HQ Nori e Eu registra a vida de um desenhista autista e a luta de uma mãe pelo desenvolvimento do filho

Com o apoio do ilustrador Caeto, Masanori Ninomiya, seu aluno de desenho, e a mãe dele, Sonia, lançam a HQ Nori e Eu
Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

Sonia, Caeto e Masanori lançam a HQ Nori e Eu Foto: Felipe Rau/Estadão

Masanori Ninomyia demorou 12 anos para começar a falar. Diagnosticado aos quatro como uma criança do espectro autista, o garoto, o mais velho de três irmãos, assistia ao que acontecia ao redor à sua maneira, e desenhava e desenhava sem parar. Mickey, os personagens da TV Colosso, Power Rangers, Garfield… todos eles surgiram na vida de Nori antes que ele conseguisse se expressar em palavras. 

O desenho foi ficando mais elaborado. Uma briga dos irmãos com ele resultou na imagem de um gato enorme pegando um ratinho. Tudo pontilhado. Depois, criou sua primeira super-heroína, a Kaleido Rider, e daí surgiu uma saga que já conta com seis heroínas, o homem foca e, como seu autor diz, está em “clima de processo”. Ideias não faltam para esse jovem que sofreu muito e ultrapassou barreiras, que sabe de suas limitações, mas não se cansa de aprender.

E é essa história de luta que acompanhamos em Nori e Eu, uma HQ assinada por Masanori, que acaba de completar 33 anos, e Sonia, sua mãe. O livro é dividido em duas partes. Na primeira, encontramos Sonia em 1968, quando ela e o pai de Masanori se conhecem. E então os 10 anos que viveu no Japão, a volta ao Brasil, a gravidez, o filho tão sonhado que não interagia com o mundo e ficava aflito longe da mãe, que era contemplativo e metódico. E tudo o que se seguiu para que Nori pudesse se desenvolver e conquistar alguma autonomia. 

Na segunda parte, Nori se apresenta: sua história, suas preferências e referências, os momentos mais marcantes de sua trajetória. E o mais interessante: é ele quem ilustra tanto a sua parte quanto a da mãe.

A ideia do livro que a WMF Martins Fontes manda para as livrarias em uma semana foi do ilustrador Caeto. Ele é autor das graphic novels autobiográficas Memória de Elefante e Dez Anos Para o Fim do Mundo (Quadrinhos na Cia.) e da adaptação para HQ de Ivan Ilitch, de Liev Tolstoi, pela Peirópolis – e professor de desenho de Masanori há cinco anos. 

Dois anos atrás, Sonia comentou com Caeto como seu filho estava indo bem e melhorando no desenho. Era um elogio, mas isso não diminuía sua frustração. “Masanori é um cara que já tem o trabalho dele, o Kaleido Rider, já faz o gibi dele, e não gostava da minha intromissão. É um artista e fazia do jeito dele. Respeitei isso, mas era como se eu não estivesse dando aula. Eu me sentia em falta com o Masanori”, conta. Ao ouvir sobre o processo de amadurecimento de seu aluno e das histórias por trás disso, sugeriu um projeto que envolvesse os três. 

Por uma dessas coincidências da vida, duas semanas depois de Caeto propor que Sonia Ninomiya escrevesse sobre sua relação com o filho e de pedir que Masanori contasse sua história, e isso se transformaria, com a ajuda dele, na HQ Nori e Eu, o ilustrador foi a uma reunião na WMF Martins Fontes por outros motivos – e aproveitou para falar sobre o novo projeto. 

“Ficamos entusiasmados, mas não sabíamos o que esperar – não conhecíamos os autores. E então Sonia veio na editora, antes mesmo de escrever o roteiro, e nos deixou emocionados e certos de querer publicar o quadrinho”, conta a editora Luciana Veit. “As histórias que ela contava, o seu amor pelo filho, as dificuldades que passou… Nós nos apegamos ao livro e a essa dupla incrível e até o final, quando recebemos o texto da orelha, de Vera Regina J.R.M. Fonseca, a psicanalista que atendeu o Nori pequeno, essa história fez lágrimas caírem aqui na editora.”

É mesmo uma história bonita, corajosa, de uma mãe que fez o que estava ao seu alcance para cuidar do filho autista e prepará-lo para o mundo. De uma mulher que não abriu mão de seus sonhos e conseguiu conciliar a criação de Nori e dos outros dois que vieram depois com seu trabalho como professora de língua e literatura japonesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, de onde se aposentou há dois anos, depois de 35 na sala de aula e na ponte aérea.

“Esse livro foi um crescimento para nós dois. Eu pude colocar para fora coisas que ninguém sabia e ele pode partilhar dessas coisas. E foi muito sofrido. Eu tinha muito receio de magoar pessoas com o que eu estava contando”, comenta Sonia. Ela completa: “Escrevi com cuidado, mas também com muita sinceridade.” 

