Escândalo de Felicity Huffman levanta a questão: até onde você iria para conseguir uma boa faculdade para o seu filho?

Atriz, que ficou famosa por “Desperate Housewives”, está sendo julgada por pagar fraude das notas da filha e garantir seu acesso a universidades de ponta

Felicity Huffman deixando uma audiência em maio, em Boston, quando assumiu a culpa (Foto: Getty Images)

Em março de 2019, estourou na imprensa americana um escândalo envolvendo pais de classe média alta e classe alta que teriam pago para fraudar as notas dos filhos nos SATs, espécie de ENEM usado como critério de seleção de muitas universidades nos Estados Unidos. Entre os acusados, estava Felicity Huffman, atriz que teve sua ascensão ao participar de Desperate Housewives e que está no elenco da minissérie-sensação Olhos que Condenam. Segundo a acusação, ela participou de um esquema para falsificar os resultados de sua filha mais velha, Sophia.SAIBA MAIS

De acordo com o que foi descoberto, Huffman fez uma doação de US$ 15 mil para a Key Worldwide Foundation, fachada de uma rede especializada em fraudes e que trabalha com diversos centros onde os estudantes são examinados. Assim, as respostas de Sophia foram alteradas, após a jovem as ter submetido, a fim de conseguir um resultado melhor do que o verdadeiro – sua nota adulterada foi 1420, 400 pontos acima do que ela havia alcançado no PSAT (espécie de treinamento para a prova oficial).

Em maio, a atriz se declarou culpada perante o tribunal e isentou a filha e o marido, o também ator William H. Macy, de qualquer envolvimento no processo. À época, ela declarou: “admito minha total culpa e, com profundo arrependimento e vergonha sobre o que eu fiz, aceito toda a responsabilidade pelas minhas ações e aceitarei as consequências que se desdobrarão a partir delas. Estou envergonhada pela dor que causei à minha filha, à minha família, aos meus amigos, aos meus colegas e à comunidade educacional. Eu gostaria de me desculpar a eles e, especialmente, aos alunos que se esforçam todos os dias para entrar na faculdade e aos pais que fazem sacrifícios tremendos para apoiar seus filhos de forma honesta. Minha filha não sabia das minhas ações, e, com minha postura equivocada e profundamente errada, eu a trai. Levarei essa transgressão em relação a ela e ao público para o resto da minha vida. Meu desejo de ajudar minha filha não é desculpa para ir contra à lei ou apelar para a desonestidade.”

Para tentar entender o que levou uma figura proeminente a apelar para a ilegalidade, é fundamental prestar atenção à sua última frase: Huffman acreditou (ou acredita) que, se o objetivo é ajudar seus filhos, tudo é válido. Inclusive burlar a lei. Embora ela tenha manifestado seu arrependimento e sua culpa – pela qual pode ser condenada, nesta sexta-feira (13.09) a um mês na prisão, 12 meses de liberdade vigiada e uma multa de US$ 20 mil –, não há garantia de que, como mãe, ela não incida em outras estratégias moralmente, eticamente e legalmente condenáveis para beneficiar suas duas filhas (inclusive, ela admitiu ter cogitado repetir o esquema em prol da caçula, Georgia, mas acabou desistindo).

O que você teria feito no lugar da Felicity Huffman? Acredita que vale tudo pela felicidade ou sucesso dos filhos?

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Collab de Virgil Abloh com IKEA ganha preview durante a LFW

Coleção de móveis será lançada oficialmente em novembro

Linha MARKERAD, criada por Virgil Abloh para a IKEA (Foto: Divulgação)

O estilista Virgil Abloh está prestes a lançar uma collab de itens (ultradesejáveis!) para casa com a empresa varejista sueca IKEA. A coleção MARKERAD terá móveis minimalistas com um quê fashionista e poderá ser vista e testada especialmente durante os dias 15 e 16 no Shorts Gardens, Covent Garden, em plena Semana de Moda de Londres.

Linha MARKERAD, criada por Virgil Abloh para a IKEA (Foto: Divulgação)

O espaço temporário será montado com itens-desejo como a bolsa “Sculpture” Frakta e o relógio “Temporary” da coleção. É claro que todo o conceito foi projetado para ser bastante instagramável.

