Ainda há trabalho escravo por trás de nossas roupas

FERNANDA SIMON

Fashion Revolution (Foto: Divulgação)

Em algumas palestras, eu começo perguntando qual a primeira palavra que vem à cabeça quando se pensa em moda. Em diferentes turmas, o resultado é quase o mesmo, as pessoas pensam em glamour, roupas, desfiles, compras e negócios.

Duas coisas sempre me espantam: a maneira como fomos nos distanciando do verdadeiro significado das nossas roupas, algo tão próximo de nós, e como ninguém nunca fala a palavra vida. Eu vejo vida por trás das roupas.

Costurar, bordar, cortar e tingir são trabalhos nobres, que exigem habilidades manuais, saberes tradicionais e minuciosos. Quando olhamos para a história da moda, vemos certos momentos em que os alfaiates eram extremamente valorizados, como pelo Rei Luís XV, conhecido como Rei Sol, criador do salto alto e da sazonalidade.

Assim como o artesanal mais fino da Alta-Costura (Haute-couture, termo protegido juridicamente para determinadas empresas que atendem certos padrões de costura). Mas em qual momento esse profissional passou a ser explorado?

A indústria têxtil foi um dos setores líderes durante a Revolução Industrial, com uma representativa força feminina de trabalho. Contudo, a chegada das máquinas às fábricas não levou à uma melhora na maneira como os trabalhadores eram tratados e valorizados.
Por volta de 1850, na Inglaterra, surgiu o termo sweatshop, fábricas têxteis ou de confecção caracterizadas por oferecerem trabalhos precários, jornadas exaustivas, baixos pagamentos e ambientes insalubres.

As sweatshops rapidamente se espalharam pelo mundo, em cidades como Nova York, por exemplo, empregando principalmente mulheres, migrantes que vinham do campo e imigrantes. Claro que essa corrida por alta produção à custa do suor humano não poderia resultar em algo positivo. No dia 25 de março de 1911, um desastre marcou a história: um grande incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, em Nova York, causou a morte de mais de 100 mulheres.

O acidente foi o ponto inicial da organização das mulheres para a criação de sindicatos trabalhistas essenciais na luta e garantia de seus direitos e segurança.

Ainda assim, o modelo de produção “mais por menos” seguiu sendo adotado em diversas partes do mundo, e deslocado, principalmente, para países asiáticos onde as leis são mais precárias. Consequentemente, acidentes na indústria da moda continuam acontecendo, inclusive em fábricas de grandes marcas globais.

Queda do Rana Plaza, em Bangladesh (Foto: Reprodução/Instagram)

A tragédia do Rana Plaza, prédio que abrigava confecções e desabou em 2013 em Bangladesh, matando mais de mil pessoas e deixando outras 2 mil feridas, foi o estopim para o surgimento do movimento global Fashion Revolution.

Como contraponto ao cenário de exploração, o Fashion Revolution surgiu alinhado à uma crescente demanda por marcas e produtos mais transparentes, éticos e sustentáveis.
Com um trabalho intenso, a disseminação de sua mensagem principal, o questionamento e valorização de quem faz nossas roupas, se espalhou por mais de 100 países, ganhando força e destaque, inclusive no Brasil.

Este ano, no mesmo mês do Dia Nacional do Combate ao Trabalho Escravo, dia 28 de janeiro, duas notícias nos provam que a revolução da moda ainda tem um longo caminho para atingir seu objetivo.
Em Carapicuíba, na Grande São Paulo, 33 bolivianos foram resgatados vivendo em condições precárias e costurando por R$ 1 a peça, e em Bangladesh mulheres trabalhavam 16 horas por dia em condições análogas à escravidão para costurar camisetas com frases de empoderamento feminino para uma campanha do grupo Spicy Girls com a organização Comic Relief.

A mudança só será efetiva quando for pensada de forma sistêmica. Por isso, na campanha de 2019 a Semana Fashion Revolution trabalhou em cima de três pilares fundamentais para transformações radicais na maneira como as roupas são pensadas, feitas e consumidas: ativações sociais para incentivar mudanças culturais, como comportamento de consumo e mudanças de hábitos; exigir que as marcas mostrem suas cadeias de fornecedores de maneira mais humana, contando histórias e mostrando como o trabalhador está sendo valorizado, para aproximar quem compra de quem faz; e, no âmbito público, em tempos de tantos retrocessos políticos, o engajamento se torna fundamental para entender como podemos incentivar melhorias e novas políticas públicas para proteger e valorizar o trabalhador do setor.

