Símbolo da aristocracia de NY, Gloria Vanderbilt foi ‘gossip girl’ da vida real

Uma das pioneiras do jeans e herdeira de magnata, ela fez dívidas e teve de ir viver na casa do filho

Atriz Gloria Vanderbilt Stokowski em traje para a peça de Molnar, The Swan

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Não é aleatória a cena em que Serena van der Woodsen, a pobre menina rica de “Gossip Girl”, desce na Grand Central de Nova York no primeiro episódio do seriado. Seu sobrenome, assim como a construção centenária, estava ligado à sua musa inspiradora, Gloria Vanderbilt, que até esta segunda-feira (17) era último bastião do glamour aristocrático da Nova York do século 19.

Morta aos 95 anos, em decorrência de um câncer no estômago, foi casada quatro vezes e herdou montanhas de dinheiro do tataravô magnata das ferrovias, Cornelius Vanderbilt. Assim como a persona real, Lilly van der Woodsen, mãe de Serena na série, mantinha vastas coleções de maridos, filhos e obras de arte.

Seria injusto, porém, minguar a importância de Gloria Vanderbilt às fofocas da alta sociedade pré-blogs. Em se tratando de elegância, ela era uma espécie de Costanza Pascolato dos Estados Unidos.

O segredo que ninguém conta, para citar o jargão da série pop, é que ela ajudou, nos anos 1970, a libertar garotas comuns dos vestidos e roupas herdados dos armários do pós-Guerra.

Tingidas por um índigo profundo, as calças jeans de Vanderbilt tinham cintura alta, eram levemente ajustadas para se diferenciar dos cortes masculinos e levavam seu nome na etiqueta. Isso muito antes da logomarca que tomou a costura nas décadas seguintes.

Era uma fórmula perfeita, tocada em parceira com o presidente da gigante têxtil Mohan Murjani, Warren Hirsch, para fazer a marca faturar mais de US$ 100 milhões por ano em valores da época.

Gloria, assim, passaria a ser vista não só pela forma elegante de combinar roupas, mas por criar as tendências e diferentes formas de usá-las.

Da mesma forma que a estilista Mary Quant teve o nome e a criação ofuscados por André Courrèges (1923-2016), reconhecido como “pai da minissaia” apesar de a inglesa ter lançado anos antes a peça, só que um pouco mais longa do que a do francês, Vanderbilt foi eclipsada pela agressiva campanha de grifes italianas e conterrâneas pela coroa do jeans.

A montanha-russa de uma vida marcada por gastos exorbitantes e escândalos familiares subjulgou a imagem de self-made woman. Calvin Klein, Diesel, Levi’s, Lee, grifes geridas por homens e que lançavam mão de publicidade lasciva, tomaram o espaço da face mais interessante da herdeira de casos midiáticos.

A diva, socialite e milionária Gloria Vanderbilt Foto: Mario Anzuoni/Reuters

Os anos 1990 foram impiedosos com a estilista, mais vista como socialite e ex-mulher de figurões do que como a garota que desafiou o destino de seus pares da região nobre do Upper East Side e criou a própria fortuna –ainda que tenha perdido boa parte dela por dívidas com o fisco e passado a viver em um apartamento do filho famoso e âncora da CNN Anderson Cooper.

Chegou a escrever poemas, dicas de decoração e livros de memórias nos quais esmiuçou suas tragédias particulares. Diferenciou-se da nobreza decrépita, mas por toda vida carregou o fardo de ter o sobrenome mais pesado que o nome.

O tempo colocou em evidência o ícone de estilo, a caricatura do glamour fora de moda e um tanto francês demais, rechaçado pelo nascente estilo yuppie propagado pelos engomadinhos de Wall Street. Vale lembrar, ela passou parte da infância no país europeu e herdou costumes bem diferentes da etiqueta americana, mais objetiva e sem firulas. No fim das contas, o desajuste parecia acompanhá-la desde cedo.

Toda a noção de igualdade de gênero gestada no século 20, que lhe permitiu furar a própria bolha social e hoje baseia o pensamento ocidental sobre o papel da mulher, não foi perene na vida de Gloria Vanderbilt. 

