‘New York Times’ anuncia plano de diversidade e inclusão no jornal

Denise Mota

Mais de 400 funcionários do New York Times foram entrevistados para a reportagem sobre diversidade e inclusão na organização de mídia de notícias. Crédito … Zack DeZon para The New York Times

Após levantamento feito com 400 funcionários ao longo dos últimos oito meses, o jornal norte-americano “New York Times”, que chega aos 170 anos em setembro, anunciou que começará a implementar mudanças, tanto na redação como em outros departamentos da companhia, para que se torne mais “diverso e inclusivo”.

Algumas das conclusões enumeradas pelos executivos da publicação e resumidas em reportagem do jornal são que as estruturas da organização não oferecem possibilidades plenas de desenvolvimento levando-se em consideração “distintos tipos de diferença: gênero, raça, orientação sexual, deficiência, origem econômica, posição ideológica e outras”.

Negros e latinos estão “subrepresentados em cargos de liderança”, informam, e muitos dos funcionários “descreveram experiências de trabalho cotidianas desconcertantes e às vezes dolorosas”. Mulheres de origem asiática, por exemplo, expressaram sua “invisibilidade”, diz a pesquisa: “Ao ponto de serem chamadas, com regularidade, pelos nomes de outras colegas, da mesma raça, algo que outras pessoas de cor descreveram também”.

“Pessoa de cor”, nos Estados Unidos, é um termo que vem sendo ressignificado para descrever uma identidade ampla e é utilizado hoje por aqueles que se veem ou são vistos como “não-brancos”: negros, indígenas, imigrantes, latinos, asiáticos ou mesmo seguidores de religiões minoritárias entre os norte-americanos, como muçulmanos ou católicos. Essa compreensão “guarda-chuva”, usada de forma estratégica para construir unidade ao redor de pautas como o combate à violência policial, não está isenta de críticas, como a de que é uma concertação artificial que achata as experiências e problemas enfrentados por cada grupo que a compõe.

“Uma cultura que funcione para todos”

Apesar de apresentar estatísticas que mostram o crescimento do número de mulheres e não-brancos no jornal, e em lugares de liderança, a partir da análise de como e quanto está sendo feita essa inclusão, o “New York Times” expressa que assumiu o compromisso de encarar sua falta de diversidade “de forma contundente” e aumentar a quantia de negros em posições de chefia, por exemplo, dos atuais 9% do total de funcionários, para 13,5% até o final de 2025.

O plano de ação tem como objetivo final “construir uma cultura que funcione para todos”, como resume o título do documento. Entre as medidas elencadas para “a criação de um ambiente corporativo com diversidade, equidade e inclusão”, estão um novo programa de treinamento para os que hoje ocupam cargos de liderança, a expansão do programa de bolsas em jornalismo e o estabelecimento de parâmetros claros sobre as expectativas da companhia em relação a comportamentos e valores dos seus integrantes.

A cobertura e o negócio jornalísticos, preveem, também serão beneficiados por essas mudanças: “Nossas práticas editoriais serão mais inclusivas, e nossas reportagens vão oferecer um retrato do mundo com mais nuanças, mais verdadeiro e mais rico. Assim, vamos atrair uma base de leitores e assinantes que refletirá de forma mais completa a amplitude da sociedade à qual servimos”.

Os passos foram elaborados a partir de “conversas profundas com colegas”, análises de dados sobre a demografia do staff e orientações de especialistas nesse tipo de processo no mundo empresarial, informa o documento. “As ações vão demandar o maior investimento que o ‘Times’ já fez – em termos de tempo, dinheiro e energia – para impulsar o avanço da nossa cultura. Acreditamos que esse trabalho representa um passo importante e necessário rumo a uma evolução mais ampla da companhia.”

‘Cahiers du Cinéma’, que já foi a ‘bíblia dos cinéfilos’, tenta um recomeço sob a pandemia

Por Rennan Setti

Edições de vários anos da “Cahiers du Cinéma” | Rennan Setti / Agência O Globo

No fim de fevereiro, poucas semanas antes de a França (e o mundo) entrar em confinamento, um comunicado deixou em suspenso o destino da “Cahiers du Cinéma”: toda a redação daquela que já foi considerada a “bíblia da cinefilia” estava se demitindo, anunciava Stéphane Delorme, redator-chefe ao longo da última década. A saída se dava em protesto contra a venda da revista a um grupo de empresários e produtores de filmes — um manifesto de liberdade dos críticos diante da perda de independência que, para eles, fatalmente ocorreria.

Quase nove meses depois, a revista criada por André Bazin em 1951 não afundou, como alguns temiam. As notícias sobre uma debandada geral, aliás, eram exageradas: dos 15 membros da redação atual, seis são remanescentes. Mesmo assim, a “Cahiers” está tendo que recomeçar sob circunstâncias muito mais adversas que a cólera de alguns demissionários: na pandemia, o cinema sumiu.

— A nova redação fez sua primeira edição (publicada em junho, já que a pandemia impediu a estreia marcada para maio) sob condições inéditas. Não havia noticiário cinematográfico por causa do fechamento das salas na França. A redação não podia se reunir presencialmente, sendo que parte dos jornalistas nem sequer se conhecia. Não tínhamos material de “gaveta” pronto para aliviar a redação naquele momento. E estávamos sofrendo ataques violentos de uma parte da equipe antiga, que fragilizaram a revista em um contexto já bastante difícil —relembra Julie Lethiphu, diretora-geral da “Cahiers du Cinéma”, em entrevista à coluna.

A despeito desses obstáculos, o real desafio da nova gestão é outro: recuperar o prestígio da revista que, depois de dar à luz a Nouvelle Vague e deter por décadas o posto de mais influente publicação sobre cinema do mundo, se aproxima dos 70 anos perdendo leitores, dinheiro e importância. Reverter essa tendência, segundo Julie, significa finalmente abraçar uma estratégia digital que vinha sendo desprezada e explorar o capital simbólico que a “Cahiers” ainda detém, sobretudo entre os cinéfilos estrangeiros.

Novo site e versão em inglês

Um passo decisivo, conta a diretora, será a criação de um novo site, projeto já em andamento. Hoje, é impossível ler na internet a “Cahiers”, cujo site exibe apenas os editoriais e o sumário de cada edição. A página não passa, em suma, de uma loja virtual para comprar os números impressos. O patrimônio de 770 edições publicadas desde 1951 permanece inacessível aos internautas, desperdiçando um legado que poderia estar convertendo assinantes.

— Os assinantes franceses e estrangeiros terão acesso, a partir de 2021, a conteúdos específicos que serão uma extensão editorial da revista em papel. Uma espécie de revista “aumentada”, com artigos que nos permitam sair da periodicidade de um veículo mensal, entrevistas em vídeo, podcasts e também acesso aos arquivos — explica a executiva.

