DC Comics doa US$ 250 mil para manter lojas de HQ abertas

Ilustrador e chefe criativo da editora, Jim Lee leiloará 60 desenhos originais com o mesmo propósito
NICOLAOS GARÓFALO

Depois de adiar a distribuição de HQs físicas e digitais durante o período de quarentena do coronavírus, a DC Comics doou US$ 250 mil para ajudar lojas locais de quadrinhos a manterem as portas abertas após o fim da crise. A doação foi feita por meio da BINC (“fundação de caridade da indústria de livros”, em inglês) e o valor será distribuído para comerciantes do setor e seus funcionários (via PREVIEWS World).

Além da doação inicial, Jim Lee, lendário artista e chefe criativo da editora, organizará um leilão virtual de 60 ilustrações originais – uma por dia – baseadas em personagens da editora. As vendas são organizadas por um perfil do ebay e cada imagem fica disponível para oferta por três dias.

Com a pandemia do COVID-19, a Diamond Comics, principal distribuidora de HQs do mundo, anunciou que suspenderia suas atividades por tempo indeterminado a partir do dia 1º de abril. Por consequência, editoras como DC, MarvelImage e Dark Horse informaram que adiaram não só a distribuição de novas edições físicas, mas também digitais de suas HQs.

Desde o começo da pandemia do coronavírus, várias áreas do entretenimento foram afetadas com o adiamento de estreias, paralisação de produções e cancelamento de grandes eventos.

Mangá ‘Dementia 21’ traz a paranoia elegante de Shintaro Kago

Mangá ‘Dementia 21’ une olhar crítico a respeito dos japoneses com aventuras surreais de uma cuidadora de idosos
Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

A cuidadora de idosos Yukie testemunha um mundo surreal e cômico  Foto: SHINTARO KAGO/TODAVIA

Os motivos para se travar guerras e a exploração do trabalho estão presentes em toda a obra do artista japonês Shintaro Kago. Sua produção mais icônica vem de um campo não tão popular, classificada como “ero guro nonsense”, que explora o erotismo grotesco com figuras femininas dilaceradas. Ao pedir licença para essa violência sensual, o mangá Dementia 21, lançado no Brasil pela editora Todavia, é uma exceção no universo de Kago, mesmo que não deixe de tecer críticas à sociedade contemporânea e seus tabus. 

Originalmente lançado no Japão entre 2011 e 2013, Dementia 21 tem 37 capítulos reunidos em sete volumes. A primeira edição da Todavia traz 17 capítulos em 280 páginas. Recheado de comicidade, à primeira vista, o mangá está repleto de figuras estranhas como alienígenas, dentaduras ambulantes, gigantes e velhinhos com poderes paranormais. Sem esconder os contornos surreais, Dementia 21 carrega uma forte crítica à sociedade, a partir das relações de trabalho da protagonista, a jovem Yukie Sakai, uma cuidadora de idosos.

Funcionária bem-sucedida da empresa Green Net, Yukie inicia uma jornada que ganha tons de sonho, e pesadelo. Em cada capítulo, ela deve visitar a casa de seus clientes e receber boas avaliações pela prestação de trabalho. Conhecida no ramo pela excelência, ela serve sopas para os velhinhos, ajuda no banho e aplica medicação nos pacientes. O que parece uma atividade simples abre janelas para um universo perturbador e divertido. É a “paranoia elegante”, como já foi chamado o estilo de Kago.

A trajetória do artista japonês nascido em 1969 tem seus pilares apoiados na reinvenção da história de seu próprio país. Em 1999, a Ohta Comics publicou uma coleção de histórias curtas de nome comprido, Shine! Greater East Asia Co-Prosperity, assinada por Kago, que resgata um movimento militar importante na história da Ásia do início do século passado. 

Entre os anos 1930 e 1945, os militares do Império do Japão buscaram desenvolver uma campanha para criar um bloco de nações asiáticas, livres das potências ocidentais. O preço? Ser liderado pelos japoneses. O conceito da Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental, que está presente no título da obra de Kago, foi posto em prática pelo primeiro ministro japonês. O objetivo era unir, por meio de forte propaganda imperial, a região de Manchukuo, na Mandchúria, a China e algumas partes do sudeste asiático. Com o tempo, ficou provado que a empreitada dos japoneses serviu de fachada para manter o controle, explorar a região e manipular a economia.

