infância, mas o empurrãozinho para ingressar de vez na empreitada veio de amigos e da paralisação nos trabalhos na dramaturgia, devido à pandemia. O último foi há mais de dois anos. Atualmente ela se prepara para a atuar na próxima novela bíblica da TV Record, “Reis”. Mas garante que o público também vai poder conferir seu talento na cozinha. O Atelier Pfeifer, na Gávea, tem um cardápio enxuto, por enquanto são apenas quatro doces de chocolate: Brownie do Atelier; Brownie de Nutella; Chiquita Gâteau, com castanhas, nozes, licor de laranja e vinho do Porto; e Bombom Funcional, com farinha de amêndoa e chocolate 80% (R$ 7, a unidade).

— Acredito que o ser humano não tem que ser só uma versão de si na vida. Cozinhar é pura arte — diz Sílvia. — Minha lembrança de infância é brincando de comidinha, sempre gostei de cozinhar. Criei novas versões de receitas antigas de família e há mais de 15 anos presenteio amigos e familiares com esses doces. Agora chegou a hora de levar essa minha paixão, que tem um sabor dos deuses, modéstia à parte, para mais pessoas — diz, frisando que o segredo do sucesso dos quitutes está nos ingredientes de qualidade e nas texturas diferenciadas.

E avisa que está criando novos sabores e investindo em mais versões lights. Encomendas: 99046-7067.

Restaurante japonês Hoshinoya Tokyo instala câmaras iluminadas para ‘proteção’ contra a Covid-19

Ideia é que os clientes fiquem nas “lanternas” transparentes individuais enquanto jantam em grupo

Refeições e conversas acontecem dessa forma no espaço (Foto: Divulgação)

Um restaurante em Tóquio, no Japão, encontrou uma maneira de os clientes se sentirem protegidos da Covid-19 enquanto fazem suas refeições. No Hoshinoya Tokyo, foram instaladas câmaras transparentes individuais e iluminadas nas mesas, para que as pessoas possam se ver e conversar durante o jantar, minimizando o contato.

Batizadas de lanternas – por serem objetos atribuídos aos costumes e à cultura tradicional japonesa – as divisórias ficam suspensas individualmente sobre a cabeça das pessoas, permitindo que fiquem sem máscara tranquilamente, consigam ouvir o que é dito e ver as expressões dos demais.

Restaurante japonês instala câmaras iluminadas para proteção contra a Covid-19 (Foto: Divulgação)
Clientes se ajeitam dentro das câmaras suspensas (Foto: Divulgação)

Elas medem 75 cm de diâmetro e 102 cm de altura, com uma parte em vinil transparente de 0,15 mm de espessura e luz integrada para iluminar o rosto. Segundo o restautante, o jantar acontece em espaços de 40 m², e a ventilação da sala acontece cerca de 5 vezes por hora, bem acima dos padrões exigidos pela lei no país.

Restaurante japonês instala câmaras iluminadas para proteção contra a Covid-19 (Foto: Divulgação)
Menu custa cerca de R$ 1450 para grupos (Foto: Divulgação)

A experiência em grupo custa 30.000 ienes (cerca de R$ 1450 na cotação atual) ou 21.780 ienes (R$ 1055) por pessoa para o menu fixo “Cozinha Nipônica – Fermentação”. 

A Casa do Porco é o 17º melhor restaurante do mundo, segundo lista

Endereço paulistano sobe 22 posições no ranking do World’s 50 Best e é o único brasileiro no guia

Janaína e Jefferson Rueda, d'A Casa do Porco, no tapete vermelho da premiação do World's 50 Best, em Antuérpia, na Bélgica
Janaína e Jefferson Rueda, d’A Casa do Porco, no tapete vermelho da premiação do World’s 50 Best, em Antuérpia, na Bélgica – Maria Vargas/Divulgação

SÃO PAULO – O restaurante A Casa do Porco, na região central de São Paulo, está entre os 50 melhores do mundo. Comandado por Jefferson e Janaína Rueda, o endereço ficou em 17ª lugar na lista mundial do 50 Best, organizada pela revista britânica Restaurant.