Sonia ressalta que em alguns momentos ficou receosa de Nori desenhar, ou mesmo conhecer, alguns fatos. “Eu pensava: como ele vai encarar isso? Mas foi tudo tranquilo e algumas coisas pontuais mexeram com ele.” É o caso do sonho recorrente que ela tinha: alguém vinha e levava seu filho. Foi difícil para ele entender que aquilo não tinha acontecido. Nori voltava ao assunto, eles conversavam. E, mesmo durante a entrevista, ele repete que não sabia que havia sido sequestrado.

Para que seu plano de mudar a dinâmica da aula e ajudar Nori a desenvolver ainda mais sua técnica funcionasse, Caeto lançou mão do nome de um dos ídolos do aluno. “Sugeri que eu tivesse uma função parecida com a do Mauricio de Sousa: eu ia ver o desenho e ia dizer se estava aprovado ou não. Isso mudou o ritmo da aula.” Foi muito trabalhoso para ele, reconhece o professor. “Vi seu esforço e dedicação de terminar esse livro e fico orgulhoso.” Caeto gostaria de voltar a trabalhar com o aluno. “Ele é rápido, coisa que não sou, e tem um desenho sofisticado. Escrevo roteiro e cada vez mais tenho tido preguiça de desenhar. A dupla funcionaria muito bem”, diz.

Nori sorri, tímido. 

À reportagem, ele conta que narrar sua história não foi tão difícil quanto fazer seus mangás – sempre sobre um herói que vai salvar alguém, ou a humanidade, ou São Paulo de algo ruim (mais recentemente, conta Sonia, o herói sofre um revés e uma heroína entra para ajudá-lo). Mas comenta que ilustrar a parte da sua mãe não foi tão fácil. Voltar à relação com os irmãos na infância também não – e uma cena tocante é quando a mãe conversa com os outros dois filhos sobre o primogênito e diz que está fazendo o possível para deixar a tarefa (cuidar de Nori no futuro) menos difícil.

O livro é aberto pela fala de Sonia, que prepara o leitor com informações básicas sobre o autismo para que ele entre com Nori em seu universo e em sua história cronológica. “É assim que ele funciona”, explica a mãe. Lemos sobre os fatos marcantes de sua vida, que ele elegeu, e o que acontecia no Brasil e no mundo na mesma época.

Nori fala várias línguas, adora ler biografias, livros de história e almanaques. É fã de cinema, de museus, da cultura japonesa, de Jim Davis, Osamu Tezuka. Ama desenhar animais, paisagens e cidades. Mas o que quer fazer agora é viajar mais (os destinos estão na ponta da língua). 

Para Masanori, o desenho é uma forma de ele se colocar no mundo, acredita Sonia. “Às vezes, os pais de um autista negligenciam o cuidado emocional. Masanori fez análise cinco dias por semana durante sete anos, o que deu uma bela estruturada nele. Ele é ele, ele se sente ele, e isso é muito importante. É uma pretensão grande, mas talvez eu consiga ajudar outras mães para que não se sintam sozinhas. Existe um caminho.”

NORI E EU
Autores: Masanori e Sonia Ninomiya
Editora: WMF Martins Fontes
(92 págs.; R$ 44,90)
Nas livrarias depois do dia 13

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Jane Foster assume identidade da Valquíria em nova série

Primeira edição será lançada em julho, nos Estados Unidos

Capa, criada por Mahmud Asrar e Matthew Wilson

Antiga Thor, Jane Foster assumirá a identidade da Valquíria em nova série de quadrinhos. Na última quinta-feira (18), a Marvel Comics anunciou Jane Foster: Valkyrie, HQ assinada por Jason Aaron e Al Ewing e com artes de Cafu. Sua trama será ambientada após War of the Realms #2, quando Foster presenciou o massacre das Valquírias. [Mariana Canhisares]

Vida do arquiteto Mies van der Rohe é retratada em história em quadrinhos

Graphic novel tem prólogo escrito pelo arquiteto britânico Norman Foster

A vida e a obra de Ludwig Mies van der Rohe, considerado um dos principais nomes da arquitetura do século XX, foi retratada em história em quadrinhos, com prólogo escrito pelo arquiteto britânico Norman Foster. Publicada pela Grafito Editorial, “Mies” tem autoria do ilustrador e escritor espanhol Agustín Ferrer Casas, que narra a trajetória do arquiteto alemão morto há 50 anos desde sua atuação na Bauhaus, fugindo da Alemanha nazista e dando continuidade à sua carreira em Chicago, nos Estados Unidos.

