Os últimos e dolorosos dias do chef Anthony Bourdain

Livro retrata um homem que, no final da vida, estava isolado, injetando esteroides, bebendo até cair e visitando prostitutas, e que desapareceu da vida de sua filha de 11 anos
Por Kim Severson

Anthony Bourdain em "Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain"
Anthony Bourdain em “Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain”  Foto: Focus Features

THE NEW YORK TIMES – Depois que Anthony Bourdain tirou a própria vida em um quarto de hotel francês em 2018, seus amigos próximos, familiares e as pessoas que por décadas o ajudaram a se tornar uma estrela da TV internacional se fecharam diante da enxurrada de perguntas da mídia e permaneceram em silêncio, especialmente sobre seus últimos dias.

Esse silêncio seguiu até 2021, quando muitos de seu círculo íntimo foram entrevistados para o documentário Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain (disponível na Apple TV) e para o livro Bourdain: The Definitive Oral Biography. As duas obras mostravam um lado mais complexo de Bourdain, que ficava cada vez mais em conflito com seu sucesso e nos últimos dois anos fez de seu relacionamento com a atriz italiana Asia Argento seu foco principal. Mas nenhum deles abordou diretamente o quão confusa sua vida se tornou nos meses que levaram à noite em que ele se enforcou aos 61 anos.

Em 11 de outubro, a Simon & Schuster publicará o que chama de primeira biografia não autorizada do escritor e documentarista de viagens. Down and Out in Paradise: The Life of Anthony Bourdain está repleto de detalhes frescos e íntimos, incluindo textos crus e angustiados dos dias anteriores à morte de Bourdain, como seus últimos contatos com Argento e Ottavia Busia-Bourdain, sua esposa por 11 anos que, quando se separaram em 2016, tornou-se sua confidente.

“Eu também odeio meus fãs. Eu odeio ser famoso. Odeio meu trabalho”, escreveu Bourdain a Busia-Bourdain em uma de suas trocas de mensagens quase diárias. “Estou sozinho e vivendo em constante incerteza.”

A partir de mais de 80 entrevistas e arquivos, textos e e-mails do telefone e do laptop de Bourdain, o jornalista Charles Leerhsen traça a metamorfose de Bourdain de um adolescente mal-humorado em um subúrbio de Nova Jersey que sua família não podia sustentar a um aventureiro na cozinha viciado em heroína que atingiu o sucesso como escritor e tornou-se um intérprete excepcionalmente talentoso do mundo através de suas viagens.

Leerhsen disse em uma entrevista que queria escrever um livro sem o brilho respeitoso do que chamou de “um produto oficial de Bourdain”. Na verdade, ele retrata um homem que no final de sua vida estava isolado, injetando esteroides, bebendo até cair e visitando prostitutas, e que desapareceu da vida de sua filha de 11 anos.

”Nós nunca tivemos essa grande história, aquela peça que dizia o que aconteceu, como o cara com o melhor emprego do mundo tirou a própria vida”, disse Leerhsen, ex-editor executivo da Sports Illustrated e da People que escreveu livros sobre Ty Cobb, Butch Cassidy e um cavalo de corrida chamado Dan Patch.

O livro já chamou a atenção da família de Bourdain, de ex-colegas de trabalho e amigos mais próximos. Seu irmão, Christopher Bourdain, enviou dois e-mails à Simon & Schuster em agosto chamando o livro de ficção ofensiva e difamatória e exigindo que não fosse lançado até que os muitos erros de Leerhsen fossem corrigidos.

“Cada coisa que ele escreve sobre relacionamentos e interações dentro de nossa família quando crianças e adultos, ele inventou ou errou totalmente”, ele disse em entrevista. Felice Javit, vice-presidente e consultora sênior da editora, respondeu a Christopher Bourdain com um e-mail: “Com todo o respeito, discordamos que o material do livro contenha informações difamatórias e manteremos nossa publicação”.

Leerhsen disse que o círculo íntimo de Anthony Bourdain e até mesmo alguns de seus intermediários internacionais e antigos cozinheiros se recusaram a falar com ele para a biografia, em parte porque a agente de longa data de Bourdain, Kim Witherspoon, disse a eles para não falarem. Witherspoon não respondeu a um pedido de entrevista para este artigo. Laurie Woolever, assistente de Bourdain, não quis falar sobre o livro.

Leerhsen disse que tal resistência do campo de Bourdain ajudou a abrir outras portas para ele. “Muitas pessoas estavam dispostas a falar comigo porque foram deixadas para trás por Tony e pelo trem de Tony”, ele disse, acrescentando que alguns foram movidos a falar por sua raiva pelo dano que Bourdain causou à filha.

Uma pessoa próxima a Bourdain que não se opôs ao livro é sua esposa, Busia-Bourdain, que controla seu patrimônio. O material mais revelador do livro vem de arquivos e mensagens retiradas do telefone e do laptop de Bourdain, ambos parte do espólio.

Leerhsen disse que obteve esse material de uma fonte confidencial, mas acrescentou que quem cuida do patrimônio “não se opôs e não prevejo nenhuma objeção”. Ele não disse se entrevistou Busia-Bourdain, mas ela é citada em partes do livro. Ela disse através de um amigo que não comentaria o assunto.

O chef Eric Ripert, um amigo próximo que encontrou Bourdain morto em seu quarto de hotel na Alsácia após um dia de filmagem para um episódio de seu programa da CNN, Parts Unknown, disse que não forneceu informações para o livro, embora o tenha lido. Ele disse que encontrou muitas imprecisões, mas ficou surpreso por conter detalhes íntimos daqueles dias na França que ele havia contado apenas a algumas pessoas.

Em sua pesquisa, Leerhsen traçou o percurso de Bourdain com viagens a Montreal, Japão e França, onde ele e sua esposa conseguiram ficar no mesmo quarto onde Bourdain morreu, no hotel boutique Le Chambard, na pequena vila de Kaysersberg.

Casamento dos pais

O livro começa com os primeiros anos de Bourdain, analisando o casamento de seus pais, seu desempenho na escola e seu relacionamento com sua primeira esposa, Nancy Putkoski, que Leerhsen disse ter sido uma fonte útil.

Bourdain se formou no ensino médio um ano antes para poder acompanhá-la no Vassar College. Suas notas lá eram péssimas, e ele era mais feliz durante os verões em que trabalhava em restaurantes em Provincetown, Massachusetts. Depois de dois anos, ele se matriculou no Culinary Institute of America, cerca de 8 Km ao norte de Vassar em Hyde Park, Nova York.