Em Shine!, Kago escancara com traços chocantes os bastidores dessa campanha militar que pretendia beneficiar o Japão. Escrita no mesmo formato das histórias curtas de Dementia 21, a ficção científica de 1999 propõe uma história alternativa à Segunda Guerra Mundial. Nela, as nações combatentes descobrem uma raça de gigantes-mulheres que podem ser transformadas em armas biomecânicas, como tanques e submarinos. 

Velhinhos excêntricos, histórias paranormais e problemas da sociedade japonesa cercam a protagonista Foto: SHINTARO KAGO/TODAVIA

Mais tarde, o autor retornou a esses seres em Super-Conductive Brains – Parataxis, em que as gigantes, sempre nuas, estão fundidas como máquinas na produção industrial e também presentes na sociedade, servindo como módulos de transporte, e tratadas como animais de estimação pelos humanos.

Essa marca erótico-grotesca da criação de Kago se dissolve, ao menos nos traços, em Dementia 21, exceto pelo mesmo humor cáustico que rodeia a protagonista. Em um dos capítulos, Yukie vai cuidar de uma paciente com um histórico misterioso. Agraciada com poderes mentais enquanto criança, a mulher preferiu reprimir suas habilidades. Com a velhice e o esquecimento, ela vai colocar risco a vida de quem está ao seu redor, e do mundo todo.

Em outra história, Yukie deve participar de um concurso para ser a melhor cuidadora de idosos. Após repetidas derrotas e a pressão da família, a jovem passa a frequentar um curso preparatório. O treinamento inclui carregar idosos por florestas, atravessar rios e enfrentar jacarés, sem abandonar os clientes. Ao fim, a obsessão por cuidar transforma a garota em um monstro cuidador da terceira idade, com vocação de arma nuclear.

A coletânea também debate a realidade japonesa da moradia, em um capítulo sobre um gigantesco complexo para se alocar todos os idosos, e temas delicados como o suicídio, sempre mirando a crítica social. Ao acompanhar um cliente que deseja dar um passeio de carro, os dois seguem para a via exclusiva para idosos. O homem entediado ignora as leis e passa a circular em inúmeras vias: exclusiva para fugitivos, carros funerários, alcoólatras e pessoas que morrem enquanto dirigem.

Kago também quebra a quarta parede em sua trama no capítulo em que Yukie vai cuidar de um autor de quadrinhos independentes. É divertido ver a personagem sofrer duplamente as consequências de um autor que se acha acima do bem e do mal. Presa em uma narrativa que se repete, a jovem precisa entender os rumos do roteiro proposto por esse artista para se ver livre e, quem sabe, virar dona da própria história.

Dementia 21. Autor: Shintaro Kago. Tradução: Drik Sada. Ed. Todavia. 280 págs. R$ 69,90 papel; 39,90 ebook. 

O Poço | 5 HQs para ler após assistir ao novo suspense da Netflix

Provocador, filme espanhol da Netflix tem temática parecida com HQs clássicas
GABRIEL AVILA

Após uma estreia discreta, o filme espanhol O Poço se tornou uma das produções mais comentadas lançadas pela Netflix em 2020. Dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, o suspense causou verdadeira fascinação no público graças à sua trama envolvente, carregada de comentários sociais repletos de simbolismo com pitadas de gore. Abaixo listamos 5 HQs para aqueles que procuram leituras com temática similar ao do longa:

O PERFURANEVE

Capa brasileira de O Perfuraneve
Divulgação/Editora Aleph

O Poço acompanha Goreng (Ivan Massagué), um homem que está confinado na prisão vertical que dá nome ao filme. O local tem uma curiosa mecânica baseada em uma farta mesa de alimentos que desce diariamente, andar por andar, alimentando seus detentos. Não é preciso muito tempo no local para que Goreng descubra que a prática cria uma enorme disparidade, já que os andares de cima se refestelam em um banquete, deixando menos que migalhas para os que estão abaixo. Esta premissa é muito similar à de O Perfuraneve, clássico quadrinho francês que narra uma distopia em que o mundo foi tomado por uma terrível Era do Gelo que obriga o que restou da humanidade se abrigar no trem Perfuraneve. Com mais de mil vagões, o veículo é dividido em três comboios separados que separam grupos de pessoas por sua classe, reservando os primeiros para os ricos, que levam uma vida confortável e luxuosa, enquanto os últimos abrigam um número incontável de pessoas sem condições básicas para a sobrevivência. O protagonista é Proloff, ocupante dos vagões do fundo, que é pego pelas autoridades enquanto tentava embarcar em uma acomodação mais privilegiada.