Vida do arquiteto Mies van der Rohe é retratada em história em quadrinhos (Foto: Divulgação)

“É uma biografia fictícia baseada em numerosos escritos de muitos outros autores e do próprio Mies”, contou o autor. “E eu digo ficção porque neste livro tento mostrar não apenas parte de seu trabalho, mas a vida, a personalidade do arquiteto. O que o tornou um grande profissional e o que ele deixou para trás em sua ambição de construir.”

Vida do arquiteto Mies van der Rohe é retratada em história em quadrinhos (Foto: Divulgação)

“Mies van der Rohe é um dos poucos arquitetos do século 20 que ajudaram a moldar a arquitetura do presente e, possivelmente, do futuro”, acrescentou Foster.

Vida do arquiteto Mies van der Rohe é retratada em história em quadrinhos (Foto: Divulgação)

Admiradores do trabalho do arquiteto – que nasceu em Aachen em 1886 e morreu em Chicago, em 1969, aos 83 anos – vão reconhecer na graphic novel passagens emblemáticas, como quando ele foi forçado a fechar a escola Bauhaus em 1933 com o início do domínio nazista, e o tempo em que ele passou na Villa Tugendhat em Brno, que completou em 1930.

Vida do arquiteto Mies van der Rohe é retratada em história em quadrinhos (Foto: Divulgação)
Vida do arquiteto Mies van der Rohe é retratada em história em quadrinhos (Foto: Divulgação)

Cinco vezes em que Shazam foi pioneiro nos quadrinhos

Personagem foi o precursor de elementos clássicos das HQs
GABRIEL AVILA

Divulgação/DC Comics

Criado em 1939 por Bill Parker e C. C. Beck com o nome de Capitão MarvelShazam se tornou um dos mais tradicionais heróis dos quadrinhos ao estrelar revistas que misturavam mitologia, magia e ciência criando um universo fantástico e singular. Ao longo de seus quase 80 anos de existência, o Campeão da Magia foi pioneiro em diversos níveis, que ultrapassam as HQs e chegam aos tribunais.

Confira cinco vezes em que O Mortal Mais Poderoso da Terra realizou façanhas até então inéditas para os super-heróis:

PRIMEIRA CRIANÇA A VIRAR SUPER-HERÓI

Divulgação/DC Comics

Referência no assunto parceiro-mirim, Robin é o mais celebrado ajudante da cultura pop devido a sua importância histórica em se tornar uma ponte entre o público infantil e as revistas do Batman, medida que deu tão certo que dobrou as vendas das HQs do Homem-Morcego. Porém, a introdução de uma criança ao mundo super-heróico já havia acontecido nas páginas da revista Whiz Comics #2 publicada em dezembro de 1939, apresentando Capitão Marvel como alter-ego do garoto Billy Batson. Ele não só chegou primeiro, como estava em uma posição de maior destaque, assumindo o papel de herói.

PRIMEIRA FAMÍLIA SUPER HEROICA

Divulgação/DC Comics

Billy Batson não foi o único mortal a receber os talentos do mago Shazam. Após uma luta contra o vilão Capitão Nazista, o garoto Freddy Freeman estava se afogando quando o Mortal Mais Poderoso da Terra decidiu tentar salvá-lo ao transferir seus dons. Como só recebeu uma fração deles, Freeman não se tornava adulto e assumiu a identidade de Capitão Marvel Jr. Em seguida, Billy descobriu que tinha uma irmã gêmea chamada Mary, que pelo grau de parentesco também ganhava superpoderes ao gritar a palavra mágica, se tornando a Mary Marvel. Foi nas HQs da garota que surgiu o Tio Dudley, um senhor que se passava por parente distante quando era na verdade um charlatão que dizia também ter poderes. Mary descobriu a armação logo de cara, mas não o desmascarou por perceber que no fundo ele tinha bom coração. Em dezembro de 1945 todos esses personagens foram reunidos na revista Marvel Family, onde se juntaram para impedir o vilão Adão Negro. Além dos heróis, a Família Marvel ganhou também mascotes, como o tigre falante Senhor Malhado e Hoppy, o Coelho Marvel.

PRIMEIRO VILÃO A DESCOBRIR IDENTIDADE SECRETA

Divulgação/DC Comics

Na terceira edição da revista Whiz Comics, publicada em abril de 1940, o Doutor Silvana descobre que Shazam é na verdade Billy Batson. Em busca de uma reportagem, o garoto vai à casa do vilão, que usando um disfarce apresenta sua nova invenção: um foguete com destino a Vênus. Billy, que conseguiu emprego na emissora de rádio após impedir outros planos de Silvana, acompanha o cientista, mas eles são atacados por um dragão assim que chegam ao planeta. Para se defender, o garoto grita a palavra mágica e se torna o Capitão Marvel, o que acaba entregando sua identidade secreta ao seu maior inimigo.