Edição com “Bacurau” na capa | Rennan Setti / Agência O Globo

Segundo ela, a “Cahiers du Cinéma” ainda estuda como transpor para o site o conteúdo da revista impressa, “sobretudo para os nossos leitores no exterior”. Afinal, é fora da França que a importância da “Cahiers du Cinéma” parece ter melhor resistido ao tempo.

“A ‘Cahiers du Cinéma’ perdeu grande parte de sua visibilidade e influência na França ao longo da última década, mas permanece envolta em uma aura extraordinária no resto do mundo”, escreveu em junho Jean-Michel Frodon, que dirigiu a revista entre 2003 e 2009. 

Embora quase ninguém a leia no exterior — apenas 18% dos pouco mais de 15 mil exemplares vendidos em média por mês circulam fora do país —, suas capas e listas de melhores filmes do ano ainda repercutem entre cinéfilos. Richard Brody, crítico da “New Yorker” e biógrafo de Jean-Luc Godard, é leitor assíduo há mais de três décadas e cita a “Cahiers” sempre que pode. Quando “Bacurau” estampou a capa da edição de setembro do ano passado, o feito foi notícia no Brasil. Sem uma versão digital, o público estrangeiro precisa pagar frete e esperar semanas para receber um exemplar no Brasil ou nos EUA, por exemplo.

Outro obstáculo para alcançar esses leitores é a francofonia minguante — nem mesmo o antigo dono, o britânico Richard Schlagman, falava francês… Por isso, os novos acionistas consideram relançar uma versão em inglês, projeto cuja “viabilidade dependerá de parceiros estrangeiros”, afirma Julie. Uma experiência anterior com versões traduzidas foi tentada em 2007 e durou poucos anos.

‘A revista se distanciou do mundo’

A nova direção está ressuscitando ainda outra fonte perdida de prestígio da “Cahiers”, seu braço de edição de livros, que também foi por décadas a mais importante do mundo na área, mas estava praticamente parado. A publicação acaba de reeditar três obras de Éric Rohmer, que foi redator-chefe da revista antes de se tornar um dos cineastas incontornáveis da Nouvelle Vague.

Outro desejo é ampliar e diversificar as receitas com a organização de eventos, aposta que tem sido cada vez mais explorada por veículos tão diversos quanto a “The Economist” e a start-up de notícias econômicas Quartz. Alguns projetos já estão sendo implementados pela “Cahiers”, que quer resgatar seus laços com a cultura gregária de uma cinefilia francesa que nasceu nos cine-clubes.

— Decidimos nos abrir aos festivais e voltar a projetar a “Cahiers” nos lugares de cinefilia. Paralelamente, relançamos os cine-clubes e organizamos, apesar das restrições sanitárias, um ciclo de projeções de dez dias (entre 15 e 25 de outubro) no Centro Georges Pompidou que foi muito bem sucedido — conta Julie, comparando esse posicionamento à gestão anterior: — Trata-se de algo indispensável para nós. A revista se distanciou demais do mundo nos últimos anos.

Relação difícil com o cinema francês

A ambição de se aproximar dos festivais foi justamente uma das razões da fúria dos demissionários, sobretudo quando souberam que Julie Lethiphu dirigiria a publicação. A executiva era responsável pela Sociedade dos Diretores de Filmes (SRF, na sigla em francês), associação de cineastas que organiza a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Além disso, Julie fez carreira no todo-poderoso Centro Nacional do Cinema (CNC), agência do governo francês que centraliza a subvenção pública a filmes no país e, na prática, muitas vezes determina quais projetos sobrevirão.

Em entrevista ao “Le Monde” em fevereiro, o redator-chefe adjunto (e demissionário) Jean-Philippe Tessé chamou de “contra-senso absoluto” a postura dos novos proprietários da revista, que, na visão dele, querem torná-la “chique” e “cordial”.

— Nos anos 1950, a revista foi fundada para declarar guerra ao cinema francês, o tal “cinema de qualidade”, cinema família — argumentou ao jornal Tessé, que estava na “Cahiers” há 17 anos.

Edições de vários anos da “Cahiers du Cinéma” | Rennan Setti / Agência O Globo

O combate declarado ao establishment cinematográfico nacional não era exatamente o leitmotiv original da “Cahiers”, mas tornou-se uma marca registrada em 1954, com “Une certaine tendance du cinéma français” (Uma certa tendência do cinema francês), provavelmente o mais importante artigo sobre cinema já escrito.

O autor era um protégé de André Bazin que já detinha, aos 22 anos, status de prodígio da crítica nas páginas de “Arts” e da própria “Cahiers”: François Truffaut. Foi um ataque feroz contra “a tradição de qualidade” que se estabeleceu na produção do país nas décadas anteriores, alvejando sobretudo as adaptações de romances por roteiristas como Pierre Bost e Jean Aurenche, filmadas por diretores como Claude Autant-Lara e René Clément.

O golpe foi tão duro que, quando o próprio Truffaut passou à direção, com “Os incompreendidos” (1959), parte dessa geração ainda lhe guardava rancor, apesar do sucesso incontestável do filme junto ao público e à crítica.

Em seu lugar, a “Cahiers” propunha um panteão alternativo formado por expoentes do que que chamava “cinema de autor”. Faziam parte do grupo diretores como Ingmar Bergman, F. W. Murnau, Carl Theodor Dreyer e integrantes do neorrealismo italiano (Roberto Rossellini foi, aliás, testemunha no casamento de Truffaut com Madeleine Morgenstern em 1957…)

Além disso, identificava um valor ignorado em produções holywoodianas de cineastas como Howard Hawks e, sobretudo, Alfred Hitchcock. O status de gênio artístico do último seria galvanizado pelo livro “Hitchcock/Truffaut” (1966), tour de force que transcreve mais de 30 horas de entrevistas minuciosas entre os dois, abordando toda a filmografia do diretor britânico.

Para os demissionários da “Cahiers”, o novo quadro acionário da revista representa um rompimento indefensável com essa tradição de independência em relação ao establishmentcinematográfico nacional. Eles temem, portanto, que a publicação se transforme em uma espécie de versão impressa de “Dix Pour Cent”, série da France 2 disponível no Netflix que, a despeito de suas qualidades, funciona como um tributo à indústria francesa do cinema.

Fim da fase à esquerda?

Nos últimos anos, de fato, poucos cineastas franceses foram poupados de críticas duras vindas da “Cahiers”. Em 2015, uma capa denunciou “o vazio político do cinema francês” usando a imagem dos dois protagonistas de “Doce Veneno”, Vincent Cassel e François Cluzet. Do seu exílio carioca, Cassel rebateu: “Quem lê a ‘Cahiers du Cinéma’? Eu não leio.”

No ano passado, uma capa dedicada a “Synonymes”, no qual um jovem israelense faz de Paris o seu refúgio, argumentava que foi preciso que um diretor estrangeiro (Nadav Lapid) filmasse a França para escancarar as deficiências de um cinema nacional (e de um país) cada vez mais aburguesado.