Assim como O Poço imagina um futuro fantasioso para falar sobre a sociedade atual, O Perfuraneve usa a distopia para tratar a capacidade humana de prejudicar a si mesma. Descrito por seu roteirista Jacques Lob como “uma narrativa dura, amarga e sufocante”, a história tece comentários sobre como o egoísmo e a indiferença podem ter resultados catastróficos.

O Perfuraneve foi publicado no Brasil pela Editora Aleph.

BATMAN: ASILO ARKHAM – UMA SÉRIA CASA EM UM SÉRIO MUNDO

Capa brasileira de Batman: Asilo Arkham
Divulgação/Panini

Asilo Arkham – Uma Séria Casa em um Sério Mundo acompanha uma visita do Batman ao famoso hospital psiquiátrico para conter uma rebelião liderada pelo Coringa que, auxiliado por outros inimigos do Homem-Morcego, tomou conta da instalação fazendo os funcionários de refém. Em troca das vítimas, o Palhaço do Crime exige apenas que o herói faça um tour pelo local, tarefa que inicialmente parece simples, mas esconde um grande jogo mental que faz com que o Cavaleiro das Trevas duvide de sua própria sanidade.

Ao contrário de Goreng, que entra no Poço por livre e espontânea vontade, o Batman vai ao Arkham para garantir a segurança dos funcionários. Mesmo que com motivações distintas, a dupla lida com conflitos similares, já que uma vez dentro do cárcere, ambos são confrontados com suas próprias noções de moralidade e sanidade. Além do afiado roteiro de Grant Morrison, que reflete sobre a figura do Homem-Morcego e coloca em cheque toda a sua rigidez, o quadrinho cria uma sensação claustrofóbica graças à surreal arte de Dave McKean, que dá vida a uma versão distorcida e desesperadora do Asilo e seus ocupantes.

As edições mais recentes de Asilo Arkham foram publicadas no Brasil pelas editoras Panini e Eaglemoss.

CAPA PRETA

Capa da HQ Capa Preta
Divulgação/Comix Zone

O principal atrativo de O Poço é seu conceito de usar símbolos para propor reflexões que não entregam respostas fáceis. Por vezes pessimista, a produção espanhola pontualmente mergulha em situações indigestas para, não só levar sua trama adiante, mas também fazer comentários nada otimistas sobre a sociedade. Esses traços podem ser encontrados em Capa Preta, antologia que reúne os premiados primeiros quadrinhos de Lourenço Mutarelli.

O livro compila TransubstanciaçãoDesgraçadosEu Te Amo Lucimar A Confluência da Forquilha, histórias criadas em um momento de grande pesar enfrentado pelo quadrinista por conta de uma crise depressiva causada por uma pegadinha que foi longe demais. Refletindo toda a melancolia e angústia de seu autor, as histórias reúnem personagens atípicos em histórias com tom bizarro que discutem temas como família, religiosidade, arte e desejo em tramas que equilibram desespero e poesia na mesma medida.

Capa Preta foi publicado pela Comix Zone em 2019. Vale lembrar que durante a epidemia do coronavírus, a editora disponibilizou gratuitamente Transubstanciação como parte da campanha para que as pessoas fiquem em casa.

THE WALKING DEAD

Capa brasileira do primeiro volume de The Walking Dead
Divulgação/Panini

O Poço tem como ponto de partida o despertar de Goreng em um ambiente novo e hostil, que o faz repensar questões morais e seu papel neste cenário desolador. O mesmo acontece com Rick Grimes, protagonista de The Walking Dead que, após acordar de um coma, se depara com um mundo dominado por zumbis. As similaridades entre os dois vão além, já que para sobreviver em uma realidade completamente nova, ambos precisam lidar com os piores aspectos da natureza humana.

Se O Poço usa a prisão e suas curiosas mecânicas como plano de fundo para propor uma reflexão sobre a essência da humanidade, The Walking Dead faz o mesmo através do apocalipse zumbi. Ao longo de sua jornada, Rick faz aliados e inimigos que ensinam duras lições sobre como condições adversas podem mudar as pessoas, chegando a transformá-las em assassinos sádicos. Mais do que combater mortos-vivos, o xerife tem como missão restabelecer a sociedade e para precisa lidar com a selvageria ao seu redor, geralmente causada não pelas criaturas, mas pelos próprios vivos.

Atualmente em publicação, The Walking Dead é lançado no Brasil pela Panini.