O espaço no Shorts Gardens, em Covent Garden (Foto: Divulgação)

A linha completa também inclui um tapete nada convencional com estampa de recibo de compras e até uma cadeira feita com batente de porta reaproveitado. “Trata-se de elevar os ícones anônimos e cotidianos que usamos sem perceber. Quando colocamos o batente da porta em uma das pernas de uma cadeira comum, criamos algo inesperado – uma interrupção ”, define Virgil. Todos os itens estarão à venda a partir de novembro. Queremos já!

Linha MARKERAD, criada por Virgil Abloh para a IKEA (Foto: Divulgação)
Linha MARKERAD, criada por Virgil Abloh para a IKEA (Foto: Divulgação)
Linha MARKERAD, criada por Virgil Abloh para a IKEA (Foto: Divulgação)

Alexandre Herchcovitch: Moda, Hitchcock, motocross e fitness

Sob a direção do estilista, marca À La Garçonne desfila no Centro Cultural São Paulo
Sergio Amaral – O Estado de S. Paulo

Alexandre Herchcovitch  Foto: Eliaria Andrade/Estadão

Não está sendo fácil. Mas muita coisa é para melhor. Alexandre Herchcovitch, um dos mais importantes estilistas brasileiros, vê assim questões de trabalho e da vida nos dias de hoje. Estilista e diretor de novos negócios da marca À La Garçonne, do empresário Fábio Souza, ele mostra hoje à tarde, no Centro Cultural São Paulo, a coleção 02-2019 da grife.

Em menos de dez dias, volta ao mesmo espaço para desfilar a “linha” mais acessível da grife, a ALG, e tem planos ainda de exibir por lá, no ano que vem, uma retrospectiva de sua marca própria, a Herchcovitch; Alexandre, vendida em 2008 para o grupo InBrands.

Em entrevista ao Estado, ele reflete sobre o papel dos desfiles de hoje, fala de apropriação cultural e questões de gênero, do trabalho como estilista e pai de dois meninos, e da coleção, que tem entre suas inspirações Hitchcock, motocross e a moda das academias de ginástica.

Muito se fala do papel dos desfiles hoje em dia. Qual sua opinião sobre assunto?
Para À La Garçonne é bastante importante o desfile, pois é o ponto de partida comercial da coleção. 40% da coleção é vendida a partir do desfile e ver a roupa vestida e em movimento dá a completa noção de proporção, caimento e imagem. Esta experiência se completa quando a roupa é tocada e, principalmente, vestida na loja.

Está mais difícil criar hoje em dia com questões delicadas, como, por exemplo, apropriação cultural e identidade de gênero?
Sim! Tudo está mais restrito, não quero me apropriar de nada. Estamos aprendendo a entender o que se passa, o que podemos falar e não falar, como devemos chamar as pessoas, a infinidade de gêneros, o que é tudo maravilhoso. Estamos preparando as próximas gerações para que questionem menos as escolhas dos outros e recebam com muito respeito a todos. Tempos difíceis, porém tudo para melhor.

O CCSP é hoje um lugar bastante peculiar. O que lhe agrada nesse espaço?
Me atraem as diversas possibilidades de espaços, a facilidade com que aceitam nossas propostas e como recebem a moda com respeito e cuidado. Além de sua beleza arquitetônica.

Tem um projeto de exposição previsto para lá no ano que vem…
Sim. É uma retrospectiva de meu trabalho, já que tenho mais de 2.000 peças guardadas, a que ninguém tem acesso. Espero poder concretizar este sonho de ver tudo exposto.

Falando da sua antiga marca… Que fim levou a Herchcovitch; Alexandre?
Espero que não tenha chegado a um fim… Ela tem imaginário e histórico fortíssimos, muitas pessoas conhecem, é uma pena não ter continuidade. Tenho contato com algumas pessoas que trabalham na InBrands (o grupo que adquiriu a grife), mas não fico especulando. Há muito ainda a se fazer com a marca.

Tem vontade de ter uma marca própria novamente?
Não tenho planos de abrir uma marca nova. Hoje trabalho na À La Garçonne e na Vulcabrás, faço consultoria de produto para a Haco (etiquetas e soluções de branding) e para a NK Store, desenvolvendo colaborações e licenciamentos. Voltaria a trabalhar na marca Herchcovitch; Alexandre.

Você tem dado muitas palestras e viajado por todo o País… Que questões são trending topics atualmente?
Os assuntos recorrentes são sustentabilidade, reúso e ressignificação, além de fast-fashion, slow-fashion e moda sem gênero. Me pedem conselhos e sempre falo a mesma coisa: trabalhem para outras marcas antes de abrir a própria, pesquisem as diversas profissões na moda além da de estilista, e tenham certeza de sua aptidão antes de optar por moda.