Sob Delorme, aliás, a “Cahiers” exprimiu um sólido posicionamento à esquerda, marcando mais uma fase ideológica em uma revista que teve a pecha de alienada na Nouvelle Vague — à época, a revista de esquerda era a eterna rival “Positif” — antes de quase desaparecer sob um maoísmo radical, no início dos anos 1970, quando parou de publicar fotos de filmes ou mesmo escrever sobre o “cinema comercial”.

Independência editorial

Daí a revolta da redação à esquerda que chefiava Delorme: entre os 20 novos sócios, há banqueiro (Grégoire Chertok), bilionário (Xavier Niel, dono da operadora de internet Free Mobile e sócio do jornal “Le Monde”) e produtor de cinema (Pascal Caucheteux, cuja Why Not Productions produziu sucessos como “Eu, Daniel Blake” e diversos filmes do diretor francês Jacque Audiard, como “O profeta”)…

Julie Lethiphu diz compreender “as inquietudes que pode suscitar a presença de produtores no capital da ‘Cahiers’”, mas lembra que não é a primeira vez que profissionais do cinema têm ações da revista. De fato, um dos cofundadores da “Cahiers” foi Léonide Keigel, distribuidor de cinema importante na Paris do pós-guerra.

Mesmo com esse precedente, foi implementado um estatuto de independência editorial para regular as relações entre redação, direção e sócios:

—Esse estatuto foi discutido com a atual redação e já está em vigor. Um comitê de independência editorial, com membros externos, pode ser acionado se a redação considerar que sua independência não está sendo respeitada. Além disso, são 20 acionistas e nenhum possui mais que 12% do capital. Logo, o peso dos produtores é muito relativo.

Reconfinamento e resistência

A mudança societária não teve impacto significativo nas vendas. O número de estreia da nova gestão, em junho, vendeu 13.930 exemplares, contra 13.033 em março, segundo números da associação que monitora a circulação da imprensa na França. (Ainda não há números auditados para meses mais recentes).

A circulação está levemente mais baixa que no ano passado, quando a revista vendeu, em média, 14.853 exemplares por mês, mas a redução pode ser explicada pela pandemia e pelas dificuldades financeiras da Presstalis, maior distribuidora de mídia impressa da França, que foi salva da falência em julho ao ser comprada por um consórcio de jornais.

Edições de vários anos da “Cahiers du Cinéma” | Rennan Setti / Agência O Globo

Hoje, cerca de metade dos leitores é assinante, mas a meta de Julie Lethiphu é elevar o número para 10 mil até o fim do ano que vem.

Além do desafio natural de ampliar o leitorado de um veículo impresso e denso na era das redes sociais, a “Cahiers” terá que atravessar uma pandemia mais longa do que se imaginava. Com os novos surtos de Covid-19, a França entrou em seu segundo confinamento em 30 de outubro. Pelo menos até dezembro, todas as salas de cinema permanecerão fechadas, interrompendo de vez o já anêmico calendário de lançamentos de filmes. Um quadro que Julie admite ser “muito inquietante”, não só para a “Cahiers”, mas para toda a indústria.

— A indústria do cinema sobreviverá. Mas entre o confinamento, o toque de recolher e o adiamento de grandes lançamentos, sobretudo de filmes americanos, é possível que alguns não consigam se reerguer — argumenta Julie, que apela à resistência quando especula sobre o futuro da “Cahiers” — É preciso resistir para que um dos raros lugares de pensamento cinéfilo sobreviva. É uma responsabilidade que vai além da história de uma empresa, que se dá na escala do patrimônio cultura francês. Mas há motivos para ter esperança. As redes sociais e a velocidade que esse mundo digitalizado nos impõe tornam ainda mais necessário um veículo cuja leitura demanda tempo para reflexão.  

Google pagará US$ 76 milhões a publicações francesas após acordo

Nos próximos três anos, gigante pagará US$ 22 milhões anuais no total a um grupo de 121 veículos jornalísticos da França; além disso, outro acordo de US$ 10 milhões foi firmado entre as partes
Por Agências – O Estado de S. Paulo

Na França, Google fecha acordo com publicações jornalísticas 

O Google pagará US$ 76 milhões ao longo de três anos a um grupo de editoras francesas para encerrar uma disputa sobre direitos autorais que já dura mais de um ano, mostraram documentos vistos pela Reuters.

Os dois documentos incluem uma estrutura que estipula que o Google pagará US$ 22 milhões anuais no total a um grupo de 121 veículos jornalísticos da França após, assinar acordos de licenciamento individuais com cada um deles.

O segundo documento é um acordo sob o qual o Google concorda em pagar US$ 10 milhões ao mesmo grupo de veículos em troca de seu compromisso de encerrar todos os litígios potenciais presentes e futuros vinculados a reivindicações de direitos autorais durante o contrato de três anos.

O Google se recusou a comentar. A empresa e as publicações anunciaram que chegaram a um acordo no mês passado, mas os termos financeiros não foram divulgados.

“Esses acordos opacos não garantem o tratamento justo de todas as publicações de notícias, uma vez que a fórmula de cálculo não é tornada pública”, disse o sindicato dos editores de notícias online independentes Spiil no início desta semana.

Também disse lamentar que o setor não tenha formado uma frente unida nas negociações com o Google. “O Google aproveitou nossas divisões para promover seus interesses”.

L’Alliance de la presse d’information generale (APIG), o grupo de lobby que assinou o acordo com o Google, não estava imediatamente disponível para comentar.

Para receber uma parte dos US$ 22 milhões que serão divididos entre as publicações, cada organização será obrigada a assinar um contrato de licenciamento individual com o Google.

As taxas variam de US$ 1,3 milhão para o jornal Le Monde no topo da lista a US$ 13.741 para a publicação local La Voix de la Haute Marne, mostraram documentos. O documento não especifica como esses valores são calculados.

O acordo ocorre após a implementação na França de um novo tipo de regra de direitos autorais sob uma recente lei da União Europeia, apelidada de “direitos vizinhos”. Isso força o Google e outras grandes plataformas de tecnologia a abrir negociações com publicações para remunerá-las pelo uso de seu conteúdo noticioso online.

Donald McNeil Jr., principal estrela do NYT na cobertura da Covid perde o cargo por racismo após pressão da equipe sobre a direção do jornal

Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres | @lcnqgur

New York Times passou de estilingue a vidraça em um desconfortável episódio envolvendo uma das suas principais estrelas, que escalou na última quarta-feira (3/2) quando 150 funcionários enviaram uma carta à direção exigindo medidas mais duras contra o jornalista Donald McNeil Jr, acusado de conduta racista. O episódio fora denunciado uma semana antes pelo Daily Beast.