DEMOLIDOR: O DEMÔNIO DO PAVILHÃO D

Capa brasileira de Demolidor: O Demônio do Pavilhão D
Divulgação/Panini

A prisão foi cenário para uma das mais famosas histórias do Demolidor. Após ter sua idade revelada nos jornais, Matt Murdock passou meses tentando evitar ligação entre sua identidade civil e heróica, até que provas aparecerem e o jogam na cadeia. Se por um lado o herói ficou detido em uma penitenciária comum, distante da futurista mecânica do Poço, lá ele precisou (literalmente) lutar para sobreviver enquanto coloca em cheque suas convicções.

Em O Poço, Goreng inicialmente se recusa a fazer parte desse ciclo até se tornar uma questão de sobrevivência. Já Matt Murdock tenta ao máximo não entrar no jogo daqueles que querem sua cabeça, até ver alguém que ele ama pagar o preço. Encarcerado com inimigos e aliados inesperados, o advogado constantemente se vê conversando com antigos rivais e até alucinações sobre o caminho a tomar, sabendo que sua capacidade de sair vivo diminui a cada segundo.

Demolidor: O Demônio do Pavilhão D foi publicado no Brasil pela Panini.

Por que você deve ler Harleen, a nova HQ da Arlequina

Quadrinho que reconta a história da vilã em selo para maiores entrou para a lista de best-sellers do The New York Times
GABRIEL AVILA

Divulgação/DC Comics

É difícil encontrar um personagem com uma trajetória de sucesso tão inusitada quanto a Arlequina. Surgida fora dos quadrinhos no início dos anos 1990, a personagem se tornou uma das favorita dos fãs. Sua popularidade se tornou tão grande que Jim Lee, um dos maiores quadrinistas em atividade e atual publisher da DC Comics, a definiu como “o quarto pilar” da editora, colocando a palhaça no mesmo nível de BatmanSuperman e Mulher-Maravilha. Esse fenômeno se deve, em partes, por causa da onipresença da personagem, que desde sua estreia na clássica série animada do Homem-Morcego já ganhou versões em quadrinhos, filmes e até video games. Sem se preocupar com uma possível saturação de sua personagem, a DC lançou em 2019 Harleen, uma HQ publicada dentro de seu selo para maiores, que chegou ao Brasil apenas este ano. Recontando a origem da personagem de maneira inventiva que redefine não apenas a Arlequina, mas todo o universo do Batman a partir da perspectiva da criminosa, o quadrinho criou um novo marco na história da vilã ao colocá-la na lista de best-sellers do The New York Times.

Harleen foi um dos primeiros lançamentos do Black Label, selo da DC Comics dedicado a histórias para maiores que não precisam se amarrar à cronologia da editora. A trama escrita e desenhada por Stjepan Šejić poderia se valer das características que definem a linha editorial para criar mais uma das narrativas“sombrias e realistas” que se valem apenas de violência e choque para passar sua mensagem. Porém, o croata toma uma direção diferente e atinge esse objetivo com elegância. A HQ tem como base a origem clássica da Arlequina, em que a psicóloga Harleen Quinzel chega ao Arkham para estudar o Coringa e acaba se apaixonando pelo psicopata. Como resultado dessa paixão improvável, ela abandona a sanidade e se torna uma criminosa que auxilia o Príncipe Palhaço do Crime em seus atos vilanescos. Mas, dessa vez, esse é apenas o nível mais básico da história, que se dedica a investigar a trajetória da dra. Quinzel além da influência do Arlequim do Ódio.

O primeiro trunfo de Harleen é desenvolver camadas em torno de sua protagonista. Ainda que funcional, a origem clássica da Arlequina escrita por Paul Dini e Bruce Timm deixa escapar qualquer personalidade da personagem antes de seu encontro com o Coringa. Sem pressa em chegar ao grande momento de virada, a HQ de Stjepan Šejić dedica edições inteiras a estabelecer quem é Harleen Quinzel. O quadrinista coloca uma lupa sobre as qualidades e as falhas de uma pessoa idealista, insegura, altruísta e até mesmo antiética, que tem como grande objetivo desenvolver uma tese a respeito do quanto a falta de empatia afeta – e até cria – os mais perigosos criminosos de Gotham.