O livro traça a carreira de Bourdain nos restaurantes de Nova York e seus relacionamentos com os chefs intimidadores que o moldaram. Inclui a conhecida história de como sua mãe, Gladys Bourdain, então editora do The New York Times, entregou um artigo que ele havia escrito sobre os piores segredos de um restaurante de Manhattan para Esther B. Fein, esposa do editor da New Yorker, David Remnick, que o publicou na revista.

A história impulsionou a carreira de escritor de Anthony Bourdain, levando ao seu best-seller Cozinha Confidencial. Isso despertou o interesse da jovem empresa de mídia Zero Point Zero, que desenvolveu seu primeiro programa, A Cook’s Tour, e programas subsequentes.

O livro mergulha fundo na relação de Bourdain com Argento. Os dois estiveram envolvidos por cerca de dois anos em um relacionamento tumultuado e muito público que, escreve Leerhsen, Bourdain parecia disposto a fazer qualquer coisa para preservar.

”Eu me sinto perdidamente apaixonado por essa mulher”, ele escreveu à esposa.

Bourdain gastou centenas de milhares de dólares com Argento, fornecendo apoio financeiro para ela, seus dois filhos e às vezes seus amigos, de acordo com o livro. Ele insistiu com colegas de trabalho para que ela dirigisse e aparecesse no programa, e se tornou um defensor feroz do movimento #MeToo depois que ela disse ao repórter Ronan Farrow em 2017 que Harvey Weinstein a havia agredido sexualmente.

Leerhsen disse que trocou alguns e-mails com Argento, que, segundo ele, citou Oscar Wilde: “É sempre Judas quem escreve a biografia”.

Em um e-mail ao Times, Argento disse que não havia lido o livro, acrescentando: “Escrevi claramente para esse homem que ele não poderia publicar nada do que eu dissesse a ele”.

Leerhsen não é a primeira pessoa a tentar explicar o desconhecido: por que Bourdain se matou. Seu livro oferece uma teoria.

Dois dias antes de Bourdain morrer, ele se juntou a Ripert para uma refeição no JY’s, um restaurante com duas estrelas Michelin de propriedade de um velho amigo, o chef Jean-Yves Schillinger. Após a refeição, os três homens seguiram para Freiburg, uma cidade alemã a 48 quilômetros de distância, para continuar a noite tomando cervejas. Schillinger disse que Bourdain foi recebido como a estrela que era, e parecia seu antigo eu.

Leerhsen afirma que depois dessa viagem, Bourdain viu o custo de sua exigente busca emocional por Argento.

”Acho que no final, nos últimos dias e horas, ele percebeu o que se tornou”, disse Leerhsen. “Eu não respeito o fato dele ter se matado, mas ele percebeu e acabou entendendo que não queria ser a pessoa que se tornou.” / Tradução de Lívia Bueloni Gonçalves

Manu Buffara é eleita melhor chef mulher da América Latina pelo 50 Best 2022

Brasileira que comanda o restaurante Manu, em Curitiba, vai receber o prêmio no dia 15 novembro, em Mérida, Yucatán, na cerimônia oficial da premiação
por Danielle Nagase, O Estado de S.Paulo

Manu Buffara é eleita melhor chef mulher pelo 50 Best América Latina 2022.
Manu Buffara é eleita melhor chef mulher pelo 50 Best América Latina 2022. Foto: Gabriela Portilho/NYT

brasileira Manu Buffara acaba de ser eleita a melhor chef mulher da América Latina pelo braço regional do 50 Best 2022. À frente do restaurante Manu, em Curitiba, que figura na 44ª colocação na lista de 2021, a chef receberá o prêmio no dia 15 novembro, na cerimônia oficial que, neste ano, ocorre em Mérida,  no estado de Yucatán, no México. Neste dia, também serão anuniados os 50 melhores restaurantes da região.

“Este momento não é sobre sorte. É sobre trabalhar muito. É sobre sonhar alto e nunca, nunca, desistir do meu sonho. Fico muito feliz de estar recebendo esse prêmio. Que minhas filhas e todas as meninas e mulheres vejam que é possível chegar em uma posição de destaque. Como dizem por aí, ‘uma imagem vale mais do que mil palavras’, e é muito bom estar aqui, agora, e receber esse reconhecimento. Ganhei esse palco do 50 Best e quero usá-lo para que eu possa servir de exemplo para muitas mulheres, meninas e toda sociedade! Porque através da alimentação podemos mudar uma nação”, declara Manu, que nesta semana, também conquistou a 48ª colação no Best Chef Award, que lista o 100 melhores do mundo.

“Esse  prêmio é como uma janela para falarmos da importância de conhecer o alimento local, buscar ingredientes frescos, de qualidade, que cresçam perto de onde você vive. Meu trabalho é sobre isso e ganhar esse prêmio é poder usar esse megafone para chamar a atenção para a qualidade do que temos perto de nossa casa, da maneira como devemos ver e cuidar da nossa cidade, estado e País”, complementa.

Best Female Chef Award – como é o nome do prêmio em inglês – faz parte das premiações especiais que costumam ser anunciadas antes da cerimônia, como uma espécie de contagem regressiva. Além dele, ainda são esperados o Icon Award (dado a pessoas que geram mudanças duradouras na indústria alimentícia e na sociedade), no dia 11 de outubro, o  One To Watch (que destaca o restaurante mais promissor), no 25 de outubro, além da lista inaugural de restaurantes, entre a 51ª  e 100ª colocações, prometida para o dia 3 de novembro.

Omakase: restaurantes japoneses que oferecem o menu em São Paulo

Entre R$ 280 e R$ 2,4 mil, restaurantes apresentam menus que mudam todos os dias, de acordo com o que há de mais fresco
por Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

Peixes e insumos do restaurante Kazuo, comandado pelo chef Kazuo Harada Foto: Rubens Kato

Você entra em um restaurante japonês e simplesmente não escolhe nada do que vai comer. Deixa tudo nas mãos do itamae-san – o chef da cozinha japonesa. Essa é a proposta de um omakase, espécie de menu degustação dos restaurantes japoneses que está ganhando cada vez mais espaço nas casas de São Paulo, mesmo com valores do menu nas alturas. 

Afinal, a lógica dos omakases é oferecer o que há de melhor no dia. O mais fresco, o mais saboroso, o de maior qualidade. Com isso, o preço sobe, assim como a experiência se torna mais marcante e única. A seguir, confira as melhores opções de restaurantes japoneses em São Paulo que oferecem omakases — de R$ 280 até quase R$ 2,4 mil.