É como se quaisquer contribuições que tenha desenvolvido na literatura, nas artes e na moda não tivessem sido suficientes para que recebesse reconhecimento como alguém maior do que a pobre menina rica e, principalmente, melhor do que o “gossip” em torno de sua intimidade.

Gloria deixa os filhos Anderson Cooper, Christopher Stokowski e Leopold Stanislaus Stokowski.

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‘Eloisa é uma modelo responsável que, infelizmente, pode estar passando por problemas pessoais’, diz agente, último a ter contato com Eloisa Fontes em Nova York

Booker brasileiro cuida da carreira da alagoana há um ano e três meses
Joana Dale

Eloisa Fontes, em Nova York Foto: Reprodução

O booker e agente da modelo Eloisa Pinto Fontes há um ano e três meses, foi o último a ter contato com a alagoana, dada como desaparecida desde a manhã da última terça-feira, em Nova York . Os dois estiveram juntos e conversaram no escritório da Agência Marilyn, na Union Square. De lá, ela teria ido ao Consulado Brasileiro, que fica próximo à Grand Central Station, para tirar um passaporte novo, pois havia perdido sua bolsa com todos os documentos e telefone celular na sexta-feira anterior.

—  Na sexta-feira anterior ao sumiço, ela não respondeu aos meus e-mails e, na segunda-feira, não foi a um casting que estava marcado. Só na segunda à tarde me respondeu com uma mensagem, informando que tinha perdido o telefone e todos os documentos — contou o agente. — Na terça, Eloisa chegou à agência antes das 9h, junto com o primeiro funcionário. Estava com uma mala, pois pretendia mudar de onde estava hospedada. Às 10h30m, saiu da agência dizendo que iria ao Consulado Brasileiro dar entrada no novo passaporte. Levou com ela um iPad e um pouco de dinheiro que pegou na agência. E não deu mais notícias… Só resolvi dar esta entrevista porque tenho esperança que a mídia nos ajude a encontrá-la.

A modelo estava morando nos Estados Unidos desde fevereiro. Nascida em uma cidade pequena no interior de Alagoas, a modelo deixou oito irmãos no Brasil para tentar, desde muito jovem, carreira como modelo no exterior. Ela foi casada e tem uma filha, Azzurra, com o modelo e produtor executivo russo Andre Birleanu, de 41 anos. Os dois se conheceram em 2012, em São Paulo, e se casaram em 2014. Ele — que ficou conhecido pela sua participação no programa americano “America’s most smartest model” — tem a guarda da criança.

Ela já fez capas para revistas conceituadas como “Elle”, “Grazia” e “Glamour”, além de campanhas para grifes como Dolce & Gabbana. “Eloisa é uma modelo responsável que, infelizmente, pode estar passando por problemas pessoais. Eu realmente espero que a gente consiga encontrá-la”, diz o booker, que há 20 anos trabalha e vive em Nova York.

Na sexta-feira (7), a polícia americana foi procurada por ele, mas alegou que, por tratar-se de uma mulher maior de idade, ainda seria preciso esperar mais dias para iniciar uma investigação. O Consulado Brasileiro informou que está acompanhando o caso e prestando apoio à família da modelo.

Refugiada afegã Fariba Amini refaz vida na Grécia transformando botes em bolsas

Fariba Amini, que deixou o Afeganistão por causa da guerra, usa pedaços de borracha para suas produções

Fariba Amini, refugiada afegã, trabalha em suas bolsas em Atenas Foto: REUTERS/Alkis Konstantinidis

A afegã fugiu para a Grécia em 2016 sem documentos e com poucas perspectivas. Hoje ela fabrica e vende bolsas e bijuterias com o símbolo mais contundente da crise de refugiados da Europa: os botes e coletes salva-vidas antes espalhados pelas praias gregas.

 “As bolsas me lembram de como cheguei aqui, e os braceletes me lembram dos meus dias no campo, aquele tempo difícil”, conta Fariba, de 31 anos, acima do ruído da máquina, com uma fita métrica ao redor do pescoço.

“Quando comecei a trabalhar nas minhas costuras, elas foram um bálsamo para a minha alma. Elas me trouxeram paz.”