O anúncio foi feito em cerimônia realizada nesta terça (5), em Antuérpia, na Bélgica. A Casa do Porco subiu 22 posições em relação à última edição do prêmio, em 2019, quando ficou em 39º lugar. O restaurante é o único brasileiro a aparecer entre os 50 melhores do mundo segundo o ranking.

Tido como o “Oscar da gastronomia”, o World’s 50 Best é uma compilação anual. Apesar de se chamar “50 melhores”, a lista chega a cem endereços. Devido à pandemia do coronavírus, não houve premiação em 2020. A última edição do 50 best, portanto, ocorreu em 2019. A relação é elaborada por mais de mil colaboradores experts em gastronomia, que enviaram seus votos em março deste ano.

O melhor restaurante do mundo, de acordo com o guia, é o Noma, em Copenhague, na Dinamarca. A casa havia ficado em segundo lugar na última premiação. Em seguida, entre os cinco melhores, aparecem o Geranium, também em Copenhague; o espanhol Asador Etxebarri; o peruano Central; e outro espanhol, o Disfrutar.

Decoração da Casa do Porco, no bairro República, tem origamis de porcos e corações no teto
Decoração da Casa do Porco, no bairro República, tem origamis de porcos e corações no teto Roberto Seba/Folhapress

A Casa do Porco foi inaugurada em 2015, na região central da capital paulista —na esquina entre as ruas Araújo e General Jardim– com uma cozinha que destaca a carne suína nos mais diversos preparos. Os porcos são de criação própria e a maior parte dos vegetais vêm do do sítio da família Rueda, em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, ou de pequenos produtores parceiros. O menu-degustação, em versão tradicional ou vegetariana, custa R$ 165.1 6

O endereço é comandado pelo casal Jefferson e Janaína Rueda. A dupla também é responsável pelo Bar da Dona Onça, a lanchonete Hot Pork e a Sorveteria do Centro, todos na mesma área do centro. Em 2020, Janaína foi eleita ícone da América Latina pelo 50 Best por atuação em merendas e no setor de restaurantes.

Como de costume, parte da lista já havia sido revelada ao público. No dia 23 de setembro, a organização divulgou os colocados da 51ª posição até a 100ª –com alguns brasileiros entre eles.

Antigo habitué do ranking, o D.O.M., de Alex Atala, caiu mais sete posições. De 54º colocado, em 2019, ele desceu para o 61º. O restaurante aparece na lista desde 2006, quando estreou em 50º lugar. Sua melhor marca foi em 2012, quando esteve em 4º lugar na lista.

Outro paulistano que costumava constar na lista, o Maní, da chef Helena Rizzo, deixou o ranking global. O local apareceu em 73º na edição de 2019.

Além dos endereços paulistanos, dois cariocas também marcam presença no ranking. O Oteque, do chef Alberto Landgraf, que estreou em 100º em 2019, atingiu o 67º lugar. Já o Lasai, de Rafa Costa e Silva, ficou em 85º. A casa estava na posição de número 74 em 2019.

Durante o hiato de um ano na premiação, o 50 Best promoveu outras atividades em apoio ao setor gastronômico. Uma destas iniciativas foi a lista 50 Next, que elegeu jovens que estão moldando o futuro da gastronomia. Divulgada em abril, a relação apontou dois jovens líderes brasileiros.

Mariana Aleixo, à frente do projeto Maré de Sabores, no complexo da Maré, na zona norte carioca
Mariana Aleixo, à frente do projeto Maré de Sabores, no complexo da Maré, na zona norte carioca Divulgação

Os representantes do país têm em comum a atuação em regiões periféricas. Mariana Aleixo, 33, está à frente de projetos no complexo da Maré, na zona norte carioca; Thiago Vinícius de Paula da Silva, 32, atua com a democratização do acesso a alimentos orgânicos no Campo Limpo, zona Sul de São Paulo.

Diferentemente dos rankings de bares e restaurantes do 50 Best, a lista com jovens líderes não tem ordem de classificação e foi dividida em categorias com um olhar mais abrangente à gastronomia —produção, tecnologia, educação, indústria criativa, ciência, hospitalidade e ativismo.