Kuro

É em um charmoso e pequeno salão na região da Cerqueira César que o Kuro faz sua magia. Síntese de como o omakase pode ser mais do que um simples menu degustação, a casa traz experiências que mexem com os sentidos. Em dois turnos (19h/21h) diários com no máximo oito pessoas no salão, o restaurante serve os peixes mais aguardados pelos apreciadores da boa gastronomia japonesa (bluefin, robalo, pargo, linguado), mas também não deixa de fazer algumas brincadeiras gastronômicas e arroubos criativos interessantes. É o caso do “beijo gelado”, onde um tartare de camarão é servido em uma base de gelo com formato de boca, e do prato que abre o omakase de 16 etapas, um caldo de katsuobushi e alga kombu fervido usando um método de infusão e indução térmica — e que deixa qualquer um fascinado. Só que pesa no bolso: o omakase sai por R$ 490 por pessoa.

Onde: R. Padre João Manuel, 712, Cerqueira César. 3062-5241. Seg. a sáb., 19h/21h. Necessário reservar.

No Kuro, cliente passa por 16 passos em um omakase de R$ 490
No Kuro, cliente passa por 16 passos em um omakase de R$ 490 Foto: Thays Bittar

Kazuo

Aberto em julho de 2021, o Kazuo talvez seja uma das grandes surpresas em São Paulo. Mesmo com a casa tendo tão pouco tempo, o chef Kazuo Harada mostra sua experiência após uma premiada temporada no Mee, no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, para montar um menu que agrada aos olhos e ao paladar. Além de ter peixes fresquíssimos, como é obrigatório nos bons omakases, o Kazuo traz pratos complexos visualmente, que causam impacto logo que chegam na mesa. No entanto, o impacto também chega no paladar: o Gung Chae, um tartare de camarão fresco, maionese de gergelim, ovas de salmão e crispy de camarão com shoyu Kazuo, é uma festa na boca. Deixa qualquer um satisfeito. Delicioso também é o sushi de lula com fermentação preparada com o intestino da própria lula. De comer rezando. O omakase, servido só no balcão, sai por R$ 450.

Onde: Rua Prudente Correia, 432, Jardim Europa. 97620-8488. Seg., 12h/15h. Ter. a qui., 12h/15h e 19h/23h. Sex. e sáb., 12h/15h e 19h/00h. Dom., 12h/16h. Recomendado reservar.

Entrada do restaurante Kazuo, em São Paulo
Entrada do restaurante Kazuo, em São Paulo Foto: Tadeu Brunelli

By Koji

É dentro do Estádio Cícero Pompeu de Toledo que o By Koji oferece o melhor custo-benefício dentre os omakases de São Paulo. Em um salão com vista para o campo de futebol, o destaque aqui vai para a qualidade dos peixes, que roubam a cena — apesar do menu também oferecer bons pratos quentes. Em duas diferentes opções de omakases, um serve 7 cortes de sashimi e 12 sushis sazonais, além de prato quente e sobremesa. O outro sobre para 15 sushis sazonais, incluindo bluefin, enguia e wagyu, de acordo com a disponibilidade da casa. No preço, cobra menos do que os concorrentes e tem uma experiência agradável, principalmente para os que estão começando a frequentar omakases e a entender detalhes da culinária. O regular sai por R$ 280. Completo, R$ 350.

Onde: Praça Roberto Gomes Pedrosa, 1, Portão 4, Jardim Leonor. 3624-7710. Ter. a dom., 12h/15h e 19h/22h. Recomendado reservar.

Jun Sakamoto

O mais clássico de todos os omakases, o Jun Sakamoto é o que oferece a experiência mais interessante na troca com o chef que dá nome ao restaurante. Enquanto o ambiente é discreto, em uma casa em Pinheiros, o serviço é empolgante. Afinal, as trocas com Jun deixam a experiência ainda mais interessante, com ele contando histórias e trazendo seu olhar para a gastronomia oriental enquanto prepara algumas iguarias. Quem tiver sorte, pode encontrar o sushi de sardinha ou um delicioso tempurá de enguia, que tira qualquer preconceito com o peixe na primeira bocada. É dele também o shari mais marcante, que deixa seus sushis ainda mais complexos. O preço do omakase no Jun é de R$ 500.

Onde: R. Lisboa, 55, Pinheiros. 3088-6019. Seg. a sex., 19h/23h. Sáb. 19h/22h. Necessário fazer reserva.

Sushi do chef Jun Sakamoto
Sushi do chef Jun Sakamoto Foto: Clayton de Souza/Estadão

Murakami

É difícil descrever aqui o omakase do Murakami, que traz toda a criatividade do chef Tsuyoshi Murakami. Lembrado sempre por seus tempos à frente do Kinoshita, que falaremos mais à frente, o chef tem um restaurante para chamar de seu, com um omakase que nunca é estático e realmente acompanha o frescor dos peixes do dia. Com o shari feito na hora, delicioso, o restaurante oferece três menus, com várias pequenas diferenças entre eles. A Experiência Murakami são 6 tempos, 5 pratos frios e quentes e uma sobremesa. É um menu mais criativo (R$ 470,00). A Experiência Sushi é somente sushi em 15 tempos. Feitos um a um (R$ 680,00). Já a Experiência 2022 são 9 tempos, 7 pratos frios e quentes e duas sobremesas, além de uma latinha de caviar Baerii (R$ 1.150,00). 

Onde: Al. Lorena, 1186, Jardins. 3064-8868. Ter. a sáb., 12h/15h e 19h/23h. Necessário fazer reserva.

Kinoshita

O Kinoshita é o que tem o omakase mais diferente, com pratos que saem da cartilha adotada pela maioria dos restaurantes japoneses. Na oferta para a atual estação, a casa oferece pratos como um ussuzukuri de suzuki jalapeño, à base de robalo, misso, jalapeño; e um inusitado Crispy Rice Maguro, feito de folha de arroz frita, atum, avocado, redução de balsâmico, flor de sal e pimenta gochujang. Depois de um desfile de sushis e sashimis, estes últimos cortados mais grossos do que de costume, há espaço para uma boa sobremesa: cheesecake de tofu, saborosíssimo. Sai por R$ 462,81 por pessoa. Ou, ainda, R$ 2.357,81 para o casal que quiser harmonização com Krug Grand Cuvée 169ème edition.

Onde:  R. Jacques Félix, 405, Vila Nova Conceição. 3849-6940. Seg. a sáb., 12h/15h e 19h/23h. Recomendado reservar.