O porão do estúdio despojado no centro de Atenas que ela divide com outras estilistas postulantes a asilo está repleto de restos pretos e cinza de botes infláveis, coletes salva-vidas vermelhos e pilhas de tiras.

Bolsas feitas por Fariba Amini com restos de botes de borracha Foto: REUTERS/Alkis Konstantinidis

A parede laranja do estúdio é decorada com muitas de suas criações, como mochilas pretas, pastas e bolsas. Braceletes feitos com filetes coloridos estão expostos em uma mesa.

“Considerando que eu mesma vim de bote, sinto-me muito bem”, disse Fariba. “Quero mostrar a outros que estão vindo como imigrantes que podem fazer uso até das coisas mais comuns.”

Fariba e sua família foram forçados a deixar o Afeganistão quando ela tinha 5 anos depois que seu irmão morreu na guerra civil. No Irã, onde moraram durante duas décadas, as autoridades os proibiram de estudar ou trabalhar, disse.

Em 2016, eles partiram em uma jornada marítima curta, mas perigosa, da Turquia para a Grécia e foram parar em um campo improvisado insalubre no antigo aeroporto de Atenas, onde milhares viviam em barracas no terminal de chegada, com pouca comida e violência frequente.

Para sobreviver, Fariba aprendeu sozinha a criar peças sofisticadas vendo vídeos no YouTube – e logo as estava vendendo em bazares e para amigos.

Seus pais e sua irmã se mudaram para a Alemanha, mas Fariba, que recebeu status de refugiada na Grécia, ficou na esperança de fazer seu negócio incipiente decolar. /REUTERS

Clube da Preta reúne afro-empreendedores de moda e beleza em caixas mensais

Criado pelo casal Débora Luz e Bruno Brígida, clube de assinaturas é o primeiro a reunir apenas produtos criados por afrodescendentes
THALITA PERES

Débora Luz e Bruno Brígida (Foto: Reprodução/Instagram)

A museóloga Débora Luz tem 168 mil seguidores no Instagram, num perfil em que ela atua principalmente como uma digital influencer de moda e beleza, mas é como empresária que a brasiliense radicada em São Paulo potencializa o trabalho de mais 150 afro-empreendedores que fazem parte da startup Clube da Preta, clube de assinaturas que reúne apenas produtos de moda, beleza e acessórios criados por afrodescendentes de todo o Brasil.

“A ideia surgiu pela necessidade de muitos a minha volta”, diz Débora, que criou o projeto com o namorado, o administrador de empresas Bruno Brígida. “Dentro das minhas redes sociais, sempre fiz questão de valorizar o consumo consciente. Sou eu quem escolho com quem divido meu poder, meu dinheiro… Sempre falei sobre empoderamento, empatia com as mulheres, propor trabalhos e parcerias…”. A ideia, conta ela, veio de conversas com afro-empreededores, que notavam um crescimento nas vendas de seus produtos nos meses de novembro e dezembro “ou em data com cunha racial”. “Nos outros meses, eles não tinham renda nem trabalho full time para se sustentar”, explica.

Em 2017, Débora e Bruno estudaram o mercado e visitaram feiras voltadas ao afro-empreendedorismo e mapearam a produção. “Percebemos que os clubes de assinatura são uma tradição no Brasil”, conta Débora. “As pessoas estavam consumindo de verdade, então, começamos a desenhar o Clube da Preta”, explica ela, que trabalhou meses na ideia até chegar ao formato final.

Débora Luz (Foto: Reprodução/Instagram)

Dentro de uma caixa, a dupla reúne produtos de moda, beleza e acessórios, que vão de camisetas, turbantes, vestidos, pulseiras, colares, cremes e xampus para cabelo crespo e cacheado, até livros de autores negros, como Marcelo D´Salete, atualmente um dos mais importantes autores de HQ do mundo, premiado com o Eisner, o Oscar dos quadrinhos.

O controle da qualidade dos produtos e a história dos empreendedores são fatores importantes para os empresários serem aceitos na plataforma, que dá a opção de três caixas com produtos diferentes para a vendidos no site clubedapreta.com, com valores que vão de R$ 99,99 a R$ 199,99. “Ano passado, vendemos mais de 10 mil caixas e contamos com 400 clientes recorrentes”, conta Débora.