Diante da pressão, o jornal anunciou na noite de sexta-feira (5/12) que McNeil e também Andy Mills, jornalista que havia produzido o podcast Caliphate (cuja principal fonte foi presa pela polícia canadense e nunca havia estado na Síria), estavam deixando o jornal “depois que condutas adotadas no passado tornaram-se alvo de críticas dentro e fora do jornal”.

Especializado em ciência,  McNeil Jr. era um dos mais renomados repórteres do jornal americano, com destacada atuação na cobertura da pandemia. Entre suas matérias recentes está uma entrevista com Antonio Faucci no blog The Daily, em que o especialista em saúde pública revelou fatos inéditos sobre o período em que assessorou Donald Trump.

O episódio que motivou a ira da redação ocorreu em uma viagem educacional ao Peru promovida pelo Times em 2019, reunindo alunos do ensino médio e acompanhada pelo jornalista. Ele teria usado várias vezes a “palavra com n”, considerada um dos piores insultos raciais na língua inglesa, além de fazer comentários sexistas.

Mesmo sabendo da história, denunciada por pais de alunos que fizeram a viagem, o jornal alçou o profissional ao posto de principal nome de sua equipe durante a crise da Covid. E inscreveu seu trabalho para concorrer ao Prêmio Pulitzer.

Tudo parecia sob controle até que a história foi revelada na semana passada pelo The Daily Beast, em uma reportagem contando detalhes da conduta de McNeil Jr. baseada nos relatos diretos dos que participaram da excursão.

Em resposta, o NYT publicou uma matéria sobre o caso e também respondeu ao The Daily Beast. Disse ter feito uma investigação e adotado medidas disciplinares “por declarações e linguagem inconsistentes com nossos valores”  sem especificar quais, o que revoltou a equipe pela brandura com que a situação foi tratada.

No mesmo dia em que a carta dos funcionários foi enviada, a direção manifestou-se em uma mensagem interna assinada conjuntamente pelo editor executivo Dean Baquet, pelo publisher A.G. Sulzberger e pela CEO Meredith Kopit Levien,  indicando a proporção que o caso tomou.

Eles agradeceram o espírito com que as reclamações foram levadas à chefia, disseram concordar com o conteúdo e sinalizaram que providências estão a caminho, informando que “equipes internas estão analisando as questões levantadas no manifesto e que em breve a redação veria os resultados da análise”. O que acabou acontecendo na noite de sexta-feira, 5/2.

“Profundamente perturbados”

Na carta dirigida ao editor Baquet, os funcionários expressaram estar “profundamente perturbados” com a forma como o jornal lidou com as alegações. Apelaram aos chefes para conduzir investigações adicionais a respeito das queixas contra McNeil Jr, e pediram que ele seja obrigado a pedir desculpas aos alunos e a seus pais, a pessoas que participaram da viagem e aos seus colegas do Times.

“Nós, seus colegas, nos sentimos desrespeitados por suas ações”, dizia a carta. “A empresa tem a responsabilidade de levar esse caso a sério.”

Segundo o The Daily Beast, logo após o caso ter vindo à tona Baquet admitiu em uma mensagem interna ter ficado indignado ao saber da história, a ponto de ter cogitado demitir McNeil. Mas disse ter voltado atrás porque uma investigação do jornal concluiu que o repórter fez um  “mau julgamento”, mas que não teria agido com má intenção ou malícia, merecendo por isso outra chance.

A equipe discordou da posição. Na carta, o resultado da investigação foi classificado como “irrelevante”.  O texto invoca o próprio treinamento de assédio do jornal , lembrando que ele “deixa claro que o que importa é como um ato faz as vítimas se sentirem e as vítimas de McNeil não se intimidaram em criticar sua conduta na viagem”.

Os signatários pediram também ao jornal que estudasse como os preconceitos raciais afetam as pautas e a edição, reiterando  o compromisso com as políticas existentes de não discriminação e antiassédio do jornal.

A carta revelou ainda que, após o artigo do The Daily Beast, funcionários atuais e antigos também disseram que McNeil havia mostrado “preconceito racial em seu trabalho e nas interações com colegas ao longo dos anos”:

“Nossa comunidade está indignada e sofrendo. Apesar do aparente compromisso do The Times com a diversidade e inclusão, oferecemos uma plataforma proeminente — uma cobertura crítica cobrindo uma pandemia que afeta desproporcionalmente pessoas negras — para alguém que escolheu usar uma linguagem que é ofensiva e inaceitável para os padrões de qualquer redação. Ele fez isso enquanto atuava como representante do The Times, na frente de alunos do ensino médio. ”

O desconforto foi tão grande que colegas de McNeil usara as redes sociais para protestar, como o editor de investigações em finanças David Enrich.

Donald McNeil Jr. não quis muita conversa. Procurado pelo Washignton Post para falar sobre o caso no meio da semana, deu uma resposta lacônica por e-mail: “Não acredite em tudo o que você lê”. No dia da demissão, no entanto, escreveu para os colegas justificando que o contexto em que havia usado a “horrível palavra” era defensável, mas agora entendia que não era:

” Foi profundamente ofensivo. Por ofender meus colegas, e pelo que posso ter feito para prejudicar o Times, uma instituição que amo e em cuja missão acredito e tentei servir, peço desculpas. Eu decepcionei vocês”. 

Na tentativa de administrar a crise, Baquet e Carolyn Ryan, editora assistente, tinham chegado  a reunir-se com jornalistas da casa — incluindo repórteres negros famosos como Nikole Hannah-Jones — para tentar explicar como lidaram com o comportamento de McNeil. Segundo o The Daily Beast, alguns participantes expressaram descontentamento com a forma como o jornal lidou com as queixas contra McNeil, mas outros disseram que Baquet parecia estar levando a sério as preocupações da equipe, outro sinal de que a sorte da estrela pode mudar, como acabou acontecendo.

O desconforto é imenso para um jornal que chegou a criar uma seção destinada a oferecer recursos para professores embasarem aulas a respeito de racismo, chamada Race and Racial Justice Resources. Na página estão ideias de tópicos para discussão em sala de aula, recomendações de filmes e livros e lições diárias aproveitando notícias recentes.

A denúncia 

A viagem que pode ter destruído uma carreira brilhante  foi parte de um programa mantido pelo The New York Times há vários anos. Nas férias de verão o jornal seleciona alguns de seus principais repórteres para servir como guias de estudantes do ensino médio em viagens internacionais, com o  objetivo de proporcionar férias no exterior com valor educacional. E um bom reforço no caixa, naturalmente, pois cada integrante desembolsa cerca de US$ 5,5 mil pelo privilégio.

Em 2019, um desses especialistas foi McNeil Jr, repórter do jornal desde 1976. A  excursão ao Peru, com pelo menos 26 alunos, tinha como foco observar a assistência comunitária de saúde na região, tema alinhado à experiência do jornalista, que se notabilizou por reportagens e livros sobre epidemias e doenças como Aids, malária, Ebola, gripe suína e influenza.