PRIMEIRO SUPER-HERÓI A CHEGAR AOS CINEMAS

Divulgação/DC Comics

Apesar de estrear no universo cinematográfico da DC em 2019, Shazam já havia chegado aos cinemas em 1941. No filme seriado Adventures of Captain Marvel, o jovem Billy Batson recebe seus poderes do mago Shazam para impedir que o vilão Escorpião roube um artefato mágico, o Escorpião Dourado. Na produção, que marca a primeira adaptação cinematográfica de um super-herói, o Campeão da Magia é interpretado por Tom Tyler, grande estrela do faroeste. A série está disponível online – assista aqui.

MAIS FAMOSO CASO DE PROCESSO NOS QUADRINHOS

Divulgação/DC Comics

Em 1941, a editora National Publications (que viria a se chamar DC Comics) entrou com processo contra a Fawcett Comics, alegando que o Capitão Marvel seria uma cópia do Superman. O principal motivo seria o sucesso da série Adventures of Captain Marvel, lançada no mesmo ano. Após perder o processo em 1953, a Fawcett cancelou todos os títulos da Família Marvel em publicação e foi condenada a pagar uma multa de US$ 400 mil. Quase vinte anos depois, em 1972, a DC decidiu licenciar os heróis, pagando uma comissão por uso dos personagens. Porém, não poderiam mais chamar a revista de Capitão Marvel porque na época a Marvel Comics tinha um herói com esse nome (Mar-Vell, o comandante Kree que estreou em 1967). A saída foi renomear a HQ para Shazam!. Apesar da troca no título, Billy continuava sendo chamado de Capitão Marvel nas histórias. Entenda melhor o processo aqui.

Homem-Borracha | HQ com arte de brasileira será publicada em março

Quadrinho tem arte de Adriana Melo e roteiros de Gail Simone

A nova HQ do Homem-Borracha chegará ao Brasil em março. Após anos sem aparecer nos quadrinhos da DC Comics, o herói retornou durante a saga Noite de Trevas: Metal e ganhou uma minissérie própria com roteiro de Gail Simone e arte da brasileira Adriana Melo. Confira a sinopse abaixo:

“Eel O’Brian já foi capanga e ladrão. E agora está morto. Ou é o que acham os ex-parceiros de crime que o jogaram para fora de um carro em movimento. Ele era uma pessoa desprezível, mas agora tem superpoderes que não entende muito bem, uma relação quase paternal com uma criança abandonada e toda uma cabala composta pelos maiores supergênios do mal querendo seu couro elástico!”

O volume de 136 páginas que reúne as seis edições de Plastic Man será publicado pela Editora Panini. [Gabriel Avila]

Capitã Marvel | HQs terão capas variantes estreladas por Gatos

Revistas serão publicadas em março nos EUA

Para comemorar o lançamento de Capitã Marvel, algumas HQs terão capas variantes estreladas por gatos (via PreviewsWorld). Cada arte é uma história curta estrelando heróis da Marvel Comics e felinos, com desenhos de Nao Fuji

A iniciativa é uma homenagem à gata Goose, o bicho de estimação de Carol Danvers no longa. As revistas escolhidas são Friendly Neighborhood Spider-Man #4Thor #11Daredevil #3Wolverine: Infinity Watch #2Guardians of the Galaxy #3 e Meet the Skrulls #2. Todas serão publicadas nos EUA em março.

Capitã Marvel tem Brie Larson no papel principal e apresentará ao público a super-heroína Carol Danvers, a ex-Miss Marvel e atual detentora do título de Capitã nas HQs. Anna Boden Ryan Fleck, conhecidos por Se Enlouquecer, Não Se Apaixone Billions, são os diretores.

Capitã Marvel estreia em 7 de março no Brasil.

DC faz homenagem a Stan Lee em HQs lançadas este mês

DC incluiu em suas HQs de janeiro uma homenagem a Stan Lee (via CBM). A mensagem ocupa uma página inteira das edições e brinca com a concorrência entre Marvel e DC:

DC Comics/Reprodução

“Com o máximo respeito, da Distinta Concorrência, Excelsior. Em memória de Stan Lee 1922-2018”.

Stanley Martin Lieber nasceu em 28 de dezembro de 1922 em Nova York. Mais conhecido pelo apelido Stan Lee, o roteirista e empresário foi um dos mais notáveis criadores de histórias em quadrinhos do mercado, sendo corresponsável por grandes super-heróis e vilões da Marvel Comics, como o Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico, Os Vingadores, Incrível Hulk, Demolidor e O Poderoso Thor. [Camila Sousa]