Tem outros projeto paralelos?
Sempre… Cuidar dos filhos é um deles (rs). Não é simples nem fácil. Acabei de gravar uma participação em um reality e tenho dois programas sendo analisados para o próximo ano… Existe também a possibilidade da exposição no CCSP, vamos ver quando sai.

Movimento. Cinema e velocidade inspiram looks da coleção 02-2019, de Herchcovitch Foto: Ze Takahashi

Você é pai de dois meninos, de 6 e 7 anos, ao lado do Fábio Souza, dono da marca. Como enxerga essa nova geração que vem aí?
Eles gostam de se vestir, gostam de roupas, brincam de boneca e de carrinho, um joga futebol, outro faz natação. Espero ter a clareza de educá-los para um mundo onde haja menos preconceito. Todos somos iguais e isso é o que pregamos em casa.

Conta um pouco da coleção que será desfilada hoje.
Temos como referências movimento, motociclismo, motocross, técnicas de alta-costura, final da década de 1950 e início da década de 1960, e a moda das academias, que está tomando um espaço importante nos guarda-roupas e no modo de consumir e vestir roupas. Tudo isso embasado em técnicas de reúso, reciclagem e ressignificação de peças vintage.

E os filmes de Hitchcock, Psicose e Os Pássaros? Como eles se desdobram na coleção?
Para mim terror e suspense em filmes são uma forma de escapar do noticiário da vida real. É divertido trabalhar com este imaginário riquíssimo de figuras irreais. Eles se desdobram por meio da elaboração de roupas à moda da década de 1960, do tipo de acabamento e volume desta época. Há inspiração nos figurinos destes filmes.

E as corridas e a velocidade?
Customizamos diversas roupas de motovelocidade que têm uma forma interessantíssima. Elas são feitas e modeladas para serem usadas quando o motociclista está sentado e não em pé, assim as dobras do corpo são reveladas na roupa sem mesmo estar vestida. A mistura de materiais elásticos que promovem movimentos contrastados com materiais rígidos de proteção são uma engenharia riquíssima a ser estudada por quem gosta de construção.

A moda esportiva e o streetwear eram coisas bastante em voga na moda nos últimos anos e hoje se fala muito no retorno a uma elegância mais tradicional. Como vê esse movimento?
O conforto promovido por estas roupas é o que nos atrai aqui na À La Garçonne. Estamos demais interessados nas roupas fitness e de academia. Elas se tornaram importantíssimas no guarda-roupa das pessoas que chegam a passar o dia com elas.

H&M suspende compra de couro do Brasil por crise na Amazônia

Grupo atribuiu decisão à preocupação ambiental com incêndios na floresta; 18 outras marcas tomaram decisão semelhante na semana passada

Marcas globais têm manifestado preocupação com a floresta 

ESTOCOLMO – A H&M, segunda maior varejista de moda do mundo, disse nesta quinta-feira, 5, que parou de comprar couro do Brasil temporariamente por causa das preocupações ambientais ligadas a incêndios na Amazônia. Na semana passada, VF Corporation, empresa responsável por 18 marcas como Timberland, Kipling e Vans, também informou ter interrompido o abastecimento de couro e curtume do Brasil para os negócios internacionais. 

O avanço das queimadas na região amazônica causou repercussão global nas últimas semanas e levou o presidente Jair Bolsonaro a enviar as Forças Armadas à floresta para combater as chamas. A postura do governo federal sobre o problema 

“Por causa dos graves incêndios na parte brasileira da Floresta Amazônica e às conexões com a produção de gado, decidimos suspender temporariamente o couro do Brasil”, afirmou a H&M em comunicado por e-mail. “A proibição permanecerá ativa até que existam sistemas de garantia críveis para verificar se o couro não contribui para danos ambientais na Amazônia”, afirmou o documento.

Conforme a H&M, a maioria do couro do grupo é originária da Europa e que uma parte muito pequena é do Brasil.