Ambiente do restaurante Kinoshita, em São Paulo
Ambiente do restaurante Kinoshita, em São Paulo Foto: Alex Silva/Estadão

Quem é a chef argentina Paola Carosella, alvo de boicote por apoiadores do governo

Com mais de 5 milhões de seguidores no Instagram, a chef e ativista declarou que ‘é muito difícil se relacionar com quem apoia Bolsonaro por dois motivos: ou porque é um escroto, ou porque é burro’

Paola Carosella é chef e militante — Foto: Divulgação

A chef argentina Paola Carosella, de 49 anos, chegou em São Paulo em 2001, quando veio passar uma temporada por aqui ajudando o então patrão, Francis Mallmann, a montar o restaurante Figueira Rubaiyat. Nesse período, aconteceu o Corralito, confisco de depósitos bancários que transformou o dólar em peso, fazendo uma brutal desvalorização nos investimentos e poder de comprados argentinos. Quando voltou para a Argentina, vendeu a casa da mãe, o carro, doou móveis e roupas e se mudou de vez para São Paulo. Com quatro malas na mão e sem conhecer absolutamente ninguém. Justo ela, que hoje é uma celebrity chef, dona do badalado Arturito, aberto em 2008 em Pinheiros, e de La Guapa Empanadas, em vários pontos da cidade, soma mais de 5 milhões de seguidores no Instagram e volta e meia causa frisson nas redes por seu ativismo, geralmente ao redor de temas que vão de política a defesa do alimento fresco e de qualidade, passando por movimentos que falam do desperdício de alimentos.

O robalo fresco servido no Arturito vem de uma comunidade de pescadores de Paraty — Foto: Reprodução
O robalo fresco servido no Arturito vem de uma comunidade de pescadores de Paraty — Foto: Reprodução

O status de celebridade, Paola sabe, vem muito por conta do programa “Masterchef”, da TV Bandeirantes, que participou desde 2014 e fez sete temporadas. Ela é parada na rua por fãs e seus empreendimentos são sucesso. Famosa por não temer dar suas opiniões sobre assuntos muitas vezes polêmicos, agora, ela está envolvida em mais um caso que vêm abalando as redes sociais. Na segunda-feira, durante uma entrevista ao DiaCast, canal do YouTube, a argentina criticou os eleitores de Jair Bolsonaro (PL). Ela declarou que é “muito difícil se relacionar com quem apoia Bolsonaro por dois motivos: ou porque é um escroto, ou porque é burro”, disparou. Em outro momento, declarou que “já ficou muito claro que não teve programa de governo, que (ele) não faz a mínima ideia do que está fazendo, que está lutando contra um comunismo que não existe”.

Isso bastou para ela entrar na mira de apoiadores do presidente, que foram ao Google boicotar o restaurante Arturito, que recebeu uma enxurrada de avaliações negativas fez com que a classificação do lugar passasse de 4,5 estrelas ao meio-dia de segunda-feira para 1,7 estrelas no início da tarde desta terça, dia 24 de maio. O número de comentários saltou de 3,8 mil para mais de 40 mil. Além disso, a hashtag #VoltaParaArgentinaCozinheira ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter.

Capelacci de abóbora e ricota, manteiga de sálvia, espinafre e parmesão é um prato vegetariano do restaurante — Foto: Reprodução
Capelacci de abóbora e ricota, manteiga de sálvia, espinafre e parmesão é um prato vegetariano do restaurante — Foto: Reprodução

Por outro lado, ela também teve apoiadores. Felipe Neto, por exemplo, foi ao Twitter para defendê-la. “Paola Carosella está certíssima. Todo bolsonarista ou é escroto, ou burro. O único erro dela foi porque eu colocaria um ‘colossalmente’ antes de cada adjetivo. Bolsonarista não é apenas ‘escroto’, é ‘colossalmente escroto’ ou ‘colossalmente burro'”, escreveu o Youtuber, que ainda comentou sobre as sugestões de boicote aos restaurantes da chef. “Morrendo de rir com bolsonaristas achando que vão cancelar uma das melhores chefs de cozinha do mundo. Só 36% do país aprovam esse genocida aliado da milícia. Vocês não cancelam mais ninguém. Não conseguiram comigo e não conseguirão com a Paola”, disparou Felipe.

Apesar de na Internet a imagem de Paola e seu restaurante ter perdido popularidade por conta da campanha de apoiadores do presidente, na terça-feira o Arturito manteve seu sucesso: a fila de espera para uma mesa de duas pessoas chegava a 40 minutos às 12h30 e as reservas para sexta, sábado e domingo já estavam esgotadas.

O valor dos pratos, apesar de estarem na média de restaurantes de São Paulo, também têm sido alvo de internautas que ficaram com raiva da declaração da chef. O menu do dia, chamado de prato do agricultor, sai por R$ 55. Já os pratos mais caros do cardápio são a anchova assada no forno a lenha com molho tahine verde e abóbora assada (R$ 120) e o corte de carne brasileira sustentável (com bois criados sem veneno, pastando livremente) com gratin de mandioca, mandioquinha e batata e molho chimichurri (R$ 180).

A questão do preço sempre foi uma preocupação de Paola. Defensora de que comida de qualidade não precisa custar tanto, diz que o preço final do prato tem que ser uma porcentagem da matéria-prima (todos os fornecedores são escolhidos por ela), da folha de pagamento, dos custos de manter o lugar, da “grande fatia de impostos do Brasil” e de uma fatia de “lucro lógico” para o chef que, “com muita sorte, não deve ser superior a 12%”. “Muita gente vem ao Arturito e diz que o restaurante não é nada demais. Não é nada demais mesmo. Quem vem esperando um Alex Atala não encontra. A pesquisa dele é outra. O que eu faço é um delicioso frango com batata”, disse ela em entrevista ao “Ela”. 

Todas as saladas são colhidas por agricultores orgânicos  — Foto: Reprodução
Todas as saladas são colhidas por agricultores orgânicos — Foto: Reprodução

Além da fama de boa cozinheira, Paola tem 1,77 metro, uma beleza exótica de traços fortes e fala doce. Pensa bastante antes de expressar sua opinião. Não faz dieta. Mas, se come duas empanadas no almoço toma somente sopa no jantar. Adora acompanhar o programa pelo Twitter, “para saber o que as pessoas estão pensando”. Já foi convidada para posar nua, mas recusou, afinal, diz : “Sou uma mera cozinheira.”

A chef, empresária e ativista Paola Carosella — Foto: Reprodução
A chef, empresária e ativista Paola Carosella — Foto: Reprodução

Cozinheira que nasceu de uma família de classe média baixa, de imigrantes italianos, na periferia de Buenos Aires. O pai era bipolar e passava longos períodos internado. Ele e a mãe de Paola, filha única, se separaram quando era ainda pequena. “Fomos sempre nós duas mesmo. Nos mudamos para Buenos Aires, minha mãe foi fazer faculdade de Direito. Nossa vida foi bem difícil, melhorando aos poucos”, conta Paola.