Batman, Coringa e Arlequina em Harleen
Divulgação/DC Comics

Enxergando a Arlequina de forma complexa, a história evita prendê-la ao Coringa sem minimizar a importância do Palhaço para a sua transformação. Ao invés de tratá-lo como seu lado sombrio, Harleen aborda a presença do Arlequim do Ódio mais como um catalisador, especialmente por ele despertar um sentimento tão intenso quanto a paixão. Destacando o lado amoroso dessa relação, a história pode causar estranheza naqueles menos familiarizados com sensualidade em uma HQ de herói. O autor por outro lado, enxerga essa dinâmica como peça fundamental para a jornada da personagem. “O romance, em geral, é uma oportunidade para descrever a humanidade em seu estado emocional mais vulnerável. Quanto mais complicado o romance, mais intensa é a resposta que você pode obter de seus personagens”, disse ao CBR. Reconhecendo influências em casais famosos da cultura pop como A Bela e a Fera e até mesmo Christian Grey e Anastasia Steele de 50 Tons de Cinza, Šejić cria um vínculo bastante crível para a dupla, mesmo que esse relacionamento esteja condenado a não acabar bem.

Ainda que ele seja parte importante de sua degradação, dessa vez não é o romance que a define. Ao CBR, Šejić revelou também que uma de suas grandes inspirações para a sua versão da Arlequina foi Michael Corleone, o personagem de Al Pacino na trilogia O Poderoso Chefão“Inicialmente, ele não quer ser parte dos negócios da família, ele acredita não ser parecido com nada daquilo. Porém, o atentado ao seu pai e o amor pela família o empurram para lá, e uma vez em que você cruza a linha, não há como voltar”. Para o artista, essa noção de que o lado sombrio da personagem não está completamente ligado ao Sr. C é uma forma de enxergá-la por inteiro. “Para mim, o conceito desde o início é que ela é uma psiquiatra, uma mulher presa em sua própria mente que pode compreender a própria psicose, entender a severidade de suas ações e ainda assim encontrar novas formas de se justificar”.

Batman, Coringa e Arlequina em Harleen
Divulgação/DC Comics

Outro mérito da história é o grande destaque reservado para Gotham. Mais do que cenário, a cidade se torna uma espécie de personagem ao expor Harleen a toda a sua excentricidade. De assassinos psicóticos a sistemas ineficientes, passando por atentados graves, o lugar gera questões que desafiam as crenças da personagem ao mesmo tempo em que propõe debates para o leitor. Questionar noções básicas como o famoso “código do Batman” trazem temas que não se esperaria em uma história cuja grande chamada é a origem da Arlequina. Demonstrando grande familiaridade com esse núcleo, Šejić brilha ao entregar uma história que mescla world building e estudo de personagens em seu primeiro roteiro para a DC Comics.

Ainda que bem escrita, a história não seria a mesma sem a impressionante arte de Stjepan Šejić. Conhecido por curtas passagens nas revistas do Aquaman e da Liga da Justiça, o artista mostra todo o seu potencial na minissérie. Com sua arte digital, ele brinca ao alternar traços mais grosseiros com uma riqueza de detalhes que pode parecer extravagante à primeira vista, mas que aos poucos ajuda a narrar esse conto. Equilibrando passagens de sonho e alucinação com a sujeira do mundo real, o croata cria cenas impactantes que são ressaltadas pelo formato da revista – mais próximo ao do magazine – para criar cenas que ora conferem rapidez a diálogos afiados, ora impressionam com páginas duplas deslumbrantes.

Arlequina estudando vilões do Batman em Harleen
Divulgação/DC Comics

O futuro nunca pareceu tão brilhante (e louco) para a Arlequina

Quando o primeiro volume de Harleen foi publicada nos EUA, Stjepan Šejić revelou que seu plano era criar três minisséries para contar a história da Arlequina nos moldes de uma grande tragédia grega. A primeira seria o início do romance do Coringa em uma irônica versão de Silêncio dos Inocentes, enquanto a segunda mostraria a carreira da dupla no crime aos moldes de Bonnie & Clyde. Por fim, sua trilogia se encerraria com a ruptura com o Palhaço do Crime e uma aproximação com Hera Venenosa com inspiração em Thelma & Louise. Segundo o autor, seus planos dependiam das vendas da primeira história. Considerando que na última semana Harleen chegou à lista de best-sellers do The New York Times, é possível afirmar que sua jornada está longe do fim. Se a DC seguir investindo em universos autorais, é possível que esse seja apenas o início de uma longa jornada para a boa e velha Quina.

Harleen e as HQs da DC Comics são publicadas no Brasil pela Panini.