As denúncias de racismo levadas ao The New York Times por pais de alunos também foram examinadas diretamente pelo The Daily Beast, segundo a matéria que revelou o caso. O jornal disse que pelo  menos seis alunos ou seus pais disseram à empresa de turismo que fez parceria com o Times que McNeil usou linguagem racista.

Dois alunos alegaram especificamente que o repórter de ciências usou a “palavra com n” e teria sugerido não acreditar no conceito de privilégio branco. E três outros participantes alegaram que McNeil fez comentários racistas e usou estereótipos sobre adolescentes negros. Os relatos são desabonadores:

“Espero uma ação imediata sobre a conduta Donald, estou profundamente decepcionado com o New York Times por causa dos comentários que ele fez durante nossa viagem. Acho que até mesmo demiti-lo seria apropriado”.

“Donald não apenas fez vários comentários racistas em várias ocasiões, mas também foi desrespeitoso com muitos alunos durante as refeições e em outros ambientes”.

“Eu mudaria o jornalista. Ele era racista. Ele usou a palavra ‘N’, disse coisas horríveis sobre adolescentes negros e disse que a supremacia branca não existe”.

“Ele não foi respeitoso durante algumas das cerimônias tradicionais que participamos com curandeiros / xamãs indígenas. Fez com que os alunos do programa se sentissem desconfortáveis ​​com seus comentários. Fiquei muito desapontado depois de ouvir grandes coisas sobre seu trabalho”.

O The Daily Beast ouviu também Jeff Shumlin, diretor da Putney Student Travel, que organizou a viagem. Ele confirmou que a empresa havia recebido reclamações de pais sobre McNeil, mas eximiu-se da responsabilidade, dizendo que o jornal designa os acompanhantes, cabendo a ele responder sobre problemas.

Foi o que fez a direção do The New York Times. Mas a demissão não deve encerrar o desconforto, pois sobra ainda o questionamento do tempo levado para tomar a decisão. E o motivo de ela só ter sido tomada após o fato tornar-se público por iniciativa de um concorrente.Caliphate, outro constrangimento 

O caso de Donald McNeil Jr,. não é o único a ofuscar o brilho do jornal que teve sua excelência editorial compensada por um recorde de 2,3 milhões novos assinantes em 2020. Ainda repercute uma controvérsia com outra de suas estrelas, a repórter Rukmini Callimachi. Leia mais sobre o caso aqui

New York Times chega a 7,5 milhões de assinaturas em 2020, para versões digital e impressa

Só de assinantes on-line, jornal americano adicionou 2,3 milhões no ano. Receita com esses leitores ultrapassou meio bilhão de dólares
Do New York Times

A sede do New York Times, em Manhattan – Johannes Eisele – 30.jun.20/AFP

NOVA YORK – O jornal ameriano The New York Times bateu um recorde para seu negócio de assinaturas em 2020, um ano em que uma pandemia, agitação social e uma corrida presidencial sem precedentes nos Estados Unidos chegaram às manchetes, diz a empresa em um relatório de lucros nesta quinta-feira.

Depois de adicionar 2,3 milhões de assinaturas digitais em 2020, mais do que em qualquer ano anterior, o Times ultrapassou 7,5 milhões de assinaturas para seus produtos digitais e impressos, segundo o relatório do quarto trimestre da companhia.

Os maiores ganhos de 2020 ocorreram durante dois períodos de grande volume de notícias. No trimestre que começou em abril, quando um grande número de americanos estava  há semanas em uma rotina de trabalho remoto por causa da pandemia do coronavírus, a empresa adicionou 669 mil assinaturas digitais. No quarto trimestre, que incluiu o dia da eleição presidencial nos EUA, o Times teve um aumento de cerca de 627 mil assinaturas digitais.

“Em 2020, atingimos dois marcos importantes, e esperamos que sejam duradouros: a receita digital ultrapassou a do impresso pela primeira vez, e a receita de assinatura digital, há muito tempo nosso fluxo mais rápido de receita de crescimento, agora também é o maior”, explica em comunicado Meredith Kopit Levien, a presidente-executiva da empresa.

“Esses dois marcos, e nosso melhor ano já registrado para assinaturas, marcam o fim da primeira década de transformação do Times em uma empresa que prioriza o digital e as assinaturas”, destaca ela.

Meredith Kopit Levien, nova presidente do NYT: expansão da estratégia digital do jornal. Foto: RACHEL MURRAY / AFP

No ano, a oferta digital principal do NYT, que é seu site de notícias, ganhou 1,7 milhão de assinantes, um aumento de 48% em relação a 2019. Mais de 5 milhões de assinaturas do Times são apenas para o site de notícias, afirma o jornal.

Outras ofertas digitais, como os aplicativos Cooking and Games, ganharam mais de 600 mil assinaturas em 2020, um aumento de 66%, chegando a um total de cerca de 1,6 milhão. As assinaturas restantes — cerca de 833 mil — são para o jornal impresso.PUBLICIDADE

No quarto trimestre, a receita de assinatura digital foi de US$ 167 milhões, um salto de 37% em relação aos meses finais de 2019. No ano, foi de US$ 598,3 milhões, um aumento de 30%. A receita total de assinaturas em 2020 aumentou 10%, para US$ 1,195 bilhão.

Meta de dez milhões de assinantes

Os ganhos de assinaturas no ano passado colocaram o Times no caminho para atingir sua meta declarada de chegar a dez milhões até 2025. O aumento de assinaturas ocorreu mesmo quando o jornal, que começou a cobrar pelo conteúdo on-line em 2011, aumentou os preços de algumas assinaturas de notícias digitais.

“Com um bilhão de pessoas lendo notícias digitais e esperados cem milhões dispostos a pagar por isso em inglês, não é difícil imaginar que, com o tempo, a base de assinantes do Times poderia ser substancialmente maior do que [o patamar] em que estamos hoje”, diz Levien.

Em seu relatório, o The Times projetou um aumento de cerca de 15% na receita total de assinaturas no trimestre atual a partir do primeiro trimestre de 2020, e um salto de 35% a 40% na receita de assinaturas digitais. A receita de anúncios neste trimestre deve cair um pouco menos de 20%, acrescentou a empresa.

A empresa também anunciou um aumento em seus pagamentos de dividendos aos investidores, de 6 centavos de dólar por ação, o que custará à empresa cerca de US$ 46,8 milhões por ano. Foi a segunda vez em um ano em que o conselho concordou em aumentar os dividendos, uma medida que beneficiará a família Ochs-Sulzberger, que controla o Times.

Pandemia afetou publicidade

O senão do trimestre e do ano de 2020 foram as vendas de anúncios. O fechamento e a suspensão de atividades de empresas durante a pandemia afetaram a indústria da mídia, cortando os orçamentos de marketing de muitas que compram anúncios. A receita total de anúncios do The Times recuou 26% em 2020, para US$ 392,4 milhões, com queda de 39% na receita de anúncios impressos, relata a empresa.