Aos 18 anos, ela sabia o que queria fazer da vida. Foi trabalhar como secretária e o patrão, quando soube que cozinhava bem, convidou-a para preparar os almoços da empresa. Aí foi conseguindo outros empregos por restaurantes em Buenos Aires. Até que a mãe lhe deu, em 1992, uma viagem para Paris, onde estagiou por seis meses. Cinco anos depois, estava no importante grupo de Francis Mallman na Argentina, onde fez carreira até chegar a São Paulo com quatro malas.

Agô, novo bar em Santa Teresa, no Rio, celebra religiões de matriz africana

Agô homenageia terreiros nos pratos, na decoração repleta de obras de arte e na música
Por Eduardo Vanini

Kananda Soares abriu as portas de seu novo bar em Santa Teresa — Foto: Ana Branco

Faz 20 anos que Kananda Soares passa pela encruzilhada entre as ruas Monte Alegre e Áurea, em Santa Teresa, no caminho de casa para o trabalho. A cada travessia, jamais deixou de repetir a expressão “agô”, pedido de licença para movimentos de entrada, saída e passagem em iorubá. “Aqui é um dos principais locais de despacho no bairro”, conta. “Um dia, voltando do trabalho, vi uma plaquinha de ‘aluga-se’ no imóvel onde funcionou uma farmácia por cem anos. Na mesma hora, pensei no nome: ‘Agô’. Parece que recebi.”

Surgiu assim a mais nova empreitada da empresária, que já faz e acontece na região com a sua Favela Hype, mix de loja e bar a poucos metros dali. Totalmente inspirado nos terreiros, o Agô reverencia as religiões de matriz africana dos batuques que partem das caixas de som ao cardápio. O drinque Vulgo Malvadão, por exemplo, mistura gim, frutas vermelhas, espumante e pimenta dedo-de-moça, enquanto o Água de Oxum vai de cachaça, seriguela, leite de coco e louro. Para comer, o destaque é a opção “Monte o seu ebozinho”, que traz lombo de porco flambado na cachaça e farofa de dendê e quiabo entre as possibilidades. “Não é uma comida litúrgica, mas nos inspiramos na cultura e nos pratos servidos nas festas”, diz Kananda, que consultou os búzios antes de abrir as portas.

Decoração tem obras de arte e celebra os terreiros

Com os caminhos abertos, a clientela apareceu logo. Gente como a jornalista e influenciadora Luiza Brasil já deu pinta por lá, assim como a atriz Aline Borges. “É uma mistura do novo com o que é ancestral”, elogia a moça, no ar em “Pantanal”, da TV Globo. “E os drinques temáticos são deliciosos, o meu preferido é o Laroiê (tangerina, morango, hortelã e gim).”

A decoração é outro ponto alto, com detalhes como o símbolo de Exu cravado no piso da entrada, as ferraduras de cavalo atrás da porta e uma caveira de boi pendurada na parede. Obras de arte de artistas negros, como Raphael Cruz, que também pintou a fachada, e Joelington Rios completam a ambientação, assim como uma enorme foto de Daniel, o preto-velho mais famoso de Santa Teresa, feita por Yedda Affini, artista em ascensão entre na arte contemporânea e filha de Kananda. “Aqui é um bar de protagonismo preto”, avisa a dona do espaço. “As religiões de matriz africana são muito demonizadas. Ainda associam Exu ao diabo. Ocupar este lugar, num bairro de construções coloniais, é uma ressignificação.”

Confira fotos do Agô, no bar inaugurado em Santa Teresa, no Rio

O salão do bar tem móveis antigos e obras de arte — Foto: Ana Branco
A fachada foi pintada pelo artista Raphael Cruz — Foto: Ana Branco
O drinque Vulgo Malvadão é uma das pedidas — Foto: Ana Branco
Camisetas temáticas também são vendidas no espaço — Foto: Ana Branco
Obra de Joelington Rios está a venda por lá — Foto: Ana Branco
O pastel de jiló é uma das delícias do cardápio — Foto: Divulgação

Lasai, de Rafa Costa e Silva, fecha as portas para reabrir menor, servindo apenas oito pessoas por noite

O novo endereço é pertinho do primeiro, fica no Largo dos Leões, número 35: ‘Era muito exaustivo receber quarenta pessoas por noite da forma que desejamos’

A equipe do novo Lasai: Zigor Sololuze, Sabrina Mello, Luiza Lucchesi, Malena Cardiel, chef Rafa Costa e Silva, Maira Freire, Vinicius Maciel e Mara Cristina Foto: Ana Branco / Agência O Globo
A equipe do novo Lasai: Zigor Sololuze, Sabrina Mello, Luiza Lucchesi, Malena Cardiel, chef Rafa Costa e Silva, Maira Freire, Vinicius Maciel e Mara Cristina Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Não foi por falta de prêmios ou lista de espera. Depois de 8 anos de funcionamento, o Lasai, de Rafa Costa e Silva e Malena Cardiel, fechou as portas do sobrado na Conde de Irajá, em Botafogo. Mas, segundo o casal de chefs, para ficar ainda melhor: mais potente, altamente moderno, nanotecnológico e ainda mais concentrado em proporcionar uma experiência única aos clientes. O novo endereço é pertinho do primeiro, fica no Largo dos Leões, número 35.

Lula com verduras e bokchoy Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Lula com verduras e bokchoy Foto: Ana Branco / Agência O Globo

A mudança já era um desejo antigo, que veio junto com o nascimento do filho Emiliano, de 3 anos. “O restaurante, até a chegada do Emi, era a nossa única prioridade. Ele mudou tudo na nossa vida. Queremos dar atenção ao nosso filho e também atender com excelência os nossos clientes. É muito exaustivo receber quarenta pessoas por noite da forma que desejamos, então, a solução foi desenvolver um Lasai pocket: em vez de acolher quarenta clientes por noite, serão oito por dia, quarenta por semana”, calcula Rafa.

Nesse modelo mais intimista, com projeto dos arquitetos Joyce Camillo e Leonardo Jara, há apenas uma bancada em que o cliente fica quase dentro da cozinha. “Vamos mostrar de maneira mais profunda a nossa proposta”, conta Malena.

O que existe de mais moderno em termos de equipamentos, técnicas e serviços do universo gastronômico está no novo espaço. Louças da Revol Porcelaine recicladas, fogões, fornos, grelhas, geladeiras, armários de vácuo e máquinas de café da tecnológica e perfeccionista alemã Miele, copos Riedel e talheres Arthur Hupp.