Conheça os 50 melhores restaurantes do mundo de 2021

1º lugar: Noma (Copenhague, na Dinarmarca)

2º lugar: Geranium (Copenhague, na Dinamarca)

3º lugar: Asador Etxebarri (Axpe, na Espanha)

4º lugar: Central (Lima, no Peru)

5º lugar: Disfrutar (Barcelona, na Espanha)

6º lugar: Frantzén (Estocolmo, na Suécia)

7º lugar: Maido (Lima, no Peru)

8º lugar: Odette (Cingapura)

9º lugar: Pujol (Cidade do México, no México)

10º lugar: The Chairman (Hong Kong)

11º lugar: Den (Tóquio, no Japão)

12º lugar: Steirereck (Viena, Áustria)

13º lugar: Don Julio (Buenos Aires, na Argentina)

14º lugar: Mugaritz (San Sebastian, na Espanha)

15º lugar: Lido 84 (melhor estreia na lista; em Gardone Riviera, na Itália)

16º lugar: Elkano (Getaria, na Espanha)

17º lugar: A Casa do Porco (São Paulo)

18º lugar: Piazza Duomo (Alba, na Itália)

19º lugar: Narisawa (Tóquio, no Japão)

20º lugar: Diverxo (Madri, na Espanha)

21º lugar: Hiša Franko (Kobarid, na Eslovênia)

22º lugar: Cosme (Nova York, nos Estados Unidos)

23º lugar: Arpège (Paris, na França)

24º lugar: Septime (Paris, na França)

25º lugar: White Rabbit (Moscou, na Rússia)

26º lugar: Le Calandre (Rubano, na Itália)

27º lugar: Quintonil (Cidade do México, no México)

28º lugar: Benu (San Francisco, nos Estados Unidos)

29º lugar: Reale (Castel di Sangro, na Itália)

30º lugar: Twins Garden (Moscou, na Rússia)

31º lugar: Restaurant Tim Raue (Berlim, Alemanha)

32º lugar: The Clove Club (Londres, Inglaterra)

33º lugar: Lyle’s (Londres, Inglaterra)

34º lugar: Burnt Ends (Cingapura)

35º lugar: Ultraviolet by Paul Pairet (Xangai, China)

36º lugar: Hof Van Cleve (Kruishoutem, Bélgica)

37º lugar: Singlethread (Califórnia, Estados Unidos)

38º lugar: Boragó (Santiago, Chile)

39º lugar: Florilège (Tóquio, Japão)

40º lugar: Sühring (Bancoc, Tailândia)

41º lugar: Alleno Paris au Pavillón Ledoyen (Paris, França)

42º lugar: Belcanto (Lisboa, Portugal)

43º lugar: Atomix (Nova York, Estados Unidos)

44º lugar: Le Bernardin (Nova York, Estados Unidos)

45º lugar: Noberlhart & Schmutzig (Berlim, Alemanha)

46º lugar: Leo (Bogotá, Colômbia)

47º lugar: Maaemo (Oslo, Noruega)

48º lugar: Atelier Crenn (San Francisco, Estados Unidos)

49º lugar: Azurmendi (Larrabetzu, Espanha)

50º lugar: Wolfgat (Paternoster, África do Sul)

De onde sobra, para onde falta: iniciativas combatem o desperdício de alimentos

Evitar o desperdício de alimentos é mais que uma causa, é necessidade. Conheça projetos que ajudam a combatê-lo e veja como evitá-lo na cozinha de casa
Por Renata Mesquita, O Estado de S.Paulo

Luciano Almeida, sócio fundador da Restin Brasil 
Luciano Almeida, sócio fundador da Restin Brasil  Foto: Restin Brasil

Shakshuka com crosta de tapioca, nhoque de banana-da-terra com ragu de costelinha, peito de frango com creme de espinafre e farofinha crocante de couve. Essas poderiam ser a descrição de pratos no cardápio de restaurantes, mas são receitas criadas a partir de “restos” da geladeira pelo nutricionista Luciano Almeida, fundador do app Restin Brasil

A startup criada por Luciano faz a ponte entre empresas ou produtores com alimentos excedentes com restaurantes ou clientes finais – e oferece os produtos a preços mais acessíveis. A principal missão da Restin é contribuir com a redução do desperdício de alimentos de uma forma sustentável e lucrativa. Para incentivar a conscientização, Luciano promove lives semanais no Instagram da empresa (@restinbrasil), nas quais o convidado abre a geladeira e, sob sua orientação, ao vivo, prepara um prato com os restos de alimentos que encontrar. “Cozinhar o restinho de comida que tem na sua geladeira já contribui para a redução do desperdício”, conta. 