No quarto trimestre, a receita de publicidade digital caiu 2% em relação ao ano anterior, para US$ 90,1 milhões. A receita de anúncios impressos caiu 38% no período, para US$ 49,1 milhões. Nos anúncios impressos, o movimento foi acelerado pela pandemia, mas também estava relacionado a tendências mais amplas, explica o Times. No trimestre, 65% da receita total de anúncios veio do digital, em comparação com 54% no ano anterior.

A receita do quarto trimestre foi de US$ 509,4 milhões, um aumento de 0,2% em relação a 2019. O lucro operacional ajustado aumentou 1,4% em relação ao quarto trimestre de 2019, para US$ 97,7 milhões, e 0,9% no ano, para US$ 250,6 milhões.

Ações de diversidade podem levar a mudanças na Folha, diz pesquisador Wellington Geraldo Silva

Jornalista apresentou a tese ‘Folha de S.Paulo e a possibilidade de um jornalismo plural’ na UFRJ
Guilherme Botacini

A ombudsman da Folha, Flavia Lima, no evento de 99 anos do jornal – Keiny Andrade/Folhapress

Duas iniciativas recentes da Folha foram objeto de estudo do jornalista Wellington Geraldo Silva, 53, em sua pesquisa de mestrado: a criação da editoria de Diversidade e a presença de Flávia Lima no cargo de ombudsman —é a primeira mulher negra nessa função.

A dissertação de Silva, intitulada “Folha de S.Paulo e a possibilidade de um jornalismo plural”, foi apresentada e aprovada por unanimidade na última sexta (18) para obtenção do título de mestre em comunicação e cultura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Tomadas pelo jornal em 2019, ambas as ações têm como missão ampliar a perspectiva crítica sobre diversidade na Redação e sugerir mudanças que sejam refletidas na produção diária.

O estudo do jornalista analisou os espaços de opinião e entrevistas, como a seção Entrevista da 2ª.

“São espaços nobres e quase sempre demarcadamente de pessoas brancas, em que o emissor tem a liberdade de expor seu pensamento e onde sua visibilidade está mais presente, com fotos e nomes expostos no jornal”, afirmou Silva durante a defesa.

Para a pesquisa, ele entrevistou o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, a ombudsman do jornal, Flávia Lima, a primeira editora de Diversidade, Paula Cesarino Costa, e a atual, Alexandra Moraes.

Silva também ouviu colunistas negros do jornal, como Thiago Amparo, e blogueiros negros, como Denise Mota, do blog Preta, preto, pretinhos.

Silva graduou-se em 1990 pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem pós-graduação em marketing e gestão pela UFRJ e hoje é consultor de comunicação empresarial em São Paulo. Entre 2012 e 2014, ele foi secretário de comunicação do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal.

A orientação do trabalho foi do escritor e professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ, Muniz Sodré. A banca recomendou que o texto fosse publicado.​

“Em geral, a mídia brasileira fala pouco de si e de seus problemas, principalmente de um tema incômodo como o racismo. Mas tive uma abertura grande na Folha”, diz Silva.

Foi a partir da conexão entre a análise crítica do presente e a presença e silenciamento do negro na imprensa desde o movimento abolicionista que Silva avaliou possíveis impactos dessas iniciativas.

“Jornalistas negros sempre foram colocados em lugares de pouca visibilidade e muito perigo na imprensa brasileira, como a reportagem de polícia”, afirmou, citando o caso de Tim Lopes, jornalista da TV Globo morto enquanto fazia reportagem sobre traficantes no Rio de Janeiro, em 2002.

Para Silva, ainda é cedo para avaliar impactos estruturais das ações, embora ele já enxergue mudanças no jornalismo praticado pela Redação, ainda que ela seja majoritariamente branca.

Exemplo disso, segundo o pesquisador, foi o destaque dado às cotas raciais e de gênero em candidaturas nas eleições deste ano e a cobertura do Dia da Consciência Negra.

Entre os próximos passos sugeridos pelo pesquisador para o aprofundamento das mudanças, estão a abertura de maior espaço para diversidade no processo de contratação e a rediscussão de questões como as cotas raciais –nos editoriais, o jornal defende as cotas sociais.

“Um jornal precisa ter vários olhares, não pode dar as costas a mais de 50% da população. Não vejo outra maneira de os jornais sobreviverem”, afirma.

Cultura do cancelamento levará à radicalização, diz jornalista Bari Weiss que se demitiu do NYT

Para Bari Weiss, geração de fanáticos em Redações impede que imprensa retrate a verdade
Fábio Zanini

Bari Weiss, photographed in New York City. Trench coat by Max Mara; dress by Valentino; shoes by Manolo Blahnik.PHOTOGRAPH BY MARTIN SCHOELLER; STYLED BY NICOLE CHAPOTEAU.

SÃO PAULO – Para a jornalista Bari Weiss, 36, veículos tradicionais de imprensa como o New York Times fazem mais realismo socialista do que retratam o mundo como ele é.

A referência à escola artística do período soviético pode parecer exagerada, mas é própria do estilo combativo de Weiss, que causou barulho em julho deste ano ao publicar uma carta de renúncia de seu emprego como articulista do NYT.

No texto, endereçado ao publisher, A.G. Sulzberger, ela acusa o jornal de ser editado com base no Twitter e menciona um macartismo de sinal invertido, referência à caça aos comunistas nos anos 1950.

Crítica a movimentos como Black Lives Matter, ela havia sido contratada em 2017 pelo jornal, bastião da esquerda progressista americana, para ampliar o espectro ideológico de vozes oferecidas aos leitores.

Mas disse ter percebido que isso seria impossível depois da demissão do editor de Opinião do NYT, James Bennet, após pressão da Redação, sobretudo pessoas mais jovens. A seção havia publicado um artigo do senador Tom Cotton, em que pedia a ação de tropas federais contra manifestações violentas contra o racismo.

Desde que deixou o jornal, Weiss tem se dedicado a palestras e a escrever um livro. Judia e com visões pró-Israel, ela participou no mês passado da conferência anual da Conib (Confederação Israelita do Brasil).

Morando em Los Angeles, diz que tem aproveitado o isolamento da pandemia para também aperfeiçoar seus dotes culinários para o noivo, repórter do jornal que ela deixou.