Em alerta. A gigante de alimentos Nestlé também afirmou na semana passada que a política de negócios da empresa será “revisada” para garantir alinhamento com o padrão de fornecimento ambientalmente responsável. /REUTERS

Iris Apfel faz 98 anos e doa 90 looks completos e mais de mil acessórios para museu americano

Ícone fashion, Iris Apfel, que completa nesta quinta-feira 98 anos de puro estilo, ostenta um dos closets mais badalados do mundo, e parte dele será exposto em um museu no Estados Unidos. No próximo dia 28 de setembro, o Peabody Essex Museum, em Salem, no Massachusetts, inaugura o Iris and Carl Apfel Gallery, que vai receber de forma permanente 90 looks completos de Iris, cerca de mil acessórios dela, além de itens que foram de seu marido, Carl Apfel, que morreu em 2015 aos 100 anos. Para celebrar a exposição permanente, o museu arma no dia 21 de setembro um baile de gala com um ‘aperitivo’ da mostra. Claro que Iris estará lá. Vale a pena conferir!

Roupas da Dior usadas por Olivia de Havilland vão a leilão

Lenda de Hollywood, que está com 103 anos de idade, fez última aparição na TV em 1988
AGÊNCIA – REUTERS

A atriz Olivia de Havilland Foto: Julien Mignot/The New York Times

Uma coleção de 27 roupas usadas pela lenda hollywoodiana Olivia de Havilland será leiloada no mês que vem, algumas delas usadas em cena durante sua carreira como atriz de mais de 50 anos.

O leilão online acontecerá em 17 de setembro na casa Hindman, em Chicago, e inclui designs de alta costura de Christian Dior usados por Havilland, que fez 103 anos em junho, em estreias e bailes de gala entre 1954 e 1989.

De Havilland, duas vezes ganhadora do Oscar e conhecida por interpretar a cunhada da personagem Scarlett O’Hara em E o Vento Levou, vendeu grande parte de sua coleção da Dior em um leilão em Londres em 1993. 

Os itens que vão a leilão em setembro estão sendo vendidos por sua família, disse a casa Hindman nesta segunda-feira, 26. 

Entre eles está um vestido verde da Dior usado pela atriz no filme de 1964 Com a Maldade na Alma, com o qual ela foi fotografada em 1954 na véspera de seu casamento com seu segundo marido, Pierre Galante, e oito vestidos longos de gala.

Os preços iniciais das peças, algumas delas sapatos, variam entre US$ 300 (aproximadamente 1200 reais) e US$ 5 mil (20 mil reais). 

Olivia de Havilland fez sua última aparição nas telas no filme de 1988 para TV The Woman He Loved, e agora vive na França.

Olivier Rousteing: ‘A moda é racista’

Único negro à frente de uma grife de luxo, o estilista francês, chamado de ‘vulgar’ pelos rivais, fez o lucro da Balmain ir de 24 para 150 milhões de euros
Por João Batista Jr.

(Swan Gallet/WWD/Shutterstock)

Com apenas 25 anos, Olivier Rousteing foi contratado como estilista da Balmain, grife fundada em 1945 para atender a elite parisiense no pós-guerra. Sua moda sexy, com roupas justas, cheias de recortes, foi massascrada pela crítica especializada, que achou tudo muito vulgar. Em oito anos, porém, o jovem estilista viu crescer o lucro da empresa de 24 para 150 milhões de euros anuais. Rousteing ainda conquistou clientes como Kim Kardashian, Beyoncé e Rihanna. E ele se tornou o estilista mais badalado no Instagram, com 5,4 milhões de seguidores. Negro criado por pais adotivos brancos em Bordeaux, cidade francesa onde foi abandonado, aos 7 dias, em um orfanato, Rousteing, hoje com 33 anos, é o primeiro e único estilista negro no comando de uma grife feminina de luxo. Comprada em 2016 pelo fundo Mayhoola for Investments, controlada pela família real do Qatar, também dono da marca Valentino, a Balmain abre lojas em grandes capitais do mundo – a exemplo de São Paulo, onde Rousteing, amigo pessoal de Neymar, virá para uma festa no fim de agosto.

O senhor é o único estilista negro no mercado de luxo. Como vê essa ausência de diversidade? Vejo com muita tristeza. Muitos analistas apontam que revolução da moda virá com a tecnologia, com tecidos que carregam o celular, ou feitos de materiais biodegradáveis. Tudo isso é importante, claro, mas antes há algo muito mais urgente para resolver: a moda precisa deixar de ser arcaica e racista. Eu não mostro apenas roupa, mas uma nova maneira de ver o mundo. Não adianta uma marca colocar três modelos negras na passarela, em um total de oitenta meninas, para mostrar diversidade. Há diversidade no time de criação ou vendas? Não? Então não passa de marketing. Certa vez, pedi ao dono de uma agência de modelos de Paris que me apresentasse mais modelos negras, e ele simplesmente não as tinha no seu elenco. Alegou que grifes e revistas não solicitavam negras.