E não é papo de empreendedor idealista. O mais recente estudo sobre o desperdício de alimentos, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), aponta que a maior parte do desperdício acontece nos domicílios, responsáveis por descartar 11% do total dos alimentos produzidos no mundo. Enquanto isso, serviços alimentares (restaurantes) e estabelecimentos varejistas (mercados) desperdiçam 5% e 2%, respectivamente. No total, o estudo estima que 931 milhões de toneladas de alimentos foram para o lixo em 2019 – cada banana passada, que poderia virar um delicioso bolo, conta. 

Nos mercados e feiras, parte do desperdício é resultado de produtos descartados por estarem próximos ao vencimento ou apenas por não terem determinado padrão estético. Mas há muita gente que, como Luciano, está empenhada em resolver esse problema. Fundada pelo engenheiro mecânico Roberto Matsuda e pela engenheira de alimentos Nathalia Inada, o Fruta Imperfeita (@fruta.imperfeita) é um serviço de delivery de cestas de frutas e legumes que, apesar de frescos e saborosos, acabariam na lata do lixo por não serem bonitos.

Cesta de alimentos, como legumes, verduras e frutas para famílias carentes pelo Banco de Alimentos do CEAGESP
Cesta de alimentos, como legumes, verduras e frutas para famílias carentes pelo Banco de Alimentos do CEAGESP Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Assim como a faz a Restin, outras empresas buscam estabelecer conexões que viabilizem a doação ou venda de alimentos que seriam descartados para organizações ou mesmo consumidores, visando o combate do desperdício. E a tecnologia se mostra cada vez mais uma grande aliada nessa missão. A recém-lançada B4 Waste (@b4waste) é também uma startup que oferece um marketplace que conecta o varejo com o consumidor. Mercados, empórios e mesmo restaurantes e confeitarias criam lojas dentro do app e ofertam produtos próximos do vencimento por preços atrativos (no mínimo 50% do valor original).

Foi a partir do cotidiano dos seus próprios trabalhos no setor de alimentos, onde presenciaram muito desperdício, que, tanto Luciano como Daniel Neuman, sócios da B4 Waste, começaram a questionar novas formas de consumo. “No meu restaurante, eu via muita comida ir para o lixo, havia muita perda, tanto alimentar como financeira”, conta Daniel, também fundador da The Gourmet Tea. A B4 Waste já tem parceria com grandes marcas do varejo, como Mambo, Natural da Terra e confeitarias como Ofner e Carole Crema, que diariamente sobem no app produtos próximos ao vencimento, com preços atrativos. 

Os sócio Luciano Kleiman, Daniel Neuman e Hyung Jun Kim, da startup B4waste 
Os sócio Luciano Kleiman, Daniel Neuman e Hyung Jun Kim, da startup B4waste  Foto: B4Waste

O debate sobre o desperdício de comida nunca esteve tão em alta por aqui como atualmente. De um lado, o Brasil bate a marca de 19 milhões de pessoas (quase 10% da população) vivendo em uma situação de insegurança alimentar grave – isto é, passando fome. De outro, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 30% da produção de alimentos no País é desperdiçada – o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam comida no mundo – do plantio à mesa das famílias, em média 27 milhões de toneladas de comida recebem o mesmo destino: o lixo. Cada um de nós, brasileiros, joga fora em média 60 kg de comida por ano. “Um cenário de triste contradição, em que tanta gente não come e tanto alimento é simplesmente descartado”, avalia Luciana Chinaglia Quintão, presidente da ONG Banco de Alimentos. 

Fundada por Luciana há mais de 20 anos, a ONG Banco de Alimentos é um grande ator dessa cadeia que atua no combate ao desperdício de alimentos e à fome por meio da distribuição de excedentes de mercados e empresas para entidades sociais. A ONG já atua com 42 entidades situadas em São Paulo, que atendem mais de 23 mil pessoas. 