Em sua carta de demissão, a sra. fala que o Twitter tornou-se o editor do NYT. A mídia capitulou às novas formas de comunicação? Antes da internet, o chefe era o anunciante. Esse modelo se desintegrou. Agora é o assinante, o leitor, e os que são estridentes em lugares como o Twitter têm influência desproporcional. O público do NYT é formado por liberais ou democratas, mais de 90%. O incentivo passa a ser dar aos leitores o que eles querem. Toda pressão empurra para publicar mais um artigo sobre como Trump é um monstro ou um palhaço. Há um desincentivo para contar verdades inconvenientes contra noções pré-concebidas. Cada vez mais, o NYT e outros veículos mostram uma pequena faixa do país, um mundo como os editores ou os leitores gostariam que fosse. É mais realismo socialista do que relatar as notícias.

Quando o NYT a contratou, a razão foi tornar o jornal mais diverso. Acha que era um desejo genuíno? As pessoas que dirigem o NYT sentiram, após a eleição de Trump, que haviam errado numa grande história. Você pode me chamar de ingênua, mas acho que eram genuínas no desejo de expor seus leitores a um espectro mais amplo. O problema é que muitas das pessoas mais jovens que contrataram têm uma visão diferente. Entraram no jornalismo para advogar coisas, estar do lado certo da história. Era inevitável que isso fosse resultar em algum tipo de conflito.

É algo geracional? Em grande medida, sim. Essas pessoas jovens, inteligentes, estudaram nas faculdades mais respeitadas do país. Mas essas faculdades são o ponto de origem desta nova ideologia. E as pessoas levam suas ideias para empregos em editoras, museus, jornais. Em vez de essas instituições transformarem os jovens, são os jovens que as transformam. Esse pequeno grupo fanático e moralmente justo maneja as mídias sociais e faz acusações de intolerância com total descaso. Aterroriza os que acreditam nos métodos tradicionais.

Universidades de esquerda sempre existiram. O que mudou agora? É a internet? Se eu quero ir à mídia social e ganhar pontos com meus amigos, é muito fácil, não leva dois segundos e não custa nada. Funciona quase como um movimento religioso. É capaz de, como muitas religiões em seus estágios iniciais, queimar muita coisa para conseguir o que quer. Essas ideias, tenham o nome que tiverem —política identitária, teoria racial crítica, justiça social— estavam contidas em departamentos periféricos de universidades. Mas como disse Andrew Sullivan [escritor britânico], todos nós vivemos num campus agora. Estamos vivendo no mundo dos departamentos de estudos de gênero.

O que a imprensa deveria fazer? A primeira coisa é empregar pessoas sem diploma universitário, que venham de lugares fora de Califórnia e Nova York. Pessoas com diferentes perspectivas do mundo, que não acham loucura ter eleitores de Trump em suas famílias. Há uma enorme abertura para esse tipo de jornalismo, mas não estou certa de que vai acontecer na imprensa tradicional. Pode ocorrer em newsletters mais independentes, podcasts etc, ou em novas instituições.

A sra. critica muito a mídia liberal, mas a conservadora não faz a mesma coisa? Claro. Conheço gente que olha para Fox News, Breibart ou OAN [veículos conservadores] como principal fonte de notícias, assim como conheço gente que lê o NYT ou vê a MSNBC [órgãos progressistas]. Eles vivem em diferentes universos epistemológicos. Talvez seja nosso futuro. Espero que não, porque não sei como uma democracia pode sobreviver se nós temos diferentes ideias sobre fatos básicos. Mas ainda tenho muita esperança na grande maioria que fica entre Rachel Maddow [apresentadora de esquerda] e Tucker Carlson [âncora conservador].

A demissão de James Bennet como editor de Opinião do NYT é a vitória do neomacartismo que a sra. aponta? Há centenas de exemplos. Uma diretora de escola em Vermont foi demitida porque disse que vidas negras importam, mas que não apoiava a organização Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]. Os pecados que levam as pessoas a serem canceladas são ideias de senso comum, como de que há diferenças entre homens e mulheres. Dizer isso faz de você transfóbico?

cultura do cancelamento é a grande ameaça hoje para o debate de ideias? Há duas grandes ameaças. Uma é que nós estamos vivendo em um mundo pós-moderno e da pós-verdade, no qual Trump é um enorme exemplo. Mas também acho que esse estreitamento do que é aceitável no debate público não vai fazer o que seus defensores desejam. O que eles esperam é que o progresso reine, a justiça social vença e todos os que já tiveram um pensamento intolerante em suas vidas sejam transformados. O que na verdade isso vai fazer é radicalizar as pessoas.

É possível vencer essa cultura? Claro que é. Diga: foda-se. Desculpe, não é para dizer isso. Diga que há coisas mais importantes do que ser convidado para a festa certa, ou conseguir uma promoção, ou mesmo manter o emprego. Essas coisas são não abandonar amigos à própria sorte, contar a verdade, lutar pelo espírito do liberalismo, ter tolerância à diferença, generosidade.

A sra. se sente cancelada? Não. Com certeza houve uma tentativa de me cancelar. Tenho pessoas que eu considerava amigas e me deixaram. Eu poderia ter ficado no NYT e tornar-me uma versão pela metade de quem eu sou. Minha decisão de sair foi porque não conseguia exercer o tipo de trabalho que eu queria. Não me importo com o que uma cabala fanática de ideólogos iliberais pensa sobre mim, meu trabalho ou minha vida.

Qual sua opinião sobre movimentos como Black Lives Matter e Me Too? Minha opinião é… [pausa de 5 segundos]. Estou pensando na melhor forma de dizer isso [pausa de mais 7 segundos]. Sou a favor de qualquer movimento que tente expandir a noção do que é possível, que mostre que pessoas foram excluídas do contrato social, que diga que temos de entender uns aos outros. O que acho perigoso em muitos dos atuais movimentos é que dizem algo muito niilista. Basicamente, que todos estamos condenados, ou restritos, ao modo como nascemos, que não há motivo para entender as outras pessoas, que estamos presos num tipo de luta de poder de soma zero de um contra o outro. É medieval dizer que alguns de nós nasceram em algum tipo de pecado original, pelas circunstâncias, ou a cor de nossa pele.

Como a sra. vê a maneira como Trump é retratado pela imprensa? O princípio para muitos é: homem laranja mau. É fácil ceder a isso, porque houve muita coisa ruim. O problema com isso é que desprezamos coisas positivas. Não é porque Trump diz que o céu é azul que eu vou dizer que é preto. Trump conseguiu o maior número de votos de minorias entre todos os candidatos republicanos desde 1960 na última eleição. Todos esses eleitores de minorias eram supremacistas brancos no armário? Ou talvez haja outra razão que os atraiu a Trump?

Alguma coisa vai mudar com Biden? Se você está perguntando se a polarização e o tribalismo vão embora, certamente não. A imprensa aprendeu as lições? Certamente não. A boa notícia é que acredito que haja uma abertura para a maioria. O dentista em Dallas ou o contador em Cleveland que não vivem no Twitter são as pessoas que estou interessada em alcançar. Há muitas coisas em que as pessoas podem concordar, como a falência do sistema de saúde, justiça criminal, salários mínimos, educação, ameaça de big techs e monopólios. Por que não começamos com elas?