Rabo de porco crocante, berinjela, semente de mostarda Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Rabo de porco crocante, berinjela, semente de mostarda Foto: Ana Branco / Agência O Globo

O restaurante permanece fiel à proposta de desenvolver novos traços da identidade da gastronomia brasileira, com ingredientes locais e sustentáveis. Rafa valoriza o conceito que prega a integração entre o produtor e o cozinheiro, o resgate do sabor verdadeiro dos alimentos, a criatividade somada à inovação técnica e à sustentabilidade. “É maravilhoso plantar o que vou cozinhar e contar com produtores sérios. Minha criação de galinhas e a horta orgânica são essenciais para realizar o que eu desejo”, diz ele.

Grande parte dos ingredientes é fornecida pela horta do próprio Lasai, localizada no Vale das Videiras, interior do Rio, e por produtores com práticas sustentáveis, incluindo pescadores e criadores. O chef Claude Troisgros é um dos fãs do Lasai. “Rafa, com sabedoria, alma, técnica e paixão, elevou a gastronomia carioca e brasileira a um alto nível. Sua cozinha, que valoriza e respeita o produto, transformou-se no seu grande diferencial”, elogia o francês.

A comida do Lasai conquistou por ser artesanal, delicada, intelectual, autoral, sutil e forte. Entre os pratos que serão servidos no menu degustação (R$ 725), estão vieira com tutano, brócolis com atum blue fin; couve-flor tostada na manteiga lardo; nabo na manteiga cozido com molho untuoso e crocante de quiabo; chuchu com frutos do mar e caldo de frutos do mar; couve-flor tostada na manteiga lardo; flan quente de queijo com rabanete cru frio; tempurá de tripa; crocante de peixe cru frio com tempero de raspa de limão; ebolo de beterraba com calda de beterraba.

E o que acontece com a casa lindinha do antigo endereço? Ali será inaugurado o Nak, um mix de café, padaria e mercado, em clima mais casual.

Novidade dois em um.

Restaurantes dizem que fim do serviço da Uber Eats é bomba no setor

Estabelecimentos afirmam ter receio do aumento da concentração no serviço de entrega

Serviço de delivery do Uber Eats – REUTERS

SÃO PAULO – A decisão da Uber de encerrar seu serviço de entrega de refeições de restaurantes pelo Uber Eats no Brasil caiu como uma bomba no setor, segundo Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, associação de bares e restaurantes, que diz temer as consequências do aumento na concentração da atividade.

Ele afirma que o anúncio da Uber assusta porque acontece semanas depois da decisão dos acionistas da startup Delivery Center de também encerrar a operação da empresa, um sinal de que o mercado brasileiro pode estar pouco atrativo ao investimento na área.

O setor tem vivido um cabo de guerra contra o iFood. Desde o ano passado, empresas como Rappi, Uber Eats e 99Food, além da associação dos restaurantes, foram ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) se queixar de que o gigante da entrega de comida impõe barreiras para os concorrentes ao forçar um modelo de contrato de exclusividade com os restaurantes.

“Pretendemos cobrar uma oposição firme do Cade porque estamos cada vez mais preocupados com essa concentração de mercado”, diz Solmucci.

A Abrasel vem tentando promover um modelo com código aberto para a padronização de cardápios e pedidos, batizado de Open Delivery.

Uber Eats vai deixar de fazer entregas de restaurantes no Brasil depois do dia 7 de março, segundo anúncio feito pela empresa nesta quinta-feira (6).

Sem os restaurantes, a empresa vai atuar em duas outras frentes. O chamado Cornershop by Uber vai fazer entregas de supermercados, atacados e outras lojas, enquanto o serviço Uber Flash ficará com as entregas de pacotes.

A Cornershop by Uber funciona em apenas cem cidades no Brasil, mas, segundo a Uber, o número de pedidos quase triplicou em 2021. A empresa também planeja expandir seu produto corporativo, o Uber Direct, de entregas no mesmo dia.

“A Uber segue seu compromisso com seus mais de 1 milhão de motoristas parceiros que geram renda fazendo viagens e entregas pela plataforma — o volume de viagens no Brasil já é maior do que o registrado no período anterior à pandemia”, disse a empresa em comunicado.

Procurado pelo Painel S.A., o iFood diz que não comenta decisões de negócio de outras empresas. “Com relação ao mercado de entrega de refeições, o iFood esclarece que o setor de delivery online segue em constante evolução com a entrada frequente de novos competidores e o surgimento de novos modelos de negócios. Essa competição intensa favorece restaurantes, entregadores e consumidores, e promove mais inovação para todo o ecossistema”, diz a empresa em nota.

O iFood afirma, ainda, que suas políticas comerciais estão em estrita conformidade com a legislação concorrencial e que segue cooperando com as autoridades responsáveis.

com Andressa Motter e Ana Paula Branco

Cozinhas africanas, no plural, conquistam espaço na alta gastronomia

Mais chefs nascidos em países do continente estão na lista do The Best Chef Awards, com os 100 melhores do mundo
Marina Mori, Estadão

A chef Selassie Atadika, à frente do restaurante nômade Midunu, em Acra, Gana
A chef Selassie Atadika, à frente do restaurante nômade Midunu, em Acra, Gana Foto: Arquivo pessoal

É o começo de um novo capítulo para as cozinhas africanas – assim mesmo, no plural. Até pouco mais de um ano atrás, nenhuma pessoa negra esteve nas listas dos 100 melhores chefs do mundo desde que o The Best Chef Awards foi lançado, em 2017.

Selassie Atadika, à frente do restaurante nômade Midunu, em Acra, Gana, foi a primeira e única africana a aparecer no ranking, em 2020. Seu trabalho ao promover a Nova Cozinha Africana, que tem plantas nativas e grãos ancestrais como protagonistas de fine dining, tem chamado atenção de todos os olhos antes voltados para qualquer outro continente que não a África.

“Já passou tempo demais para que chefs e cozinhas incríveis da África fossem notados”, disse Atadika em entrevista ao Paladar. “A culinária global precisa ir além quando se fala sobre diversidade, inclusão e visibilidade”.

Neste ano, o cenário já parece diferente. Ao lado de Atadika, que continuou no ranking em 2021, o congolês Dieuveil Malonga, de 29 anos, entrou para a lista na 94 ̊ posição com seu Meza Malonga e sua Afro Fusion, em Kigali, Ruanda.

O malinês Mory Sacko, do jovem e já estrelado Mosuke, em Paris, também apareceu entre os 100 melhores pela primeira vez, em 84 ̊ lugar. E quem levou o título de ‘estrela em ascensão’ foi Fatmata Binta, de Serra Leoa. A chef é idealizadora do projeto Fulani Kitchen, que tem como objetivo valorizar as receitas tradicionais da maior tribo nômade da África Ocidental. 