Em 2018, a Dolce & Gabbana pediu desculpas por fazer um vídeo promocional visto como xenofóbico por debochar de uma mulher chinesa tentando comer massa italiana com hashi. Qual sua impressão a respeito? Isso jamais aconteceria na Balmain, onde temos de fato um time diverso, com japoneses e iranianos na equipe. Esse caso ocorreu porque a marca não é verdadeiramente diversa, não entende o outro. Não adianta uma grife usar a diversidade para fazer propaganda sem que isso seja genuíno. Uma hora, a verdade vem.

O senhor já foi vítima de racismo? Para começo de conversa, nunca fui vítima de nada. Já passei por experiências racistas ao longo da minha jornada, e posso garantir: o pior racismo não surge por parte daqueles que nos olham torto, mas, sim, de quem está ao lado, em silêncio, julgando tudo, sem fazer nada.

“Não adianta a grife colocar três modelos negras em um total de oitenta na passarela. A empresa tem diversidade na sua equipe de criação? Se não, tudo não passa de uma ação de marketing”

O senhor poderia dar um exemplo? Desde muito pequeno eu lutei para me reconhecerem como um cidadão francês. Na infância, era possível notar pessoas me olhando e pensando: “você é um garoto negro, mas seus pais são brancos”. Isso ficou gravado na minha memória e alma. Quando cursei faculdade de direito, escutei comentários de que era um grande feito um negro se tornar advogado. Nunca vi um branco escutar algo assim. Esse tipo de pensamento mostra, na verdade, um racismo intrínseco por parte de quem fala.

Recentemente, marcas como Prada, Versace e Gucci anunciaram não mais usar pele de animais em suas coleções. Como vê esse posicionamento? Eu me pergunto se as empresas têm tomado essa decisão por novos valores genuínos e amor aos animais ou porque o mercado pede. O mundo está mudando para melhor. Está na moda ser do bem. Nos anos 90, por exemplo, sabíamos que o chique era usar casacos de pele e ter atitudes arrogantes. Era aceitável ostentar e destratar as pessoas. Hoje isso não tem o menor cabimento. Para não perderem o curso do tempo, algumas grifes acordaram e decidiram ficar boazinhas. É um movimento importante, claro, porém não sei se genuíno. Eu estou dentro disso, não uso pele de animal selvagem em minhas coleções e penso em alternativas ao couro de vaca. Mas é preciso ter coerência. Se o estilista não apoia matar animais para fazer casaco, deveria considerar terrível também comer carne.

O senhor come carne vermelha? Fiquei perturbado vendo documentários sobre massacres de animais. Há dois meses, não coloco carne na boca.

O senhor assumiu a Balmain em 2011, quando a marca tinha perdido projeção e apelo de público e contava com uma única butique, em Paris. Como fez o faturamento da Balmain passar de 24 para 150 milhões de euros ao ano? A única forma de responder é falando do meu amor pela mulher. Desenho roupas pensando em deixá-la linda para ela mesma, não somente para o olhar dos homens. A mulher se identificou com meu estilo sexy, poderoso, com recortes – um estilo que espelha o que elas querem: se sentirem poderosas. Vejo o movimento feminista como algo fundamental. Hoje, temos a noção de que se a mulher quiser usar um vestido curto, provocativo e com pele à mostra, isso também é parte do movimento e não se deve julgá-la. Nenhuma mulher de estilo diferente está excluída. O crescimento veloz da Balmain se deu por esse reconhecimento entre mim e as clientes ao redor do mundo, por eu estar perto delas e entender o que querem. O estilista não é mais um ser distante e longe da realidade. Não impõe nada, existe uma troca.

Como é sua estratégia de mercado? O lucro da empresa não chega porque viajo para tomar champanhe com as clientes, mas por que sei escutá-las e fazer boas peças. Um vestido que sai bastante em Los Angeles pode não ter apelo no Japão, mas não crio coleções para países diferentes: eu me certifico de que a coleção é grande o suficiente para atender toda a clientela. Não fazemos escalas enormes porque a matéria-prima é muito cara e temos de criar desejo. Entre roupas e acessórios, eu e meu time criamos 10.000 itens diferentes por ano. Daí precisar trabalhar das 9 da manhã às 10 da noite, todos os dias. Assumi a Balmain com uma loja, em Paris. Hoje são 35 butiques. Mas quero muito mais, evidentemente.