A sra. se considera conservadora? Sempre me identifiquei como liberal, mas não sei o que isso significa hoje. Eu me considero centrista. Para ser honesta, não penso mais no que me considero. As definições para as coisas estão mudando muito. Estou concordando com Glenn Greenwald [jornalista de esquerda] em algumas coisas, então quem sabe?


RAIO-X

Bari Weiss, 36
Graduada em jornalismo pela Universidade Columbia, trabalhou nos jornais The Wall Street Journal (2013-17) e The New York Times (2017-2020) e escreveu o livro “How to Fight Anti-Semitism” (2019)

Colunista Suzanne Moore deixa The Guardian após ameaças e acusações de transfobia

Jornalista Suzanne Moore, 62

Após mais de 20 anos como colunista do The Guardian, a jornalista Suzanne Moore, 62, anunciou sua saída do jornal britânico no último domingo (16). O anúncio foi feito por meio de uma rede social e seguido de comentários de seus leitores, alguns inclusive cogitando deixar de apoiar financeiramente a publicação.

Moore é conhecida por seu posicionamento à esquerda e a defesa do feminismo, tema que aparecia muito ​em suas colunas. O episódio que deu início ao mal-estar entre a colunista e o jornal e culminou em sua saída começou meses antes.

No início de março, Moore publicou o texto “Mulheres devem ter o direito de se organizar. Não seremos silenciadas”, em que criticava um episódio no qual a professora da Universidade de Oxford Selina Todd foi “desconvidada” de um evento em razão de divergências de opinião que tem com o transfeminismo, corrente que trata das demandas de mulheres transexuais e travestis. A BBC News falou sobre o caso.

Na coluna, Moore caracterizava o episódio como um silenciamento e dava sua opinião sobre as categorias de sexo e gênero: para ela, o primeiro é algo material, não construído socialmente, ao contrário do segundo.

“Sexo não é um sentimento. Fêmea é uma classificação biológica que se aplica a todas as espécies vivas”, diz o texto. Moore afirma que o sexo é algo que impõe camadas de violências às mulheres, como a sexual, e, portanto, os direitos femininos devem levá-lo em consideração.

O texto despertou críticas nas redes sociais que acusavam a inglesa de transfobia. Entre a própria equipe do The Guardian houve manifestações. Poucos dias após a publicação da coluna, uma carta assinada por 338 funcionários do jornal —entre jornalistas, membros da equipe editorial, comercial e digital— foi enviada à editora-chefe, Katharine Viner, criticando o material.

“A publicação de conteúdo transfóbico interfere em nosso trabalho e deixa nossa reputação como hostil aos direitos trans e aos funcionários trans”, diz um trecho do texto, que o BuzzFeed News publicou na íntegra.

Em resposta à carta coletiva, Moore criticou no The Spectator —uma revista semanal britânica— a postura do Guardian de não apoiá-la e explicou que retomou o tema polêmico em sua coluna seguinte.

“Quero que seja verdade que sexo é uma categoria tão fluida quanto gênero, mas essa não tem sido minha experiência”, disse a jornalista na ocasião.

Desde os episódios, o assunto e as acusações de transfobia seguiram nas redes sociais, mas Moore continuou publicando suas colunas, que nos últimos meses versaram sobre a pandemia, o primeiro ministro Boris Johnson e as eleições norte-americanas.

No domingo (16), quando anunciou sua saída, a inglesa afirmou que foi sua a decisão, e que “os esforços para me calar parecem não ter sido muito bem pensados”.

Colegas jornalistas também questionaram sua saída.

No The Spectator, o editor Alex Massie, ao falar sobre a saída da jornalista, sugeriu que os comentários feitos nas redes sociais têm influenciado mais do que deveriam as decisões editoriais na era digital.

Suzanne Moore chegou a descrever em uma de suas colunas que vinha sofrendo ameaças virtuais. “Eu sei, por experiência própria, as consequências de ser considerada transfóbica por um comitê invisível nas redes sociais. Isso tem se traduzido em ameaças de morte a mim e a minhas filhas (…)”.

BuzzFeed compra o site Huffington Post

Valor da transação não foi revelado. Objetivo é dar mais escala ao conteúdo nas plataformas
O Globo, com agências internacionais

Jonah Peretti, CEO e fundador do BuzzFeed, vai acumular a presidência das companhias combinadas Foto: LUCY NICHOLSON / REUTERS

NOVA YORK – A Verizon Media, uma unidade da operadora de telecom americana Verizon Communications, disse nestaa quinta-feira que vai vender seu site de notícias HuffPost para o BuzzFeed, em um negócio que a tornará acionista minoritárIa da empresa de mídia on-line.

A Verizon Media e o BuzzFeed distribuirão conteúdo entre as plataformas, para explorar oportunidades de monetização e alavancar formatos de anúncios emergentes, disseram as empresas em um comunicado.

– Com a adição do HuffPost, nossa rede de mídia terá mais usuários, gastando muito mais tempo com nosso conteúdo do que qualquer um de nossos colegas –  disse o CEO e fundador da BuzzFeed, Jonah Peretti, que dirigirá a empresa combinada. O BuzzFeed vai liderar a busca por um novo editor-chefe do HuffPost.

Segundo o Wall Street Journal, a  Verizon Media também está fazendo um investimento em dinheiro não divulgado no BuzzFeed, além da transação de ações para o HuffPost, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto.

No  comunicado , as empresas afirmaram ainda que BuzzFeed e HuffPost têm públicos complementares e se beneficiarão da maior escala. Os termos financeiros do negócio não foram divulgados, incluindo a avaliação do HuffPost.

Para Peretti, o acordo com o HuffPost é uma espécie de volta ao lar. Ele estava entre os fundadores do site em 2005 – então chamado de Huffington Post – ao lado de Arianna Huffington e Kenneth Lerer.

– Durante Por vários anos, passei todos os meus momentos no HuffPost e como fazê-lo crescer e como transformá-lo em uma marca líder de mídia na internet -, disse Peretti ao WSJ. – Mas não se trata de nostalgia para mim, é sobre o futuro, a marca e o público.

O presidente-executivo da Verizon Media, Guru Gowrappan, disse que a ideia de uma parceria entre a Verizon e a BuzzFeed surgiu durante uma reunião com Peretti na feira de tecnologia CES em Las Vegas no início deste ano.

As negociações se aceleraram no final do ano, quando a Verizon Media começou a explorar opções para o HuffPost. As duas empresas vêm discutindo os termos do acordo há vários meses.

– Desde o início, eu estava bem claro que o BuzzFeed era o parceiro certo – disse Gowrappan.

Em 2011, a América On Line (AOL) comprou o Huffington Post por US$ 315 milhões. E, em 2015, a Verizon adquiriu a AOL por US$ 4,4 bilhões, assumindo a HuffPost na transação.