O caminho é longo e exige união dos atores. Mas o mais importante é entender que todos fazemos parte da solução e temos nela um papel fundamental. Eu sigo acreditando que o mundo está em evolução constante e que, mesmo com o clima de escuridão que estamos atravessando, há luz no fim do túnel. A moda é minha ferramenta de transformação. Espero que, através da roupa, indivíduos e comunidades sejam atingidas positivamente.

Conheçam a ação Fashion Experience:

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Florence Welch na nova coleção Gucci High Jewelry Hortus Deliciarum

Movimentos suaves para deixar as jóias pegarem a luz. No curta-metragem de Laura Jane Coulson, Florence Welch é adornado na nova coleção Hortus Deliciarum da Gucci High Jewelry, de Alessandro Michele. Ela caminha entre os detalhes ornamentados da nova boutique Gucci Vendôme, que abriga as coleções de alta-joalheria.

Music: ‘Patricia’ Florence Welch / Emilie Haynie / Thomas Bartlett © Universal Music Publishing Group (p) Domino Publishing Company

Megan Rapinoe, artilheira e melhor jogadora da Copa do mundo, abre a Re-inc, marca de roupas sem gênero com colegas de seleção

Conheça a Re-inc, marca de roupas sem gênero criada por quatro colegas do time campeão mundial

Campeãs mundiais e fundadoras da RE-INC Tobin HeathChristen Press e Meghan Klingenberg e Megan Rapinoe (FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK)

Artilheira, craque da Copa do Mundo feminina de futebol de 2019, uma das maiores vozes no debate sobre inclusão de mulheres no esporte e, agora, empresária. Essa é Megan Rapinoe. Aos 34 anos, a estrela da seleção norte-americana tetracampeã do mundo acaba de anunciar o lançamento da Re-inc, marca de roupas sem gênero, “criada para repensar o status quo, olhando para a equidade, criatividade, progresso e arte”.

Fundada com as colegas de time Tobin HeathChristen Press e Meghan Klingenberg, a Re-inc por enquanto está vendendo somente dois modelos de camisetas. Uma, de tamanho normal, por US$ 125 (R$ 480), e outra, cropped, por US$ 75 (R$ 290). Segundo o site da empresa, as camisetas serão vendidas de maneira limitada, até a chegada da nova coleção. “Criada para a sua identidade única. Não há jeito correto de usar”, diz a descrição do produto.

Além de ser uma das maiores atletas do futebol, Rapinoe também ficou conhecida por falar o que pensa. Casada com a estrela da WNBA, Sue Bird, a atacante é uma ativista da causa LGBTQ+. Em diferentes situações, afirmou que como americana gay não se sentia representada por sua bandeira atualmente. Durante a Copa do Mundo, inclusive, manifestou-se publicamente contra Donald Trump, chegando a discutir com o presidente norte-americano por meio do Twitter ao longo do mundial.

No negócio fundado com as colegas, a causa se mantém. “Somos quatro campeãs que aprenderam a lutar na seleção feminina de futebol. A lutar por grandeza, por nossa identidade e pelos nossos valores”, diz o site da empresa.

“Ao longo dos próximos anos, vamos transformar o mercado de moda, criando experiências para ajudar não-binários a se expressar. Tudo que construímos é pensado com base na nossa comunidade, um grupo de milhares de pessoas que corajosamente quebra normas e padrões com o que acredita. Por que só resistir quando podemos repensar?”, indaga a apresentação da marca.

“Camp” como modo de vida e veiculação de ideias

No Museu Metropolitano de Arte (MET), público pode conferir exposição com roupas que apresentam extravagância, exagero, obsessão pelo detalhe e luminosidade, características do estilo camp (Foto: BFA.com/Zach Hilty)

O modo de vida camp é guiado pelo exagero. Ou seja, seus adeptos gostam de viver de maneira extravagante, enfeitam-se com brilhos, muitas cores e estampas e experimentam situações até as últimas consequências.

O artista camp revela em sua proposta de viver luxuosa uma experiência contrária ao modo de vida da maioria da população do planeta. Exemplo disso são os Red Carpets dos festivais e prêmios de cinema mundo afora, que contrastam o luxo e a excentricidade camp com as dificuldades das pessoas nos dias de hoje.

Virou tendência se manifestar, nesses espaços, contra algo ou alguma situação utilizando-se de vestimentas e acessórios personalizados com frases de efeito. O Festival de Cannes é o principal entre eles. Por ter mais prestígio no mundo cinematográfico, tem se tornado não só um evento para a exibição de filmes, mas também um ambiente para discursos politizados e movimentos de minorias ou de protesto.

A professora Maíra Zimmermann, do curso de moda da FAAP, explica: “Podemos utilizar como exemplo o tapete vermelho de Cannes, que eu acho que talvez seja a maior representação do extravagante e da utilização da moda e da vestimenta para adquirir uma posição ou falar de algum assunto que incomoda a sociedade. A gente faz relação do camp também com o posicionamento político, o diálogo, o lugar de fala”.