Com proposta similar, o Comida Invisível (@comidainvisivel), da advogada Daniela Leite, conecta quem quer doar um alimento em bom estado – podem ser pessoas, empresas e restaurantes – com quem precisa de comida, por meio de geolocalização, sem qualquer transação financeira. “Não importa quem vai levar os itens, o que importa é recuperar o valor da comida e lutar contra o desperdício”, diz Daniela. Pelo app, de forma simples e rápida, é possível doar ou receber a qualquer hora do dia desde um pacote de farinha até dúzias de caixas de frutas e hortaliças.

Desde 2019, o Comida Invisível já recuperou mais de 150 toneladas de alimentos. Exemplo entre os doadores está o restaurante Arturito, da chef Paola Carosella, que costuma subir na plataforma alimentos que seriam descartados, como claras de ovos orgânicos quando só são usadas as gemas, ou legumes que são utilizados para fazer o caldo. 

Prato cheio

 A alimentação no Brasil, ainda hoje, está relacionada ao excesso. Quem nunca ouviu a típica frase “é melhor sobrar do que faltar” nos almoços de família? “É preciso mudar o nosso modo de consumir, o desperdício está na nossa cultura”, afirma Gustavo Porpino, especialista no tema da Embrapa, que colaborou como revisor do estudo da ONU. No relatório da Embrapa usado pela ONU, eles identificaram que 77% da população brasileira considera importante que a comida servida à mesa seja fresca e 68% responderam que acham importante ter a despensa cheia. “Desperdício é um hábito, e hábitos só mudamos com educação e recorrência”, avalia Daniela, que está prestes a lançar uma plataforma de educação dentro do Comida Invisível, com cursos online como o de manual de boas práticas, além de diretrizes de como doar e receitas de aproveitamento.

Compras em menor quantidade, armazenamento e preparo dos alimentos de forma correta, uso integral de alimentos e reaproveitamento de sobras são algumas das mudanças em casa que podem fazer a diferença (confira mais dicas para evitar o desperdício em casa abaixo)

A ONG Banco de Alimentos combate o desperdicio de alimentos e minimiza os efeitos da fome, por meio da colheita urbana de alimentos (sobras de comercializacao e excedentes de producao, ainda dentro da validade) que seriam descartados 
A ONG Banco de Alimentos combate o desperdicio de alimentos e minimiza os efeitos da fome, por meio da colheita urbana de alimentos (sobras de comercializacao e excedentes de producao, ainda dentro da validade) que seriam descartados  Foto: ONG Banco de Alimentos

Porpino ressalta a importância de reforçar políticas de alimentação voltadas para o fortalecimento de sistemas circulares. “É uma tendência global. O Brasil tem muito potencial de avançar, por exemplo, no desenvolvimento de soluções com foodtechs para reduzir o desperdício de alimentos.”

Sustentabilidade

O mesmo relatório da ONU citado no início do texto abre as discussões com a seguinte frase: “Se o desperdício de alimentos fosse um país, seria a terceira maior fonte de emissão de gases de efeito estufa”. Pois, a esse cenário todo é necessário também somar as perdas ambientais. Quando desperdiçamos alimentos, não é só o próprio alimento que estamos jogando fora, também é desperdiçado todo o esforço para que ele chegue até a mesa – isso envolve desde mão de obra, até emissões globais de gases de efeito estufa, gasto de energia e transporte. Ao combater o desperdício, também trazemos mudanças para o meio ambiente. 