Na mesa. Pera cozida e defumada com rooibos e crumble de gengibre, creme de amarula, do restaurante Midunu
Na mesa. Pera cozida e defumada com rooibos e crumble de gengibre, creme de amarula, do restaurante Midunu Foto: Acervo pessoal

Uma mudança significativa parece tomar forma com todas essas conquistas. “Vamos desenterrar os impactos da escravidão, do colonialismo, da exclusão econômica e muito mais”, pontua Atadika. Antes de adotar a cozinha como profissão e se consagrar como um dos rostos que têm elevado as tradições culinárias africanas, a ganense trabalhou durante uma década na ONU em missões humanitárias. Percorreu mais de 40 países dos 54 que compõem seu continente e percebeu que é possível mudar a forma como as pessoas enxergam um povo e uma história de séculos de dor ao reapresentar pratos tradicionais nos moldes da alta cozinha.

Fachada do restaurante Biyou'z Gastronomia Africana, no centro de São Paulo
Fachada do restaurante Biyou’z Gastronomia Africana, no centro de São Paulo Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Se um dia você tiver a oportunidade de acordar em qualquer cidade de Gana, perceberá que o desjejum mais clássico por lá é o waakye (leia “waachai”). A base é feita geralmente com arroz basmati, feijão de corda e folhas de sorgo vermelho, tudo cozido junto – o que dá ao prato um tom avermelhado.

Nas feiras de rua, é servido às colheradas em uma folha de bananeira com ovo cozido, macarrão e shito, molho apimentado típico do país. Em seu restaurante, Selassie Atadika apresenta o waakye em pequenos cubos levemente polvilhados com farinha de mandioca ao lado de singelos ninhos de macarrão, shito e ovos de codorna cozidos. “Quero celebrar e preservar a herança culinária africana. Cada refeição conta a história dos lugares que visitei e dos povos que conheci”, diz a chef.

A cozinha africana no Brasil

Por aqui, quem tem feito um trabalho semelhante de resgate cultural é Melanito Biyouha. Nascida em Camarões, na África Central, chegou ao Brasil em 2003 e, quatro anos depois, foi pioneira ao inaugurar o Biyou’z Gastronomia Africana, no centro de São Paulo, com 36 lugares. Hoje, conta com uma segunda unidade, maior, para receber até 100 pessoas, na Consolação.

 A chef Melanito Biyouha de restaurante africano Biyou’z, em São Paulo
A chef Melanito Biyouha de restaurante africano Biyou’z, em São Paulo Foto: Gabriela Biló/Estadão

 Se no início oferecia apenas pratos típicos de seu país natal, aos poucos passou a incluir no cardápio preparos clássicos de outras nações africanas, como Angola e Congo. Embora não tenha uma versão do waakye, vale experimentar o koki camaronês: um bolo de feijão fradinho cozido a vapor na folha de bananeira com azeite de dendê e servido com mix de ervilhas refogadas e inhame cozido (R$ 38). 

Da parte de Biyouha, não falta vontade de levar seu Biyou’z ao patamar de uma ‘alta gastronomia’. “O problema é que no Brasil a cultura africana é pouco conhecida. Conhecemos muitos restaurantes de outros países, mas quase não vemos restaurantes africanos por aqui”, diz a chef. Seu plano é que, em um futuro próximo, além de investir mais na casa, possa abrir em São Paulo uma escola de culinária com foco em técnicas e tradições de países da África. 

Koki camaronês: um bolo de feijão fradinho cozido a vapor na folha de bananeira com azeite de dendê e servido com mix de ervilhas refogadas e inhame cozido 
Koki camaronês: um bolo de feijão fradinho cozido a vapor na folha de bananeira com azeite de dendê e servido com mix de ervilhas refogadas e inhame cozido Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Para isso, é preciso haver demanda. Mas é difícil existir vontade de conhecer algo quando não se fala de forma coletiva sobre esse algo. Para além dos pratos e ingredientes que se tornaram heranças africanas de uma época de escravidão, da feijoada à moqueca e ao acarajé, pouco se sabe sobre as cozinhas africanas contemporâneas.

Conhecemos o sabor do dendê, do purê de inhame e do frango ensopado com quiabo, mas sabemos que gosto tem a comida de países como Angola, Nigéria, Senegal, Benin? O problema começa quando tentamos encaixar a cultura de 54 países em uma só panela: a da cozinha africana, no singular.

“A gente tem uma perspectiva de homogeneidade, acha que tudo é uma coisa só. Restringimos algo que é super complexo e diverso, que são as histórias de todo um continente, e isso acaba refletindo na forma como o Brasil olha para a própria construção da sua cozinha”, diz Lourence Alves, historiadora, gastrônoma e doutora em nutrição, alimentação e saúde. 

Ndolé, prato de Camarões, leva banana, carne bovina, camarão moído e pasta de amendoim e é cozido com folha de boldo
Ndolé, prato de Camarões, leva banana, carne bovina, camarão moído e pasta de amendoim e é cozido com folha de boldo Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O primeiro passo para mudar essa ideia é reformular a visão que se tem sobre a África. “Você vai achar que cozinha africana é algo pobre por toda a referência de pobreza que acaba impregnando o imaginário em relação ao continente, que de é pobreza, conflito, doença. Mas essas não são características inerentes à África, são consequências dos processos de colonização que todo o território sofreu”, aponta a historiadora. 

O segundo passo é comer. Se aproximar de sabores e combinações que se entrelaçam com o que chamamos de comida brasileira, que tem muito da ancestralidade africana.

“A gente percebe uma similitude de ingredientes. Você pode provar um prato diferente [africano] e vai perceber que ele agrada muito o paladar, porque na verdade os sabores principais são de ingredientes que vieram séculos atrás e que incorporamos aqui”, diz Aline Araújo, mais conhecida pelo sobrenome artístico-culinário Chermoula, que divide seu tempo como pesquisadora da cozinha ancestral afrodiaspórica pelas Américas há mais de 15 anos, chef no Chermoula Culinária e professora no Gastromotiva.

Aline Chermoula, 36, dedica-se à cozinha diaspórica africana nas Américas.
Aline Chermoula, 36, dedica-se à cozinha diaspórica africana nas Américas. Foto: Felipe Rau/Estadão

A diferença entre as cozinhas africanas e as brasileiras é o espaço que a proteína animal ocupa na mesa. “A gente organiza o nosso prato tendo a carne como referência, mas lá a carne não aparece dessa forma tão protagonista”, explica Alves. Em geral, um molho refogado principalmente com vegetais e folhas (que pode ou não ter carne) é que dá nome ao prato.