Empresa recusa transportar HQ ‘A Louca do Sagrado Coração’ por causa de mamilos à mostra na capa

‘A Louca do Sagrado Coração’ teria sido confundida com pornografia e teve exemplares devolvidos

HQ "A Louca do Sagrado Coração"
Capa da HQ “A Louca do Sagrado Coração”, da editora Veneta – Divulgação

O que era para ser um mero procedimento burocrático entre duas editoras se tornou a mais nova polêmica das redes sociais, com mais de 1.300 compartilhamentos até esta quinta-feira (16).

O caso começa com a publicação no Brasil da HQ “A Louca do Sagrado Coração”, de Alejandro Jodorowsky e Moebius, em outubro do ano passado, pela editora Veneta. Como é uma tradução, a casa tinha por contrato a obrigação de enviar cinco exemplares da edição brasileira para a editora francesa Les Humanoïdes Associés, que tem os direitos da obra. A prática é praxe no mercado.

Para fazer o transporte, a Veneta escolheu a transportadora DHL —só que a encomenda foi recusada e retornou. Com o pacote, foi entregue um recado que dizia que “o conteúdo enviado não é permitido para transporte via DHL Express”. Questionada pela editora, a transportadora afirmou que não transportava esse tipo de livro.

O motivo? Na capa da HQ há uma personagem com os seios à mostra, o que teria feito o material ser considerado pornográfico. 

Segundo os termos e condições de transporte da empresa, alguns itens são proibidos —de armas e drogas a pornografia, categoria na qual a HQ de Moebius e Jodorowsky teria sido enquadrada. Além disso, em nota enviada à reportagem, a DHL afirmou que pode inspecionar qualquer objeto enviado.

De acordo com a editora, os cinco exemplares de “A Louca do Sagrado Coração” foram enviados lacrados dentro de uma caixa. A única maneira de ter acesso à capa seria abrir a encomenda.

A HQ é um clássico do cineasta Alejandro Jodorowsky e de Moebius, um dos principais nomes dos quadrinhos franceses, e faz uma jornada mística e bem-humorada sobre autoconhecimento e filosofia, regada a diversas cenas de erotismo e sexo.

Isso bastou para inflamar as redes sociais, que caracterizaram a recusa da transportadora como censura e ecoaram casos recentes de tentativa de censura, como a uma HQ na Bienal do Livro do Rio de Janeiro e ao especial de Natal do Porta dos Fundos.

À Folha, porém, a empresa disse que houve apenas um erro de avaliação. “Ao reanalisar o caso, avaliando maiores detalhes do envio, como país de origem e destino, […] informamos que a remessa não se enquadra na categoria de produto restrito para transporte. Esclarecimento já realizado com a editora”, escreveu a DHL em nota.

A transportadora afirmou que abriu a possibilidade de refazer o transporte dos exemplares. Mas a Veneta disse que vai aproveitar uma viagem de seu diretor editorial à França para entregar as HQs pessoalmente. Por isso, disse que considera o caso encerrado e que não irá processar a transportadora.

Verão Otaku | Centro Cultural de SP fará maratona de animes em janeiro

Evento vai promover debates, exibição de filmes e pré-estreia exclusiva
GABRIEL AVILA

My Hero Academia

O Centro Cultural de São Paulo receberá o Verão Otaku, um festival dedicado aos animes. Organizado pela Fundação Japão em parceria com a Black Pipe Entretenimento, o evento acontece que entre janeiro e fevereiro terá maratona de animes como Attack on Titan e Demon Slayer, exibição dos filmes My Hero Academia – Dois Heróis e One Piece: Strong World e até o live-action de Jojo’s Bizarre Adventure.

Além da exibição dos animes, o festival terá debates sobre a cultura dos animes através de outras perspectivas, como a influência do Hip Hop e a importância do anime como forma de arte. No dia 31, haverá uma pré-estreia exclusiva do filme baseado em Human Lost.