Projetos que ajudam a reduzir o desperdício 

Banco Ceagesp de Alimentos: o maior entreposto de alimentos da América Latina recebe doações de produtos em bom estado, mas que seriam descartados pelos seus permissionários. Todas as quintas-feiras ocorre a distribuição de alimentos para cerca de 550 famílias que estão em situação de vulnerabilidade. www.ceagesp.gov.br

B4Waste: o aplicativo é um marketplace que conecta empresas (mercados, empórios, restaurantes e cafés) com pessoas, oferecendo produtos próximos do vencimento por preços atrativos. Disponível para iOS e Android. b4waste.com.br 

Comida Invisível: a plataforma viabiliza a doação de alimentos – em bom estado, mas que seriam descartados por algum motivo – a ONGs ou a pessoas físicas por meio de geolocalização, além de trazer conteúdos com objetivo de mudar o hábito de consumo de alimentos. comidainvisivel.com.br 

Food Keeper: aplicativo que reúne uma série de dicas de armazenamento para ajudar a manter a qualidade dos alimentos, o que maximiza a vida útil de cada um. Por meio do app, você pode agendar no seu calendário quando um alimento está próximo da data de validade. Disponível para iOS e Android. 

Fruta Imperfeita: trabalha em parceria com os produtores buscando aproveitar as frutas e legumes que são rejeitadas pelos grandes supermercados. Os produtos vêm direto dos produtores com alguma imperfeição no formato ou na cor, mas igualmente deliciosas, frescas e nutritivas. Esses produtos são selecionados e entregue nas casas dos participantes, semanalmente. www.frutaimperfeita.com.br 

Restin Brasil: plataforma conecta produtores e mercados com alimentos de excelente qualidade, porém fora do padrão estético ou próximos da validade. www.restin.com.br 

ONG Banco de Alimentos: o projeto recolhe alimentos que já perderam valor de prateleira no comércio, mas ainda estão perfeitos para consumo humano e distribui às instituições sociais cadastradas. Saiba como ajudar em bancodealimentos.org.br 

#SemDesperdício: lançada pela WWF-Brasil, Embrapa e FAO, a iniciativa nasceu para ampliar a consciência dos consumidores brasileiros sobre o desperdício de alimentos e gerar um impacto positivo na mudança de hábitos de consumo alimentar. www.semdesperdicio.org 

 

Pequenas (grandes) atitudes contra o desperdício

Especialistas no combate ao desperdício como Daniela Leite, do Comida Invisível, e Luciano Almeida do Restin Brasil, entregam algumas dicas para evitar o desperdício em casa e prolongar a vida útil de ingredientes.

Para combater o desperdício, aproveite o máximo de cada alimento, desde o talo até as cascas
Para combater o desperdício, aproveite o máximo de cada alimento, desde o talo até as cascas Foto: Fernando Sciarra/Estadão

10 maneiras de reduzir o desperdício de alimentos em casa:

1. Olhe a geladeira e a despensa antes de ir ao mercado

2. Faça o cardápio da semana com o que tem na geladeira e somente depois veja o que realmente precisa ser comprado. 

3. Evite fazer a “compra do mês”;  faça compras ao longo da semana, isso ajuda a evitar que algum legume fique esquecido na gaveta da geladeira, além de garantir sempre alimentos mais frescos. 

4. Deixe os produtos que vencem primeiro visíveis no armário

5. Aproveite o máximo de cada alimento, desde o talo até as cascas.

6. Conserve os alimentos adequadamente para que durem mais tempo 

7. Prepare algumas porções e congele para agilizar no dia a dia (e congele-os em embalagens apropriadas, como plástico ou vidro).

8. Seja criativo para aproveitar ingredientes da sua geladeira ou freezer. 

9. Prepare apenas a quantidade de comida necessária.

10. Não ligue para a beleza. Um ingrediente que não seja esteticamente perfeito pelo lado de fora pode ser ótimo para purês ou sucos. Se você não levar aquela batata torta para casa, ela provavelmente será jogada fora.

Na cozinha:

●  Banana em todas as fases: quando ela está verde, é ideal para a fazer a biomassa ou frita. Quase madura, é ótima crua ou grelhada. Madura, vai bem crua, em salada de frutas ou compotas. Escura e passada, está no ápice da doçura perfeita para fazer bolos e pães. 

●  Legumes (cenoura, beterraba ou couve): um ótimo método de conservação que recupera a qualidade dos legumes murchos é colocá-lo em uma travessa de água potável e deixar na geladeira. Volta a ficar perfeita. 

● Talos e folhas de legumes como cenoura, salsinha ou brócolis vão bem crus nas saladas ou podem ser transformados em molhos, como pesto, batidos com azeite, alho e oleaginosas.