A mais recente manifestação feminista ocorreu na edição de 2018, quando atrizes, diretoras, figurinistas, cantoras e modelos se uniram para combater a imposição do uso do sapato de salto alto nos tapetes vermelhos, ao subirem descalças a escadaria principal do festival de Cannes.

As mulheres podem usar qualquer tipo de calçado e vestuário para receber seus prêmios.

A moda que negava a politização da sociedade deu uma virada e se tornou veículo de conscientização política, como as coleções “Marc Jacobs Spring 2019”, “Christopher Kane Spring 2018”, “Balmain Spring 2019 Couture”, “Valentino Spring 2019 Couture”, que evocaram o clima de expectativa das eleições norte-americanas e mexeram com o mundo cibernético, provocando invasões em muitos países.

Onde nasce o estilo camp na história da moda

O ponto de partida mais sólido do surgimento do estilo camp parece ser o final do século XVII e o início do século XVIII, devido ao sentimento de artifício desse período. A professora de moda Maíra Zimmermann disse que um dos maiores representantes históricos de camp é Luís XIV. Tanto na construção de Versalhes, como enquanto o personagem Rei Sol, Luís XIV constrói uma espécie de estética do absurdo com a própria imagem, fazendo da luxúria o símbolo da realeza francesa.

O monarca conseguiu isolar sua corte em uma bolha de ignorância sobre o mundo ao redor e utilizava-se da moda para manipular a burguesia, como instrumento de dominação apenas por usar uma peruca maior do que as outras, por exemplo.

O estilo camp consolidou-se com a esposa de seu netoMaria Antonieta, conhecida como a autêntica imagem do modo camp de se comportar. Para Zimmermann, o camp do século XVII pode ser adequado ao contexto moderno e contemporâneo, onde mulheres usam calças e possuem um lugar maior de fala. Maíra cita o filme A favorita, do diretor grego Yorgos Lanthimos, que segundo a professora usa o exagero no figurino (criado pela estilista Sandy Powell).

Do estilo Barroco, o quadro Os músicos, de 1595, do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), pode ser considerado camp. Na França, o Palácio de Versalhes representa o Rococó camp — o ouro, o detalhe e o luxo são explorados em sua construção, mobiliário e decoração. Hoje uma das maiores referências do estilo camp e que está em exposição é um abajur feito com vitrais coloridos, da joalheria Tiffany’s.

Confira outra parte da reportagem em Camp, Notes on Fashion: o exagero na moda

Reportagem de Bruna Nóbrega, Camila Piva, Isabella Maria, Izabella Ricciardi e Mariana Garcia Menendez, da graduação em Jornalismo da FAAP

Foto cedida pelo The Metropolitan Museum of Art

Vestido usado por Elizabeth Taylor no Oscar irá a leilão com mais de mil itens da atriz

Peça de chiffon azul claro foi criado por Edith Head e deve arrecadar valor entre 4 e 6 mil dólares
LISA RICHWINE – REUTERS

Elizabeth Taylor em “De Repente, No Último Verão”, em 1959. Foto: Reuters

Um vestido usado no Oscar de 1974 e mais de 1,2 mil outros itens da atriz Elizabeth Taylor, morta em 2011, serão leiloados no início de dezembro, anunciou a Julien’s Auctions nesta quarta-feira, 3.

O vestido de chiffon azul claro criado por Edith Head que Elizabeth usou no Oscar deve angariar entre 4 mil e 6 mil dólares, disse a casa de leilões em um comunicado.

Também estará à venda um cinto Cartier de ouro laminado e prata de lei que a estrela mandou gravar para a mãe. Darren Julien, presidente e executivo-chefe da Julien’s Auctions, disse acreditar que o cinto será vendido por mais de 40 mil dólares.

O leilão acontecerá entre 6 e 8 de dezembro em Beverly Hills, no Estado norte-americano da Califórnia. Os lances também podem ser feitos pelo site da empresa.

Entre as outras peças de roupa à venda estão uma capa de feltro de lã verde que a atriz usou no Palácio de Buckingham em 1970 e uma jaqueta do New York Yankees que ela vestiu em uma sessão de fotos da Vogue Paris. O leilão também contará com joias, perucas, belas-artes e itens domésticos.

Julien disse que também espera oferecer obras de arte que devem chegar à faixa dos 60 mil dólares. Elizabeth, que morreu em 2011 aos 79 anos, simbolizou a era de ouro do glamour de Hollywood com seu amor por diamantes, seus olhos violeta e sua vida amorosa tumultuada, que incluiu oito casamentos – dois deles com o ator galês Richard Burton. A atriz foi indicada a cinco Oscars ao longo de uma carreira de sete décadas, vencendo como melhor atriz por Disque Butterfield 8, de 1960, e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de 1966.

MAM lança curso que discute moda e política

O estudo é comandado pelo pesquisador de filosofia Brunno Almeida Maia
JULIA CARNEIRO

Moda e política, o que uma coisa tem a ver com a outra? Opa! A conversa é tão longa que rende até curso de moda. Em ““Moda, Revolução e Política: O que será do amanhã?”, o pesquisador em filosofia pela Unifesp Brunno Almeida Maia investiga o guarda-roupa de filósofos, sociólogos, historiadores e escritores, como Walter Benjamin, Gilles Lipovetsky, Peter Stallybrass, Michel Pastoreau, Karl Marx, Hannah Arendt, Roland Barthes, Georg Simmel, Marcel Proust, Virginia Woolf, Marina Colasanti, Stefan Zweig, Norbert Elias, Zygmunt Bauman, e traça um paralelo com acontecimentos históricos sócio-políticos desde o séc XVIII até o XXI.

Os movimentos de arte como o dandismo, surrealismo e o futurismo italiano também entram na mesa para permear a discussão. Bem como as perspectivas da costureira Zuzu Angel e do estilista Yves Saint Laurent.

Se interessou? O curso acontecerá todas as quinta-feiras de 11 de julho a 1 de agosto, das 19h às 21h, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Informações e inscrições aqui. Professores, estudantes e aposentados possuem 10% de desconto no ato da inscrição.

Casamento diurno: 6 ideias para fugir do look óbvio

Apresentamos propostas e truques para casamentos diurnos de noivas nada tradicionais
CAROLINA VASONE

Maidê Mahl usa blazer Atelier Le Lis (R$ 3.800) e shorts Intimissimi (R$ 129). Brincos Monte Carlo (R$ 1.790) e sandálias Schutz (R$ 390) (Foto: Caio Ramalho)

Bela da tarde
A maneira mais atual de deixar a roupa íntima à mostra é combinar short doll de seda com barra de renda e blazer de cetim. A alfaiataria é o contraponto perfeito para a lingerie sair de casa de um jeito cool.

Bolsa iiiiiiiii.iiiiiiiiiiiiiiiii (R$ 400), luva Pó de Arroz (R$ 375) e riviera Tiffany & Co (Foto: Caio Ramalho)

Chuva de arroz
A luva curta, de renda ou arrastão, combinada a uma bolsinha de pérolas com ar vintage, garantem um toque delicado ao visual tanto da noiva quanto das convidadas.

Casaco Moncler (R$ 6.480). Botas Mya Haas (R$ 290) (Foto: Caio Ramalho)

Country girl
As botas caubói quebram o excesso de formalidade e injetam atitude a qualquer look. Combine com vestido boho bem romântico e aproveite cerimônias feitas em jardins e campos para se casar confortável e descolada.

Vestido Atelier Le Lis (R$ 10 mil). Brincos Talento (R$ 23.730), meia-calça (R$ 1.100) e sapato (R$ 3.860), ambos Gucci (Foto: Caio Ramalho)

Prom party
O vestido do casamento de Lady Di em 1981 é inesquecível, especialmente por conta das mangas superbufantes. Pois elas estão de volta e imprimem uma imagem de poder e autoconfiança às noivas. As meias rendadas e o escarpim de salto baixo completam o look.

Vestido Pair (R$ 827). Mules Arezzo (R$ 260) (Foto: Caio Ramalho)

Ouse e use
Peça clássica do guarda-roupa masculino, a camisa branca pode ser a opção perfeita para uma cerimônia diurna informal. O vestido chemise longo da foto, por exemplo, aparece em versão desconstruída, sem botões, golas e punho.

Saia Pó de Arroz (R$ 530) e bermuda Cajá (R$ 140). Tênis Gucci (R$ 6.910) (Foto: Caio Ramalho)

Conforto máximo
Imagine passar o seu próprio casamento sem enfiar o salto na grama podendo dançar livremente? A dica é ir de ugly sneaker em versões decoradas com pedraria. Aproveite o mood esportivo para usar bermuda ciclista embaixo da saia de tule.


Styling: Gio Grassi e Juliana Beukers Ruiz
Beleza: Liege Wisniewski
Set design: João Arpi
Assistente de fotografia: Karla Brights
Assistente de beleza: Joana Werica
Assistentes de set design: João Ramos, Alexandre de Jesus e Renata Peres
Agradecimentos: Parque Della Vitória, Carol Didio, Tania Bulhões, D.Filipa e LumiCan