“Só contamos com feedbacks positivos. Uma designer de moda criou a 370, por exemplo, que trabalha apenas com sobras de tecidos biodegradáveis do banco de São Paulo e da cidade de São Vicente [litoral de São Paulo]. Ela, mãe e a tia trabalham juntas. A mais nova gerando renda para a geração mais velha. É gratificante ver as oportunidades de trabalho que as pessoas conseguiram com o Clube da Preta. Todos os dias, recebemos mensagens de superação, de saber que eles conseguem sustentar a família a partir do clube”.

Equipe da 370 (Foto: Reprodução/Instagram)

“Outra boa história é da Mapa Lingerie. A empreendedora percebeu que não tinha lingerie da cor da pele dela, então, passou a desenvolver a peça. Agora, a marca conta com escala maior, cresceu bastante. A Cervejaria do Complexo do Alemão fica dentro do bairro e tem um trabalho incrível: anualmente, as crianças da comunidade pintam as garrafas. O dinheiro com a venda é revertido para atividades locais, como educação, esportes, construção de casa, etc”.

Boxs do Clube da Preta (Foto: Reprodução/Instagram)

E, com 150 afro-empreendedores no Clube da Preta, Débora quer mais: “Para este ano, gostaria de ter uma plataforma mais intuitiva, ter mais clientes e conhecer mais pessoas através do Clube, gerando assim mais renda aos empreendedores. Quero também lançar novos produtos, expandir nossos negócios e fazer os parceiros crescerem com a gente”.

Sephora fecha lojas dos EUA para treinamento em diversidade

Ação ocorre pouco mais de um mês após a cantora SZA relatar que foi vítima de racismo em uma loja na Califórnia

Loja de cosméticos da Sephora na cidade de Washington. Foto: Anna-Rose Gassot/AFP

A marca de cosméticos Sephora fechou suas lojas nos Estados Unidos por uma hora na manhã desta quarta-feira, 5, para sediar “oficinas de inclusão” para seus 16 mil funcionários. A ação ocorre pouco mais de um mês após a cantora SZA relatar que foi vítima de racismo em uma loja na Califórnia.

A varejista de beleza disse que o treinamento esteve em desenvolvimento meses antes do episódio com SZA, o que prejudicou os esforços da empresa para se posicionar como uma defensora da diversidade.

A Sephora, que pediu desculpas à SZA no mês passado, disse que o incidente “reforça porque o pertencimento é agora mais importante do que nunca”.

Além do fechamento das lojas, a empresa disse que também fecharia seus centros de distribuição e o escritório corporativo para as oficinas a fim de discutir o que significa pertencer ao contexto de “identidade de gênero, raça e etnia, habilidades de idade e muito mais”.

A Sephora forneceu poucos detalhes sobre as oficinas, que foram fechadas para o público. A empresa disse que elas seriam seguidas por “futuros momentos de treinamento” para os funcionários, mas não respondeu sobre o que seria ensinado, quem conduziria os workshops e como eles seriam projetados.

A empresa, que pertence ao grupo de luxo Moët Hennessy Louis Vuitton LVMH, coloca a diversidade como parte de sua marca há muito tempo. Há dois anos, a companhia ajudou a lançar a linha Fenty da Rihanna, conhecida por sua gama de bases que variam os tons do marrom claro ao profundo.

Após o caso de racismo denunciado por SZA, Rihanna enviou para a cantora um vale-presente da Fenty. “Vá comprar Fenty Beauty em paz, sis! Com amor, Rihanna”, escreveu ela no bilhete que acompanhou o presente.

Slow fashion: como as marcas devem se adaptar à moda sustentável

A indústria da moda é a segunda que mais polui o meio ambiente, ficando atrás apenas do petróleo
Por Estadão Conteúdo

Moda: Aproximadamente 85% do vestuário que norte-americanos consomem são enviados para aterros sanitários como resíduos sólidos (Yui Mok/Getty Images)

São Paulo — O ano é 2016. A grife de luxo britânica Burberry inova ao aderir ao movimento “see now, buy now”, cujo objetivo é levar as peças às lojas imediatamente após o desfile.