O evento tem entrada gratuita, com retirada de senhas uma hora antes da primeira exibição de cada dia. Confira abaixo a programação

18/1 SÁBADO
14h Attack on Titan 1 (Episódios 1 a 6)
16h30 Attack on Titan 2 (Episódios 7 a 12)
18h50 Attack on Titan 3 (Episódios 13 a 18)
21h Attack on Titan 4 (Episódios 19 a 22)

19/1 DOMINGO
17h40 Afro Samurai
20h Debate com Chinv e niLL: A influência do Hip Hop e o intercâmbio cultural entre os animes e a música

21/1 TERÇA
15h X/1999
17h Anime Mirai

22/1 QUARTA
15h One Piece: Strong World
17h30 Cowboy Bebop

23/1 QUINTA
15h X/1999
17h30 Simples Herois
19h Mary e a Flor Encantada

24/1 SEXTA
15h Jojo’s Bizarre Adventure
17h Samurai Champloo 1 (Episódios1 a 6)
19h30 Samurai Champloo 2 (Episódios 7 a 12)

25/1 SÁBADO
14h Demon Slayer 1 (Episódios 1 a 6)
16h30 Demon Slayer 2 (Episódios 7 a 12)
18h50 Demon Slayer 3 (Episódios 13 a 18)
21h Demon Slayer 4 (Episódios 19 a 21)

26/1 DOMINGO
16h Simples Heróis
17h30 Debate com Diva Geek e Santana: A importância do anime como forma de arte
19h30 Anime Mirai

28/1 TERÇA
16h Cowboy Bebop

29/1 QUARTA
15h30 Anime Mirai
17h30 My Hero Academia – Dois Heróis
19h30 Jojo’s Bizarre Adventure

30/1 QUINTA
15h A Garota que Saltava no Tempo
17h10 One Piece Strong World
19h30 My Hero Academia – Dois Heróis

31/1 SEXTA
15h A Garota que Saltava no Tempo
18h Human Lost
20h Conversa Nelson Sato e Carlos Pires: Difusão de Animes na televisão brasileira

1º/2 SÁBADO
15h Fire Force 1 (Episódios 1 a 4)
17h Fire Force 2 (Episódios 5 a 8)
19h Fire Force 3 (Episódios 9 a 12)

2/2 DOMINGO
15h Ping Pong 1 (Episódios 1 a 4)
16h50 Ping Pong 2 (Episódios 5 a 8)
18h40 Ping Pong 3 (Episódios 9 a 11)

Thor se aposenta dos Vingadores em nova HQ; veja prévia

Nova fase da HQ terá roteiros de Donny Cates
GABRIEL AVILA

Uma prévia da nova HQ do Thor revela que o herói se aposentou dos Vingadores. As primeiras páginas da nova revista mostram o Deus do Trovão auxiliando a equipe à distância, atirando o Mjölnir em um monstro que atacava a Terra. Ao chamar o martelo de volta, ele nota uma mensagem que diz “boa pontaria! Aproveite a aposentadoria”. As imagens foram reveladas pelo roteirista Donny Cates (Motoqueiro Fantasma Cósmico), que ficou responsável pela revista do Filho de Odin após a saída de Jason Aaron, que roteirista do título desde 2012.

A revista mostrará Thor, agora Rei de Asgard, enfrentando o Inverno Negro, ameaça que pode causar a destruição dos Dez Reinos. De acordo com Cates, sua intenção é fazer com que a nova fase da HQ passe a mesma sensação que ouvir “black metal norueguês”. Thor #1 será publicada em janeiro de 2020 nos Estados Unidos.

HQ especial com 100 páginas celebra os 80 anos do Robin

Quadinho conta com artes especiais, a história do Garoto Prodígio e mais
CAMILA SOUSA

DC/Divulgação

DC anunciou uma edição especial em homenagem aos 80 anos do Robin, que serão celebrados em 11 de março de 2020Robin 80th Anniversary 100-Page Super Spectacular contém histórias dos maiores roteiristas do personagem, incluindo aventuras com os vários nomes que já carregaram o manto: Dick Grayson, Jason Todd, Tim Drake, Stephanie Brown e Damian Wayne. 

Além da capa acima, assinada por Lee Weeks, os fãs poderão adquirir oito capas variantes, que acompanham o Robin durante as décadas. As artes serão assinadas por Jim Lee e Scott Williams (anos 40), Julian Totino Tedesco (anos 50), Dustin Nguyen (anos 60), Kaare Andrews (anos 70), Frank Miller (anos 80), Jim Cheung (anos 90), Derrick Chew (anos 2000) e Yasmine Putri (anos 2010).

O lançamento da edição será exatamente em 11 de março de 2020, no aniversário do personagem.