Com 5,4 milhões de seguidores no Instagram, o senhor é estilista com mais apelo em rede social. Como isso começou? De forma natural. Na coleção de 2014, contratei a Rihanna para estrelar a minha campanha e comecei a ficar amigo de Kim Kardashian e outras pessoas fortes. Conheci Kim em uma festa de gala em Nova York e três dias depois ela estava no meu ateliê francês fazendo pedidos. A força da minha rede social vem da identificação de valores entre mim, minhas clientes e o público: não acreditamos em um mundo racista, arcaico, metido e conformista. E, claro, questiono o sistema da moda. Eu não acredito que a quantidade de curtidas importe. Importa, isso sim, a discussão que um post levanta. Não convido para os meus desfiles influenciadoras baseado em suas curtidas. Elas precisam ter algo a dizer. Aliás, número de seguidores de alguém também não me interessa. Tem meninas com um batalhão de fãs, mas não sabem converter isso em valores e vendas para a marca.

“Adoro ver cópias por aí. Vamos ser claros, nem todo mundo pode pagar por uma bolsa ou vestido Balmain. Gucci e Prada também são copiados. Estou em boa companhia”

Falando em desfiles de moda, eles ainda são importantes na era da redes sociais? Sim, são fundamentais, mas não da forma como vemos hoje. Há a opção de convidar os editores, as celebridades e os compradores para a apresentação e fazer uma live para o mundo todo ver. Mas esse formato já é antigo. Vejo os desfiles como shows de rock, e talvez uma fórmula seja passar de 500 para 10.000 convidados, e quem sabe fazer uma turnê mundial, em várias capitais. O impacto seria muito maior. Veja uma constatação: no passado recente, as pessoas aplaudiam o estilista ao final da coleção apresentada. Hoje, não escutamos uma palma sequer na sala porque todo mundo está gravando para postar em rede social. Já que estão ali para produzir conteúdo, por que não darmos algo a mais?

Aliás, muitos concorrentes o criticam por se comportar como uma estrela de rock. Eu trabalho treze horas por dia, todos os dias. Estou sempre na estrada para conhecer a clientela. Desenho duas coleções tradicionais, de 1.200 peças cada, mais duas coleções resort, de 500 peças cada. Isso fora os acessórios, a coleção infantil e a masculina. Multipliquei o lucro da Balmain inúmeras vezes, o crescimento da marca segue altíssimo e com planos de abrir lojas em diversos países. Se as pessoas se identificam comigo e com a voz que criei, ótimo. O estilista precisa decidir se quer se aclamado pelos críticos, que muitas vezes não definem o sucesso de uma coleção, ou pelo público em geral.

Como foi assumir uma grife de luxo com apenas 25 anos de idade? Complexo. Quando se tem uma herança a preservar, é necessário satisfazer os críticos e, ao mesmo tempo, atrair novos clientes sem assustar os antigos. Eu tentei agradar a todos no começo, até me dar conta que eu tinha de me agradar também. O que a elite da moda adora não vende necessariamente. Se tivesse seguido o que me pediram, eu teria sido demitido após apresentar três coleções.

O senhor produz vestidos colados ao corpo e com muita pele à mostra e tem clientes como Kim Kardashian e Beyoncé. Como vê a críticas de que seja “vulgar”? Já me chamaram de vulgar por causa das escolhas que faço de modelos e por minhas amigas. Agora, o estilista que escala meninas loiras e de olhos azuis para seus desfiles, e faz essas roupas largas e usando tecidos como neoprene, é vistos como supermoderno. Não concordo. Mas não ligo para rótulos. Já vivi coisas muito piores em minha jornada. Quando meus pais decidiram adotar uma criança negra em Bordeaux, nem meus avós entenderam direito. Hoje, quando alguém me chama de vulgar pelas minhas roupas, pelas minhas amigas ou por postar algumas selfies, eu não me importo.

As peças da Balmain estão entre as mais copiadas e falsificadas do mundo. O que sente quando vê uma fake pela rua? Eu adoro ver as cópias por aí. Vamos ser claros, nem todo mundo pode pagar por uma bolsa ou vestido Balmain – mas todos podem sonhar com essas roupas e acessórios. Então, para ser honesto, me sinto honrado ao ser copiado. Quem é copiado no mercado? Louis Vuitton, Gucci, Prada. Estou em boa companhia.