Em tempos de compras online e lojas de departamento lançando coleções novas a cada semana, o tempo passa a ser decisivo entre as marcas que lideram o número de vendas. Passamos para 2019.

O termo “slow fashion” começa a se popularizar, ainda que timidamente, e corrompe todos os conceitos promovidos até então. Moda, mais do que seguir tendências, agora é sustentabilidade.

De acordo com um estudo da revista Environmental Health, publicado em dezembro de 2018, aproximadamente 85% do vestuário que norte-americanos consomem são enviados para aterros sanitários como resíduos sólidos.

Apesar de ser um mercado que fatura 1,2 trilhão de dólares anualmente, cerca de R$ 4,8 trilhões, seu impacto ambiental preocupa: a indústria da moda é a segunda que mais polui o meio ambiente, ficando atrás apenas do petróleo.

Em contrapartida à fast fashion, conceito que prioriza a venda de produtos baratos, de pouca qualidade e que chegam rápido às lojas, um novo termo passa a integrar o vocabulário: batizado de slow fashion, seu objetivo é desacelerar o consumo de produtos da moda.

Por um lado, as mercadorias possuem maior qualidade e durabilidade. Por outro, o preço um pouco elevado pode desagradar o cliente.

Em 2015, a especialista em consumo consciente Chiara Gadaleta criou o Prêmio Ecoera em prol da sustentabilidade nos universos da moda, beleza e design. No ano passado, a premiação homenageou a marca Coletivo de Dois por aliar comércio justo, práticas sustentáveis e empoderamento de gênero.

“Nós compramos materiais inusitados, com defeitos de impressão, sobras de rolo, peças que para o comércio tradicional não tem mais valor. Aproveitamos o material até o limite, só descartamos o que não tem mais como emendar”, revela Daniel Barranco, que fundou a marca com o parceiro Hugo Mor há cinco anos.

Nesse período, costuraram mais de duas mil peças e conseguiram reaproveitar aproximadamente 150 quilos de retalhos, que certamente iriam para o lixo.

Garimpo de segunda mão

Segundo um levantamento feito pelo site ThredUP, a compra de produtos de segunda mão aumentou 25% em apenas um ano. Esse tipo de mercado pode se enquadrar como disseminador da moda sustentável, já que incentiva o comércio de segunda mão e prolonga a vida útil das peças em bom estado.

“A principal missão da Boutique é difundir o consumo consciente, minimizar (dentro da nossa realidade) danos, aumentar a vida útil de itens descartados e reutilizá-los”, conta Rebeca Oksana, que fundou a Boutique São Paulo há quatro anos.

A princípio, a jovem de 24 anos vendia “desapegos” pelo Instagram, mas viu o negócio crescer quando passou a visitar brechós de São Paulo para garimpar novas peças. Com a demanda, criou o e-commerce para vender não somente produtos de segunda mão, mas também peças novas.

“Meu foco era trazer peças autênticas, únicas e de qualidade, que não seriam encontradas em lojas de fast fashion. Era uma insatisfação minha e que eu acreditava que algumas pessoas compartilhavam”, explica.

Segundo estimativas do Sebrae, o mercado têxtil brasileiro produz cerca de 170 mil toneladas de resíduos por ano. Para Rebeca, é preciso diminuir o impacto ambiental causado pela moda, seja não adquirindo peças novas ou diminuindo o consumo desenfreado.

“Acredito que o garimpo e o consumo de peças de segunda mão andam de mãos dadas com um estilo de vida mais consciente. O mundo da moda precisa de uma revolução e nós estamos tentando, aos pouquinhos, fazer isso acontecer”, vibra.

Lixo ressignificado

No mercado de calçados há cinco anos, a Insecta Shoes acumula números surpreendentes de reciclagem: 21 mil garrafas plásticas, 2 mil metros de tecido, quase uma tonelada de algodão, mais de 1.600 quilos de papelão e 6.800 quilos de borracha já foram reciclados pela marca paulistana.