Heroína ou vilã: como a tecnologia muda a vida de quem faz HQs

Ao longo de trinta anos, uso de computadores alterou a relação artística e financeira dentro dos quadrinhos
Por George Gene Gustines – The New York Times

Computadores alteraram a relação artística e financeira dentro dos quadrinhos

Parte da cultura pop desde a década de 1930, as histórias em quadrinhos (HQs) tomam forma em uma longa cadeia: elas passam do escritor para os artistas (quadrinistas e arte-finalistas), chegando depois para os letristas e coloristas. Hoje, esse esforço de equipe continua praticamente o mesmo, mas os computadores e a tecnologia ampliaram as opções para ilustradores e revolucionaram os papéis dos artistas em rapidez, produção e arte. Essa evolução tecnológica, no entanto, não aconteceu da forma como alguns imaginavam. 

“No final dos anos 1980, tínhamos certeza de que toda a criação de quadrinhos seria feita com ajuda de um PC”, diz Mark Chiarello, um veterano da indústria. Ex-Marvel, DC e Dark Horse Comics, três das casas mais respeitadas das HQs, Chiarello hoje é artista freelancer. Ele foi testemunha de muitas tentativas de transformar os quadrinhos em uma produção digital. 

Uma das primeiras apostas veio em 1985, quando a First Comics publicou Shatter Special Nº1. Sua capa proclamava: “o primeiro quadrinho computadorizado!”. Toda a edição, exceto as cores, foi feita em um Macintosh. A arte tinha balões de diálogos bem rígidos e lembrava os primeiros dias dos videogames, com imagens pixeladas e um pouco desajeitadas. Mas foi inovador e vendeu muito. 

“Passamos uns anos tropeçando na escuridão digital e tentando inventar softwares personalizados, até que todas as empresas de quadrinhos adotaram o software que acabou com todos os softwares: o Adobe Photoshop”, lembra Chiarello. 

Nem todos se adaptaram bem ao programa de início. “Trabalhando no Photoshop, eu não conseguia fazer nem um círculo”, diz o ilustrador Yanick Paquette, que fez muitas capas e quadrinhos para a DC. Sua primeira incursão digital foi em 2000, para uma revista de Batman. Hoje, porém, a vida é bem mais fácil: ele é um viciado no Cintiq, marca de tablets que permite ao usuário desenhar diretamente na tela. “Não compro mais borrachas. Não compro mais tinta. Mas toda vez que lançam um novo Cintiq, vou lá e meio que dou de presente para mim mesmo”,  diz ele.

Na opinião de Paquette, os leitores desconfiam da arte digital. “Quando uma coisa fica perfeita demais, límpida demais, você perde a sensibilidade humana”, diz. Para fazer um exército inteiro, ele pode desenhar um único soldado e criar digitalmente um batalhão, mas se nega. “Se me dedico a desenhar cada um dos soldados da tropa, eles ficam humanizados e a relação do leitor com a arte é diferente”.

Parceria

As relações entre os diferentes profissionais na linha de montagem de uma HQ também mudou – em especial, entre o quadrinista (que concebe a página e desenha as imagens iniciais) e o arte-finalista (que dá o acabamento adequado a cada linha). “Antes, era um bom arte-finalista que elevava o trabalho do quadrinista. Agora, é o colorista”, diz Karl Kesel, arte-finalista que trabalha desde 1984. “A tecnologia reverteu a ordem da importância artística, por mais que eu odeie admitir isso.” Ele segue desenhando no papel, mas mas acredita que a maior inovação digital é a função desfazer do computador: “Não gostou dessa linha? É só clicar e pronto, sumiu”.

Responsável por adicionar balões de diálogos, legendas e efeitos sonoros às páginas, os letristas também têm uma relação nova com o trabalho. “Ganhamos menos, mas podemos produzir mais graças ao sr. Computador”, diz Chris Eliopoulos, letrista que começou a trabalhar em 1989 como estagiário na Marvel. Em seu auge, ele escrevia à mão 30 quadrinhos por mês, em uma média de 22 páginas. 

Trabalhar digitalmente, diz ele, é mais rápido e lucrativo. Um quadrinista pode ganhar US$ 100 por página, mas geralmente só faz uma por dia. Um letrista ganha menos por página, mas produz várias em um só dia de trabalho. 

Para a famosa série ‘I am…’, que reúne biografias de figuras históricas em graphic novel, ilustradas por ele, Eliopoulos usa um híbrido de letras digitais e à mão livre, evitando sua biblioteca de fontes. Ele segue sendo um artesão. “Leva mais tempo, mas acho que qualquer pessoa diria que, se pudesse escolher, ficaria com as letras à mão, porque são orgânicas, são arte”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU