Consulesa da França Alexandra Loras revela planos de fazer TV no Brasil

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O futuro de Alexandra Loras em terras tropicais envolve seu retorno à TV. A francesa, formada pela conceituada L’École Livre de Sciences Politiques, irá estrelar uma atração na emissora que lançou Kim Kardashian à fama

Setembro foi o último mês de Alexandra Loras no cargo de consulesa da França em São Paulo. Na cidade desde 2012, a filha de mãe francesa e pai gambiano ganhou destaque na imprensa durante o exercício de seu cargo, que teve o ativismo pela causa negra e feminismo como seu foco. Agora, seu próximo passo é discutir direitos humanos na TV em um reality show. “É um projeto de conscientização para educar, de maneira lúdica, as pessoas sobre diversidade”, revelou à Marie Claire.

O programa deve estrear no final de 2017 no canal por assinatura E! Entertainment, mesma emissora que lançou Kim Kardashian, e suas irmãs, à fama em “Keeping Up With The Kardashians”. “É uma ferramenta poderosa para trazer a mudança que queremos ver no mundo”, disse. Na atração, Alexandra mostrará seu cotidiano em ações sociais nos bairros periféricos da capital paulista, segundo a própria.

Nesta entrevista exclusiva, Alexandra explicou a razão pela qual decidiu, ao lado do marido, o cônsul Damien Loras, permanecer no Brasil, falou sobre sua luta contra o racismo e como descobriu o feminismo em solo tropical.alexandra

Marie Claire – Você e o cônsul recusaram uma proposta de liderar a embaixada da França em Quebec, no Canadá, e abriram mão da chefia da missão francesa na ONU, em Nova York, após finalizarem o trabalho consular no Brasil. Por que?
Alexandra Loras – Escolhemos o Brasil para viver porque acreditamos que é aqui onde poderemos desenvolver nossa vida. A dinâmica, aqui, é mais flexível. Posso subir em um palco e verbalizar sobre assuntos delicados, como diversidade, fascismo e racismo e ser recebida de uma forma respeitosa. Descobri meu espaço de fala aqui. Nunca tive isso em Paris, mesmo sendo apresentadora de TV. Sempre quis voltar a morar nos EUA ou ir para o Canadá, onde tudo funciona, mas aqui tenho a oportunidade de mudar o mundo. Se for para lá não vou ter este espaço.

MC – Vocês pensam em voltar para a França?
AL – Me encaixo muito mais na sintonia daqui do em um país que se considera superior e civilizado. Me incomoda a “supremacia” escondida atrás do lema igualdade, liberdade e fraternidade, da qual somente a elite pode desfrutar. Fomos o opressor do mundo e hoje pedimos paz. A França é o quarto país que mais produz armas e está chorando quando esta violência se volta contra ela. Não me vejo mais evoluindo na França. Agradeço por ter me dado um senso crítico, mas como cidadã negra não me vejo evoluir no meu país neste momento.

Alexandra Loras (Foto: Luis Vilela)

MC – Quais são seus planos profissionais no Brasil agora que decidiu permanecer aqui?
AL – 
Estou com um projeto de TV sobre conscientização geral. Vamos educar de maneira lúdica as pessoas a respeito da diversidade pelo canal E! Entertainment. Será um reality show. As câmeras vão me acompanhar durante ações sociais com meninas nas favelas do Capão Redondo. Vamos fazer uma narrativa pop para quebrar estereótipos sobre favela. Também estou trabalhando como professora no curso de Pós Graduação em Educação e Relações Étnico-Raciais, da Faculdade Campos Salles, e estou escrevendo uma biografia pela editora Planeta para 2017.

MC – Por que escolheu a TV como forma de continuar trabalhando com causas sociais?
AL –
Os programas de TV são uma forma de educarmos o povo, a televisão é uma das ferramentas mais poderosas para trazer a mudança que queremos ver no mundo.Alexandra Loras (Foto: Luis Vilela)MC – Você foi convidada para ser a primeira negra a posar na capa da Playboy do Brasil, mas recusou.  O que a fez declinar a proposta?
AL – Eu declinei porque estou lutando pela representatividade da mulher em todos os espaços. Estar em uma capa é bom, mas estou lutando contra o clichê da mulher negra sendo sexualizada sempre. Quando decidi desfilar pela Vai-Vai no Carnaval, usei um vestido comprido, até os pés. Não queria parecer a morena gostosa.

MC – Como foi que começou a defender a causa feminista?
AL – Na França temos o exemplo de Simone Beauvoir, mas descobri o feminismo no Brasil, com o jeito dócil e coletivista das brasileiras. Elas me inspiraram a repensar o feminismo contemporâneo, enxergando o quanto podemos lutar com firmeza.  Precisamos deixar o homem entrar no debate, assim como o branco deve participar da discussão sobre a causa negra. É o homem que está com os privilégios nas mãos, por isso ele precisa escutar, ter empatia e compaixão sobre esses assuntos.Alexandra Loras (Foto: Luis Vilela)MC – No Brasil você foi vítima de racismo ao ser questionada o motivo de não estar usando branco, como as outras babás, em um clube paulistano. Ainda assim, há pessoas que acreditam em democracia racial. O que você diria a elas?
AL – Quando pessoas brancas falam sobre democracia racial para mim, eu digo: “Você deixaria de ser branca para ser negra? Gostaria de ganhar 40% do salário de um homem branco? Aceitaria não poder viver em certos bairros de São Paulo ou não poder comprar em certos espaços por ser inferiorizada? O negro não vai almoçar no shopping da elite porque não será bem atendido, haverá um segurança de olho nele. O branco não percebe isso, não vive isso. O branco não é constantemente barrado no aeroporto de Guarulhos, mesmo com passaporte diplomático, como eu. Na minha própria casa, onde recebia 6 mil pessoas por ano, várias vezes pensavam que eu era funcionária. Dizem que o cabelo crespo é ruim, duro. Isso só se escuta no Brasil, assim como: “você não é tão negra assim”. O Racista nunca se acha racista, precisamos educar as pessoas sobre isso. Um negro morre a cada 23 minutos e ninguém fala sobre isso. [Thiago Baltazar]

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Gastronomia I ‘Não reparei que estava abrindo tanto o meu coração’, diz Paola Carosella sobre seu primeiro livro

pawCapa do livro ‘Todas as Sextas’, de Paola Carosella Foto: Divulgação


Quando beirava a adolescência, aos 12 ou 13 anos, a argentina Paola Carosella achou na TV e no programa de culinária Utilíssima um tapa-buraco para a solidão de esperar a mãe chegar em casa todo dia após o trabalho. Ocupava o tempo cozinhando e montando a mesa, aprendendo truques e improvisando com os ingredientes que tinha na geladeira, conta ela no seu primeiro livro, Todas as Sextas, a ser lançado no dia 8 de novembro em São Paulo.

Mais de 30 anos depois, ela própria está na TV, em rede nacional com o programa Masterchef Brasil, e traz a história da sua vida a público num livro que mescla autobiografia e receitas.
“Eu não reparei que estava abrindo tanto o meu coração até que o livro estava impresso”, disse a chef ao Paladar num papo no seu restaurante Arturito. “Eu também sentia que um dos motivos pelos quais eu tinha que contar a minha história era por causa do Masterchef. O programa mostra uma única Paola. É difícil imaginar o que aconteceu antes comigo.”

A chef Paola Carosella, que lança o livro 'Todas as Sextas'A chef Paola Carosella, que lança o livro ‘Todas as Sextas’ Foto: Jason Lowe|Divulgação


Assim, ela conta como foi entrar no mundo da cozinha ainda em Buenos Aires por volta dos 18 anos, conhecer chefs na França e trabalhar com o “pitoresco e colorido” Francis Mallmann. Foi por causa dele que ela chegou a São Paulo, em 2001, para abrir a Figueira Rubaiyat e, depois, construir a sua própria história.

É do Arturito, seu restaurante em Pinheiros, que sai o nome do livro, Todas as Sextas, já que a sua “volta” à rotina da cozinha depois de um tempo voltada à burocracia da casa se dá quando ela resolve preparar o menu-executivo “todas as sextas”.
Polvo na chapa à provençal com feijão manteiguinha, barriga de porco braseada lentamente com molho gribiche, joelho de porco com verduras e mostarda de Dijon – são receitas como essas, executadas para o menu de sexta-feira, que preenchem o livro, lançado pela Melhoramentos.

As fotos são de Jason Lowe, que Paola conheceu por admirar seu trabalho e hoje é marido da chef. O trabalho do fotógrafo guarda a peculiaridade e a estética ímpar de ser realizado com filmes analógicos numa Hasselblad de 1970. Confira a seguir trechos da entrevista com Paola.

Cebolas na brasa, coalhada e dukkah, de Paola CarosellaCebolas na brasa, coalhada e dukkah, de Paola Carosella Foto: Jason Lowe|Divulgação


Em que ritmo você escreveu o livro? Ao lê-lo, tem-se a sensação de que você sentou e jorrou as memórias de uma vez.
Não… (risos). Eu comecei o primeiro capítulo dois anos e meio atrás. Havia um pedido de outra editora, não funcionou, mas daí já havia a ideia de eu querer fazer um livro. Eu conheci o Jason (Lowe, seu atual marido) por causa disso e fizemos algumas fotos. Mas ainda não sabia qual era a coluna vertebral do livro.
Não me sentia confortável de fazer um livro “receitas da Paola” ou “receitas do Arturito”, precisava de algo mais sólido. Daí um dia pensei nos menus de sexta-feira do restaurante, porque foram eles que me conectaram com a cozinha depois de um momento muito intenso como “empresária”. Assim eu também poderia escolher as receitas, pois tenho 25 anos de cozinha, como afunilar as receitas?

Você fala em receitas, mas o livro também é uma autobiografia com nome e sobrenome de pessoas que passaram pela sua vida, momentos íntimos.
Eu não reparei que estava abrindo tanto o meu coração até que terminei o livro, até que ele estava impresso, na verdade. Acontece que eu não sabia como contar essas coisas se não trazendo as pessoas. Tem algumas ironias com algumas pessoas que pertencem a um passado muito distante, que não vão ler o livro (risos).
Mas eu não podia não falar do Francis Mallmann e não podia não contar com os poucos recursos literários que eu tenho o quão pitoresco e colorido ele é, o quanto ele mudou a minha vida. Eu não podia não falar dos Belarminos, do jeito que as coisas foram.
Se fosse para ser uma biografia escrita por uma ghost writer, eu preferia não fazer livro. Eu também sentia que um dos motivos pelos quais eu tinha que contar a minha história era por causa do Masterchef. O programa mostra uma única Paola, dentro de um frame. É difícil para quem vê essa Paola imaginar o que aconteceu antes comigo.

Profiteroles recheados de sorvete de baunilha com praliné e calda de chocolate, de Paola CarosellaProfiteroles recheados de sorvete de baunilha com praliné e calda de chocolate, de Paola Carosella Foto: Jason Lowe|Divulgação


Sobre essa imagem, você fala no livro dos momentos em que é “sargento” e das meninas lindas de cabelos soltos na cozinha de Francis. Quem é Paola hoje?
Eu consegui um equilíbrio, consegui montar uma cozinha por meio de muita disciplina. Consegui montar estruturas de trabalho e estruturas de pessoas que me acompanham e entendem essa disciplina. A disciplina existe, mas deixa que a gente seja amoroso nela. Eu não preciso ser mais sargento.
A Paola sargento aparece em Los Negros (restaurante de Francis Mallmann no Uruguai) em 1997 é porque a cozinha de lá era muito desorganizada. Se você quer que o resultado tenha muita qualidade, você tem de colocar muita disciplina. E, se você tem de colocar disciplina em quatro dias, como faz? Ou você vai embora ou alguém tem de gritar mais alto. Segundo Francis, foi a melhor temporada de Los Negros até hoje.
Tenho 25 anos de cozinha, 44 de vida, que faço agora em outubro, então ao longo do tempo você vai construindo, minimizando os excessos. O ziquezague entre os extremos fica cada vez mais suave. Você consegue um jeito de ter disciplina sem gritar. Tenho braços-direitos hoje que só com o olhar sabem o que precisa ser feito. Não o que “eu” quero, mas o que precisa ser feito no restaurante.

Como está hoje a sua rotina depois do período em que virou dona sozinha do Arturito e, desde 2014, com a ajuda de um novo sócio, Benny Goldenberg?
Benny entrou na minha vida e foi sensacional. Sou eternamente agradecida, porque ele me dá toda a estrutura que eu nunca tive para que eu possa ser uma cozinheira e para que também possa me aventurar em outras coisas, como a TV, que eu gosto de fazer e acho muito legal, e ainda o La Guapa (casa de empanadas), que ele fez crescer com sua força locomotora.
Hoje, sou eu que faço as mudanças do cardápio do Arturito, faço a ponte entre o que vai ser feito e os produtos que quero usar. Me relaciono muito mais com os produtores (como a Cooperapas, em Parelheiros). Nesse período de mudança, a cada três meses, eu me jogo dentro da cozinha, sou eu que comando os 15 ou 20 dias que demora esse processo. Tenho duas mãos direitas, Lucas e Mariú, que assumem depois que eu saio.
É um sistema que funciona porque toda brigada de cozinheiros precisa se manter vibrante e excitada. Ao mesmo tempo, você não pode viver em constante vibração. Então, ok, temos o cardápio novo, estamos empolgado, daí faz-se a repetição e cansa. Na hora em que você cansa está na hora de mudar o cardápio de novo.

E como é a sua presença hoje no restaurante, mesmo fora da cozinha?
Eu gostaria de estar mais no salão, mas tem muito pedido de foto. Isso não me incomoda, mas sinto que pode incomodar o cliente ao lado. Eu quero satisfazer esse pedido de foto porque entendo de onde vem o carinho, mas talvez a pessoa ao lado tenha vindo pela comida, não por mim. Então, não quero atrapalhar. Às vezes não estou tanto no salão quanto gostaria.

Como você vê hoje a cena dos orgânicos em São Paulo, que eram tão inacessíveis quando você abriu o Julia Cocina, em 2003?
Lindíssima. Acho que é o melhor momento: quando não está tudo feito ainda, tem muito para se fazer, então nós cozinheiros conseguimos nos envolver no processo de trabalhar em conjunto. A cena hoje não se compara com a época quando abri o Julia. Nem se compara. Hoje você consegue ovos orgânicos, de galinhas felizes, porcos criados soltos, pancs (plantas alimentícias não convencionais), queijos brasileiros, chocolate feito à mão. O cenário está incrível.

Paola e sua avó materna, Mimi, que a inspirou na cozinhaPaola e sua avó materna, Mimi, que a inspirou na cozinha Foto: Jason Lowe|Divulgação


No livro, você fala do impulso que o programa de TV Utilíssima te deu, e hoje é você que está na TV. Qual a diferença daquele tempo para hoje? E do papel da TV?
Difícil essa pergunta porque eu nasci inspirada na cozinha, venho de um berço onde tem muita cozinha. Então, a Utilíssima foi a minha companhia na solidão da minha adolescência e o que me fazia cozinhar para esperar a minha mãe. Mas o amor pela comida veio das minhas avós.
Hoje, vejo como o Masterchef inspirou muita gente. Não sei se a escolher a profissão de cozinheiro, mas a cuidar mais do que come, a deixar um pouco os industrializados de lado e a se aventurar na cozinha. É isso o que mais me interessa, que as pessoas não abandonem essa arte que é tão fundamental na construção de uma sociedade.
A atual temporada do programa, com profissionais, terminamos de gravar no último sábado e para mim foi a melhor que a gente fez. A gente fala muito da importância da formação, da não improvisação. Eu acho muito legal que a gastronomia seja uma opção de trabalho. É importante que se saiba que não é uma profissão que paga muito bem.
Mas a gastronomia tem esse poder de ser muito inspiradora e muito cativante para quem a faz. Os mais honestos são aqueles que sobrevivem apesar de não ganharem dinheiro por muitos anos.

Estando no ponto a que chegou hoje, sente saudade de alguma coisa do passado?
Sinto saudade dos tempos em que a única coisa que eu tinha que fazer na vida era cozinhar. Muitas saudades. Era muito simples. Não estou falando que não gosto do meu momento. É só uma nostalgia. Estou muito feliz e muito agradecida, a gratidão é tanta que às vezes sai do meu peito.

Mas sinto falta desses dias em que eu chegava de manhã na cozinha, abria a janela, deixava entrar o sol, pegava a xícara de café, montava minha mise en place perfeita e a única coisa que tinha que fazer era isso. Não tinha que pegar o celular e ficar respondendo perguntas para todo mundo. Naquela época, não havia outra distração.
Por mais que eu adore fazer mil coisas ao mesmo tempo, sinto saudades de ter tempo de fazer uma coisa por vez. E cozinhar, ser uma cozinheira que toca uma praça de um restaurante, não necessariamente a pessoa mais importante do restaurante. A ideia de ser uma anônima que está fazendo o seu trabalho me acalma, sabe? [Ana Paula Boni]

SERVIÇO

Todas as Sextas
Autora: Paola Carosella
Editora: Melhoramentos (352 páginas, R$ 139)
Lançamento no dia 8/11, às 18h
Livraria da Vila – Al. Lorena, 1.731, Jardins, tel. 3062-1063
A compra do livro nesta livraria a partir do dia 1º/11 dá direito a uma senha para a noite de autógrafos. Só serão distribuídas 400 senhas, e as fotos com a chef serão feitas por fotógrafo no local.

Bailarina clássica e estrela do clipe de Beyoncé, Michaela DePrince lança biografia

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Michaela DePrince veste body Maison Margiela no estúdio do Dutch National Ballet, em Amsterdã (Foto: Alique Johanna Elisabeth Van Den Heuvel / Conde Nast Archive)

Nem sempre me chamei Michaela DePrince. Quando nasci, em um povoado no sudeste de Serra Leoa, na África Central, meus pais me batizaram Mabinty Bangura. Minha mãe me deu à luz em 1995, em plena guerra civil que matou mais de 50 mil pessoas – número que inclui meus pais -, ele foi assassinado pelos rebeldes da Frente Revolucionária na mina de diamantes onde trabalhava; ela morreu de febre de Lassa, uma das muitas doenças disseminadas pela guerra e pela falta de saneamento básico por lá. Aos 3 anos, me tornei órfã.
Tenho vitiligo, doença autoimune que produz manchas brancas pelo corpo. Por isso, a maior parte dos moradores de nossa aldeia, incluindo meu tio, que cuidou de mim logo que meus pais morreram, achava que eu era uma maldição e passou a me chamar de “filha do diabo”. Por causa da doença, o irmão do meu pai me abandonou em um orfanato, onde vivi por pouco mais de um ano.

Lá, éramos 27 crianças. A primeira recebia o maior prato de comida e a melhor roupa. Acabei escalada para ser a de número 27. Passei muita fome naquele ano e fiz apenas uma amiga, Mabindy Suma. Ela era a 26ª da lista porque estava sempre doente e fazia xixi na cama. Em poucos dias, nos tornamos praticamente irmãs – Mabindy Suma costumava cantar e contar histórias para eu dormir.

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Michaela (à esquerda) com as outras crianças do orfanato em Serra Leoa (Foto: Divulgação)

Num dia de tempestade, os ventos trouxeram a capa de uma revista, que ficou presa no portão do orfanato. Agarrei aquela folha com toda a minha força. Nela estava estampada a foto de uma mulher branca – como fiquei surpresa ao ver pela primeira vez uma pessoa com outro tom de pele! – usando uma saia rosa curta e brilhante: era uma bailarina.

O que me chamou mais a atenção naquela imagem, no entanto, foi a expressão de felicidade em seu rosto. Apesar de eu não saber ao certo o que era ser uma bailarina, naquele momento pensei que, se ela estava sorrindo, talvez um dia eu pudesse sentir sua alegria se fizesse exatamente o mesmo.

Lembro-me de compartilhar esse sonho com a nossa professora de inglês,Sarah – estudávamos a língua porque o dono do orfanato esperava que fôssemos adotadas por famílias americanas. Eu era muito esforçada e apegada a essa professora, para quem sempre dançava na ponta dos pés.

Um dia, ao acompanhar Sarah até o portão, então grávida de sete meses, vi alguns rebeldes da Frente Revolucionária se aproximando. Eles riam e gritavam – hoje, quando relembro essa cena, acredito que estavam bêbados ou sob o efeito de alguma droga – e rapidamente nos cercaram.

Em voz alta, fizeram uma aposta sobre o sexo da criança que ela esperava: seria menino ou menina? Na sequência, um dos guerrilheiros puxou-a para perto de si e cortou sua barriga, arrancando o bebê de dentro dela. Se fosse um menino, talvez os rebeldes tivessem tentado salvá-lo, mas a criança era uma menina. Então, eles cortaram seus braços e pernas na minha frente. Sarah, claro, morreu na hora. Apesar de ter apenas 4 anos, essa cena ficou para sempre na minha memória.

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Mia e Michaela poucos meses após chegarem aos EUA (Foto: Divulgação)

Por sorte, pouco tempo depois desse terrível episódio, fui adotada por uma família americana. Lembro-me como se fosse hoje do momento em que chegamos ao aeroporto de Gana e me deparei com uma mulher de cabelos brancos, como eu nunca havia visto antes, e lindas sapatilhas vermelhas. Era a minha mãe. A minha maior alegria foi saber que Elaine DePrince também havia adotado minha melhor amiga, Mabindy Suma. Seríamos irmãs também nos Estados Unidos e, a partir dali, ganhamos o nome de Michaela e Mia.

Ao chegarmos no hotel, tirei de dentro da calcinha um papel dobrado em quatro partes. Era a capa da revista com a foto da bailarina, que sempre carregava comigo, e mostrei o papel à minha mãe. Eu mal falava inglês.

Comovida, ela prometeu que eu estudaria balé assim que chegássemos em casa, no estado de Nova Jersey. E foi o que aconteceu. Aos 10 anos, eu já fazia aulas cinco vezes por semana. Esforçava-me ao máximo para me tornar a bailarina da revista. Foi quando outro luto me tirou do prumo: a perda do meu irmão, também adotado pela família DePrince, que era hemofílico.

Quatorze anos mais velho que eu, Teddy me ajudou a confiar nos homens novamente, incluindo no meu próprio pai adotivo, Charles. Pensei: “Será que todas as pessoas que eu amo irão me deixar assim, de repente?”.

Naquele ano, me afastei completamente dos meus pais e da minha irmã Mia, com medo de que meu amor por eles pudesse matá-los também. Foram muitas conversas até eles me convencerem de que o que sinto pelas pessoas continua existindo mesmo depois que elas partem. Esse foi um dos ensinamentos mais importantes que recebi na minha vida.

O carinho e a atenção da minha família me deram forças para treinar balé cada dia mais, até meu sonho se tornar realidade e eu me transformar numa bailarina profissional. Depois de passar por companhias renomadas como o American Ballet Theatre, faço parte do corpo de baile da Dutch National Ballet, em Amsterdã, desde 2013.

Capa do livro O Voo da Bailarina, editora BestSeller (Foto: Divulgação)Capa do livro O Voo da Bailarina, editora BestSeller (Foto: Divulgação)

Não foi fácil reviver todas essas histórias para escrever com minha mãe, O Voo da Bailarina (BestSeller, R$ 49), que acaba de ser lançado no Brasil. Mas percebi que, reunindo minhas memórias num livro, poderia mudar a vida das pessoas, seria capaz de encorajar jovens como eu a perseguirem seus sonhos.

No ano passado, os direitos da minha biografia foram comprados pela cineasta marroquina Sanaa Hamri [diretora das séries de TV Empire eShameless], que deve começar a filmá-la no início de 2017, nos Estados Unidos.

Minha trajetória também levou Beyoncé a me convidar para participar de seu mais novo projeto, Lemonade, no qual apareço dançando junto a outras mulheres negras na música Hope. Foi maravilhoso defender nossos direitos ao lado dela, um dos ícones da força feminina. O próximo sonho que quero realizar? Dançar o papel principal no clássico Romeu e JulietaEM DEPOIMENTO A ANA CAROLINA RALSTON

Aprenda a misturar estampas na decoração

vg054990Os estilistas Dudu Bertholini, Carô Gold, Piti Taliani e Juliana Jabour são fãs de estampas em suas casas e roupas (Foto: Eudes de Santana/Arquivo Vogue)Misturar diferentes estampas na decoração de interiores é uma maneira rápida de adicionar personalidade aos cômodos da casa. Mas, afinal, como fazer o mix de prints sem pesar ou errar a mão?”Primeiro você precisa identificar o seu estilo – clássica, minimalista, contemporânea, romântica etc. – afinal, a sua casa tem que ter a sua cara. A partir desta descoberta, é interessante que você tenha objetos e tecidos estampados que possam ser trabalhados nos ambientes”, explica a designer de estampas Clau Cicala. A seguir, confira suas dicas para arrasar no décor multiestampado de cômodos como sala, quarto e cozinha. Victoria Marchesi

Quarto
“O quarto é um ambiente muito particular onde o dono quer aconchego e tranquilidade. Fica bacana fazer combinações de estampas nos itens de décor, como roupa de cama, almofadas, quadros e itens pessoais como um caderno todo estampado na cabeceira da cama para anotar as inspirações. E vale mesclar essas estampas com diferentes texturas e cores nas cortinas e tapetes. Estampas como geométricas, listras e folhagens nos itens de décor, estão em alta e ficam lindas se misturadas em diferentes almofadas que ficam em cima da cama, por exemplo”, ensina a profissional.

Sala
A sala é um lugar onde as pessoas transitam, param para assistir TV e conversar, por isso, o ambiente deve ser acima de tudo agradável. Uma dica é apostar em um sofá e tapetes de cor neutra e abusar nos objetos com estampas e cores, um livro, quadro ou mesinha de canto, por exemplo. Uma dica bacana é explorar alguns objetos que tenham estampas parecidas e que combinam entre si, porém com tamanhos das padronagens diferentes, por exemplo, abusar de estampas de flores maxis combinadas com flores pequenas, como a liberty. Fica bacana também dependendo do seu estilo, explorar objetos menos óbvios, como uma prancha com estampas coloridas, que dá um ar super cool ao ambiente”, explica a expert.

Cozinha
“Sabe aquele lugar onde a família se reúne para um bom bate-papo? Então, este lugar na minha opinião é o melhor para ficar mais próxima das pessoas que amamos. Para deixá-la bem descontraída e moderna, acabamentos coloridos são a bola da vez. Paredes coloridas para recados ou desenhos (padronagens), azulejos estampados e utensílios de cozinha coloridos fazem toda diferença”, indica Clau.

Atrizes brilham em blue carpet da Tiffany&Co em Beverly Hills

atriz-gettyimages-614482932Jennifer Garner, Reese Witherspoon e Halle Berry (Foto: Getty Images)


Um time poderoso de estrelas foi até a reinauguração da boutique da Tiffany&Co em Beverly Hills, na Califórnia, na noite de quinta-feira (13). Por lá, nomes como Camilla Belle, Jennifer Garner, Reese Witherspoon, Halle Berry e Kate Hudson (que apostaram em decotes poderosos para a noite de luxo).
Veja os looks na galeria abaixo!

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Carol Trentini pega ônibus com filho e marido: “Uma voltinha”

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Carol Trentini com marido e primogênito (Foto: Reprodução)
Acostumada a desfilar com os looks das grifes mais caras do mundo, Carol Trentini se divertiu com o marido, Fabio Bartelt, e o primogênito, Bento, andando de ônibus.
“Uma voltinha de ônibus”, disse a modelo na legenda da imagem, em que o filho olha radiante pela janelinha do veículo.
Além do ruivinho de 3 anos, a modelo é mãe de Benoah, nascido em junho desde ano.

Bulgari exibe joias usadas por divas de Hollywood em exposição na Austrália

bulgari-at-the-ngv_15Elizabeth Taylor usando joias Bulgari em 1963 (Foto: Reprodução)


Algumas das joias mais incríveis e preciosas da história da Bulgari estarão na National Gallery of Victoria, em Melbourne, na Austrália, entre os dias 30.11 e 29.01.17, durante a exposição Italian Jewels: Bulgari Style. Por lá, mais de 80 peças usadas por divas como Elizabeth Taylor, Grace Kelly, Anita Ekberg, Gina Lollobrigida, Claudia Cardinale, Sophia Loren, Keira Knightley e Claudia Schiffer.

“Abrangendo da década de 1930 até os ias atuais, as joias ilustram um forte legado de design e a nossa evolução estética, muito relacionada à história da Itália e as tradições artesanais”, declarou ao WWD Lucia Boscaini, curadora de marca e patrimônio da Bulgari. Esta será a primeira exposição realizada por uma joalheria de luxo no museu australiano.

National Gallery of Victoria: 180 St Kilda Rd, Melbourne VIC 3006, Austrália