Fundada por Bárbara Mattivy, a marca surgiu com a ideia de aproveitar peças com pequenos defeitos e que, por isso, não podiam ser revendidas.

“Nós tentamos ao máximo tirar materiais que estão no lixo e ressignificá-los, transformando tudo em sapato”, conta. O solado, por exemplo, é feito de borracha reaproveitada, enquanto os tecidos vêm de garrafas PET recicladas.

O processo de produção da Insecta Shoes é artesanal e livre de crueldade animal, demonstrando uma preocupação além da sustentabilidade. Além disso, trabalham com a logística reversa: “quando o cliente não quer mais usar o sapato, nós recebemos ele de volta para fazer a reciclagem da forma correta”, comenta.

Como se adaptar ao movimento?

Pensando nos consumidores que querem adaptar o guarda-roupa ao movimento slow fashion, a engenheira ambiental Maria Constantino propõe cinco estratégias que facilitam o consumo consciente.

“O começo foi um desafio, mas a criatividade que tenho em meus looks, a economia que venho gerando em meu bolso e a realização pessoal de dialogar tudo isso tem valido muito a pena”, revela a ativista, que tem mais de dez mil seguidores em seu perfil no Instagram sobre estilo de vida ecológico.

Primeiramente, ela valoriza a imaginação e criatividade na hora de compor os looks, como testar novas combinações e variar o uso das peças.

O cuidado com as roupas também é fundamental: “Se você vai comprar menos, consecutivamente vai precisar usar e cuidar mais das roupas que tem. Preste atenção no manuseio de cada peça e qual a melhor maneira de lavar e passar cada material para que durem bastante.”

Se quiser comprar alguma mercadoria nova, a engenheira sugere planejamento para evitar compras por impulso, sem ao menos considerar se a roupa vai combinar com outras peças e estampas do próprio guarda-roupa. Pensando nisso, Maria ressalta a importância de se fazer perguntas como “tenho outras peças parecidas?” ou “quantas vezes vou usá-la?”.

Se tiver de fazer alguma aquisição, dê preferência aos brechós ou lojas de segunda mão: “Tanto as físicos quanto as do Instagram são excelentes opções para procurar roupas que vão colaborar para o seu guarda-roupa sustentável. Você vai se surpreender com os achados e ainda irá economizar uma grana”, afirma a engenheira.

Por fim, aproveite as oportunidades em que puder pegar roupas emprestadas. Em formaturas e casamentos, por exemplo, ocasiões mais formais em que evitamos repetir looks marcantes, peça para seu círculo de amigos e familiares se podem te emprestar algo para o evento. Hoje em dia, há até mesmo aplicativos destinados ao empréstimo de roupas, das mais cotidianas às de festa.

Laura Harrier: “Na infância e adolescência, não via garotas como eu no cinema”

Liberdade, amor, arte e racismo. Em uma conversa exclusiva, a atriz de 29 anos e estrela do premiado filme de Spike Lee, Infiltrado na Klan, falou sobre sua criação feminista, o espanto que teve ao perceber que nem todas as mulheres defendiam a causa e o mergulho que fez na história do movimento negro norte-americano para compor sua mais recente personagem
ANA CLARA GARMENDIA, DE PARIS

Laura Harrier – Top, R$ 11.200, e calça, R$ 10.100, Louis Vuitton (Foto: Ricardo Abrahao (ABÁ MGT))

Encontramos a atriz norte-americana Laura Harrier numa manhã gelada de quarta-feira de fevereiro, em Paris. Eram dez horas quando ela chegou ao hotel Le Bristol e pediu um cappuccino, antes da entrevista.

Aos 29 anos, Laura contou que demorou a entender que a liberdade feminina não era algo tão disseminado mesmo entre garotas de sua geração. Isso porque, na sua casa, as mulheres sempre tiveram voz, e ela só percebeu que havia sido criada por uma feminista quando se confrontou com mulheres que acreditam que não é preciso militar pelos direitos femininos. “Fui envolvida com o feminismo por causa da mulher que me criou, minha mãe. Sempre me identifiquei como feminista, sendo filha de uma. Para mim não era nada demais, até que começaram a me perguntar sobre isso e percebi que a maioria das pessoas não tinham essa educação familiar.” Não à toa, hoje Laura é uma das grandes apoiadoras do Time’s Up.