“Esse molho tem bastante sabor e vai ter como acompanhamento uma base de água enriquecida com algum tipo de farinha ou amido e vai se transformar numa massa, que vai dar liga e funcionar como acompanhamento”, complementa a historiadora. Um exemplo é a muamba de galinha, da Angola, em que o ensopado é servido com pirão de milho ou mandioca.

Representatividade

Do outro lado do oceano, em Londres, Nokuthula Majozi, mais conhecida como Nokx, lidera a produção de tortas clássicas ao lado do chef britânico Calum Franklin no hotel 5 estrelas Rosewood London. Em 2021, a sous chef foi reconhecida como uma das 100 mulheres mais influentes em Hospitalidade no Reino Unido.

Nokuthula Majozi lidera a produção de tortas clássicas ao lado do chef britânico Calum Franklin no hotel 5 estrelas Rosewood London
Nokuthula Majozi lidera a produção de tortas clássicas ao lado do chef britânico Calum Franklin no hotel 5 estrelas Rosewood London Foto: John Carey

Nos próximos cinco anos, sua meta é voltar para a África do Sul, seu país de origem, e impulsionar a carreira de cozinheiras que vivem nos bastidores. “Nunca me inspirei em um chef negro porque não havia nenhum há 15 anos, quando comecei a trabalhar com gastronomia. Mas as coisas estão mudando e estou em uma missão para contribuir com esse processo”, disse Majozi ao Paladar.

Dieuveil Malonga, o congolês que apareceu como um dos 100 melhores chefs de 2021, também retornou à África em 2016 depois de um longo período fora – passou a juventude na Alemanha (foi lá que começou a carreira de cozinheiro) e aperfeiçoou as habilidades culinárias na França. Escolheu Ruanda, país vizinho à República Democrática do Congo, para estabelecer sua cozinha, que tem chamado de Afro Fusion. 

“É uma ponte entre a cozinha tradicional africana e a contemporânea, com influências alemãs e francesas”, explica o chef. Mas, além do Meza Malonga, um outro projeto foi responsável por colocá-lo entre os 50 Next, uma lista de pessoas que estão moldando o futuro da gastronomia, do The 50 Best Restaurants neste ano: o Chefs in Africa. Malonga criou a plataforma em 2016 para reunir cozinheiros de todos os países do continente africano, ganhou apoio da Unesco e já impulsionou a carreira de mais de quatro mil profissionais.

Para Aline Chermoula, movimentos como esse são essenciais para resgatar a identidade de povos negros e honrar sua história. “É um caminho novo para todos que estão distantes desses conhecimentos ancestrais africanos. Por isso, colocar essas cozinhas dentro de um padrão de alta gastronomia também significa reconhecer o valor delas.”

Diáspora africana

O termo se refere à imigração forçada de cerca de 11 milhões de pessoas do continente africano para as Américas entre os séculos 16 e 18 para tráfico escravagista. 

Para saber mais

– Kitutu: histórias e receitas da África na formação das cozinhas do Brasil, Raul Lody. 184 p., 2019, Editora Senac São Paulo.

– Alimentar a Cidade, Richard Graham. 464 p., 2013, Companhia das Letras.

Serviço

Onde provar as cozinhas africanas em São Paulo 

Biyou’z Gastronomia Africana

Alameda Barão de Limeira, 19, Campos Elíseos. 3221-6806. 12h/23h. 

Fernando de Albuquerque, 95, Consolação. 12h/22h.

O que provar: Ndolé, prato de Camarões feito com pasta de amendoim cozido com folha de boldo, camarão moído, banana-da-terra cozida e carne bovina refogada.

Chermoula Gastronomia

Almoços e jantares em domicílio. (11) 97242-3169. http://www.chermoula.com.br 

O que provar: Muamba de Galinha, tradicional da Angola. O ensopado é feito com quiabo, abóbora, alho, cebola e gindungo (pimenta malagueta) e servido com funge, pirão de milho ou mandioca.

Mamma Africa La Bonne Bouffe

​​Rua Cantagalo, 230, Tatuapé. 3582-7438. 12h/22h (sáb., 12h/17h30, 19h/22h30; dom. e feriados, 12h/16h).

O que provar: Injera, um tipo de crepe feito com o grão Teff, típico da Etiópia. A massa é fermentada por dois a três dias em água e depois assada na chapa e servida com acompanhamentos em pasta, leguminosas, verduras e carnes.

Sílvia Pfeifer estreia no papel de confeiteira em ateliê com seu sobrenome na Gávea

Atriz investe em novo ofício e se prepara para voltar à TV
Priscilla Aguiar Litwak

Doces. Sílvia e suas receitas vendidas no ateliê que leva seu sobrenome Foto: Divulgação
Doces. Sílvia e suas receitas vendidas no ateliê que leva seu sobrenome Foto: Divulgação

RIO  — Atriz com mais de 30 anos de carreira, Sílvia Pfeifer deu vida a personagens memoráveis, como a Isadora Venturini da novela “Meu bem, meu mal” (1990), da TV Globo. Por trás das telas, a gaúcha radicada na Zona Sul desde a década de 1990 acredita que também dá para viver vários papéis e tem investido no ofício de confeiteira.

A paixão de Sílvia pelas panelas é antiga, lá da infância, mas o empurrãozinho para ingressar de vez na empreitada veio de amigos e da paralisação nos trabalhos na dramaturgia, devido à pandemia. O último foi há mais de dois anos. Atualmente ela se prepara para a atuar na próxima novela bíblica da TV Record, “Reis”. Mas garante que o público também vai poder conferir seu talento na cozinha. O Atelier Pfeifer, na Gávea, tem um cardápio enxuto, por enquanto são apenas quatro doces de chocolate: Brownie do Atelier; Brownie de Nutella; Chiquita Gâteau, com castanhas, nozes, licor de laranja e vinho do Porto; e Bombom Funcional, com farinha de amêndoa e chocolate 80% (R$ 7, a unidade).

— Acredito que o ser humano não tem que ser só uma versão de si na vida. Cozinhar é pura arte — diz Sílvia. — Minha lembrança de infância é brincando de comidinha, sempre gostei de cozinhar. Criei novas versões de receitas antigas de família e há mais de 15 anos presenteio amigos e familiares com esses doces. Agora chegou a hora de levar essa minha paixão, que tem um sabor dos deuses, modéstia à parte, para mais pessoas — diz, frisando que o segredo do sucesso dos quitutes está nos ingredientes de qualidade e nas texturas diferenciadas.

E avisa que está criando novos sabores e investindo em mais versões lights. Encomendas: 99046-7067.