A liberdade com que foi criada delineou a atriz que ainda hoje se vê como uma simples garota de Illinois, nos Estados Unidos, onde nasceu e foi criada. “Tive uma infância muito normal e americana. Cresci numa cidade onde Clube dos Cinco, A Garota de Rosa Shocking e todos esses filmes americanos sobre high school se passam. Foi uma infância boa, suburbana, e ter a sorte de que os meus pais amavam viajar nos deu uma visão de mundo muito ampla. Acho que fui capaz de enxergar além da minha própria experiência individual.”

Laura Harrier – Parca, preço sob consulta, e vestido, R$ 17.700, Louis Vuitton (Foto: Ricardo Abrahao (ABÁ MGT))

Uma liberdade que acabou levando o acaso a fazer de Laura (ela garante que não pretendia ser atriz) uma artista respeitada pelos papéis que encarna no cinema, como Liz Allan, em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, e a ativista Patrice em Infiltrado na Klan, filme que ganhou Oscar de melhor roteiro em 2019.

Para este papel, fez uma ampla pesquisa com ativistas do movimento negro, em especial com fundadores do dos Panteras Negras, partido que lutava contra o raciscmo e a violência policial nos anos 60. “Sempre senti que minha visão de mundo era alinhada com movimentos como esse. Mas definitivamente aprendi muito nesse processo. Não aprendi na escola sobre Malcolm X ou os Panteras Negras. E acho que isso se deve à propaganda proliferada na época dos movimentos dizendo que eles eram violentos”, diz ela, que se define como birracial por ser filha de mãe branca e pai negro.

A mistura de força e delicadeza também rendeu a Laura o convite para ser uma das embaixadoras da Louis Vuitton, algo que a conecta com moda, assunto que lhe interessa pelo fato de a roupa ser uma expressão social, e não exatamente por seguir esta ou aquela tendência. “Amo o Nicolas[Ghesquière, diretor-criativo da linha feminina da maison francesa] e amo trabalhar com ele. É maravilhoso.”

Laura é reservada quando o assunto é amor. Por quatro anos namorou o músico Ian Longwell, mas virou alvo da mídia quando se envolveu com Kay Thompson, famoso jogador de basquete do time Golden State Warriors. A discrição de Laura quanto aos relacionamentos entra em acordo com seu discurso. A garota simples de Illinois não busca fama, toca sua vida com a liberdade de não ser invadida, rotulada.

Laura Harrier – Blazer, R$ 15.700, e vestido, R$ 15.700, Louis Vuitton (Foto: Ricardo Abrahao (ABÁ MGT))

Parece que o que ela quer mesmo é fazer da sua arte, a atuação, o seu canal de passagem, a sua maior forma de comunicar ao mundo o que ela acredita ser primordial. “Contar histórias sobre a experiência humana, quero continuar fazendo isso. E fazer personagens com que as pessoas possam se identificar. Acho que muitas pessoas se identificam com a Patrice, e isso tem sido muito legal de ver. Ou como no Homem-Aranha. Meninas e mães falaram pra mim: ‘Nossa,  nunca pensei que fosse ver uma mulher como você em um filme como esse’. Eu mesma não tive isso na infância ou adolescência. Não via garotas como eu nos filmes”, finaliza.

Laura Harrier – Camiseta, R$ 6.750, e calça, R$ 7.300, Louis Vuitton. Acessórios usados em todas as fotos, acervo pessoal (Foto: Ricardo Abrahao (ABÁ MGT))

EDIÇÃO DE MODA: LARISSA LUCCHESE / BELEZA MAQUIAGEM: NAOKO SCINTU (THE WALLGROUP) / BELEZA CABELO: JENNIFER YEPEZ (THE WALL GROUP) / ASSISTENTE DE MODA: NANCY GARCEZ / PRODUÇÃO–EXECUTIVA: VANDECA ZIMMERMANN / TRATAMENTO DE IMAGEM: HELENA COLLINY / AGRADECIMENTO: LE BRISTOL PARIS